CAPÍTULO 32 — O QUE RESTOU
por Sonhado acordado— Onde está meu irmão?
Helena abriu a boca, mas o ar parou na costela antes da resposta. A mão queimada buscou o prontuário de Marina Lopes no assento. Não precisava dele para falar de Daniel. Ainda assim, manteve a pasta sobre as pernas, o símbolo das duas linhas coberto pelo antebraço enfaixado.
Gabriel esperou. A água de seu cabelo pingou no piso encerado e formou três manchas que não saíram do lugar.
— Ele ficou — Helena disse.
— Ficou onde?
— Na locomotiva.
Os olhos de Gabriel percorreram o corredor, como se procurassem alguém que pudesse corrigir o que ouvira.
— Que locomotiva?
Uma enfermeira passou empurrando um carrinho de medicação. O ruído das rodas cobriu o início da resposta de Helena. Ela esperou o carrinho dobrar a esquina.
— A que chegou à estação esta noite.
— Não chegou trem nenhum ali há décadas.
— Eu sei.
Gabriel deixou o capacete sobre uma cadeira. Errou o assento na primeira tentativa; o objeto raspou a borda e caiu. Ele não o recolheu.
— A polícia disse que encontraram o carro. Disse que vocês estavam machucadas. Ninguém falou de… — Passou dois dedos sobre a barba úmida. — Cadê o Daniel? Em qual sala ele está?
— Não está no hospital.
— Então me dá um endereço.
Helena reajustou o prontuário quando a pressão sob a clavícula latejou. A faixa do antebraço ganhou um ponto vermelho.
— Não existe endereço.
— Doutora, eu não dormi. Minha mãe está ligando a cada quatro minutos, a polícia quer saber por que ele entrou naquela estação e você fica falando desse jeito. Se ele caiu em algum lugar, se saiu ferido, se alguém levou ele—
— Daniel não abandonou vocês.
Gabriel se calou.
— Ele fez uma escolha — Helena continuou. — Para que você chegasse vivo a esta manhã. Para que ela chegasse também.
Lívia estava sentada ao lado, com a fotografia encostada na coxa. Quando Gabriel olhou para ela, a menina puxou a manga do casaco até cobrir o curativo malfeito nos dedos.
— Eu chego vivo a todas as manhãs — ele disse. — Faz quinze anos que eu faço isso.
Helena baixou os olhos para o prontuário. Havia respostas que só podiam piorar quando organizadas.
— Para você, sim.
Gabriel soltou uma risada curta, sem humor. Abaixou-se para pegar o capacete, mas permaneceu agachado por um instante, os dedos apoiados na carneira interna.
— Ele bateu a cabeça? Foi isso? Daniel entrou lá, encontrou vocês, houve um acidente e agora estão protegendo ele de alguma coisa?
— Eu vi seu irmão entrar. Vi o que ele aceitou.
— Aceitou o quê?
Helena demorou. A enfermeira que a atendera apareceu na porta da sala de trauma e apontou para o curativo encharcado. Helena indicou um minuto com o dedo.
— Não voltar.
Gabriel se levantou depressa. A cadeira atrás dele recuou com um guincho.
— Não fala isso para mim como se fosse uma decisão normal.
— Não foi.
— E você deixou?
A pergunta encontrou o prontuário antes de Helena. Ela passou o polegar pela borda úmida da capa.
— Eu confirmei que ele entendia o preço.
— Isso não foi o que perguntei.
— Foi o que eu fiz.
Gabriel olhou para os ferimentos dela, não com cuidado dessa vez, mas como se tentasse calcular quanto daquela história poderia ter nascido de febre, sangue ou choque. Depois se voltou para Lívia.
— E você? Quem é você no meio disso?
Lívia levantou a fotografia.
— Lívia Montenegro.
— Montenegro de quem?
Ela ofereceu a imagem. Gabriel não pegou de imediato. Quando o fez, segurou apenas pelas bordas, deixando uma faixa de chuva no papel.
Na fotografia, Daniel sorria de um jeito que Gabriel não se lembrava de ter visto. Estava diante de uma casa que Gabriel não conhecia, com o braço ao redor de uma mulher e a mão pousada no ombro de Lívia. O sol obrigara os três a estreitar os olhos. Daniel usava o relógio de couro no pulso.
Gabriel aproximou a foto do rosto.
— Isso é montagem.
— Não é.
— Meu irmão não tem filha.
— Nesta vida, não.
Ele virou a fotografia. O verso não trazia data, apenas uma mancha de refrigerante e uma palavra cortada pela borda: domingo.
— De onde você tirou isso?
Lívia assoprou uma mecha de cabelo para fora dos olhos. Gabriel reparou no gesto. A atenção dele permaneceu ali tempo demais.
— Da minha casa.
— Qual casa?
— A que não existe mais.
Gabriel devolveu a fotografia, mas Lívia não a recebeu logo. Por um momento, o papel ficou suspenso entre eles.
— Daniel odiava tirar foto — ele disse.
— Eu também.
O homem deixou a imagem sobre o colo dela.
— Não sei o que vocês querem que eu faça com isso.
— Procure — Lívia respondeu. — A polícia vai procurar. Você também. Não vai achar porque ele não pode voltar, mas procura mesmo assim.
— Você fala como se conhecesse meu irmão.
— Conheço.
— De onde?
Ela prendeu a fotografia sob o polegar. O dente torto da mãe permanecia visível junto à dobra.
— Ele é meu pai.
Gabriel não respondeu. Recolheu o capacete e passou a unha pela faixa de couro vazia no próprio pulso.
— Não chama ele assim na frente da minha mãe.
Lívia ergueu o queixo.
— É o que ele é.
— Eu não disse que não é. Disse que não faça isso hoje.
Helena tentou levantar. A enfermeira entrou antes que ela conseguisse e destravou a cadeira de rodas com o pé.
— Acabou o minuto.
Gabriel se afastou para deixá-la passar. Quando Helena chegou ao lado dele, falou baixo:
— Daniel não escolheu desaparecer porque estava cansado da vida que tinha. Ele escolheu permanecer porque era a única forma de manter duas pessoas aqui.
— Uma delas sou eu.
— Sim.
Ele apertou o capacete contra o quadril.
— Então por que eu não lembro de morrer?
Helena não encontrou resposta que lhe pertencesse.
Ao ser conduzida de volta à sala de trauma, olhou por cima do ombro. Gabriel continuava de pé diante de Lívia. A menina segurava a fotografia. Ele segurava o telefone, onde o nome do irmão permanecia entre as chamadas recentes.
Nenhum dos dois sabia o que fazer com a prova que tinha.
Durante os meses seguintes, a fotografia passou por mãos com luvas, scanners e envelopes numerados. Voltou a Lívia dentro de uma capa plástica, com um laudo que confirmava papel, tinta e desgaste, mas não a família registrada na imagem.
Seis anos depois, a capa ainda estalava quando ela a abria.
Lívia a colocou sobre a mesa da cozinha de Helena e alisou o plástico com a lateral da mão. Tinha vinte anos. O cabelo agora chegava abaixo dos ombros, embora continuasse soprando a franja em vez de prendê-la; uma cicatriz fina cortava o queixo, e o curativo dos dedos fora substituído por duas linhas claras na pele.
Ao lado da fotografia estavam sua carteira de identidade e uma carta dobrada.
Na identidade, o sobrenome Montenegro existia. A data de nascimento também. O campo filiação trazia um traço. No verso, abaixo do número emitido quando ela já tinha quinze anos, aparecia a anotação REGISTRO TARDIO POR DETERMINAÇÃO JUDICIAL.
Não havia nada antes daquela manhã no hospital. Nenhuma matrícula, vacina, endereço antigo ou fotografia de escola. Sua vida oficial começava às 5h47.
Helena entrou na cozinha carregando duas canecas. Caminhava sem mancar, mas protegia o lado esquerdo ao apoiar uma delas. A cicatriz sob a clavícula desaparecia sob a gola; na palma, a queimadura tornara a pele mais lisa e clara.
— Você ainda não arrumou a mochila.
— Tem uma foto e uma garrafa d’água. Não é uma expedição.
— Vai chover.
— A estação tem metade de um telhado. Estatisticamente, alguma coisa fica seca.
Helena deixou uma caneca diante dela. Não usava jaleco. O crachá preso à bolsa trazia o nome de uma organização de atendimento a famílias de pacientes, não o do Hospital Municipal. Abaixo do nome, onde antes estivera escrito MÉDICA, havia apenas ORIENTAÇÃO DE DOCUMENTOS.
Lívia pegou a carta.
— Chegou hoje?
— Ontem. A triagem abriu, leu e fechou de novo.
O remetente era César Moraes. O carimbo do complexo penitenciário atravessava o canto superior. A pena ainda tinha anos pela frente; outros processos haviam alcançado crimes que ficaram de fora da primeira confissão. Dentro do envelope havia uma folha pautada, arrancada de um caderno.
No alto, César escrevera: COISAS QUE AINDA SEI SOBRE MEU IRMÃO.
Abaixo, sete linhas. Gostava de goiabada. Tinha uma cicatriz no joelho esquerdo. Mentia mal para a mãe. Assobiava quando limpava a arma. A quinta fora riscada e reescrita três vezes. Na oitava, havia apenas: O rosto continua sem voltar.
Lívia dobrou a folha.
— Ele quer resposta?
— Não pediu.
— Isso nunca impediu ninguém de querer.
Helena bebeu um pouco de café. A mão direita ainda não fechava por completo em torno da alça.
— Vou mandar cópia da decisão do último recurso. Foi o que ele pediu na carta anterior.
Sobre a geladeira, um ímã segurava um recorte antigo: JUSTIÇA CONCEDE GUARDA PROVISÓRIA DE MENOR SEM REGISTRO. A guarda deixara de ser provisória depois de dois anos de entrevistas, visitas domiciliares e audiências. Quando o documento definitivo saiu, faltavam oito meses para Lívia completar dezoito.
Helena não fizera festa. Comprara uma cama que não rangia e acrescentara o nome da menina ao contrato de aluguel.
O telefone de Lívia vibrou.
Uma mensagem apareceu sob um nome e sobrenome que ela nunca salvara como Mãe.
ENCONTREI OUTRA FOTO DO DANIEL. NÃO TEM VOCÊ. QUER QUE EU MANDE?
Lívia leu, bloqueou a tela e guardou o aparelho.
— Ela? — Helena perguntou.
— Achou outra foto.
— Você vai responder?
— Depois.
A mulher da fotografia aceitara encontrá-la três vezes ao longo dos anos. Na primeira, levara um policial à cafeteria. Na segunda, perguntara detalhes sobre Daniel até Lívia abandonar a mesa. Na terceira, trouxera a bacia azul rachada e pedira desculpas por não saber por que aquilo parecia importante.
Nunca a chamara de filha.
Lívia recolheu a identidade, a fotografia e a carta. Deixou a caneca cheia.
— O conselho respondeu? — perguntou.
Helena olhou para a pasta fina no outro lado da mesa. O prontuário original de Marina já não estava ali; permanecia lacrado como prova. Restara uma cópia com o símbolo das duas linhas reproduzido em preto e branco, incapaz de conservar o frio que tivera no trem.
— Mantiveram a cassação.
— Você já sabia.
— Agora está encerrado.
Não havia alívio na forma como Helena alinhou a pasta com a borda da mesa. A investigação concluíra que ela autorizara a transferência, ocultara a pressão administrativa e alterara registros. O Deputado Álvaro Nunes fora citado em dezenas de páginas e absolvido em poucas. O nome de Marina permanecera em todas.
— Eu escolhi — Helena disse, mais para a pasta do que para Lívia. — A decisão não muda porque havia alguém dando ordens.
Lívia colocou a mochila no ombro.
— Vai continuar trabalhando amanhã?
— Às oito.
— Então não acabou tudo.
Helena fechou a pasta.
— Não foi isso que eu disse.
A buzina soou na rua.
Gabriel esperava dentro de uma caminhonete de cabine dupla, com o logotipo de uma construtora na porta. Aos quarenta anos, carregava fios brancos na barba e uma marca permanente de capacete na testa. Duas cadeirinhas infantis ocupavam o banco traseiro; ele as removera apenas o suficiente para que Lívia acomodasse a mochila entre ambas.
— Se chover dentro, não reclama — disse quando ela entrou. — A borracha da sua porta está ruim.
— Você trabalha com construção há vinte anos e não consegue consertar uma borracha.
— Eu construo prédio. Porta de carro é outra categoria de tragédia.
Helena apareceu no portão e esperou até Lívia prender o cinto. Não fez recomendação. Apenas bateu duas vezes no teto da caminhonete.
Gabriel arrancou.
No caminho, falou de um prazo atrasado, da filha mais nova que se recusava a dormir sem uma luz acesa e de Vera, que ainda guardava o quarto de Daniel como ele deixara. A mãe envelhecera seis anos procurando uma resposta possível. Parara de telefonar para a polícia toda semana. Não parara de carregar o número do protocolo na bolsa.
— Ela perguntou se você vai domingo — Gabriel disse.
— Vou.
— Leva aquela sobremesa que ela gosta.
— Você não sabe fazer?
— Sei comprar.
Lívia encostou a testa na janela. A cidade passou inteira do lado correto do vidro.
Gabriel nunca a chamava de sobrinha. Apresentava-a pelo nome, abria espaço nas reuniões de família e corrigia quem perguntava de onde ela viera. Às vezes, quando a filha mais velha chamava Lívia de tia, ele demorava um segundo antes de continuar a conversa.
Não era Daniel. Nunca tentou ser.
Às 23h38, a caminhonete parou diante da cerca da Estação de Santa Augusta.
Uma placa nova anunciava a demolição do prédio para a manhã seguinte. Fora essa a razão para Lívia escolher aquela noite. Quando as máquinas chegassem, o telhado incompleto e a antiga bilheteria deixariam de existir. Ela não sabia se o trem precisava da estação. Não queria descobrir depois.
Gabriel desligou o motor.
— Eu vou junto.
— Não.
— Não foi pergunta.
Lívia abriu a porta. A borracha soltou uma gota grossa sobre seu joelho.
— Se você entrar e ele não aparecer, vai procurar atrás de cada parede. Se aparecer, você vai querer abrir a porta.
— E você não?
Ela desceu e puxou o capuz.
— Eu sei o que acontece se abrir.
Gabriel apoiou os braços no volante. O relógio digital do painel marcava 23h40.
— Vinte minutos — disse. — À meia-noite e um eu entro.
— À meia-noite e cinco.
— Dois.
— Três.
Ele assentiu. Antes que ela fechasse a porta, chamou:
— Lívia.
Ela esperou.
— Se vir ele… — Gabriel passou o polegar pela marca clara no pulso. Continuava sem usar relógio. — Não inventa uma frase bonita em meu nome.
— Eu não saberia.
— Diz só que a mãe ainda espera.
Lívia fechou a porta.
A plataforma estava molhada como na primeira manhã, mas agora a chuva vinha de lado, empurrada por vento frio. O telhado de zinco terminava no mesmo ponto. A lâmpada precária acima da bilheteria acendeu quando ela passou e zumbiu sem se apagar. Os trilhos desapareciam entre capim e pedras escuras.
Lívia deixou a mochila no banco apodrecido. Tirou a fotografia da capa plástica e a manteve sob o casaco. A identidade ficou na carteira.
Às 23h58, nada aconteceu.
Um carro passou na rodovia. A luz atravessou os vãos da parede e seguiu adiante. Na caminhonete, Gabriel permaneceu imóvel ao volante.
Às 23h59, o vento deixou de empurrar a chuva.
As gotas continuaram caindo, mas o som diminuiu até caber apenas sob o telhado. O relógio acima da bilheteria avançou mais um segundo. Depois outro. No terceiro, o ponteiro parou.
Lívia se aproximou da faixa amarela.
Os trilhos brilharam onde a ferrugem deveria estar.
A locomotiva surgiu na curva que não existia.
Não rompeu a noite. Ocupou-a aos poucos: primeiro a luz frontal, depois o metal escuro da caldeira, as rodas antigas e o vapor baixo correndo rente às pedras. O som chegou por último, grave o bastante para vibrar nos parafusos da cobertura.
O trem reduziu a velocidade diante da plataforma.
Nenhuma porta abriu.
Os vagões passaram devagar, janelas iluminadas revelando bancos vazios, corredores estreitos e, por um instante, um homem desconhecido dormindo com a cabeça apoiada no vidro. Lívia não se moveu até a locomotiva parar diante dela.
Daniel estava na cabine.
A máscara de metal escuro cobria a testa, o nariz e parte das faces. Uma linha de cobre descia da têmpora até o pescoço; aberturas estreitas deixavam ver os olhos. A boca permanecia livre. Atrás dele, raízes metálicas prendiam-se ao assento, e o manual descansava no compartimento aberto ao alcance de sua mão.
No piso, junto à chapa da caldeira, a lanterna e a chave de fenda continuavam onde haviam caído.
O relógio de Gabriel permanecia no pulso esquerdo.
Lívia chegou perto do vidro.
Daniel olhou para a fotografia sob o casaco antes de olhar para o rosto dela. A mão direita começou a conferir uma alavanca, parou no meio e retornou ao mesmo ponto — a hesitação pequena de quem sempre verificava duas vezes aquilo que já sabia.
Ela sorriu sem mostrar os dentes.
— Demorou.
A boca dele se moveu. O vidro reteve o som, mas Lívia reconheceu a resposta.
Eu sei.
Ela retirou a fotografia. Encostou-a no vidro por um instante, mostrando os três rostos. Daniel inclinou a cabeça para o canto superior, onde o plástico antigo marcara uma dobra.
— Ainda está inteira — ela disse.
Daniel ergueu a mão.
Lívia colocou a sua do outro lado.
O vidro permaneceu entre as duas palmas, frio do lado da plataforma, quente do lado da cabine. Não cedeu. Nenhuma lembrança atravessou. Não houve outro futuro sobreposto, nem cinco segundos roubados ao relógio.
Daniel virou o pulso o suficiente para mostrar o relógio de Gabriel. O ponteiro avançava.
Lívia olhou para a caminhonete além da cerca. Gabriel estava fora dela agora, mas não passara pelo portão. Mantinha as mãos nos bolsos e a distância que prometera não manter.
— Ele está vivo — Lívia falou. — Tem duas filhas. A mãe ainda espera.
Daniel fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, a mão continuava alinhada à dela.
— E eu também — Lívia acrescentou.
A linha de cobre na máscara recebeu um brilho breve. Daniel tocou o vidro com a ponta do polegar, exatamente sobre a cicatriz clara no indicador dela.
As rodas produziram o primeiro estalo de partida.
Lívia não retirou a mão. Caminhou ao lado da locomotiva quando ela começou a avançar, dois passos, três, até o fim da plataforma obrigá-la a parar. A palma de Daniel deslizou para fora da sua.
A cabine passou.
Num dos vagões, uma mulher despertou sozinha sob uma luz amarela. Havia um envelope no banco diante dela. Ao tocá-lo, encontrou o próprio nome.
Os alto-falantes acenderam ao longo da composição. A voz que saiu deles ainda era a de Daniel: baixa, contida, sem a solenidade do homem que ocupara o assento antes dele.
— Passageiro confirmado. Guarde bem suas lembranças. Quando esta viagem terminar, elas serão tudo o que restará de você.
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