CAPÍTULO 27 — CINCO E QUARENTA E SETE
por Sonhado acordadoO homem tentou.
A boca formou uma sílaba que não pertencia a nenhum nome. Ele a reteve entre os dentes, corrigiu o som, falhou. O botão de madrepérola permanecia fechado em sua mão. A fotografia, apoiada contra o fole afundado, subia menos de um centímetro a cada respiração humana.
A locomotiva não respondeu.
Daniel ainda mantinha o peso sobre a alavanca. A haste parara de puxar havia algum tempo, mas ele não soltava. O relógio de Gabriel tocava o bronze sempre que seus dedos mudavam de posição. Um contato leve. Regular. A única coisa dentro da cabine que continuava marcando alguma medida compreensível.
O Condutor abriu o punho.
O disco brilhava sob uma película de fuligem. A borda queimada parecia mais escura agora que a luz branca do manual diminuíra. Ele o colocou sobre a fotografia, junto ao peito da menina, e esperou.
Nada se moveu na imagem.
— Ela perdeu isto naquele dia — disse.
A frase raspou os lábios partidos. A metade restante da máscara cobria o lado direito do rosto e entrava sob a têmpora por dois cabos finos. Helena os observava de perto, sem tocá-los. A mão que queimara no metal estava fechada contra o casaco.
— Você guardou — Lívia disse.
O homem olhou o bolso vazio entre as placas.
— Não sabia.
— Mas guardou.
Ele empurrou o botão na direção da criança da fotografia. O objeto raspou o papel e parou antes de cobrir o rosto.
— Não devolve.
Lívia recolheu os dedos enfaixados para o colo. O manual ainda queimava pelas margens, embora o branco já tivesse enfraquecido até uma linha fina. Por um instante, seu reflexo apareceu no vidro da cabine com o casaco incompleto, desfeito no ombro; quando ela virou a cabeça, a roupa estava inteira.
— Não — disse. — Não devolve.
O homem baixou os olhos.
Uma raiz de ferro soltou-se do assento sem estalo, perdeu a curva e repousou no piso. Ainda ligada ao tornozelo dele, pulsava vermelho sob uma braçadeira. Helena se agachou.
— Não puxe. Ainda há tecido preso dentro.
— Isso sou eu? — ele perguntou.
— Uma parte.
A resposta ficou entre os quatro.
O homem voltou à fotografia. Levou-a mais perto do olho descoberto, tão perto que o papel roçou os fios brancos da sobrancelha. Daniel viu a pupila percorrer cada rosto, deter-se na boca da esposa, descer à mão dela sobre o banco.
— Ela disse meu nome.
— Antes do acidente? — perguntou Helena.
Ele demorou, a fotografia presa entre os dedos.
— Antes do barulho.
Pequenos toques correram pelas paredes. Parafusos se desapertavam sozinhos e paravam no último fio da rosca.
Daniel soltou uma das mãos da alavanca.
Ela permaneceu no lugar.
— Você lembra onde aconteceu?
O Condutor virou o rosto para ele.
— Chuva. Uma curva. A janela tremendo.
— Não é isso.
Helena ergueu os olhos. Lívia também.
Daniel passou o polegar pela coroa do relógio de Gabriel. O ponteiro continuava preso na mesma marca. Ele tentou organizar a pergunta antes de dizer, mas as palavras não encontraram ordem melhor.
— Onde você acha que eles estão agora?
O homem abriu a boca.
A cabine deu outro daqueles pequenos toques. Três parafusos caíram do teto e ficaram suspensos a poucos centímetros do piso, sem concluir a queda.
— Eu alcancei… — começou ele, mas o olho voltou à fotografia.
— Você viu seus filhos depois daquela noite? — Daniel perguntou.
O Condutor apertou o papel. A dobra atravessou o céu cinzento acima da família.
— Havia portas.
— Eles estavam atrás de alguma?
— Havia… vozes.
— As vozes eram deles?
O homem tentou responder depressa, mas a respiração falhou. O ar entrou por entre os dentes e encontrou líquido em algum ponto da garganta. Ele tossiu sobre o próprio peito. Helena segurou seu ombro para impedir que as conexões rasgassem.
— Chega — disse ela.
Daniel recuou a mão da alavanca. A haste não caiu.
O Condutor levantou dois dedos. Helena se calou. O gesto custou mais que a fala; a mangueira presa ao antebraço afundou na pele, e uma gota de sangue contornou a braçadeira.
— Não eram — disse.
Daniel esperou.
O homem olhava para a menina na fotografia.
— Eu sabia que não eram. Mesmo sem… sem saber quem procurava. Abri porque podiam ser. Depois outra. Outra.
Uma porca flutuou até a janela e se duplicou. As cópias seguiram para lados opostos, projetando sombras diferentes.
— A primeira linha acabou — ele continuou. — Depois a segunda. Eu achava que faltava uma curva. Sempre uma curva.
Lívia fechou a capa do manual pela metade. As páginas resistiram, inchadas pelo calor branco.
— Não faltava.
O homem levantou o rosto.
Ela não olhou para ele. Observava as duas porcas no vidro, uma enferrujada, outra nova.
— Às vezes não tem depois — disse. — Eu vi.
Daniel reconheceu a postura do pé dela antes de olhar. A ponta virada para fora, o calcanhar sem tocar direito o piso. A mesma posição da criança na cozinha que não existira. A mesma da adolescente que quase se desfizera na plataforma.
Lívia encostou o manual no chão.
— Uma coisa pode acabar e ainda deixar alguém aqui. Não quer dizer que dá para voltar nela.
A última frase saiu mais baixa. Ela esfregou a gaze do indicador com o polegar, tentando retirar uma mancha que estava dentro do tecido.
O Condutor a observou.
— Você ficou.
Lívia assentiu uma vez.
— Por enquanto.
— Sem a sua linha.
Ela olhou para Daniel, rápido demais para que ele fingisse não ver.
— Sem ela.
O homem voltou-se para a fotografia. A família continuava diante da locomotiva original, presa no instante anterior à primeira viagem. A esposa olhava para a cabine. Os filhos aguardavam junto a ela. Nenhuma porta se abrira atrás deles. Nenhuma possibilidade surgira nas bordas do papel.
Ele colocou o botão sobre o peito da filha.
— Ficou comigo.
— O botão ficou — Lívia respondeu.
O olho exposto se fechou.
A distinção atravessou seu rosto devagar. Primeiro nos músculos ao redor da boca, que deixaram de formar sílabas. Depois na mão sobre a fotografia, já sem procurar movimento. Por fim no ombro ligado aos cabos, que desceu contra o encosto.
Helena manteve dois dedos próximos ao pescoço dele, sem encostar.
— Continue respirando.
— Para quê?
Ela abriu a mão queimada. A bolha no centro da palma estava translúcida, cercada por pele vermelha.
— Porque ainda está respirando.
O homem fitou a ferida. Helena fechou a mão outra vez.
— Você não pode tirar isso de mim — ele disse.
— Não.
— Nem colocar de volta.
Helena olhou para o prontuário dentro da mala. O couro permanecia úmido de frio, protegido sob a camisa manchada de graxa.
— Não.
A negativa não veio clínica. Não veio acompanhada de instrução. Ela apenas ficou ali.
O Condutor respirou três vezes. Na quarta, o fole tentou acompanhar e produziu um rangido. Ele pousou a fotografia no colo, alinhou a borda com a costura do casaco e colocou o botão no centro.
— Eu deixei a máquina usar a procura quando a procura já não tinha lugar para chegar.
As palavras saíram aos pedaços, com longos intervalos. Ele não as repetiu.
Daniel olhou para a alavanca imóvel.
— Como para?
O homem passou a mão pela raiz metálica solta.
— Eu paro.
— E o trem?
Nenhuma resposta.
— O que acontece com o trem?
O Condutor tocou a borda da metade de máscara ainda presa. O cabo junto à têmpora pulsou sob o dedo.
— Não faça isso — Helena disse.
Ele desviou a mão da máscara e procurou algo ao lado do assento. Os dedos entraram entre duas placas, tatearam uma abertura invisível e retiraram uma pequena chave de ferro. O corpo dela tinha três dentes de tamanhos diferentes e uma argola escurecida pelo uso.
Daniel estendeu a mão, mas o homem não lhe entregou.
Colocou a chave sobre o painel.
— Isto soltava freios — disse. — Antes.
— E agora?
— Agora solta a mim.
Daniel não tocou no objeto.
O relógio da cabine começou a funcionar.
No terceiro clique, os quatro olharam para o mostrador acima da janela central.
Os ponteiros estavam em 3h41.
O dos minutos avançou uma marca.
Depois outra.
O ponteiro das horas acompanhou aos saltos. 3h43. 3h46. 3h52.
Daniel pegou a chave.
Estava fria.
— Onde?
O Condutor indicou a base do assento. Entre as raízes frouxas havia uma fechadura estreita, parcialmente coberta por uma placa de cobre. Helena afastou a placa usando a gaze, revelando marcas antigas em torno do buraco.
— Você já tentou — ela disse.
O homem observou os riscos.
— Muitas vezes.
— E por que não funcionou?
Ele olhou a fotografia.
— Eu queria abrir e continuar sentado.
O relógio marcou 4h03.
Lívia se aproximou da fechadura, mas parou antes das raízes. Seu reflexo dividiu-se na placa polida: numa imagem ela segurava o manual; na outra, suas mãos estavam vazias. As duas versões moveram a boca ao mesmo tempo.
— Se ele sair, quem segura isso?
O Condutor não respondeu.
Daniel girou a chave entre os dedos. Três dentes. Um curto, um quebrado na ponta, um comprido demais para a fechadura.
— Quem segura o trem? — repetiu.
— Ninguém — disse o homem.
4h17.
Um vinco atravessou o teto, dobrando a chapa para dentro. Do outro lado apareceu outro teto, iluminado por lâmpadas verdes. Quando a chapa retornou, os rebites ocupavam posições diferentes.
Daniel olhou para a porta por onde haviam entrado.
Ela estava no mesmo lugar. A maçaneta, não. Tinha subido quase um metro e agora tremia perto do alto do batente.
— Temos quanto tempo? — Helena perguntou.
O Condutor acompanhou o relógio.
— Até a hora.
— Cinco e quarenta e sete.
O botão de madrepérola deslizou sobre a fotografia quando ele confirmou com a cabeça.
— Depois?
— Não conduzo o depois.
A frase ainda tinha a forma de uma resposta antiga, mas a voz não. O homem pareceu perceber. Passou a língua nos lábios partidos e tentou de novo.
— Não sei.
4h31.
Helena puxou a mala para junto de Lívia e fechou os dois fechos. O frio do prontuário atravessou o couro e deixou suas impressões digitais brancas na tampa.
— Daniel, a chave.
Ele se agachou diante do assento. A fechadura ficava atrás de dois tubos finos que entravam na perna do homem. Daniel tentou afastá-los; o da esquerda enrijeceu.
— Não cabe.
— Quebre o dente maior — disse o Condutor.
Daniel examinou a chave.
— Então não abre outra vez.
— Não preciso de outra vez.
Daniel encostou o dente mais longo na lateral do assento. Hesitou. O relógio saltou para 4h39.
— Você não sabe para onde vai.
— Sei onde não vou.
— Não é a mesma coisa.
— Foi o bastante para os outros saírem daqui?
César atravessando a plataforma com os óculos da testemunha guardados no bolso. Helena dobrando o próprio bilhete até apagar as palavras. Lívia arrancando da unha o fio de uma lembrança para fechar a possibilidade que matava Helena. Daniel viu cada gesto sem conseguir colocá-los na ordem da viagem.
O Condutor estendeu a mão.
Daniel entregou a chave.
O homem apoiou o dente maior contra a braçadeira do assento. Não tinha força para quebrá-lo. Tentou uma vez; o ferro escapou e cortou sua palma. Helena segurou o pulso dele antes da segunda tentativa.
— Não desse ângulo.
Ela girou a chave, posicionou a base sobre o vinco da placa e a devolveu à mão dele. Não fez o movimento por ele.
O Condutor pressionou.
O dente se partiu.
O fragmento atravessou o piso e apareceu por um instante em três cabines diferentes antes de desaparecer em todas.
4h48.
Daniel recebeu a chave encurtada e a encaixou na fechadura.
— Para que lado?
— O que volta — disse o homem.
Daniel esperou.
O Condutor olhou para as próprias mãos.
— Esquerda.
A chave resistiu no primeiro quarto de volta. Helena apoiou a mão boa no encosto para estabilizar os tubos. Lívia segurou o manual contra o peito, o queixo quase tocando a capa.
Daniel girou mais.
Trincos recuaram dentro das paredes. Cada som retirava algo da cabine: primeiro o eco, depois a pressão nos ouvidos, depois o cheiro de óleo. Quando o último abriu, o calor perdeu direção.
As raízes se soltaram.
Não arrancaram carne. Recuaram dos encaixes em silêncio, desfazendo-se em filamentos de cobre que voltavam para o piso. As braçadeiras nos tornozelos abriram. Os tubos da perna esvaziaram e tombaram. O cabo do antebraço caiu como uma corda sem uso.
O Condutor inclinou-se para a frente.
Helena o amparou sob o braço. O peso dele surpreendeu os dois; Daniel abandonou a chave e segurou o outro lado. O homem tentou firmar os pés, mas as pernas não lembravam a distância até o chão. Os joelhos dobraram. Lívia empurrou o assento para trás para lhes dar espaço.
A metade da máscara ainda o reteve.
Os dois cabos da têmpora esticaram, finos e brilhantes.
Helena procurou a junção.
— Esta parte não abriu.
O homem tocou o ferro com a mão ensanguentada.
— Último freio.
— Se romper, pode haver hemorragia.
— Já houve.
— Não agora.
O relógio mostrou 5h02.
O ponteiro dos segundos cortava o mostrador em saltos. A cada reaparição, as janelas exibiam uma paisagem nova: mata sob chuva; plataforma vazia; a cozinha antiga; Santa Augusta tomada por sol.
Daniel colocou o homem de volta no assento, sem encostá-lo ao encosto.
— Tem outra trava.
— Não.
— Você acabou de dizer que tem.
— Não é trava da máquina.
O Condutor ergueu a fotografia. A metade presa da máscara rangeu quando ele olhou para os filhos.
— Eu mantive isto fechado.
Enfiou a unha sob a borda do metal junto à bochecha. Helena tentou impedir, mas ele afastou a mão dela com pouca força e uma decisão que não precisou repetir.
— Espere — Daniel disse.
O homem parou.
Daniel não sabia o que pedir depois da palavra. Mais tempo seria a mesma pergunta que o mantivera na estação por quinze anos. Olhou para o botão sobre a fotografia e o empurrou de volta para o centro quando a inclinação o fez deslizar.
— Você devia levar isso.
— Para onde?
Daniel ficou sem resposta.
O homem observou seu relógio.
— Seu irmão tinha nome.
A mão de Daniel cobriu o mostrador.
— Tem.
— Guarde o que veio depois dele.
— Não entendi.
O Condutor respirou fundo. A metade da máscara levantou com a têmpora e tornou a baixar.
— Não entregue tudo que ficou só porque ele não ficou.
Daniel olhou para Lívia.
Ela desviou primeiro, apertando o manual com os braços. O abraço perdido na plataforma não estava no corpo dela. Ainda assim, a ponta do pé se moveu na direção dele e parou no meio.
5h12.
O Condutor segurou o botão entre o polegar e o indicador. Colocou-o no bolso costurado do casaco. A fotografia permaneceu em sua mão.
— Posso ficar com esta?
Lívia respondeu antes dos outros.
— É sua.
Ele assentiu. Dobrou a fotografia uma única vez, com os rostos para dentro, e a guardou junto ao botão.
Então puxou a metade da máscara.
Os cabos não romperam. Desfiaram-se.
Fios de cobre se soltaram um por um da têmpora, deixando pontos escuros na pele. Helena pressionou a gaze contra os pequenos furos. Não houve jorro; apenas sangue lento, vermelho, humano. O ferro caiu no colo dele e, sem o rosto para sustentá-lo, perdeu a forma. Achatou-se como uma folha muito fina.
O homem abriu os dois olhos.
O direito era mais claro que o esquerdo. Piscou contra a luz da fornalha, viu Helena segurando a gaze, Lívia com o manual, Daniel diante do relógio.
— Eu não lembro meu nome — disse.
Ninguém tentou inventar um.
5h18.
Ele empurrou o corpo para fora do assento. Daniel e Helena o sustentaram outra vez. Desta vez, os pés encontraram o piso. Um calcanhar primeiro. Depois o outro. As pernas tremiam sob o casaco pesado, mas não dobraram.
Às costas dele, o assento começou a desaparecer por camadas. O couro revelou molas; as molas revelaram madeira; a madeira revelou o contorno vazio de um banco que talvez nunca tivesse sido construído. As raízes recolhidas tornaram-se riscos no chão.
O sistema perdia sua versão escolhida.
Os painéis não se quebravam. Discordavam.
Uma válvula existia aberta e fechada ao mesmo tempo. O teto alternava entre três alturas. A porta de entrada se multiplicou em uma fileira de portas, cada qual mostrando um corredor diferente. O som da locomotiva chegou antes do movimento e continuou depois que as peças pararam.
5h22.
— Precisamos sair da cabine — Helena disse.
— Para qual porta? — Lívia perguntou.
Nenhuma delas tinha maçaneta no mesmo lugar.
O homem afastou-se de Daniel. Deu um passo sozinho. O segundo deixou uma pegada de fuligem que permaneceu no ar quando o piso baixou alguns centímetros.
— O manual — disse ele.
Lívia ergueu o caderno.
— O que tem nele?
O homem fitou as páginas queimadas, mas não se aproximou.
— Mais do que eu lembrava. Menos do que vocês precisam.
Daniel esperou que completasse. O homem apenas respirou.
5h25.
O vidro do relógio começou a embaciar por dentro. A umidade desenhou quatro marcas semelhantes às queimaduras vistas no primeiro vagão. Uma se apagou. As outras três desceram lentamente pelo mostrador.
Helena segurou a mala junto ao corpo.
— Há alguma forma de estabilizar?
O homem olhou para o assento quase desfeito.
— Havia.
— Sem você.
— Não.
Lívia abriu o manual. As páginas viraram depressa, movidas por um vento que não alcançava o cabelo de ninguém. Símbolos se acendiam e desapareciam antes de serem lidos.
— Então não some ainda.
O pedido saiu com raiva. Jovem. Ela tentou fechar as páginas, mas o caderno continuou folheando entre suas mãos.
O homem olhou para ela.
— Não sei como ficar sem sentar de novo.
Lívia mordeu a parte interna da bochecha. Daniel viu o esforço de não olhar para o espaço onde o assento estivera.
— Então fica em pé mais um pouco.
Ele tentou.
5h27.
A fuligem desprendeu-se do casaco em pequenos quadrados escuros, cada um conservando o desenho do tecido antes de cair para cima. Helena segurou seu cotovelo e encontrou o braço ainda sólido.
— Ainda está aqui.
— Por pouco.
O relógio saltou para 5h28.
Daniel se aproximou. O homem retirou a fotografia do bolso e confirmou, pelo toque, que o botão continuava junto dela. Depois fechou o bolso com uma pequena presilha de cobre.
— Se eu esquecer de novo… — começou.
Lívia balançou a cabeça.
— Você não vai voltar para esquecer.
Ele considerou a frase. O canto partido da boca se moveu sem alcançar sorriso.
— Não.
5h29.
O primeiro minuto durou menos que um segundo.
A cabine se alongou entre Daniel e o homem. Helena pareceu estar a dez metros e, no instante seguinte, junto ao ombro de Lívia. As portas se sobrepuseram. O fogo da caldeira apareceu nas janelas como uma paisagem distante. O piso perdeu o som sob os pés.
O homem ergueu a mão para Daniel.
Não para apertá-la. Mostrou a palma vazia, marcada pelo corte da chave.
— Abra quando chegar a hora.
Daniel olhou para a própria mão fechada sobre o relógio.
Quando tornou a erguer os olhos, o Condutor já não estava inteiro na mesma posição. O rosto permanecia diante deles; o casaco aparecia dois passos atrás; uma mão ainda repousava perto do assento inexistente. As partes não se desfaziam. Apenas deixavam de concordar sobre onde ele terminava.
Helena soltou seu braço antes que o deslocamento a puxasse.
Lívia disse alguma coisa, mas o nome que não existia não podia ser chamado.
O homem levou a mão ao bolso.
Sentiu a fotografia.
Depois o botão.
Fechou os olhos.
O relógio marcou 5h29 e cinquenta e nove segundos.
A cabine inteira ficou branca nas bordas.
No último segundo, o homem não procurou nenhuma porta.
Às 5h30, ele desapareceu.
Não deixou corpo, máscara ou raiz. Apenas a chave quebrada dentro da fechadura e uma marca clara no piso onde os dois pés tinham conseguido ficar juntos.
O ponteiro continuou avançando.
5h30 e 1 segundo.
5h30 e dois.
A locomotiva perdeu o centro.
As paredes deslizaram em direções diferentes, sem cair. O painel diante de Daniel afastou-se para dentro de uma cabine que não ocupava o mesmo espaço. A caldeira duplicou o próprio arfar; um som vinha do passado, outro de uma distância ainda não percorrida. As portas se abriram todas de uma vez e revelaram corredores sem chão.
Helena puxou Lívia para junto da mala. Daniel tentou alcançar a alavanca, mas havia quatro, cada uma numa posição diferente.
Nenhuma mão permanecia no comando.
O relógio não parava.
Continuava avançando para as 5h47.
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