O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1313 MIN

O papel tremia entre os dedos de Helena.

ROUBOU OS BILHETES.

Atrás do último banco, a respiração continuou sem som. Daniel não a ouvia; percebia o intervalo que ela abria no próprio peito, como se alguma coisa respirasse usando o silêncio do vagão e obrigasse os outros pulmões a esperar.

Helena dobrou o pedaço de jornal uma vez. A dobra atravessou a frase no meio.

— Fiquem juntos.

A garota pressionou as costas contra Daniel. Ele sentiu o peso leve, real, e contou três coisas antes de olhar para o fundo do vagão: a costura áspera do casaco dela, o calor entre os ombros, uma mecha úmida tocando seu queixo. Quando terminou, ainda sabia por que não podia deixá-la afastar-se.

Por enquanto.

As lâmpadas não piscavam. A escuridão é que passava por elas, uma faixa comprida que avançou pelo teto sem diminuir a luz e parou sobre o banco onde o chapéu desaparecera. As etiquetas dos nichos voltaram-se devagar. Nenhuma palavra. Só retângulos brancos, todos inclinados para o mesmo ponto.

Daniel ergueu a chave de fenda.

— Se tem alguém aí, fale.

Nada.

— Isso costuma funcionar? — a garota perguntou, baixo.

Ele demorou a entender o que ela queria dizer.

— O quê?

— Pedir para coisas escondidas colaborarem.

Havia uma ironia pequena na voz, mas ela se partiu antes de chegar ao fim. Daniel quase respondeu. Helena já passava por eles.

Não avançou em linha reta. Encostou o ombro no primeiro banco, atravessou o corredor na diagonal e parou junto ao segundo, usando os encostos como abrigo. Na mão direita, mantinha a faixa de camisa endurecida de sangue; na esquerda, o papel dobrado. O casaco amarrado à cintura roçava o tecido dos assentos sem produzir ruído.

— Helena.

Ela levantou dois dedos, pedindo que ele esperasse.

Atrás do último banco, cinco ausências estreitas soltaram a madeira. A superfície recuperou o brilho onde deveriam estar os dedos. Um afundamento percorreu o estofado, passou para o banco seguinte sem tocar o chão e sumiu.

A garota virou o rosto rápido demais.

— Foi para a esquerda.

— Não — disse Daniel. — Para a direita.

Helena não escolheu nenhum dos dois. Olhava para baixo.

Uma gota escura apareceu no corredor, perto de seu sapato. Não caiu de lugar algum. Cresceu na passadeira azul como um ponto de tinta empurrado do avesso pelas fibras. Depois veio outra, meio metro adiante. Uma terceira surgiu sob o último banco.

Helena abriu a faixa ensanguentada. Comparou as duas cores aproximando o tecido do piso, sem encostá-lo.

— É o mesmo sangue.

— Mesmo de quem? — perguntou a garota.

O papel na outra mão de Helena produziu um vinco novo. Ela não respondeu. Seus olhos seguiram a sequência de gotas até o banco.

Daniel tentou juntar os fatos. Um homem. Ferimento no abdome. Dois bilhetes. Uma cama que não tinha causado nada. O nome deveria estar perto, atrás de algum deles, mas vinha apenas a primeira curva de uma letra e depois uma superfície lisa.

Helena agachou-se diante do último banco.

— Tem alguém embaixo.

Daniel chegou ao lado dela. A abertura entre o assento e o piso estava vazia. Viu o fundo de madeira, a passadeira interrompida pelos pés de metal e uma mala pequena sem etiqueta no nicho oposto. Nada que respirasse. Nada que pudesse sangrar.

Helena estendeu a mão para o vazio.

Seus dedos pararam antes de tocar o chão. Apertaram alguma coisa que Daniel não via. O punho dela desviou para baixo, vencido por um peso.

— Ajude.

Ele guardou a chave de fenda e alcançou o mesmo ponto. Na primeira tentativa, sua mão atravessou ar frio. Na segunda, bateu em tecido molhado. O toque desapareceu no instante em que tentou fechá-lo, como uma palavra esquecida entre pensar e falar.

— Não tem…

Helena puxou com força. O braço inteiro tremeu.

— Tem.

A garota aproximou-se, mas uma etiqueta virou no nicho acima dela. LÍVIA apareceu por menos de um segundo. O L perdeu a haste, o V abriu-se num risco e o papel tornou a ficar branco.

Ela não viu o próprio nome. Daniel viu.

— Não chegue mais perto.

— Você acabou de dizer para ficarmos juntos.

— Fica comigo. Aí.

Ela abriu a boca, irritada, e o medo ganhou antes. Parou ao alcance do braço dele.

Daniel apalpou o vazio junto à mão de Helena. Encontrou uma dobra de camisa. Depois um ombro. A forma surgiu sob seus dedos aos pedaços: osso, pano, uma costura, nada, osso outra vez. Segurou onde acreditava haver uma axila.

— Agora.

Puxaram.

Primeiro saiu um sapato. Não uma perna, apenas o sapato escuro deslizando sobre a passadeira, com o couro esmagado onde um pé deveria ocupá-lo. Em seguida apareceu a barra de uma calça, interrompida no joelho por um trecho através do qual Daniel enxergou o piso. O restante do corpo veio aos solavancos, adquirido pela luz em partes que não concordavam umas com as outras.

Um homem caiu de lado no corredor.

Por um momento Daniel viu o banco através do rosto dele.

Então vieram a pele, a barba curta, o cabelo colado à testa. O rosto pareceu familiar da maneira errada: como alguém visto todos os dias num caminho que se deixou de fazer anos antes. Daniel procurou um nome e encontrou o bilhete vazio no bolso.

O homem abriu os olhos.

Não olhou para Helena nem para Daniel. Fitou a própria mão estendida no chão. Dobrou o indicador. A ponta do dedo demorou a acompanhar a articulação, ficando para trás como uma imagem presa num vidro.

— Ainda… — A voz não produziu som, mas os lábios formaram a palavra. Ele engoliu e tentou outra vez. — Ainda estou?

A pergunta terminou sem objeto.

Helena rasgou a camisa dele com as mãos. Os botões saltaram, desapareceram antes de atingir a passadeira. Sob o tecido havia um curativo improvisado, escuro e colado ao abdome. Ela o desprendeu por uma borda.

O cheiro chegou.

Ferro, suor antigo, pano úmido. O primeiro cheiro inteiro desde que entraram no vagão.

Daniel recuou o rosto. A garota cobriu o nariz, e por esse gesto comum o homem pareceu ganhar mais peso sobre o chão.

Helena expôs o ferimento.

Era estreito na entrada e irregular por baixo, uma cavidade funda abaixo das costelas. A pele ao redor tinha a cor amarelada de uma lesão velha demais para as poucas horas daquela viagem. De um dos pontos abertos escorria sangue fresco, atravessando o flanco numa linha lenta.

Helena ficou imóvel.

O tecido ensanguentado escapou de sua mão. Desta vez houve som quando caiu: um ruído pequeno, molhado.

O homem virou os olhos para ela. Levou tempo para encontrá-la. Quando encontrou, não sorriu.

— Você.

Helena pressionou a palma sobre o ferimento.

Ele arqueou o corpo, tarde demais para impedir. O calcanhar raspou a passadeira e deixou uma marca escura que continuou visível.

— Fica parado.

— Eu conheço… você?

Ela aumentou a pressão. A articulação de sua mandíbula saltou uma vez.

— Esse ferimento estava em Marina Lopes, oito anos, vinte e três quilos. Foi transferido para você. abaixo do rebordo costal direito. A profundidade não combina com a abertura. Você usou meu casaco para conter o sangue.

As frases saíam firmes, mas o polegar dela continuava esfregando o mesmo ponto na pele dele, como se precisasse comprovar a textura a cada palavra.

Daniel reconheceu a ordem dos fatos antes do homem.

Hospital. A menina. A mão suja de sangue tocando a testa de Helena.

E depois a mentira.

— César — disse.

O nome produziu um estalo no teto.

Uma lâmpada apagou.

O corpo no chão perdeu a orelha esquerda. Não houve sangue nem ferida; o contorno simplesmente deixou de terminar, fundindo-se ao escuro sob o banco. Daniel piscou, e por um instante não soube por que estava ajoelhado diante de um desconhecido.

Helena enterrou dois dedos no ferimento.

César gritou.

O som atravessou o vagão inteiro. As etiquetas estremeceram. A orelha voltou com um risco branco no lóbulo.

— César Moraes — Helena falou por cima do grito. — Ferimento transferido. Você se ofereceu para recebê-lo.

Ele tentou afastar a mão dela. O gesto começou, perdeu direção no meio e terminou com os dedos agarrados ao próprio colarinho.

— Eu roubei…

O ar engoliu o resto.

— Dois bilhetes — disse Daniel. — O meu e o dela.

Apontou para Helena. Teve de conferir o rosto dela antes de terminar.

— Você apagou a memória dela. Tocou a testa com a mão suja. Disse que o ferimento tinha sido causado pela cama.

César fechou os olhos. Sua boca se moveu, talvez contando os fatos, talvez apenas verificando se ainda obedecia.

A garota ajoelhou-se perto dos pés dele. Não tocou.

— Fez piada com meu bilhete.

Helena ergueu o rosto.

— Agora não.

— Ele fez.

— Então repete. Não discute.

A ordem feriu mais do que a garota esperava. Ela apertou os lábios e olhou para César.

— Você fez piada com meu bilhete. Assobiava quando queria irritar. Falou que ninguém entra num lugar desses por uma terça-feira ruim. E… — Sua testa se contraiu. — Você tinha um irmão.

Os olhos de César abriram.

— Tinha?

Ninguém respondeu.

Atrás dos bancos, o corredor limpo voltou a abrir-se no pó. Vinha na direção deles. Objetos nos nichos perderam detalhes enquanto aquilo passava: os cordões de um sapato infantil ficaram lisos; um guarda-chuva deixou de ter cabo; a fivela de uma mala fechou-se numa placa sem abertura.

Daniel viu primeiro e puxou Lívia pela cintura, colocando-a atrás de si. A garota tropeçou no joelho dele, protestou com um ruído sufocado. Helena não saiu do lugar.

— Está vindo.

— Eu sei.

Ela soltou o ferimento apenas para rasgar uma tira da própria blusa. César observou o movimento com uma surpresa vazia, como se não compreendesse por que alguém gastaria tecido com ele. Helena dobrou a tira, empurrou-a contra a abertura e procurou algo para amarrar.

Daniel retirou o cinto.

— Não vai dar a volta.

— Pelo banco. A tira maior.

Ele passou o couro sob as costas de César. Em dois pontos, o corpo não ofereceu resistência nenhuma; o cinto bateu no piso e reapareceu do outro lado. Daniel tentou novamente, mais devagar, seguindo a curva das costelas que via. Quando a fivela fechou, César soltou o ar entre os dentes.

O corredor sem poeira parou a um banco deles.

Uma etiqueta girou.

CÉSAR MORAES.

As letras surgiram cinzentas, quase gastas. O S final desapareceu. Depois o E. César olhou para o papel e não demonstrou reconhecê-lo.

Helena arrancou a etiqueta do nicho.

A coisa invisível moveu-se.

O banco ao lado curvou-se para baixo. Cinco ausências tocaram o encosto. A tira de papel na mão de Helena começou a desfazer-se pela borda, não em pó, mas em pequenas áreas que deixavam de ocupar espaço. Seus dedos se aproximavam uns dos outros à medida que o papel sumia entre eles.

Ela encostou a etiqueta no sangue de César.

O vermelho atravessou o nome. Parou sobre as letras como se tivesse encontrado sulcos.

O avanço cessou.

Não por completo. O pó ainda se afastava de algo. As etiquetas ainda pendiam voltadas para eles. Mas o S reapareceu no sobrenome, desenhado em sangue antes de recuperar a tinta cinza.

Helena observou o papel, depois o ferimento.

Pressionou a etiqueta ensanguentada contra o peito de César.

— Segura.

Ele não se mexeu.

— César. Segura isso.

Os dedos dele subiram com dificuldade. Passaram pela etiqueta na primeira tentativa. Na segunda, amassaram uma ponta. César olhou para a própria mão fechada e seu rosto mudou, não em alívio; em espanto.

Helena recolheu a faixa de camisa caída no piso. Abriu-a sobre a perna dele, mostrando o sangue seco.

— Isto saiu de você. O que está no seu corpo não nasceu aqui. Eu coloquei em você.

A primeira pessoa pesou na frase. Ela pareceu senti-la depois de dizer. A mão que segurava a faixa baixou alguns centímetros, e por um instante seu rosto perdeu toda a organização.

César fitou-a.

— Por quê?

Helena voltou a apertar o curativo.

— Porque está sangrando.

— Não foi isso.

Ela não respondeu. Ajustou o cinto até ele gemer, conferiu o sangue que começava a marcar a tira limpa e deslocou o nó para não pressionar diretamente a cavidade.

O silêncio ao redor deles engrossou. Daniel percebeu o nome de César escapando outra vez, não das letras, mas de algum lugar atrás dos olhos. Falou antes de perdê-lo.

— César Moraes roubou dois bilhetes.

Lívia entendeu.

— César Moraes tinha um irmão que devia ter chegado para jantar.

Ela vacilou na última palavra, lembrando a cadeira vazia.

Helena continuou trabalhando.

— César Moraes recebeu o ferimento de Marina Lopes. Alterou minha lembrança depois.

César umedeceu os lábios. O rosto quase voltou a desaparecer quando tentou falar.

— César Moraes… — Parou para respirar. — Não sabe há quanto tempo está aqui.

As palavras não tinham graça, nem defesa. Pareciam dadas por alguém num balcão, o mínimo necessário para provar identidade.

— Horas — acrescentou. — Acho. Eu dormi, mas quando acordei… não lembrava quem tinha dormido.

Seu olhar percorreu os três e se deteve em Daniel.

— Vocês demoraram.

Daniel recebeu a acusação sem encontrar resposta. Talvez houvessem demorado. Talvez o corredor tivesse aumentado cada vez que esqueceram o homem que procuravam. O relógio no próprio pulso não possuía ponteiros agora; sob o vidro havia apenas um círculo claro, sem marcas.

Uma mala caiu no outro extremo do vagão.

Desta vez o impacto soou como uma porta batida dentro de outra casa.

Todos olharam.

Quando voltaram para César, ele estava menor. Não o corpo: a quantidade de atenção que o espaço permitia que ocupasse. Daniel precisou refazer os fatos depressa — sangue, hospital, bilhetes — até o rosto adquirir bordas firmes outra vez.

Helena passou o braço de César sobre os próprios ombros.

Ele tentou retirar.

— Eu consigo.

As pernas não concordaram. O joelho direito dobrou antes de receber o peso, e César pareceu surpreendido ao descobrir que tinha um. Helena sustentou-o pela cintura, longe do ferimento.

— Não consegue.

— Você não precisa…

Ela o levantou.

Foi a resposta.

Daniel ocupou o outro lado. O ombro de César surgiu sob sua mão com mais consistência do que antes, ainda que frio. Lívia manteve a etiqueta pressionada ao peito dele porque os dedos de César começaram a falhar. Com a outra mão, a garota segurava o pedaço de jornal onde restava apenas ROUBOU OS BILHETES.

— Fala seu nome — Helena ordenou.

César apoiou a cabeça por um instante no encosto mais próximo. A madeira rangeu.

— César Moraes.

— De novo.

Ele respirou. Dessa vez houve som.

— César Moraes.

No nicho acima deles, uma etiqueta em branco recebeu uma única letra. C.

O corredor limpo no pó recuou um compartimento.

Não fugiu. Esperou.

Daniel sentiu o peso de César distribuir-se entre ele e Helena. Um peso ruim, instável, acompanhado pelo calor úmido do sangue que atravessava o curativo. Ainda assim, peso.

Lívia olhou para o banco onde o nome riscado terminara em SAR. Pegou a chave de fenda do bolso de Daniel sem pedir e completou as letras na madeira, fundo demais, lascando o verniz.

CÉSAR MORAES.

Ela soprou o pó para longe. O sopro produziu eco.

Uma vez.

Fraco, mas inteiro.

César ergueu os olhos para a inscrição. A boca ensaiou o começo de alguma piada; Daniel reconheceu o hábito antes que houvesse palavras. Nada veio. César apenas apertou contra o peito a etiqueta suja do próprio sangue.

As letras permaneceram.

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