O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2417 MIN

O corredor vermelho não tinha espaço para quatro pessoas.

Daniel percebeu isso antes do terceiro passo. César teria precisado caminhar de lado. Não havia mais ninguém para reclamar da bitola ou fazer uma piada ruim sobre as lâmpadas.

A porta do Vagão 6 fechou-se às costas de Helena e apagou a sala dos relógios e a última imagem de César. A chapa tornou-se parte da parede, quente demais para receber a palma.

À frente, lâmpadas protegidas por grades tingiam tudo de vermelho escuro: parafusos, fuligem, a pele dos dedos. A luz não piscava. Pulsava com uma regularidade lenta, aumentando e diminuindo sem jamais se apagar por completo.

O corredor respirava junto.

Quando a claridade crescia, o metal expandia com pequenos estalos. Quando diminuía, tubos grossos presos ao teto se contraíam nas abraçadeiras, fazendo a parede tremer contra o ombro de Daniel. O ar entrava por grelhas baixas e saía por fendas acima da cabeça, quente, carregado de óleo queimado e carvão. Cada inspiração deixava um gosto amargo atrás dos dentes.

Lívia tossiu.

O som saiu uma vez de sua boca e outra, mais fraco, de algum ponto adiante.

Ela parou.

— Esse segundo não fui eu.

Daniel escutou. O corredor devolveu o ruído dos pistões, cavernoso e ritmado, mas nenhuma nova tosse.

— Eco — disse.

— Não voltou de trás.

Ela apontou para a frente.

Daniel não discutiu. Contou o intervalo entre os golpes da máquina. Quatro segundos. Depois três. Depois quatro outra vez. Não era uma falha aleatória; o terceiro golpe chegava cedo a cada ciclo de cinco.

Levou o pulso até a luz.

O relógio de Gabriel permanecia parado em 3h41.

— Não vai ajudar — Lívia falou.

— Eu sei.

Mesmo assim, Daniel girou a coroa até encontrar resistência. Uma volta. Meia de volta. O mecanismo não respondeu.

Helena vinha por último, carregando a mala do criador com as duas mãos. César a levara até a porta anterior; agora o peso obrigava os ombros dela para baixo. O corte antigo na mão voltara a abrir junto à alça. Uma linha de sangue seguia entre os dedos, mas ela não mudou a empunhadura.

— Pare — Daniel disse.

— Consigo carregar.

— Não perguntei.

Ele pegou a mala. O couro estava morno por fora e quente junto aos fechos, como se o manual armazenasse a temperatura da locomotiva. Helena soltou apenas quando Daniel já sustentava todo o peso.

Examinou a própria mão sob a lâmpada.

— A borda abriu. Superficial.

Retirou do bolso o último pedaço limpo da camisa manchada de graxa. Enrolou-o sobre a palma e tentou fechar o nó com uma só mão.

Lívia se aproximou. Helena permitiu que ela segurasse a ponta do tecido, mas refez o aperto depois, dois milímetros mais alto.

— Muito forte — disse.

Lívia afrouxou.

— Assim?

Helena flexionou os dedos uma vez.

— Assim.

Não agradeceu. A mão boa permaneceu por um instante sobre os nós da garota antes de se afastar.

Daniel esperou. A ausência de César ocupava também esses silêncios, retirando a pessoa que costumava preenchê-los cedo demais.

Voltaram a caminhar.

O piso era uma grade de ferro. Por baixo, barras de conexão corriam para a frente e para trás, grossas como braços, cobertas por graxa preta. O movimento não correspondia às rodas que Daniel ouvira nos outros vagões. Ali não havia distância entre mecanismo e passageiro. Cada avanço das barras puxava o corredor alguns centímetros; cada recuo parecia trazê-lo de volta sem desfazer o caminho percorrido.

Daniel observou dois ciclos.

— Pisem nas travessas claras.

Helena olhou para baixo.

— Por quê?

— As escuras cedem quando a barra volta.

Uma chapa preta afundou logo depois, abrindo uma fenda curta. Calor branco subiu por ela e desapareceu.

Lívia recolheu o pé que ainda não colocara no chão.

— Você viu antes?

— Vi o parafuso mexer.

Ela acompanhou a direção do olhar dele, mas o parafuso já estava imóvel.

— Para mim ele mexeu depois.

Daniel ergueu a cabeça.

Lívia fitava a chapa como se houvesse duas sobrepostas. A luz vermelha atravessava de modo desigual seu rosto; numa metade, o suor já corria junto à têmpora. Na outra, a pele permanecia seca.

— O corredor está em dois lugares — disse.

— Não — Helena respondeu. — Você está.

A frase saiu precisa demais. Helena percebeu o efeito quando Lívia encolheu os dedos dos pés dentro do tênis.

— Quero dizer… — começou.

Não encontrou outra formulação.

Lívia soprou o cabelo para longe dos olhos.

— Eu entendi.

Avançou pela travessa clara.

Durante um passo, duas solas tocaram o metal. Uma deixou fuligem. A outra atravessou a grade sem peso e desapareceu quando o corpo alcançou a posição seguinte.

Daniel segurou a alça da mala com mais força.

— Fica no meio.

— Eu estou no meio.

— Do corredor.

Ela olhou para as paredes próximas aos dois ombros.

— Também.

O terceiro golpe dos pistões chegou cedo. Lívia se dobrou como se tivesse recebido uma pressão no peito. Helena alcançou seu cotovelo, mas a mão atravessou a primeira posição do braço e encontrou a segunda alguns centímetros atrás.

— Respira devagar.

Lívia puxou ar. Tossiu fuligem sobre a manga.

Pequenos pontos negros apareceram no tecido antes de saírem de sua boca.

— Eu odeio este vagão.

— Não é um vagão — Daniel disse.

Ela ergueu os olhos.

Ele indicou os tubos que seguiam todos na mesma direção, engrossando à medida que avançavam.

— É alimentação. Vapor, óleo… os cabos vão para a frente. Estamos dentro da máquina.

O corredor respondeu com um golpe que fez os dentes vibrarem.

Helena encostou dois dedos abaixo da mandíbula de Lívia. Contou sem mover os lábios. Depois tocou a própria garganta, comparando ritmos.

— Continue andando. Se piorar, avise antes de cair.

— Eu não planejo cair.

— Ninguém planeja.

A resposta veio rápida. Helena baixou a mão e observou o curativo em sua própria palma como se tivesse dito mais do que pretendia.

Passaram por válvulas maiores que o peito de Lívia, marcadas ADMISSÃO, RETORNO, LASTRO e TARIFA. Graxa negra recolheu-se para dentro da parede quando Daniel se aproximou. Acima deles, um jato de vapor abriu com cheiro de cabelo queimado e fez o manual se agitar dentro da mala.

O calor aumentou. Lívia recusou tirar o casaco até a costura começar a soltar vapor. Daniel entregou-lhe a camisa externa; ela a amarrou sobre os ombros e guardou o casaco sob o braço. O tecido dele não produziu familiaridade em seu rosto.

O corredor começou a descer. Não em degraus; a grade inclinava-se gradualmente, acompanhando tubos que agora tinham diâmetro suficiente para uma pessoa atravessar por dentro. O vermelho das lâmpadas tornou-se mais escuro. Entre uma e outra, havia trechos em que só o metal incandescente nas junções oferecia luz.

No primeiro trecho escuro, Daniel ouviu quatro passos.

Parou.

Helena quase esbarrou nele. Lívia vinha à frente.

O quarto passo continuou.

Pesado. Arrastado. Não tinha o ritmo de César. Vinha do interior dos tubos, paralelo a eles.

— Tem alguém do outro lado — Lívia sussurrou.

Daniel encostou o ouvido na chapa. O calor obrigou-o a afastar imediatamente, mas escutou antes: uma inspiração longa através de metal, seguida pelo ruído de correntes tensionando.

Helena aproximou o rosto sem tocar.

— Não é uma pessoa andando.

O tubo contraiu-se.

Uma saliência percorreu o metal por dentro, lenta, grossa, como um nó sendo empurrado através de uma garganta. Passou ao lado deles e seguiu para a frente.

Lívia apertou o casaco contra o peito.

— É ele?

— Ainda não sabemos o que é “ele” — Daniel respondeu.

A luz seguinte acendeu.

O corredor terminava numa escada vertical.

Doze degraus de ferro subiam entre dois cilindros em movimento. Cada cilindro entrava no teto e retornava coberto por uma película de óleo vermelho. Acima, uma escotilha redonda abria e fechava poucos centímetros a cada ciclo, respirando vapor pelas bordas.

Daniel contou.

— Quatro segundos aberta. Três fechada.

— O terceiro ciclo muda — Lívia disse.

— Aqui também?

— Para mim, abre duas vezes.

Helena examinou a escada.

— Subimos separados. Daniel primeiro com a mala. Lívia no meio. Eu…

— Você primeiro — Daniel interrompeu. — Se a escotilha fechar, segura do outro lado.

Helena olhou para o curativo da mão.

— Não tenho força para sustentar essa chapa.

— Então trava com a mala.

— E esmaga o manual.

O cilindro desceu com um impacto que fez a grade vibrar.

Lívia colocou o casaco no piso e tirou a camisa de Daniel dos ombros. Enrolou-a até formar uma tira grossa.

— Isso trava.

— Pode cortar — Daniel disse.

— É uma camisa.

— A chapa.

— Então sobe antes.

Ela amarrou o tecido em torno de um dos raios da escotilha, deixou uma ponta longa e testou o nó. O movimento tinha pressa de adolescente e uma eficiência aprendida em lugares que Daniel não conhecia.

Helena segurou a extremidade.

— Quando abrir, puxe. Não enrole na mão.

Lívia obedeceu sem comentário.

Daniel subiu com a mala. A escotilha fechou antes do intervalo contado e prendeu sua cintura. Lívia puxou a camisa enrolada na engrenagem enquanto Helena o empurrava pelos pés. A costura rompeu; Daniel caiu do outro lado e acionou uma alavanca marcada CONTROLE DE BITOLA.

Lívia atravessou em momentos separados — cabeça, braços, um joelho que tocou o piso cedo demais. Helena veio por último e perdeu o curativo num degrau, ganhando uma queimadura estreita no punho.

— Superficial — disse.

Daniel levantou o rosto.

Não estavam mais num corredor.

O espaço além da escotilha era uma nave de ferro, alta e comprida, estreitando-se na direção da frente da locomotiva. Passarelas cruzavam o vazio em três níveis. Abaixo delas, pistões enormes moviam-se dentro de poços de luz branca, entrando e saindo de cilindros cobertos por rebites. Correntes grossas corriam por roldanas suspensas. O ar era tão quente que as distâncias tremiam.

No centro, uma caldeira negra ocupava quase toda a largura.

Ela não tinha fornalha visível.

Centenas de tubos entravam em sua superfície e desapareciam sob placas curvas. Entre os tubos havia cabos revestidos de tecido, fios de cobre, mangueiras translúcidas cheias de um líquido escuro. Todos convergiam para a extremidade dianteira.

O som que os acompanhara pelo corredor vinha dali.

Respiração.

Não semelhante a uma respiração. Respiração de fato: entrada áspera, pausa, saída através de válvulas que umedeciam o metal com vapor. A cada ciclo, a caldeira dilatava o suficiente para deslocar os rebites.

Lívia tocou a própria caixa torácica.

O movimento dela não coincidiu com o da máquina.

Depois de duas tentativas, coincidiu.

Helena viu e colocou a mão entre as omoplatas da garota.

— Não acompanha.

— Ela está puxando.

— Faz seu ritmo.

Lívia respirou curto, duas vezes. A máquina respondeu com uma inspiração longa. Na terceira, ela conseguiu permanecer separada.

Daniel pegou a mala.

Uma passarela seguia ao redor da caldeira. O corrimão estava coberto por fuligem, exceto em pontos regulares onde algo do tamanho de uma mão o segurava com frequência. As marcas tinham cinco dedos, mas eram profundas demais, impressas no ferro.

Avançaram.

À esquerda, mostradores apontavam para palavras: PARTIDA, PERDA, RETORNO, SEM DESTINO. Daniel tentou lê-los, mas Helena indicou a passagem adiante.

A mala ficou mais pesada a cada metro. Não gradualmente. Em saltos. Daniel ajustava a alça, dava dois passos e sentia como se outro caderno tivesse sido colocado dentro. No terceiro aumento, pousou-a na passarela.

O couro deformou-se em torno de algo que não existia antes.

Helena abriu os fechos.

O manual estava no mesmo lugar. A camisa de graxa e o estojo vazio também. Sob o caderno, porém, havia um maço de folhas presas por um grampo enferrujado.

Na primeira página, um nome datilografado:

MARINA LOPES.

Helena não tocou de imediato.

O papel tinha margens de prontuário hospitalar, campos de admissão, horário, medicação, responsável. Algumas linhas estavam preenchidas com sua letra mais jovem. Outras terminavam no meio. Abaixo, onde deveria haver evolução do caso, havia uma faixa em branco larga o bastante para quinze anos.

Lívia leu o nome.

— Isso estava aí?

— Não.

Helena retirou as folhas. O calor da passarela curvou o papel, mas o prontuário permaneceu frio. Frio de arquivo, não de metal. Condensação formou-se sob seus dedos.

Ela leu uma linha. Depois outra. Na terceira, a boca se fechou com força.

Daniel viu a assinatura no fim da página. H. DUARTE. Acima dela, uma anotação passiva: transferência autorizada conforme disponibilidade.

Helena passou o polegar sobre a frase até borrar a tinta.

— Foi você que escreveu? — Lívia perguntou.

— Foi.

A resposta saiu na primeira pessoa.

Nenhuma explicação veio depois.

Helena dobrou o prontuário uma vez, percebeu o que fazia e o abriu de novo. Alisou a marca sobre o joelho. Guardou as folhas entre a capa e a primeira página do manual, onde não poderiam cair sem levar o caderno junto.

— Vamos.

A passarela contornou a caldeira e terminou diante de uma porta circular.

Não havia inscrição. O metal estava coberto por camadas de tinta preta descascada, e no centro havia o símbolo das duas linhas, uma entrando pela esquerda, outra pela direita, sem saída desenhada.

Daniel procurou dobradiças.

— Abre para dentro.

— Como sabe? — Lívia perguntou.

— Desgaste no aro.

Ele empurrou.

A porta não cedeu.

Helena colocou a mão boa ao lado da dele. Lívia apoiou as duas palmas mais abaixo. O metal não se moveu, mas a respiração atrás dele interrompeu-se.

Toda a locomotiva ficou sem ar.

Os pistões pararam no meio do curso. Correntes penderam imóveis. O líquido escuro nas mangueiras deixou de circular.

No silêncio, uma trava girou do outro lado.

A porta abriu sozinha.

O calor da cabine não saiu. Puxou-os para dentro.

Daniel segurou o aro. Helena agarrou a mala. Lívia foi arrastada meio passo antes de encontrar apoio. A corrente de ar levou fuligem, fios soltos e uma página do manual até a soleira; Helena prendeu o caderno contra o peito.

Entraram.

A cabine de comando ocupava a frente inteira da locomotiva, mas não parecia construída para um maquinista humano. Alavancas subiam do piso até a altura dos ombros. Rodas de controle estavam presas ao teto. Manômetros do tamanho de pratos cobriam as paredes e mostravam horários em vez de pressão.

À frente, três janelas estreitas exibiam escuridão.

Não a paisagem impossível dos vagões. Ausência pura, atravessada ocasionalmente por linhas brancas que se aproximavam, dividiam-se e desapareciam sob a locomotiva.

No centro da cabine havia um assento de ferro.

O Condutor ocupava-o.

À primeira vista, Daniel viu uma figura grande, imóvel, vestida num casaco escuro queimado nas barras. Depois distinguiu o que pertencia ao homem e o que pertencia à máquina.

Não havia separação limpa.

Tubos entravam sob o casaco na altura das costelas e saíam atrás do assento, unidos à caldeira. Cabos de cobre atravessavam as mangas e desapareciam nos punhos. Um conjunto de mangueiras translúcidas ligava a nuca ao painel superior, transportando o mesmo líquido escuro que pulsava pelas paredes. Onde os sapatos deveriam tocar o piso, raízes de metal abriam-se em cinco direções e prendiam as pernas ao chassi.

A máscara cobria todo o rosto.

Ferro na parte superior, latão ao redor da boca e das têmporas. Desgastada por mãos, fumaça e tempo. Um dos lados fora reparado com rebites menores, de tonalidade diferente. Não havia abertura para os olhos, apenas duas fendas horizontais tão escuras quanto as janelas.

No lugar da respiração que cessara, um fole preso ao peito da figura permanecia vazio.

Lívia entrou por último.

O fole se encheu.

A locomotiva inspirou com ele.

Cabos se contraíram sob o casaco. Os pistões voltaram a mover-se atrás da parede. Uma sequência de lâmpadas acendeu do piso ao teto, revelando mais tubos, mais fios, pequenas placas de metal fixadas à pele visível entre a luva e a manga.

O Condutor ergueu a cabeça.

O movimento puxou toda a máquina. Manômetros inclinaram os ponteiros. Uma corrente esticou no teto. A caldeira soltou vapor.

Daniel colocou-se meio passo à frente de Lívia.

A máscara virou para ele.

Nenhum olho estava visível, mas Daniel sentiu o ponto exato em que a atenção alcançou seu relógio.

— Três passageiros — disse o Condutor.

A voz não saiu apenas da máscara. Veio dos tubos, do piso e do fole, lenta, desgastada pela repetição.

— Um retorno antecipado. Duas tarifas pendentes. Uma passagem sem estação de origem.

Lívia segurou a barra da camisa de Daniel ainda amarrada sobre os ombros. Não se escondeu atrás dele.

Helena apoiou a mala no piso.

— Você é o Condutor?

A máscara moveu-se alguns graus em direção a ela.

— Função em escala. Posto ocupado. Circulação mantida.

— Isso não responde.

Uma válvula abriu junto ao ombro da figura e soltou um fio de vapor.

— Respostas não alteram a bitola.

Daniel examinou os tubos conectados ao assento. Três tinham abraçadeiras novas. Outros carregavam ferrugem em camadas. Um cabo atravessava a lateral do casaco e entrava no corpo abaixo da última costela.

— Você consegue sair daí?

O Condutor voltou a máscara para a janela central.

— Maquinista fora do posto interrompe a linha.

— Não foi o que perguntei.

— Foi a consequência da pergunta.

Helena deu a volta na mala. Seus olhos percorreram o fole, as mangueiras na nuca, a cor da mão exposta.

— Esses tubos mantêm você vivo.

— Mantêm o horário.

— Sua pele está…

Ela interrompeu antes de transformar a observação numa proteção. A mão do Condutor, apoiada numa alavanca, tinha dedos finos sob a luva aberta. As unhas eram humanas. A pele ao redor dos encaixes metálicos estava marcada por cicatrizes antigas, algumas reabertas pela vibração.

Lívia olhava para as janelas.

Uma linha branca aproximou-se e dividiu-se em duas. Durante um segundo, cada trilho refletiu uma versão diferente dela: numa, o casaco voltava a cobrir seu corpo; na outra, não havia reflexo.

— Para onde estamos indo? — perguntou.

O Condutor acionou uma pequena chave.

Um sino tocou em algum lugar remoto da composição.

— Destinos aguardam confirmação de embarque.

— Nós já embarcamos.

— Ainda não.

Lívia franziu a testa.

— Estamos no trem há horas.

— Deslocamento sem destino é manobra de pátio.

Daniel abriu a mala. O manual agitou as páginas. O prontuário de Marina, preso dentro da capa, permaneceu imóvel.

A máscara virou depressa.

Foi o primeiro movimento do Condutor que não pareceu gasto ou automático.

Cabos estalaram. A mão na alavanca fechou-se. O fole perdeu metade do ar.

— Documento de via — disse.

Helena colocou a palma sobre o manual.

— É nosso.

— Bagagem não declarada altera o lastro.

— Estava na sua mala.

Silêncio.

O Condutor inclinou a máscara. Uma das fendas escuras refletiu o fecho de metal, a camisa de graxa, o estojo vazio.

— Mala sem proprietário — falou por fim.

Lívia se aproximou do caderno.

Daniel ergueu a mão para detê-la, mas não tocou. Ela viu o gesto e parou sozinha.

— Você escreveu isso? — perguntou ao Condutor.

As páginas viraram até a frase incompleta: Nenhum caminho de volta exige apenas uma passagem.

O papel estremeceu.

O fole no peito do Condutor também.

— Manual de circulação anterior — disse.

— Anterior a quê?

A máscara voltou para a janela.

— Ao atraso.

Daniel ouviu uma engrenagem mudar sob o piso. O terceiro golpe dos pistões chegou cedo, igual ao corredor.

— Qual atraso?

O Condutor não respondeu.

Daniel contou os intervalos. Quatro. Três. Quatro. No quinto ciclo, uma das linhas brancas além da janela desviou para um ângulo impossível e retornou ao trilho principal.

— A máquina está falhando — disse.

A mão do Condutor moveu uma alavanca dois dentes para trás.

— Máquina cumpre escala.

— O terceiro pistão adianta um segundo a cada cinco ciclos.

A máscara permaneceu voltada para a frente.

— Compensação de tarifa.

— De quem?

Silêncio outra vez.

Daniel deu mais um passo. O calor do assento atingiu seu rosto. Sob o casaco, tubos movimentavam-se contra algo que ainda era um peito humano.

— Você estava esperando a gente.

O Condutor retirou a mão da alavanca.

Os dedos deixaram marcas no metal, cinco linhas escuras. Muito devagar, ele virou a máscara para Daniel.

A fenda sem olhos desceu até o relógio de Gabriel.

— A composição espera todos os passageiros registrados.

— Registrados quando?

Helena disse o nome de Daniel, uma advertência baixa. Ele não se afastou.

— Antes do bilhete? Antes da estação?

O fole inspirou.

A voz seguinte veio mais perto. Não pelos tubos. Pela máscara.

— Daniel Montenegro.

Foi a primeira vez que o Condutor usou um nome.

A mão de Daniel fechou-se sobre o relógio.

O latão gasto inclinou-se alguns milímetros, como quem confere uma marca antiga numa lista.

— O passageiro que interrompia o relógio depois de cinco segundos chegou com quinze anos de atraso.

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