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Sair

Às oito e quatro da manhã de sábado, Daniel encostou o carro na guia. A escada de alumínio, presa ao rack de teto por duas tiras de borracha esticadas, vibrou uma última vez antes de o motor morrer. No porta-malas, a caixa de ferramentas de ferro chocalhou contra a lataria.

Ele tinha dito oito horas.

Vera já estava do lado de dentro do portão de ferro trançado. Não usava as roupas de sair que costumava vestir com horas de antecedência; estava com um casaco de lã surrado, cheio de bolinhas perto dos punhos, e segurava uma caneca fumegante com as duas mãos. O cabelo prateado na raiz fora preso por um prendedor de plástico torto.

— Quatro minutos — disse ela, sem abrir o portão.

— A rampa da avenida tá fechada para recapeamento.

— Não tô contando os minutos, Daniel.

Ele puxou o freio de mão até o último dente da engrenagem.

— Eu sei.

Vera deu um gole longo no café, os olhos fixos na estrutura metálica no teto do veículo.

— Trouxe um trambolho maior que a fachada.

— A sua escada de madeira tá com o degrau do meio podre. Se alguém subir ali, despenca.

— Seu pai subiu naquela escada durante trinta anos.

— E meu pai subia direto no topo sem travar o pé — soltou Daniel, abrindo a porta. A umidade da manhã bateu em seu rosto com cheiro de terra molhada e mato cortado. — Isso não é segurança, mãe. É sorte.

Vera empurrou o portão de ferro. O trilho enferrujado rangeu, um som agudo que fez o cão do vizinho ganir no quintal ao lado. Daniel manobrou para dentro da garagem estreita, recolhendo o retrovisor para não raspar na parede de reboco áspero.

A tinta amarela da fachada estava descascando em placas. Perto da janela da sala, o retângulo de alvenaria mais clara marcava o lugar exato onde a trepadeira-de-são-joão fora arrancada três anos atrás. O número 117 de metal continuava penso, pendurado por um único parafuso torto. Daniel apertara aquele parafuso no inverno passado, mas a bucha de plástico devia ter esfarelado dentro da parede.

Ele foi direto ao porta-malas e desengatou a caixa de ferramentas.

— Tem garrafa de café nova na bancada — disse ela, a voz fraca, abafada pelo vapor da caneca.

— Tomei antes de sair.

— É café forte. Do jeito que você gosta.

— Depois.

— Você fala “depois” pra tudo nessa vida.

Daniel fingiu não ouvir. Desatou a catraca de borracha que prendia a escada de alumínio, o som do metal estalando no ar frio.

O quintal dos fundos guardava a umidade da tempestade de quinta-feira. Poças de água barrenta cobriam o cimento perto do tanque, e uma faixa escura de mofo subia pela parede do depósito. Vera improvisara proteções para as mudas de pimenteira usando garrafas PET cortadas e sacos de lixo presos por pedras. Daniel pisou com cuidado entre os vasos, desdobrou a escada contra a calha de zinco e cravou as sapatas de borracha na calçada.

— Não precisa subir agora — a mãe falou, aparecendo na quina da casa. — O rapaz da imobiliária liga dizendo que vem às dez.

Daniel parou com o pé no primeiro degrau.

— Você falou que era na segunda-feira.

— Ele tinha um buraco na agenda hoje cedo.

— E você disse que sim.

— Eu não tinha nada pra fazer mesmo.

— O telhado tá ensopado, mãe. Se eu não achar essa infiltração antes de ele colocar a placa, qualquer comprador vai pedir trinta por cento de desconto no valor por causa do teto mofado.

— O rapaz da imobiliária não vai subir no forro, Daniel.

— Mas o comprador vai trazer pedreiro.

Vera apertou a caneca contra o peito, o vapor subindo para os olhos estreitados.

— Você não precisa ficar tentando maquiar a casa. Ela tá velha. É o que é.

Ele destravou a haste lateral da escada com um golpe seco da palma da mão.

— Não tô maquiando nada.

— Ficou três minutos encarando o número da parede assim que desceu do carro.

Daniel ajoelhou-se no cimento úmido para checar a estabilidade dos pés metálicos.

— A bucha espanou. Se bater um vento forte, o número cai.

— Deixa cair.

Ele subiu seis degraus até a altura do peito alinhar com a calha. Havia uma maçaroca cinzenta de folhas apodrecidas e terra entupindo a saída do cano de descida. Logo acima, na altura da cozinha, duas telhas francesas tinham as abas trincadas, com frestas escuras por onde a água da chuva escorria direto para o caibro de madeira.

Ele tirou o celular do bolso do casaco, limpou a lente suja de graxa na calça e tirou quatro fotos em sequência. Mediu aproximadamente a abertura usando os dedos.

No terreno vizinho, um cortador de grama a gasolina deu dois solavancos e engatou num ruído ensurdecedor. A vibração do motor alheio parecia fazer a calha de zinco tremer.

Vera gritou algo lá de baixo, mas a voz foi engolida pelo barulho das lâminas cortando o mato.

— O quê? — ele berrou, inclinado sobre o metal.

— Desce daí!

— Já vi o que precisava!

— Então desce logo!

Daniel guardou o aparelho no bolso e começou a recuar os pés. No terceiro degrau, a sola do sapato de couro pisou numa folha de oiti molhada, presa ao ranhurado do alumínio. O pé esquerdo cedeu. A escada deu um estalo e deslocou-se dois centímetros para o lado na parede de reboco.

O coração de Daniel deu um tranco violento contra as costelas. As duas mãos agarraram-se aos montantes laterais com tanta força que os nós dos dedos estalaram. Ele travou o corpo, o peito colado ao alumínio frio, os olhos cravados na parede descascada a centímetros do seu nariz.

O cortador de grama continuava urrando do outro lado do muro. Uma gota grossa e gelada acumulada na calha pingou exatamente no seu pulso exposto.

— Daniel?

— …Tô descendo.

— Você tá bem?

— Tô.

Ele desceu os degraus restantes sem olhar para os próprios pés, um movimento rígido e desesperado. Assim que os sapatos tocaram o cimento firme, desarmou as travas da escada e a recolheu com um solavanco agressivo.

Vera já estava ao lado dele. A mão dela — pequena, gelada, com a pele fina como papel de pão — segurou o tecido do casaco dele perto do cotovelo.

— Você ficou pálido.

— É o vento — disse ele, puxando o braço de leve, sem violência, mas desfazendo o contato. — São só duas telhas. Não precisa trocar a ripa do teto inteiro.

— Eu não perguntei da telha.

Daniel olhou para a luva de pano suja de terra que ela usava na outra mão.

— O sapato escorregou numa folha.

— Eu vi.

— A escada nem saiu do lugar.

Vera soltou o pano da manga dele. O olhar dela caiu para as poças no chão.

— É. Não saiu.

Ele arrastou a estrutura metálica até o corredor lateral, largando-a contra o muro. Abriu a caixa de ferramentas pesada, retirou uma chave de fenda de cabo amarelado, buchas número seis e dois parafusos galvanizados. O número 117 na entrada precisava de prumo.

Por dentro, a casa cheirava ao mesmo passado congelado: óleo de peroba nas portas, o sabonete de lavanda que Vera comprava em caixas de doze unidades e o cheiro denso de mofo no teto. Mas havia um elemento novo e incômodo — o oco. O som dos passos dele ressoava alto demais na sala porque os três quadros da parede da entrada tinham sido removidos. Ficaram apenas os retângulos de tinta amarelada, desbotada ao redor, parecendo marcas de feridas cicatrizadas na alvenaria.

No sofá de corino rachado, empilhavam-se caixas de papelão desmontadas, fita crepe e dois rolos de plástico-bolha. Em uma das caixas, Vera escrevera DANIEL com pincel atômico azul.

Ele parou diante do papelão.

— Por que tem caixa com meu nome?

A mãe vinha do corredor, sacudindo um pano de prato.

— Porque é o que sobrou no seu armário do fundo.

— Eu tirei todas as minhas coisas daqui quando mudei pro centro.

— Ficou o resto.

Daniel dobrou as abas de papelão. Dentro, empilhavam-se cadernos do ensino médio, um troféu de plástico de uma corrida em que ficara em quarto lugar, manuais de aparelhos descartados havia anos e uma camisa de uniforme escolar. Ele pegou o tecido de algodão gasto. O emblema bordado no peito estava amarelado pela umidade.

— Isso não é meu.

Vera encostou no batente da porta.

— É seu, sim.

— O meu nome ficava bordado em fio vermelho no bolso esquerdo. Esse aqui nem bolso tem.

— Vira do outro lado.

Ele virou o colarinho gasto. Na etiqueta interna de pano, DANIEL M. fora escrito com caneta esferográfica azul, a tinta borrada pelo tempo.

— A cor era azul-marinho — murmurou ele. — Isso aqui tá cinza.

— Quinze anos no escuro de uma prateleira faz qualquer coisa perder a cor, Daniel.

Ele dobrou o tecido pelas costuras, alinhando as mangas com rigor doentio, e colocou a camisa de volta no fundo da caixa.

— Vou subir no alçapão do corredor.

A tampa quadrada de madeira ficava no teto do corredor dos quartos. Daniel buscou o banco de madeira da cozinha, subiu e empurrou a placa de compensado para cima. Uma chuva de poeira antiga, teias de aranha e farelo de cupim caiu diretamente sobre seus olhos e cabelo. Ele tossiu, praguejando baixo.

— Tem máscara de pano na primeira gaveta da cômoda — gritou Vera do quarto.

— Não precisa.

— Você trouxe lonas industriais pro carro e não trouxe uma máscara de poeira?

Daniel desceu do banco, foi até a cômoda, pegou a máscara amarelada e voltou.

O espaço entre o teto e o telhado era abafado, tomado por um calor seco e o cheiro acre de madeira velha. Ele avançou de joelhos sobre os caibros principais, a lanterna de cabeça lançando um facho de luz amarelada sobre a fiação antiga de fita isolante. Sobre a área da cozinha, a viga de peroba trazia uma mancha negra e úmida que ainda gotejava devagar. Ele tirou um pedaço de giz do bolso e fez um X bem no centro do ponto podre. Trabalho para meia hora de serviço.

Ele poderia ter descido ali.

Mas os joelhos continuaram se movendo sobre a madeira, arrastando-se no escuro em direção ao vão sobre o quarto do fundo — o quarto que fora de Gabriel.

Lá em cima, acumulavam-se caixas de enfeites de Natal com bolinhas de vidro quebradas, uma estrutura de guarda-chuva retorcida e o motor queimado de um ventilador de teto. Perto do ponto onde o caibro encontrava a alvenaria da parede divisória, Daniel enxergou algo jogado na penumbra: um saco de lixo plástico, ressecado pelo calor dos verões, rasgado na lateral.

Ele estendeu o braço e puxou a sacola pela aba. O plástico esfarelou-se na sua mão.

Dois pregadores de madeira caíram sobre o gesso. Um cabo de extensão de fita cinza. Duas lâmpadas incandescentes queimadas. E uma lanterna prateada de alumínio, pesada, com o corpo cheio de ranhuras.

Daniel pegou o objeto. A liga de borracha sobre o botão de acionamento estava petrificada. Na tampa traseira de rosca, a estrutura trazia marcas profundas de dentes.

Gabriel tinha a mania irritante de segurar aquela lanterna entre os dentes quando precisava ajustar a corrente da bicicleta no escuro do quintal. Vera gritava que o metal ia quebrar os dentes dele ou passar infecção. Gabriel apenas respondia com a boca travada no alumínio, soltando ruídos incompreensíveis e rindo com os olhos.

Daniel apertou o botão. A lâmpada nem piscou; as pilhas dentro deviam ter derramado ácido há uma década.

Ao mover a sacola rasgada para recolher os pregadores, algo pequeno rolou do fundo e bateu no seu joelho. Um retângulo de plástico preto, áspero, do tamanho de uma falange de polegar.

Um cartão de memória SD de capacidade antiga.

Ele o pegou. Na etiqueta adesiva branca, já amarelada e gasta nas bordas, três letras tinham sido gravadas com esferográfica preta: GAB.

— Daniel? — A voz da mãe veio de baixo, o som abafado pela laje. — O rapaz da imobiliária tá no portão!

Ele enfiou o cartão de memória no bolso da camisa de trabalho, fechando o botão com firmeza.

— Tô descendo!

— Encontrou a goteira?

— Achei!

Ele jogou a lanterna de alumínio para dentro dos restos do saco plástico, pegou o volume pela base esfarrapada e desceu do alçapão segurando o peso com uma só mão.

O corretor chamava-se Marcelo. Usava sapatos de camurça bege que pareciam absurdos no cimento encrostado do quintal. Cumprimentou Daniel com um aperto de mão mole, elogiou a iluminação da garagem e perguntou se Daniel era o herdeiro responsável pela venda.

— A casa é da minha mãe — disse Daniel, limpando a poeira do alçapão da manga da camisa.

— Mas a decisão final passa pela família, claro.

— A decisão é minha — cortou Vera, a voz seca.

Marcelo pigarreou, ajeitando a prancheta digital debaixo do braço. Percorreu os cômodos com passos rápidos, fotografando os cantos das paredes e abrindo as folhas de madeira das janelas. Falava num tom profissional e monocórdico sobre potencial de reforma, luz da manhã e valorização da área urbana.

No quarto do fundo, Marcelo elogiou a luz da tarde e sugeriu transformar o cômodo em escritório. Daniel apontou o calor, a posição ruim das tomadas e a fiação antiga até Vera chamá-lo do corredor. Ele fechou a boca.

Na cozinha, Marcelo apontou a prancheta para o teto.

— Marca de umidade. Infiltração antiga?

— Duas telhas trincadas — Daniel adiantou-se. — A calha precisa de vedação de silicone na junta. A viga principal tá íntegra, sem cupim.

— Ótimo. Se você tiver o orçamento do conserto, posso anexar no anúncio.

— Eu mesmo troco amanhã.

— Não precisa — Vera disse, entrando na cozinha com os braços cruzados sobre o peito.

— Vai chover na terça-feira, mãe.

— O comprador pede abatimento no preço e conserta do jeito dele.

— Não tem comprador ainda.

Marcelo deu meio passo para trás, a prancheta colada ao corpo como um escudo.

— Posso ir tirando as fotos do quintal enquanto vocês alinham isso…

— Não precisa se incomodar — Vera disse ao corretor. — Meu filho tem essa mania de querer entregar tudo funcionando, como se a casa ainda fosse dele.

Daniel sentiu o contorno rígido do cartão de memória pressionar a pele do seu peito por dentro do bolso.

— É só o certo a se fazer — disse ele.

— Certo pra quem? — perguntou ela, encarando-o de frente.

Marcelo esgueirou-se pela porta dos fundos sem dizer mais nada.

Quando o corretor finalmente foi embora, o som do motor do carro dele sumindo na rua deixou a casa num silêncio pesado. Vera colocou a chaleira no fogo novamente. Daniel estendeu uma das lonas plásticas que trouxera no chão da cozinha, sob a mancha de umidade, e posicionou um balde de tinta vazio bem abaixo da goteira. Ajustou o balde com o pé duas vezes até alinhar com o giz do teto.

— Ele acha que vende em três meses — Vera disse, de costas para ele.

— Corretor fala qualquer coisa para conseguir a exclusividade.

— Eu assino a papelada na segunda.

Daniel dobrou a borda da lona plástica que encostava no armário.

— A tomada do quarto do fundo esquentou quando liguei a esteira no ano passado. Preciso testar a fiação antes de você entregar a chave.

— Você trocou o espelho da tomada na semana seguinte.

— Pode ter outro ponto de curto na caixa central.

Vera largou a xícara de louça na mesa com um baque seco.

— Senta aí, Daniel.

— Tô com a calça cheia de poeira do forro.

— A cadeira é de fórmica. Senta.

Ele se sentou.

A mãe olhou para a sacola de plástico rasgada que ele largara perto do batente, com o cabo de extensão cinza pendurado para fora.

— De onde você tirou esse lixo?

— Do alçapão. Em cima do quarto dele.

— Tem o quê aí dentro?

— Trapos. Lâmpadas queimadas.

— De quem?

Ele pegou a xícara. O café estava escaldante, mas ele deu um gole pequeno assim mesmo, sentindo a queimadura na ponta da língua.

— A lanterna de alumínio do Gabriel tava lá.

Vera não piscou.

— A prateada com o botão de borracha?

— É.

— Ele disse que tinha perdido essa lanterna no ônibus quando voltava do treino.

— Tava jogada atrás da caixa de Natal.

— Então ele mentiu.

Daniel assoprou a fumaça da xícara.

— Ou alguém escondeu lá em cima.

— Eu não subo naquele alçapão desde que seu pai morreu.

— Nem eu.

Vera aproximou as mãos da xícara sem tocá-la.

— Você vai levar aquilo embora?

— A lanterna?

— Essa tralha toda.

Daniel encarou o corredor escuro.

— Posso jogar no lixo da rua se você quiser.

— Não hoje.

— Você não quer esvaziar a casa pra entregar pro corretor?

— Eu quero esvaziar a casa — a voz dela subiu de tom, trêmula e ríspida. — O que eu não quero é ver você abrindo saco por saco como se fosse achar uma explicação pra aquilo que aconteceu há quinze anos!

A xícara travou a meio caminho da boca de Daniel.

Vera desviou o olhar para a janela da cozinha, o peito subindo e descendo rápido.

— Leva essa sacola pro seu apartamento — disse ela, a voz voltando ao tom baixo e desgastado de sempre. — Faz o que você quiser lá.

Daniel pousou a xícara na mesa de fórmica.

— Venho amanhã cedo com as duas telhas novas.

— Eu chamo o pedreiro da rua de cima.

— Já medi o vão, mãe. São vinte minutos de serviço.

— Daniel, eu não quero você subindo naquele telhado.

— Foi só uma folha molhada na escada.

— Não é a queda que me preocupa!

Ele esperou. O silêncio na cozinha era pontuado apenas pelo chiado leve da geladeira velha na parede oposta.

Vera passou o polegar pela alça da caneca, raspando o esmalte descascado.

— Toda vez que você pisa aqui, a casa parece voltar exatamente pro mesmo dia — disse ela, sem olhá-lo. — Você anda devagar pelos cômodos. Olha pro chão antes de pisar no quarto dele. Conserta coisas que não fazem diferença nenhuma só pra ter um motivo pra ficar mais dez minutos. E depois vai embora pro seu apartamento e passa cinco dias sem atender a porcaria do celular.

Daniel olhou para o balde no chão. Estava dois centímetros deslocado para a esquerda em relação à mancha do teto. Ele levantou-se, ajoelhou-se e moveu o plástico.

— Vai chover na terça — repetiu, a voz cavada.

— Eu ouvi.

— Se a água entrar pela fresta da telha, vai escorrer pelo caibro até a caixa de distribuição do corredor.

— Tá bom, Daniel.

Ele ficou com as duas mãos apoiadas na borda do balde de tinta.

— Chego às oito.

Vera apenas assentiu com a cabeça.

Ele bebeu o resto do café em pé, o líquido amargo queimando a garganta.

Na saída, carregou a sacola rasgada, a caixa de papelão com seu nome e duas telhas francesas antigas que ficavam acumuladas atrás do depósito. Antes de entrar no carro, pegou a chave de fenda e apertou os parafusos novos no número 117 da fachada. Empurrou o metal de levezinho com o polegar. Firme.

— Agora não cai mais — disse ele.

Vera estava parada no portão, o casaco de lã fechado até o pescoço.

— Até o próximo vento tirar.

No apartamento do centro, Daniel largou a caixa no meio da sala. O relógio de pulso de Gabriel continuava sobre o aparador, virado para a parede. Pela primeira vez em dias, Daniel pegou o couro ressecado e o fivelou no próprio pulso. A pulseira travou no último pino, apertando a pele até marcar o osso.

Ele o arrancou do braço e o jogou ao lado do monitor do computador.

O cartão de memória antigo não cabia na entrada lateral do notebook. Daniel encontrou um leitor USB numa gaveta, limpou os contatos esverdeados com álcool isopropílico e inseriu o cartão.

O sistema operacional soltou um estalo curto. Nenhuma pasta abriu.

Tentou a porta traseira. Reiniciou a máquina. Abriu o gerenciador de partições. O disco aparecia como Não Inicializado.

Às 14h23, encontrou uma assistência técnica a seis quarteirões dali. A atendente avisou por telefone que a loja fecharia às quatro e que talvez o cartão precisasse ir para um laboratório.

— Eu só preciso saber se tem arquivo dentro.

— A gente só sabe depois do teste.

Daniel olhou para o pequeno retângulo de plástico preto na mesa.

— Tô indo aí agora.

A loja cheirava a fumaça de solda e plástico queimado. A garota do balcão preencheu uma ordem de serviço em papel de carbono e enfiou o cartão SD num envelope antiestático cinza.

— Sabe o que tinha gravado nele?

— Fotos.

— Família? Arquivo pessoal?

Daniel demorou a responder, o olhar fixo no envelope cinza.

— Não sei.

Ela marcou a opção Recuperação de Mídia Removível e pediu um número de telefone. Daniel revisou cada algarismo antes de devolver a caneta. Depois se sentou perto da entrada e passou quase uma hora encarando os dígitos do relógio de uma televisão sem som.

Às 15h07, a atendente fez um sinal com a mão.

— Deu sorte. O cartão tá perfeito. A controladora do seu leitor caseiro é que devia tá queimada.

Ela virou a tela do monitor CRT para o lado dele. Uma pasta nomeada DCIM_100 exibia cento e oitenta e seis arquivos de imagem.

— Quer que jogue tudo num pendrive?

Daniel viu miniaturas quadriculadas: trechos de mato, o pneu de uma bicicleta, cantos de calçadas, rostos em megapixels baixos.

— Pode abrir a primeira?

Ela deu um duplo clique.

A imagem expandiu-se na tela. Gabriel estava diante do espelho do banheiro da casa da mãe, a câmera digital cobrindo metade do seu rosto. O cabelo preto e desgrenhado caía sobre os olhos. Daniel tinha esquecido completamente que, naquele começo de ano, o irmão passara quatro meses sem cortar o cabelo, provocando brigas diárias com Vera.

A foto seguinte era um borrão escuro de movimento. A outra mostrava o cachorro da vizinha latindo junto ao muro. A quarta era Vera, de pé ao lado do fogão, apontando uma colher de pau para a câmera com uma expressão de falsa irritação.

Daniel ergueu a mão.

— Volta uma.

— Essa do cachorro?

— A da minha mãe.

A atendente clicou. Vera estava fora de foco, mas a iluminação da janela da cozinha pegava a lateral do seu rosto. Ela sorria. Havia vapor subindo de uma panela de alumínio no fundo. Gabriel devia ter falado algum absurdo antes de apertar o botão. Daniel reconheceu a curvatura da boca da mãe, mas o som daquela risada não veio à sua mente.

— Faço a cópia pro pendrive? — perguntou a garota.

— Faz.

Enquanto a barra de progresso verde avançava lentamente na tela, Daniel fixou os olhos nos metadados exibidos no rodapé do programa. Data de Criação. Janeiro de 2011. Fevereiro de 2011. Algumas imagens sem registro de hora.

As últimas fotos da lista tinham sido registradas no dia dezessete de agosto de 2011. A noite em que Gabriel não voltou para casa.

Uma miniatura no final da fila mostrava uma estrutura de alvenaria comprida, coberta de pichações velhas e mato alto.

— Abre essa aí — disse ele, a voz rasgando.

A garota clicou.

Era a fachada da antiga Estação Ferroviária de Santa Augusta, vista pelo lado de fora da grade de ferro do acostamento. O prédio de tijolos à vista ocupava quase toda a cena. Janelas lacradas com tábuas de madeira compensada, metade das telhas do caimento arrancadas, o letreiro de ferro fundido com o nome da cidade ainda visível sob a fuligem. Gabriel tirara a foto no final da tarde; a sombra longa da grade atravessava o piso de cimento da plataforma abandonada.

Daniel deu um passo à frente, encostando o peito no balcão de fórmica.

— Qual é o horário dessa foto?

A atendente passou o cursor sobre o arquivo.

— Dezessete de agosto de 2011. Às dezoito e quarenta e nove.

Daniel conhecia a data. Não precisava fazer cálculo nenhum.

— Tem mais fotos depois dessa?

Havia nove arquivos na sequência. A lateral do galpão de carga. Um buraco quadrado cortado no alambrado de proteção. Os trilhos enferrujados engolidos por mato alto. Uma placa de sinalização caída na brita.

E a última foto.

Na imagem, uma mão segurava o relógio de pulso de couro marrom contra o fundo escuro da plataforma abandonada. O facho da lanterna de alumínio iluminava o mostrador de vidro riscado.

Os ponteiros de aço do relógio cravavam exatamente 19h12.

O mesmo relógio que agora estava jogado sobre a mesa do apartamento de Daniel.

— O arquivo foi salvo às dezenove e treze — a atendente comentou, franzindo a testa para o relatório. — Essas câmeras digitais antigas desregulavam o relógio interno se ficassem sem pilha.

Daniel não disse nada. O ar parecia ter ficado pesado na loja de informática.

— Moço?

— Copia tudo pro pendrive.

Ele pegou o dispositivo de memória às 15h36. Pagou em dinheiro, guardou o cartão SD no envelope antiestático e caminhou até o carro sob o sol úmido da tarde.

Dentro do veículo, não deu partida. Ficou parado no banco do motorista, as duas mãos apertando o volante de couro sintético até os nós dos dedos ficarem brancos. Um carro saiu da vaga ao lado. Outro ocupou o espaço. O som da porta de aço da loja de informática sendo baixada pela atendente ecoou na rua.

Daniel pegou o celular e abriu o aplicativo de navegação.

Digitou: Estação Ferroviária de Santa Augusta.

O mapa exibiu um ponto cinza no limite do distrito industrial, a onze quilômetros da sua casa. Desativado. Havia fotos tiradas por pichadores, duas avaliações de moradores reclamando do acúmulo de lixo e um aviso em vermelho da prefeitura sobre risco de desabamento da estrutura.

Ele clicou em Iniciar Rota.

A linha azul cortava a cidade: vinte e dois minutos de trajeto. As duas primeiras avenidas ele conhecia de cor. Depois, a linha dobrava para uma região de galpões abandonados por onde ele não passava há quinze anos.

A voz sintetizada do GPS pediu que ele fizesse o retorno na esquina.

Daniel encarou o painel do carro. O motor continuava desligado.

Ele tocou na tela do celular e cancelou a rota.

Engatou a primeira e dirigiu de volta para o seu apartamento.

À noite, abriu os arquivos do pendrive no monitor grande da sala. Organizou as fotos por ordem cronológica, ajustou a orientação de quatro arquivos e salvou duas cópias em discos externos diferentes. Não deu zoom no rosto do irmão. Deu zoom na grade de ferro, no buraco do alambrado, nas marcas de tinta no concreto da plataforma.

Na última fotografia — o relógio iluminado no escuro da estação —, ele aproximou a imagem até os pixels da pele da mão de Gabriel virarem blocos disformes de cor. Procurou no cimento, na borda do mostrador e no reflexo do vidro alguma coisa que explicasse por que o irmão fotografara aquele horário. Não encontrou.

Ele checou os metadados do arquivo uma última vez.

19:13:08.

Abriu a pasta seguinte. Vazia.

Aquele era o último registro deixado por Gabriel antes da noite em que morreu: o relógio marcando 19h12 na Estação de Santa Augusta, quatro horas e quarenta e seis minutos antes da morte.

Daniel estivera com ele na mesma plataforma às 23h58. Mas nunca soubera que Gabriel passara ali horas antes — muito menos que fotografara os trilhos e o relógio.

Daniel pegou o relógio de pulso sobre a mesa, colocou-o no braço e alinhou os ponteiros de aço com o relógio digital do computador. Quando os segundos zeraram no monitor, empurrou a coroa de metal para dentro. Os dois relógios começaram a marchar em sincronia.

Às 23:40, pegou o celular da mesa.

Abriu o aplicativo de mapas. Não iniciou a rota. Apenas marcou o ponto da estação abandonada com uma estrela amarela de preferência.

Depois, pegou a lanterna de alumínio prateada que tirara do forro da mãe. Abriu a tampa traseira, raspou a mola enferrujada com a ponta da tesoura e colocou duas pilhas novas. O botão de borracha cedeu sob a pressão do seu polegar com um estalo seco.

Um facho de luz branca, forte e focado, cortou a escuridão da sala, projetando um círculo brilhante na parede oposta.

Ele apagou.

Acendeu novamente.

Na terceira vez, o facho manteve-se estável, sem oscilar.

Daniel colocou sobre a cadeira ao lado da porta uma jaqueta de lona impermeável, o guarda-chuva de cabo de madeira e o carregador portátil do celular.

Amanhã cedo, trocaria as duas telhas do telhado da mãe.

E depois iria até a estação.

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