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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2317 MIN

Depois esperou.

As marcas numeradas iam do doze ao oito e ocupavam pouco mais de metade de cada mostrador. O restante continuava vazio.

César segurava os óculos da testemunha.

A haste torta entrara na palma. Ele olhava através de uma lente para a porta de ferro.

UMA PASSAGEM DEVERÁ PERMANECER.

UM PASSAGEIRO DEVERÁ RETORNAR.

— Eu vim por quem saiu viva — repetiu.

Desta vez, a sala não respondeu.

Daniel ainda trazia o bilhete recusado de César.

Lívia permanecia perto da mesa, quieta, com a fibra cinza guardada no bolso. Seu olhar alternava entre os óculos e o rosto de César. Talvez tentasse preencher o espaço que ele deixara depois da frase. Talvez soubesse que qualquer pergunta errada lhe daria um lugar para se esconder.

Foi Helena quem falou.

— Fazer o quê com ela?

César desviou os olhos da porta.

— Você sabe.

— Quero ouvir de você.

O número oito perdeu um pouco da cor.

Ele percebeu.

César fechou os olhos.

— Eu queria que ela não lembrasse.

A marca retornou.

Um ruído leve percorreu os compartimentos de latão, como unhas tocando por dentro de cada tampa.

Helena esperou.

— Não lembrasse do assalto? — Daniel perguntou.

César colocou os óculos sobre a mesa. A armação pousou torta, sustentada por uma lente e pela ponta da haste deformada.

— De mim.

O número nove surgiu no primeiro mostrador.

Depois no segundo.

A sequência avançou pela parede, relógio por relógio, até todos marcarem nove sem possuir ponteiros.

Lívia olhou para a porta. Nada se moveu.

— Você ia apagar seu rosto — disse.

— O reconhecimento. Minha voz. O jeito que eu andava. O que ela tivesse guardado.

O dez começou a aparecer, mas parou pela metade.

Helena aproximou-se da mesa e olhou os óculos sem tocá-los.

— Foi isso que fez comigo? Só o necessário?

A gota caiu da palma de César sobre uma das lentes. Através dela, pareceu maior, escura como uma pupila.

— Com você eu não sabia dosar.

— E mesmo assim fez.

— Fiz.

A metade do dez ganhou mais um traço.

— Poderia ter apagado Marina. Poderia ter levado mais de mim.

— Poderia.

O número dez se completou em todos os relógios.

Nenhum deles celebrou a resposta do vagão.

Helena respirou pelo nariz. O ar entrou irregular e foi contido por tempo demais antes de sair.

— E faria isso com ela sabendo do risco.

César encostou as pontas dos dedos no tampo da mesa. Um, dois, três, quatro, alinhados junto aos óculos. O sangue da palma deixou uma impressão incompleta.

— Eu precisava que ela não falasse.

— Não foi o que perguntei.

— Eu sei.

— Faria?

Ele passou a língua pelo lábio inferior. A resposta estava pronta em algum lugar, mas não recebeu voz.

Daniel colocou o bilhete recusado ao lado dos óculos.

— Se tivesse apagado demais, o que aconteceria?

César ergueu o rosto.

— Ela esqueceria uma noite.

— Ou mais.

— Talvez.

— O rosto de outras pessoas?

— Não funciona assim.

— Você acabou de dizer que não sabia dosar.

César afastou a mão da mesa. A marca de sangue permaneceu como quatro pequenos postes diante dos óculos.

— Eu aprenderia.

O dez rachou em três mostradores.

A sala produziu um som de corda tensa.

Lívia se aproximou um pouco.

— Aprenderia testando em quem?

O orgulho dele tentou tornar a pergunta pequena. Não conseguiu.

— Em quem estivesse perto.

Os relógios marcaram onze.

A porta de ferro gemeu.

Não abriu. A união das duas folhas ganhou uma faixa mais clara, e a ranhura destinada aos bilhetes se alargou alguns milímetros.

César acompanhou a mudança.

— Está quase — Daniel falou.

— Não fala como se fosse um conserto.

A resposta veio sem agressividade. Apenas cansada.

Daniel aceitou o corte e ficou quieto.

Helena tomou os óculos da mesa. O sangue na lente sujou a ponta de seu indicador. Ela os ergueu diante do rosto de César.

— Diga o que veio fazer.

Ele olhou através da lente manchada.

O vagão apareceu dentro dela como uma sala menor. No fundo, a mulher da loja estava de pé atrás do balcão. Não caída. Viva. A armação verdadeira ainda no rosto, uma mão junto à boca, o corpo encolhido contra prateleiras que Daniel e Lívia não conseguiam ver sem o auxílio do vidro.

César respirou uma vez.

— Eu vim apagar a memória dela.

O doze surgiu abaixo do onze, fechando o círculo de marcas.

Todos os relógios ficaram completos.

Ainda sem ponteiros.

A porta permaneceu fechada.

César observou o ferro por alguns segundos. Um músculo junto ao olho direito começou a pulsar.

— Pronto.

Ninguém se moveu.

— Eu disse.

Helena baixou os óculos.

— Disse o que queria fazer.

— Era a pergunta.

— Não a da porta.

César soltou o ar com força e se afastou da mesa. Deu três passos em direção à inscrição, parou dentro do retângulo de ferro que o aceitara antes e abriu os braços.

— Quer mais o quê? Nome, endereço, número do processo? Quer que eu descreva como pensei em tocar nela? Eu contei.

Os números nos relógios permaneceram. Nenhum ponteiro apareceu.

— Você confessou — Helena disse. — Não desistiu.

Ele a encarou.

— A diferença é semântica agora?

— Não.

— Parece bastante.

— Se a porta abrisse e colocasse você diante dela hoje, o que faria?

A pergunta não produziu reação imediata na sala.

Em César, produziu.

Seus braços baixaram. O pé esquerdo escorregou para trás até encontrar a borda do retângulo, mas ele não saiu. Os olhos foram para os óculos, depois para a ranhura na porta.

Daniel percebeu a resposta antes que ele falasse.

— Você ainda faria — disse.

— Eu não disse isso.

— Também não disse que não.

— Não sei o que faria.

O doze apagou-se.

Depois o onze.

As marcas começaram a desaparecer em sentido contrário, uma por segundo.

César virou-se para os relógios.

— Não. Eu contei tudo.

Dez sumiu.

— Você contou o plano — Helena falou. — Ainda está esperando a chance de executá-lo.

Nove perdeu a cor.

César saiu do retângulo e atravessou a sala até ela. Parou a uma distância em que poderia tomar os óculos, mas não tentou.

— Se eu voltar sem mudar nada, meu irmão morreu por quê?

— A morte dele não vira outra coisa porque você apaga uma mulher.

— Ela é a única razão de eu…

Interrompeu-se.

Oito ficou pálido.

Helena inclinou a armação. O reflexo da testemunha atravessou o rosto de César.

— A única razão de você ser condenado?

Ele mordeu a resposta.

Sete desapareceu.

— Diga — Helena pediu.

Não era uma ordem. Também não era gentil.

— Ela me reconheceu.

Sete retornou.

— E isso significa?

— Que eu vou preso.

Oito voltou.

— Pelo assalto. E pelo resto que encontrarem.

O nove surgiu.

Helena pousou os óculos sobre a mala.

César passou a mão pela lateral da camisa. Os dedos encontraram o curativo encharcado. Em vez de pressionar, descolou uma borda que dobrara para dentro e a alisou com cuidado, concentrado no pequeno trabalho.

— Se eu voltar — começou —, não existe uma versão em que isso simplesmente acaba.

— Não.

— Ela depõe.

— Sim.

— Vão encontrar o resto.

Helena esperou.

— Sim — ele mesmo completou.

O dez surgiu novamente.

— E você responde pelo que fez — Daniel disse.

César ergueu os olhos. Não havia provocação neles, apenas uma resistência dura, antiga, que já não encontrava palavras rápidas para se vestir.

— Fácil falar quando seu crime é ter chegado cinco segundos tarde.

Daniel recebeu a frase sem alterar a postura. O relógio de Gabriel permanecia parado em seu pulso.

— Não é fácil.

— Você não sabe como é uma cela. Nem o que acontece quando seu nome passa a significar uma coisa só.

— Não — Daniel respondeu.

Lívia sentou-se na borda da mesa. Seus pés não tocavam o chão. Ela olhava para os relógios, mas falou com César:

— No outro vagão, você quase perdeu o nome inteiro.

Ele tocou a etiqueta presa ao punho.

— Eu lembro.

— A gente continuou dizendo.

César passou a unha sobre as letras endurecidas por sangue.

— Lembro disso também.

— Então seu nome não fica só com quem julga você.

Helena voltou o rosto para a garota. Daniel também. Lívia encolheu um ombro, desconfortável com a atenção, e soprou o cabelo para longe dos olhos.

César não respondeu.

O onze reapareceu.

Na parede, os relógios receberam ponteiros pela primeira vez sem apontá-los para baixo. As hastes surgiram na posição de oito horas — a última marca alcançada — e ficaram imóveis.

— Se eu não apagar — César disse, mais para o piso que para eles —, ela continua lembrando.

Helena pegou os óculos e os colocou nas mãos dele.

— Continua.

— Pode ter pesadelos. Pode olhar para todo homem de capuz e…

— Já pode.

O dedo de César percorreu a haste torta.

— Eu não consigo devolver a ela os anos desde o assalto. Nem ao meu irmão.

— Não.

O silêncio depois desse último não foi vazio. César se sentou no retângulo de ferro, sem se importar com o frio do piso. Apoiou os antebraços nos joelhos e deixou os óculos entre as mãos abertas.

Os ponteiros avançaram um minuto.

O som foi enorme.

Não tique-taque. Um só deslocamento de metal, dezenas de mecanismos assumindo a mesma medida.

César olhou para o bilhete recusado sobre a mesa.

— Quando ele caiu — disse —, eu vi o rosto dele.

Daniel não perguntou quem.

— Meu irmão estava com raiva. Não de mim. Da dor, talvez. Ou do chão. Eu sempre… — César passou o polegar sobre a lente, espalhando o próprio sangue. — Sempre disse para mim que ele queria que eu corresse. Mas não disse nada. A boca dele se mexeu e eu escolhi a frase depois.

Helena puxou um dos suportes de latão para perto, mas não se sentou. Ficou com a mão apoiada nele.

— Qual frase?

— Vai.

A palavra saiu quase inaudível.

O doze retornou aos relógios.

César soltou uma respiração curta.

— Talvez tenha sido meu nome. Talvez ele só tenha tentado respirar. Eu fiz virar “vai” porque precisava sair pela porta.

Os ponteiros avançaram outro minuto.

— E continuou saindo desde então — Daniel disse.

César olhou para ele.

A pergunta certa já estava ali, embora Daniel não a formulasse como acusação. César viu o bilhete inteiro, a palavra recusado, a porta que não aceitara seu corpo e os óculos de uma mulher viva.

— Se ela estivesse aqui agora — Daniel falou —, você pediria que esquecesse ou diria seu nome?

César baixou os olhos para a etiqueta.

O sangue tornara MORAES quase ilegível. Ele desatou o nó com dificuldade. A tira de tecido aderira aos pelos do punho; quando saiu, deixou uma faixa clara na pele.

Colocou a etiqueta ao lado dos óculos.

— Eu diria.

Os ponteiros avançaram.

— O quê? — Helena perguntou.

César abriu a boca. Fechou. A primeira resposta morreu sem som.

Então se levantou.

Pegou o bilhete recusado. A palavra no verso havia secado. Ele não o rasgou. Alisou as dobras contra o tampo da mesa e o virou para que o nome ficasse para cima.

— César Moraes — disse.

Todos os relógios marcaram doze.

Os ponteiros longos e curtos se encontraram no alto.

A porta de ferro produziu um estalo interno.

Ainda não abriu.

César continuou, olhando para o bilhete, não para o grupo:

— Eu entrei naquela loja. Meu irmão morreu lá. Eu deixei ele no chão e fugi. Uma mulher me viu. Eu vim neste trem para apagar a memória dela e escapar do que acontece quando ela disser meu nome.

A ranhura da porta se iluminou.

— E eu não vou fazer isso.

Nenhum relógio reagiu de imediato.

César ergueu o bilhete.

— Não quero outra chance de tocar nela. Não quero uma versão em que ela olha para mim e não sabe por que tem medo. Não vou impedir o depoimento. Não vou apagar o rosto. Não vou mudar aquela noite.

A palavra RECUSADO sumiu do verso.

Em seu lugar, surgiu RETORNO.

O ferro sob os pés deles vibrou.

César colocou o bilhete na ranhura.

Desta vez, a porta aceitou.

O papel entrou sem ser puxado por mão alguma. A luz percorreu a borda, leu o nome e atravessou as duas folhas de ferro como uma linha de calor.

Os relógios começaram a funcionar.

Dezenas de horários diferentes. Ponteiros avançando, atrasando, girando uma volta completa ou apenas um minuto. O som preencheu a sala até deixar impossível distinguir um mecanismo do outro.

A porta abriu uma fresta.

Do outro lado não havia o vagão seguinte.

Havia uma plataforma vazia sob luz de madrugada. Ladrilhos úmidos. Um banco de concreto. O céu começando a clarear sobre prédios distantes. Não era Santa Augusta; nenhuma placa de nome ficava visível. O ar trazia cheiro de rua molhada e combustível.

César olhou.

Não atravessou.

— Falta uma coisa — disse.

Helena ficou rígida.

— A porta abriu.

— Eu sei.

Ele se virou para Daniel.

— Quando roubei os bilhetes, você me viu.

Daniel franziu a testa.

— Vi você fugir.

— Depois. Antes disso.

César pegou os óculos da testemunha e os ergueu entre os dois. A lente manchada capturou o reflexo de Daniel, mas o devolveu incompleto: faltava uma faixa junto ao ombro, um vazio do tamanho de uma mão entrando no bolso de seu casaco.

— Você estava segurando Lívia na plataforma — César disse. — Eu passei por trás. Você sentiu minha mão e virou. Olhou direto para mim.

Daniel procurou o instante. Encontrou chuva, o corpo da garota falhando contra o seu. Depois, bolsos vazios. Entre uma coisa e outra, nada.

— Você apagou.

— Pouco. Um segundo, talvez dois. O suficiente para eu alcançar a passagem antes de você dizer meu nome.

Lívia tocou o próprio bolso. A lembrança do abraço já não estava nela; agora descobria que parte daquele mesmo momento faltava em Daniel por escolha de César.

Ele não tentou se defender.

— Posso devolver.

Helena se aproximou.

— Qual é o custo?

César olhou para os relógios em movimento.

— Descobri quando tirei de você. Para abrir espaço numa pessoa, alguma coisa sai de mim. Naquela hora foi pequena. Um cheiro. Uma rua. Não percebi.

— E agora?

— Não sei.

Daniel olhou para a porta aberta, para a madrugada esperando César.

— Não precisa.

— Precisa, sim.

— Você já desistiu.

— Disso, não.

Ele segurou os óculos diante do rosto de Daniel. Não tocou sua testa. Virou a lente até capturar a luz da porta, e o reflexo incompleto ganhou profundidade.

Dentro do vidro apareceu a plataforma do Vagão 3.

Daniel abraçava Lívia enquanto o corpo dela perdia linhas. Atrás dele, César se aproximava curvado pelo ferimento. A mão passava pela lateral do casaco. Dois dedos entravam no bolso. Daniel virava.

O olhar dos dois se encontrava.

Então a imagem dobrava sobre si mesma e desaparecia.

César respirou sobre a lente.

O vidro embaçou, mas a condensação não se espalhou. Reuniu-se em pequenos círculos concêntricos, cada um contendo uma parte do instante: dedos no tecido, o peso do bilhete saindo, a etiqueta com o nome de César, o reflexo de Lívia no olho de Daniel.

Com a unha, César retirou o círculo menor.

Ele veio do vidro como uma película molhada, transparente, presa à ponta do dedo.

Daniel recuou por reflexo.

— Não vou tocar sua cabeça — César disse.

Aproximou a película do relógio de Gabriel.

O mostrador a puxou.

A memória entrou pela borda do relógio e girou sob os ponteiros parados. Daniel sentiu no bolso a pressão de dois dedos afastando o tecido; depois, o instante em que reconhecera o roubo.

Voltou inteiro.

Daniel cambaleou para trás.

Não era uma visão. Era sua. A raiva surgiu com quinze minutos de atraso, ou horas, ou o tempo que o trem tivesse escondido. Ele se lembrou de abrir a boca para chamar César e de ver o polegar dele tocar sua manga. Lembrou-se do vazio entrando no meio da frase.

— Você… — começou.

César soltou os óculos.

Helena os pegou antes que caíssem.

O preço chegou sem luz.

César virou o rosto para a porta e sorriu para alguém que não estava ali.

O sorriso durou menos de um segundo.

— O cabelo dele era… — disse.

Parou.

Levantou a mão à altura do próprio rosto, como se pudesse desenhar no ar a linha de uma testa, a ponte de um nariz, a curva de uma boca. Os dedos encontraram posições diferentes e abandonaram todas.

— Era mais claro que o meu.

Ninguém falou.

César fechou os olhos.

— Acho.

Tentou outra vez. O polegar marcou uma covinha que já não sabia em qual lado ficava. A mão caiu.

— Eu lembro da jaqueta — murmurou. — Azul. O zíper quebrado. Ele mastigava do lado esquerdo. O som da risada… eu lembro.

Abriu os olhos.

— O rosto não.

Os relógios continuaram funcionando, indiferentes.

Lívia retirou a fibra cinza do bolso. Olhou para ela, depois para César. Dois fatos sem sensação. Duas pessoas carregando bordas de lembranças que não podiam mais preencher.

Ela estendeu o fio.

— Não ajuda — disse. — Mas guardar alguma coisa ajuda um pouco.

César observou a fibra na palma dela. Não a pegou.

— É do seu pai.

Lívia fechou os dedos sobre o fio.

— Eu sei porque me contaram.

Ele assentiu.

Helena limpou o sangue da lente com o pedaço da camisa manchada de graxa e ofereceu os óculos a César.

— Leve.

Ele não aceitou.

— São dela.

— Então devolva.

César olhou para Helena por um tempo longo. Não havia perdão no gesto dela. Havia tarefa.

Ele recebeu os óculos.

— Obrigado por não me deixar naquele vagão.

Helena apertou os lábios. A mão que entregara os óculos permaneceu no ar entre eles e, em vez de buscar contato, fechou-se devagar.

— Não faça disso uma dívida — respondeu.

César guardou a armação no bolso interno do casaco.

Daniel ainda sentia a lembrança devolvida acomodando-se entre as outras. O instante tinha bordas ásperas, como uma peça recolocada no lugar errado. Ele encarou César.

— Eu não confio em você.

César assentiu.

— Eu sei.

— Devolver não apaga o que fez.

— Eu sei.

César olhou para a plataforma de madrugada.

— Lá fora, ela ainda lembra meu rosto.

Foi até a porta.

O ferimento o fazia arrastar levemente o pé, mas ele recusou o apoio da parede. Na soleira, retirou a etiqueta ensanguentada com o próprio nome e a colocou sobre a mesa, ao lado da mala do criador.

Lívia apontou.

— Vai precisar disso.

César olhou para as letras endurecidas.

— Acho que, desta vez, não posso esquecer.

Pegou a etiqueta outra vez e amarrou-a no punho. O nó ficou frouxo. Helena avançou um passo, ajustou-o com dois movimentos precisos e se afastou antes que o gesto pudesse parecer íntimo.

César não tentou fazer piada.

— Daniel.

Ele esperou.

— Quando chegar a sua vez… não escolha a frase depois.

Daniel levou o polegar ao relógio de Gabriel. Não respondeu.

César aceitou o silêncio.

Olhou para Lívia.

— Você ainda sopra o cabelo igual a ele.

— Igual a quem?

— A você mesma.

Ela franziu a testa. César quase sorriu, mas deixou o movimento passar sem completá-lo.

Por fim, voltou-se para Helena.

Nenhum dos dois encontrou uma despedida que não mentisse.

Ela indicou o bolso com os óculos.

— Não perca.

— Não vou.

César atravessou.

A luz da madrugada apenas o recebeu. Um pé nos ladrilhos, depois o outro. Por um instante, César esperou que a realidade o recusasse também.

Ela não recusou.

A porta começou a fechar.

Ele não se virou de imediato. Quando virou, a fresta já era estreita. O rosto apareceu dividido pelo ferro, uma metade dentro do trem, outra sob o céu claro.

Nenhuma última frase.

A porta fechou.

Os relógios pararam todos em horários diferentes.

Na folha direita da porta, as palavras UM PASSAGEIRO DEVERÁ RETORNAR afundaram no metal até desaparecer. Na esquerda, UMA PASSAGEM DEVERÁ PERMANECER resistiu por mais alguns segundos.

Depois também sumiu.

O ferro se dividiu novamente.

Desta vez, do outro lado havia um corredor estreito, iluminado por lâmpadas vermelhas. O cheiro de óleo, carvão e eletricidade quente entrou na sala. Muito adiante, alguma coisa pesada se movia com o ritmo de uma respiração.

Daniel olhou para o lugar vazio junto à mesa.

O quinto suporte de latão, antes tombado, estava em pé.

O sexto continuava ausente.

Helena fechou a mala. Lívia guardou a fibra cinza. Daniel cobriu o relógio com a manga.

Os três atravessaram a porta que César deixara aberta.

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