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Sair

Nenhum deles discutiu.

O trem também não lhes deu tempo.

A moldura bateu duas vezes contra a parede, acompanhando o balanço das rodas, e o homem da fotografia voltou a ser apenas um homem parado diante de uma locomotiva. Terno escuro, relógio de bolso, a mão pousada no ombro do menino menor. A mulher ao lado dele tinha o rosto voltado para o sol. Quatro pessoas apertadas num retângulo amarelado, todas inteiras porque nenhum segundo ainda havia passado para elas.

Daniel procurou o reflexo do próprio rosto no vidro. Encontrou a mancha clara do bilhete sobre o peito e, atrás de si, os quatro riscos queimados na madeira.

Quatro.

O quinto não estava desbotado. Não havia cinza, contorno ou marca de raspagem. A parede naquele ponto parecia nova, como se jamais tivesse recebido fogo.

Helena abriu a mão ferida.

O sangue já havia alcançado a base dos dedos e pingava no tapete verde. Cada gota era absorvida devagar, escurecendo os pelos antes de desaparecer. A garota acompanhou a terceira. Agachou-se, mas não chegou a encostar no chão.

— Ele está bebendo.

— É tecido — disse Helena. A voz saiu baixa. Ela apertou a palma com o polegar da outra mão, testou o movimento dos dedos e tornou a fechá-los. — Absorve líquido.

O tapete devolveu a gota.

Primeiro veio o brilho úmido. Depois o vermelho subiu entre os pelos, reuniu-se numa esfera perfeita e flutuou até a altura do joelho de Helena. Ficou ali por um instante. Quando o vagão inclinou, a esfera não acompanhou.

César afastou a barra da calça antes que ela o tocasse.

A gota estourou sem som.

Onde o sangue atingiu a parede, apareceu por meio segundo um quadrado de azulejo branco. Em seguida, madeira outra vez.

Helena desabotoou o punho do casaco com os dentes e tentou rasgar a bainha interna. O tecido resistiu. César tirou um lenço dobrado do bolso traseiro e o estendeu, mas ela não o aceitou de imediato.

— É um lenço — disse ele. — Não uma declaração de confiança.

Ela examinou o pano. Branco, duas letras bordadas num canto.

— Está limpo?

César inclinou a cabeça, ofendido na medida exata para parecer brincadeira.

— Ia oferecer o sujo, mas você fez uma pergunta técnica.

Helena pegou o lenço. Dobrou-o em três, colocou sobre o corte e fechou a mão. A linha vermelha atravessou o bordado de uma das letras.

A garota ainda olhava para o ponto onde a gota havia sumido.

— Não devia devolver.

— O quê? — Daniel perguntou.

Ela esfregou a sola do tênis no tapete, cobrindo o lugar. A fita vermelha da lembrança da pipa continuava pendurada sobre sua cabeça; cada vez que o vagão balançava, a ponta roçava seus cabelos.

— Nada.

Daniel esperou. Ela não completou.

Ao fundo, o rádio da cozinha chiou dentro da parede e encontrou por acaso dois segundos de uma música antiga. Vera costumava cantar aquela parte com a voz alta demais. Gabriel entrava depois, sempre atrasado, inventando a letra quando não sabia.

Daniel conseguiu ouvir a mãe.

Havia espaço para outra voz ao lado.

Ele prendeu a respiração até a música se perder novamente no ruído. Nenhum som ocupou o espaço. Nem a voz de Gabriel, nem uma imitação ruim criada pela vontade de lembrar. Apenas a certeza física de que alguém deveria estar cantando ali, do mesmo modo que a cadeira no quintal de César deveria conter uma pessoa.

Daniel virou-se para ele.

César havia retirado a fotografia da parede.

Não tocava o vidro. Segurava a moldura pelas laterais, mantendo os dedos longe das quatro figuras.

— Você ouviu — disse Daniel.

— Ouvi muita coisa desde que entrei aqui.

— A pergunta sobre a cadeira.

César ergueu a moldura em direção à luz, como se procurasse uma inscrição sob o papel.

— E eu achando que íamos conversar sobre a família de mil novecentos e quarenta e sete.

Helena terminou de enrolar o lenço na mão. Em vez de dar um nó, prendeu uma ponta sob a outra e apertou com os dentes.

— Coloque a fotografia de volta.

— Não estava presa.

— César.

Ele soprou um grão de poeira do canto da moldura. O grão subiu, iluminado, e virou um floco de cinza antes de tocar o chão.

— Certo. Avaliação coletiva. Fotografia antiga, locomotiva idêntica, família que ninguém conhece. Na parede de um lugar que conhece todos nós. Eu começaria por aí.

— Depois da cadeira — disse Daniel.

O sorriso veio pronto, mas César não o usou. Passou a língua pelo dente canino e observou Daniel por cima da moldura.

— Você perdeu a voz do seu irmão há cinco minutos e quer gastar o que sobrou interrogando o meu churrasco.

Daniel sentiu o bilhete tocar o peito quando o trem mudou de velocidade. Um roçar de papel. Duas manchas, uma sobre a outra, por baixo da camisa.

— Quem faltava?

César colocou a fotografia no chão, apoiada contra o rodapé. Com cuidado demais.

— Daniel — Helena começou.

Ele não tirou os olhos de César.

— Tinha um copo servido. A cadeira estava puxada.

— Mesas têm cadeiras.

— Aquela tinha alguém.

— Então pergunta ao vagão. Parece disposto a conversar com você.

A churrasqueira reapareceu entre eles.

Não inteira. Primeiro a fumaça, grossa e cinzenta, atravessando a madeira da parede. Depois o calor contra o rosto e o estalo da gordura sobre carvão. O tapete recuou sob uma faixa de cimento manchada; uma perna da mesa de plástico nasceu junto ao sapato de César.

Ele não se moveu.

O irmão mais novo surgiu sentado no nada, uma peça de dominó entre os dedos. Ria para alguém fora da cena. Diante dele, a cadeira vazia apareceu de costas para Daniel. O copo servido tinha uma marca de boca na borda.

César olhou para os quatro riscos queimados.

— Não encosta — disse a garota.

— Ninguém vai usar nada — Helena respondeu, embora ninguém tivesse perguntado a ela.

— Você não sabe.

— Então fique longe do seu bilhete.

A garota baixou o queixo. A ponta da fita vermelha deslizou por sua testa e ficou presa no canto da boca. Ela a arrancou com irritação; o papel rasgou desta vez. Um pedaço permaneceu entre seus dedos.

Todos viram.

Ela abriu a mão. O fragmento vermelho tinha a textura fina da pipa, com cola seca numa extremidade.

— Joga fora — disse César.

— Por quê?

— Porque há cinco minutos isso não podia ser tocado.

Ela fechou os dedos sobre o papel.

— Agora pode.

— Essa parte eu acompanhei.

O menino da lembrança bateu a pedra de dominó na mesa. A cadeira vazia girou alguns centímetros. Não o bastante para mostrar quem deveria ocupá-la, mas o bastante para revelar um prato com restos de bolo e um garfo colocado ao contrário.

Daniel conhecia o cuidado de dispor um lugar para alguém ausente. Vera fizera isso durante meses sem perceber. Três pratos sobre a mesa; depois a mão parada no ar, um deles devolvido ao armário.

— Era da sua família — disse.

César pegou a fotografia do chão outra vez. Um músculo saltou junto à mandíbula.

— Todo mundo naquele quintal era da minha família. Até o cachorro, quando resolvia aparecer.

— Seu irmão olhava para a cadeira.

— Meu irmão olhava para todo mundo. Era o talento dele.

A frase deveria ter vindo com humor. Não veio.

Na lembrança, o rapaz ergueu o copo numa saudação para a pessoa ausente. Seus lábios formaram um nome, mas o ruído do trem cresceu no mesmo instante, metal contra metal, escondendo as sílabas.

César apertou a moldura. A madeira estalou perto de seu polegar.

— Chega.

— Quem era? — Daniel perguntou.

— Eu disse que não sei.

— Não. Você disse “chega”.

O quintal escureceu. Por trás da fumaça, a rua molhada apareceu de novo, breve como um reflexo: faróis abertos na chuva; a linha branca da pista; alguém de capuz curvado junto a uma porta. César virou a fotografia contra o peito e atravessou a imagem antes que ela ganhasse forma. A fumaça se rompeu ao redor dele.

— Quer trocar? — perguntou. — Eu conto quem sentava na cadeira, você conta por que largou a mão do seu irmão.

O rádio parou.

Até as rodas pareceram perder um golpe.

Daniel viu a manga da jaqueta de Gabriel escapando entre os dedos. Não ouviu o grito. Antes, havia um grito. Disso tinha certeza. Ou achava que tinha.

— César — Helena disse.

O nome não soou como advertência; soou cansado.

Ele desviou os olhos primeiro. A fotografia continuava presa ao peito, escondendo a família de 1947.

— Era alguém que devia ter chegado — falou.

Esperaram o resto.

O irmão na mesa repetiu o brinde mudo. A cadeira tornou a girar. César colocou a fotografia no lugar e ajustou a moldura torta com a unha, uma correção mínima que levou tempo demais.

— Não chegou.

— Morreu? — A pergunta da garota saiu depressa. Ela se encolheu por ter perguntado, mas não voltou atrás.

César alinhou a borda inferior da moldura com a emenda da madeira.

— A gente não está no vagão de respostas.

A churrasqueira sumiu. O cheiro de carvão permaneceu.

Daniel poderia insistir. Tinha perguntas mais precisas agora: por que o lugar fora servido, por que o irmão brindava, por que César mentira antes de dizer quase nada. Em vez disso, ouviu a música atrás da parede começar do mesmo ponto.

Vera entrou no refrão.

O espaço ao lado dela abriu-se.

Ele fechou os olhos e tentou alcançar a voz de Gabriel por partes. O “s” levemente assobiado. A mania de terminar perguntas num tom baixo. A risada no telefone quando ligava tarde demais. Encontrou os movimentos, não o som. Era como passar os dedos sobre as ranhuras de um disco sem possuir a agulha.

Abriu os olhos.

Helena o observava, mas não perguntou o que ele procurava. Tinha erguido a mão ferida acima do coração. O lenço de César já mostrava uma mancha do tamanho de uma moeda.

— Precisa de outro pano? — Daniel disse.

— Este segura.

— A porta cortou fundo.

— Não atingiu tendão.

Ela mexeu cada dedo uma vez, devagar. Ao dobrar o indicador, a mancha cresceu.

— Pare de testar — disse a garota.

Helena manteve a mão imóvel. A resposta que preparava não saiu. Depois de alguns segundos, apoiou o antebraço no encosto inexistente de uma poltrona da lembrança do hospital; o vinil azul surgiu para sustentá-la.

— O ferimento ficou — Daniel falou.

Não era exatamente uma pergunta. Helena olhou para o sangue no lenço.

— Ficou.

— A tigela não.

— Você mudou o lugar dela lá dentro.

— Quando saímos, a cozinha fechou. Se ela voltou a cair…

— Daniel.

Helena disse seu nome e parou. Do teto veio a voz da médica desconhecida repetindo “você passou”; três gotas de água reapareceram na manga de uma Helena mais jovem, brilharam e desapareceram juntas.

— O que saiu com você — ela continuou — foi isto.

Indicou o peito dele com o queixo, sem aproximar a mão.

Daniel retirou o bilhete.

As manchas pálidas haviam aumentado. A primeira ocupava um canto; a segunda atravessava as linhas com a data da morte de Gabriel. Onde o papel perdera cor, as letras ainda podiam ser lidas, mas pareciam estar do outro lado de uma camada de gelo.

— Não foi uma troca — disse ele.

César soltou ar pelo nariz.

— Se tirou uma coisa e deu outra, eu chamaria…

— Não deu nada.

A voz de Daniel saiu mais alta do que pretendia. A fotografia vibrou na parede.

Ele baixou o bilhete. A tigela sobre a mesa não existia fora daquele cômodo. Gabriel continuava morto. Helena continuava ferida. Cinco segundos haviam movido um objeto dentro de uma tarde que acabara quinze anos antes, e o único resultado que Daniel carregava era um silêncio novo.

Procurou a palavra que Vera errava na música. Ainda estava lá. Procurou a cor da camiseta de Gabriel na cozinha. Cinza com uma faixa azul. A cobertura no nariz. Marrom. O formato da mão oferecida quando o chão o puxava de volta.

Tudo presente.

Por enquanto.

Dobrou o bilhete sem encostar no símbolo e o guardou no bolso interno. Usou dois dedos para fechar o botão. Precisou tentar de novo porque a mão não encontrou a abertura.

A garota viu, mas fingiu interesse no pedaço da pipa.

— Quantas? — Helena perguntou.

Daniel olhou para os riscos.

— Não sei.

— Havia cinco.

— Eu sei quantas marcas havia.

— Então o que não sabe?

Ele demorou. O trem acelerava sob seus pés, mas as lembranças nas paredes começavam a se mover para trás, como paisagem vista pela janela: o desenho infantil deslizou pelo lambril; as peças de dominó rolaram contra a inclinação e atravessaram uma porta fechada; a cortina amarela encurtou até virar uma faixa de luz.

— Não sei se eram cinco coisas — disse Daniel. — Ou cinco vezes.

Ninguém tentou resolver.

A garota guardou o fragmento vermelho no bolso da calça. César percebeu.

— Você ouviu o homem.

— Qual homem?

— Eu.

— Ah.

Ela se afastou dele, quase pisando numa peça de dominó que já não estava ali.

— O vagão deixou você arrancar isso — Helena disse. — Talvez queira que leve.

— Ou quer cobrar depois — César completou.

A garota apalpou o bolso. O papel fez um ruído seco.

— Não vou jogar fora porque você mandou.

— Perfeitamente razoável. Guarda perto do bilhete misterioso.

— Você também esconde o seu.

— Com a diferença de que eu dei meu nome.

Ela o encarou. O rubor subiu pelo pescoço, alcançando as orelhas.

— Nome não prova nada.

— O seu provaria alguma coisa?

Daniel entrou no espaço entre os dois antes que a pergunta encontrasse resposta. Não os tocou. Ficou ali, de lado, bloqueando apenas a linha dos olhos.

— A fotografia — disse. — Vejam atrás.

A moldura havia se inclinado sozinha. Um canto projetava-se da parede, revelando papel escuro entre a madeira e o fundo de papelão.

Helena retirou a fotografia. Desta vez César não ofereceu ajuda. Ela apoiou a moldura sobre o braço saudável e soltou os pequenos fechos de metal um por um. O último estava enferrujado e abriu a pele sob sua unha. Ela levou o dedo à boca por reflexo, lembrou-se do sangue que o tapete devolvera e limpou-o no próprio casaco.

Atrás da foto não havia nomes.

Somente uma frase escrita a lápis, quase apagada:

Antes da primeira viagem.

Daniel leu duas vezes. A caligrafia inclinava todas as letras para a esquerda. Abaixo da frase, quatro manchas mais escuras marcavam o papel, uma atrás de cada pessoa fotografada. A do homem era maior e circular, exatamente onde, na frente, ele segurava o relógio de bolso.

— Primeira viagem para onde? — perguntou César.

Helena virou a fotografia. A locomotiva preenchia o fundo, parada sob o galpão. Não havia número na lateral. A garota aproximou o rosto até quase tocar o papel e procurou alguma coisa na cabine, sem dizer o quê.

Então o símbolo dos bilhetes escureceu na parede atrás dela.

As duas linhas surgiram queimando a madeira sem chama, avançaram pelo lambril e desceram até o tapete. Quando tocaram o chão, separaram-se. Uma seguiu para a direita, passando sob os sapatos de César; a outra contornou Helena e desapareceu na direção do fundo do vagão.

Os quatro riscos apagaram ao mesmo tempo.

O escuro durou um golpe de roda.

Daniel levou a mão ao bolso, mas não tocou no bilhete. Ao lado, Helena esmagou o lenço contra a palma. César abriu os braços para equilibrar o corpo enquanto o corredor se estreitava, as paredes deslizando para dentro com um gemido de madeira molhada.

As lembranças começaram a soltar-se.

A cortina de Vera caiu e se desfez antes de alcançar o tapete. O desenho infantil dobrou os braços das quatro figuras até que nenhuma delas segurasse a mão da outra. No teto, a fita vermelha encolheu como papel perto do fogo. A cadeira vazia reapareceu no meio do corredor; desta vez não havia mesa, copo ou quintal em torno dela.

César ficou diante do assento.

O encosto virou sozinho para ele.

— Não — murmurou.

Da madeira veio uma batida curta.

Depois outra.

Alguém batia do lado de dentro da cadeira.

César recuou sem tirar os olhos dela. O calcanhar encontrou a linha que seguia pelo chão. A marca acendeu sob sua sola, e a cadeira se desmontou numa nuvem de fumaça e cheiro de asfalto molhado.

No fundo do vagão, a segunda linha alcançou a porta de madeira clara.

Até aquele momento, Daniel a julgara parte do corredor. Agora percebeu que não possuía dobradiças, fechadura ou emenda. Era apenas uma forma de porta pintada na parede.

O símbolo tocou sua base.

Uma fenda negra abriu-se de baixo para cima.

O ar morno das lembranças foi sugado para dentro. O cheiro de bolo, carvão, maçã e flores passou por eles numa única corrente e desapareceu. Em troca veio um frio branco, limpo demais, acompanhado por álcool, borracha e alguma coisa metálica que Daniel conhecia sem querer nomear.

Helena ergueu o rosto.

Do outro lado, uma roda pequena girou uma vez sobre piso liso.

Rangido de carrinho hospitalar.

Parou.

A abertura ainda era estreita, mas a luz que atravessava já desenhava no tapete uma faixa pálida. Dentro dela, as gotas do sangue de Helena reapareceram, uma após outra, formando um caminho até a nova porta.

Não subiram. Não voltaram para o ferimento.

Seguiram para a escuridão.

Daniel contou sete.

Quando a oitava surgiu, alguma coisa respirou do outro lado.

Não era nenhum deles.

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