CAPÍTULO 7 — O LUGAR À MESA
por Sonhado acordadoNenhum deles discutiu.
O trem também não lhes deu tempo.
A moldura bateu duas vezes contra a parede, acompanhando o balanço das rodas, e o homem da fotografia voltou a ser apenas um homem parado diante de uma locomotiva. Terno escuro, relógio de bolso, a mão pousada no ombro do menino menor. A mulher ao lado dele tinha o rosto voltado para o sol. Quatro pessoas apertadas num retângulo amarelado, todas inteiras porque nenhum segundo ainda havia passado para elas.
Daniel procurou o reflexo do próprio rosto no vidro. Encontrou a mancha clara do bilhete sobre o peito e, atrás de si, os quatro riscos queimados na madeira.
Quatro.
O quinto não estava desbotado. Não havia cinza, contorno ou marca de raspagem. A parede naquele ponto parecia nova, como se jamais tivesse recebido fogo.
Helena abriu a mão ferida.
O sangue já havia alcançado a base dos dedos e pingava no tapete verde. Cada gota era absorvida devagar, escurecendo os pelos antes de desaparecer. A garota acompanhou a terceira. Agachou-se, mas não chegou a encostar no chão.
— Ele está bebendo.
— É tecido — disse Helena. A voz saiu baixa. Ela apertou a palma com o polegar da outra mão, testou o movimento dos dedos e tornou a fechá-los. — Absorve líquido.
O tapete devolveu a gota.
Primeiro veio o brilho úmido. Depois o vermelho subiu entre os pelos, reuniu-se numa esfera perfeita e flutuou até a altura do joelho de Helena. Ficou ali por um instante. Quando o vagão inclinou, a esfera não acompanhou.
César afastou a barra da calça antes que ela o tocasse.
A gota estourou sem som.
Onde o sangue atingiu a parede, apareceu por meio segundo um quadrado de azulejo branco. Em seguida, madeira outra vez.
Helena desabotoou o punho do casaco com os dentes e tentou rasgar a bainha interna. O tecido resistiu. César tirou um lenço dobrado do bolso traseiro e o estendeu, mas ela não o aceitou de imediato.
— É um lenço — disse ele. — Não uma declaração de confiança.
Ela examinou o pano. Branco, duas letras bordadas num canto.
— Está limpo?
César inclinou a cabeça, ofendido na medida exata para parecer brincadeira.
— Ia oferecer o sujo, mas você fez uma pergunta técnica.
Helena pegou o lenço. Dobrou-o em três, colocou sobre o corte e fechou a mão. A linha vermelha atravessou o bordado de uma das letras.
A garota ainda olhava para o ponto onde a gota havia sumido.
— Não devia devolver.
— O quê? — Daniel perguntou.
Ela esfregou a sola do tênis no tapete, cobrindo o lugar. A fita vermelha da lembrança da pipa continuava pendurada sobre sua cabeça; cada vez que o vagão balançava, a ponta roçava seus cabelos.
— Nada.
Daniel esperou. Ela não completou.
Ao fundo, o rádio da cozinha chiou dentro da parede e encontrou por acaso dois segundos de uma música antiga. Vera costumava cantar aquela parte com a voz alta demais. Gabriel entrava depois, sempre atrasado, inventando a letra quando não sabia.
Daniel conseguiu ouvir a mãe.
Havia espaço para outra voz ao lado.
Ele prendeu a respiração até a música se perder novamente no ruído. Nenhum som ocupou o espaço. Nem a voz de Gabriel, nem uma imitação ruim criada pela vontade de lembrar. Apenas a certeza física de que alguém deveria estar cantando ali, do mesmo modo que a cadeira no quintal de César deveria conter uma pessoa.
Daniel virou-se para ele.
César havia retirado a fotografia da parede.
Não tocava o vidro. Segurava a moldura pelas laterais, mantendo os dedos longe das quatro figuras.
— Você ouviu — disse Daniel.
— Ouvi muita coisa desde que entrei aqui.
— A pergunta sobre a cadeira.
César ergueu a moldura em direção à luz, como se procurasse uma inscrição sob o papel.
— E eu achando que íamos conversar sobre a família de mil novecentos e quarenta e sete.
Helena terminou de enrolar o lenço na mão. Em vez de dar um nó, prendeu uma ponta sob a outra e apertou com os dentes.
— Coloque a fotografia de volta.
— Não estava presa.
— César.
Ele soprou um grão de poeira do canto da moldura. O grão subiu, iluminado, e virou um floco de cinza antes de tocar o chão.
— Certo. Avaliação coletiva. Fotografia antiga, locomotiva idêntica, família que ninguém conhece. Na parede de um lugar que conhece todos nós. Eu começaria por aí.
— Depois da cadeira — disse Daniel.
O sorriso veio pronto, mas César não o usou. Passou a língua pelo dente canino e observou Daniel por cima da moldura.
— Você perdeu a voz do seu irmão há cinco minutos e quer gastar o que sobrou interrogando o meu churrasco.
Daniel sentiu o bilhete tocar o peito quando o trem mudou de velocidade. Um roçar de papel. Duas manchas, uma sobre a outra, por baixo da camisa.
— Quem faltava?
César colocou a fotografia no chão, apoiada contra o rodapé. Com cuidado demais.
— Daniel — Helena começou.
Ele não tirou os olhos de César.
— Tinha um copo servido. A cadeira estava puxada.
— Mesas têm cadeiras.
— Aquela tinha alguém.
— Então pergunta ao vagão. Parece disposto a conversar com você.
A churrasqueira reapareceu entre eles.
Não inteira. Primeiro a fumaça, grossa e cinzenta, atravessando a madeira da parede. Depois o calor contra o rosto e o estalo da gordura sobre carvão. O tapete recuou sob uma faixa de cimento manchada; uma perna da mesa de plástico nasceu junto ao sapato de César.
Ele não se moveu.
O irmão mais novo surgiu sentado no nada, uma peça de dominó entre os dedos. Ria para alguém fora da cena. Diante dele, a cadeira vazia apareceu de costas para Daniel. O copo servido tinha uma marca de boca na borda.
César olhou para os quatro riscos queimados.
— Não encosta — disse a garota.
— Ninguém vai usar nada — Helena respondeu, embora ninguém tivesse perguntado a ela.
— Você não sabe.
— Então fique longe do seu bilhete.
A garota baixou o queixo. A ponta da fita vermelha deslizou por sua testa e ficou presa no canto da boca. Ela a arrancou com irritação; o papel rasgou desta vez. Um pedaço permaneceu entre seus dedos.
Todos viram.
Ela abriu a mão. O fragmento vermelho tinha a textura fina da pipa, com cola seca numa extremidade.
— Joga fora — disse César.
— Por quê?
— Porque há cinco minutos isso não podia ser tocado.
Ela fechou os dedos sobre o papel.
— Agora pode.
— Essa parte eu acompanhei.
O menino da lembrança bateu a pedra de dominó na mesa. A cadeira vazia girou alguns centímetros. Não o bastante para mostrar quem deveria ocupá-la, mas o bastante para revelar um prato com restos de bolo e um garfo colocado ao contrário.
Daniel conhecia o cuidado de dispor um lugar para alguém ausente. Vera fizera isso durante meses sem perceber. Três pratos sobre a mesa; depois a mão parada no ar, um deles devolvido ao armário.
— Era da sua família — disse.
César pegou a fotografia do chão outra vez. Um músculo saltou junto à mandíbula.
— Todo mundo naquele quintal era da minha família. Até o cachorro, quando resolvia aparecer.
— Seu irmão olhava para a cadeira.
— Meu irmão olhava para todo mundo. Era o talento dele.
A frase deveria ter vindo com humor. Não veio.
Na lembrança, o rapaz ergueu o copo numa saudação para a pessoa ausente. Seus lábios formaram um nome, mas o ruído do trem cresceu no mesmo instante, metal contra metal, escondendo as sílabas.
César apertou a moldura. A madeira estalou perto de seu polegar.
— Chega.
— Quem era? — Daniel perguntou.
— Eu disse que não sei.
— Não. Você disse “chega”.
O quintal escureceu. Por trás da fumaça, a rua molhada apareceu de novo, breve como um reflexo: faróis abertos na chuva; a linha branca da pista; alguém de capuz curvado junto a uma porta. César virou a fotografia contra o peito e atravessou a imagem antes que ela ganhasse forma. A fumaça se rompeu ao redor dele.
— Quer trocar? — perguntou. — Eu conto quem sentava na cadeira, você conta por que largou a mão do seu irmão.
O rádio parou.
Até as rodas pareceram perder um golpe.
Daniel viu a manga da jaqueta de Gabriel escapando entre os dedos. Não ouviu o grito. Antes, havia um grito. Disso tinha certeza. Ou achava que tinha.
— César — Helena disse.
O nome não soou como advertência; soou cansado.
Ele desviou os olhos primeiro. A fotografia continuava presa ao peito, escondendo a família de 1947.
— Era alguém que devia ter chegado — falou.
Esperaram o resto.
O irmão na mesa repetiu o brinde mudo. A cadeira tornou a girar. César colocou a fotografia no lugar e ajustou a moldura torta com a unha, uma correção mínima que levou tempo demais.
— Não chegou.
— Morreu? — A pergunta da garota saiu depressa. Ela se encolheu por ter perguntado, mas não voltou atrás.
César alinhou a borda inferior da moldura com a emenda da madeira.
— A gente não está no vagão de respostas.
A churrasqueira sumiu. O cheiro de carvão permaneceu.
Daniel poderia insistir. Tinha perguntas mais precisas agora: por que o lugar fora servido, por que o irmão brindava, por que César mentira antes de dizer quase nada. Em vez disso, ouviu a música atrás da parede começar do mesmo ponto.
Vera entrou no refrão.
O espaço ao lado dela abriu-se.
Ele fechou os olhos e tentou alcançar a voz de Gabriel por partes. O “s” levemente assobiado. A mania de terminar perguntas num tom baixo. A risada no telefone quando ligava tarde demais. Encontrou os movimentos, não o som. Era como passar os dedos sobre as ranhuras de um disco sem possuir a agulha.
Abriu os olhos.
Helena o observava, mas não perguntou o que ele procurava. Tinha erguido a mão ferida acima do coração. O lenço de César já mostrava uma mancha do tamanho de uma moeda.
— Precisa de outro pano? — Daniel disse.
— Este segura.
— A porta cortou fundo.
— Não atingiu tendão.
Ela mexeu cada dedo uma vez, devagar. Ao dobrar o indicador, a mancha cresceu.
— Pare de testar — disse a garota.
Helena manteve a mão imóvel. A resposta que preparava não saiu. Depois de alguns segundos, apoiou o antebraço no encosto inexistente de uma poltrona da lembrança do hospital; o vinil azul surgiu para sustentá-la.
— O ferimento ficou — Daniel falou.
Não era exatamente uma pergunta. Helena olhou para o sangue no lenço.
— Ficou.
— A tigela não.
— Você mudou o lugar dela lá dentro.
— Quando saímos, a cozinha fechou. Se ela voltou a cair…
— Daniel.
Helena disse seu nome e parou. Do teto veio a voz da médica desconhecida repetindo “você passou”; três gotas de água reapareceram na manga de uma Helena mais jovem, brilharam e desapareceram juntas.
— O que saiu com você — ela continuou — foi isto.
Indicou o peito dele com o queixo, sem aproximar a mão.
Daniel retirou o bilhete.
As manchas pálidas haviam aumentado. A primeira ocupava um canto; a segunda atravessava as linhas com a data da morte de Gabriel. Onde o papel perdera cor, as letras ainda podiam ser lidas, mas pareciam estar do outro lado de uma camada de gelo.
— Não foi uma troca — disse ele.
César soltou ar pelo nariz.
— Se tirou uma coisa e deu outra, eu chamaria…
— Não deu nada.
A voz de Daniel saiu mais alta do que pretendia. A fotografia vibrou na parede.
Ele baixou o bilhete. A tigela sobre a mesa não existia fora daquele cômodo. Gabriel continuava morto. Helena continuava ferida. Cinco segundos haviam movido um objeto dentro de uma tarde que acabara quinze anos antes, e o único resultado que Daniel carregava era um silêncio novo.
Procurou a palavra que Vera errava na música. Ainda estava lá. Procurou a cor da camiseta de Gabriel na cozinha. Cinza com uma faixa azul. A cobertura no nariz. Marrom. O formato da mão oferecida quando o chão o puxava de volta.
Tudo presente.
Por enquanto.
Dobrou o bilhete sem encostar no símbolo e o guardou no bolso interno. Usou dois dedos para fechar o botão. Precisou tentar de novo porque a mão não encontrou a abertura.
A garota viu, mas fingiu interesse no pedaço da pipa.
— Quantas? — Helena perguntou.
Daniel olhou para os riscos.
— Não sei.
— Havia cinco.
— Eu sei quantas marcas havia.
— Então o que não sabe?
Ele demorou. O trem acelerava sob seus pés, mas as lembranças nas paredes começavam a se mover para trás, como paisagem vista pela janela: o desenho infantil deslizou pelo lambril; as peças de dominó rolaram contra a inclinação e atravessaram uma porta fechada; a cortina amarela encurtou até virar uma faixa de luz.
— Não sei se eram cinco coisas — disse Daniel. — Ou cinco vezes.
Ninguém tentou resolver.
A garota guardou o fragmento vermelho no bolso da calça. César percebeu.
— Você ouviu o homem.
— Qual homem?
— Eu.
— Ah.
Ela se afastou dele, quase pisando numa peça de dominó que já não estava ali.
— O vagão deixou você arrancar isso — Helena disse. — Talvez queira que leve.
— Ou quer cobrar depois — César completou.
A garota apalpou o bolso. O papel fez um ruído seco.
— Não vou jogar fora porque você mandou.
— Perfeitamente razoável. Guarda perto do bilhete misterioso.
— Você também esconde o seu.
— Com a diferença de que eu dei meu nome.
Ela o encarou. O rubor subiu pelo pescoço, alcançando as orelhas.
— Nome não prova nada.
— O seu provaria alguma coisa?
Daniel entrou no espaço entre os dois antes que a pergunta encontrasse resposta. Não os tocou. Ficou ali, de lado, bloqueando apenas a linha dos olhos.
— A fotografia — disse. — Vejam atrás.
A moldura havia se inclinado sozinha. Um canto projetava-se da parede, revelando papel escuro entre a madeira e o fundo de papelão.
Helena retirou a fotografia. Desta vez César não ofereceu ajuda. Ela apoiou a moldura sobre o braço saudável e soltou os pequenos fechos de metal um por um. O último estava enferrujado e abriu a pele sob sua unha. Ela levou o dedo à boca por reflexo, lembrou-se do sangue que o tapete devolvera e limpou-o no próprio casaco.
Atrás da foto não havia nomes.
Somente uma frase escrita a lápis, quase apagada:
Antes da primeira viagem.
Daniel leu duas vezes. A caligrafia inclinava todas as letras para a esquerda. Abaixo da frase, quatro manchas mais escuras marcavam o papel, uma atrás de cada pessoa fotografada. A do homem era maior e circular, exatamente onde, na frente, ele segurava o relógio de bolso.
— Primeira viagem para onde? — perguntou César.
Helena virou a fotografia. A locomotiva preenchia o fundo, parada sob o galpão. Não havia número na lateral. A garota aproximou o rosto até quase tocar o papel e procurou alguma coisa na cabine, sem dizer o quê.
Então o símbolo dos bilhetes escureceu na parede atrás dela.
As duas linhas surgiram queimando a madeira sem chama, avançaram pelo lambril e desceram até o tapete. Quando tocaram o chão, separaram-se. Uma seguiu para a direita, passando sob os sapatos de César; a outra contornou Helena e desapareceu na direção do fundo do vagão.
Os quatro riscos apagaram ao mesmo tempo.
O escuro durou um golpe de roda.
Daniel levou a mão ao bolso, mas não tocou no bilhete. Ao lado, Helena esmagou o lenço contra a palma. César abriu os braços para equilibrar o corpo enquanto o corredor se estreitava, as paredes deslizando para dentro com um gemido de madeira molhada.
As lembranças começaram a soltar-se.
A cortina de Vera caiu e se desfez antes de alcançar o tapete. O desenho infantil dobrou os braços das quatro figuras até que nenhuma delas segurasse a mão da outra. No teto, a fita vermelha encolheu como papel perto do fogo. A cadeira vazia reapareceu no meio do corredor; desta vez não havia mesa, copo ou quintal em torno dela.
César ficou diante do assento.
O encosto virou sozinho para ele.
— Não — murmurou.
Da madeira veio uma batida curta.
Depois outra.
Alguém batia do lado de dentro da cadeira.
César recuou sem tirar os olhos dela. O calcanhar encontrou a linha que seguia pelo chão. A marca acendeu sob sua sola, e a cadeira se desmontou numa nuvem de fumaça e cheiro de asfalto molhado.
No fundo do vagão, a segunda linha alcançou a porta de madeira clara.
Até aquele momento, Daniel a julgara parte do corredor. Agora percebeu que não possuía dobradiças, fechadura ou emenda. Era apenas uma forma de porta pintada na parede.
O símbolo tocou sua base.
Uma fenda negra abriu-se de baixo para cima.
O ar morno das lembranças foi sugado para dentro. O cheiro de bolo, carvão, maçã e flores passou por eles numa única corrente e desapareceu. Em troca veio um frio branco, limpo demais, acompanhado por álcool, borracha e alguma coisa metálica que Daniel conhecia sem querer nomear.
Helena ergueu o rosto.
Do outro lado, uma roda pequena girou uma vez sobre piso liso.
Rangido de carrinho hospitalar.
Parou.
A abertura ainda era estreita, mas a luz que atravessava já desenhava no tapete uma faixa pálida. Dentro dela, as gotas do sangue de Helena reapareceram, uma após outra, formando um caminho até a nova porta.
Não subiram. Não voltaram para o ferimento.
Seguiram para a escuridão.
Daniel contou sete.
Quando a oitava surgiu, alguma coisa respirou do outro lado.
Não era nenhum deles.
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