Pesquisa Discord Conta Estante de livros Pular: Comentários
Sair
O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1814 MIN

A primeira marca de caneca atravessou o chão.

Não quebrou. Deixou no vidro um círculo úmido e continuou caindo para dentro da escuridão sob o vagão. A segunda perdeu a forma no meio do caminho. A terceira tocou o ombro de César como uma argola de água, abriu-se sobre o casaco e sumiu sem molhá-lo.

A última caiu entre Daniel e Lívia.

O impacto veio antes: um estalo de louça, embora não houvesse xícara. Depois o círculo atingiu o piso e espalhou pequenas rachaduras brancas, finas como fios de cabelo. Daniel manteve a mão fechada no tecido junto ao cotovelo dela.

As bordas de Lívia voltaram.

Primeiro o contorno do casaco se separou do corredor. Depois os fios de cabelo recuperaram distância uns dos outros. Por último, a sombra que permanecera na cozinha atravessou o chão e encaixou-se sob seus pés.

Ela continuava olhando para os dedos dele.

Daniel soltou.

Não de uma vez. Afrouxou o polegar, depois os outros dedos, até o tecido escapar e conservar por alguns segundos as marcas do aperto. Lívia alisou o ponto deformado com a palma. Não levantou o rosto.

A cozinha terminou de desaparecer.

O cheiro de café foi o último a partir. Ficou no ar enquanto o piso voltava a ser vidro fosco e as armações incompletas dos bancos surgiam dos dois lados. Quando o odor acabou, o relógio reapareceu no teto, mais distante, avançando para 3h17.

O vagão estava quieto.

Quieto de verdade, não como o silêncio absorvido do espaço onde quase haviam esquecido César. O metal rangia. Rodas golpeavam emendas invisíveis sob o chão. Um parafuso solto vibrava numa armação próxima. Sons comuns, na ordem certa.

Daniel ouviu todos.

Ficou entre ele e Lívia o espaço de um braço que nenhum dos dois tentou diminuir.

Helena aproximou-se sem ocupar esse espaço. Retirou da mala do criador a camisa manchada de graxa, dobrou uma parte limpa e entregou a Lívia.

— Seu nariz.

O sangue ainda não tinha descido. Lívia tocou acima do lábio. A ponta de seus dedos voltou vermelha dois segundos antes de a primeira gota sair.

Ela aceitou o tecido.

— Obrigada.

Helena não respondeu. Abriu a mala no piso e verificou se o caderno continuava ali. O manual estava fechado, mas uma página virava sob a capa, raspando de um lado para o outro. O som antecedia cada movimento e, quando o papel finalmente se mexia, já se ouvia a página seguinte.

César saiu da parede.

Deu dois passos sem apoio. O terceiro o fez comprimir a lateral ferida, porém ele permaneceu de pé. A etiqueta ensanguentada estava presa sob a camisa, deixando visível apenas a última letra do sobrenome.

— Três portas — disse.

Ninguém olhou para ele.

— Antes. Em volta de vocês. Uma aberta, uma fechada e uma que não tinha parede.

Lívia limpou o nariz. Dobrou o tecido para esconder o sangue.

— O vagão muda o tempo todo.

— Muda. Mas repete desenho.

César falou devagar, como se testasse a própria voz depois de horas sem conseguir sustentá-la. Faltava o brilho fácil. Restava o hábito de colocar as peças na mesa antes que outra pessoa decidisse o jogo.

— Duas linhas no manual. Duas macas. Agora três portas. Você olhou para as três antes de qualquer um.

Daniel virou apenas o rosto.

— Deixa ela.

César o encarou. O antigo impulso de sorrir surgiu de um lado da boca e morreu ali.

— Você quer que eu deixe porque ela é sua filha ou porque não quer ouvir?

Daniel avançou meio passo.

Helena fechou a mala entre os dois. O estalo dos fechos veio primeiro; só depois suas mãos os pressionaram.

— Não agora.

— É exatamente agora — César disse. — Esse lugar mostra o que a gente esconde e cobra antes de dizer o preço. Se ela sabe qual dessas portas…

— Eu não sei — Lívia cortou.

O vagão escureceu atrás dela.

Não perdeu luz. Perdeu superfícies. As janelas, os bancos incompletos e as placas do piso ficaram cobertos por uma película preta que refletia apenas aquilo que não estava diante deles. Daniel via a mala no reflexo, mas não Helena. Via César mais jovem, sem ferimento. Via a si mesmo com a manga vazia no lugar do braço esquerdo.

Lívia não aparecia em nenhum dos vidros.

Ela recuou.

Seu calcanhar tocou o círculo úmido deixado pela caneca. A água subiu pela sola antes que o tênis pisasse nela e espalhou-se pelo corpo da garota em finas linhas brilhantes, desenhando articulações, costelas, o contorno do rosto. Não molhava. Marcava.

— Lívia — Daniel chamou.

Ela estendeu a mão para ele.

O pedido foi rápido, involuntário. Daniel moveu os dedos, mas a mão dela se dividiu em três antes que pudesse alcançá-la.

Três Lívia ocupavam o mesmo lugar.

Uma não tinha sombra.

Outra projetava uma sombra adulta, mais alta do que ela.

A terceira possuía duas sombras que seguiam em direções opostas.

Lívia retirou a mão. As três fizeram o gesto em momentos diferentes, como fotografias folheadas depressa.

O vagão abriu-se atrás delas.

Não surgiu uma porta nem uma paisagem completa. Primeiro apareceram marcas de uso: um degrau gasto no centro, a tinta descascada onde dedos haviam empurrado milhares de vezes, o retângulo mais claro de um quadro removido da parede. Só depois veio a casa que carregava aquelas marcas.

Era a antiga casa de Vera.

O telhado estava novo. A calha, alinhada. O muro havia sido pintado de um azul que Daniel jamais escolheria. No quintal, a mangueira deixava uma faixa escura sobre o cimento antes de a água começar a correr.

Um homem riu dentro da casa.

Daniel parou de respirar por um instante.

Gabriel saiu pela porta dos fundos.

Não tinha dezenove anos.

Os cabelos estavam mais curtos, com entradas discretas nas têmporas. Uma cicatriz atravessava o antebraço direito. Usava chinelos e carregava uma caixa de ferramentas cujo peso inclinava seu corpo para a esquerda, como sempre fizera com a mochila na adolescência. Antes de apoiar a caixa no chão, o cimento já exibia o retângulo de poeira limpa que ela deixaria.

— Ficou torta — disse ele.

A voz chegou inteira.

Daniel ouviu o irmão pela primeira vez desde que a cozinha do Vagão 1 levara aquele som.

Seus joelhos perderam firmeza. Não caiu. Abaixou a cabeça como se procurasse alguma coisa no piso e apertou o relógio contra o pulso até a cor fugir dos dedos.

Na visão, outro Daniel estava sobre uma escada, ajustando a calha.

— Está no nível.

— O seu nível sempre puxa para a direita.

Gabriel largou a caixa, subiu dois degraus e empurrou a calha com o ombro. Daniel mais velho protestou. Gabriel riu outra vez.

O som produziu lembranças que Daniel já não possuía: a forma exata como o riso começava no nariz, um pequeno engasgo no fim, a pausa para recuperar o ar. Os detalhes entraram nele sem encontrar onde ficar. Doeram e desapareceram.

— Gabriel — disse.

O irmão não ouviu.

Lívia sim.

A versão dela sem sombra começou a perder as linhas brilhantes do corpo. Os traços escorreram para o piso antes que sua pele se tornasse menos nítida. Uma etiqueta escolar apareceu no chão com o sobrenome raspado. Depois um tênis vazio. Um elástico de cabelo, ainda esticado em torno de um rabo de cavalo que não existia.

Daniel desviou os olhos de Gabriel.

— O que está acontecendo com ela?

Lívia abriu a boca. A resposta surgiu nos vidros antes da voz: não havia marca de sua mão em nenhuma superfície da casa, nenhum risco de altura na parede, nenhuma mochila azul junto à porta.

Ela fechou a boca.

Gabriel desceu da escada. O Daniel da visão passou uma chave de boca para ele, e os dedos dos dois se tocaram. No mesmo instante, uma das linhas brilhantes de Lívia apagou-se no pulso.

— Para — ela pediu.

A visão não parou.

Gabriel entrou na casa chamando por Vera. Uma mulher respondeu da sala. Daniel reconheceu a voz da mãe mais velha, impaciente, viva. Sobre a mesa havia três copos. Nenhuma caneca cinza. Nenhum desenho preso por ímãs. O relógio de Gabriel não estava no pulso de Daniel porque Gabriel o usava.

Lívia tentou limpar a etiqueta escolar com o pé.

Seu tênis atravessou o papel.

Daniel foi até ela, mas as três versões confundiram a distância. Passou pela que não tinha sombra e quase tocou a de sombra adulta. A terceira apareceu atrás dele.

— Qual é você?

Ela olhou para Gabriel.

— A que não fica.

As palavras saíram baixas. Simples. Lívia pareceu odiá-las assim que as ouviu.

Daniel virou para o irmão outra vez.

Gabriel fechava a caixa de ferramentas. As presilhas se encaixaram antes de suas mãos alcançá-las. Ele ergueu o rosto, não para Daniel, mas para alguma coisa no céu, e sorriu.

Lívia perdeu a etiqueta, o tênis e o elástico ao mesmo tempo.

Não desapareceram. Envelheceram no chão: o papel amarelou, a borracha se partiu, o tecido virou uma fita sem cor. Restos de uma pessoa que nunca chegara a usá-los.

Daniel deu um passo em direção a Gabriel.

Lívia recuou.

Ele percebeu.

Parou com o pé suspenso e tornou a pousá-lo no mesmo lugar.

— Eu não escolhi nada.

— Ainda.

Era a terceira vez que ela usava a palavra. Desta vez não havia desafio. Só pressa.

O quintal desbotou das bordas para o centro. O azul do muro abandonou a tinta antes que a parede sumisse. Gabriel continuou visível por mais alguns segundos, com a mão sobre a caixa e o relógio no pulso.

Daniel tentou gravar o rosto.

O vagão o retirou primeiro.

Restou o relógio flutuando no escuro. O tique-taque terminou antes de os ponteiros pararem.

Lívia voltou a ter um corpo só.

Daniel não a tocou. Olhou para o ponto vazio onde Gabriel estivera.

— Essa é uma.

Ela assentiu.

César aproximou-se, escolhendo cada passo para não depender da parede. A mão permanecia próxima do ferimento, mas já não o cobria o tempo todo.

— E a segunda?

Lívia esfregou a camisa de graxa entre os dedos. O sangue de seu nariz formava uma mancha que aparecia e desaparecia conforme o tecido dobrava.

— Não precisa ver.

Daniel enfim olhou para ela.

— Precisa.

A frase veio cansada, não dura. Mesmo assim, Lívia se afastou o bastante para que o espaço de um braço voltasse entre eles.

— Você já sabe.

— Eu quero ver.

— Por quê?

Ele não respondeu.

A segunda Lívia — a que projetava uma sombra adulta — separou-se das outras. Sua sombra caminhou para a frente e abriu os braços. O corpo foi puxado depois, como se estivesse preso a ela por fios invisíveis.

O preto das janelas mudou para um cinza de manhã chuvosa.

Antes de surgir qualquer lugar, vieram objetos gastos: o fundo polido de uma panela, um corrimão com a tinta comida por mãos, uma chave cuja cabeça trazia a marca de um chaveiro removido. Depois se formou um apartamento estreito, de janelas altas, com condensação nos vidros.

Lívia era mais velha ali.

Dezesseis. Talvez dezessete. Sentava-se no chão da sala com cadernos espalhados, usando a caneca cinza lascada para apoiar uma régua. A mulher da cozinha estava junto à janela, ainda sem rosto definido. O Daniel daquela realidade ocupava a mesa.

O relógio de Gabriel estava no pulso dele.

Parado em 23h58.

Daniel futuro havia dobrado um guardanapo sob uma das pernas da mesa. Conferia contas com lápis, alinhando os papéis pelas bordas. Lívia levantou-se, atravessou a sala e roubou o lápis de sua mão.

— Chega.

— Falta uma.

— Você diz isso há quarenta minutos.

A voz da Lívia mais velha tinha o mesmo corte impaciente. Daniel olhou para a garota ao seu lado. Ela não retribuiu.

Na cena, ele tentou pegar o lápis. Lívia o colocou atrás das costas. A mulher junto à janela riu. O rosto dela quase se formou; a água condensada no vidro correu para cima e cobriu os traços antes que Daniel os visse.

O apartamento possuía quatro lugares à mesa.

Um estava vazio.

Sobre a cadeira havia a lanterna de Gabriel. Não o homem. Não uma caixa de ferramentas. Apenas a lanterna, o cartão de memória preso por um elástico e uma fotografia da estação virada para baixo.

Daniel futuro deixou as contas.

Lívia devolveu o lápis e encostou o ombro no dele por um segundo, fingindo que procurava outra folha.

O contato já marcara a camisa antes de acontecer: uma pequena dobra na manga, do tamanho da testa dela.

Daniel observou.

Não sorriu. A mão se afastou do relógio.

Lívia na visão abriu a geladeira. Reclamou de alguma coisa que faltava. A mulher respondeu. A discussão começou no meio, terminou antes da primeira frase e virou riso quando nenhuma delas conseguiu lembrar quem compraria o leite.

Vida comum.

Gabriel continuava ausente dela.

Daniel aproximou-se da cadeira vazia. A lanterna acendeu antes que ele tocasse o interruptor. O facho atravessou seu peito e iluminou, na parede, a sombra de Gabriel aos dezenove anos.

A sombra ergueu uma mão.

Daniel não.

— Ele continua morto — disse.

Lívia apertou o tecido sujo de graxa.

— Continua.

— E você fica.

Ela demorou.

— Fico.

A menina mais velha na sala fechou a geladeira com o quadril. Passou pelo pai, apoiou a mão em seu ombro e deixou sobre a mesa um papel da escola. Daniel futuro leu, fez uma correção na margem e recebeu um tapa leve na nuca.

O gesto veio antes do contato. Ele se encolheu, e só então a palma dela o alcançou.

Por um instante, Daniel sorriu.

Foi pequeno. Involuntário.

Lívia viu.

O medo em seu rosto cedeu espaço a alguma coisa quase infantil, uma vontade de guardar aquele mínimo movimento como resposta. Ela deu meio passo na direção dele.

Daniel olhou para o relógio parado.

O sorriso terminou.

Lívia não completou o passo.

César soltou o ar pelo nariz.

— Duas opções perfeitas. Uma apaga a garota. A outra mantém o morto no lugar.

Helena estava agachada junto à mala. O manual continuava virando páginas sob a capa. Ela pressionou a mão sobre o caderno para contê-las.

— Não são opções — disse, sem levantar o rosto. — São consequências.

César olhou para a garota.

— E a terceira?

Lívia respondeu depressa:

— Não apareceu.

A película preta das janelas trincou.

Uma linha clara atravessou o reflexo atrás dela antes que a mentira terminasse. Depois outra. As duas correram em paralelo pelo vidro e se encontraram num ponto escondido pelo corpo de Lívia.

César viu.

— Sai da frente.

— Não.

— Você disse que não apareceu.

— Não inteira.

— Isso já é bem diferente.

Ele avançou. A perna falhou por meio passo, mas César recuperou o equilíbrio sem ajuda. Lívia abriu os braços diante da janela, um gesto largo demais para seu corpo.

Daniel ficou onde estava.

— Lívia.

Ela não olhou para ele.

— Essa não está pronta.

— Futuro não fica pronto — César falou. — Ou você não estava aqui quando as causas começaram a chegar depois?

A tentativa de ironia saiu sem charme. Era só pressão.

Lívia apertou as costas contra o vidro. As linhas claras atravessaram seu casaco e apareceram em seu peito como costuras de luz.

— Eu vi pouco.

— Quanto?

— Chega, César — Helena disse.

Ele apontou para as janelas sem tirar os olhos de Lívia.

— Ela sabia que era filha dele. Sabia do relógio. Sabia que havia três portas. Agora quer que a gente aceite a única visão que ela resolveu não mostrar?

— Eu não resolvi nada!

O vagão respondeu ao grito.

A terceira versão de Lívia — a de duas sombras — abriu os olhos.

Até então permanecera imóvel, misturada às outras. Agora avançou para dentro do vidro. As linhas claras contornaram seu corpo e o puxaram para o outro lado.

Lívia tentou agarrá-la.

Seus dedos fecharam apenas sobre a própria sombra, que veio parar em sua mão como fuligem úmida.

— Não — disse.

A janela tornou-se profunda.

O que apareceu primeiro não foi um lugar. Foram três marcas no chão: a sola gasta de um sapato masculino, a ponta de um tênis pequeno e o retângulo pesado de uma caixa de ferramentas.

Depois vieram as pessoas que as produziriam.

Gabriel, mais velho, surgiu à esquerda.

Lívia, ainda sólida, surgiu à direita.

Entre os dois, Daniel.

Os três estavam debaixo de uma luz branca que não pertencia a casa alguma. Gabriel usava o relógio. Lívia segurava a mão do pai. Daniel mantinha a outra mão estendida para alguém fora da imagem.

Uma quarta sombra chegou antes do corpo.

Estendeu-se pelo chão até os pés de Helena.

E parou ali.

SUA OPINIÃO

O que você achou deste capítulo?

REGRAS DOS COMENTÁRIOS

— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.

— Evite spoilers do capítulo ou da história.

— Comentários ofensivos serão removidos.

Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.
CONVERSA

Nota
NOVERA

Biblioteca offline

0 capítulos
Preparando offline…