CAPÍTULO 3 — A PLATAFORMA
por Sonhado acordadoDaniel terminou o telhado às dez e cinquenta e oito da manhã de domingo.
Substituiu as duas telhas, vedou a junção da calha e despejou três baldes de água sobre o ponto reparado. Depois entrou no forro com a lanterna presa à testa e passou a mão pela madeira. Seca.
Esperou cinco minutos.
Passou a mão de novo.
Vera chamou da cozinha:
— Vai almoçar aqui?
— Só preciso fechar a tampa.
— Eu perguntei se vai almoçar.
Daniel desceu da escada, guardou a máscara e alinhou a tampa do forro. Uma das bordas ficou mais baixa. Ele empurrou até ouvir a madeira encaixar.
— Posso ficar — disse.
— Isso é sim ou não?
— Sim.
Vera havia feito arroz, frango ensopado e batatas. Colocou dois pratos na mesa, embora costumasse comer diante da televisão quando estava sozinha. Daniel lavou as mãos por mais tempo do que precisava. Havia uma linha escura sob a unha do indicador. Ele esfregou com a escovinha até a pele ficar vermelha.
Durante o almoço, Vera falou da mudança. Um apartamento perto do centro, talvez. Dois quartos, porque um só parecia pequeno demais. Elevador, desde que o condomínio não fosse caro. Daniel perguntou sobre encanamento, posição solar, vagas de garagem e distância do mercado. Ela respondeu às três primeiras perguntas. Na quarta, pousou o garfo.
— Eu ainda não escolhi o apartamento.
— Eu sei.
— Então não precisa reprovar agora.
— Não estou reprovando.
— Está fazendo uma lista.
Daniel olhou para o guardanapo ao lado do prato. Não havia nada escrito nele.
— Só estou perguntando.
Vera voltou a comer.
O relógio de Gabriel estava no pulso esquerdo de Daniel. A manga do casaco o cobria, mas a pulseira apertava cada vez que ele dobrava a mão. Vera viu quando ele alcançou a travessa de batatas.
— Você consertou.
Daniel puxou a manga sobre o mostrador.
— Era a pilha.
— Achei que estivesse estragado.
— Os contatos estavam oxidados.
— Está no seu tamanho?
— Mais ou menos.
Ela mastigou devagar.
— Gabriel usava no último furo também.
Daniel afrouxou os dedos em torno do garfo.
— Eu lembro.
Era mentira. Até a noite anterior, lembrava a pulseira solta. Nas fotografias, ela marcava a pele do irmão exatamente como agora marcava a dele.
— Você encontrou mais alguma coisa naquele saco? — perguntou Vera.
— Um cartão de memória.
— Funcionava?
— Funcionava.
Ela esperou.
Daniel cortou uma batata ao meio. O garfo bateu no prato.
— Tinha fotografias — disse.
— Eu imaginei.
— Da casa. Do quintal.
— De nós?
— Algumas.
— Depois você me mostra.
Daniel levou a batata à boca e não sentiu o gosto.
— Mostro.
Vera não perguntou pelas outras fotografias. Talvez tivesse percebido a pausa. Talvez não. Daniel terminou o almoço, lavou o próprio prato e o dela, secou a pia e conferiu a mancha no teto antes de ir embora.
— Não vai entrar água — disse junto à porta.
— Eu acredito.
— Se chover forte, me liga.
— Eu ligo.
— Mesmo se for tarde.
Vera ajeitou a gola do casaco dele. Daniel permaneceu imóvel até ela terminar.
— Para onde você vai? — perguntou.
— Para casa.
— Perguntei depois.
Ele olhou para o número 117, firme na parede.
— Não sei ainda.
— Está bem.
Vera beijou o rosto dele. Daniel demorou a retribuir. Quando levantou a mão, ela já havia se afastado.
No apartamento, ele colocou a lanterna, o carregador e a jaqueta sobre a mesa. Acrescentou uma garrafa de água, um pequeno estojo de primeiros socorros e uma chave de fenda. Tirou a chave de fenda. Colocou-a de volta.
Abriu a fotografia da estação.
A imagem ocupou o monitor inteiro. Gabriel havia enquadrado o prédio de modo torto, deixando mais céu do que fachada. A claridade do fim da tarde fazia as telhas quebradas parecerem recortes pretos. Daniel ampliou o nome SANTA AUGUSTA acima da entrada. Parte do primeiro A estava coberta por uma planta.
Na noite em que estivera lá, Daniel não olhara o nome.
Lembrava a grade fria contra a palma. O cascalho entrando no sapato. Uma luz atravessando a curva.
Depois, uma manga escapando entre seus dedos.
Daniel reduziu a fotografia.
Abriu a seguinte. O buraco na cerca ficava perto de um poste inclinado. Havia um pedaço de tecido preso ao arame. Azul ou cinza. A resolução não permitia decidir.
Ele consultou o relógio do computador.
14:36.
O mapa estimava vinte e quatro minutos de carro. A estação permanecia no mesmo lugar durante o dia. Daniel sabia. Ainda assim, não saiu.
Organizou as ferramentas que trouxera da casa da mãe. Lavou a lona, deixou-a secar na lavanderia e pesquisou o preço das telhas que havia usado. Atualizou uma planilha de gastos. Às quatro e dez, respondeu a uma mensagem de Renato sobre um caso que só seria retomado na segunda. Às cinco, fez café e esqueceu de beber.
Às seis e quarenta e nove, começou a escurecer.
Daniel fechou as cortinas.
Às sete e doze, o relógio de Gabriel apertou seu pulso. Ele o retirou, viu a marca vermelha na pele e tentou fechar a pulseira num furo diferente. Ficou larga. Voltou ao último.
Na fotografia, o relógio marcava dezenove e doze diante da plataforma.
Daniel ficou de pé.
Pegou a mochila.
Sentou outra vez.
Não precisava ir à noite. Poderia visitar o local na segunda de manhã, telefonar para a prefeitura, pedir acesso. Poderia levar alguém. Havia guardas patrimoniais, risco de desabamento, ferrugem, animais. As avaliações na internet mencionavam usuários de drogas e cães soltos.
Ele abriu o site da prefeitura. O aviso tinha três anos. “Entrada proibida por risco estrutural.” Um telefone aparecia no rodapé. Daniel copiou o número para os contatos.
Não ligou.
Às oito e meia, comeu dois pedaços de pão em pé. Às nove, tomou banho. Às nove e quarenta, vestiu a mesma jaqueta que separara na noite anterior. Conferiu a carga do celular: cem por cento. A lanterna: acendeu. O carregador: quatro luzes. A chave do carro: bolso direito. Carteira: bolso interno.
Fechou o apartamento.
Abriu novamente para verificar o gás.
Na garagem, iniciou a rota até a estação. O aplicativo indicava chegada às 22h08. Daniel apoiou as mãos no volante e não saiu da vaga.
O relógio do painel mudou para 21h46.
Ele desligou o motor.
Ficou escutando os estalos do metal esfriando. Um carro entrou na garagem, passou por ele e estacionou três vagas adiante. Um casal desceu discutindo sobre uma sacola esquecida no mercado. A mulher riu. O homem voltou ao carro.
Daniel ligou o motor de novo.
Saiu às dez e sete.
A voz do mapa o conduziu pelas avenidas iluminadas do centro. Domingo à noite, Santa Augusta parecia maior porque havia menos carros ocupando as ruas. Lojas fechadas, postos de gasolina vazios, semáforos mudando para ninguém. Daniel manteve a velocidade abaixo do limite.
Quando a rota o levou para o bairro da antiga linha férrea, as ruas estreitaram. As calçadas quebradas deram lugar a acostamentos de terra. Galpões ocupavam quarteirões inteiros. Em alguns, as placas antigas haviam sido pintadas; as letras ainda apareciam sob a tinta quando os faróis passavam.
“Em trezentos metros, vire à esquerda.”
Daniel conhecia aquela esquina.
O terreno que antes abrigava uma borracharia agora era um depósito de materiais. O muro tinha dois metros, coberto por cercas elétricas. Quinze anos antes, um homem lavava pneus ali tarde da noite. Daniel lembrava da mangueira estendida pela calçada. Lembrava de ter tropeçado nela enquanto corria.
Reduziu a velocidade.
O carro atrás dele buzinou e o ultrapassou.
“Vire à esquerda.”
Daniel virou.
A rua terminava diante de um portão municipal preso por corrente. Uma placa refletiu os faróis: ÁREA INTERDITADA. RISCO DE DESABAMENTO. O aplicativo anunciou que ele havia chegado.
Eram dez e trinta e seis.
Daniel estacionou a vinte metros do portão. Desligou os faróis. O prédio da estação não era visível dali, escondido por árvores e pelo muro de um antigo armazém. Apenas a linha escura dos trilhos cortava o mato mais adiante.
Ele poderia esperar no carro até amanhecer.
Poderia ir embora.
Pegou o celular e abriu a fotografia do buraco na cerca. O poste inclinado ainda aparecia no mapa de satélite, na lateral leste do terreno. Para chegar ali, precisaria contornar dois quarteirões a pé.
Daniel guardou o celular, colocou a mochila e saiu.
O ar cheirava a terra fria e óleo velho. À distância, um cachorro latiu duas vezes. As lâmpadas da rua terminavam na esquina, deixando o caminho lateral quase escuro. Daniel acendeu a lanterna prateada.
O facho era mais forte do que parecera no apartamento. Revelou mato alto, garrafas vazias e marcas de pneus na terra. Ele caminhou junto ao muro até encontrar o poste. Não estava apenas inclinado. Tinha partido perto da base e se apoiava na cerca como uma muleta.
O buraco da fotografia havia sido fechado com arame novo. Ao lado, a tela metálica estava solta na parte inferior. Alguém cavara uma passagem estreita por baixo.
Daniel iluminou o chão.
Pegadas recentes. Solas grandes, marcas de bicicleta, patas.
Não estaria sozinho, talvez. A ideia deveria ter sido ruim. Produziu um alívio curto e sem sentido.
Ele se ajoelhou, ergueu a tela com as duas mãos e passou a mochila primeiro. O arame prendeu na manga. Daniel puxou e ouviu o tecido rasgar.
Por um instante, viu outra manga escapando de sua mão.
Soltou a cerca.
O metal caiu com um estalo. Daniel ficou agachado do lado de fora, respirando pela boca.
— Não — disse.
A palavra saiu baixa. Prática. Como se houvesse alguém para obedecer.
Ele segurou a tela outra vez e passou.
Do outro lado, o mato alcançava sua cintura. A trilha aberta por visitantes seguia até os trilhos. Daniel caminhou devagar, iluminando cada passo. Pedras se moveram sob seus sapatos. O ruído seco do cascalho veio inteiro da outra noite.
Gabriel corria na frente.
Não era uma imagem. Eram apenas os passos: rápidos, irregulares, um deles raspando no chão porque a sola esquerda estava descolando. Daniel havia gritado para que parasse. Gabriel respondera alguma coisa sem se virar.
A frase não vinha.
Daniel chegou aos trilhos.
O aço estava coberto de ferrugem e plantas. A linha desaparecia numa curva escura à direita. À esquerda, seguia reta entre os galpões. Nenhum sinal indicava uso recente. Não havia brilho nos trilhos, grampos novos ou brita limpa.
Ele se abaixou e tocou o metal.
Frio.
Naquela noite, vibrava.
Daniel afastou a mão.
O prédio surgiu quando ele atravessou a linha. Primeiro o telhado recortado entre as árvores; depois as janelas cobertas; por fim, a fachada inteira, mais baixa do que na fotografia. SANTA AUGUSTA continuava acima da entrada. A planta cobrira todo o primeiro A.
O relógio no pulso marcava 22h58.
Daniel apontou o celular e tirou uma fotografia do mesmo lugar onde Gabriel estivera. Conferiu a imagem. Escura demais. Ativou o modo noturno e tentou de novo.
O prédio apareceu cinza, quase plano. A grade projetava sombras no chão como na foto antiga.
Ele comparou as duas imagens.
Quinze anos haviam engrossado os troncos, derrubado mais telhas e apagado parte de uma pichação. O resto permanecia onde estava.
Daniel aproximou-se da entrada. As tábuas que fechavam a porta tinham sido arrancadas. No chão, uma corrente cortada se escondia sob folhas. Ele iluminou o interior.
O saguão estava cheio de entulho. Um banco sem encosto, pedaços do teto, latas de tinta, colchões manchados. Na parede à esquerda, um quadro de horários enferrujado ainda conservava linhas vazias onde antes havia nomes e números.
Daniel não entrou.
A plataforma ficava pela lateral.
Seguiu junto à parede, passando por janelas quebradas. A lanterna encontrou marcas de mãos na tinta descascada. Algumas eram pequenas. Ele desviou o facho.
Às 23h09, chegou à plataforma.
O banco de concreto continuava perto da coluna central. Uma das pernas fora quebrada, e o assento inclinava para a linha. O telhado cobria apenas metade do espaço. Acima, vigas expostas criavam faixas negras contra o céu.
Daniel parou no ponto exato em que lembrava ter parado.
Não precisava procurar. O corpo escolheu antes.
O terceiro pilar. A placa caída. A borda da plataforma com uma rachadura em forma de Y.
Ele iluminou a rachadura.
Menor do que recordava.
Gabriel estava do outro lado dos trilhos. Daniel junto ao pilar. Entre os dois, cinco ou seis metros. Talvez menos. Gabriel se abaixara para pegar alguma coisa. O relógio. A câmera. Daniel não conseguia manter o objeto igual por mais de um segundo.
Depois a luz fizera a curva.
Não uma luz branca. Amarela, baixa, tremendo sobre o metal.
Daniel apertou a lanterna até os dedos doerem.
— Você podia ter esperado — disse.
A estação devolveu parte da frase. Podia. Esperado.
Ele não sabia se dissera aquilo na noite do acidente ou agora.
Sentou no banco quebrado e abriu a fotografia no celular. Gabriel estivera ali às dezenove e treze, horas antes de voltar com Daniel. Sozinho ou com alguém que não aparecia nas imagens. Fotografara a cerca, os trilhos, a plataforma e o relógio.
Daniel comparou o enquadramento da fotografia com a plataforma diante dele. Procurou no cimento, nos pilares e na borda dos trilhos alguma coisa que justificasse aquela sequência de imagens. Não encontrou.
O vento moveu o mato entre os trilhos. Uma placa metálica bateu duas vezes em algum lugar dentro do prédio. O celular ainda tinha sinal fraco.
Às 23h43, levantou-se.
Tinha vindo. Vira o lugar. Poderia pedir que ampliassem as fotografias outra vez, mas isso não mudaria o que sabia. Gabriel estivera ali antes. Depois voltara. Daniel o acompanhara. Não o impedira de passar pela cerca. Não o alcançara do outro lado da linha.
Abaixou-se junto à borda da plataforma.
Havia dois metros até o chão de cascalho. Na memória, era uma distância impossível. Naquela noite, Daniel saltara. O joelho batera numa pedra. Levantara antes da dor. Correra.
Cinco segundos cabiam naquele espaço. Um salto, quatro passos, uma mão.
Se não tivesse hesitado junto ao pilar.
Se não tivesse olhado para a luz.
Se não tivesse gritado primeiro.
Daniel fechou os olhos.
O apito veio da curva. Longo. Próximo.
Ele abriu os olhos e recuou da borda com tanta força que caiu sentado.
O som terminou, mas continuou dentro do peito.
Não havia luz nos trilhos.
Daniel se levantou. Apontou a lanterna para a curva. Ferrugem, mato, escuridão.
Um som de metal raspou ao longe.
— Não.
Ele pegou o celular. 23h51. Sem sinal.
O vento havia parado. As plantas entre os trilhos permaneciam imóveis. Até a placa dentro do prédio se calara.
Daniel ativou a câmera e filmou a curva. A tela mostrou apenas o facho da lanterna perdendo força na distância.
O metal raspou de novo.
Mais perto.
Talvez houvesse uma linha ativa além dos galpões. O som podia viajar entre as construções. Um caminhão manobrando, uma porta de aço, máquinas. Daniel conhecia pouco aquele bairro agora.
Mas conhecia os trilhos diante dele.
Estavam cobertos de mato.
Às 23h59 e cinquenta e cinco segundos, o relógio de Gabriel parou.
Daniel percebeu porque o ponteiro permaneceu sobre o onze. Bateu no vidro com o indicador.
Nada.
Puxou o celular. A tela marcava 23h59. Os dois pontos entre os números não piscavam.
Pressionou o botão lateral. A tela apagou.
Não acendeu de novo.
A lanterna falhou.
Daniel a sacudiu. O facho voltou mais fraco, pulsando. Uma vez. Duas. Depois estabilizou.
O trilho sob a plataforma brilhou.
Ele direcionou a luz para baixo. A ferrugem continuava ali, mas uma faixa estreita no topo do metal refletia como se tivesse sido polida. Daniel passou a ponta do sapato. A superfície estava lisa.
Deu um passo para trás.
Outro apito atravessou a estação.
Dessa vez, o ar se moveu. Poeira caiu das vigas. O banco vibrou contra o piso.
Daniel correu para longe da borda e encostou no terceiro pilar. A mesma posição. O corpo escolheu de novo.
— Sai daqui — disse.
Não sabia para quem.
Na curva, uma luz amarela apareceu entre as árvores.
Baixa. Tremendo sobre o metal.
Daniel deixou a lanterna cair. O facho girou no chão e parou voltado para seus sapatos.
A luz cresceu sem iluminar o mato à frente. Os trilhos vibravam, mas as plantas continuavam atravessadas sobre eles, intactas. O ruído das rodas se aproximou: ferro contra ferro, pesado e regular. As janelas da estação estremeceram em seus caixilhos.
O relógio voltou a andar.
23h59 e cinquenta e cinco.
Daniel contou sem querer.
Cinquenta e seis.
Cinquenta e sete.
Cinquenta e oito.
Cinquenta e nove.
Meia-noite.
A locomotiva saiu da curva.
Era negra, antiga, larga demais para aqueles trilhos. Vapor branco se derramava junto às rodas e cobria as plantas sem dobrá-las. A luz frontal atravessou Daniel, o pilar e a parede como se procurasse outra coisa atrás deles.
Ele levantou o braço para proteger os olhos.
O motor avançou até a plataforma, arrastando vagões escuros. Nenhuma roda tocava o mato. Nenhuma ferrugem cedia sob o peso. Ainda assim, o chão tremia.
Daniel não correu.
Não conseguiu.
A locomotiva parou diante dele.
O vapor se abriu por um instante.
Na lateral do primeiro vagão, uma porta começou a deslizar.
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