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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1017 MIN

O segundo toque do sino veio depois que atravessaram.

Daniel sentiu a chuva antes de enxergar a estação. Água fria entrou pela gola da jaqueta, correu entre as omoplatas e trouxe de volta o peso de uma roupa que ele não usava havia quinze anos. Não era a mesma jaqueta. Ainda assim, por um instante, seus braços procuraram os bolsos daquela outra: carteira à direita, chaves à esquerda, um maço de cigarros que não era dele e que Gabriel entregara antes de passar pela cerca.

O maço não estava ali.

O resto estava.

A plataforma de Santa Augusta se estendia sob uma cobertura inteira. Não havia buracos nas telhas, colchões no saguão nem tinta descascada nas colunas. Os azulejos brancos refletiam lâmpadas amareladas. O nome da estação aparecia completo acima da porta, todas as letras limpas, e um cartaz preso à parede anunciava uma festa de inverno que terminara na semana anterior.

17 DE AGOSTO DE 2011.

Uma ponta do papel se soltava a cada rajada e batia na parede.

Daniel parou sob a chuva mesmo com a cobertura a dois passos. Helena quase esbarrou nele; conteve o movimento e desviou para a direita, mantendo entre os dois a distância que haviam imposto depois do hospital. César saiu por último, apoiado no batente de azulejos. Assim que seu sapato tocou o cascalho, a abertura atrás dele se fechou sem ruído.

No lugar da passagem ficou um paredão coberto de hera.

A garota pressionou as duas mãos contra as folhas. Encontrou pedra.

— Sumiu.

Helena inclinou o rosto para a faixa que prendia o casaco ao abdome de César. A água já escurecia o tecido, confundindo chuva com sangue.

— Não se apoie desse lado.

César obedeceu sem responder. A ausência da piada fez Daniel olhar para ele.

O rosto do homem perdera cor. Uma das mãos continuava sobre a compressão; a outra se prendia às saliências da pedra, cuidadosa para não tocar em ninguém. Ele examinava a plataforma, os trilhos, o relógio redondo sob a cobertura. Não procurava uma saída. Procurava pessoas.

Daniel também.

O relógio da estação marcava 23h41.

O ponteiro dos segundos avançava com um estalo seco. Não saltava números, não voltava, não esperava ninguém.

— Faltam dezessete minutos — disse Helena.

Daniel ouviu como se ela tivesse falado junto ao seu ouvido.

— Eu sei.

— Precisamos primeiro determinar onde estamos em relação à cena. Se ela consegue nos ver, se…

— Eu sei onde estamos.

A resposta saiu mais alta do que pretendia. O cartaz bateu na parede. A garota deixou as mãos caírem ao lado do corpo, e César olhou para o relógio.

Helena não insistiu. Limpou a água do rosto com o dorso da mão e caminhou até a cobertura. Os saltos molhados deixaram marcas escuras no piso. Marcas reais. Permaneceram depois que ela passou.

Daniel acompanhou cada uma.

No hospital, os objetos haviam começado a perder as bordas quando a lembrança acabava. Na cozinha, a tigela ficara inteira apenas enquanto estavam dentro dela. Ali a chuva se acumulava nos sulcos do cascalho, escorria pelo meio-fio e levava grãos de terra para os trilhos. Nada parecia transparente. Nada esperava a permissão dele para existir.

A garota se abaixou perto de uma poça e tocou a superfície com a ponta de um dedo. Círculos se abriram entre os pingos.

— Está fria.

— Chuva costuma ser — disse César.

O comentário saiu baixo e sem sorriso, mais hábito do que defesa.

Ela ergueu os olhos para ele, pronta para responder. Mudou de ideia.

Daniel foi até o terceiro pilar.

Não havia rachadura na base. A placa caída que encontrara no domingo ainda estava presa acima da plataforma: PROIBIDO ATRAVESSAR A LINHA. O banco de concreto conservava as duas pernas. Alguém deixara um jornal dobrado no assento, e a data impressa no alto confirmava o que o cartaz já dissera.

Ele não pegou o jornal.

Do outro lado dos trilhos, uma lâmpada iluminava o caminho até a cerca. A abertura no arame parecia menor. Perto dela, o poste ainda estava reto, sem ferrugem na base, e nenhum pedaço de tecido azul se prendia às pontas.

— Vocês entraram por ali? — Helena perguntou.

Daniel contou três quadrados no alambrado a partir do poste.

— Ele entrou.

— E você?

— Depois.

Uma resposta cabia entre as duas palavras. Daniel deixou que a chuva a levasse.

Helena passou a unha pelo cartaz no pilar, levantando uma lasca de tinta na borda. O branco cedeu e revelou metal cinza. Ela ficou olhando a marca produzida.

— Isso não estava assim — Daniel disse.

— Tem certeza?

— Eu vi essa placa no domingo.

— Quinze anos depois.

Daniel se aproximou. A tinta raspada não se recompôs. Quando tocou a falha, um fragmento branco se desprendeu e grudou na polpa de seu dedo.

Helena encontrou um pedaço de giz no parapeito da bilheteria. Traçou uma linha curta no último azulejo da parede. O giz rangeu. Pó branco caiu sobre o piso úmido.

Esperaram.

A linha permaneceu.

O trem corria em algum lugar abaixo deles. Daniel sentia a vibração atravessar a estação recriada, funda demais para vir daqueles trilhos, como se rodas passassem sob a terra. Acima do ruído surgiu o som de um motor.

Faróis varreram a cerca.

Todos se voltaram.

Um carro antigo passou devagar pela rua do outro lado, deformado pela água que escorria no para-brisa. O motorista não olhou para a estação. Os pneus espalharam uma lâmina de água junto ao meio-fio, e as lanternas vermelhas desapareceram atrás dos galpões.

— Ele não viu a gente — disse a garota.

— Não olhou — Helena respondeu.

— Dá no mesmo se ninguém aqui olhar.

César continuava perto da parede de hera. A água escorria pelo queixo, mas ele não saía da chuva.

— E se olharem?

Daniel virou-se para ele.

César indicou a marca de giz, não as pessoas.

— Se isso fica, o resto também pode ficar.

— Até sairmos — disse Helena.

— Ou depois.

Ele olhou o próprio casaco preso ao corpo. Sob a faixa, o ferimento existia porque uma menina morta fora salva dentro de uma sala que não existia. A cadeira, a cama e os instrumentos haviam sumido; o sangue, não. César passou a língua sobre os lábios molhados e desviou os olhos para o trilho.

— Você se ofereceu — Helena disse.

Não havia gratidão na frase.

— Não estou pedindo medalha.

— Então o que está perguntando?

O estalo do relógio ocupou o intervalo. César contou dois segundos olhando para o ponteiro.

— Se mudarmos uma coisa aqui, ela sai conosco como o ferimento? Ou some como a cama?

Ninguém respondeu.

A garota enfiou a mão no bolso onde guardara o bilhete. O papel produziu um ruído fino sob o tecido. Daniel percebeu. Ela percebeu que ele percebera e retirou a mão depressa.

— Não precisamos mudar tudo — ele disse. — Só tirar Gabriel da linha.

— Isso é tudo para você — César falou.

A frase veio simples. Sem provocação.

Daniel olhou para o outro lado dos trilhos, para o espaço onde o irmão se ajoelharia. A chuva tornava o aço negro. Entre dois dormentes havia uma poça estreita e, sob a água, uma pedra clara. O relógio cairia perto dali. Ele lembrava do brilho no vidro antes de Gabriel se abaixar. Ou lembrara muitas vezes até o brilho nascer.

— É — disse. — É tudo.

Às 23h44, passos correram além do saguão.

Daniel conheceu a passada antes de conhecer a voz. Um pé tocava o chão inteiro; o outro raspava no final porque a sola esquerda estava descolando.

Gabriel atravessou a porta lateral.

Dezenove anos. Cabelo molhado colado à testa, câmera presa ao pulso, jaqueta jeans aberta sobre uma camiseta cinza. O relógio aparecia no braço esquerdo, justo no último furo. Ele segurava o maço de cigarros na outra mão.

Daniel esqueceu de respirar.

Não foi a voz que faltou primeiro. Foi o modo como Gabriel ocupava espaço. O ombro direito sempre um pouco mais baixo por causa da mochila; o queixo avançado quando sabia que seria repreendido; a velocidade com que seus olhos passavam pelas coisas, impacientes para encontrar a próxima.

Os olhos passaram por Daniel.

Não pararam.

Gabriel cruzou a plataforma e foi até a borda. A água estalava sob seus tênis. Ele ergueu a câmera, fotografou a curva e conferiu a imagem no visor.

Daniel atravessou o caminho dele.

Gabriel passou por dentro de seu ombro.

O frio não veio da chuva. Veio de dentro, um vazio rápido no osso, e depois o rapaz já estava atrás dele, guardando a câmera.

A garota soltou um som curto. Helena segurou o próprio casaco antes de encostar em Daniel; os dedos fecharam no tecido amarrado à cintura.

— Ele não vê — disse.

Daniel virou.

Gabriel bateu o maço de cigarros contra a palma. Tirou um, cheirou o filtro e tornou a guardar. Era uma mania que Daniel havia esquecido. Ou talvez não. A mão executou o gesto uma segunda vez, e Daniel tentou ouvir qualquer coisa que o acompanhasse: uma frase, um riso, um assobio.

Nada.

O irmão guardou o maço no bolso da jaqueta e caminhou até a bilheteria.

Helena se colocou diante dele. Gabriel atravessou seu braço sem reduzir o passo.

— Pessoas não — ela disse. — Objetos, talvez.

Pegou o jornal do banco e o lançou no caminho. As páginas se abriram no ar, pesadas de umidade, e caíram diante dos pés de Gabriel.

Ele parou.

Os quatro ficaram imóveis.

Gabriel olhou o jornal. Depois para o banco vazio de onde viera. Abaixou-se, juntou as folhas e as deixou sobre o assento.

— Vento — murmurou.

A palavra chegou inteira.

Daniel teve de apoiar a mão no pilar.

Durante quinze anos, guardara a voz do irmão em lugares que não combinavam: um áudio curto no celular antigo, duas palavras numa filmagem de aniversário, a imitação ruim de um locutor esportivo. Depois da cozinha, conseguia lembrar que Gabriel falava, mas não o som. Agora aquela única palavra entrou no espaço apagado sem preencher o resto.

Vento.

Não era bastante. Era pior do que nada.

Gabriel retornou à bilheteria. Retirou da mochila uma ferramenta curta e começou a mexer na madeira que fechava uma das janelas.

Daniel ficou onde estava.

A garota se aproximou pelo lado do pilar, deixando uma coluna de distância entre eles.

— Ele falou.

— Eu ouvi.

— Era assim que…

— Não sei.

Ela baixou o rosto. A água pingou da ponta de seu cabelo sobre o sapato.

— Desculpa.

Daniel quis perguntar por quê. A pergunta pareceu perigosa sem que ele soubesse o motivo.

Às 23h47, outro Daniel apareceu pelo saguão.

Ele vinha sem correr, mas rápido o suficiente para que a sola molhada escapasse a cada dois passos. Tinha vinte e três anos, cabelo mais comprido, a barba falhando nas laterais e a jaqueta verde que Daniel procurara ao atravessar. Um molho de chaves balançava na mão direita. Na esquerda, segurava o celular aberto numa mensagem.

GABRIEL: só mais cinco min

O Daniel de vinte e três anos parou ao ver o irmão junto à bilheteria.

— Você ficou maluco?

Gabriel escondeu a ferramenta atrás da perna.

— Não comecei ainda.

— Passou pela cerca. Isso conta como começar.

— Você também passou.

— Pra tirar você daqui.

Daniel conhecia as falas. Algumas não estavam na ordem certa. A lembrança guardara a discussão em pedaços: o brilho da câmera, água entrando no tênis, Gabriel dizendo que havia encontrado alguma coisa, a própria mão fechada com força demais no celular.

Os dois rapazes discutiam na frente deles e nenhum olhava para os quatro passageiros.

Helena recuou até Daniel sem se aproximar demais.

— Por que ele voltou?

— Encontrou uma sala fechada nas fotos. Achou que tinha… documentos. Coisas da estação.

— E havia?

Daniel olhou para a janela que Gabriel tentava abrir.

— Não chegamos a ver.

— Então por que ele foi para os trilhos?

A pergunta ficou sem resposta porque Gabriel empurrou o irmão mais velho pelo peito. O jovem Daniel segurou seu braço. Gabriel se soltou, e o relógio bateu na fivela da mochila.

Um clique metálico.

Daniel ouviu.

O pino da pulseira havia cedido.

O relógio continuava preso por enquanto, torto sobre o pulso.

— É assim — Daniel falou.

Helena acompanhou seu olhar.

— O relógio cai quando ele corre.

— Eu achei que já estivesse no chão. Sempre achei…

O jovem Daniel bloqueou a saída para a plataforma. Gabriel mudou de direção, contornou o banco e correu para a lateral aberta, onde poderia saltar até o cascalho. Ao apoiar a mão no assento, deslocou o jornal que Helena havia movido.

Ele parou outra vez.

Olhou para as folhas.

Antes, o jornal estava dobrado na extremidade esquerda. Agora permanecia aberto no centro do banco, com uma página arrancada pendendo até o chão. Gabriel tocou o papel, depois examinou a plataforma vazia.

A cena não se corrigiu.

O jovem Daniel alcançou a mochila dele.

— Chega. Vamos embora.

Gabriel puxou o tecido. O relógio soltou-se.

Daniel viu a pulseira cair sobre o jornal, não nos trilhos.

O tempo continuou.

Gabriel olhou o próprio pulso, encontrou o relógio no banco e o apanhou. Prendeu-o no bolso da jaqueta. Então se desvencilhou do irmão e saltou da plataforma mesmo assim.

Mas caiu um metro à esquerda do lugar guardado na memória.

Todos olharam para o banco.

A garota sorriu antes de conseguir impedir. Foi um sorriso breve, assustado com a própria existência.

— Mudou.

Daniel atravessou a plataforma e pegou o jornal. O papel se dobrou em suas mãos. Rasgou-o ao meio.

As duas partes permaneceram separadas.

— Daniel — Helena chamou.

Ele lançou uma metade sobre os trilhos. Gabriel, que seguia na direção da curva, não percebeu. O jovem Daniel saltou atrás dele e pisou no papel. A sola escorregou; ele recuperou o equilíbrio na placa de metal junto à linha.

Mudou também.

Não era o poder. Daniel não tocara o bilhete. Não havia silêncio, cascalho suspenso nem cinco pulsações fechando o mundo. A chuva continuava. O relógio da estação avançava. Qualquer um deles podia empurrar uma coisa para dentro da noite.

Helena chegou à borda e avaliou a distância até o chão. César se aproximou devagar, protegendo o abdome. A garota ficou junto ao pilar, os dedos presos no bolso.

— Podemos bloquear a passagem — Helena disse. — Tirar objetos do caminho. Fazer os dois voltarem para a plataforma antes da curva.

— Eles não voltam só porque um jornal caiu — César falou.

— Então derrubamos a placa. O banco. Alguma coisa que eles não atravessem.

— E se o cenário escolher outro jeito?

Helena virou o rosto para ele.

— Você tem uma opção melhor?

César observou os dois irmãos discutindo perto dos trilhos. O mais jovem gesticulava com a câmera; o mais velho tentava ficar entre ele e a curva. A água corria por suas roupas sem tocar nos passageiros quando os atravessava, mas se desviava dos objetos que eles haviam movido.

— Tenho uma pergunta — disse César.

Ninguém lhe deu espaço. Ele fez mesmo assim.

— Se o morto sai andando daqui, quem não chega aonde chegou por causa disso?

Daniel apertou as metades do jornal. A tinta passou para sua pele.

— Não começa.

— Eu não estou dizendo para deixar seu irmão morrer.

— Então não diz nada.

César aceitou o golpe sem humor. O olhar desceu para a compressão presa ao corpo, para o sangue de uma morte que já não pertencia à menina que a sofrera.

— A ferida mudou de lugar — falou, quase para si. — Não desapareceu.

Helena ouviu. O maxilar dela endureceu, mas não respondeu.

O relógio marcou 23h53.

Cinco minutos.

Daniel desceu para o cascalho. A queda lançou dor pelo joelho, a mesma pedra no mesmo ponto, mas ele não perdeu tempo procurando qual era. A chuva parecia mais pesada junto aos trilhos. Cheirava a óleo, ferrugem e mato esmagado.

Helena desceu depois, escolhendo a lateral do banco onde o desnível era menor. A garota tentou segui-la.

— Fica na plataforma — Daniel disse.

— Eu posso ajudar.

— Lá de cima.

— Você nem sabe o que vai fazer.

Daniel olhou para ela. A resposta pronta morreu antes de sair. A garota sustentou o olhar por um segundo e virou o rosto, furiosa por ele estar certo ou por não estar.

César sentou-se na borda, incapaz de saltar sem abrir a ferida. Arrastou-se até uma pilha de dormentes antigos e testou o peso de um pedaço de madeira.

— Consigo empurrar isto.

Helena passou ao lado dele.

— Sem soltar a compressão.

— Ainda dá ordens para mim?

Ela já estava longe quando respondeu:

— Estou falando com Daniel.

César fechou a boca.

Daniel caminhou até o ponto onde Gabriel se ajoelharia. Encontrou a pedra clara sob a poça e a chutou para fora do dormente. Depois retirou duas garrafas vazias do mato, um parafuso comprido e uma chapa enferrujada. Objetos pequenos. Coisas que poderiam mudar um pé, um segundo, uma direção.

Não bastava.

Ao lado da linha havia uma alavanca de mudança presa a uma caixa baixa. Daniel tentou movê-la. O metal cedeu alguns centímetros e travou. Helena encontrou a lingueta de segurança e retirou o pino.

— Se mudarmos o trilho? — ela perguntou.

— Não dá tempo. E não sabemos para onde leva.

O ruído subterrâneo cresceu. Rodas dentro do vagão, não naquela noite. Ainda assim, a linha vibrou sob a mão de Daniel.

Gabriel se afastou do irmão e começou a andar mais depressa para a curva.

23h55.

O jovem Daniel parou junto ao terceiro pilar, exatamente onde sempre parava.

Daniel viu a hesitação chegar ao próprio rosto mais novo: primeiro a raiva, depois o cálculo da distância, depois um olhar para o celular como se cinco minutos prometidos pudessem ser cobrados de alguém.

— Não fica aí — disse.

O rapaz não ouviu.

— Desce agora.

Gabriel correu.

O relógio estava no bolso, mas a câmera pendia pelo pulso. A alça bateu na perna. Ele diminuiu por um instante para segurá-la, e esse instante não existira antes.

A cena respondia.

Daniel encontrou uma barra de ferro junto à caixa de mudança. Helena segurou a outra extremidade usando a faixa da própria camisa para proteger a mão cortada. Juntos, arrastaram o metal sobre o cascalho e o posicionaram diante da passagem entre os dormentes.

— Se ele tropeçar… — Helena começou.

— Não vai estar na linha.

— Você não sabe onde vai cair.

Daniel reajustou a barra. Cinco centímetros à direita. Depois dois de volta.

— Aqui.

A garota se ajoelhou na borda da plataforma.

— A luz vem antes do apito.

Daniel ergueu o rosto.

— Como sabe?

Ela ficou pálida, mas apontou para a curva.

— Porque já está vindo.

Uma luminosidade amarela tocou a chuva entre as árvores.

O jovem Daniel ainda estava junto ao pilar. Gabriel atravessava os trilhos numa diagonal diferente, alterada pelo jornal, pelo relógio no bolso, pela câmera presa na mão. Mesmo assim, ia em direção ao mesmo espaço.

César empurrou o dormente da plataforma. A madeira tombou, bateu na borda e ficou presa pela metade.

— Preciso de alguém.

Ninguém foi.

Ele tentou outra vez. A faixa no abdome escureceu.

Helena olhou para Daniel. Não pediu autorização, não ofereceu perdão a César. Voltou, agarrou a extremidade do dormente e o ajudou a derrubá-lo sobre o cascalho. Os dois soltaram ao mesmo tempo para não se tocar.

A madeira caiu entre Gabriel e a curva.

O rapaz viu o obstáculo. Reduziu a corrida.

O apito começou ao longe.

23h57 e cinquenta e três.

Daniel contou as posições, não os segundos: Gabriel à esquerda da barra; Helena junto à caixa de mudança; César sentado na plataforma, uma mão no ferimento e outra livre; a garota acima do terceiro pilar; seu eu mais novo finalmente saltando.

Não eram cinco segundos.

Eram quatro pessoas dentro da noite.

Daniel soltou a barra de ferro.

— Agora.

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