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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2117 MIN

A porta abriu para um corredor sem janelas.

As vozes que vinham do outro lado cessaram no mesmo instante, todas juntas, deixando atrás de si a impressão de uma reunião encerrada segundos antes. Nenhuma cadeira arrastou. Nenhum passo se afastou. Restou o cheiro de papel guardado, metal frio e fumaça antiga, mais forte agora, preso num ar que parecia não circular havia décadas.

Lívia foi a última a atravessar.

Daniel esperou que ela passasse, mantendo os braços junto ao corpo. A menina percebeu o espaço oferecido e entrou sem olhar para ele. Ainda trazia sob o nariz o pedaço da camisa manchada, embora o sangue tivesse parado. No bolso do casaco, a fibra cinza retirada da roupa de Daniel formava um volume pequeno demais para ser notado por qualquer pessoa que não soubesse onde procurar.

Ele procurou.

A porta do Vagão 5 se fechou atrás dela.

Não bateu. O trinco entrou na madeira com um ruído preciso, seco, e uma faixa de cera escura escorreu do alto do batente. Antes de alcançar o chão, endureceu sobre as frestas, lacrando-as. O cheiro lembrava vela apagada numa igreja que nenhum deles conhecia.

César tocou o selo com a unha.

— Isso parece definitivo.

A tentativa de leveza morreu antes do fim da frase. Ele limpou a cera do dedo na lateral da calça, mas a mancha continuou ali, negra, como se estivesse sob a unha.

O corredor se alargava alguns metros adiante. As paredes eram revestidas por madeira fosca, interrompida por fileiras de pequenos compartimentos quadrados, cada um fechado por uma tampa de latão. Não havia números. Apenas riscos verticais, de um a seis, gravados em combinações diferentes. Alguns compartimentos traziam a marca funda de algo que já fora retirado; outros pareciam nunca ter sido abertos.

O teto era baixo. Lâmpadas protegidas por grades lançavam uma luz amarela e imóvel. Ali, nenhum efeito chegava antes da causa. Nenhuma sombra saía na frente do corpo. Depois do Vagão 5, a ordem comum das coisas parecia uma ameaça diferente.

Daniel levantou o pulso.

O relógio de Gabriel marcava 3h41.

O ponteiro dos segundos avançou uma vez.

Parou.

Não voltou a andar.

— Quanto tempo passou? — perguntou Lívia.

Daniel continuou olhando para o mostrador.

— Não sei.

Ela quase levou a mão ao bolso. Interrompeu o gesto e apertou os dedos contra a coxa, como se tivesse esquecido o que procurava ali.

Helena caminhou até o primeiro compartimento. O corte no polegar havia colado o bilhete à pele. Ela o soltou devagar, sem arrancar a casca fina que começava a formar. Depois aproximou o rosto da tampa de latão.

— Há palavras por baixo.

César se inclinou, protegendo o ferimento com o antebraço. A etiqueta ensanguentada com seu nome continuava amarrada ao punho.

— Dá para abrir?

Helena introduziu a unha na borda. A tampa não cedeu.

— Não perguntei se era uma boa ideia — ele acrescentou.

Ela retirou a mão.

— Então abra.

César esboçou um sorriso que não alcançou lugar algum. Não tentou.

À frente, o corredor terminava numa sala comprida. Não havia bancos de passageiros, janelas ou sinais de que o trem se movia. O piso era feito de placas de ferro, cada uma com um retângulo rebaixado no centro, do tamanho aproximado de dois pés juntos. Algumas estavam polidas por uso. Outras conservavam uma camada uniforme de pó.

Sobre as paredes, relógios sem ponteiros ocupavam molduras de madeira escura.

Eram dezenas.

Daniel contou até vinte e três antes de perceber que a fileira seguia além do ângulo de visão. Todos tinham mostradores diferentes — algarismos romanos, marcas simples, números quase apagados — e o mesmo centro vazio. Nenhum tique-taque. O silêncio deles pesava mais que qualquer mecanismo em funcionamento.

Lívia parou na entrada da sala.

— Não gosto daqui.

Ninguém respondeu que também não.

No meio do espaço havia uma mesa estreita. Sobre ela, quatro suportes de latão se alinhavam lado a lado, semelhantes aos apoios usados para exibir livros, mas vazios. Um quinto estava tombado. O sexto não passava de uma marca retangular na poeira.

César deixou a mala do criador do trem sobre o piso. O impacto não ecoou. O som ficou junto ao couro, curto e achatado, como se a sala recusasse devolvê-lo.

— Quatro em pé — disse. — Um caído. Um faltando.

Helena examinou os suportes sem tocá-los.

— Somos quatro.

— Obrigado, doutora.

O humor veio por hábito, sem convicção. César baixou os olhos logo depois, incomodado com a própria voz.

Daniel seguiu até a extremidade oposta.

A porta de saída ocupava toda a largura do vagão. Era feita de duas folhas de ferro escurecido, sem maçaneta, dobradiças visíveis ou fechadura. No encontro das folhas havia uma ranhura fina na altura do peito, larga o bastante para receber um bilhete.

Acima, letras fundidas no metal formavam duas linhas:

UMA PASSAGEM DEVERÁ PERMANECER.

UM PASSAGEIRO DEVERÁ RETORNAR.

Daniel leu duas vezes.

Na segunda, a palavra passageiro parecia mais funda.

— Retornar para onde? — Lívia perguntou atrás dele.

Ela mantinha distância suficiente para que a manga não roçasse seu braço. Daniel apontou para a porta lacrada por cera, no início do corredor.

— Talvez para trás.

— Ela não abre.

— Ainda.

A palavra produziu um movimento quase invisível no rosto da menina. Daniel percebeu tarde demais. Lívia desviou para os relógios vazios.

Helena aproximou-se da inscrição. O bilhete pendia entre dois dedos.

— Uma passagem deverá permanecer — repetiu. — Não diz aberta.

César ficou junto à mesa.

— Se uma passagem fica, alguém não segue.

— Também não diz isso.

— Não precisa.

Helena virou o rosto para ele.

O ferimento transferido de Marina havia atravessado curativos improvisados, camisa e casaco. Uma mancha escura se espalhava pela lateral de César, menor que antes, porém fresca nas bordas. Ele permanecia de pé com o quadril levemente inclinado, roubando peso do lado machucado. A sala parecia ter sido construída para registrar esse tipo de detalhe.

Cada placa de ferro sob os pés deles tinha o tamanho exato de alguém esperando uma sentença.

Daniel percorreu os olhos pela inscrição.

— Uma pessoa volta. Os outros passam.

— Ou uma pessoa fica — César disse. — Retornar pode ser o jeito educado de escrever.

Lívia olhou para a ranhura na porta.

— Escrever o quê?

César não respondeu.

Helena abriu a mala sobre a mesa. O fecho esquerdo resistiu; ela o pressionou com a base da mão até o metal ceder. A camisa manchada de graxa, o estojo vazio e o manual estavam como antes. A fotografia de 1947 permanecia entre a capa e a primeira página do caderno.

Quando Helena retirou o manual, um pó cinzento caiu da lombada.

Não era poeira.

Pequenas letras se misturavam aos grãos. Daniel reconheceu um N, metade de um C, um traço curvo que poderia ter pertencido a qualquer palavra. No piso, perderam a forma.

Helena abriu o caderno.

Os símbolos resistiram ao olhar. Trilhos surgiam quando ela inclinava a página, mas se desfaziam em marcas verticais antes de formar um caminho completo. Seis traços apareciam perto da margem. Um deles estava preenchido.

— O mesmo desenho da porta — disse Daniel.

Lívia se aproximou do outro lado da mesa. Não tocou no livro.

— Um escureceu quando a terceira visão acabou.

César passou a língua pelos dentes.

— Então já pagamos alguma coisa.

Daniel olhou para ela. Lívia levou a mão ao bolso onde guardara a fibra cinza e a retirou imediatamente, como se o tecido queimasse.

— Ela pagou — corrigiu Helena.

O silêncio seguinte não foi absorvido pela sala. Ele pareceu acrescentado a ela, mais uma camada entre tantas decisões encerradas.

César voltou para a porta de ferro.

Passou o indicador pela ranhura. O metal raspou a pele e deixou uma linha branca.

— Bilhetes entram aqui.

— Não coloque o seu — Daniel disse.

César olhou por cima do ombro.

— Você gosta de instruções depois que elas já fizeram falta.

— Não coloque.

Desta vez, a voz de Daniel saiu mais curta.

César retirou a mão da porta. Caminhou até um dos retângulos rebaixados no piso e encaixou os pés dentro dele. A placa afundou sob seu peso com um estalo. Um dos relógios sem ponteiros escureceu na parede.

Helena fechou o manual.

— Saia daí.

— Por quê?

— Porque alguma coisa respondeu.

— Finalmente.

Ele permaneceu sobre a placa.

Daniel foi até ele, mas César ergueu a palma.

— Não começa.

— Sai.

— Se cada um de nós for testar uma frase por capítulo, a menina vai estar aposentada quando chegarmos à locomotiva.

A piada caiu sem reação. César deixou a mão baixar.

— Certo — murmurou. — Essa foi ruim até para mim.

O relógio escuro na parede ganhou um ponteiro.

Um só.

Fino, comprido, apontando para baixo.

César o observou. Depois olhou para o próprio bilhete, ainda guardado no bolso interno do casaco.

Não o retirou de imediato.

Helena contornou a mesa. Seus passos permaneceram fora do retângulo marcado no piso.

— Não sabemos o que isso faz.

— Sabemos o bastante.

— Você disse isso no hospital.

O rosto dele perdeu o pouco movimento que restava.

Helena parou a dois metros. Não se desculpou pelo golpe. O bilhete dela estava fechado na mão, protegido junto ao corpo.

— E eu estava errado — César disse.

Não veio defesa depois.

Daniel percebeu primeiro a ausência. César sempre colocava outra frase atrás de uma admissão, uma provocação, uma razão que diminuía o que acabara de reconhecer. Desta vez, deixou o erro inteiro entre eles.

Lívia sentou-se na borda da mesa. Não tirava os olhos do relógio com um ponteiro.

— Se rasgar o bilhete, você morre?

César apalpou o bolso.

— Espero que não seja tão dramático.

— Você espera?

— É maneira de falar.

— Não parece.

Ele quase sorriu para ela. O músculo junto à boca tentou, cansou.

— Você ficou muito observadora depois que parou de ser misteriosa.

Lívia não respondeu. O pano manchado estava dobrado no punho. Ela passou a unha sobre uma costura, encontrou um fio solto e não o puxou.

César retirou o bilhete.

O papel estava amassado, marcado pelo suor e pelo sangue que atravessara o casaco. Ele o segurou voltado para si. Daniel viu apenas o nome completo na parte superior — CÉSAR MORAES — antes que o polegar cobrisse o restante.

A sala mudou.

As tampas de latão nos compartimentos do corredor fecharam-se, uma após outra, embora nenhuma estivesse aberta. O som veio em sequência, aproximando-se: clac, clac, clac. Cada batida encerrava alguma coisa que eles não tinham visto.

Quando a última tampa fechou, o ponteiro na parede desceu um milímetro.

— Guarde isso — Daniel disse.

César alisou a borda do bilhete.

— Você ainda acha que eu quero chegar ao fim mais do que vocês.

— Eu acho que você não sabe o que está fazendo.

— Essa parte é justa.

— Então desce daí.

César olhou para Helena.

Ela mantinha o corpo firme, mas havia escondido a mão do bilhete atrás das costas. O gesto era discreto e inútil. César viu.

— Se a porta quer uma pessoa, não vai ser a garota.

Lívia ergueu o queixo.

— Eu não pedi.

— Eu sei. Está virando uma tradição por aqui.

A frase tocou Helena também. Ela abriu os dedos atrás do corpo e trouxe a mão de volta para a frente.

— Nem Daniel — César continuou. — Ele ainda precisa estragar a vida em duas realidades antes de escolher qual delas lamentar.

Daniel deu um passo para dentro da placa marcada.

O ferro recusou o segundo peso. A borda se elevou sob seu sapato, inclinando-o para fora.

César segurou seu ombro por reflexo.

Daniel afastou a mão.

— Não faça isso.

— O quê? Uma coisa útil?

— Escolher por nós.

A resposta atingiu o ponto que Helena abrira no capítulo anterior. César olhou para Lívia, depois para o bilhete. A pressão de seus dedos deixou a impressão de quatro linhas no papel.

— Não estou escolhendo por vocês.

— Está decidindo quem paga.

— Eu.

— É a mesma coisa.

César respirou fundo demais. O ferimento respondeu; seu corpo curvou-se e a mão livre pressionou a lateral. Uma gota atravessou a camisa e caiu dentro do retângulo. A placa absorveu o sangue sem deixar marca.

— Não — disse ele, ainda inclinado. — Não é.

Demorou a se endireitar.

Quando conseguiu, não havia humor em seu rosto.

— No hospital, eu fiz uma coisa certa pela razão errada. Depois estraguei até a parte certa. Vocês me puxaram daquele vagão quando já não lembravam meu nome. Ela — indicou Helena com o queixo — podia ter deixado o que estava dentro de mim terminar o serviço. Não deixou.

Helena deslocou o peso, desconfortável com a dívida sendo colocada à vista.

— Não transforme isso numa conta.

— Tudo neste trem é uma conta.

— Então você ainda não entendeu nada.

César passou o polegar sobre o próprio nome.

— Provável.

A sinceridade saiu baixa. Lívia ergueu os olhos para ele.

— Mas, se isso quer um passageiro de volta, eu sou o único que já tentou ir sozinho. Talvez esteja só corrigindo a ordem.

Daniel estendeu a mão para o bilhete.

César o afastou.

— Não vou colocar na porta — disse. — Relaxa.

— César.

— Se eu começar a explicar, você vai achar um detalhe para consertar. Cinco minutos, uma dobradiça, o ângulo do rasgo. Não tem detalhe.

Ele segurou o bilhete pelas extremidades.

Helena avançou.

— Espere.

Foi a primeira vez que sua frieza falhou antes do corpo. O pé entrou no retângulo e a placa a expulsou como fizera com Daniel. Helena perdeu o equilíbrio; a palma bateu no peito de César. Por um instante, os dois ficaram presos no mesmo espaço estreito, ela sentindo sob a mão o curativo úmido e o movimento irregular da respiração dele.

César a estabilizou pelo cotovelo.

— Você já me salvou — disse.

— Isso não autoriza você a desperdiçar.

— Bonito. Quase parece que está falando de uma pessoa.

O escudo tentou voltar na última frase. Quebrou no meio. César desviou os olhos.

Helena não retirou a mão do peito dele de imediato. Quando retirou, os dedos estavam marcados de sangue.

— Saia da placa — disse.

— Não.

Não houve provocação.

Lívia desceu da mesa. Aproximou-se, mas parou junto ao limite do retângulo. O bolso com a fibra cinza roçou a madeira.

— Você sabe o que queria mudar? — perguntou.

César olhou para o bilhete.

— Sei.

— E ainda quer?

O ponteiro único do relógio se moveu mais um milímetro.

César demorou.

— Isso importa se eu não estiver aqui?

Lívia apertou os lábios. Não respondeu.

Ele dobrou o bilhete ao meio.

A porta de ferro emitiu um gemido profundo, não de abertura, mas de peso acomodando-se nas estruturas. Poeira caiu das letras da inscrição. Uma passagem deverá permanecer. Um passageiro deverá retornar.

Daniel segurou o antebraço de César.

— Você não vai morrer para testar uma frase.

— Olha pelo lado bom. Se der errado, você pode usar seus cinco segundos e me puxar menos de um palmo.

O sorriso surgiu torto.

Ninguém o acompanhou.

César deixou que desaparecesse.

— Solta, Daniel.

Daniel apertou mais.

O bilhete começou a aquecer entre os dedos de César. Uma linha âmbar percorreu a dobra e iluminou por baixo a data escondida. O cheiro de papel queimado misturou-se à fumaça antiga do vagão.

— Solta.

Desta vez, a voz veio sem máscara.

Daniel olhou para Helena. Ela ainda tinha sangue de César na mão. Não fez sinal algum. A ausência de ordem era uma escolha que conhecia bem demais; sua boca se abriu, mas nenhuma frase chegou inteira.

Lívia tocou o punho de Daniel.

Ele se voltou para ela.

Não havia familiaridade no toque. Ainda assim, a garota manteve dois dedos sobre a manga.

— Ele já decidiu rasgar — disse. — Segurar só decide se ele faz machucando você também.

Daniel soltou.

César separou as mãos.

O bilhete rasgou.

O som foi pequeno.

As consequências não.

Todos os relógios sem ponteiros receberam um ponteiro ao mesmo tempo. Dezenas de hastes finas surgiram nos centros vazios e caíram para a posição de seis horas. Os compartimentos de latão tremeram. A mesa afundou um centímetro no piso. O retângulo sob César fechou-se em torno das solas, prendendo seus sapatos numa moldura de ferro.

As duas metades do bilhete permaneceram em suas mãos.

O nome CÉSAR ficou dividido entre elas.

Ele esperou.

O grupo também.

Nenhuma dor atravessou seu corpo. Nenhuma luz o engoliu. O ferimento continuou sangrando no mesmo ritmo. César inspirou, surpreso por conseguir, e soltou o ar numa risada curta.

— Bem. Anticlimático.

Então as metades do papel escureceram.

Daniel tentou arrancá-lo das mãos dele, mas o bilhete se desfez antes do contato. Não virou cinza. Cada metade perdeu sucessivamente as fibras, a espessura e a cor, até restarem duas silhuetas marrons suspensas entre os dedos. Depois nem isso.

As mãos de César ficaram vazias.

A porta não abriu.

O ponteiro dos relógios permaneceu apontando para baixo.

Um minuto passou, ou pareceu passar. Sem marcações, não havia como saber.

César testou os pés. A moldura de ferro os libertou com um clique. Ele saiu do retângulo e quase caiu; Daniel segurou seu braço, e desta vez César não afastou a mão.

— Talvez demore — disse, sem convicção.

Helena foi até a porta. Pressionou a palma contra o metal, percorreu a união das duas folhas, procurou vibração ou mudança de temperatura. Nada.

— Não abriu.

— Eu notei.

— O bilhete acabou.

— Também notei.

A agressividade retornou por um instante, fraca, e se recolheu. César sentou-se no piso antes que as pernas decidissem por ele. Encostou as costas na mesa.

Lívia observava o lugar onde o bilhete desaparecera.

— Você ainda está aqui.

— Essa é a avaliação mais otimista da noite.

Ela não sorriu.

Daniel encarou a ranhura na porta. Vazia.

— Talvez precisasse colocar o bilhete ali.

César ergueu a cabeça.

— Um pouco tarde para essa versão.

— Eu mandei não rasgar.

— Mandou não colocar na porta.

— Eu mandei guardar.

— Vocês dois — Helena interrompeu.

A voz saiu firme, porém suas mãos tremiam ao abrir o manual. Ela o apoiou na porta de ferro e virou páginas depressa demais. Símbolos correram pelas margens, desviando dos dedos. Os seis traços reapareceram. O primeiro continuava escuro.

Nenhum outro havia mudado.

Helena parou.

— Não contou.

César olhou para a página, depois para as próprias mãos vazias.

— Eu rasguei.

— Eu vi.

— Então o que mais ele quer?

Helena inclinou o manual. Os desenhos se alinharam por um segundo: uma figura diante de duas linhas; uma delas seguia pela porta, a outra voltava e terminava no mesmo ponto de origem. A figura não caía. Não desaparecia. Apenas se virava.

Antes que Daniel se aproximasse, os traços se embaralharam.

Lívia havia visto.

— Não parecia morto — disse.

César apoiou a cabeça na madeira da mesa.

— Ótimo. Morri errado.

Ninguém respondeu à tentativa.

Uma das tampas de latão no corredor se abriu.

Dentro do compartimento havia um retângulo de papel intacto.

César levantou-se devagar. Daniel chegou primeiro e retirou o objeto.

Era o bilhete de César.

Inteiro.

O nome atravessava a parte superior sem rasgo. As manchas de suor e sangue estavam nos mesmos lugares. Apenas uma palavra havia surgido no verso, escrita numa tinta escura ainda úmida:

RECUSADO.

César não pegou o bilhete quando Daniel o ofereceu.

Ficou olhando para ele como se a porta tivesse devolvido não o papel, mas uma parte que ele já aceitara perder.

No manual, uma nova linha apareceu junto à margem.

Não formou frase completa. Apenas três palavras, que se apagaram das extremidades para o centro antes que Helena pudesse lê-las em voz alta:

NÃO O CORPO.

A última letra desapareceu.

Os relógios recolheram os ponteiros ao mesmo tempo.

A porta de ferro continuou fechada.

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