Pesquisa Discord Conta Estante de livros Pular: Comentários
Sair

— Foram cinco segundos — disse a garota do fundo do vagão.

Daniel permaneceu travado contra a folha da porta de madeira. O seu ombro esquerdo latejava onde chocara contra a estrutura, mas o problema real era a mão direita: os seus dedos continuavam duros, curvados na forma exata da manga do casaco de Gabriel. O polegar travado por cima, os outros três dedos apertando o vazio, o indicador estendido.

Helena aproximou-se num passo rápido, ajoelhando-se no tapete.

— Dá pra olhar pra cá?

Daniel encarou o cartão de papel creme jogado no centro da mesa de nogueira.

— Daniel.

— Tô ouvindo.

— Dor no peito? Queimação? Algum clarão na vista?

— Não.

— A cabeça tá girando?

— Não.

— Sabe onde você tá agora?

César soltou uma risada curta, o som saindo seco de sua garganta.

— Se ele souber disso, doutora, pode mandar a conta do consultório porque vai ser a primeira resposta útil da noite.

Helena ignorou-o completamente, mantendo a atenção fixa no rosto de Daniel.

— Onde você tava antes de bater nessa porta?

Daniel abriu a mão direita devagar. A palma exibia quatro marcas vermelhas e profundas produzidas pelas suas próprias unhas.

— Na plataforma.

— Na plataforma do vagão?

— Não.

— Em qual, então?

— Quinze anos atrás.

A resposta fez o silêncio pesar no vagão. A vibração sob o assoalho pareceu baixar de tom.

Helena olhou para os olhos dele, o semblante cerrado enquanto checava o tremor dos seus dedos.

— Isso foi uma alucinação? Um flash da sua cabeça?

— Eu sentia a brita rasgando a sola do meu sapato — a voz dele veio ríspida, sem espaço para contestação.

— Isso não explica a mecânica do que aconteceu aqui.

— Eu sei que não.

Daniel tentou colocar-se de pé. O seu joelho esquerdo travou no primeiro impulso. Helena estendeu a mão para apoiar o seu cotovelo, mas ele encolheu o braço com violência antes que ela o tocasse.

— Não encosta.

— Você quase caiu de cabeça no piso.

— Eu escorreguei.

— Depois de atravessar seis metros de sala sem pisar no chão — César interveio, dando três passos no tapete.

Daniel levantou-se escorando as costas na parede de madeira polida.

— Eu corri pelo corredor.

— Você não deu um passo, cara.

— Eu corri!

— Na sua cabeça, talvez.

César estava pálido, a marca avermelhada na sua sobrancelha destacando-se na pele clara, mas a sua fala vinha acelerada. Ele gesticulou em direção à mesa, depois para a poltrona e para a porta, desenhando um percurso invisível no ar.

— Você estendeu a mão pro papel. Ficou estático por um segundo. A luz do teto deu um estalo. E no segundo seguinte você já tava colado naquela porta lá no fundo. Não teve caminhada.

— A luz não piscou — Helena corrigiu, sem se virar.

— Piscou pra mim.

— Você piscou os olhos.

— Maravilha. Estamos fazendo debate sobre fisiologia ocular dentro de uma caixa de trem que não devia existir. Excelente gestão de crise.

A garota no fundo do vagão continuava encolhida no estofado, segurando o seu bilhete de papel dobrado sob o casaco de sarja. Os seus olhos ignoravam Helena e César; estavam cravados em Daniel.

— Como você contou? — ele perguntou, dando um passo curto na direção dela.

Ela enrijeceu a postura, puxando o colarinho do casaco.

— O quê?

— Os cinco segundos.

— Na minha cabeça.

— Ninguém aqui viu tempo passar.

— O meu passou.

— Por que o seu passou e o deles não?

— Eu não sei!

— Você sabia que eu ia encostar naquele papel.

— Eu achei que ia!

— Não foi isso que você falou.

A garota puxou a fivela do zíper até o limite do pescoço, o metal estalando na ranhura.

— Você também tá falando um monte de coisa que não faz sentido nenhum!

Daniel avançou mais meio metro.

— Eu não escondi meu nome num papel.

— Ninguém mandou você mostrar o seu!

— O seu nome tá na porcaria dessa mesa.

— E continua não sendo da sua conta!

A garota gritou a última palavra, a voz desafinando no final. Ela percebeu a alteração, baixou a cabeça e enfiou as duas mãos fundo nos bolsos do casaco. As pontas das suas mangas de pano tremiam visivelmente.

Helena colocou-se no espaço entre os dois de forma natural, sem ostentar o movimento.

— Pressionar garota não vai arrancar nada que preste.

Daniel travou o olhar na médica.

— E deixar ela quieta num canto escondendo o que sabe ajuda no quê?

— Ela é uma garota assustada, trancada num ambiente sem lógica com três desconhecidos. O comportamento dela é puramente defensivo.

— Eu não tô assustada — a garota retrucou de trás do encosto da poltrona, os olhos brilhando de raiva.

Helena nem se virou para olhar.

— Você tá respirando curto, tá com a pele fria e não solta esse papel do peito há meia hora.

— Para de narrar o que eu tô fazendo!

— Não tô narrando.

— Tá sim! Parece um boletim!

Helena travou o maxilar e fechou a boca. A garota recuou dois passos até a curva do banco e sentou-se com impacto no estofado de veludo.

César caminhou até a mesa de nogueira, estendeu a mão e virou o cartão de Daniel com a ponta do indicador.

— 17 de agosto de 2011. 23h58.

Daniel cruzou o espaço do tapete antes que qualquer um pudesse reagir.

Agarrou o pulso direito de César com força.

— Não encosta no meu papel.

O sorriso irônico de César voltou de forma automática, embora os seus olhos piscassem rápido.

— O papel tá jogado na mesa de todo mundo.

— Não é seu.

— Engraçado. Foi a mesma frase que a menina usou.

Daniel apertou os dedos com mais força, sentindo os ossos do pulso dele sob a pele.

O sorriso de César desmoronou.

— Solta meu braço.

— Tira a mão da mesa.

— Já tirei, porra!

Helena segurou o cotovelo de Daniel.

— Solta ele, Daniel. Agora.

Daniel baixou os olhos para as próprias mãos. A sua palma apertava o tecido de uma jaqueta preta. Não era o algodão azul da camisa de Gabriel. Era jaqueta preta.

Ele abriu os dedos e recuou.

César flexionou o pulso com a outra mão, a pele avermelhada onde os dedos de Daniel tinham apertado.

— Ganhou cinco segundos de vantagem e já acha que é o dono da composição.

— Você foi mexer no que não devia.

— Eu toquei num papel de carta que apareceu do nada numa mesa!

— Chega — Helena interveio, a voz subindo de tom.

— Fala isso pro seu paciente ali.

— Tô falando pros dois.

César enfiou a mão no bolso do casaco e tirou o seu próprio papel dobrado. Manteve o retângulo preso entre os dedos.

— Vamos fazer o óbvio. Ele encostou no dele e aprendeu a dar salto no tempo. Cada um encosta no seu, vê o que diabos acontece e depois a gente decide quem manda no vagão.

— A gente nem sabe o que aconteceu com o Daniel — Helena rebateu.

— Ele sumiu de um ponto e apareceu no outro.

— Eu não sumi — Daniel disse, a voz rouca.

— Verdade. Você só visitou 2011 e voltou sem sair do lugar. Super normal.

Helena virou-se para César.

— Ele tá apresentando desorientação, perda de força nas pernas e um estado de choque desgraçado. Você quer arriscar o quê?

— O bilhete dele fala da morte do irmão — César cortou, a voz dura. — Qualquer um ficaria destruído. Não precisa de diagnóstico de hospital pra ver o óbvio.

Daniel puxou o cartão de papel creme da mesa, guardando-o no bolso. As quatro linhas impressas continuavam gravadas na sua mente: 17 DE AGOSTO DE 2011. 23H58. ALCANÇAR GABRIEL A TEMPO.

Aquele era o horário exato. Não o das fotografias digitais, tiradas horas antes. Era o horário registrado no laudo da morte.

Vinte e três e cinquenta e oito. O instante em que a locomotiva atingira Gabriel.

— Ninguém toca em nada — Helena instruiu. — Não até a gente entender o que esse ambiente causa no corpo.

— Isso vai demorar um pouco — César debochou. — Já que a nossa equipe médica tá sem equipamento, sem sinal de celular e trancada num vagão sem janela.

— Mesmo assim, sair tocando em artefato desconhecido é estúpido.

— Você já pegou o seu.

Helena levou a mão ao bolso interno do casaco de lã, tocando o papel dobrado.

— Peguei pra você não ler a minha vida.

— E funcionou perfeitamente.

Ela encarou-o em silêncio.

César ergueu as duas mãos.

— Tudo bem. Prometo não fazer perguntas sobre a sala cirúrgica três.

A postura impecável de Helena vacilou por um segundo. A sua mandíbula contraiu-se de lado, a pele do pescoço ficando vermelha. Ela recompôs-se rapidamente.

— O seu papel trazia o nome do seu irmão — disse ela, a voz fria.

César baixou os braços lentamente, a ironia sumindo da sua expressão.

— Você leu errado.

— O Daniel também enxergou.

— Ele leu um pedaço de palavra.

— Então mostra o resto do texto.

— Não.

— Por que não?

— Porque a senhora acabou de dar uma aula sobre não mexer em objetos estranhos.

— Isso não impede você de ler o que tá escrito aí.

— Mas impede que eu faça uma leitura dramatizada pra plateia.

O tom jocoso evaporou da fala de César. As suas frases ficaram curtas, secas. Ele enfiou o papel no bolso fundo da calça e girou o corpo de lado, escondendo o ângulo do bolso.

Daniel notou a mudança de postura. Helena também.

A garota falou da sua poltrona, sem levantar o rosto:

— Vocês só querem saber da vida dos outros pra não ter que olhar pra própria sujeira.

César soltou o ar ruidosamente pelo nariz.

— Falou a especialista sem nome.

— Pelo menos eu não fico fingindo que tô preocupada com os outros.

— Eu não tô fingindo nada. Tô tentando não enlouquecer.

— Você faz piadinha toda vez que mente.

O silêncio que se seguiu foi pesado. César encarou a garota como se ela tivesse soltado um tapa na sua cara.

— De onde você me conhece, garota?

Ela deu de ombros.

— Dá pra ver na sua cara.

— Não dá pra ver nada.

— Dá sim.

César deu dois passos na direção do banco dela. Daniel bloqueou o caminho.

— Fica aí.

— Há dois minutos você tava pressionando a garota pra saber o nome dela.

— E agora tô mandando você recuar.

— Virou protetor ou só quer escolher quem pode intimidar a menina?

Helena colocou-se entre os dois.

— Dois passos pra trás. Os dois.

César sustentou o olhar de Daniel, mas recuou até a janela cega. Daniel permaneceu onde estava.

Atrás dele, a garota resmungou:

— Eu não pedi ajuda.

— Ele tava avançando pra cima de você.

— Você também avançou.

Daniel não encontrou uma resposta que não soasse errada. Afastou-se em direção à mesa.

Helena sentou-se na poltrona oposta e apontou para a vaga ao seu lado.

— Daniel. Senta um pouco.

— Tô bem de pé.

— Não perguntei como você tá. Senta.

Ele pensou em recusar, mas o joelho deu outro estalo chato. Sentou-se.

Helena estendeu a mão aberta.

— Me dá o pulso.

— Não precisa.

— Você acabou de passar por algum tipo de crise severa. Dá o pulso.

Daniel ofereceu o braço esquerdo. Ela pressionou dois dedos na carne abaixo do relógio de couro. As suas pontas de dedo estavam frias, o toque profissional e distante.

— Cento e oito batimentos — disse ela, soltando o braço depois de alguns segundos. — Tá alto, mas faz sentido pro estresse. Respira devagar.

— Eu tô respirando.

— Mais devagar. Pela boca.

Daniel acompanhou o movimento do ponteiro dos segundos no seu relógio de pulso. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco.

O tempo não travou.

— Tenta de novo — César provocou do outro lado da sala.

Daniel olhou para a própria mão.

— Eu não sei como fiz aquilo.

— Você encostou no papel e pensou no seu irmão. Faz de novo, sem se jogar na frente do trem.

— Não — Helena cortou. — A gente não conhece o limite nem o dano.

César encostou as costas na parede.

— Você tá muito empenhada em controlar o que os outros fazem.

Helena ficou imóvel na cadeira.

— Tô tentando evitar que alguém morra aqui dentro.

— Claro. Protocolo de segurança.

Um baque violento sacudiu o assoalho do vagão.

O vaso de louça na mesa saltou de lado, tombando na madeira. Daniel agarrou a borda do móvel para não cair. Helena foi projetada contra o encosto do banco. César perdeu o equilíbrio e colidiu o ombro contra a janela cega. A garota escorregou da poltrona, batendo os dois joelhos no piso.

As lâmpadas do teto apagaram-se de vez.

Por três segundos assustadores, o ambiente foi tomado apenas pelo som estridente de ferro rangendo e pela vibração violenta sob os pés.

Em seguida, uma faixa de luz esbranquiçada rasgou a penumbra atrás das cortinas de veludo.

Daniel avançou e puxou o tecido da janela mais próxima.

Onde antes existia um painel de madeira liso, agora havia uma placa de vidro transparente.

Do lado de fora, a plataforma em ruínas da Estação de Santa Augusta começou a deslizar para trás.

— Não… — Daniel murmurou, colando o rosto no vidro.

O terceiro pilar passou batido pela janela. O banco de concreto quebrado. A placa de sinalização no chão. Tudo começou a ganhar velocidade, transformando-se em rascunhos escuros na noite.

O vagão deu uma guinada para a esquerda.

Uma força invisível empurrou o corpo de Daniel contra a armação do banco. Ele agarrou a madeira da janela com força. O som das rodas de aço batendo nas juntas dos trilhos subiu numa frequência ensurdecedora.

Clac-clac.

Clac-clac.

Clac-clac.

A vibração subia pelas solas dos sapatos, chacoalhando os dentes.

— A composição deu partida! — Helena gritou, tentando se segurar na mesa.

— Excelente observação, doutora! — César berrou de volta, agarrado à poltrona. — Eu achei que era um terremoto!

A garota tentou se colocar de pé, mas o solavanco do vagão jogou-a de joelhos no chão novamente. Daniel atravessou o tapete vermelho aos tropeços, segurando-se nos encostos das poltronas. Estendeu a mão aberta para ela.

Ela olhou para a mão dele, depois para o rosto dele.

— Eu consigo levantar sozinha!

Outra chacoalhada forte bateu o quadril dela contra a madeira.

— Eu sei que consegue — disse Daniel. — Segura logo.

Ela aceitou.

Os dedos dela estavam gelados e apertaram a mão dele com uma força desesperada. Daniel puxou-a para cima do estofado. Assim que se firmou na poltrona, ela soltou a mão dele e enfiou os braços de volta nas mangas compridas.

César puxou a cortina da janela oposta.

— Galera… dá uma olhada nisso aqui.

Daniel virou-se para a janela do outro lado.

Não havia cidade, trilhos ou vegetação do lado de fora.

O vagão cortava uma escuridão absoluta, sem chão visível. Linhas de luz brilhantes rastejavam paralelas à composição — algumas brancas, outras amareladas, todas correndo numa velocidade impossível de acompanhar com os olhos. De tempos em tempos, uma imagem nítida surgia entre os flashes de luz: uma janela iluminada de apartamento, uma rua sob chuva forte, um corredor de hospital deserto. As cenas duravam menos de uma fração de segundo.

Helena aproximou o rosto do vidro.

— São projeções… reflexos da luz interna.

— Reflexo do quê? — César perguntou, a voz falhando.

Ela não respondeu.

Daniel viu a cozinha da casa da sua mãe piscar no vidro: a panela de alumínio na bancada, a caixa de papelão sobre a mesa. A imagem sumiu antes que ele pudesse encostar a testa no vidro.

— Isso não tá acontecendo do lado de fora — disse ele.

— Como você sabe? — Helena encarou-o.

— Eu vi a cozinha da minha mãe ali no vidro.

A garota virou o rosto na direção da janela oposta.

— Não fica olhando muito tempo pra essa luz.

Daniel olhou para ela.

— Por quê?

— Dá enjoo na cabeça.

— Foi isso que você sentiu antes?

— Não.

— Como é que você sabe, então?

Ela puxou a cortina com um solavanco, fechando a vista.

— Porque eu tô ficando enjoada agora!

Helena aproximou-se dela na mesma hora.

— Você tá sentindo tontura? Enjoo? A vista tá borrando?

— Eu só quero que você cale a boca e me deixe em paz!

— Preciso saber se você vai passar mal aqui dentro.

— Se eu passar mal, você vai ver!

César fechou a sua cortina com violência.

— Decisão tomada. Chega de paisagem.

As luzes do teto do vagão piscaram e acenderam novamente, mas com um brilho fraco e amarelado, deixando os rostos de todos com uma cor doentia. O relógio de parede preso acima da porta indicava 00h07. No pulso de Daniel, o relógio de Gabriel marcava 00h02.

Daniel comparou os dois mostradores.

— Os horários tão desalinhados.

Helena olhou para o relógio da parede, depois para o braço dele.

— Cinco minutos de diferença.

Daniel sentiu um aperto incômodo no estômago.

— O meu relógio tava cravado com a hora certa.

— Certo de quando?

— Do computador do meu apartamento antes de eu sair.

César tirou o celular apagado do bolso e encarou a tela preta.

— O meu morreu de vez. Uma pena, paguei caro.

— Os dois não estão avançando no mesmo ritmo — Daniel apontou para o relógio da parede. — Quando eu voltei, aquele marcava 00h01. Agora marca 00h07, mas o meu chegou apenas a 00h02.

— Quanto tempo passou? — Helena perguntou.

Daniel tentou organizar na mente o tempo da conversa, o momento em que tocara o papel, a medição do seu pulso, a discussão. Os números recusavam-se a fechar.

— Não sei.

César fez um gesto com a cabeça na direção da garota.

— A nossa relutante cronometrista deve saber.

Ela afundou o queixo no casaco.

— Para de me encher o saco.

— Você marcou os cinco segundos da outra vez.

— Porque foram cinco segundos exatos!

— E agora? Quanto passou?

— Agora tá tudo errado!

— Errado como?

— Eu não sei!

— Essa resposta tá virando muleta pra você.

Daniel colocou-se de pé no meio do tapete.

— Deixa a garota em paz, César.

César soltou um riso irônico.

— Claro. Perguntar só pode se for você, né?

— Eu disse pra deixar ela quieta.

— E eu ouvi. Você adora dar ordem quando não tem resposta pra dar.

Daniel deu um passo à frente.

Helena ergueu a mão entre os dois homens.

— Ninguém vai brigar num vagão em movimento.

— Perfeito — César recuou. — Quando essa engrenagem parar, a gente marca um horário na agenda.

Daniel engoliu a resposta. No seu pulso, o ponteiro dos segundos do relógio de Gabriel avançou uma casa. No relógio da parede, o ponteiro deu dois pulos seguidos.

Ele enxergou o movimento.

— Olhem pra parede.

Os outros três viraram a cabeça para o mostrador.

O ponteiro deu um salto.

Outro salto.

Em seguida, avançou três casas de uma só vez.

Helena aproximou-se da parede sem encostar o corpo.

— A engrenagem desse relógio deve tá danificada.

— Os dois mecanismos pifaram ao mesmo tempo? — Daniel questionou.

— O seu relógio ficou quinze anos jogado num armário.

— E aquele ali apareceu numa parede que não tinha nada pendurado dez minutos atrás.

Helena puxou o ar ruidosamente pelo nariz.

— Então eu não tenho uma explicação pra isso.

Foi a primeira vez na noite que ela admitiu a falta de resposta sem tentar encaixar um termo técnico.

O vagão entrou numa curva fechada. Os corpos de todos penderam para a direita. O vaso de louça na mesa deslizou até a borda de madeira e devia ter despencado no chão. Mas travou no ar, a meio palmo de distância da quina.

Os quatro encararam o objeto flutuando no vazio.

Devagar, como se estivesse preso por um fio invisível, o vaso retornou à sua posição original no centro da mesa.

César deu dois passos para trás, afastando-se do móvel.

— Não fui eu.

— Ninguém falou nada, César — Helena disse, a voz baixa.

— Mas vocês pensaram.

Daniel enfiou a mão no bolso e pegou o seu cartão de papel creme. O papel estava morno ao toque. Dobrou-o em dois e guardou-o no bolso interno da jaqueta, longe do celular morto.

— Onde tão os outros bilhetes? — ele perguntou.

Helena tocou a gola do seu casaco de lã. César deu um tapa no bolso da calça. A garota continuou com os braços cruzados sobre o peito.

— Cada um guarda o seu — Daniel determinou. — Ninguém encosta no papel do outro.

— Isso é uma regra nova? — César debochou.

— É o mínimo pra ninguém enlouquecer aqui dentro.

— Você acabou de tirar isso da cabeça.

— Tirei.

César franziu a testa, surpreso com a resposta direta.

Daniel continuou, encarando-o de frente:

— A gente não sabe o que esses papéis fazem. Não sabe pra onde esse trem tá indo. Até a gente entender essa porcaria, ninguém encosta no que não é seu.

— E se alguém aqui souber mais do que tá dizendo? — César olhou de rabo de olho para a garota.

— A gente pergunta. Não sai arrancando da mão dos outros.

— Você aprende rápido.

Daniel aceitou a provocação em silêncio.

A garota ergueu a cabeça do casaco.

— Eu não sei de tudo.

— Ninguém falou que você sabe tudo — César respondeu.

— Mas você pensou.

— Agora você lê pensamentos também?

— Não precisa ler. A sua cara entrega.

A garota ergueu uma sobrancelha. O gesto durou apenas até a estrutura do vagão soltar outro estalo metálico grave; então ela voltou a esconder o queixo no casaco.

Uma fresta de luz amarelada surgiu no contorno da porta no fundo do vagão.

Daniel foi o primeiro a notar o brilho.

— Ali.

A folha de madeira que não possuía dobradiças nem fecho visível agora exibia as quatro bordas iluminadas por um brilho dourado. Na placa de madeira acima da moldura, letras começaram a ser gravadas na madeira, surgindo uma a uma como se fossem queimadas por fogo invisível:

VAGÃO 1

O baque das rodas nos trilhos começou a perder intensidade. A vibração continuava no piso, mas o intervalo entre os solavancos aumentou.

Clac-clac.

Clac-clac.

Helena posicionou-se a dois metros de distância da porta que se abria.

— Ninguém atravessa essa porta ainda.

— Você adora estragar a surpresa — César resmungou.

— Funcionou pra conter a confusão dos bilhetes.

— Não funcionou com o Daniel.

Daniel deu dois passos em direção à fresta. A madeira da porta exalava um cheiro estranho — suave, morno, terrivelmente familiar. Cheiro de sabão em pó, grama recém-cortada e algo doce assando num forno.

Ele travou os pés no tapete.

A cozinha da antiga casa da sua mãe cheirava exatamente assim nas manhãs de domingo. Vera abrindo as janelas para o sol entrar, Gabriel tentando roubar pedaços da cobertura de bolo antes de esfriar, e Daniel reclamando das marcas de dedo na bancada limpa.

Ele tentou puxar pela memória qual era o sabor do bolo.

Laranja.

Ou talvez cenoura com chocolate.

A memória recusava-se a entregar a resposta exata.

— O que foi? — Helena perguntou, notando a sua paralisia.

Daniel aproximou o nariz da fresta iluminada.

— Tem um cheiro saindo daqui.

César puxou o ar ruidosamente pelo nariz.

— Não tô sentindo nada além de mofo.

— Nem eu — Helena confirmou.

A garota colocou-se de pé devagar.

Os seus olhos alternaram entre a fresta da porta e o rosto de Daniel. Ela parecia prestes a falar algo, mas apertou os lábios com força.

— Você tá sentindo cheiro? — Daniel virou-se para ela.

— Não é o mesmo cheiro que o seu.

— O que você tá sentindo?

— Não interessa.

— Interessa sim!

— Para de me pressionar! — a voz dela quebrou no final, e ela puxou as mangas sobre os dedos.

Daniel deu meio passo para trás, baixando o tom.

— Tá bom.

César observava a troca dos dois com atenção.

— Maravilha. A porta tem perfume personalizado agora.

— Pode ser um estímulo neuroquímico — Helena teorizou, a voz caindo no tom profissional automático. — Alguma substância volátil no ar que ativa memórias olfativas específicas.

— Perfeito. Gás alucinógeno de alta tecnologia.

— Eu disse que pode ser.

O relógio de parede preso acima da porta deu um salto brusco para 00h12.

A folha de madeira da porta cedeu alguns centímetros para dentro.

Uma luz morna e dourada atravessou a abertura, projetando uma faixa brilhante sobre o tapete vermelho. A iluminação não revelava o que existia do outro lado; apenas partículas de poeira flutuando lentamente na luz.

A composição continuava rodando macia sobre os trilhos.

Daniel estendeu a mão direita até perto da abertura, sem tocar no metal da porta. O ar que vinha do outro lado era morno, agradável.

— Ninguém atravessa sozinho — Helena instruiu.

César cruzou os braços sobre o peito.

— Mais uma regra do manual improvisado?

— É uma regra prudente — ela rebateu.

César olhou para Daniel.

— E você? O que acha?

Daniel sentiu o volume do cartão de papel creme contra o peito. O papel parecia pulsar numa frequência sutil, acompanhando o ritmo do seu próprio coração.

— Atravessamos juntos.

A garota permaneceu três passos atrás do grupo.

— Eu não vou na frente de ninguém.

— Ninguém pediu pra você ir na frente — César disse.

— Mas você tava pensando em mandar.

— Eu tava considerando as opções.

A garota projetou o dedo do meio para ele mais uma vez por dentro da manga. Desta vez, um esboço leve de sorriso passou pelo rosto de César.

A porta de madeira continuou abrindo devagar.

Do outro lado da passagem iluminada, o som de uma risada ressoou baixo.

Uma risada de criança. Ou talvez uma gravação antiga reproduzida num fone. Um riso curto, infantil, distante, seguido pelo som do tilintar fino de pratos de louça.

Daniel conhecia aquele som de risada de algum lugar do seu passado.

Ele não conseguia lembrar de onde.

A abertura da porta alcançou a largura exata para a passagem de uma pessoa.

Nenhum dos quatro deu o primeiro passo.

SUA OPINIÃO

O que você achou deste capítulo?

REGRAS DOS COMENTÁRIOS

— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.

— Evite spoilers do capítulo ou da história.

— Comentários ofensivos serão removidos.

Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.
CONVERSA

Nota
NOVERA

Biblioteca offline

0 capítulos
Preparando offline…