CAPÍTULO 25 — A DÍVIDA EM ESPERA
por Sonhado acordadoO relógio permaneceu fechado na mão de Daniel.
O metal de Gabriel pressionava a palma, cada aresta conhecida ocupando um lugar que ele poderia medir. A coroa sob o indicador. A pulseira dobrada entre dois dedos. O vidro morno apesar dos ponteiros imóveis em 3h41.
Quinze anos de atraso.
A cabine respirou.
Quatro segundos entre o primeiro e o segundo golpe dos pistões. Três até o terceiro. Quatro outra vez. No quinto ciclo, os cabos de cobre presos ao Condutor se esticaram sob o casaco, e uma das mangueiras na nuca recebeu um pulso de líquido escuro.
Daniel contou de novo.
— Você estava lá.
A máscara de ferro e latão continuou inclinada para o relógio.
— Composição em espera não abandona passageiro registrado.
— Na estação?
O Condutor moveu dois dedos sobre a alavanca. Uma roda de controle girou no teto, devagar, sem que ninguém a tocasse.
— Plataforma fora de escala. Embarque não concluído.
Daniel abriu a mão.
O relógio parecia menor sob a luz vermelha. Um risco atravessava o vidro perto do número cinco. Ele não se lembrava de quando surgira. Talvez estivesse ali desde a queda de Gabriel. Talvez fosse novo.
— Eu não vi o trem naquela noite.
— Passageiro não olhou para a linha.
— Eu estava olhando para meu irmão.
A última palavra alterou o intervalo dos pistões. O terceiro golpe veio cedo demais, sacudindo o assento do Condutor. Cabos penetrados sob as mangas tensionaram a pele em torno dos encaixes.
Helena apoiou uma mão na mala para impedir que deslizasse. O prontuário de Marina, preso dentro do manual, manteve uma mancha fria sob o couro. Condensação escorreu pelo fecho e pingou na chapa quente, evaporando antes de tocar o piso.
Lívia não olhava para Daniel.
Fitava as janelas diante do Condutor. As linhas brancas no vazio dividiam-se em pares, desapareciam e voltavam a entrar umas nas outras. Uma delas atravessou o reflexo da menina e retirou por um instante a camisa de Daniel de seus ombros. Quando passou, o tecido estava ali outra vez.
— O que aconteceu em 2011? — Helena perguntou.
O Condutor virou a máscara para ela. As fendas sem olhos não refletiram seu rosto; refletiram as páginas frias dentro da mala.
— Tarifa lançada. Cobrança suspensa por ausência de embarque.
Daniel guardou o relógio junto ao peito.
— Eu não pedi nada.
— Pedido registrado às vinte e três horas, cinquenta e oito minutos.
— Eu pedi para ele parar.
— Cinco segundos autorizados.
O ar saiu curto pelo nariz de Daniel. Ele olhou para as engrenagens junto ao piso, para o terceiro dente gasto na alavanca, para qualquer coisa que tivesse tamanho e posição.
— Eu não parei o tempo naquela noite.
— Não houve composição para suportar o desvio.
— Então não aconteceu.
O fole no peito do Condutor encheu até a costura metálica estalar.
— Tarifa não depende de viagem concluída.
Daniel deu um passo. Helena disse seu nome, mas o ruído da caldeira atravessou a advertência.
— O que foi cobrado?
A mão enluvada do Condutor fechou-se na alavanca. Sob o couro aberto, as unhas humanas perderam cor.
— Quinze anos de permanência em pátio. Um destino mantido fora da linha. Um passageiro orbitando a estação de origem.
— Fala direito.
A frase saiu alta demais.
Válvulas abriram nas paredes e descarregaram vapor. Lívia se abaixou; Helena a puxou para trás da mala. Daniel permaneceu diante do assento, os olhos estreitos contra o ar escaldante.
O Condutor não elevou a voz.
— Passageiro Daniel Montenegro iniciou a cobrança em dezessete de agosto de dois mil e onze. A composição aguardou quinze anos pela apresentação do bilhete.
O relógio escapou da mão de Daniel.
A pulseira o reteve no punho. O mostrador bateu contra o osso e ficou pendurado.
Ele ajustou o fecho. Uma vez. Errou o encaixe. Tentou de novo.
— O trem ficou esperando por mim.
— Atraso incorporado à escala.
— E tudo depois daquela noite?
O Condutor voltou-se para a janela central.
— Ramal construído ao redor de uma dívida não quitada.
Daniel procurou resposta na frase e encontrou apenas a cozinha vazia, o relógio interrompido depois de cinco segundos, os horários conferidos duas vezes, cinco minutos errados no trabalho. Detalhes que sempre parecera escolher porque eram detalhes.
O terceiro pistão bateu cedo.
Ele o contou.
— Quatro. Três. Quatro.
— Daniel — Helena chamou.
— No quinto ciclo ele compensa. Um segundo.
— Eu vi.
— Quinze anos dá…
Parou antes de calcular.
A mão dele ainda tentava acertar o fecho do relógio. Lívia saiu de trás da mala e se aproximou. Daniel esperou que ela o ajudasse, mas a menina não tocou nele. Indicou apenas o pino fora da abertura.
— Está um furo para a esquerda.
Daniel corrigiu. O fecho entrou.
— Obrigado.
Lívia assentiu, formal demais. O abraço perdido continuava entre os dois como um objeto retirado de uma mesa: não visível, mas denunciado pelo espaço limpo.
Helena abriu a mala.
O manual recebeu o calor da cabine com um movimento brusco. As páginas se arquearam, revelando símbolos que pareciam trilhos vistos de cima. O prontuário de Marina não se moveu. Frio, pesado, preso entre a capa e a primeira folha.
— Se a dívida era dele — Helena disse —, por que nós recebemos bilhetes?
O Condutor girou uma chave. O sino distante tocou duas vezes.
— Composição não parte com lugares vazios na tarifa final.
— César retornou.
— Lugar devolvido à origem.
— E nós três?
— Destinos incompatíveis. Bitola insuficiente.
Lívia virou uma página sem encostar. O papel acompanhou o movimento de seu dedo a dois centímetros de distância.
— Ele não está falando de lugares — disse.
Daniel olhou para ela.
— Eu sei.
— Não, não sabe.
A irritação surgiu rápida, jovem. Lívia soprou o cabelo do rosto e apontou para as janelas.
— A linha da esquerda chega antes de sair daqui. A da direita sai e não chega. Ele chama as duas de destino porque não lembra o que tem no fim.
O fole do Condutor perdeu ar por meio segundo.
Helena percebeu. Afastou o prontuário do manual e o colocou dentro da mala, sob a camisa de graxa.
— Repita — pediu a Lívia.
— Não foi para você.
— Eu sei. Repita olhando para ele.
Lívia apertou os dedos na borda da mesa de controle. A chapa estava quente; as pontas ficaram vermelhas, mas ela não soltou.
— Você não sabe para onde está levando a gente.
A máscara não se moveu.
— Escala registrada no manual de circulação.
— Você não consegue ler.
Uma corrente no teto deu um puxão. O assento recuou alguns milímetros, levando com ele tubos, cabos e as raízes metálicas presas às pernas.
— Leitura não integra função de condução.
— Consegue, sim. Só esqueceu.
Daniel viu o líquido nas mangueiras parar junto à nuca do Condutor. Uma bolha escura permaneceu suspensa no tubo, tremendo.
Helena deslocou-se para o lado de Lívia.
— Sua mão.
— Depois.
— Agora.
Lívia soltou a mesa. Pequenas áreas claras marcavam as pontas dos dedos. Helena as examinou sem segurar, aproximando a própria mão para comparar temperatura.
— Não encoste de novo.
— Preciso virar as páginas.
— Use o tecido.
Helena retirou a camisa de graxa da mala. O prontuário veio grudado por frio à manga e quase caiu. Ela o separou devagar, verificou a assinatura na primeira página e o guardou de novo. Ao erguer a camisa, algo deslizou de dentro da dobra.
A fotografia de 1947 caiu sobre o manual.
Não a versão encontrada no Vagão 1, com sorrisos. A segunda.
Quatro pessoas diante da locomotiva original, rígidas sob a luz cinzenta. A quinta figura permanecia indistinta na cabine, onde a claridade se recusava a fixar. No verso, as palavras a lápis ainda estavam legíveis:
ANTES DA PRIMEIRA VIAGEM.
Lívia inclinou-se.
As linhas brancas além das janelas mudaram de posição.
Por um instante, todas passaram pela fotografia.
As quatro pessoas diante da locomotiva ganharam sombras compridas. A quinta figura, dentro da cabine, perdeu a sua. O latão da máscara do Condutor refletiu o clarão, e a mancha no retrato ocupou a mesma posição de sua cabeça.
Daniel percebeu a semelhança.
Não disse.
Lívia virou a fotografia de lado. Os símbolos do manual reorganizaram-se sob ela. Rabiscos tornaram-se trilhos; trilhos se juntaram numa roda; a roda abriu cinco ramais finos, um para cada pessoa da foto.
Quatro terminavam em pequenos retângulos.
O quinto entrava na locomotiva e não saía.
— A frase está errada — Lívia disse.
Helena manteve a camisa dobrada entre as mãos.
— Qual?
— “Antes da primeira viagem.” Não é quando tiraram a foto.
— Está escrito no verso.
— Eu sei ler.
O corte da resposta fez Helena recuar meio passo. Lívia virou o retrato mais alguns graus.
— É o que ele ainda tinha antes da primeira viagem.
Daniel observou os quatro ramais terminando fora da máquina.
— Pessoas.
— Não. — A garota aproximou o rosto da página. — Lugares onde elas existiam para ele.
A cabine tremeu.
O Condutor puxou a alavanca principal. O movimento fechou uma placa de metal sobre metade do painel e quase prendeu a fotografia.
Daniel segurou a placa antes do impacto. A borda queimou sua palma.
— Tarifa de bagagem não autorizada — disse o Condutor.
— É sua? — Daniel perguntou.
— Propriedade sem registro.
— Você reconheceu.
— Reconhecimento não altera titularidade.
Lívia puxou a fotografia para fora da placa. Uma ponta rasgou junto à margem branca.
— Ele não pode dizer — falou.
— Não quer — Daniel corrigiu.
— Não pode. Olha os tubos.
A bolha escura na mangueira da nuca havia avançado até uma bifurcação. Sempre que o Condutor orientava a máscara para a fotografia, o líquido seguia na direção da cabeça. Quando desviava, retornava à caldeira.
Lívia moveu o retrato para a esquerda.
A bolha acompanhou.
Para a direita.
Acompanhou outra vez.
O Condutor acionou uma segunda chave. O painel diante deles ergueu uma grade de proteção.
— Afaste-se da cabine de comando. Passageira sem origem não possui autorização de manobra.
Lívia não recuou.
— Ele esqueceu as pessoas. Mas a máquina não.
Daniel soltou a placa e limpou a palma queimada na calça.
— Como sabe?
— Porque ela guarda o caminho até a cabeça dele.
— Isso pode ser uma proteção.
— É uma entrega.
— Ou uma armadilha.
Lívia bateu a fotografia contra o manual.
— Tudo aqui é uma armadilha para alguém.
A frase saiu mais alta do que pretendia. Sua voz rachou na última palavra. Ela baixou os olhos para os quatro rostos e passou a unha sobre um deles sem tocar a tinta.
— Ele começou com isso. Depois pagou até esquecer por quê.
O Condutor apertou a alavanca.
— Tarifa quitada não admite estorno.
Lívia ergueu a fotografia.
— Então por que está tentando impedir?
Silêncio.
Os pistões completaram um ciclo. Quatro. Três. Quatro.
No quinto, a compensação falhou.
A locomotiva avançou sem o segundo perdido e atingiu alguma coisa que não existia diante das janelas. O choque jogou Daniel contra a mesa. Helena segurou a mala com o joelho e alcançou Lívia pela cintura antes que ela caísse sobre as raízes metálicas do assento.
A fotografia escapou.
Flutuou entre o manual e o Condutor.
A mão enluvada ergueu-se por reflexo.
Parou a centímetros do papel.
O polegar tremia.
Não como parte da máquina. Num ritmo próprio.
Helena puxou Lívia para trás.
— Trinta segundos — disse. — Depois você sai desse calor.
— Não dá para marcar.
— Eu marco.
— Seu relógio não funciona.
Helena encostou dois dedos no próprio pescoço.
— Não preciso dele.
Daniel recuperou a fotografia antes que a mão do Condutor a alcançasse. O papel estava mais quente de um lado. Na imagem, uma das quatro pessoas tinha o rosto borrado pela pressão do polegar de Lívia.
— O que você quer fazer? — perguntou.
Lívia abriu o manual numa página coberta pelo símbolo das duas linhas. Virou a fotografia sobre ela, figura contra papel, e alinhou a locomotiva impressa com o desenho dos trilhos.
— Colocar de volta.
— Uma lembrança?
— O caminho para ela.
— Isso é diferente?
— Para ele, é.
Daniel olhou para o Condutor. A máscara permanecia imóvel, mas a mão suspensa ainda não retornara à alavanca.
— E o preço?
Lívia apertou os lábios.
— Não sei.
— Então espera.
— Foi o que você fez quinze anos.
A frase acertou antes que ela pudesse contê-la. Lívia piscou depressa, pronta para recuar. Daniel não respondeu. Abriu a mala, retirou a camisa de graxa e a enrolou em torno da mão queimada.
— Me diz onde segurar.
Ela levou um segundo para entender.
Apontou para a margem inferior do manual.
— Aqui. Sem cobrir os trilhos.
Helena soltou a cintura da garota e se posicionou atrás dela.
— Se os joelhos dobrarem, eu puxo você. Não discuta.
— E se for você que cair?
— Daniel segura o manual. Eu seguro você.
— Não foi o que perguntei.
Helena conferiu o próprio pulso com dois dedos.
— Vinte e quatro segundos.
Lívia entendeu que não receberia outra resposta.
Daniel apoiou o manual sobre a mesa de controle. A capa tentou fechar-se. Ele pressionou a margem com a mão protegida, e o calor atravessou o tecido de qualquer forma.
A fotografia estava de cabeça para baixo sobre os símbolos.
Lívia moveu-a milímetro por milímetro. Cada ajuste fazia uma parte diferente da cabine responder. Um manômetro girava ao alinhar a roda da locomotiva. As mangueiras da nuca pulsavam quando o rosto indistinto da quinta figura cruzava o centro da página. As raízes metálicas sob os pés do Condutor recolhiam-se quando um dos quatro familiares se aproximava da margem.
— Mais para a esquerda — disse.
Daniel moveu o caderno.
— Não o manual. A foto.
— Quanto?
— Ainda não aconteceu.
— Lívia.
— Dois dedos. Não, espera.
Ela fechou um olho. No outro, duas pupilas ocuparam posições ligeiramente diferentes.
— Agora um.
Daniel deslocou a fotografia.
Os trilhos desenhados saíram da página.
Não ganharam volume. Tornaram-se cortes luminosos sobre a mesa, finos, curvando-se em direção ao assento. Passaram por baixo das alavancas e desapareceram entre as raízes de metal.
O Condutor baixou a mão.
— Manobra não autorizada. Desvio sem bitola. Interrompam.
Helena contou outra pulsação.
— Dezessete segundos.
— Eu preciso chegar mais perto — Lívia disse.
— Não.
— A linha para na mesa.
— Então paramos aqui.
— Helena…
— Sua pele está duplicando no pescoço.
Daniel olhou.
Sob a mandíbula de Lívia havia duas linhas de contorno. Uma acompanhava a cabeça; a outra permanecia voltada para o manual, mesmo quando ela se moveu.
— Eu consigo — a garota disse.
Helena segurou o tecido da camisa sobre seus ombros, não a pele.
— Isso não responde.
O Condutor empurrou a alavanca principal.
Daniel travou-a com o antebraço. A força transmitida pelo mecanismo fez seu ombro estalar.
— Tarifa em curso — disse o Condutor. — Passageiro não interfere na condução.
— Você está interferindo.
— Condutor mantém a escala.
— Sem lembrar o destino.
A máscara virou para Daniel.
O movimento liberou Lívia por um segundo. Ela passou sob o braço dele, levando manual e fotografia. Helena tentou acompanhá-la, mas uma raiz metálica ergueu-se do piso e separou as duas.
— Lívia!
A menina alcançou o primeiro círculo de cabos ao redor do assento.
O calor a atingiu de frente. A camisa sobre seus ombros escureceu nas bordas. O contorno duplicado desceu pelo pescoço até a clavícula.
Ela ajoelhou para passar o manual por baixo de um tubo.
— Doze segundos — Helena disse, já procurando espaço entre as raízes. — Onze.
— Para de contar.
— Dez.
Daniel soltou a alavanca e puxou o cabo que bloqueava Helena. O revestimento de tecido abriu sob sua mão e revelou cobre vivo. Um choque subiu pelo braço, prendendo seus dentes.
O cabo cedeu alguns centímetros.
Helena atravessou.
O Condutor não tentou segurá-las. A máquina tentou.
Tubos contraíram-se ao redor do assento. Uma válvula abriu junto à perna de Lívia. Vapor branco atingiu o piso, queimando a sola de seu tênis. Ela retirou o pé e quase caiu sobre o manual.
Helena a sustentou pelas costelas.
— Seis.
— Chega.
— Cinco.
Lívia colocou a fotografia sobre a página outra vez. Tão perto do Condutor, a quinta mancha da imagem não permanecia fixa. Ela saía da cabine impressa e subia pelo papel, procurando a máscara real.
— Ele está do lado errado — a menina murmurou.
— Quem? — Daniel perguntou.
— O homem da foto. Está atrás da família e dentro da máquina ao mesmo tempo.
— Três — Helena disse.
— Segura.
Lívia entregou a margem do caderno a Daniel. Ele se agachou entre dois tubos, o ombro latejando, e segurou.
— Dois.
A menina encaixou a fotografia na página.
Não colou. Afundou.
As fibras do retrato penetraram o papel do manual como raízes brancas. As quatro figuras ficaram presas aos quatro ramais. A quinta deslizou pelo trilho central em direção à borda superior.
O manual aqueceu de uma vez.
Daniel sentiu através da camisa. A tinta começou a borbulhar. Letras subiram das páginas, negras e pequenas, e colaram em seus dedos.
Helena puxou Lívia.
— Agora.
— Falta chegar nele.
— Agora.
A garota segurou a fotografia com as duas mãos. A pele duplicada em seu pescoço separou-se mais um centímetro; por baixo, não havia carne, mas uma faixa de luz branca correndo em duas direções.
Daniel fechou a mão sobre a margem do manual.
— Quanto falta?
Lívia olhou para a distância entre a página e a máscara.
— Milímetros.
Era mais de um metro.
Para ela, não.
O Condutor puxou ar pelo fole. Os cabos na nuca se esticaram até o limite. A bolha escura avançou pela mangueira, atingiu a base da máscara e parou.
— Interrompam o desvio — ordenou.
A voz ainda era ferroviária. Lenta. Impessoal.
O manual começou a queimar.
Não nas bordas. O fogo nasceu sob a fotografia, sem chama visível, deixando cada rosto iluminado por dentro. A família de 1947 ergueu os olhos na mesma direção. A mancha da quinta figura alcançou o alto da página e estendeu uma linha fina para a máscara de latão.
Um milímetro de vazio permaneceu entre as duas.
O Condutor parou de respirar.
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