CAPÍTULO 9 — A PARTE APAGADA
por Sonhado acordadoDaniel viu.
Quatro linhas pequenas de sangue fechadas sobre o punho do casaco. A marca de uma mão infantil que já não existia no quarto.
Helena passou o lenço por cima sem percebê-las.
— Não usa isso — disse Daniel.
Ela interrompeu a dobra. O pano branco estava suspenso entre suas mãos, ainda limpo apesar do sangue que cobria a camisa de César.
— Preciso comprimir a ferida.
— O lenço estava na cama.
Helena olhou para o leito vazio. O colchão guardava o sulco do corpo de Marina, mas não o calor; uma camada fina de condensação embranquecia o plástico. A camisola dobrada já começava a perder as bordas sob a luz fluorescente.
— E daí?
Daniel puxou a barra rasgada da camisa de César. O tecido verdadeiro resistiu entre os dedos. Rasgou uma faixa a partir da abertura criada pelo ferimento, e o som pareceu alto demais no quarto.
— Usa isto.
César soltou uma risada curta que terminou num engasgo. Mantinha o abdome curvado sobre a compressa, o rosto úmido, os joelhos separados para não pressionar o corte.
— Gosto do novo uniforme. Muito penitenciário.
Daniel entregou a faixa a Helena sem olhar para ele.
— O lenço veio da lembrança.
O pano branco tremeu. Não nas mãos dela; o próprio tecido perdeu consistência, deixou a luz atravessá-lo e se desfez em fibras que subiram até o teto. Helena ficou segurando o vazio.
Por um momento, ninguém falou.
O monitor junto à cama exibia uma linha reta, embora o aparelho não estivesse conectado a ninguém. Cada vez que o coração de César batia, a linha estremecia num ponto diferente.
Helena pegou a faixa da camisa.
— Deita.
— Prefiro manter o pouco de dignidade que…
Ela abriu o casaco dele no chão, forrou o piso e apontou com dois dedos. César obedeceu antes de terminar a frase. Ao estender as pernas, o sangue atravessou a compressa e correu pela lateral do corpo, quente e escuro, até a cintura.
A garota se afastou da poça. O armário de medicamentos bloqueava sua passagem para a porta verde. Ela tentou contorná-lo, mas Daniel deslocou o carrinho hospitalar para abrir espaço e o deixou entre ela e César.
Não por acaso.
César reparou.
Helena cortou a faixa de camisa em duas usando a tesoura da bandeja. Quando separou as lâminas, o metal ficou transparente. Ela largou o instrumento antes que desaparecesse e rasgou o restante com as mãos.
— Preciso ver a extensão.
— Você já viu — disse Daniel.
Ela ergueu o rosto.
O tubo fluorescente piscou. Na terceira falha, o sangue sobre a camisa de César parecia preto.
— Não vi acontecer.
— Viu.
César respirou pelo nariz, devagar. A ponta de sua língua tocou um dente, procurando o lugar habitual do sorriso. Não encontrou.
Helena voltou à ferida. Afastou as bordas da camisa, examinou a linha irregular sob as costelas e pressionou ao redor com cuidado. César contraiu uma perna; o salto do sapato bateu duas vezes no piso.
— Há fragmentos — ela disse. — Pequenos. Profundidade variável. A borda não corresponde a impacto contra a cama.
A última palavra ficou entre ela e César.
Daniel se agachou do outro lado, mas manteve o carrinho entre o homem e a garota. Pegou outra faixa da camisa e a enrolou na própria mão antes de entregá-la.
— A cama sumiu limpa.
— Você estava segurando a compressa — César falou. — Talvez não tenha visto.
— Eu vi Helena pôr a mão aqui.
Daniel indicou o lado direito do abdome sem tocar. A pele em torno da ferida ainda conservava cinco marcas avermelhadas: quatro dedos e a curva parcial de uma palma.
Helena comparou a própria mão com as marcas.
Não encostou. Manteve-a no ar, a poucos centímetros do corpo de César. O polegar alinhava. O indicador também.
— Isso não prova…
Ela parou.
No punho do casaco, a mão de Marina parecia mais escura agora que Daniel a havia nomeado com os olhos. Helena virou o braço. Seguiu cada dedo de sangue até a dobra do tecido e tentou limpá-lo com a unha.
A marca não saiu.
— Quem fez isto?
César fechou os olhos quando ela perguntou.
Daniel viu o movimento. Pequeno. Tarde.
— Marina — respondeu.
Helena procurou a menina no leito vazio, depois na porta, depois no chão. Sua respiração não acelerou; apenas deixou de completar o caminho. Inspirava e interrompia antes do fim, como se alguma coisa ocupasse o espaço que faltava.
— Ela tocou meu casaco.
— Sim.
— Quando?
Daniel esperou que César falasse. O homem permaneceu deitado, uma mão aberta sobre o próprio peito, a outra escondida sob a aba do casaco.
— Durante a transferência — disse Daniel.
Helena apertou a faixa sobre o ferimento. César arqueou as costas.
— Que transferência?
A garota deixou escapar o ar. Até então, não havia tirado os olhos das mãos dele.
— Ele tirou — falou.
César abriu os olhos.
— Não ajuda quando começa pelo final.
— Você mandou ela esquecer.
— Eu não mandei nada.
— Tocou a cabeça dela. Eu vi.
— Você vê muitas coisas e explica poucas.
A garota empurrou o carrinho. As rodas chiaram, mas Daniel o segurou antes que ela abrisse a passagem. Um frasco vazio caiu da prateleira, bateu no chão e atravessou o piso sem quebrar.
— Fica longe dele — Daniel disse.
Ela queria protestar. A boca chegou a formar a primeira sílaba; então olhou para a mão de César escondida sob o casaco e recuou por vontade própria.
Helena não acompanhou a troca. Tinha soltado a pressão sobre o ferimento. O sangue voltou a brotar sob a faixa.
— Helena.
Daniel apontou com o queixo. Ela reagiu, pressionando de novo.
— Conte exatamente — disse.
Não havia ninguém específico no começo da frase. Depois seus olhos pararam em Daniel.
— A menina estava ferida — ele falou. — A porta não abria. Seu bilhete apontou para César.
— Meu bilhete não aponta.
— Apontou aqui.
— E eu aceitei isso?
Daniel olhou para a marca na palma dela, o corte reaberto, o sangue seco de Marina sob as unhas.
— Você tentou receber no lugar dele.
O rosto de Helena se fechou, não por reconhecimento, mas pela precisão com que a frase cabia nela.
— A porta não deixou — continuou Daniel. — Você pôs uma mão em Marina e outra nele. A ferida passou.
— Isso não é possível.
César moveu o ombro sobre o casaco, procurando uma posição que doesse menos.
— Estamos num hospital dentro de um vagão que apareceu numa estação abandonada. Talvez seja a hora de aposentar essa frase.
Helena inclinou-se sobre ele. A proximidade não foi cuidado: o joelho dela prensou a aba do casaco, imobilizando a mão que César mantinha escondida.
— Tire a mão daí.
— Está ocupada não sangrando.
— Devagar.
Ele trouxe a mão para fora. Vazia. Os dedos tinham sangue seco nas pontas, inclusive dois que carregavam uma linha fina até a segunda falange.
Helena olhou para a testa de Daniel. Depois para a garota. Por último, tocou a lateral da própria cabeça.
Encontrou duas marcas frias.
— Você me tocou.
César não respondeu.
O alto-falante do corredor anunciou uma equipe para uma sala cujo número se perdeu em estática. A voz repetiu. Na segunda vez, chamou por Helena Duarte.
Ela não desviou os olhos de César.
— O que fez?
— Você estava… — Ele interrompeu a frase para respirar. — Não conseguia sair daquilo. A menina, a sala, o que viu quando puxou o ferimento. Eu ajudei.
O humor havia retornado à voz, mas fraco, como uma lâmpada alimentada por bateria quase vazia.
— Ajudou — Helena repetiu.
— A porta abriu. Precisávamos seguir. Você estava presa.
— Eu perguntei o que fez.
Daniel sentiu a mudança antes de vê-la. Helena retirou o joelho de cima do casaco e se levantou, deixando César livre, mas passou para o espaço diante da porta verde. Não o ameaçava com as mãos. Bloqueava a única saída.
César percebeu que a explicação não a moveria.
— Tirei os últimos minutos.
O monitor emitiu um único pulso.
A linha verde formou o símbolo das duas bifurcações, depois voltou a ficar reta.
Helena abriu e fechou a mão ferida. O sangue vazou pela palma e preencheu os sulcos dos dedos.
— Quanto?
— Eu não medi.
— Desde quando?
— Desde a transferência.
— Até onde?
César fitou o teto.
— Até a porta abrir.
— Mentira — disse a garota.
Ele virou a cabeça na direção dela.
— Agora você virou relógio?
— Você apagou depois também. Ela não lembra de você tocando nela.
Helena encostou a cabeça na porta verde por um instante. O metal produziu um ruído surdo. Quando voltou a falar, sua voz parecia organizada à força, cada palavra colocada no lugar antes que a anterior escapasse.
— Você removeu a ação e depois forneceu uma causa falsa para o ferimento.
— Eu respondi quando você perguntou.
— Sabendo que eu não poderia conferir.
— Sabendo que ficaríamos aqui até ele sangrar até morrer se você começasse a desmontar tudo naquele momento.
— Você decidiu o que eu podia lembrar.
César pressionou a língua contra a bochecha. O sorriso apareceu enfim, torto pela dor.
— Você tinha acabado de decidir quem receberia uma ferida mortal.
Helena atravessou o quarto.
Não ergueu a mão. Parou perto o bastante para que a ponta do sapato quase tocasse o casaco sob César. Ele não podia se afastar sem abandonar a pressão na ferida.
— Eu perguntei — ela disse.
— O tempo estava acabando.
— Eu avisei o risco. Ele aceitou.
— E eu achei que você gostaria de esquecer a parte em que uma criança morta disse que ficou esperando por você.
O sorriso não sobreviveu à frase.
Helena ficou imóvel. A mão de Marina no punho parecia agarrá-la por trás.
Daniel viu os músculos do maxilar dela se moverem, uma vez, depois outra. Esperou a linguagem precisa voltar. Não voltou.
— Você não tinha o direito.
Foi tudo.
César baixou os olhos.
O trem fez uma curva longa. O hospital inclinou-se com ele; bandejas deslizaram sobre superfícies, cortinas se afastaram dos trilhos, o leito vazio deslocou-se até bater na parede. César perdeu o apoio do cotovelo. Daniel segurou o carrinho no lugar, mas não o homem.
Helena segurou.
Por reflexo.
Os dedos dela fecharam no ombro de César e impediram que o corpo rolasse sobre a ferida. Assim que o vagão voltou ao nível, soltou-o como se o tecido queimasse.
— Não confunda isso — disse.
César apoiou a cabeça no piso.
— Não confundiria.
Dessa vez, a frase não tinha defesa.
Daniel aproximou o carrinho e travou as rodas com o pé. Pegou o casaco de César por uma extremidade, dobrou-o sobre o abdome e orientou Helena a passar as tiras da camisa por baixo do corpo.
Ela trabalhou sem dirigir uma palavra ao ferido. Daniel levantou o quadril dele apenas o necessário; a garota segurou a ponta da faixa do outro lado, mantendo o braço esticado para não chegar perto das mãos de César. Quando terminaram, o casaco formava uma almofada compressiva presa ao redor da cintura.
— Isso não fecha a lesão — Helena falou a Daniel. — Só reduz o sangramento. Se a pressão cair…
A frase terminou ali.
— A porta está aberta — César disse.
Ninguém se moveu.
A saída verde ficava a menos de três metros, mas Helena continuava entre ele e a passagem. Daniel recolheu os bilhetes de papel que o quarto havia produzido, testou um entre os dedos e o viu virar poeira. Depois olhou para o bolso de César.
— Mostra o seu.
— Não.
— Usou em Helena.
— Meu bilhete continua meu.
Daniel deslocou-se para a direita. César acompanhou com os olhos. Quando Daniel mudou o peso para a esquerda, o homem antecipou o movimento e tentou sentar, protegendo o bolso com o antebraço.
A dor o derrubou antes que chegassem a se tocar.
— Eu não vou pegar — Daniel disse. — Quero ver a mancha.
— E depois? Fazemos inventário das perdas de cada um? Você começa pela voz do seu irmão?
Daniel não respondeu.
O rádio de Vera não existia naquele vagão. Mesmo assim, por um segundo ele procurou a nota ausente atrás do som do monitor. Encontrou apenas a própria respiração e o roçar da faixa ensanguentada quando César se movia.
— Ele perdeu alguma coisa — a garota disse.
César virou-se para ela depressa demais.
— Todos perdemos.
— Quando tocou Helena, apareceu seu irmão.
Daniel lembrava. O quintal recortado no escuro azul, as pedras de dominó, uma melodia assobiada que perdera uma nota. No momento, parecera apenas mais uma interferência do vagão. Agora César evitava olhar para qualquer um deles.
— O que ele assobiava? — Daniel perguntou.
— Não interessa.
— Você lembra?
César apertou a faixa sobre o abdome com força desnecessária. Sangue novo surgiu entre os nós.
— Não era uma música. Era uma mania irritante.
— Assobia.
O homem riu. Uma risada inteira, convincente, que não alcançou o quarto.
— Estamos fazendo teste de talento agora?
Helena olhou para o bolso dele.
— Você pagou para me apagar.
— Não escolhi o preço.
— Mas escolheu usar.
César abandonou a risada. Pela primeira vez desde que o conheciam, seu rosto não oferecia uma segunda versão do que dizia.
— Eu precisava saber se funcionava.
O trem pareceu aproximar-se em torno deles. O som das rodas subiu pelas paredes, atravessou o piso e vibrou nos suportes de soro.
Daniel permaneceu agachado ao lado dele.
— Em nós.
Não era pergunta.
César respirou com cuidado antes de responder.
— Em alguém que não estivesse morto há quinze anos. Sim.
A garota puxou o próprio bilhete do bolso apenas o suficiente para conferir que ainda estava ali. Guardou-o sob a cintura da calça, longe das mãos.
Helena desabotoou o casaco. Retirou-o sem desviar o olhar de César e amarrou as mangas ao redor da cintura, escondendo os bolsos internos e o bilhete. Quando tornou a erguer o punho marcado por Marina, não tentou limpá-lo.
— Ninguém toca em ninguém sem avisar — disse Daniel.
— E se alguém estiver caindo? — César perguntou.
Helena respondeu antes dele:
— Deixe cair.
O silêncio que veio depois não era acordo. Era a forma mais próxima que tinham.
A porta verde se abriu mais alguns centímetros. Atrás dela não havia corredor, escada ou outro setor do hospital. Havia uma parede escura coberta por azulejos, tão próxima que a passagem parecia terminar ali.
Daniel ajudou César a sentar usando o carrinho como apoio. O homem tentou pôr-se de pé sozinho. Na primeira tentativa, a perna direita dobrou. Na segunda, conseguiu manter o corpo ereto, inclinado para proteger o ferimento.
— Ele não atravessa andando — Helena disse.
— Que bom que o hospital oferece transporte.
César indicou o leito vazio.
A ferrugem já cobria as rodas. O colchão perdera metade da espuma, e o metal aparecia através do lençol transparente.
Daniel trouxe a cadeira em que César recebera o ferimento. Era de metal, pertencia ao hospital e podia desaparecer na passagem. Passou a mão pelo encosto, sentindo a superfície gelada perder textura sob os dedos.
— Não serve.
— Eu consigo andar — César falou.
Helena não discutiu. Pegou o braço dele pela roupa, acima do cotovelo, mantendo a mão longe da pele. Daniel sustentou o outro lado do mesmo modo. Entre eles, César parecia menos um aliado do que algo perigoso que precisava ser transportado.
A garota foi à frente. Parou diante da falsa parede além da porta verde e encontrou uma reentrância entre dois azulejos. Inseriu o fragmento vermelho da pipa.
O papel coube.
— Não — Daniel disse, tarde demais.
Ela retirou os dedos, mas o fragmento permaneceu preso. As duas linhas do símbolo surgiram em vermelho sobre os azulejos, separando-se a partir da pipa. Uma subiu até o teto. A outra desceu ao piso.
O hospital apagou as luzes em sequência.
Sala três. Depósito. Corredor. Emergência.
A última lâmpada era a do quarto. Sob ela, os quatro ficaram comprimidos em torno de César, próximos o bastante para se tocar e cuidadosos para não fazê-lo.
— Foi você? — Helena perguntou à garota.
— Eu só coloquei o papel.
— Por quê?
Ela encolheu os ombros, mas o gesto falhou no meio.
— Parecia que faltava alguma coisa.
Daniel pensou no espaço deixado pela voz de Gabriel. Em Helena tateando minutos que já não possuía. Na melodia de César sem uma nota.
Antes que pudesse responder, a parede de azulejos rachou ao longo das linhas vermelhas.
O ar do outro lado não cheirava a hospital.
Cheirava a chuva sobre pedra, ferrugem e vegetação molhada.
Uma corrente fria atravessou a abertura e fez o casaco amarrado de Helena bater contra as pernas. Ao longe, um sino ferroviário tocou uma única vez.
Daniel reconheceu o intervalo antes do segundo toque.
Não chegou a ouvi-lo.
A passagem abriu-se, e a escuridão do Vagão 3 esperou por eles.
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