O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1615 MIN

Helena soltou as duas macas.

Não uma depois da outra. Abriu as mãos ao mesmo tempo, os dedos ainda curvados como se conservassem o peso dos lençóis, e recuou para o espaço estreito entre as linhas verdes.

A consequência veio antes que seus braços baixassem.

À esquerda, Marina riu com a boca cheia de sorvete. À direita, um flash estourou sobre o rosto coberto do Deputado Álvaro Nunes. Só depois as rodas começaram a correr, levando cada maca para um lado do corredor.

Helena não foi atrás de nenhuma.

O administrador ergueu o telefone. A pergunta saiu do aparelho com a voz dela:

— Qual sala está livre?

Ela arrancou o celular da mão dele e o atirou no chão.

O vidro se partiu antes do impacto. Os pedaços subiram das lajotas, reuniram-se por um instante em volta do aparelho ainda inteiro e tornaram a explodir quando ele bateu. Um fragmento atravessou o sapato de Helena sem cortá-lo. Outro ficou preso no ar diante de seu rosto, refletindo duas versões da mesma mulher: numa, sangue até os cotovelos; na outra, as mãos limpas e vazias.

Helena desviou do reflexo.

As macas continuaram.

Marina envelheceu enquanto era levada. A pulseira infantil alargou-se no pulso de uma adolescente, depois apertou a pele de uma mulher jovem que segurava uma pasta contra o peito. Em outra idade, ela aparecia inclinada sobre um bolo, soprando velas que se reacendiam antes do sopro. Cada vida ocupava o corredor durante menos de um passo.

Álvaro Nunes não mudava. O lençol cobria o mesmo volume, cercado por rostos que chegavam tarde demais para a notícia já publicada nos vidros. Uma coroa de flores surgiu primeiro; depois vieram as mãos que a carregavam. Um homem fez um discurso sem voz diante de microfones que ainda estavam sendo montados.

Helena permaneceu entre os dois caminhos até não conseguir alcançar nenhum deles.

Daniel bateu outra vez na porta.

— Helena. Olha para mim.

Ela olhou para a manga do casaco dele, para a mala no chão atrás de sua perna, para a palma espalmada no vidro. Não para o rosto.

Na linha verde sob seus pés, duas sombras de Helena começaram a caminhar. Uma seguiu Marina. A outra acompanhou o corpo do deputado. Helena ficou onde estava, sem sombra alguma.

O bilhete em sua mão endureceu.

As bordas cresceram até parecerem lâminas finas de metal. O nome dela desapareceu, substituído por duas palavras que se alternavam depressa demais para Daniel ler. Helena viu as duas. Seu polegar procurou uma delas; parou antes de tocar.

Dobrou o bilhete ao meio.

As palavras ficaram presas uma contra a outra.

Depois tornou a dobrá-lo, e outra vez, até o papel formar um quadrado pequeno que não exibia nome, data nem escolha. Enfiou-o debaixo da pulseira do relógio, contra a pele. O papel tentou abrir-se. Helena apertou mais um furo na correia e o conteve.

O corredor reagiu com um solavanco.

Não foi o trem. A vibração partiu das paredes do hospital e correu para o chão, alcançando por último as lâmpadas, que balançaram sem perder a vertical. A porta entre Helena e os outros surgiu aberta por menos de um segundo.

Daniel atravessou o braço.

— Vem.

Ela não pegou sua mão. Aproximou-se, parou diante da abertura e retirou do bolso uma gaze já manchada de sangue antes de o corte em sua palma voltar a abrir. Pressionou o tecido. Conferiu uma vez. Duas.

Atrás dela, a voz do administrador repetiu:

— Doutora Duarte, precisamos de uma decisão.

Helena arrancou do suporte a placa com o número da sala. A placa resistiu como metal e se desfez como papelão em suas mãos. Ela a colocou no chão, exatamente sobre o ponto onde as linhas verdes se separavam.

O número ficou voltado para baixo.

Só então atravessou a porta.

Daniel recuou para lhe dar espaço. Helena surgiu no vagão com os cabelos grisalhos nas pontas; a cor escura voltou alguns segundos depois, começando pelas raízes. Seu casaco permanecia amarrado à cintura. A gaze na palma estava seca, mas o sangue que a mancharia apareceu devagar, espalhando-se do centro para as bordas.

Ninguém perguntou o que ela escolhera.

César ainda mantinha a etiqueta sobre os olhos. Baixou-a quando ouviu os sapatos de Helena, examinou o rosto dela e abriu a boca. O comentário que costumava chegar primeiro não veio. Ele afastou o corpo para liberar a armação de banco, embora o movimento puxasse o ferimento sob suas costelas.

Helena não se sentou.

Passou por ele e recolheu a mala do criador. A alça demorou a reconhecer sua mão; durante um instante, atravessou-lhe os dedos. Na tentativa seguinte, tornou-se sólida.

— Vamos sair daqui — disse.

Lívia observava a pulseira do relógio. O quadrado do bilhete pulsava sob o couro, abrindo uma pequena elevação na pele.

— Você não fechou — falou.

Helena ajeitou a gaze sem olhar para a garota.

— A porta fechou.

— Não foi isso que eu disse.

Daniel esperou uma resposta. Helena passou por ele.

No hospital, a maca de Marina reapareceu no fim do corredor e voltou vazia. A de Álvaro Nunes fez o mesmo pelo lado oposto. As duas se encontraram no centro, atravessaram uma à outra e desapareceram sem ruído.

Helena acompanhou o movimento pela janela. Quando o vidro devolveu seu reflexo, ela baixou a manga até esconder o bilhete dobrado.

César tentou levantar.

A sombra dele já estava de pé, apoiada numa bengala que não existia. O corpo demorou a alcançá-la. Daniel colocou a mão sob seu cotovelo, sem procurar seus olhos, e recebeu mais peso do que esperava.

— Eu consigo.

— Então consegue andando devagar.

César pareceu procurar uma provocação dentro da frase. Não encontrou. Apenas respirou pelo nariz e deixou que Daniel o sustentasse até ficar firme.

A visão do beco continuava nas janelas, mas havia perdido definição. O dinheiro no chão transformava-se em folhas de jornal; os tiros chegavam como pequenos clarões sob a pele de César, sem som. Seu irmão aparecia cada vez mais distante, esperando numa esquina que o beco não possuía.

César virou a etiqueta para dentro, escondendo o próprio nome contra o peito.

— Tem alguma coisa depois do hospital — disse ele. — Quando as duas linhas se cruzam, o fundo muda.

Daniel olhou.

As janelas mostravam o corredor vazio. No ponto em que as macas haviam se atravessado, existia agora uma porta estreita, pintada de uma cor que alternava entre verde e madeira sem tinta. Helena já caminhava naquela direção.

— Espera — Daniel chamou.

Ela diminuiu apenas o suficiente para que os outros a alcançassem.

Lívia foi por último. Antes de sair, encostou dois dedos no vidro do hospital. Uma versão mais nova de sua mão apareceu do outro lado, pequena demais para pertencer à adolescente. O reflexo fechou os dedos em torno dos dela e sumiu.

Lívia escondeu a mão no bolso.

Daniel viu, mas Helena abriu a porta antes que ele perguntasse.

Do outro lado havia uma sala de jantar.

Não se formou de uma vez. Primeiro veio o cheiro de café passado havia horas. Depois surgiu a marca circular de uma caneca sobre uma mesa inexistente. O tique-taque de um relógio ocupou a parede vazia; quatro batidas mais tarde, o aparelho apareceu, adiantado onze minutos.

Uma cadeira rangeu.

Ninguém estava sentado nela porque a cadeira ainda não existia.

Daniel parou na soleira.

— O que foi? — César perguntou atrás dele.

Ele não respondeu.

A mesa apareceu sob a marca da caneca: madeira clara, um risco comprido perto da borda, uma gota de tinta azul seca junto a um dos pés. Daniel não conhecia aquela mesa. Sabia disso com a segurança de quem contava talheres antes de guardá-los. Nunca comprara móveis claros. Nunca deixaria uma caneca repousar sem apoio. A mancha deveria incomodá-lo.

Não incomodou.

O relógio marcava sete e dezenove. O ponteiro dos segundos avançava para trás, mas o tique-taque mantinha o ritmo correto.

Daniel olhou para o próprio pulso. O relógio de Gabriel marcava outra hora e, por um momento, não possuía números. Ele cobriu o mostrador com a palma.

— Você conhece? — Helena perguntou.

Sua voz havia recuperado a firmeza, mas ela mantinha a mão ferida apertada contra o estômago.

— Não.

Lívia chegou ao lado de César e parou antes de ver a sala inteira.

O cheiro mudou.

Café, pão queimado, sabonete de criança. Uma corrente de ar trouxe perfume de jasmim antes que uma mulher cruzasse a cozinha ao fundo. Daniel viu apenas suas costas. Cabelos presos sem cuidado, uma camiseta larga, um pano de prato sobre o ombro. Ela abriu um armário e, dois segundos depois, o ruído da porta alcançou a sala.

— Ei — chamou para alguém fora de vista. — Se você perdeu de novo, procura dentro da mochila azul.

A resposta veio como risada.

Daniel virou para Lívia. Ela estava olhando o chão, onde a própria sombra havia se sentado com as pernas cruzadas.

— Você ouviu? — perguntou.

— Todo mundo ouviu — César disse.

Daniel continuou olhando para a garota.

— Não você.

Lívia ergueu o queixo. Por um instante pareceu irritada; então uma versão dela mais velha atravessou seu corpo, com o rosto voltado para a sala, e levou a expressão embora quando se desfez.

— Foi uma criança — respondeu. — Só isso.

Na parede surgiu um desenho preso por ímãs. O papel apareceu primeiro, sustentado no vazio; depois veio a superfície onde estava fixado. Havia uma casa torta, três figuras de mãos dadas e um sol preto num canto. Os rostos tinham sido cobertos por círculos de giz branco.

Daniel entrou.

O piso recebeu seus passos antes que ele os desse. As tábuas estalaram perto da mesa, indicando o caminho. Ele tentou pisar fora dos ruídos e o assoalho tornou a ranger sob a sola, corrigindo-o.

— Não vai sozinho — Helena falou.

— Eu só vou olhar.

— Foi assim que eu entrei.

Daniel parou.

Ela não disse mais nada. O quadrado sob a pulseira pareceu se abrir uma vez, como uma pálpebra, e voltou a fechar.

César encostou-se ao batente. Não tinha força para impedir ninguém; talvez por isso não tentasse parecer capaz.

— A sala veio para você — disse. — Se a gente ficar do lado de fora, não muda o que ela vai mostrar.

Helena olhou para ele.

O restante da frase morreu antes de ganhar forma. César baixou os olhos e ajeitou a etiqueta sobre o ferimento, usando as duas mãos para que o papel não tremesse.

Daniel avançou até a mesa.

Havia quatro lugares. Um prato com migalhas diante da cadeira vazia, uma xícara perto da mulher na cozinha, um copo de água pela metade e, na cabeceira, uma caneca cinza com uma lasca na borda.

A caneca era dele.

Não aquela. O jeito de colocá-la. A alça virada para a direita, a colher sobre o pires embora ele não usasse açúcar, o guardanapo dobrado duas vezes sob a base para corrigir uma pequena inclinação da mesa. Daniel tocou o guardanapo.

Estava úmido.

Uma lembrança tentou chegar e encontrou o lugar ocupado por alguma coisa que ainda não acontecera. Não veio imagem. Apenas a certeza física de já ter dobrado aquele papel muitas manhãs.

Ele retirou a mão.

— Eu nunca morei aqui.

A mulher no fundo respondeu, embora ele não falasse com ela:

— Ainda não.

Daniel contornou a mesa.

— Quem é você?

Ela se virou.

Seu rosto chegou tarde. Durante alguns segundos havia cabelos, pescoço, a curva de um sorriso que já se desfazia, mas o espaço entre a testa e o queixo permanecia iluminado demais. Quando os traços começaram a surgir, uma criança passou correndo diante dela.

O corpo era pequeno, talvez seis anos, talvez oito. Cada passo alterava a altura dos joelhos. Usava uma meia vermelha e outra amarela; a segunda apareceu só depois de o pé tocar o chão. A criança carregava alguma coisa junto ao peito e deixou para trás o som de papel amassando.

Daniel viu o cabelo escuro. O cotovelo ralado. Um adesivo de estrela colado ao avesso na camiseta.

O rosto não.

— Devagar — disse a mulher.

O aviso veio depois da queda.

A criança tropeçou perto da mesa. Um copo tombou antes que seu braço o atingisse; a água espalhou-se pelo piso, desenhando por um instante duas linhas que entravam sob o móvel e apenas uma saía do outro lado.

Daniel se abaixou por reflexo.

A criança já estava de pé quando ele estendeu a mão.

Passou através de seus dedos sem notá-lo e correu para a cozinha. A mulher recebeu-a com um gesto cansado, automático, abrindo espaço contra o próprio corpo. O abraço apareceu primeiro como uma depressão na camiseta. Depois os braços pequenos chegaram.

Daniel permaneceu agachado diante da água.

Havia um pedaço de papel no chão. Não o desenho da parede. Era uma lista escrita com sua letra:

comprar fita

trocar lâmpada do corredor

buscar às 17h30

O último item estava riscado. A tinta do risco surgiu antes das palavras, apagou-as e voltou a desaparecer, deixando-as legíveis.

Daniel pegou o papel.

— Essa letra é minha.

Helena havia entrado dois passos. Não tocava em nada.

— Pode ser uma versão sua.

— Eu não escrevo “comprar fita”. Escrevo qual fita.

César soltou um som curto, quase uma risada, que terminou em tosse. Pressionou a lateral do corpo até passar.

— Finalmente uma prova conclusiva.

Ninguém acompanhou. Ele assentiu para si mesmo, aceitando o fracasso da piada, e ficou em silêncio.

Daniel virou a lista. No verso havia marcas de lápis em alturas diferentes, acompanhadas por datas. A menor começava perto do joelho dele. A última chegava pouco acima de sua cintura. Os nomes tinham sido raspados, não apagados. Restavam sulcos sem grafite.

Ele passou a unha por um deles.

A parede ao lado recebeu as mesmas marcas. Primeiro surgiram as datas. Depois a tinta creme, depois o reboco, construindo a casa ao redor de um crescimento que ainda não começara.

Uma das datas começava com 20, mas os dois últimos algarismos mudavam quando ele inclinava o papel. Daniel tentou fixá-los com o polegar. A tinta passou para sua pele sem deixar o verso.

— Não — murmurou.

— O quê? — Helena perguntou.

Ele dobrou a lista antes que ela pudesse ver.

— Nada.

Lívia continuava na porta. Tinha os braços cruzados com força, mas uma das mãos segurava a barra do casaco para impedi-la de se desfazer em fios. A versão sentada de sua sombra levantou-se e caminhou para dentro sem ela.

Daniel observou a sombra passar pela mesa e parar junto à criança.

Quando procurou Lívia outra vez, ela já havia recuado para fora do batente.

— Fica perto — ele disse.

— Eu estou perto.

— Não parece.

Ela quase respondeu. Mordeu a palavra, virou o rosto e encostou o ombro numa parede que só se tornou sólida depois do contato.

Na cozinha, a mulher colocou um prato sobre a bancada. O cheiro de bolo de chocolate chegou antes de ela retirar a forma do forno. Uma fileira de velas apareceu acesa sobre a cobertura, embora o bolo ainda fumegasse.

A criança bateu palmas.

Primeiro veio o som. Depois as mãos se encontraram.

— Hoje não é aniversário de ninguém — Daniel falou.

A mulher riu.

— É terça-feira.

Disse como se fosse motivo suficiente.

Daniel conhecia aquela resposta. Não as palavras, nem a voz. Conhecia o espaço que ela deixava depois, uma pausa esperando que ele fingisse reclamar antes de pegar os pratos.

Na cena, um homem entrou pela porta dos fundos.

Era Daniel.

Mais velho. Alguns fios brancos nas têmporas, camisa dobrada nos antebraços, uma sacola pendurada em cada mão. A versão futura parou ao ver o bolo e olhou imediatamente para o relógio na parede.

— São sete e dezenove.

— Continua sendo terça-feira — disse a mulher.

O outro Daniel colocou as sacolas no chão. Retirou delas uma lâmpada do tamanho errado e um rolo de fita sem etiqueta. Olhou os dois objetos, depois a lista presa à geladeira.

Não corrigiu nada.

A criança correu até ele.

Daniel sentiu o impacto antes que o abraço acontecesse. O ar saiu de seus pulmões; seus braços se fecharam em torno de um corpo que ainda estava do outro lado da cozinha. Um segundo mais tarde, a criança alcançou a versão futura e se pendurou em sua cintura.

O Daniel mais velho deixou o relógio sem conferir pela segunda vez.

O homem junto à mesa apertou o pedaço de papel.

— Isso não aconteceu.

Sua voz saiu baixa. Curta.

A versão futura levantou a criança e a colocou sentada na bancada. O gesto pareceu treinado. A menina — agora Daniel tinha certeza de que era uma menina — roubou cobertura com o dedo antes que a mulher lhe entregasse uma colher.

— Quem são elas? — Helena perguntou.

Daniel não sabia se a pergunta vinha de trás ou de um futuro em que ela já entrara mais fundo. Não respondeu.

O relógio marcou sete e vinte antes que o ponteiro se movesse.

A menina ergueu o rosto.

Os traços começaram a chegar em partes, não como uma transparência que se preenche, mas como lembranças emprestadas e mal encaixadas: primeiro uma sobrancelha franzida de concentração; depois o pequeno espaço entre os dentes da frente; uma pinta perto da orelha que aparecia e sumia conforme a idade mudava. Os olhos ainda eram apenas dois lugares escuros onde a luz da cozinha não entrava.

Ela olhou para o Daniel mais velho.

— Fecha os olhos.

Ele obedeceu.

A menina desceu da bancada, apanhou do chão o objeto que carregara antes e o escondeu atrás das costas. O embrulho estalou; sua sombra, porém, continuou de mãos vazias.

Daniel deu um passo para enxergar melhor.

Lívia, no corredor, disse alguma coisa. A voz veio sem palavras, adiantada demais para o som que deveria formá-la.

A menina se virou para o Daniel que observava.

Desta vez, viu-o.

O rosto ganhou olhos.

E, antes que Daniel pudesse reconhecer qualquer coisa neles, ela sorriu como quem já o esperava havia muito tempo.

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