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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2817 MIN

Às 5h30 e três segundos, a cabine escolheu quatro lugares para Daniel cair.

Num deles, o piso inclinou-se para a caldeira. Noutro, abriu uma distância sem fundo. No terceiro, uma alavanca surgiu sob seu ombro. Apenas a quarta versão tinha chão onde ele esperava.

O corpo encontrou a errada.

Daniel bateu o joelho numa grade que apareceu depois do impacto. O relógio de Gabriel raspou o metal. Quando tentou agarrar o painel, ele recuou para outra cabine e devolveu seus dedos vazios.

— Aqui! — Helena gritou.

A voz veio da porta, da janela e de algum ponto sob o piso.

Daniel localizou a Helena que carregava a mala. O prontuário de Marina Lopes mantinha uma mancha de frio no couro, visível mesmo quando o corpo dela se dividia entre duas posições. Lívia estava junto à parede — ou atravessando-a até a cintura. O manual preso aos braços impedia que a versão da menina no corredor se afastasse por completo daquela na cabine.

Ele avançou até as duas. O ombro ferido pela alavanca respondeu com uma fisgada que desceu ao cotovelo.

— Não pisa na faixa escura — disse Lívia.

— Qual?

Três faixas cruzavam o chão. Uma era óleo. Outra refletia um teto que não estava sobre eles. A terceira não possuía cor; era apenas uma ausência estreita entre parafusos.

— A que não encosta na mala.

Daniel viu. A ausência desviava do objeto frio como água em torno de uma pedra. Passou a perna por cima e alcançou Lívia quando a parede a devolveu.

Helena estendeu a alça da mala.

— Pela cintura. Os três.

— Isso não segura o espaço — Lívia disse.

— Segura você em nós.

Uma porta surgiu atrás da menina já fechando. Daniel a puxou pelo casaco, e Helena passou a alça ao redor dos três. O couro gelado da mala encostou em Lívia; sua imagem parou de duplicar.

O relógio da cabine marcou 5h31.

O ponteiro avançava aos arrancos, mas não repetia o ritmo. Onze segundos. Três. Vinte e dois. Daniel acompanhou quatro saltos e perdeu o quinto quando uma fileira de manômetros apareceu sobre a janela.

Cada um mostrava uma pressão diferente.

— A alavanca vermelha abaixou o teto — Daniel disse. — Mas eu puxei outra.

— Então os comandos não ficam com os efeitos — Lívia respondeu. — Que ótimo.

A última palavra saiu entre os dentes.

Daniel contou as alavancas. Quatro perto do painel, seis refletidas no vidro, uma surgindo e desaparecendo dentro do contorno vazio do antigo assento. A chave quebrada continuava presa na fechadura da base. Acima dela, a marca clara deixada pelos pés do Condutor permanecia sobre o piso vermelho. Quando a chapa mudava para ferro cru ou madeira, a marca sumia. Voltava sempre que a cabine da fornalha se impunha por um instante.

— Preciso testar.

— Não — disseram Helena e Lívia, quase juntas.

Ele já havia soltado a alça.

Helena prendeu o tecido com o cotovelo.

— Se outra parte do chão ficar com você, não alcanço.

— Se ninguém tocar nos controles, também não saímos daqui.

Daniel apontou para uma roda junto à janela. Tinha oito raios numa versão e cinco na seguinte. Quando voltava a oito, uma linha branca atravessava o vidro da esquerda para a direita.

— Ela repete a cada terceira troca.

— E isso significa?

— Ainda nada.

Lívia soltou um ruído impaciente. Tentou deslocar a mala com o joelho e endureceu no meio do gesto.

O pé direito não pousou.

Ficou inclinado sobre a ponta, como se o salto tivesse aumentado dentro do tênis. O tecido ao redor do tornozelo estufou. Uma mancha roxa nasceu acima da meia e percorreu a lateral da perna em dois caminhos incompatíveis: num, subia até a canela; no outro, terminava numa linha reta, comprimida como por uma borda de degrau.

Helena abaixou-se imediatamente.

— Você caiu?

— Não.

— Nesta cabine.

— Eu disse que não.

Lívia tentou apoiar o calcanhar. O tornozelo cedeu para um lado que não correspondia à posição do joelho. Ela bateu o quadril na mala e empurrou Helena.

— Para. Eu consigo.

— Tira o tênis.

— Não dá tempo.

Helena já puxava o cadarço. A queimadura na palma se abriu contra a trama do tecido, deixando uma umidade clara entre os dedos. Ela usou a outra mão, soltou o nó e retirou o calçado com cuidado.

O pé estava frio de um lado e quente do outro.

— Isso não é uma torção só.

Lívia tentou recolher a perna.

A pele do ombro esquerdo avermelhou sob a roupa. Uma faixa de calor atravessou a clavícula e terminou numa bolha perto do pescoço.

Helena rasgou a costura da gola para afastá-la.

— Tem mais alguma?

— Não.

A palavra quebrou quando Lívia puxou ar. O peito subiu apenas do lado direito.

Daniel esqueceu a roda de oito raios.

— Helena.

— Eu vi.

Ela aproximou o ouvido das costas de Lívia. A cabine trocou de posição durante o gesto; por um instante, o rosto de Helena ficou diante do peito da menina. Quando o espaço corrigiu, ela ainda mantinha uma mão firme na mala.

— Inspira pela boca.

Lívia obedeceu até a metade. Um som úmido apareceu dentro da respiração e sumiu na tentativa seguinte.

— Não tem causa aqui — Daniel disse.

— Tem nela.

Helena examinou o ombro, as costelas e o tornozelo. Cada região parecia pertencer a um corpo diferente. O hematoma mudava de borda quando o piso alternava; sob duas costelas, a pele afundava sem marca externa.

— Eu não consigo imobilizar tudo isso junto.

— Então não imobiliza — Lívia disse. — Só me levanta.

Tentou ficar em pé. O braço direito dobrou antes de tocar a parede.

Um corte apareceu em torno do cotovelo, não aberto, mas desenhado sob a pele como uma cicatriz recém-fechada. Ao mesmo tempo, três dedos da mão perderam cor.

Helena segurou o antebraço da menina.

— Não.

O bilhete de Helena, escondido sob o casaco amarrado à cintura, aqueceu contra o corpo. Ela soltou o braço por reflexo. A marca continuou ali.

Lívia percebeu para onde ela olhava.

— Não faz isso.

Helena abriu o nó do casaco.

— Você não sabe qual vai pegar.

— Nem você.

— Exatamente.

— Helena.

A médica retirou o bilhete. As palavras continuavam pálidas nas dobras, quase apagadas. Ela o colocou entre a palma queimada e o cotovelo de Lívia.

Daniel tocou seu ombro.

— Se vier tudo…

— Afasta a mala da perna dela. Só isso.

Ele permaneceu um segundo a mais. Helena ergueu o queixo na direção da mala, e Daniel obedeceu.

O papel aderiu às duas peles.

Não houve luz.

A cicatriz sob o cotovelo de Lívia afundou como uma linha pressionada por dentro. Helena arqueou as costas. Uma faixa idêntica surgiu em seu braço, mas aberta numa versão e fechada noutra: sangue escorreu até o punho enquanto, sobre ele, a pele permanecia inteira.

Helena viu a origem antes de cair de joelhos.

Uma escada molhada sob pés menores. A mão de Lívia procurando um corrimão que existia à esquerda e à direita. O cheiro de concreto frio. A certeza física de que Daniel estava no alto da escada sem que nenhum rosto aparecesse. O corpo tombando para uma plataforma que já tinha sido removida.

A impressão terminou com gosto de ferrugem.

Helena bateu a mão boa no piso. O chão era madeira quando recebeu a palma e ferro quando ela a retirou.

— O que você viu? — Daniel perguntou.

Ela não respondeu. Olhava além da cabine, para uma linha que nenhum dos dois enxergava.

Lívia puxou o bilhete do braço.

— Eu mandei não fazer.

— O cotovelo?

A menina moveu a articulação. A marca havia desaparecido.

Helena enrolou gaze sobre o próprio antebraço, por cima do sangue que atravessava pele intacta.

— Foi uma queda.

— Eu nunca caí naquela escada.

— Você caiu em algum lugar.

— Isso não ajuda.

A voz de Lívia subiu. O manual respondeu, abrindo-se dentro de seus braços. As páginas viraram até uma folha coberta por trilhos incompletos, interrompidos antes das margens.

O relógio saltou para 5h34.

Daniel voltou à roda de oito raios. A versão com cinco havia desaparecido. Quando tocou o metal, um apito soou atrás deles e uma porta distante se fechou numa cabine que só existia pela janela.

— Não toque — Helena disse.

— A porta fechou quando girei para a direita.

— A respiração dela piorou quando você encostou.

Daniel largou a roda.

Lívia inspirou. O lado esquerdo do peito acompanhou desta vez, mas o ombro queimado escureceu. Pequenos pontos brancos apareceram sob a bolha, como cinza presa dentro da pele.

— Não foi ele — disse ela. — Isso já estava chegando.

As palavras saíram rápidas demais. Ela dobrou a página do manual sobre o desenho, escondendo-o.

Daniel observou o movimento.

— Mostra.

— Não tem nada.

— Você acabou de fechar.

— Porque estava queimando.

Outra dor a interrompeu. O joelho esquerdo ganhou uma faixa de poeira que não podia ser retirada; cada grão estava sob a superfície, formando o desenho de um piso áspero. Ao mesmo tempo, o tornozelo direito voltou à posição normal. A mancha roxa, porém, permaneceu.

Helena afastou a mão de Daniel antes que ele tentasse abrir o manual.

— Primeiro ela.

— O manual pode dizer como parar.

— Se ainda houver alguém para ler.

Lívia riu uma vez, sem humor.

— Muito sutil.

Helena não respondeu. Ajoelhou-se novamente e encostou o bilhete abaixo da clavícula da menina.

— Escolhe um — Lívia disse.

— Não consigo.

— Então vai pegar todos.

— Afasta a mão.

— Você vai…

O bilhete ativou antes de ela terminar.

O calor saiu do ombro de Lívia em placas invisíveis. Helena recebeu a primeira sobre a clavícula; sua blusa escureceu sem chama. A segunda roubou metade do ar. A terceira fez sua perna direita perder força.

Com cada dano veio um fragmento.

Fumaça num túnel onde Lívia corria sozinha. Uma mão que poderia ser de Daniel, mas terminava antes do punho. Água gelada sobre um corpo que não alcançava a superfície. O impulso de não chamar ninguém. A vergonha de chorar enquanto o mundo se desfazia.

Depois vieram os trilhos.

Cada possibilidade vibrava sob o corpo. Algumas terminavam com gosto de cobre; outras seguiam até lugares onde Lívia não possuía peso. Duas linhas principais atravessavam a locomotiva. Entre elas havia uma terceira que não começava em estação alguma.

Helena caiu sentada.

O bilhete escorregou de sua mão. Lívia o chutou para longe.

— Chega.

— A linha do meio — Helena disse.

Daniel se abaixou ao lado dela.

— Que linha?

Helena tentou inspirar fundo e não conseguiu. Apontou para o manual.

— Ela não começa. Só atravessa.

Lívia abraçou o caderno, comprimindo a capa contra a queimadura que já desaparecia de seu ombro.

— Você não viu inteira.

— Não.

Helena levantou-se usando o painel. A mão queimada deixou uma impressão úmida no metal, mas o painel surgiu dois palmos à direita e ela quase caiu outra vez.

— Você vê o começo?

Lívia apertou a boca.

Daniel pegou o bilhete do chão e o devolveu a Helena. Ela o guardou sem olhar.

— Lívia.

— Para de falar meu nome como se isso resolvesse.

— Abre o manual.

— E depois? Você lê uma frase e decide que já sabe o que fazer?

Uma rachadura de outra cabine surgiu na janela. Gabriel estava de costas numa plataforma matinal, mais velho. Virou-se antes que o rosto aparecesse. A rachadura fechou.

Daniel não se moveu.

Lívia viu para onde ele olhava e abriu o manual com força suficiente para ferir a lombada.

— Pronto. Lê.

Para Daniel, as páginas eram linhas sem escala e setas voltadas para dentro. Para Helena, alguns traços continuavam atrás da folha. Para Lívia, palavras apareciam onde a tinta ainda não chegara.

— Inclina para a caldeira — Helena disse.

— Some tudo.

— Para mim, não.

Lívia girou o caderno. Helena viu os dois trilhos principais se afastarem. A menina viu letras surgirem entre eles, mas apenas uma palavra de cada vez.

— “Nenhum” — leu Lívia.

— Aqui tem uma junção — Helena apontou sem tocar. — Vira um pouco.

— “Caminho”. Depois… espera.

O piso deslocou-se. A alça da mala apertou as três cinturas e os derrubou na mesma direção. O prontuário bateu dentro do couro. A chave presa à fechadura girou sozinha um oitavo de volta e voltou.

O relógio marcou 5h36.

Daniel apoiou o manual na mala para estabilizá-lo. O frio do prontuário atravessou a capa e escureceu os símbolos. Pela primeira vez, as linhas permaneceram na mesma posição.

Helena inclinou a página. Lívia leu.

— Nenhum caminho de volta exige apenas uma passagem.

A locomotiva respondeu retirando todas as portas, exceto duas.

Uma mostrou a estação na noite da morte de Gabriel. A outra, uma manhã em que ele caminhava pela plataforma, vivo, com fios grisalhos junto à têmpora.

Daniel fixou os olhos na segunda.

— Continua — Helena disse.

Lívia virou a folha, mas a frase permaneceu atravessando o vinco.

— “Um passageiro paga para entrar…”

Os bilhetes de Daniel e Helena aqueceram.

— “Uma lembrança paga para avançar…”

O relógio de Gabriel deu um clique. Daniel levou a mão ao pulso. Por um segundo, soube que havia uma voz que não conseguia mais recordar.

Lívia parou na última parte.

— Lê — Daniel pediu.

Ela soprou o cabelo para fora do rosto. Havia uma marca nova sob seu maxilar, formada por quatro pequenos hematomas, como dedos que a haviam segurado numa versão sem deixá-la cair.

— Eu estou tentando.

Helena mudou o ângulo. O corte reaberto em sua mão pingou sobre a margem, mas o sangue não tocou a folha: seguiu uma linha invisível até o desenho central.

As palavras se completaram.

— Uma possibilidade paga para chegar — Lívia leu.

As duas portas se afastaram.

A primeira perdeu cor; Santa Augusta se esvaziou da placa, dos bancos, de uma lanterna no chão. A segunda ganhou peso. Gabriel virou o rosto, mas alguém desapareceu de sua lateral.

Lívia cambaleou.

A faixa de hematomas sob seu maxilar perdeu um dos quatro dedos. Depois outro. A alça ao redor de sua cintura afrouxou embora Helena não a tivesse soltado.

— Ela está fechando — Helena disse.

— Eu sei.

Lívia tentou avançar para a porta da manhã. O pé atravessou o limite e voltou sem o tênis, mesmo que o calçado estivesse na cabine ao lado. Daniel segurou a alça, trazendo-a de volta.

— Não é uma porta para atravessar agora.

— Não fale como se soubesse.

Ela puxou o tecido. Daniel soltou antes de arrastá-la.

No manual, os trilhos não se encontravam. Um terminava sob a estação apagada; o outro prosseguia até a manhã de Gabriel. Entre eles, um risco fino levava um único símbolo humano.

— Não mistura — Helena disse.

Daniel desviou os olhos de Gabriel.

— O quê?

Ela passou a unha sobre as duas linhas, sem tocá-las.

— Se misturasse, elas se juntariam. Uma fecha. A outra continua.

Lívia virou a página depressa.

Daniel segurou a borda.

— E a linha do meio leva você.

— Não sabe se sou eu.

— Só tem uma pessoa desenhada.

— Pode ser qualquer uma.

— É menor — Helena disse.

Lívia arrancou o caderno das mãos dos dois. O movimento abriu outra marca em seu braço: uma queimadura circular apareceu no pulso e sumiu antes que Helena a alcançasse.

— Vocês queriam a frase. Está aí.

— Falta o fim — Helena respondeu.

— Não falta.

O manual contradisse Lívia. Na contracapa, um baixo-relevo mostrou duas linhas longas, uma interrompida, e uma terceira atravessando a distância. O corpo levado por ela não tocava a linha de destino.

Sob a figura, havia um círculo vazio.

A locomotiva perdeu mais uma versão do piso. A marca clara dos pés do antigo Condutor desapareceu com a chapa vermelha e retornou sobre madeira, embora nunca tivesse existido ali. Ao redor dela, filamentos de cobre começaram a emergir.

Não cresceram em direção a Lívia.

Procuraram o espaço vazio do assento.

O relógio saltou para 5h38.

Daniel aproximou-se da marca. A chave quebrada permanecia na fechadura, mas a base já não sustentava cadeira alguma. Quando ele pisou perto, os filamentos se voltaram para seu sapato. Recuou. Eles tornaram a repousar.

— Não encosta — Lívia disse.

Foi a rapidez da advertência que o fez olhar para ela.

— Você já sabia.

— Eu sabia que tinha um preço.

— Qual?

— Não inteiro.

— Lívia.

— Para!

A palavra rachou. Ela apertou o manual contra a barriga e tentou dar um passo para trás, mas a cabine atrás dela não tinha o mesmo piso. Helena a segurou pela alça antes da queda.

— Não faz isso de novo — disse Helena.

Lívia ficou imóvel.

A frase não precisava mencionar o futuro escondido que matava Helena. A menina puxou o nariz, limpou-o no ombro sem soltar o caderno e deixou que a médica a trouxesse de volta à chapa estável.

— Eu vi um lugar vazio — disse. — Só isso. Uma pessoa aqui. Eu não vi quem.

O círculo da contracapa escureceu.

Uma raiz de cobre apareceu dentro dele e seguiu pelo couro, atravessando as páginas até o símbolo humano. Quando a raiz alcançou seus pés desenhados, a terceira linha se tornou branca.

A porta da manhã ganhou contorno.

Lívia também.

Por dois segundos, as marcas incompatíveis desapareceram. Lívia respirou com os dois lados do peito e apoiou o tornozelo.

Então a raiz no manual se desfez.

Os ferimentos retornaram. Helena amparou Lívia e recebeu um lampejo sem usar o bilhete: chegar a uma casa onde nenhuma fotografia continha seu rosto.

— Precisa continuar ligada — disse Helena, quase sem ar.

Daniel observava os filamentos no chão.

— A linha?

— Ela.

Helena apontou para o desenho. A raiz partia do círculo vazio, não da rota de destino.

— Atravessa uma vez. Mas o peso continua aqui.

— Não fala “peso” — Lívia disse.

— Não estou falando de você.

— Parece.

Helena interrompeu a resposta. Mudou a mala de lado para não pressionar as costelas feridas da garota.

Daniel agachou-se junto à fechadura e contou os encaixes vazios. Dois nos tornozelos. Um no antebraço. Quatro nas costas. As posições que haviam prendido o homem sem nome.

— O círculo não é uma estação — disse.

Helena aproximou o manual da marca clara. O baixo-relevo coincidiu com o contorno onde o assento estivera.

— É uma função.

Lívia fechou a capa.

A terceira linha desapareceu.

— Abre — Daniel disse.

— Ela vai escolher alguém.

— Abre.

— Você não sabe isso.

— Você também não.

Lívia prendeu o manual sob o braço, protegendo-o com o corpo. O movimento era pequeno, infantil demais para esconder a intenção.

O relógio marcou 5h39.

A cabine mudou novamente. A alavanca principal surgiu no lugar do assento e atravessou a marca dos pés. Por trás dela, Daniel viu uma figura sentada — não um rosto, apenas um corpo coberto por cabos, existente durante a fração entre duas versões.

Quando a alavanca desapareceu, as raízes permaneceram.

Vazias.

Helena retirou o manual debaixo do braço de Lívia sem precisar puxar. A menina poderia ter impedido. Não impediu.  A menina poderia ter impedido. Não impediu.

Na última página, abaixo do círculo, surgiu uma linha de texto. Apenas metade podia ser lida de cada ângulo. Helena enxergou o começo; Lívia, o fim.

— “Uma sobrevivente…” — Helena disse.

Lívia fechou os olhos e completou:

— “…permanece enquanto sua âncora permanecer.”

O relógio de Gabriel avançou um segundo.

Daniel ergueu o pulso. O ponteiro não voltara a se mover depois. Parou diante do número cinco.

Na janela, a realidade da manhã se firmou por tempo suficiente para mostrar Gabriel vivo, afastando-se pela plataforma. Ao lado dele havia espaço para uma pessoa. Só uma.

Atrás de Daniel, o lugar do assento respirou.

Os filamentos de cobre ergueram as pontas, procurando altura de joelhos, cintura, braços. A chave quebrada girou dentro da fechadura sem nenhuma mão. A marca clara dos pés abriu-se em duas, ajustando a distância para um novo corpo.

Lívia segurou o casaco de Daniel pela lateral.

Não disse “pai”.

Helena manteve o manual aberto entre eles. A transferência deixara uma faixa escura sob sua clavícula, sangue preso sob a gaze do braço e um som curto em cada inspiração. Mesmo assim, foi ela quem virou a página até o desenho completo.

A terceira linha levava Lívia para fora da possibilidade encerrada.

O círculo permanecia no trem.

O relógio da cabine marcou 5h40.

Daniel olhou para a chave. Para os encaixes. Para o relógio de Gabriel em seu pulso. Depois para o espaço vazio que a máquina ainda chamava de assento.

Os filamentos se inclinaram na direção dele.

Daniel não recuou.

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