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Escravo das Sombras 2CAP. 31725 MIN 0 leituras

O casamento aconteceu e passou.

Foi um evento esplêndido… pelo menos era o que um humano diria. Para a sombra, parecia apenas mais um dos comportamentos estranhos que os membros da tribo exibiam ao lhe deixarem oferendas na entrada da caverna.

Houve movimentos solenes. Houve murmúrios incoerentes. A xamã idosa realizou uma dança… ela era surpreendentemente enérgica para uma mulher de sua idade, mas de alguma forma ainda conservava energia suficiente para oferecer devoção às estátuas rústicas dos seis grandes deuses que ficavam no pequeno santuário da aldeia.

Tatal, pelo menos, estava linda em seu traje de casamento. Com âmbar e cornalina bordados no tecido e adornando seus cabelos, ela parecia uma chama… uma pequena chama, não muito diferente da vela que segurara quando visitou a sombra em sua caverna pela primeira vez.

O noivo… não era ruim, por mais que doesse à sombra admitir. O jovem pareceu abatido por um tempo, mas depois de ver Tatal pela primeira vez, seus olhos brilharam com um fervor meio bobo. Aquele brilho hipnotizado disse à sombra que as duas crianças humanas talvez ficassem bem.

Poucos dias após o casamento, Tatal chegou à sua caverna muito animada.

“Sombra!”

Ela chamava a sombra todas as vezes, mesmo que sua vasta escuridão envolvesse toda a caverna, e ele nunca fosse embora. A sombra estudou a jovem por um instante. Confirmando que ela estava de bom humor, perguntou em seu tom frio habitual:

“O que?”

Ela sorriu radiante.

“E então? Você o viu? Ele não é alto? Não é bonito?”

A sombra não tinha discernimento para distinguir um humano bonito de um sem graça, mas o garoto da Tribo do Lobo Cinzento era de fato alto.

‘Afinal, qual é o problema de ser alto?’

A sombra estava inexplicavelmente descontente.

“Eu vi.”

Ele não ofereceu mais comentários.

Tatal riu ruidosamente.

“Meu marido é o homem mais bonito da tribo! Não, das tribos vizinhas também! Mesmo que ele ainda não tenha barba… ah, mas tenho certeza de que ela vai crescer com o tempo!”

A sombra suspirou.

“Vocês, humanos, certamente gostam de cabelo.”

Tatal lançou um olhar de pena para a escuridão.

“Claro. Que tipo de homem não tem barba? Deixa eu te contar… a barba do meu avô era a mais espessa da tribo. Era por isso que ele era o mais másculo.”

A sombra sentiu que havia algo de errado naquela afirmação, mas o que ela sabia?

Ela também não tinha barba, e na verdade não era um homem — era uma sombra desencarnada. Havia algum tipo de causalidade entre os dois fatos, e ele não se daria ao trabalho de discernir qual era.

No entanto, tinha certeza de que homens sem barba eram muito mais bonitos e elegantes. A sombra não sabia de onde vinha aquela opinião tão categórica, mas sentia que estava certa.

“Eu trouxe vinho de espinheiro para você. Você sabe o que é vinho, Sombra? A Tribo do Lobo Cinzento trouxe consigo. É delicioso!”

Tatal tirou uma cabaça e ofereceu-a à escuridão. A sombra olhou para a cabaça com desconfiança por alguns instantes, depois respondeu em tom indiferente:

“Eu sei o que é vinho. No entanto, não vou bebê-lo.”

Tatal sorriu.

“Oh, não. Que pena. Mas não podemos deixar esse vinho estragar, podemos?”

Dito isso, ela retirou a terra e bebeu dela com uma expressão satisfeita.

‘Essa raposa…’

Tatal sabia perfeitamente que a sombra não comia nem bebia. Aliás, sabia tão bem que, desde pequena, se fartava secretamente das oferendas que os aldeões deixavam em seu altar. A sombra não as comeria, e a pequena glutona não via razão para desperdiçar todas aquelas delícias. Satisfeita com o vinho, Tatal olhou em volta.

“Enfim… essa coisa de casamento. É ótimo!”

Ela coçou a nuca.

“Você já foi casada, Sombra?”

Enquanto Tatal tomava outro gole de vinho, a sombra lançou-lhe um olhar nada divertido. Então, ele respondeu honestamente:

“Muitas vezes.”

Afinal, ele havia vivido centenas de milhares de vidas.

Tatal cuspiu o vinho.

“O quê?”

Sua voz tremia.

“Como assim, várias vezes? Isso não é permitido, Sombra! Você só pode se casar com uma pessoa, para a vida toda!”

A sombra respondeu em tom impassível:

“Se você for humano.”

Tatal encarou a escuridão e depois zombou.

“Quando é que você teria tempo para se casar? Você nunca sai da sua caverna! Você está mentindo de novo.”

Naquele instante, a sombra fez algo que nunca havia feito antes — pelo menos não nesta vida. Ele deu uma risadinha.

Sua voz soou um pouco divertida quando ele falou:

“Você tem razão. Não tenho tempo para me casar.”

Ao dizer isso, porém, pareceu se lembrar de algo.

Um brilho radiante. O reflexo de chamas brancas dançando nos olhos de alguém. Um calor reconfortante permeando todo o seu ser…

Uma sensação de saudade quase insuportável.

A sombra estava confusa. Por que uma sombra como ele ansiaria pela luz?

Não fazia nenhum sentido. Assim como Tatal e outros humanos nunca fizeram sentido. Ele permaneceu em silêncio por um longo tempo, depois disse calmamente:

“Parabéns pelo seu casamento, Tatal. Fico feliz que você tenha gostado do noivo.”

Ela sorriu.

“Obrigado. Eu também fico feliz.”

Após tomar outro gole de vinho, ela acrescentou:

“Me faz sentir que caçar aquele maldito urso valeu a pena!”

O som da risada dela ecoou pela caverna. A sombra percebeu que, de alguma forma, aquele barulho já não a incomodava mais. Logo, após terminar o vinho e falar efusivamente sobre seu novo marido, Tatal retornou à sua tribo, deixando-o sozinho em silêncio.

A sombra permaneceu imóvel, silenciosa. Em sua mente…

Os reflexos da chama branca ainda dançavam, enchendo seu peito com uma dor indescritível. Então, porém, ele dissipou aquele estado estranho e voltou à sua posição habitual. Observando, esperando.

Sabendo que não havia nada a esperar e que já tinha visto muita coisa.

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