CAPÍTULO 30 — O ÚLTIMO MINUTO
por Sonhado acordadoÀs 5h44, a palavra CONFIRMAR permanecia acesa no painel.
Daniel mantinha a mão sobre a alavanca. O metal já conhecia o espaço entre seus dedos; cada sulco se fechara ao redor deles como se a peça tivesse sido fundida naquela posição. No tornozelo direito, os filamentos de cobre apertavam sem machucar. A raiz no ombro doía com o ritmo da caldeira.
Lívia ainda tentava afastar o fio junto ao sapato dele.
— Não vai soltar — Daniel disse.
Ela empurrou outra vez com a ponta do tênis. O filamento vergou e retornou ao lugar.
— Você pode.
— Posso.
O relógio de Gabriel bateu contra o pulso quando a cabine se inclinou. O ponteiro continuava diante do cinco. Daniel levou o polegar até a coroa.
O mecanismo ofereceu a resistência conhecida.
Cinco segundos.
Tempo para tirar Lívia de perto do assento. Para olhar a casa pela janela sem que ela perdesse mais um prato, mais uma fotografia, mais uma palavra. Para dizer alguma coisa que não surgia agora.
Sob a pele de seu antebraço, a linha de cobre escureceu.
O relógio produziu um clique incompleto. Na lembrança que sustentava a terceira rota, uma lancheira cor-de-rosa perdeu a alça por um instante.
Daniel retirou o polegar.
— Por que parou? — Lívia perguntou.
Ele baixou o pulso.
— Não posso gastar.
Helena aproximou-se do painel. Mantinha o prontuário de Marina comprimido contra as costelas; o símbolo das duas linhas na capa brilhava frio, sem iluminar nada ao redor. A queimadura da palma havia atravessado a gaze em três pontos. Ela olhou a chave parcialmente girada, depois os pés de Daniel nas marcas.
— A chave e a alavanca precisam concluir juntas.
— Tem certeza?
— Não.
Uma tosse a dobrou sobre a pasta. Quando passou, Helena reposicionou o prontuário debaixo do braço bom e tocou o painel com dois nós dos dedos.
— Mas esta versão só mantém os dois comandos quando você sustenta a rota. Se largar um antes do outro, voltamos à sobreposição.
Lívia levantou-se. O joelho direito demorou meio segundo para acompanhar o restante do corpo. Na versão atrasada, ela caiu; uma escoriação abriu-se em sua palma e apareceu na pele real antes de o outro corpo desaparecer.
— Então não faz — disse. — Deixa voltar.
Daniel olhou para a janela.
A mãe de Lívia colocava três pratos sobre uma mesa pequena. O terceiro tinha uma lasca azul na borda. Ela o alinhou diante da cadeira vazia, voltou ao fogão e parou com a colher suspensa.
Depois retirou o prato.
Guardou-o no armário sem saber por quê.
Lívia tocou o vidro. Seus dedos encontraram uma superfície gelada, embora a cabine queimasse ao redor.
— Esse era o meu.
A mulher abriu novamente o armário. Olhou para o prato azul. Passou o polegar pela lasca e tornou a fechar a porta.
Daniel encaixou a mão esquerda na chave quebrada. A ponta irregular mordeu a palma.
— Gabriel vive — disse.
A raiz no ombro avançou um centímetro.
— Lívia atravessa.
O círculo vazio no manual, ainda aberto sobre a mala, encheu-se de cobre.
Daniel girou a chave até o fim e puxou a alavanca.
O painel apagou.
Não houve impacto. A locomotiva apenas perdeu todas as posições que não eram aquela.
As portas incompatíveis desapareceram primeiro, dobrando-se para dentro de frestas que se fecharam sem costura. O painel deixou de ocupar três paredes. A caldeira produziu um único arfar, inteiro, e os rebites do piso pararam de mudar de distância. A janela tornou-se uma só.
O corpo de Daniel não.
Uma conexão alcançou o outro tornozelo e fechou-se sobre o osso como uma faixa quente. Duas raízes subiram atrás dos joelhos, não para imobilizá-lo, mas para obrigar seu peso a permanecer no centro das marcas. A chapa cresceu sob suas pernas. Formou um assento baixo, sem encosto, que o recebeu antes que ele decidisse sentar.
Daniel não tentou levantar.
Helena segurou sua camisa junto à nuca e puxou o tecido para longe quando os primeiros filamentos buscaram as costas. Eles não perfuraram em linha. Espalharam-se pelas omoplatas como galhos procurando apoios diferentes, entrando onde a pele cedia, evitando a coluna.
— Braço esquerdo responde?
Daniel abriu e fechou a mão que segurava a chave.
— Responde.
— Pernas?
Ele tentou mover o calcanhar. A marca moveu-se com ele.
— Não do jeito certo.
— Não força.
Lívia deu um passo em direção aos filamentos.
— Tira isso dele.
Helena não se voltou.
— Já não sai sem fechar a linha.
— Então fecha.
— Lívia…
— Você disse que sabia onde passava. Faz alguma coisa.
Outra lembrança atingiu Daniel antes que pudesse responder.
Um quarto abafado às três da manhã. O termômetro marcava trinta e nove e dois. Lívia, com quatro anos, recusava o remédio e escondia a boca no travesseiro. Uma mulher dizia para não misturar os frascos. Daniel — outro Daniel, numa vida que agora terminava — conferia o rótulo três vezes e sentia a testa da criança com os lábios porque não confiava na própria mão.
Na cabine, ele virou o rosto para Lívia.
— Você odiava xarope de morango.
Ela parou.
— Eu odeio.
— Escondia atrás da cama.
— Como você…
As lembranças vieram sem pedir passagem.
O peso dela recém-nascida, menor do que a dobra de seu braço. A primeira palavra — não pai, mas água, dita apontando para chuva. Um vestido amarelo recusado na porta de uma festa. O cheiro de borracha de uma escola nova. Uma conta vencida presa por ímã na geladeira. O estalo de um copo quebrado durante uma discussão que terminara com os três varrendo o chão em silêncio. A mãe penteando os cabelos de Lívia, prendendo forte demais, soltando e recomeçando.
Daniel conheceu a gaveta onde guardavam pilhas usadas junto das novas. Soube qual degrau rangia. Lembrou uma senha de internet que nunca digitara. Sentiu vergonha de uma mentira contada a um professor e orgulho de uma nota que não era sua.
As placas junto às têmporas avançaram.
Não cobriram seu rosto de uma vez. Desenharam primeiro uma faixa estreita sobre as sobrancelhas, metal fosco acompanhando as rugas que já existiam. Outra placa passou por baixo da orelha direita e parou junto ao maxilar. Entre ambas, sua pele permanecia exposta. O relógio de Gabriel continuava visível.
— Daniel — Helena chamou.
Ele ouviu o nome de muito longe.
Havia uma mulher fechando uma padaria numa cidade que ele nunca visitara. Um homem deixando uma carta dentro de um livro emprestado. Duas crianças correndo num pátio alagado. Uma enfermeira decidindo trocar de turno. Um cachorro enterrado sob uma árvore sem placa. Uma janela quebrada que alguém pretendia consertar na terça-feira.
Vidas inteiras não chegavam. Apenas pontos de contato, objetos, atrasos, pequenos futuros. O suficiente para que aquela possibilidade não se tornasse um vazio sem forma.
Daniel apertou a alavanca. O metal devolveu a pressão.
— Estou aqui.
Helena conferiu seus olhos, um de cada vez. Não perguntou o que ele via.
O relógio da cabine mudou para 5h45.
Duas passagens se formaram diante da caldeira.
A da esquerda tinha moldura de ferro e um chão de cimento além dela. Uma placa de estação apareceu fora de foco, seguida pelo corredor branco de um hospital ainda vazio àquela hora. As imagens alternavam, mas pertenciam ao mesmo mundo: o retorno de Helena.
A passagem da direita não possuía porta. A terceira linha alargara o ar numa faixa branca, sem plataforma do outro lado. Não havia perspectiva. Quando Lívia tentava olhar através dela, seu reflexo surgia chegando antes de seu corpo partir.
Helena examinou ambas, poupando a mão queimada.
— A da esquerda fecha primeiro.
— Como sabe? — Lívia perguntou.
— O prontuário está puxando.
A pasta de Marina inclinava-se em direção à passagem normal. O símbolo na capa permanecia inteiro.
Sobre a mala, a lanterna de Gabriel piscou uma vez. A chave de fenda perdeu o brilho. As costuras do couro se soltaram sem romper; a mala achatou-se lentamente, como se o espaço que ocupara fosse devolvido ao piso. Nenhum objeto seguiu para as portas. Quando o couro terminou de desmanchar, a lanterna e a chave de fenda caíram junto aos pés de Daniel.
O manual permaneceu.
Lívia o recolheu e caminhou até o assento. Uma mancha roxa nasceu ao redor de seu pulso. Daniel conheceu a causa antes que ela aparecesse por inteiro: noutra versão, uma porta de ônibus se fechara sobre aquele braço quando ela tinha onze anos.
— Deixa aqui — disse ele.
— Eu sei.
Ela tentou encaixar o manual entre a alavanca e o painel. A cabine recusou; a capa escorregou. Tentou debaixo do braço preso de Daniel, mas uma raiz se ergueu no caminho.
— Tem um compartimento — Helena falou atrás deles.
Daniel olhou para a lateral do novo assento. Uma tampa estreita surgira onde antes havia apenas chapa. Lívia abriu-a. Dentro, o formato exato do manual estava gravado no metal.
Ela demorou a colocá-lo.
— Se eu deixar, você não pode fingir que não leu.
— Não vou esquecer.
— Não foi o que eu disse.
Daniel esperou. Uma lembrança deu a ele o costume de Lívia de repetir uma pergunta até receber a resposta exata. O impulso de responder por cima dela veio junto, pertencente a uma versão sua que já cometera esse erro muitas vezes.
— Eu vou ler — disse.
Lívia depositou o manual no compartimento. A tampa não se fechou; deixou as páginas ao alcance da mão direita de Daniel.
Helena ajeitou o prontuário sob o braço. Depois puxou do próprio bolso o bilhete quase sem palavras. Ao aproximá-lo da passagem de retorno, o papel tornou a exibir seu nome.
HELENA DUARTE.
Não havia momento escrito abaixo.
Ela olhou para Daniel.
— Quando eu atravessar, a sobrecarga dela pode aumentar. Não tente compensar com seu poder.
O polegar dele se afastou mais um pouco da coroa do relógio.
— Não vou.
— Mantenha a alavanca até a linha branca fechar atrás dela. Não antes.
Helena voltou-se para Lívia. A menina estava diante da janela, vendo a mãe abrir uma gaveta da cozinha.
Dentro havia uma presilha vermelha, três pulseiras de tecido e um chaveiro em forma de estrela. A mulher pegou a presilha. Ficou tentando lembrar por que nunca a usava. Depois a colocou no próprio cabelo, achou estranho e retirou.
— Lívia.
A menina não respondeu.
Helena aproximou-se o bastante para que os ombros quase se tocassem.
— Na outra saída, procura a placa com duas linhas. Se não houver chão, não pisa.
— Você vai estar lá?
— Não sei onde vou chegar.
— Ótimo plano.
Helena aceitou a ironia sem corrigir.
— Vou procurar você. Com o prontuário. Depois procuro documentos, algum registro que possa ser construído sem…
A respiração falhou. Ela esperou o ar retornar.
— Sem inventar uma história confortável — completou.
Lívia olhou para a pasta.
— E a menina?
Helena passou o polegar pela palavra Marina.
— Eu conto o que escolhi.
Não disse a quem.
A passagem de retorno começou a se estreitar. O corredor de hospital sobrepôs-se à plataforma e tornou a separar-se.
Daniel soltou a chave com a mão esquerda por tempo suficiente para tocar o símbolo do prontuário. A conexão nas costas puxou. Ele recolocou a mão imediatamente.
— Vai.
Helena verificou o encaixe de seu tornozelo uma última vez. A linha de cobre já alcançava o cotovelo. O metal nas têmporas avançara até a metade das maçãs do rosto, mas deixava descoberta a boca de Daniel e um espaço irregular ao redor dos olhos.
— Você está orientado?
— Cinco e quarenta e cinco.
— Seu nome.
— Daniel Montenegro.
— O dela.
Ele olhou para Lívia.
— Lívia Montenegro.
A menina fechou os dedos sobre a fotografia dentro do bolso.
Helena assentiu uma vez. Não ofereceu a mão a Daniel. Segurou o prontuário com os dois braços, mesmo com a queimadura abrindo a gaze, e atravessou a moldura de ferro.
Por um instante, ficou simultaneamente na estação e no corredor do hospital. A roupa molhou-se de chuva numa versão; na outra, recebeu luz fluorescente. O prontuário permaneceu igual nas duas.
Então Helena desapareceu.
A porta fechou.
Restaram Daniel, Lívia e a linha branca.
O relógio marcou 5h46.
Na janela, a mãe de Lívia subiu ao quarto. Abriu a porta e encontrou uma cama, uma escrivaninha e fotografias presas por pregadores. Parou no meio do cômodo.
— Lívia? — chamou.
A menina encostou as duas palmas no vidro.
— Mãe.
A mulher abriu o guarda-roupa. Metade das roupas perdeu a cor enquanto ela tocava os cabides. Uma jaqueta jeans permaneceu. Ela a retirou, encostou o tecido no rosto e fechou os olhos.
— Eu estou aqui — Lívia disse.
Do outro lado, a mulher virou a cabeça como se tivesse ouvido um ruído na rua.
Na parede amarela, as marcas de altura começaram a desaparecer de cima para baixo. A última resistiu. A data sumiu primeiro. Depois o risco.
A mãe aproximou-se das fotografias. Numa delas, três pessoas estavam diante de um bolo. O espaço entre o casal perdeu detalhe, mas não se fechou imediatamente. A mulher tocou o borrão com a unha.
Daniel recebeu a lembrança inteira.
O bolo era de chocolate e tinha recheio de coco que Lívia fingira gostar para não magoar o pai. A vela do número nove não acendera. Depois da foto, a mãe discutira com alguém por telefone no banheiro. Lívia guardara um pedaço de bolo para o dia seguinte e o pai comera de madrugada.
Ele sabia onde o prato fora escondido.
— Ela vai esquecer tudo? — Lívia perguntou.
— Você, sim.
— Não precisava responder tão rápido.
— Desculpa.
Lívia esfregou o punho na bochecha, irritada com a água que encontrou ali.
— Você lembra do bolo.
— Lembro.
— Eu não contei.
— Eu sei.
Ela se afastou da janela. O espaço branco da terceira rota iluminava apenas um lado de seu rosto. No outro, os ferimentos alternativos continuavam chegando: uma pequena queimadura junto à orelha, poeira sob a pele do joelho, um corte que surgia e fechava na base do polegar.
Daniel reconheceu o modo como ela soprava o cabelo para fora dos olhos. Conheceu também o primeiro dia em que fizera aquilo, aos sete anos, imitando a mãe. A lembrança não lhe pertencia e agora não poderia pertencer a mais ninguém.
— A fotografia — disse.
Lívia a tirou do bolso. Conferiu os rostos dos pais. O próprio rosto continuava entre os dois, nítido.
— Guarda por dentro do casaco. A chuva pega na outra saída.
— Você não sabe.
— Você sempre molha a manga primeiro.
Ela olhou para a manga direita. Depois para ele.
— Para de fazer isso.
— O quê?
— Lembrar como se tivesse estado lá.
Daniel baixou os olhos para a alavanca. A raiz sob seu braço pulsou, e a casa apareceu dentro do metal: a mesa, o prato azul guardado, a presilha vermelha abandonada sobre a pia.
— Eu estou lá agora.
Lívia guardou a fotografia por dentro do casaco. Desta vez abotoou o bolso.
— E aquele abraço?
Daniel soube qual. A plataforma do Vagão 3. O corpo dela desfazendo-se entre seus braços, o casaco perdendo fios, a pressão da testa contra seu peito. A memória que Lívia pagara e não possuía mais estava inteira nele, junto de milhares de outras.
— Eu lembro.
Ela esperou algo além disso. Daniel não encontrou.
Uma placa de metal avançou sobre a lateral esquerda de seu rosto. O ouvido se encheu do ruído da locomotiva por dentro. Ainda assim, ele ouviu quando Lívia respirou pelo nariz para não chorar mais alto.
— Eu não quero ir sozinha.
— Você procura Helena.
— Não é a mesma coisa.
— Não.
A linha branca começou a estreitar atrás dela.
Daniel não disse que tudo ficaria bem. Na janela, a mãe de Lívia segurava a fotografia enquanto o borrão entre o casal se transformava em parede. Um objeto caiu do quarto — a presilha vermelha, embora estivesse na cozinha — e desapareceu antes de tocar o chão.
— Se disserem que você não existe — Daniel falou —, mostra a foto. Se não acreditarem, continua mostrando.
— Isso é um plano ruim.
— É o que tem.
— Você vai ficar olhando?
Daniel verificou o relógio de Gabriel.
O ponteiro diante do cinco. O relógio da cabine a um minuto do fim.
— Vou saber.
Lívia tocou a borda da placa que começava a cobrir a têmpora dele. O metal estava quente. Ela retirou os dedos, mas não recuou.
— Daniel…
A palavra seguinte ficou presa. A adolescente fez uma careta breve, como se tivesse escolhido uma coisa ruim entre outras piores.
— Pai.
Não soou como reconhecimento antigo. Soou como algo começado tarde demais.
Daniel conhecia dezenas de vezes em que ela pronunciara a palavra naquela realidade: pedindo dinheiro, reclamando de uma regra, chamando da sala, gritando depois de bater uma porta. Nenhuma era aquela.
— Vai — disse ele.
Lívia virou-se para a terceira rota. O pé esquerdo entrou no branco e apareceu adiante antes que o restante da perna o acompanhasse. Ela puxou-o de volta.
— Não tem chão.
Daniel olhou para a raiz que sustentava a linha. A conexão no ombro aprofundou-se quando ele empurrou a alavanca mais um ponto. O branco ganhou uma superfície fina, visível apenas pelo reflexo do tênis dela.
— Agora tem.
Lívia colocou um pé. Depois o outro.
Não foi arrastada.
Deu o primeiro passo ainda olhando para Daniel. No segundo, o corpo perdeu a sombra. No terceiro, os ferimentos alternativos deixaram de surgir. A mancha no pulso desapareceu, a queimadura junto à orelha se desfez em gotas, o joelho recuperou um único contorno.
Ela levou a mão ao bolso da fotografia.
Daniel manteve a alavanca.
Lívia seguiu até o branco cobrir seus ombros. Por um instante, pareceu ter quatorze anos e todas as idades que não vivera. Então atravessou.
A linha fechou atrás dela.
O relógio alcançou 5h47.
A realidade de Lívia desapareceu da janela.
Não escureceu. Não explodiu. A mãe continuou de pé no quarto por uma fração de segundo, segurando uma fotografia de duas pessoas diante de um bolo. Olhou para a porta como se tivesse esquecido uma tarefa. Depois a casa perdeu o som, as cores e a espessura.
Daniel guardou tudo.
O prato azul. A presilha. A febre. A conta vencida. O bolo de coco. A mulher chamando pela filha sem saber por quê. A padaria fechada. A carta dentro do livro. A janela que não seria consertada na terça-feira.
A moldura de ferro da passagem de Helena sumiu. A terceira linha recolheu-se até a raiz presa ao assento. O painel apagou os minutos e mostrou apenas um traço contínuo.
O novo assento fechou-se ao redor das costas de Daniel. As placas da máscara avançaram até o nariz e cobriram a testa, mas deixaram a boca livre e uma abertura estreita ao redor dos olhos. O metal não era ferro e latão como o do homem anterior. Era escuro, atravessado por uma linha de cobre que descia da têmpora ao pulso, onde o relógio de Gabriel permanecia preso.
O ponteiro do relógio avançou.
Passou do cinco.
Daniel ouviu a locomotiva procurar uma voz para ele. Não ofereceu nenhuma.
Abriu o compartimento e tocou a capa do manual. Com a outra mão, manteve a alavanca na posição até sentir, muito longe, um peso alcançar o fim da linha branca: dois pés, uma respiração, uma fotografia apertada contra o peito.
Lívia chegara.
Daniel permaneceu sentado.
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