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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2717 MIN

O homem tentou.

A boca formou uma sílaba que não pertencia a nenhum nome. Ele a reteve entre os dentes, corrigiu o som, falhou. O botão de madrepérola permanecia fechado em sua mão. A fotografia, apoiada contra o fole afundado, subia menos de um centímetro a cada respiração humana.

A locomotiva não respondeu.

Daniel ainda mantinha o peso sobre a alavanca. A haste parara de puxar havia algum tempo, mas ele não soltava. O relógio de Gabriel tocava o bronze sempre que seus dedos mudavam de posição. Um contato leve. Regular. A única coisa dentro da cabine que continuava marcando alguma medida compreensível.

O Condutor abriu o punho.

O disco brilhava sob uma película de fuligem. A borda queimada parecia mais escura agora que a luz branca do manual diminuíra. Ele o colocou sobre a fotografia, junto ao peito da menina, e esperou.

Nada se moveu na imagem.

— Ela perdeu isto naquele dia — disse.

A frase raspou os lábios partidos. A metade restante da máscara cobria o lado direito do rosto e entrava sob a têmpora por dois cabos finos. Helena os observava de perto, sem tocá-los. A mão que queimara no metal estava fechada contra o casaco.

— Você guardou — Lívia disse.

O homem olhou o bolso vazio entre as placas.

— Não sabia.

— Mas guardou.

Ele empurrou o botão na direção da criança da fotografia. O objeto raspou o papel e parou antes de cobrir o rosto.

— Não devolve.

Lívia recolheu os dedos enfaixados para o colo. O manual ainda queimava pelas margens, embora o branco já tivesse enfraquecido até uma linha fina. Por um instante, seu reflexo apareceu no vidro da cabine com o casaco incompleto, desfeito no ombro; quando ela virou a cabeça, a roupa estava inteira.

— Não — disse. — Não devolve.

O homem baixou os olhos.

Uma raiz de ferro soltou-se do assento sem estalo, perdeu a curva e repousou no piso. Ainda ligada ao tornozelo dele, pulsava vermelho sob uma braçadeira. Helena se agachou.

— Não puxe. Ainda há tecido preso dentro.

— Isso sou eu? — ele perguntou.

— Uma parte.

A resposta ficou entre os quatro.

O homem voltou à fotografia. Levou-a mais perto do olho descoberto, tão perto que o papel roçou os fios brancos da sobrancelha. Daniel viu a pupila percorrer cada rosto, deter-se na boca da esposa, descer à mão dela sobre o banco.

— Ela disse meu nome.

— Antes do acidente? — perguntou Helena.

Ele demorou, a fotografia presa entre os dedos.

— Antes do barulho.

Pequenos toques correram pelas paredes. Parafusos se desapertavam sozinhos e paravam no último fio da rosca.

Daniel soltou uma das mãos da alavanca.

Ela permaneceu no lugar.

— Você lembra onde aconteceu?

O Condutor virou o rosto para ele.

— Chuva. Uma curva. A janela tremendo.

— Não é isso.

Helena ergueu os olhos. Lívia também.

Daniel passou o polegar pela coroa do relógio de Gabriel. O ponteiro continuava preso na mesma marca. Ele tentou organizar a pergunta antes de dizer, mas as palavras não encontraram ordem melhor.

— Onde você acha que eles estão agora?

O homem abriu a boca.

A cabine deu outro daqueles pequenos toques. Três parafusos caíram do teto e ficaram suspensos a poucos centímetros do piso, sem concluir a queda.

— Eu alcancei… — começou ele, mas o olho voltou à fotografia.

— Você viu seus filhos depois daquela noite? — Daniel perguntou.

O Condutor apertou o papel. A dobra atravessou o céu cinzento acima da família.

— Havia portas.

— Eles estavam atrás de alguma?

— Havia… vozes.

— As vozes eram deles?

O homem tentou responder depressa, mas a respiração falhou. O ar entrou por entre os dentes e encontrou líquido em algum ponto da garganta. Ele tossiu sobre o próprio peito. Helena segurou seu ombro para impedir que as conexões rasgassem.

— Chega — disse ela.

Daniel recuou a mão da alavanca. A haste não caiu.

O Condutor levantou dois dedos. Helena se calou. O gesto custou mais que a fala; a mangueira presa ao antebraço afundou na pele, e uma gota de sangue contornou a braçadeira.

— Não eram — disse.

Daniel esperou.

O homem olhava para a menina na fotografia.

— Eu sabia que não eram. Mesmo sem… sem saber quem procurava. Abri porque podiam ser. Depois outra. Outra.

Uma porca flutuou até a janela e se duplicou. As cópias seguiram para lados opostos, projetando sombras diferentes.

— A primeira linha acabou — ele continuou. — Depois a segunda. Eu achava que faltava uma curva. Sempre uma curva.

Lívia fechou a capa do manual pela metade. As páginas resistiram, inchadas pelo calor branco.

— Não faltava.

O homem levantou o rosto.

Ela não olhou para ele. Observava as duas porcas no vidro, uma enferrujada, outra nova.

— Às vezes não tem depois — disse. — Eu vi.

Daniel reconheceu a postura do pé dela antes de olhar. A ponta virada para fora, o calcanhar sem tocar direito o piso. A mesma posição da criança na cozinha que não existira. A mesma da adolescente que quase se desfizera na plataforma.

Lívia encostou o manual no chão.

— Uma coisa pode acabar e ainda deixar alguém aqui. Não quer dizer que dá para voltar nela.

A última frase saiu mais baixa. Ela esfregou a gaze do indicador com o polegar, tentando retirar uma mancha que estava dentro do tecido.

O Condutor a observou.

— Você ficou.

Lívia assentiu uma vez.

— Por enquanto.

— Sem a sua linha.

Ela olhou para Daniel, rápido demais para que ele fingisse não ver.

— Sem ela.

O homem voltou-se para a fotografia. A família continuava diante da locomotiva original, presa no instante anterior à primeira viagem. A esposa olhava para a cabine. Os filhos aguardavam junto a ela. Nenhuma porta se abrira atrás deles. Nenhuma possibilidade surgira nas bordas do papel.

Ele colocou o botão sobre o peito da filha.

— Ficou comigo.

— O botão ficou — Lívia respondeu.

O olho exposto se fechou.

A distinção atravessou seu rosto devagar. Primeiro nos músculos ao redor da boca, que deixaram de formar sílabas. Depois na mão sobre a fotografia, já sem procurar movimento. Por fim no ombro ligado aos cabos, que desceu contra o encosto.

Helena manteve dois dedos próximos ao pescoço dele, sem encostar.

— Continue respirando.

— Para quê?

Ela abriu a mão queimada. A bolha no centro da palma estava translúcida, cercada por pele vermelha.

— Porque ainda está respirando.

O homem fitou a ferida. Helena fechou a mão outra vez.

— Você não pode tirar isso de mim — ele disse.

— Não.

— Nem colocar de volta.

Helena olhou para o prontuário dentro da mala. O couro permanecia úmido de frio, protegido sob a camisa manchada de graxa.

— Não.

A negativa não veio clínica. Não veio acompanhada de instrução. Ela apenas ficou ali.

O Condutor respirou três vezes. Na quarta, o fole tentou acompanhar e produziu um rangido. Ele pousou a fotografia no colo, alinhou a borda com a costura do casaco e colocou o botão no centro.

— Eu deixei a máquina usar a procura quando a procura já não tinha lugar para chegar.

As palavras saíram aos pedaços, com longos intervalos. Ele não as repetiu.

Daniel olhou para a alavanca imóvel.

— Como para?

O homem passou a mão pela raiz metálica solta.

— Eu paro.

— E o trem?

Nenhuma resposta.

— O que acontece com o trem?

O Condutor tocou a borda da metade de máscara ainda presa. O cabo junto à têmpora pulsou sob o dedo.

— Não faça isso — Helena disse.

Ele desviou a mão da máscara e procurou algo ao lado do assento. Os dedos entraram entre duas placas, tatearam uma abertura invisível e retiraram uma pequena chave de ferro. O corpo dela tinha três dentes de tamanhos diferentes e uma argola escurecida pelo uso.

Daniel estendeu a mão, mas o homem não lhe entregou.

Colocou a chave sobre o painel.

— Isto soltava freios — disse. — Antes.

— E agora?

— Agora solta a mim.

Daniel não tocou no objeto.

O relógio da cabine começou a funcionar.

No terceiro clique, os quatro olharam para o mostrador acima da janela central.

Os ponteiros estavam em 3h41.

O dos minutos avançou uma marca.

Depois outra.

O ponteiro das horas acompanhou aos saltos. 3h43. 3h46. 3h52.

Daniel pegou a chave.

Estava fria.

— Onde?

O Condutor indicou a base do assento. Entre as raízes frouxas havia uma fechadura estreita, parcialmente coberta por uma placa de cobre. Helena afastou a placa usando a gaze, revelando marcas antigas em torno do buraco.

— Você já tentou — ela disse.

O homem observou os riscos.

— Muitas vezes.

— E por que não funcionou?

Ele olhou a fotografia.

— Eu queria abrir e continuar sentado.

O relógio marcou 4h03.

Lívia se aproximou da fechadura, mas parou antes das raízes. Seu reflexo dividiu-se na placa polida: numa imagem ela segurava o manual; na outra, suas mãos estavam vazias. As duas versões moveram a boca ao mesmo tempo.

— Se ele sair, quem segura isso?

O Condutor não respondeu.

Daniel girou a chave entre os dedos. Três dentes. Um curto, um quebrado na ponta, um comprido demais para a fechadura.

— Quem segura o trem? — repetiu.

— Ninguém — disse o homem.

4h17.

Um vinco atravessou o teto, dobrando a chapa para dentro. Do outro lado apareceu outro teto, iluminado por lâmpadas verdes. Quando a chapa retornou, os rebites ocupavam posições diferentes.

Daniel olhou para a porta por onde haviam entrado.

Ela estava no mesmo lugar. A maçaneta, não. Tinha subido quase um metro e agora tremia perto do alto do batente.

— Temos quanto tempo? — Helena perguntou.

O Condutor acompanhou o relógio.

— Até a hora.

— Cinco e quarenta e sete.

O botão de madrepérola deslizou sobre a fotografia quando ele confirmou com a cabeça.

— Depois?

— Não conduzo o depois.

A frase ainda tinha a forma de uma resposta antiga, mas a voz não. O homem pareceu perceber. Passou a língua nos lábios partidos e tentou de novo.

— Não sei.

4h31.

Helena puxou a mala para junto de Lívia e fechou os dois fechos. O frio do prontuário atravessou o couro e deixou suas impressões digitais brancas na tampa.

— Daniel, a chave.

Ele se agachou diante do assento. A fechadura ficava atrás de dois tubos finos que entravam na perna do homem. Daniel tentou afastá-los; o da esquerda enrijeceu.

— Não cabe.

— Quebre o dente maior — disse o Condutor.

Daniel examinou a chave.

— Então não abre outra vez.

— Não preciso de outra vez.

Daniel encostou o dente mais longo na lateral do assento. Hesitou. O relógio saltou para 4h39.

— Você não sabe para onde vai.

— Sei onde não vou.

— Não é a mesma coisa.

— Foi o bastante para os outros saírem daqui?

César atravessando a plataforma com os óculos da testemunha guardados no bolso. Helena dobrando o próprio bilhete até apagar as palavras. Lívia arrancando da unha o fio de uma lembrança para fechar a possibilidade que matava Helena. Daniel viu cada gesto sem conseguir colocá-los na ordem da viagem.

O Condutor estendeu a mão.

Daniel entregou a chave.

O homem apoiou o dente maior contra a braçadeira do assento. Não tinha força para quebrá-lo. Tentou uma vez; o ferro escapou e cortou sua palma. Helena segurou o pulso dele antes da segunda tentativa.

— Não desse ângulo.

Ela girou a chave, posicionou a base sobre o vinco da placa e a devolveu à mão dele. Não fez o movimento por ele.

O Condutor pressionou.

O dente se partiu.

O fragmento atravessou o piso e apareceu por um instante em três cabines diferentes antes de desaparecer em todas.

4h48.

Daniel recebeu a chave encurtada e a encaixou na fechadura.

— Para que lado?

— O que volta — disse o homem.

Daniel esperou.

O Condutor olhou para as próprias mãos.

— Esquerda.

A chave resistiu no primeiro quarto de volta. Helena apoiou a mão boa no encosto para estabilizar os tubos. Lívia segurou o manual contra o peito, o queixo quase tocando a capa.

Daniel girou mais.

Trincos recuaram dentro das paredes. Cada som retirava algo da cabine: primeiro o eco, depois a pressão nos ouvidos, depois o cheiro de óleo. Quando o último abriu, o calor perdeu direção.

As raízes se soltaram.

Não arrancaram carne. Recuaram dos encaixes em silêncio, desfazendo-se em filamentos de cobre que voltavam para o piso. As braçadeiras nos tornozelos abriram. Os tubos da perna esvaziaram e tombaram. O cabo do antebraço caiu como uma corda sem uso.

O Condutor inclinou-se para a frente.

Helena o amparou sob o braço. O peso dele surpreendeu os dois; Daniel abandonou a chave e segurou o outro lado. O homem tentou firmar os pés, mas as pernas não lembravam a distância até o chão. Os joelhos dobraram. Lívia empurrou o assento para trás para lhes dar espaço.

A metade da máscara ainda o reteve.

Os dois cabos da têmpora esticaram, finos e brilhantes.

Helena procurou a junção.

— Esta parte não abriu.

O homem tocou o ferro com a mão ensanguentada.

— Último freio.

— Se romper, pode haver hemorragia.

— Já houve.

— Não agora.

O relógio mostrou 5h02.

O ponteiro dos segundos cortava o mostrador em saltos. A cada reaparição, as janelas exibiam uma paisagem nova: mata sob chuva; plataforma vazia; a cozinha antiga; Santa Augusta tomada por sol.

Daniel colocou o homem de volta no assento, sem encostá-lo ao encosto.

— Tem outra trava.

— Não.

— Você acabou de dizer que tem.

— Não é trava da máquina.

O Condutor ergueu a fotografia. A metade presa da máscara rangeu quando ele olhou para os filhos.

— Eu mantive isto fechado.

Enfiou a unha sob a borda do metal junto à bochecha. Helena tentou impedir, mas ele afastou a mão dela com pouca força e uma decisão que não precisou repetir.

— Espere — Daniel disse.

O homem parou.

Daniel não sabia o que pedir depois da palavra. Mais tempo seria a mesma pergunta que o mantivera na estação por quinze anos. Olhou para o botão sobre a fotografia e o empurrou de volta para o centro quando a inclinação o fez deslizar.

— Você devia levar isso.

— Para onde?

Daniel ficou sem resposta.

O homem observou seu relógio.

— Seu irmão tinha nome.

A mão de Daniel cobriu o mostrador.

— Tem.

— Guarde o que veio depois dele.

— Não entendi.

O Condutor respirou fundo. A metade da máscara levantou com a têmpora e tornou a baixar.

— Não entregue tudo que ficou só porque ele não ficou.

Daniel olhou para Lívia.

Ela desviou primeiro, apertando o manual com os braços. O abraço perdido na plataforma não estava no corpo dela. Ainda assim, a ponta do pé se moveu na direção dele e parou no meio.

5h12.

O Condutor segurou o botão entre o polegar e o indicador. Colocou-o no bolso costurado do casaco. A fotografia permaneceu em sua mão.

— Posso ficar com esta?

Lívia respondeu antes dos outros.

— É sua.

Ele assentiu. Dobrou a fotografia uma única vez, com os rostos para dentro, e a guardou junto ao botão.

Então puxou a metade da máscara.

Os cabos não romperam. Desfiaram-se.

Fios de cobre se soltaram um por um da têmpora, deixando pontos escuros na pele. Helena pressionou a gaze contra os pequenos furos. Não houve jorro; apenas sangue lento, vermelho, humano. O ferro caiu no colo dele e, sem o rosto para sustentá-lo, perdeu a forma. Achatou-se como uma folha muito fina.

O homem abriu os dois olhos.

O direito era mais claro que o esquerdo. Piscou contra a luz da fornalha, viu Helena segurando a gaze, Lívia com o manual, Daniel diante do relógio.

— Eu não lembro meu nome — disse.

Ninguém tentou inventar um.

5h18.

Ele empurrou o corpo para fora do assento. Daniel e Helena o sustentaram outra vez. Desta vez, os pés encontraram o piso. Um calcanhar primeiro. Depois o outro. As pernas tremiam sob o casaco pesado, mas não dobraram.

Às costas dele, o assento começou a desaparecer por camadas. O couro revelou molas; as molas revelaram madeira; a madeira revelou o contorno vazio de um banco que talvez nunca tivesse sido construído. As raízes recolhidas tornaram-se riscos no chão.

O sistema perdia sua versão escolhida.

Os painéis não se quebravam. Discordavam.

Uma válvula existia aberta e fechada ao mesmo tempo. O teto alternava entre três alturas. A porta de entrada se multiplicou em uma fileira de portas, cada qual mostrando um corredor diferente. O som da locomotiva chegou antes do movimento e continuou depois que as peças pararam.

5h22.

— Precisamos sair da cabine — Helena disse.

— Para qual porta? — Lívia perguntou.

Nenhuma delas tinha maçaneta no mesmo lugar.

O homem afastou-se de Daniel. Deu um passo sozinho. O segundo deixou uma pegada de fuligem que permaneceu no ar quando o piso baixou alguns centímetros.

— O manual — disse ele.

Lívia ergueu o caderno.

— O que tem nele?

O homem fitou as páginas queimadas, mas não se aproximou.

— Mais do que eu lembrava. Menos do que vocês precisam.

Daniel esperou que completasse. O homem apenas respirou.

5h25.

O vidro do relógio começou a embaciar por dentro. A umidade desenhou quatro marcas semelhantes às queimaduras vistas no primeiro vagão. Uma se apagou. As outras três desceram lentamente pelo mostrador.

Helena segurou a mala junto ao corpo.

— Há alguma forma de estabilizar?

O homem olhou para o assento quase desfeito.

— Havia.

— Sem você.

— Não.

Lívia abriu o manual. As páginas viraram depressa, movidas por um vento que não alcançava o cabelo de ninguém. Símbolos se acendiam e desapareciam antes de serem lidos.

— Então não some ainda.

O pedido saiu com raiva. Jovem. Ela tentou fechar as páginas, mas o caderno continuou folheando entre suas mãos.

O homem olhou para ela.

— Não sei como ficar sem sentar de novo.

Lívia mordeu a parte interna da bochecha. Daniel viu o esforço de não olhar para o espaço onde o assento estivera.

— Então fica em pé mais um pouco.

Ele tentou.

5h27.

A fuligem desprendeu-se do casaco em pequenos quadrados escuros, cada um conservando o desenho do tecido antes de cair para cima. Helena segurou seu cotovelo e encontrou o braço ainda sólido.

— Ainda está aqui.

— Por pouco.

O relógio saltou para 5h28.

Daniel se aproximou. O homem retirou a fotografia do bolso e confirmou, pelo toque, que o botão continuava junto dela. Depois fechou o bolso com uma pequena presilha de cobre.

— Se eu esquecer de novo… — começou.

Lívia balançou a cabeça.

— Você não vai voltar para esquecer.

Ele considerou a frase. O canto partido da boca se moveu sem alcançar sorriso.

— Não.

5h29.

O primeiro minuto durou menos que um segundo.

A cabine se alongou entre Daniel e o homem. Helena pareceu estar a dez metros e, no instante seguinte, junto ao ombro de Lívia. As portas se sobrepuseram. O fogo da caldeira apareceu nas janelas como uma paisagem distante. O piso perdeu o som sob os pés.

O homem ergueu a mão para Daniel.

Não para apertá-la. Mostrou a palma vazia, marcada pelo corte da chave.

— Abra quando chegar a hora.

Daniel olhou para a própria mão fechada sobre o relógio.

Quando tornou a erguer os olhos, o Condutor já não estava inteiro na mesma posição. O rosto permanecia diante deles; o casaco aparecia dois passos atrás; uma mão ainda repousava perto do assento inexistente. As partes não se desfaziam. Apenas deixavam de concordar sobre onde ele terminava.

Helena soltou seu braço antes que o deslocamento a puxasse.

Lívia disse alguma coisa, mas o nome que não existia não podia ser chamado.

O homem levou a mão ao bolso.

Sentiu a fotografia.

Depois o botão.

Fechou os olhos.

O relógio marcou 5h29 e cinquenta e nove segundos.

A cabine inteira ficou branca nas bordas.

No último segundo, o homem não procurou nenhuma porta.

Às 5h30, ele desapareceu.

Não deixou corpo, máscara ou raiz. Apenas a chave quebrada dentro da fechadura e uma marca clara no piso onde os dois pés tinham conseguido ficar juntos.

O ponteiro continuou avançando.

5h30 e 1 segundo.

5h30 e dois.

A locomotiva perdeu o centro.

As paredes deslizaram em direções diferentes, sem cair. O painel diante de Daniel afastou-se para dentro de uma cabine que não ocupava o mesmo espaço. A caldeira duplicou o próprio arfar; um som vinha do passado, outro de uma distância ainda não percorrida. As portas se abriram todas de uma vez e revelaram corredores sem chão.

Helena puxou Lívia para junto da mala. Daniel tentou alcançar a alavanca, mas havia quatro, cada uma numa posição diferente.

Nenhuma mão permanecia no comando.

O relógio não parava.

Continuava avançando para as 5h47.

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