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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1513 MIN

A fresta não se alargou quando Daniel empurrou.

Ela se aprofundou.

A parede continuou inteira, os nichos alinhados dos dois lados da linha vertical, mas a escuridão entre as duas bordas ganhou distância. Primeiro a espessura de uma folha. Depois um corredor inteiro visto de lado, comprido demais para caber dentro da madeira.

O caderno bateu outra vez na mala.

As duas linhas de metal entraram na abertura. Por um instante Daniel viu uma delas seguir para a esquerda e a outra para a direita. No instante seguinte, ambas iam para a frente.

— Abriu? — César perguntou.

— Não sei.

— Isso é uma porta ou uma rachadura?

Lívia aproximou um olho da fresta. Daniel alcançou a gola de seu casaco antes que ela encostasse o rosto.

— Não.

Ela se afastou sem reclamar. O susto do vagão anterior ainda aparecia onde a teimosia costumava chegar primeiro.

Helena passou a unha pela borda escura. A ponta surgiu do outro lado antes de desaparecer deste. Ela retirou a mão e examinou o dedo como se esperasse encontrar um corte.

— Há espaço.

— Excelente — murmurou César. — Espaço é exatamente o que uma porta precisava ter.

O sorriso não veio. Ele fechou os olhos, economizando o pouco que restava da tentativa.

Daniel pousou a mala no chão. Soltou o fecho quebrado, retirou o caderno e o manteve junto ao símbolo. Sob a capa, as páginas se agitaram na direção da fresta. A abertura respondeu: alargou-se na altura do manual, estreitou-se perto do teto e tornou a crescer até desenhar uma passagem irregular.

Do outro lado não havia luz.

Havia cores atrasadas.

Uma faixa amarela atravessou o escuro e só depois surgiu a lâmpada que deveria produzi-la. Um brilho vermelho apareceu no piso; alguns segundos mais tarde, uma porta invisível fechou-se em algum lugar e tingiu o metal. Cada efeito chegava antes da causa, separado dela por um intervalo que mudava sem aviso.

Daniel guardou o caderno na mala.

— Vamos juntos.

César apoiava-se agora mais em Helena do que admitiria. Ao ouvir a frase, deslocou o pé para a frente, tentando assumir o primeiro lugar.

O joelho falhou.

Helena não o impediu de cair imediatamente. Deixou que descesse alguns centímetros, até ele compreender, então firmou o braço em torno de sua cintura.

— Juntos não quer dizer na frente.

César assentiu sem olhá-la.

Daniel atravessou primeiro, levando a mala. A escuridão tocou sua testa, depois os joelhos e só por último o peito. Durante um segundo, viu a própria mão já do outro lado ainda presa ao corpo que permanecia para trás.

Puxou.

O mundo se encaixou com um atraso doloroso nos ombros.

Lívia veio logo depois. Surgiu duas vezes: uma figura mais alta passou por Daniel usando uma blusa que ele nunca vira; outra, a garota de quatorze anos, tropeçou na barra do casaco e bateu nele. A primeira continuou andando por três passos antes de se desfazer em luz amarela.

Daniel segurou a versão que restou.

— Você viu?

— Não.

Ela havia visto. A recusa veio depressa demais, acompanhada pelo modo como procurou no próprio corpo a blusa desconhecida.

Helena e César atravessaram unidos. Por meio segundo, Helena saiu sozinha, com sangue até os cotovelos. Depois o sangue desapareceu e César ocupou o espaço sob seu braço. A etiqueta com o nome dele permaneceu sólida contra o peito.

A passagem fechou-se atrás dos quatro sem formar parede.

Daniel virou. Viu o vagão anterior afastando-se através de uma abertura que ficava menor sem mudar de tamanho, como um objeto levado ao horizonte. A inscrição CÉSAR MORAES ainda estava no banco. A coisa invisível passou diante dela e as letras sumiram.

César também viu.

Segurou a etiqueta com tanta força que o papel abriu um corte na base do polegar.

O novo vagão não possuía bancos completos. Havia armações: curvas de metal sugerindo encostos, pés aparafusados ao chão, braços sem assentos entre eles. Tecidos apareciam somente quando alguém olhava de lado e desapareciam quando encarados. O teto era baixo num momento e alto no seguinte. Pelas janelas, não se via paisagem, apenas versões do interior passando em velocidades diferentes.

Numa delas, os quatro já estavam no fundo do vagão.

Noutra, apenas Daniel e Helena permaneciam.

Ele desviou antes de contar quem faltava.

O piso era formado por placas estreitas de vidro fosco. Sob cada uma, sombras caminhavam em direções contrárias. Algumas acompanhavam os pés do grupo; outras se antecipavam, paravam, voltavam para encontrar o corpo que as produziria.

Lívia levantou o tênis.

A sombra do pé continuou no chão.

— Daniel.

Ele olhou. A sombra deu mais dois passos sozinha, depois esperou. Quando Lívia tornou a pisar, o corpo alcançou a posição dela.

— Não olha para baixo — disse.

— Isso não faz parar.

— Só não olha.

Ela obedeceu por três segundos.

Helena conduziu César até uma armação de banco. O assento não estava ali, mas uma depressão surgiu no ar antes que ele se sentasse. Quando seu corpo desceu, o tecido apareceu para recebê-lo.

— Fica.

— Se isso mostrar uma saída, alguém precisa…

— Fica.

César abriu as mãos, um gesto antigo de negociação. A direita tremia. A esquerda tinha sangue no corte do papel.

— Certo. Nós precisamos entender a ordem. As imagens chegam antes, depois aparece o que causou. Se marcarmos o intervalo entre…

Um relógio surgiu atrás dele.

Não tinha ponteiros. O mostrador continha quatro números 12, cada um impresso numa posição diferente. César olhou para o objeto, perdeu a frase e tentou recuperá-la pelo começo.

— Se marcarmos…

O relógio desapareceu.

— Não dá para medir — Lívia falou.

Ele a fitou como se fosse contrariar. Passou o polegar sobre o corte da etiqueta e desistiu.

— Então a gente observa padrões.

Daniel pousou a mala junto a uma haste de metal. A alça atravessou o apoio na primeira tentativa. Na segunda, encontrou matéria e permaneceu. O caderno lá dentro produzia um ruído de folhas virando, mas o som vinha antes de cada movimento da capa.

— Não abram isso aqui — disse Lívia.

Helena olhou para ela.

— Por quê?

— Porque não.

— Você viu alguma coisa?

Lívia mordeu uma pele solta do lábio. Seu reflexo na janela respondeu antes: virou o rosto, irritado, e disse palavras que o vidro não deixou passar.

— Eu disse para não abrir.

Daniel deixou a mala fechada.

No fundo do vagão, uma porta apareceu. Branca, com uma faixa horizontal verde. Cheiro de álcool chegou depois. Em seguida vieram o som de rodas pequenas e a luz fluorescente, tão forte que as estruturas incompletas dos bancos projetaram sombras duras.

Helena parou de respirar.

Não virou imediatamente. Seus dedos ajustaram o nó do casaco na cintura, apertaram-no até a manga esquerda ficar mais curta que a direita e recomeçaram, desfazendo o que tinham acabado de organizar.

— Helena — Daniel chamou.

Ela terminou o nó.

— Eu vi.

A porta branca abriu-se.

Do outro lado havia um corredor de hospital, mas não se comportava como o do Vagão 2. Lá, o espaço reconstruíra uma noite. Aqui, várias manhãs ocupavam o mesmo corredor.

Um funcionário encerava o piso enquanto uma mulher passava através dele carregando flores. A florista tinha cabelos grisalhos; quando alcançou a metade do caminho, tornou-se mais jovem e o buquê murchou. Um carrinho de medicação atravessou uma parede antes que a porta por onde deveria entrar aparecesse.

No fim, duas macas ocupavam o mesmo lugar.

Helena aproximou-se.

Daniel tentou acompanhá-la, mas o piso sob seu pé mostrou uma sombra caindo. Ele recuou antes que o corpo obedecesse. Helena continuou sozinha.

A primeira maca trazia uma criança sentada.

Marina Lopes usava uma camiseta amarela, sem o avental hospitalar. Os pés não alcançavam o chão. Uma cicatriz fina atravessava seu lado esquerdo, visível quando ela erguia o braço para prender o cabelo. Tinha alguns anos a mais do que a menina que desaparecera curada no outro vagão — dez, talvez onze — mas os movimentos chegavam em idades diferentes. A mão era infantil quando segurava o elástico; o rosto amadurecia ao sorrir para alguém fora do corredor.

Helena tocou a própria palma, onde a farpa do Vagão 1 deixara o corte. Não a cicatriz. Não o casaco. A pequena linha em sua mão.

Marina desceu da maca.

No chão, uma sombra adulta esperava por ela.

A segunda maca recebeu um lençol branco.

Não houve corpo antes dele. O volume surgiu depois, começando pelos sapatos sob o tecido, subindo pelas pernas, pelo abdome, até formar um homem imóvel. Um monitor apareceu ao lado. A linha era reta desde antes de a máquina ligar.

Helena chegou à porta.

— Não entra — Daniel disse.

Ela levantou a mão sem olhar para trás. Não um pedido de espera. Um reflexo contra uma interrupção.

Uma mulher de terninho escuro surgiu ao lado da segunda maca. Mais velha, cabelos presos, segurava um telefone com a tela quebrada. Falava para câmeras que ainda não estavam no corredor. As câmeras apareceram depois, acompanhadas por repórteres, flashes e um nome repetido em legendas que se formavam no vidro das janelas.

Deputado Álvaro Nunes.

Morreu após demora no atendimento.

As palavras embaralharam-se e retornaram em outra ordem.

Morreu enquanto outra emergência recebia prioridade.

Helena leu. A mão junto ao corpo fechou-se em torno da própria unha. O polegar entrou na carne até a pele ficar branca.

Marina passou por ela.

A criança não a viu. Carregava uma mochila azul e discutia com um homem que Daniel não reconheceu sobre o sabor de um sorvete. A discussão avançava e recuava: primeiro Marina ria; depois pedia o sorvete; depois era menor, ainda aprendendo a pronunciar a palavra. Cada versão deixava um som diferente no corredor.

O lençol sobre Álvaro Nunes foi puxado.

O homem estava acordado.

Abriu os olhos e olhou diretamente para Helena.

— Doutora.

Ela recuou. O calcanhar encontrou a soleira, mas seu reflexo na faixa metálica da porta continuou dentro do corredor.

— Não responda — Daniel disse.

O político ergueu uma mão. A aliança no dedo apareceu antes do gesto. Depois vieram hematomas de punções, uma pulseira de identificação e o braço que os carregava.

— A senhora foi chamada primeiro.

Helena não falou.

Marina, já adolescente, passou atrás da maca usando uniforme escolar. No reflexo de uma janela, continuava com oito anos e sangrava pela boca.

O político acompanhou-a com os olhos.

— Ela viveu.

O monitor desligado apitou uma vez.

Helena retirou o próprio bilhete de dentro da roupa. Não o abriu. Segurou-o pelas pontas, distante da pele.

— Guarda isso — Daniel falou.

— Ele está reagindo.

O texto no papel mudava. Daniel não conseguia ler à distância, mas viu linhas inteiras sumirem e reaparecerem.

— Helena.

Ela entrou no corredor.

Não atravessou uma barreira. A luz apenas mudou de idade sobre seu rosto. Por uma fração de segundo, seus cabelos ficaram grisalhos nas têmporas. Depois voltaram.

A porta fechou entre ela e o grupo.

Daniel bateu no vidro. Não houve impacto. Sua mão já aparecia do outro lado, espalmada, enquanto o braço permanecia deste.

— Helena!

Ela virou, mas olhou para uma versão dele que ainda não tinha batido.

Lívia aproximou-se da porta e parou a meio metro. Os olhos seguiam alguma coisa que Daniel não via: talvez as posições futuras de Helena, talvez as saídas que ainda não existiam.

— Ela tem que ver.

— Ver não é a mesma coisa que entrar.

— Aqui talvez seja.

Daniel tentou a maçaneta. A porta não a possuía até sua mão fechá-la; então o metal surgiu dentro de seus dedos, já girado. Ele puxou. O corredor afastou-se sem que a porta abrisse.

Atrás deles, César levantou do banco.

— Tem outra passagem.

Sua voz recuperara parte da velocidade antiga. Apontou para a janela oposta, onde o hospital aparecia visto de cima. Havia duas linhas verdes no piso, separando-se diante de uma sala de emergência.

— Se a gente contornar, talvez chegue pelo lado…

O corpo cobrou o esforço. César dobrou-se sobre o ferimento e precisou segurar uma armação sem tecido. O assento surgiu tarde, atingindo-lhe a coxa.

Lívia foi até ele. Não para sustentá-lo; empurrou a estrutura até ficar atrás de seus joelhos.

— Senta.

— Eu estou tentando ajudar.

— Então não cai.

Ele sentou. A respiração vinha curta. Mesmo assim, os olhos continuaram percorrendo as janelas, procurando um caminho que pudesse nomear antes dos outros.

Numa delas, um homem corria por um beco com uma sacola nas mãos.

César viu.

O beco apareceu também na janela seguinte, anos depois. O homem não corria. Usava uniforme cinza e estava sentado diante de um vidro grosso. Do outro lado, uma mulher colocava sobre a mesa uma fotografia de dois rapazes.

Na terceira janela, o vidro não existia. César estava sozinho num apartamento limpo, fechando cortinas novas. Uma televisão sem som mostrava o retrato de uma testemunha. Ele tocava a tela com dois dedos.

O César sentado no vagão retirou a mão do próprio joelho.

— Não olha — disse.

Ninguém sabia a quem.

Na janela do beco, o homem que corria tropeçou. A sacola abriu. Dinheiro espalhou-se pelo chão antes de os tiros acontecerem. Uma figura mais jovem apareceu na esquina — o irmão de César, embora Daniel só o reconhecesse pela cadeira vazia que pareceu formar-se no reflexo entre os dois.

César virou o rosto.

O vidro repetiu a cena do outro lado.

Ele levantou a etiqueta ensanguentada e cobriu os próprios olhos com ela. O nome ficou voltado para fora.

— César — Lívia chamou.

— Eu sei quem sou.

A frase saiu rápida, defensiva. Depois diminuiu.

— Eu sei.

Não retirou o papel do rosto.

No hospital, Helena alcançara as duas macas.

Marina tinha oito anos outra vez. Estava deitada, o ferimento aberto sob as costelas. Álvaro Nunes ocupava a maca sobreposta à dela, respirando por uma máscara. Os dois corpos atravessavam um ao outro sem se misturar: o braço da menina dentro do peito do homem, a perna dele cortando a borda do cobertor infantil.

Uma campainha de telefone tocou.

Helena estremeceu antes do primeiro toque. Procurou o aparelho no bolso, embora não tivesse telefone. O som veio pela segunda vez, e o administrador surgiu no corredor segurando um celular para ela.

Seu rosto mudava a cada piscada: jovem, velho, desconhecido, familiar.

— A equipe está esperando sua decisão.

Helena não pegou o aparelho.

— Não havia equipe suficiente — disse, mas a frase mal saiu.

O administrador estendeu o telefone.

Marina começou a sentar antes de Helena se mover. Álvaro Nunes começou a morrer antes que qualquer decisão fosse tomada. O monitor perdeu batimentos; a menina ganhou cor. Um futuro alcançava os dois por lados opostos.

Helena olhou para a criança viva no fim do corredor. Depois para a mulher de terninho diante das câmeras, recebendo o corpo do político.

Suas mãos procuraram trabalho.

Alisou o lençol de Marina. Endireitou o tubo da máscara de Álvaro. Conferiu uma pinça que não existia. Quando não encontrou mais nada para corrigir, apertou o próprio bilhete até uma borda entrar no corte da palma.

O sangue tocou o papel.

As duas macas separaram-se.

Uma seguiu para a esquerda.

A outra, para a direita.

Helena ficou no meio, ainda com uma mão estendida para cada lado.

O corredor inteiro esperou qual delas ela soltaria primeiro.

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