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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 1115 MIN

— Agora.

Helena empurrou a barra.

O ferro raspou o cascalho e girou entre os dormentes. Gabriel já estava perto demais para parar. O pé direito bateu no metal; a câmera escapou de sua mão, presa pela alça, e o corpo avançou sobre a linha enquanto o apito crescia na curva.

Daniel correu.

Não podia tocá-lo. Sabia disso. Mesmo assim, estendeu os braços quando o irmão caiu, e Gabriel atravessou suas mãos com o mesmo frio vazio de antes. O joelho do rapaz acertou o trilho. A câmera bateu numa pedra. O jovem Daniel saltou da plataforma atrás dele.

A luz amarela ocupou as árvores.

— O dormente! — gritou Helena.

César ainda estava sentado na borda, uma mão presa ao abdome. Com a outra, empurrou a madeira que haviam derrubado. O dormente desceu mais um palmo e tombou sobre a alavanca de mudança.

O metal cedeu.

Embaixo dos pés de Daniel, alguma coisa pesada se deslocou com um golpe surdo. As duas linhas da agulha ferroviária se separaram. Não o bastante. Talvez o bastante.

Gabriel tentou levantar e escorregou. O rapaz de vinte e três anos agarrou a mochila do irmão, mas o tecido molhado se esticou sem tirá-lo do lugar.

Daniel viu a mesma distância de sempre.

Quatro metros.

Talvez três.

Viu também a barra de ferro junto às pernas de Gabriel. Chutou uma extremidade para fora da linha. O objeto girou. Não tocou no irmão, mas bateu na câmera, e a câmera puxou o pulso dele para a esquerda.

Gabriel acompanhou o movimento para não quebrar a mão.

O jovem Daniel puxou a mochila outra vez.

O apito rasgou a plataforma.

A garota gritou alguma coisa lá de cima. O som se perdeu sob as rodas, mas ela apontava para a chapa enferrujada que Daniel retirara do mato. Helena compreendeu primeiro. Enfiou a ponta do sapato sob o metal e o virou sobre o trilho.

A luz alcançou os quatro passageiros sem projetar sombra.

Daniel não olhou para a curva.

Gabriel se levantava de joelhos. A mão do jovem Daniel permanecia fechada na mochila. A chapa começou a vibrar, presa sobre o aço polido, e produziu um tinido agudo, rápido demais.

Gabriel virou o rosto para o som.

O jovem Daniel puxou.

Dessa vez, o corpo do irmão saiu da linha.

Os dois caíram juntos no espaço estreito entre os trilhos e a plataforma. Gabriel bateu as costas no concreto. O outro Daniel cobriu-lhe a cabeça com os braços.

A locomotiva chegou.

Não era o trem que os trouxera. Era uma máquina de carga baixa e comprida, farol único coberto de chuva, vagões escuros sacudindo atrás dela. A roda dianteira atingiu a chapa. O metal foi esmagado num clarão de faíscas.

Daniel perdeu Gabriel de vista.

Ferro. Água. Pedra lançada contra sua calça. O deslocamento de ar o empurrou para a plataforma, embora os vagões atravessassem seu corpo sem tocá-lo. Cada eixo ocupou o lugar onde o irmão estivera. Um. Outro. Outro.

Ele tentou contar.

No quarto vagão, esqueceu o número.

No sexto, deixou de respirar.

Quando a última luz vermelha passou, restou o som da chuva e um pedaço de jornal preso à roda que desaparecia na curva.

Daniel ficou diante da linha vazia.

Não havia corpo.

Virou-se depressa demais. O joelho falhou ao encontrar o desnível, mas ele se apoiou no chão e procurou junto ao muro da plataforma.

Gabriel estava lá.

Deitado de lado, tossindo, uma das mãos sobre a orelha. O jovem Daniel ainda o cobria. Havia sangue no cotovelo da jaqueta jeans, pouco, diluído pela água. A câmera se perdera. O relógio continuava dentro do bolso.

Gabriel abriu os olhos.

— Sai de cima, porra.

A voz atravessou Daniel inteira.

O rapaz de vinte e três anos não saiu. Agarrou a frente da jaqueta do irmão e o sacudiu uma vez, depois o puxou contra o peito. Gabriel tentou afastá-lo, confuso, ainda sem ar para brigar.

— Eu estou bem — disse. — Daniel, eu estou bem.

Daniel ouviu o próprio nome na voz que perdera.

Não era “vento”. Não era um pedaço de áudio. O som tinha impaciência, rouquidão e um tremor mal disfarçado no fim. Ele conhecia aquilo. Conhecia o modo como Gabriel engolia o primeiro i. Conhecia a respiração curta antes de repetir uma mentira.

O jovem Daniel encostou a testa no ombro do irmão.

Daniel estendeu a mão e parou antes de atravessar os dois.

Sua boca se abriu. Nenhuma palavra saiu.

Helena subiu ao lado dele, apoiando a palma cortada no concreto. A chuva escorria dos cabelos sobre o rosto, e por um momento ela olhou apenas para os irmãos no chão. César não desceu. Permanecia na borda, curvado em torno da faixa manchada, os olhos fixos em Gabriel.

A garota ria.

Foi um som pequeno, quase engasgado. Ela tapou a boca com as duas mãos, como se a alegria tivesse escapado sem autorização. Quando Gabriel voltou a dizer que estava bem, o riso se quebrou e virou outra coisa.

Daniel ergueu os olhos.

Ela observava os próprios tênis.

A água caía sobre a plataforma em milhares de pontos escuros. Em torno dos pés da garota, os pingos tocavam o piso e saltavam secos, transformados em grãos brancos que rolavam até as juntas dos azulejos. Seus cadarços ainda estavam molhados; as poças ao redor deles, não.

— O que foi? — Daniel perguntou.

Ela esfregou a sola contra o chão. O tênis produziu ruído, mas não deixou marca.

— Nada.

A palavra saiu sem a última consoante, como se alguém tivesse fechado uma porta antes do fim.

Helena olhou dos pés para o rosto dela.

— Vem para baixo da cobertura.

— Eu estou…

A garota tentou sair da chuva. No primeiro passo, o pé esquerdo chegou ao chão antes da perna. Não se desprendeu do corpo; repetiu-se, com dois calcanhares sobrepostos por um instante, um apontado para a plataforma e outro ainda junto ao pilar. Quando ela avançou, a imagem anterior não a acompanhou. Ficou no lugar e se desfez em pequenos quadrados de cor — preto da calça, branco da meia, pele do tornozelo — que a chuva espalhou sem molhar.

Ela parou.

— Não.

Dessa vez, a palavra veio inteira.

Daniel subiu.

A garota recuou. Seu ombro esbarrou no pilar, mas o tecido da blusa não amassou contra a pedra. A estampa se soltou primeiro: as linhas vermelhas perderam o desenho e escorreram para cima, fio por fio, como costura puxada por mãos invisíveis. Sob elas, o pano não ficou transparente. Ficou sem trama. Fileiras alternadas de tecido deixaram de existir, revelando tiras estreitas da parede atrás dela entre outras tiras ainda sólidas.

— Para — ela disse à própria roupa. Beliscou a barra, desesperada. — Para. Para com isso.

Daniel alcançou seu braço.

Os dedos fecharam sobre a manga, mas encontraram intervalos: tecido, frio, nada; tecido outra vez. A garota sentiu o toque. Agarrrou a mão dele com tanta força que as unhas deixaram quatro meias-luas na pele.

— Não solta.

— Não vou.

— Você não sabe.

— Não vou.

Helena veio pelo outro lado. Parou antes de tocá-la, os olhos percorrendo os pontos que falhavam: a estampa, o tornozelo repetido, os fios de cabelo que já não projetavam água sobre a testa.

— Seu bilhete — disse. — Onde está?

A garota levou a mão livre à cintura. O bolso parecia costurado, sem abertura. Ela puxou o tecido; dois dedos atravessaram a parte da calça que faltava e apareceram entre quadrados de cor atrasada.

— Estava aqui.

— Continua. Eu ouvi antes.

— Não consigo…

Daniel soltou apenas a manga e procurou junto ao cós, evitando a pele. Encontrou a borda do papel presa sob o elástico. Quando a puxou, o nome estava coberto pelo polegar dela antes que ele pudesse ler.

O bilhete não brilhava.

Ao contrário: absorvia a luz em torno, deixando uma faixa escura sobre os dedos da garota.

Ela o apertou contra o peito.

Os quadrados que se soltavam diminuíram, mas não pararam.

— O que está acontecendo? — César perguntou.

Ninguém respondeu. Ele se levantara e vinha na direção deles, usando o dormente como apoio. Helena deslocou o corpo para bloquear sua aproximação.

— Fique aí.

— Eu não vou tocar nela.

— Ótimo.

César parou. O humor não apareceu. Ele olhou para a garota, depois para Gabriel e o jovem Daniel junto à linha.

Os irmãos já estavam de pé. Gabriel mancava, mas caminhava. O outro Daniel mantinha a mão na parte de trás de sua jaqueta, como se o tecido fosse a única coisa capaz de impedir a noite de mudar de ideia.

A cada passo que davam em direção à saída, uma parte da garota se desorganizava.

O som veio primeiro nos brincos. O metal balançava, mas o pequeno tilintar chegava antes do movimento. Depois a sombra sob seu queixo se dividiu em linhas finas e começou a ser puxada para as frestas do piso. Não era a sombra inteira. Eram fios negros, um após outro, esticando-se até romper.

Ela viu.

Tentou pisar num deles.

O fio atravessou a sola e sumiu na junta do azulejo.

— Faz ele parar — pediu.

Daniel olhou para Gabriel.

O irmão alcançava a porta lateral. Vivo. Uma mão no cotovelo ferido, a outra presa à câmera que já não possuía. Procurou o objeto, percebeu a ausência e quase voltou.

O jovem Daniel o impediu.

— Depois a gente procura.

— Era a câmera do pai.

— Depois.

Daniel deu um passo na direção deles.

A garota cravou as unhas em sua mão.

— Não.

Ele parou.

— Você pediu para eu fazer ele parar.

— Eu não sei o que pedi.

A voz rachou. A garota mordeu o lábio e virou o rosto, com raiva das lágrimas que se acumulavam sem cair. Uma delas desceu pelo lado esquerdo. No meio da bochecha, separou-se em três gotas menores; uma seguiu até o queixo, outra voltou para o olho, a terceira ficou suspensa junto ao lugar onde parte da pele já aparecia em pequenos deslocamentos, como pedaços de uma fotografia colados fora de alinhamento.

— Eu não quero morrer — disse.

Daniel aproximou-se até que a testa quase tocasse a dela.

— Você não vai.

— Não promete isso.

— Olha para mim.

Ela não olhou.

— Você sabia que isso podia acontecer?

O bilhete estalou contra o peito.

— Eu vi coisas.

— Que coisas?

— Não agora.

— Foi por isso que veio?

— Eu disse que não agora!

A última palavra saiu alta e jovem, sem mistério, sem qualquer controle. Gabriel parou junto à porta como se tivesse ouvido. Olhou para a plataforma vazia, para o ponto em que os passageiros estavam, e franziu a testa.

Daniel congelou.

O irmão deu um passo na direção da voz.

A manga da garota perdeu três fileiras de tecido de uma vez. Ela soltou um gemido e se encolheu junto a Daniel.

O jovem Daniel chamou Gabriel. O rapaz hesitou, ainda olhando para o lugar onde ela chorava.

Então saiu pelo saguão.

O relógio da estação chegou a 23h58.

Os ponteiros não avançaram.

A chuva continuou caindo, mas a noite além da plataforma mudou. As árvores perderam folhas. A cobertura encolheu sobre as colunas. O cartaz de 2011 embranqueceu e recebeu novas letras, impressas uma por cima da outra, até anunciar um horário de partida em 1947.

Daniel apertou a mão da garota.

— Fala comigo.

Ela respirou pela boca. O ar entrava aos saltos, cada inspiração começando num ponto ligeiramente diferente do rosto.

— Algumas pessoas só existem porque outras morreram.

Não foi uma sentença calma. Ela tropeçou em “existem”, repetiu a primeira sílaba e precisou fechar os olhos para terminar. Quando conseguiu, pressionou o bilhete contra a boca, como se pudesse empurrar as palavras de volta.

Daniel ouviu o trem sob a estação.

O som cresceu até sacudir os azulejos. Onde Gabriel e seu eu mais novo haviam desaparecido, surgiu uma família carregando malas antigas: um homem, uma mulher e duas crianças. Nenhum deles olhava para os passageiros. Atrás, a locomotiva negra esperava junto à plataforma, limpa, sem as marcas de décadas que Daniel vira ao embarcar.

O homem da fotografia de 1947 atravessou a cena segurando um caderno contra o peito.

Ele ainda tinha rosto.

Parou junto ao terceiro pilar e desenhou duas linhas no chão com um pedaço de carvão. As linhas entravam num círculo. Apenas uma saía. Ao redor da família, quatro manchas escuras não acompanhavam os corpos; permaneciam imóveis sob a chuva, orientadas para a locomotiva.

O homem abriu o caderno.

Uma página bateu ao vento. Daniel viu palavras incompletas, números e o desenho de uma porta. Depois o cenário se rompeu no meio, como filme queimado. A mulher chamou por alguém. Uma criança derrubou a mala. O farol da locomotiva acendeu às 5h47 apesar do relógio acima deles ainda marcar 23h58.

A plataforma inclinou-se.

Helena segurou a garota pela cintura antes que ela caísse. As mãos encontraram partes sólidas e falhas alternadas; mesmo assim, sustentaram o peso. Daniel passou o braço por baixo dos joelhos dela. Um dos tênis ficou no piso por meio segundo depois que a perna subiu, duplicou-se e tornou a encaixar no corpo.

— Não olha — ele disse.

— É meu pé.

— Eu sei.

— Está ficando para trás.

— Eu sei. Segura em mim.

Ela enterrou o rosto no ombro dele. O bilhete ficou preso entre os dois.

O gesto foi tão imediato que Daniel não pensou antes de apertá-la contra o peito. Sentiu os ombros estreitos estremecerem, a respiração quente junto ao pescoço, a mão fechando na parte de trás de sua jaqueta.

Por um instante, o desaparecimento desacelerou.

Não parou.

César viu.

Daniel percebeu porque o homem não olhava mais para a garota. Olhava para o braço de Daniel ao redor dela, para Helena sustentando seu peso, para o caminho por onde Gabriel saíra. Depois desceu os olhos até o casaco amarrado à cintura de Helena.

— A saída — César disse.

Uma porta aparecera na lateral da locomotiva de 1947, além das figuras imóveis. Não era a mesma pela qual tinham entrado. Havia duas: uma perto da família, iluminada; outra no fim da plataforma, aberta sobre um corredor sem luz.

— Qual delas? — Helena perguntou.

A garota tentou erguer o rosto. Daniel a impediu de girar demais.

— Não sei.

— Olhe só o necessário.

— Eu não sei!

César caminhou até a porta iluminada.

Helena bloqueou o caminho com o antebraço, sem tocá-lo.

— Ninguém atravessa sozinho.

— Ela está se desfazendo no seu colo e você ainda quer reunião?

— Afaste-se.

— Escolha uma porta, então.

O homem de 1947 riscou uma frase no caderno. A locomotiva começou a soltar vapor. As quatro manchas escuras deslizaram pelo piso na direção das duas portas, dividindo-se: duas para cada lado.

A garota ergueu a mão e apontou para a passagem no fim da plataforma.

— Aquela.

— Tem certeza? — Daniel perguntou.

Ela balançou a cabeça. Não significava sim.

Helena soltou César e abriu caminho para Daniel passar com a garota. A manga de seu casaco, amarrada à cintura, prendeu-se na fivela do cinto dele. César segurou o tecido para liberá-lo.

— Não toca em mim.

— No casaco — ele disse. — Eu lembro.

O nó afrouxou.

Helena puxou a manga e seguiu Daniel. César ficou atrás, comprimindo outra vez o ferimento.

A plataforma de 1947 começou a desaparecer em faixas verticais. Cada faixa revelava por um instante outra estação: vazia, incendiada, coberta de neve, tomada por pessoas vestidas de épocas diferentes. Em uma delas, Gabriel continuava morto junto à linha. Em outra, o jovem Daniel não aparecia. Na terceira, havia apenas a câmera quebrada.

Daniel não parou.

A passagem escura estava a dez metros.

O bilhete em seu bolso bateu contra a coxa a cada passo.

Na metade do caminho, parou de bater.

Daniel não percebeu.

A garota começou a recuperar peso em seus braços. Primeiro o tênis deixou de se repetir. Depois a estampa da blusa reapareceu em linhas tortas, costurada fora do desenho original. Os fios de sombra não voltaram, mas cessaram de romper.

— Está parando — Helena disse.

— Não fala antes — a garota respondeu, abafada contra Daniel. — Dá azar.

Quatorze anos. A frase devolveu a idade ao rosto que ele não podia ver.

A porta iluminada fechou atrás deles com um golpe.

César não estava mais na plataforma.

Helena se virou.

— César?

O nome atravessou as estações sobrepostas e retornou com vozes diferentes. Nenhuma era a dele.

Daniel colocou a garota no chão junto à parede do corredor. Ela se manteve em pé, agarrada à jaqueta dele. A mão tinha cinco dedos outra vez, mas a unha do indicador permanecia deslocada alguns milímetros para o lado, presa a uma versão anterior.

— Fica com Helena.

— Não volta.

— Ele está ferido.

— Daniel.

Ele já corria.

Chegou à plataforma quando a última faixa de 1947 se fechava. O homem do caderno estava junto à porta iluminada, agora visto apenas da cintura para cima. Atrás dele, uma silhueta mancou para dentro da locomotiva.

— César!

O homem ferido olhou por cima do ombro.

Não havia humor em seu rosto. Nem pedido.

Segurava três bilhetes abertos em leque.

Um tinha o nome de Daniel. O segundo trazia HELENA DUARTE. No terceiro, César cobria a escrita com os dedos.

Daniel procurou o bolso.

Vazio.

Atrás dele, Helena desfez o nó do casaco. O bolso interno estava virado para fora. A costura exibia um corte fino, feito por uma lâmina que ninguém o vira guardar.

— Devolve — Daniel disse.

César ergueu os bilhetes, longe da chuva.

— Vocês já fizeram a escolha de vocês.

— Isso não foi uma escolha sua.

— Exatamente.

A locomotiva puxou a porta.

Daniel correu. O chão entre eles abriu uma fissura preenchida por trilhos que desciam no escuro. Saltar exigiria dois passos que não existiam.

César apoiou-se no batente, quase dobrado pela dor.

— Se conseguem apagar alguém para salvar um morto, conseguem apagar qualquer um que atrapalhe.

— Ela não foi apagada.

— Ainda.

O terceiro bilhete escorregou um pouco entre seus dedos. César tornou a escondê-lo antes que Daniel pudesse distinguir o nome.

A porta se fechou.

Daniel alcançou a beira da fissura no instante em que a locomotiva de 1947 começou a se mover por um trilho que não levava à curva. César continuou olhando pela janela até a escuridão separar seu rosto do vidro.

O último pedaço da estação desapareceu.

Restaram Daniel, Helena e a garota no corredor estreito — e dois bolsos vazios.

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