CAPÍTULO 11 — O LUGAR DE ALGUÉM
por Sonhado acordado— Agora.
Helena empurrou a barra.
O ferro raspou o cascalho e girou entre os dormentes. Gabriel já estava perto demais para parar. O pé direito bateu no metal; a câmera escapou de sua mão, presa pela alça, e o corpo avançou sobre a linha enquanto o apito crescia na curva.
Daniel correu.
Não podia tocá-lo. Sabia disso. Mesmo assim, estendeu os braços quando o irmão caiu, e Gabriel atravessou suas mãos com o mesmo frio vazio de antes. O joelho do rapaz acertou o trilho. A câmera bateu numa pedra. O jovem Daniel saltou da plataforma atrás dele.
A luz amarela ocupou as árvores.
— O dormente! — gritou Helena.
César ainda estava sentado na borda, uma mão presa ao abdome. Com a outra, empurrou a madeira que haviam derrubado. O dormente desceu mais um palmo e tombou sobre a alavanca de mudança.
O metal cedeu.
Embaixo dos pés de Daniel, alguma coisa pesada se deslocou com um golpe surdo. As duas linhas da agulha ferroviária se separaram. Não o bastante. Talvez o bastante.
Gabriel tentou levantar e escorregou. O rapaz de vinte e três anos agarrou a mochila do irmão, mas o tecido molhado se esticou sem tirá-lo do lugar.
Daniel viu a mesma distância de sempre.
Quatro metros.
Talvez três.
Viu também a barra de ferro junto às pernas de Gabriel. Chutou uma extremidade para fora da linha. O objeto girou. Não tocou no irmão, mas bateu na câmera, e a câmera puxou o pulso dele para a esquerda.
Gabriel acompanhou o movimento para não quebrar a mão.
O jovem Daniel puxou a mochila outra vez.
O apito rasgou a plataforma.
A garota gritou alguma coisa lá de cima. O som se perdeu sob as rodas, mas ela apontava para a chapa enferrujada que Daniel retirara do mato. Helena compreendeu primeiro. Enfiou a ponta do sapato sob o metal e o virou sobre o trilho.
A luz alcançou os quatro passageiros sem projetar sombra.
Daniel não olhou para a curva.
Gabriel se levantava de joelhos. A mão do jovem Daniel permanecia fechada na mochila. A chapa começou a vibrar, presa sobre o aço polido, e produziu um tinido agudo, rápido demais.
Gabriel virou o rosto para o som.
O jovem Daniel puxou.
Dessa vez, o corpo do irmão saiu da linha.
Os dois caíram juntos no espaço estreito entre os trilhos e a plataforma. Gabriel bateu as costas no concreto. O outro Daniel cobriu-lhe a cabeça com os braços.
A locomotiva chegou.
Não era o trem que os trouxera. Era uma máquina de carga baixa e comprida, farol único coberto de chuva, vagões escuros sacudindo atrás dela. A roda dianteira atingiu a chapa. O metal foi esmagado num clarão de faíscas.
Daniel perdeu Gabriel de vista.
Ferro. Água. Pedra lançada contra sua calça. O deslocamento de ar o empurrou para a plataforma, embora os vagões atravessassem seu corpo sem tocá-lo. Cada eixo ocupou o lugar onde o irmão estivera. Um. Outro. Outro.
Ele tentou contar.
No quarto vagão, esqueceu o número.
No sexto, deixou de respirar.
Quando a última luz vermelha passou, restou o som da chuva e um pedaço de jornal preso à roda que desaparecia na curva.
Daniel ficou diante da linha vazia.
Não havia corpo.
Virou-se depressa demais. O joelho falhou ao encontrar o desnível, mas ele se apoiou no chão e procurou junto ao muro da plataforma.
Gabriel estava lá.
Deitado de lado, tossindo, uma das mãos sobre a orelha. O jovem Daniel ainda o cobria. Havia sangue no cotovelo da jaqueta jeans, pouco, diluído pela água. A câmera se perdera. O relógio continuava dentro do bolso.
Gabriel abriu os olhos.
— Sai de cima, porra.
A voz atravessou Daniel inteira.
O rapaz de vinte e três anos não saiu. Agarrou a frente da jaqueta do irmão e o sacudiu uma vez, depois o puxou contra o peito. Gabriel tentou afastá-lo, confuso, ainda sem ar para brigar.
— Eu estou bem — disse. — Daniel, eu estou bem.
Daniel ouviu o próprio nome na voz que perdera.
Não era “vento”. Não era um pedaço de áudio. O som tinha impaciência, rouquidão e um tremor mal disfarçado no fim. Ele conhecia aquilo. Conhecia o modo como Gabriel engolia o primeiro i. Conhecia a respiração curta antes de repetir uma mentira.
O jovem Daniel encostou a testa no ombro do irmão.
Daniel estendeu a mão e parou antes de atravessar os dois.
Sua boca se abriu. Nenhuma palavra saiu.
Helena subiu ao lado dele, apoiando a palma cortada no concreto. A chuva escorria dos cabelos sobre o rosto, e por um momento ela olhou apenas para os irmãos no chão. César não desceu. Permanecia na borda, curvado em torno da faixa manchada, os olhos fixos em Gabriel.
A garota ria.
Foi um som pequeno, quase engasgado. Ela tapou a boca com as duas mãos, como se a alegria tivesse escapado sem autorização. Quando Gabriel voltou a dizer que estava bem, o riso se quebrou e virou outra coisa.
Daniel ergueu os olhos.
Ela observava os próprios tênis.
A água caía sobre a plataforma em milhares de pontos escuros. Em torno dos pés da garota, os pingos tocavam o piso e saltavam secos, transformados em grãos brancos que rolavam até as juntas dos azulejos. Seus cadarços ainda estavam molhados; as poças ao redor deles, não.
— O que foi? — Daniel perguntou.
Ela esfregou a sola contra o chão. O tênis produziu ruído, mas não deixou marca.
— Nada.
A palavra saiu sem a última consoante, como se alguém tivesse fechado uma porta antes do fim.
Helena olhou dos pés para o rosto dela.
— Vem para baixo da cobertura.
— Eu estou…
A garota tentou sair da chuva. No primeiro passo, o pé esquerdo chegou ao chão antes da perna. Não se desprendeu do corpo; repetiu-se, com dois calcanhares sobrepostos por um instante, um apontado para a plataforma e outro ainda junto ao pilar. Quando ela avançou, a imagem anterior não a acompanhou. Ficou no lugar e se desfez em pequenos quadrados de cor — preto da calça, branco da meia, pele do tornozelo — que a chuva espalhou sem molhar.
Ela parou.
— Não.
Dessa vez, a palavra veio inteira.
Daniel subiu.
A garota recuou. Seu ombro esbarrou no pilar, mas o tecido da blusa não amassou contra a pedra. A estampa se soltou primeiro: as linhas vermelhas perderam o desenho e escorreram para cima, fio por fio, como costura puxada por mãos invisíveis. Sob elas, o pano não ficou transparente. Ficou sem trama. Fileiras alternadas de tecido deixaram de existir, revelando tiras estreitas da parede atrás dela entre outras tiras ainda sólidas.
— Para — ela disse à própria roupa. Beliscou a barra, desesperada. — Para. Para com isso.
Daniel alcançou seu braço.
Os dedos fecharam sobre a manga, mas encontraram intervalos: tecido, frio, nada; tecido outra vez. A garota sentiu o toque. Agarrrou a mão dele com tanta força que as unhas deixaram quatro meias-luas na pele.
— Não solta.
— Não vou.
— Você não sabe.
— Não vou.
Helena veio pelo outro lado. Parou antes de tocá-la, os olhos percorrendo os pontos que falhavam: a estampa, o tornozelo repetido, os fios de cabelo que já não projetavam água sobre a testa.
— Seu bilhete — disse. — Onde está?
A garota levou a mão livre à cintura. O bolso parecia costurado, sem abertura. Ela puxou o tecido; dois dedos atravessaram a parte da calça que faltava e apareceram entre quadrados de cor atrasada.
— Estava aqui.
— Continua. Eu ouvi antes.
— Não consigo…
Daniel soltou apenas a manga e procurou junto ao cós, evitando a pele. Encontrou a borda do papel presa sob o elástico. Quando a puxou, o nome estava coberto pelo polegar dela antes que ele pudesse ler.
O bilhete não brilhava.
Ao contrário: absorvia a luz em torno, deixando uma faixa escura sobre os dedos da garota.
Ela o apertou contra o peito.
Os quadrados que se soltavam diminuíram, mas não pararam.
— O que está acontecendo? — César perguntou.
Ninguém respondeu. Ele se levantara e vinha na direção deles, usando o dormente como apoio. Helena deslocou o corpo para bloquear sua aproximação.
— Fique aí.
— Eu não vou tocar nela.
— Ótimo.
César parou. O humor não apareceu. Ele olhou para a garota, depois para Gabriel e o jovem Daniel junto à linha.
Os irmãos já estavam de pé. Gabriel mancava, mas caminhava. O outro Daniel mantinha a mão na parte de trás de sua jaqueta, como se o tecido fosse a única coisa capaz de impedir a noite de mudar de ideia.
A cada passo que davam em direção à saída, uma parte da garota se desorganizava.
O som veio primeiro nos brincos. O metal balançava, mas o pequeno tilintar chegava antes do movimento. Depois a sombra sob seu queixo se dividiu em linhas finas e começou a ser puxada para as frestas do piso. Não era a sombra inteira. Eram fios negros, um após outro, esticando-se até romper.
Ela viu.
Tentou pisar num deles.
O fio atravessou a sola e sumiu na junta do azulejo.
— Faz ele parar — pediu.
Daniel olhou para Gabriel.
O irmão alcançava a porta lateral. Vivo. Uma mão no cotovelo ferido, a outra presa à câmera que já não possuía. Procurou o objeto, percebeu a ausência e quase voltou.
O jovem Daniel o impediu.
— Depois a gente procura.
— Era a câmera do pai.
— Depois.
Daniel deu um passo na direção deles.
A garota cravou as unhas em sua mão.
— Não.
Ele parou.
— Você pediu para eu fazer ele parar.
— Eu não sei o que pedi.
A voz rachou. A garota mordeu o lábio e virou o rosto, com raiva das lágrimas que se acumulavam sem cair. Uma delas desceu pelo lado esquerdo. No meio da bochecha, separou-se em três gotas menores; uma seguiu até o queixo, outra voltou para o olho, a terceira ficou suspensa junto ao lugar onde parte da pele já aparecia em pequenos deslocamentos, como pedaços de uma fotografia colados fora de alinhamento.
— Eu não quero morrer — disse.
Daniel aproximou-se até que a testa quase tocasse a dela.
— Você não vai.
— Não promete isso.
— Olha para mim.
Ela não olhou.
— Você sabia que isso podia acontecer?
O bilhete estalou contra o peito.
— Eu vi coisas.
— Que coisas?
— Não agora.
— Foi por isso que veio?
— Eu disse que não agora!
A última palavra saiu alta e jovem, sem mistério, sem qualquer controle. Gabriel parou junto à porta como se tivesse ouvido. Olhou para a plataforma vazia, para o ponto em que os passageiros estavam, e franziu a testa.
Daniel congelou.
O irmão deu um passo na direção da voz.
A manga da garota perdeu três fileiras de tecido de uma vez. Ela soltou um gemido e se encolheu junto a Daniel.
O jovem Daniel chamou Gabriel. O rapaz hesitou, ainda olhando para o lugar onde ela chorava.
Então saiu pelo saguão.
O relógio da estação chegou a 23h58.
Os ponteiros não avançaram.
A chuva continuou caindo, mas a noite além da plataforma mudou. As árvores perderam folhas. A cobertura encolheu sobre as colunas. O cartaz de 2011 embranqueceu e recebeu novas letras, impressas uma por cima da outra, até anunciar um horário de partida em 1947.
Daniel apertou a mão da garota.
— Fala comigo.
Ela respirou pela boca. O ar entrava aos saltos, cada inspiração começando num ponto ligeiramente diferente do rosto.
— Algumas pessoas só existem porque outras morreram.
Não foi uma sentença calma. Ela tropeçou em “existem”, repetiu a primeira sílaba e precisou fechar os olhos para terminar. Quando conseguiu, pressionou o bilhete contra a boca, como se pudesse empurrar as palavras de volta.
Daniel ouviu o trem sob a estação.
O som cresceu até sacudir os azulejos. Onde Gabriel e seu eu mais novo haviam desaparecido, surgiu uma família carregando malas antigas: um homem, uma mulher e duas crianças. Nenhum deles olhava para os passageiros. Atrás, a locomotiva negra esperava junto à plataforma, limpa, sem as marcas de décadas que Daniel vira ao embarcar.
O homem da fotografia de 1947 atravessou a cena segurando um caderno contra o peito.
Ele ainda tinha rosto.
Parou junto ao terceiro pilar e desenhou duas linhas no chão com um pedaço de carvão. As linhas entravam num círculo. Apenas uma saía. Ao redor da família, quatro manchas escuras não acompanhavam os corpos; permaneciam imóveis sob a chuva, orientadas para a locomotiva.
O homem abriu o caderno.
Uma página bateu ao vento. Daniel viu palavras incompletas, números e o desenho de uma porta. Depois o cenário se rompeu no meio, como filme queimado. A mulher chamou por alguém. Uma criança derrubou a mala. O farol da locomotiva acendeu às 5h47 apesar do relógio acima deles ainda marcar 23h58.
A plataforma inclinou-se.
Helena segurou a garota pela cintura antes que ela caísse. As mãos encontraram partes sólidas e falhas alternadas; mesmo assim, sustentaram o peso. Daniel passou o braço por baixo dos joelhos dela. Um dos tênis ficou no piso por meio segundo depois que a perna subiu, duplicou-se e tornou a encaixar no corpo.
— Não olha — ele disse.
— É meu pé.
— Eu sei.
— Está ficando para trás.
— Eu sei. Segura em mim.
Ela enterrou o rosto no ombro dele. O bilhete ficou preso entre os dois.
O gesto foi tão imediato que Daniel não pensou antes de apertá-la contra o peito. Sentiu os ombros estreitos estremecerem, a respiração quente junto ao pescoço, a mão fechando na parte de trás de sua jaqueta.
Por um instante, o desaparecimento desacelerou.
Não parou.
César viu.
Daniel percebeu porque o homem não olhava mais para a garota. Olhava para o braço de Daniel ao redor dela, para Helena sustentando seu peso, para o caminho por onde Gabriel saíra. Depois desceu os olhos até o casaco amarrado à cintura de Helena.
— A saída — César disse.
Uma porta aparecera na lateral da locomotiva de 1947, além das figuras imóveis. Não era a mesma pela qual tinham entrado. Havia duas: uma perto da família, iluminada; outra no fim da plataforma, aberta sobre um corredor sem luz.
— Qual delas? — Helena perguntou.
A garota tentou erguer o rosto. Daniel a impediu de girar demais.
— Não sei.
— Olhe só o necessário.
— Eu não sei!
César caminhou até a porta iluminada.
Helena bloqueou o caminho com o antebraço, sem tocá-lo.
— Ninguém atravessa sozinho.
— Ela está se desfazendo no seu colo e você ainda quer reunião?
— Afaste-se.
— Escolha uma porta, então.
O homem de 1947 riscou uma frase no caderno. A locomotiva começou a soltar vapor. As quatro manchas escuras deslizaram pelo piso na direção das duas portas, dividindo-se: duas para cada lado.
A garota ergueu a mão e apontou para a passagem no fim da plataforma.
— Aquela.
— Tem certeza? — Daniel perguntou.
Ela balançou a cabeça. Não significava sim.
Helena soltou César e abriu caminho para Daniel passar com a garota. A manga de seu casaco, amarrada à cintura, prendeu-se na fivela do cinto dele. César segurou o tecido para liberá-lo.
— Não toca em mim.
— No casaco — ele disse. — Eu lembro.
O nó afrouxou.
Helena puxou a manga e seguiu Daniel. César ficou atrás, comprimindo outra vez o ferimento.
A plataforma de 1947 começou a desaparecer em faixas verticais. Cada faixa revelava por um instante outra estação: vazia, incendiada, coberta de neve, tomada por pessoas vestidas de épocas diferentes. Em uma delas, Gabriel continuava morto junto à linha. Em outra, o jovem Daniel não aparecia. Na terceira, havia apenas a câmera quebrada.
Daniel não parou.
A passagem escura estava a dez metros.
O bilhete em seu bolso bateu contra a coxa a cada passo.
Na metade do caminho, parou de bater.
Daniel não percebeu.
A garota começou a recuperar peso em seus braços. Primeiro o tênis deixou de se repetir. Depois a estampa da blusa reapareceu em linhas tortas, costurada fora do desenho original. Os fios de sombra não voltaram, mas cessaram de romper.
— Está parando — Helena disse.
— Não fala antes — a garota respondeu, abafada contra Daniel. — Dá azar.
Quatorze anos. A frase devolveu a idade ao rosto que ele não podia ver.
A porta iluminada fechou atrás deles com um golpe.
César não estava mais na plataforma.
Helena se virou.
— César?
O nome atravessou as estações sobrepostas e retornou com vozes diferentes. Nenhuma era a dele.
Daniel colocou a garota no chão junto à parede do corredor. Ela se manteve em pé, agarrada à jaqueta dele. A mão tinha cinco dedos outra vez, mas a unha do indicador permanecia deslocada alguns milímetros para o lado, presa a uma versão anterior.
— Fica com Helena.
— Não volta.
— Ele está ferido.
— Daniel.
Ele já corria.
Chegou à plataforma quando a última faixa de 1947 se fechava. O homem do caderno estava junto à porta iluminada, agora visto apenas da cintura para cima. Atrás dele, uma silhueta mancou para dentro da locomotiva.
— César!
O homem ferido olhou por cima do ombro.
Não havia humor em seu rosto. Nem pedido.
Segurava três bilhetes abertos em leque.
Um tinha o nome de Daniel. O segundo trazia HELENA DUARTE. No terceiro, César cobria a escrita com os dedos.
Daniel procurou o bolso.
Vazio.
Atrás dele, Helena desfez o nó do casaco. O bolso interno estava virado para fora. A costura exibia um corte fino, feito por uma lâmina que ninguém o vira guardar.
— Devolve — Daniel disse.
César ergueu os bilhetes, longe da chuva.
— Vocês já fizeram a escolha de vocês.
— Isso não foi uma escolha sua.
— Exatamente.
A locomotiva puxou a porta.
Daniel correu. O chão entre eles abriu uma fissura preenchida por trilhos que desciam no escuro. Saltar exigiria dois passos que não existiam.
César apoiou-se no batente, quase dobrado pela dor.
— Se conseguem apagar alguém para salvar um morto, conseguem apagar qualquer um que atrapalhe.
— Ela não foi apagada.
— Ainda.
O terceiro bilhete escorregou um pouco entre seus dedos. César tornou a escondê-lo antes que Daniel pudesse distinguir o nome.
A porta se fechou.
Daniel alcançou a beira da fissura no instante em que a locomotiva de 1947 começou a se mover por um trilho que não levava à curva. César continuou olhando pela janela até a escuridão separar seu rosto do vidro.
O último pedaço da estação desapareceu.
Restaram Daniel, Helena e a garota no corredor estreito — e dois bolsos vazios.
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