Dia escolheu o tecido antes de decidir onde colocariam o corpo.

O fogo poupara dois rolos. O primeiro era áspero e pesado, tecido para embrulhar mercadoria ou cobrir alguém numa viagem de inverno. Níctimo reclamaria dele antes mesmo de encostar na pele. O segundo perdera uma das pontas para as chamas, mas o restante continuava inteiro.

Dia entregou-o à mulher que a ajudava.

— Corte a parte queimada.

A mulher segurou o tecido sem começar.

— Senhora…

— Tire só o que escureceu.

Ela obedeceu.

Agelau trabalhava do outro lado do aposento, junto a uma bacia de água. Não vestia os paramentos completos. Talvez tivessem queimado; talvez estivessem presos em algum cômodo soterrado por madeira e pedra. Ninguém perdera tempo procurando.

Aquele quarto sobrevivera porque ficava afastado do ponto onde o raio atingira o palácio. O teto permanecia inteiro, embora uma rachadura larga corresse por uma das paredes. Todo o resto fora improvisado: tapetes trazidos de outros cômodos, bancos encostados onde havia espaço, ânforas salvas do fogo, uma mesa curta servindo para tarefas que antes teriam lugar próprio.

Níctimo estava deitado sobre duas tábuas unidas.

Dia evitava olhar abaixo do lugar onde o tecido o cobria.

Tinham recuperado o suficiente.

Aquela palavra surgira muitas vezes desde a noite anterior. Água suficiente. Homens suficientes. Comida suficiente. Uma parede firme o suficiente para suportar mais algumas horas.

Agora também havia um corpo suficiente.

Dia passou a odiar a palavra.

Agelau mergulhou um pano na água.

— Preciso começar.

Ela continuou olhando para o tecido queimado.

O sacerdote esperou.

— Comece.

Nenhuma oração veio primeiro, e Dia agradeceu por isso.

Agelau começou pelas mãos.

Ela viu os dedos do filho sob o pano úmido e lembrou-se de uma manhã distante, quando Níctimo aparecera na cozinha com farinha na manga e jurara não ter tocado no pão antes da hora. Tinha vinte e poucos anos naquela lembrança e mentira com o talento de um menino de oito.

Dia descobrira porque ele ainda mastigava.

Virou o rosto.

A mulher que cortava o tecido ergueu os olhos. Dia não lhe ofereceu nada que pudesse ser confundido com pedido de consolo.

— Continue.

Do pátio vieram vozes, o arrastar de alguma coisa pesada, um animal soltando um berro agudo.

Depois, Theron.

— Essa parede fica vazia. Ninguém passa por baixo dela até derrubarmos o restante.

Um homem respondeu alguma coisa que Dia não conseguiu distinguir.

— Não me interessa onde você dormia antes. Hoje vai dormir do outro lado.

Passos se afastaram.

Logo vieram outros.

Ordens. Jarros sendo enchidos. Madeira arrastada sobre pedra.

A casa continuava produzindo ruído.

Dia descobriu que aquilo a ofendia.

Níctimo estava morto. Licaão desaparecera coberto de pelo e dentes. O salão principal perdera o teto. Ainda assim, em alguma parte da propriedade, um homem protestava porque teria de dormir perto dos estábulos.

Agelau terminou uma das mãos do rapaz e passou à outra.

Dia reparou no pequeno brilho de bronze preso ao tecido junto ao ombro.

— O fecho.

Agelau interrompeu o que fazia.

— Qual?

Ela apontou.

A roupa de Níctimo estava danificada, mas o pequeno fecho sobrevivera. Dia lembrava-se de tê-lo corrigido com os próprios dedos dias antes. O filho sempre o prendia torto quando estava apressado.

— Tire.

Agelau soltou a peça e a deixou ao lado da bacia.

Dia pegou-a.

O bronze estava frio.

Fechou-o na mão.

Uma sombra apareceu na entrada.

Mélas.

Não entrou imediatamente.

— Dia.

Ela virou-se.

O conselheiro parecia ter envelhecido desde a noite anterior. Não pelo rosto. Pela forma como sustentava os ombros, como se o corpo tivesse aprendido durante a madrugada que certas coisas podiam pesar sem ter peso.

— O que foi?

Mélas entrou alguns passos.

— Chegaram mais dois homens.

— De onde?

— Um de Mantineia. O outro das propriedades ao sul.

Agelau continuou trabalhando.

Dia perguntou:

— Vieram atrás do rei?

Mélas levou tempo demais para responder.

— Vieram atrás de uma decisão.

— Então deem uma.

— É uma cobrança de grão.

— Vocês sabem contar grão.

Mélas olhou para Níctimo.

— O assunto não é tão simples.

— Ontem era?

Ele inspirou, cansado.

— Também não.

— Então hoje não piorou só porque Licaão não está sentado numa cadeira.

Mélas pareceu preparar uma resposta e desistiu.

Dia abriu a mão e tornou a olhar para o fecho.

— O que você veio perguntar de verdade?

O conselheiro aproximou-se.

— O que vamos dizer.

Agelau parou.

Dia percebeu sem precisar olhar diretamente para ele.

— Continue.

O sacerdote voltou ao corpo.

Mélas baixou a voz.

— A notícia não fica aqui até o meio-dia.

— Já saiu.

— Provavelmente.

— Então não estamos escolhendo se vão saber.

— Estamos escolhendo o que esta casa vai dizer.

Dia ergueu os olhos.

— Esta casa?

Mélas recebeu a pergunta sem se defender.

— O que restou dela.

Dessa vez ela aceitou.

— Diga que Níctimo morreu.

— Isso verão assim que o corpo sair daqui.

— Melhor.

— Dia…

— O quê?

— Vão perguntar como.

O bronze pressionava a palma de sua mão.

— Diga a verdade.

Mélas não se mexeu.

— Toda?

— Qual parte pretende deixar para depois?

Agelau ergueu o rosto outra vez.

Dia o ignorou.

Mélas passou a mão pela barba, cansado demais para transformar aquilo em elegância.

— Um rei mata o próprio herdeiro, cozinha parte do corpo, serve ao hóspede, o hóspede revela ser Zeus, a casa é atingida por um raio e o rei termina transformado em lobo.

— Foi o que aconteceu.

— Você sabe como isso vai chegar a Tegea?

— Não me interessa como vai soar em Tegea.

— Vai interessar quando uma família disser que inventamos a história para esconder que matamos Licaão. Ou quando outra resolver que Zeus nos entregou autoridade porque esteve aqui. Ou quando algum proprietário entender que todas as obrigações morreram junto com o rei e resolver recuperar à força uma terra que perdeu dez anos atrás.

Dia encarou-o.

Mélas prosseguiu, com a paciência gasta de quem passara a vida explicando por que histórias continuavam produzindo consequências depois de os homens que as começaram irem embora.

— A verdade não viaja inteira. Nunca viajou. Sai daqui com todos os membros e chega ao próximo vale faltando uma perna. Mais adiante ganha duas cabeças.

— Então não tente fazê-la chegar intacta.

Mélas parou.

— Como?

— Diga o que aconteceu. Se alguém cortar metade no caminho, a metade é responsabilidade dele.

O conselheiro olhou para Agelau.

— E quando começarem a perguntar quem Zeus escolheu para governar?

O sacerdote respondeu antes de Dia:

— Ninguém.

Mélas virou-se.

— Você estava lá.

— Estava.

— Então repita sempre que perguntarem.

Dia colocou o fecho ao lado do tecido.

— Zeus levou Licaão consigo?

— Não.

— Levou Níctimo?

Mélas fechou a boca.

Depois respondeu:

— Não.

— Deixou outro rei?

— Não.

— Então não inventem um só porque todo mundo ficará mais confortável se houver alguém para colocar numa cadeira.

O silêncio ficou por alguns instantes.

Do lado de fora, Theron chamou um homem pelo nome. A resposta veio em corrida.

Agelau terminou de limpar o rosto de Níctimo.

Dia se aproximou.

Olhou apenas para o rosto.

Quieto demais.

Passou a mão pelo cabelo do filho.

— Cubra agora.

Agelau começou a puxar o tecido.

Mélas recuou para a entrada.

— Theron quer reunir quem ainda responde pela casa.

— Ele já reuniu.

— Não oficialmente.

Dia olhou para ele.

— O que significa “oficialmente” hoje?

— Significa que ninguém sabe a quem levar uma disputa sem perguntar antes a três pessoas.

— Então durante alguns dias vão perguntar a três.

— E depois?

Dia finalmente o encarou.

— Depois de enterrarmos meu filho, você pode voltar e me perguntar.

Mélas aceitou.

Saiu.

Agelau esperou os passos desaparecerem.

— Haverá gente no rito.

— Eu sei.

— Talvez mais do que você queira.

Dia ajudou a estender o tecido.

— Níctimo não pertence a eles.

— Não.

— Nem a Zeus.

Agelau demorou um pouco.

— Não.

Dia percebeu o esforço.

— Bom.

Juntos, cobriram o corpo.


Theron tinha quatro problemas diante dele e homens para resolver três.

Mélas descobriu isso antes mesmo de atravessar o pátio.

Dois mensageiros esperavam próximos a uma coluna rachada. Um guarda queria substitutos para o turno noturno. O responsável por um dos depósitos insistia que uma parede poderia ceder sobre parte do grão.

Theron apontou primeiro para o administrador.

— Tire os sacos encostados na parede.

— Preciso de oito homens.

— Tenho quatro.

— Com quatro, não termino antes de escurecer.

— Então termina metade. Comece pelo que vai virar entulho se a parede cair.

O homem ainda tentou protestar.

Theron já falava com o guarda.

— Use os que dormiram depois da meia-noite.

— Dois estão feridos.

— Então não use os feridos. Pegue os outros.

Mélas chegou.

— Os homens para Tegea?

— Já foram.

— Antes da luz?

Theron olhou para ele.

— Você preferia esperar outro raio para confirmar?

Mélas ficou parado.

O comandante percebeu o próprio comentário.

— Foi ruim.

— Bastante.

— Não repito.

— Fico aliviado.

O mensageiro de Mantineia aproximou-se.

— Comandante.

Theron se virou.

— Fale.

— Meu senhor mandou perguntar quem responde pela casa agora.

— Pela casa?

O jovem percebeu a oportunidade de corrigir.

— Pela Arcádia.

— Isso é outra pergunta.

— Foi a pergunta que ele mandou fazer.

Theron cruzou os braços.

— Diga ao seu senhor que ainda estamos retirando pedra de cima dos mortos.

O rapaz não pareceu satisfeito.

— E quando terminarem?

Mélas respondeu:

— Quando terminarmos, ele recebe outra resposta.

Theron virou-se para o conselheiro. O mensageiro fez o mesmo.

— De quem?

Mélas apontou ao redor.

— De quem ainda estiver de pé depois de impedir que o resto dessa parede caia em cima de alguém.

O rapaz tentou decidir se estava sendo insultado.

A tarefa pareceu difícil.

Theron interveio:

— E leve outra coisa. Nenhuma cobrança antiga está cancelada. Estrada nenhuma virou terra de ninguém. Ninguém ganhou permissão para pilhar vizinho ou recuperar dívida com faca porque ouviu que Licaão desapareceu.

O mensageiro percebeu a palavra.

— Ainda chama de desaparecimento?

Theron olhou diretamente para ele.

— O que você ouviu?

O jovem hesitou. Era novo demais para esconder bem a curiosidade.

— Que Zeus apareceu aqui.

— Apareceu.

— Que Licaão tentou matá-lo.

— Não.

— Mas disseram—

— Vai ouvir muita coisa entre aqui e Mantineia.

O rapaz insistiu:

— Disseram que Zeus abriu o céu e queimou todos que estavam no salão.

Theron abriu os braços e olhou para a própria túnica.

— Estou queimado o bastante para essa história?

O mensageiro ficou sem graça.

Mélas não quis prolongar.

— Licaão matou Níctimo.

A frase alterou o pátio.

Alguns homens próximos continuaram trabalhando, mas todos ouviram.

O mensageiro ficou imóvel.

Mélas prosseguiu:

— O hóspede que estava nesta casa era Zeus. O palácio foi atingido pelo raio. Licaão foi transformado numa fera e fugiu.

— Numa… fera?

— Um lobo.

Um guarda próximo virou discretamente a cabeça.

Já sabia.

Ouvir aquilo ser dito a alguém de fora ainda tornava tudo diferente.

O jovem perguntou:

— E Zeus?

— Foi embora.

— Deixou quem no lugar do rei?

Theron respondeu:

— Ninguém.

O mensageiro esperou.

A continuação não veio.

Mélas lhe entregou uma tábua pequena.

— Entregue isto ao seu senhor.

— O que é?

— Um pedido para manter os homens dele dentro das terras próprias até resolvermos a questão da cobrança.

O rapaz conferiu a marca.

— Quem assinou?

— Eu.

— Em nome de quem?

Mélas olhou para a tábua em suas mãos como se só então a pergunta tivesse se tornado concreta.

— Em meu nome.

O desconforto do mensageiro aumentou.

— Meu senhor vai querer saber com que autoridade.

— Eu também gostaria de saber.

O rapaz ficou sem reação.

Mélas continuou:

— Se ele preferir discutir pessoalmente, mande-o vir. Até lá, homens armados permanecem onde estão.

O mensageiro guardou a tábua e se afastou.

Theron esperou que ele não pudesse mais ouvir.

— Isso ajudou muito.

— Sei.

— Podia ter usado o selo da casa.

Mélas olhou para as ruínas do salão.

— Onde ele está?

Theron não sabia.

Talvez enterrado sob pedra.

Talvez numa caixa retirada às pressas.

Talvez deformado pelo calor.

— Vamos ter de encontrar.

— Não hoje.

— Não.

Do outro lado do pátio, duas servas saíram carregando uma jarra. Um homem passou com um feixe de madeira. Outro perguntou onde deveria deixar os animais que haviam sido retirados dos estábulos danificados.

Theron apontou um lugar.

O homem obedeceu.

Ninguém consultou uma cadeira vazia.


Ao meio-dia, a primeira versão alcançou a estrada.

Um criado disse que Zeus descera diretamente do céu cercado de fogo. Um soldado o corrigiu: o deus chegara dias antes como homem.

Alguém perguntou então como um homem se transformara em deus.

O soldado tentou explicar que não se transformara.

Uma mulher ouviu apenas parte da conversa e repetiu adiante que Licaão sacrificara o próprio filho aos deuses. Um menino, ouvindo a história dela, decidiu que Zeus comera Níctimo e depois se zangara com o gosto.

A mãe bateu na cabeça dele.

— Cala essa boca.

O mensageiro de Mantineia levava uma versão mais próxima do que ocorrera. Ainda assim, antes mesmo da primeira subida encontrou dois homens conduzindo mulas.

Um deles apontou para a fumaça distante.

— O que aconteceu na casa do rei?

O mensageiro respondeu:

— Zeus esteve lá.

Ao cair da tarde, em algum ponto mais abaixo da estrada, aquilo já significaria outra coisa.

Dia não ouviu nenhuma dessas histórias.

Permanecia junto de Níctimo.

Agelau acendera a chama necessária para o rito. Não havia ainda grande cortejo. Vieram homens e mulheres da casa, servos, alguns soldados. Mélas permaneceu atrás dos demais. Theron entrou por último e ficou perto da porta.

Dia percebeu que havia espaço vazio ao seu lado.

Espaço suficiente para um marido.

Não olhou.

Agelau começou.

Dia ouviu pouca coisa.

O nome do filho, sim.

Níctimo.

Uma vez.

Depois novamente.

O restante das palavras passou por ela.

Quando chegou o momento, pegou o pequeno fecho de bronze e o colocou junto ao corpo. Ninguém tentou transformar o gesto em símbolo. Ninguém falou de sucessão, reino, castigo divino ou daquilo que a morte significaria para a Arcádia.

Durante alguns minutos, permitiram que Níctimo fosse apenas um filho morto.


Licaão sentiu a fumaça antes de enxergar qualquer pedra da antiga casa.

Não era a fumaça espessa do incêndio. Aquela carregara madeira encharcada, óleo derramado, lã queimada, barro quente.

Esta era menor.

Controlada.

Rito.

Parou entre os arbustos.

Caminhara durante horas para voltar.

Não disse a si mesmo que voltara por Dia.

Nem por Níctimo.

Nem pela casa.

Voltava porque precisava saber o que acontecia.

Essa explicação servira para muitas coisas durante sua vida.

Continuava servindo.

O vento mudou.

Humanos.

Muitos.

A fome veio com a violência que ele já conhecia.

Não o surpreendeu.

Isso não a tornou mais fácil.

Licaão recuou até o cheiro enfraquecer e encontrou um caminho alto pela encosta. Conhecia o terreno. Caçara ali com Theron muitos anos antes, quando Níctimo ainda era jovem demais para acompanhá-los e reclamara durante dois dias por ter sido deixado.

A lembrança apareceu inteira.

Licaão a empurrou para longe e subiu.

Das pedras no alto conseguiria observar parte da propriedade sem chegar perto demais dos homens.

Quando finalmente alcançou o ponto, demorou para reconhecer o lugar.

O raio abrira o que antes era fechado. Parte do muro externo desaparecera. O salão principal tinha um vazio onde existira teto. Vigas escurecidas atravessavam montes de pedra. Coberturas de tecido haviam sido erguidas perto dos depósitos. Os animais permaneciam reunidos mais abaixo, afastados das construções danificadas.

Havia gente por toda parte.

Um homem atravessou o pátio carregando uma tábua.

Outro correu atrás.

Theron surgiu perto dos estábulos.

Licaão reconheceu a forma de andar antes de distinguir o rosto.

O comandante chamou três homens, deu instruções e os mandou em direções diferentes.

Nenhum deles olhou para a casa esperando confirmação de outra pessoa.

Mélas saiu de uma construção lateral com duas tábuas nos braços. Chamou um rapaz e lhe entregou uma.

O jovem correu para a estrada.

Licaão acompanhou-o até desaparecer.

A irritação veio automática.

Mélas não deveria enviar um homem sem…

O pensamento parou.

Sem o quê?

As garras penetraram a terra.

Theron mudou dois guardas de posição.

Errado.

O homem junto ao acesso sul precisava ficar mais próximo da curva. Dali enxergaria a subida vários instantes antes.

Licaão conhecia aquele caminho.

Abriu a boca para corrigir.

Saiu apenas uma respiração áspera.

Theron seguiu andando.

O erro permaneceu.

Nada desabou por causa dele.

Pouco depois, outro soldado percebeu a limitação. Arrastou um banco contra o muro e subiu, ganhando altura suficiente para enxergar além da curva.

Theron reparou e aprovou com um gesto.

Licaão ficou olhando.

A fumaça fina do rito apareceu de novo.

Agelau.

O cheiro chegou misturado ao dos vivos.

A fome apertou.

Licaão virou o focinho.

Esperou até a necessidade diminuir um pouco.

Quando tornou a olhar, algumas pessoas entravam na parte da casa que ainda tinha teto.

Então viu Dia.

O corpo reagiu antes dele.

Humana.

A fome reconheceu.

Licaão recuou com tanta força que uma pedra soltou-se sob a pata e desceu pela encosta.

Um guarda virou a cabeça.

Licaão abaixou-se entre os arbustos.

O homem observou a montanha por algum tempo e tornou ao trabalho.

Licaão ficou imóvel.

Dia estava ali.

Seu corpo queria descer.

A mesma boca que tentara pronunciar o nome dela sob o raio respondia ao cheiro de sua pele como respondera aos homens da fogueira.

Ele fechou os dentes.

Quando tornou a espiar, Dia já havia desaparecido no aposento.

Sabia o que existia lá dentro.

Níctimo.

A lembrança dessa vez não lhe deu o filho vivo.

Deu-lhe a mesa.

Licaão afastou-se das pedras.

Caminhou alguns passos.

Parou.

A fumaça continuava subindo.

Voltou para o ponto de observação.

Não chegou mais perto.


Esperou o rito terminar.

Não conseguia ouvir as palavras dali.

Via apenas as pessoas entrando e saindo.

Em determinado momento, Theron ocupou a entrada e abaixou a cabeça. Mélas apareceu perto dele. Agelau saiu primeiro.

Dia veio depois.

Licaão quase não a reconheceu pela maneira como caminhava.

Não se parecia com a senhora daquela casa. Nem com a mulher que discutia quantidade de lã, decidia lugares à mesa ou fazia um servo voltar porque trouxera a ânfora errada.

Parecia cansada o bastante para continuar andando somente porque parar na porta obrigaria os outros a contorná-la.

Dois homens a abordaram.

Dia escutou ambos.

Respondeu alguma coisa.

Um seguiu para os depósitos. O outro tomou o caminho da estrada.

Licaão não ouviu o que ela dissera.

Não importava.

Tinham obedecido.

A fome veio outra vez.

E junto dela alguma coisa pior.

O primeiro cão latiu quando o vento mudou.

Licaão reconheceu o risco imediatamente.

Outro respondeu.

No pátio, um guarda ergueu a cabeça.

— Tem alguma coisa lá em cima.

Theron apareceu saindo da sombra de uma parede.

Licaão recuou.

O cão latiu novamente.

Um homem apontou para a encosta.

— Lobo.

A palavra chegou limpa.

Ninguém disse rei.

Licaão recuou mais.

Um soldado pegou a lança.

Theron examinou o terreno.

— Não subam em linha reta. Dois pela esquerda.

Licaão parou.

Conhecia aquela ordem.

Ele mesmo poderia tê-la dado.

Talvez mandasse três pela esquerda, dependendo do vento e do número de homens disponíveis.

Theron ordenou que soltassem um cão.

Erro.

O animal seguiria o cheiro, mas o terreno estreitava antes das pedras e faria com que avançasse sozinho.

Licaão sabia exatamente por onde viria.

Correu.

Vozes soaram atrás.

— Ali!

— Subiu!

— Fecha a passagem de baixo!

Licaão desceu entre dois troncos.

Não precisava olhar para imaginar o movimento dos homens.

Um seguiria pela área próxima ao riacho. Outro subiria para empurrá-lo na direção do vale.

Se fossem caçadores experientes, não tentariam simplesmente alcançá-lo.

Controlariam o caminho.

Ele ensinara isso a homens mais jovens.

Não corra atrás do animal. Faça-o correr para onde você quer.

Mudou de direção antes do estreitamento.

O cão surgiu à esquerda.

Rápido.

Pequeno demais para atacá-lo sozinho, mas corajoso o bastante para tentar.

Licaão mostrou os dentes.

O cão hesitou.

Um homem gritou:

— Pega!

Licaão poderia matar o animal.

Não havia a outra fome naquela reação.

Só ameaça.

Saltou para o lado.

O cão avançou e passou por ele.

Licaão desceu por uma encosta que homens evitariam por causa das pedras soltas.

Uma lança acertou uma árvore atrás.

Muito longe.

Theron gritou:

— Não joguem sem ver onde ele está!

Licaão ouviu a própria voz naquela ordem.

Continuou.

O cheiro dos homens aproximou-se.

A fome acordou.

Durante um instante, fugir e atacar pareceram alternativas igualmente possíveis.

O homem pela direita estava isolado.

Licaão sabia.

Ouvia sua respiração.

Sentia o suor.

Podia voltar entre os arbustos, surgir atrás dele e alcançar a perna antes que a lança completasse o giro.

O cálculo formou-se inteiro.

Licaão correu para o lado oposto.

O soldado o viu.

— Aqui!

Theron respondeu mais abaixo:

— Deixa passar!

— Eu alcanço!

— Deixa!

O homem obedeceu.

Licaão atravessou os últimos arbustos e entrou numa parte mais fechada do bosque. Os cães continuaram latindo. Um ainda tentou segui-lo, mas alguém o chamou de volta.

A perseguição terminou pouco depois.

Licaão continuou correndo por tempo demais.

Só parou quando a casa desapareceu completamente.

A respiração ardia.

Apoiou-se perto de uma árvore e olhou para trás.

Tinham caçado um lobo que se aproximara demais das pessoas.

Era o que deveriam fazer.

Não precisavam saber quem ele era.

Talvez saber não mudasse coisa alguma.

Zeus dissera a Theron que o tratasse como qualquer fera caso atacasse homens.

Licaão ainda não atacara.

Mas retornara.

Sentira Dia.

Calculava como matar um guarda.

A distância entre aquelas coisas começava a diminuir.


Mais tarde, encontrou uma elevação menor de onde via apenas o alto das ruínas.

Fumaça.

Algumas tochas começavam a surgir com o fim da luz.

Homens trocando turno.

Uma carroça chegando.

Outra partindo.

Nenhum mensageiro subia a montanha atrás dele. Cavalo algum entrava na floresta levando alguém para pedir uma decisão.

Licaão ficou observando.

Havia erros naquela casa.

Conseguia vê-los mesmo dali.

Homens demoravam em tarefas que ele teria mandado concluir depressa. Uma carroça permaneceu tempo demais perto do acesso inferior porque ninguém parecia saber onde descarregá-la. Dois soldados discutiram junto ao muro até Theron aparecer e mandar cada um para um lado.

Pouco depois, Mélas surgiu com uma tábua.

Chamou um homem.

Entregou-lhe o registro.

Voltou para dentro.

Licaão não sabia o que estava escrito.

Aquilo o irritou.

Talvez grão.

Talvez homens para alguma propriedade.

A disputa de Tegea.

Uma cobrança atrasada.

Uma estrada sem patrulha.

Qualquer dessas coisas podia piorar nas mãos de alguém incapaz.

Licaão conhecia homens incapazes.

Governara muitos.

Conhecia também homens que julgavam saber governar porque nunca haviam carregado responsabilidade suficiente para descobrir o contrário.

Theron sabia comandar soldados.

Não terras.

Mélas aconselhava.

Não ocupava o lugar daquele que precisava escolher.

Dia…

Licaão interrompeu o pensamento.

Uma tocha foi retirada de perto do muro e levada até uma construção lateral.

Errado.

A curva ficaria escura cedo demais.

Esperou.

Ninguém corrigiu.

A irritação aumentou.

Depois um guarda apareceu carregando outra tocha. Colocou-a num ponto mais alto.

Melhor.

Não exatamente onde Licaão escolheria.

Mas servia.

Ele cravou as garras na terra.

Aquilo não provava nada.

Uma casa conseguia sobreviver um dia sem rei.

Dois.

Talvez mais, sustentada por homens treinados, reservas de comida e ordens antigas que ainda continuavam produzindo efeito.

Depois viriam as disputas.

Sempre vinham.

Uma família questionaria limite de terra. Outra esconderia parte do grão. Um homem com vinte parentes descobriria que o vizinho tinha apenas cinco e começaria a lembrar de uma ofensa antiga.

Uma estrada deixaria de ser segura porque ninguém mandara homens até ela.

Então procurariam autoridade.

Licaão conhecia a Arcádia.

Sabia como funcionava.

O pensamento trouxe alguma coisa próxima de alívio.

Continuou observando.

Outra carroça chegou.

Ninguém correu atrás do rei.

O condutor falou com o guarda. O guarda chamou outro homem. O segundo desapareceu entre as coberturas improvisadas.

Theron apareceu pouco depois.

Ouviu o condutor.

Apontou para o depósito.

A carroça seguiu.

Simples.

Licaão desviou os olhos.

O céu escurecia atrás das montanhas. Logo deixaria de distinguir as pessoas no pátio.

Os cheiros continuariam.

Fumaça.

Cavalos.

Madeira molhada.

Humanos.

A fome apertou.

Recuou.

Esperou.

A necessidade diminuiu apenas o bastante para que pudesse permanecer.

Quando tornou a olhar, Dia estava no pátio.

Mesmo de longe reconheceu-a.

Saíra da parte coberta da casa acompanhada por Agelau. Os dois pararam. Conversaram. O sacerdote apontou para algum lugar que Licaão não conseguia enxergar. Dia respondeu.

Agelau assentiu e foi embora.

Ela permaneceu sozinha.

Licaão avançou um passo.

O cheiro dos homens aumentou.

Parou.

Dia virou o rosto na direção da montanha.

Licaão ficou imóvel.

Não havia como vê-lo dali. A distância era grande demais e a luz quase desaparecera.

Ainda assim, durante alguns instantes, pareceu olhar exatamente para ele.

Licaão abriu a boca.

Dia.

Tentou.

A garganta produziu um som baixo e áspero.

Fechou a boca de imediato.

No pátio, Dia permaneceu mais alguns segundos.

Depois virou-se.

Um servo apareceu.

Ela lhe deu alguma instrução. O homem seguiu para os depósitos.

Dia entrou.

Licaão continuou olhando para a porta vazia.

A vontade de descer surgiu quase imediatamente.

Conhecia caminhos que os guardas não observavam.

Poderia alcançar o muro pelo lado norte.

Esperar.

Dia talvez voltasse.

Ou Theron.

Mélas.

Poderia chegar perto o bastante para que o reconhecessem.

O vento subiu a encosta.

Humanos.

A boca se encheu de saliva.

Licaão recuou.

A lembrança do acampamento voltou: o dedo ferido, a garganta desprotegida, a distância do salto.

Depois o guarda naquela tarde.

A perna.

O ângulo da lança.

O tempo necessário para alcançar o homem antes que conseguisse girar.

Licaão olhou para a casa.

Dia estava lá.

A fome também.

Não havia maneira de aproximar uma da outra sem levar consigo o resto.

Desceu das pedras.

Caminhou alguns passos em direção à mata.

Parou.

Atrás dele, a casa continuava cheia de sons.

Alguém chamou Theron.

Outra voz respondeu.

Madeira bateu contra madeira.

Um cavalo protestou.

Alguma coisa caiu.

Um homem xingou.

Licaão não sabia o que decidiam.

Não sabia quem dormiria em qual lugar.

Não sabia se a disputa de Tegea terminaria em acordo ou sangue. Não conhecia o conteúdo da tábua que Mélas enviara. Não sabia o que Dia dissera ao servo.

Não sabia o que fariam no dia seguinte.

Durante anos, quase nada importante naquela casa acontecera sem acabar chegando até ele.

Agora havia perguntas cuja existência sequer conhecia.

Licaão tornou a olhar para trás.

Entre as árvores, restavam algumas tochas.

Esperou a raiva.

Ela veio.

Havia outra coisa junto.

Recusou-se a dar-lhe nome.

Um uivo surgiu longe.

Licaão ergueu a cabeça.

Vinha do mesmo vale da noite anterior. Talvez do mesmo animal.

O chamado percorreu a mata.

Seu corpo preparou uma resposta.

Licaão fechou a boca.

Não.

O lobo chamou novamente.

Outro respondeu, ainda mais distante.

Licaão permaneceu entre os dois sons.

Atrás estavam as tochas.

Adiante, a floresta.

A fome resolveu parte da escolha antes que ele pudesse fingir que não.

Virou-se para longe da casa e começou a descer.

Não correu.

Durante algum tempo ainda viu pequenos pontos de luz entre os troncos.

Depois restaram menos.

Até desaparecerem.

Licaão parou.

Olhou para trás.

A montanha escondia quase tudo.

Poderia subir novamente.

Conhecia o caminho.

Não subiu.

O lobo distante chamou uma terceira vez.

Licaão ouviu até o som morrer.

Depois continuou andando.

Desta vez, não respondeu.

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