Capítulo 7 — O Céu Vazio
por Sonhado acordadoAo amanhecer, um escravo derrubou uma ânfora no pátio.
O estrondo acordou Licaão antes que ele pudesse distinguir o som. Ficou deitado por alguns instantes, olhando para o teto, até ouvir uma praga abafada do lado de fora, passos correndo e o ruído seco de cacos sendo reunidos.
Uma ânfora.
Virou-se no leito. Dia ainda dormia de costas para ele, com parte dos cabelos espalhada sobre o travesseiro. Pela abertura alta da parede entrava uma luz cinzenta, fraca demais para aquecer o aposento.
Licaão fechou os olhos.
Não voltou a dormir.
Quando saiu, os pedaços já tinham sido recolhidos. Um rapaz esfregava as pedras do pátio, tentando diluir uma mancha de vinho com água. A casa despertava ao redor dele. Uma criada carregava pão para a cozinha; dois homens atravessavam o corredor discutindo quantos animais poderiam ser levados à pastagem alta naquela semana; mais longe, uma pedra de moinho trabalhava num ritmo paciente.
Nada queimara durante a noite. Nenhum telhado desabara. Nenhum mensageiro chegara às pressas trazendo notícia de desastre.
Licaão percebeu que estava conferindo essas coisas uma a uma e se irritou consigo mesmo.
— Meu rei.
Theron vinha do corredor externo, já vestido para o trabalho.
— O que aconteceu?
— Os homens de Tegea chegaram antes do sol. Quatro. Vieram tratar das pedras de limite.
Licaão lembrava da disputa. Duas famílias reivindicavam a mesma faixa de terra junto a um curso de água. As chuvas do inverno haviam levado parte da margem, deslocando o riacho, e cada lado agora dizia que os marcos antigos provavam seu direito.
— Mélas já está com eles?
— Desde que chegaram. Níctimo também.
Licaão começou a andar. Theron acompanhou-o por alguns passos.
— E Leonte?
O comandante levou um instante para responder.
A pergunta escapara antes que Licaão decidisse fazê-la.
— Foi para casa ontem.
— Sei disso. Como está?
— Um dos meus homens passou pela casa dele ao amanhecer. Leonte estava sentado do lado de fora, vivo e acordado.
— Mandou verificar?
— Não. A casa fica no caminho do depósito. O soldado o viu ao passar.
Licaão continuou andando.
— Certo.
Theron ainda o acompanhou.
— Mais alguma coisa?
— Não.
O pátio menor onde Mélas costumava receber questões que não exigiam imediatamente a presença do rei já estava barulhento. Os quatro homens de Tegea falavam quase ao mesmo tempo, dois de cada lado, enquanto Níctimo permanecia junto a uma mesa baixa. Sobre ela havia três pedras pequenas e uma tábua coberta por riscos que imitavam o terreno.
Mélas viu Licaão entrar.
— Finalmente.
— O sol acabou de aparecer.
— Diga isso a eles. Estão discutindo desde quando ele ainda estava pensando se valia a pena nascer.
Um dos homens avançou.
— Meu rei, a água agora passa—
O outro falou por cima:
— Porque a margem levou as pedras—
Licaão levantou a mão.
— Um de cada vez. Se insistirem em falar juntos, fico com a versão que terminar primeiro.
Os dois se calaram.
Níctimo riu baixo enquanto recolocava uma das pedras no lugar.
Licaão apontou para o homem mais velho.
— Comece.
A disputa levou menos tempo do que ele imaginara. Os antigos marcos existiam e podiam ser identificados. O problema era o riacho: durante as chuvas, o curso se deslocara e arrancara parte da margem, formando uma pequena língua de terra onde antes havia água.
Uma família sustentava que a divisa sempre acompanhara o riacho. A outra dizia que os marcos de pedra fixavam a propriedade, independentemente do curso.
Licaão pediu o registro.
Mélas entregou-lhe a tábua.
— O acordo menciona as pedras. Não diz que o limite acompanha a água.
Licaão leu rapidamente.
— Então usamos as pedras.
O mais jovem dos homens protestou.
— Mas a água sempre separou nossas terras.
— Até deixar de separar.
— Poseidon mudou o curso.
Mélas olhou para as sandálias sujas.
— Eu teria culpado a chuva, mas admito que sua versão dá mais importância ao assunto.
— Chuva também vem dos deuses.
— Lama também. Ainda não entreguei minhas sandálias a ninguém por causa disso.
Níctimo riu.
Licaão teria acompanhado em outra manhã.
— Se Poseidon queria redesenhar essa propriedade, podia ter levado os marcos também.
O homem ficou quieto.
Mélas ergueu os olhos da tábua. Níctimo também.
Licaão só percebeu o peso da frase depois de dizê-la.
Não a retirou.
— A divisa fica onde o acordo colocou. Refaçam a margem onde puderem. Se o riacho continuar avançando, voltem aqui antes de resolverem o problema com facas.
Os quatro agradeceram, embora um deles parecesse mais preocupado com a observação sobre Poseidon do que com a própria terra.
Quando saíram, Mélas recolheu as pedras da mesa.
— Dormiu?
— O suficiente.
— Não parece.
— Desde quando você aconselha sobre sono?
— Desde que meu rei começou a reorganizar os domínios de Poseidon antes do desjejum.
Licaão virou-se.
— Eu reorganizei uma divisa.
— Fico mais tranquilo.
Níctimo ainda arrumava as pedras usadas na demonstração.
Licaão apontou para a tábua.
— O que teria decidido?
— Pelos marcos.
— Mesmo com o riacho no lugar novo?
— Sim. O acordo fala das pedras.
— E se dissesse que a água era o limite?
Níctimo pensou.
— Aí acompanharia a água. Se fizeram o acordo dessa maneira, aceitaram que o curso pudesse mudar.
Licaão aprovou.
— Melhor.
Níctimo colocou a última pedra ao lado da tábua.
— Ontem você teria respondido igual?
Mélas parou o que fazia.
Licaão encarou o filho.
— Sobre a divisa?
— Sobre Poseidon.
Licaão compreendeu.
— Talvez.
— Acho que não teria dito aquilo.
— Pode ser.
— Por quê?
Mélas deixou a tábua sobre a mesa.
— Ainda não comi.
Licaão indicou a saída.
— Vá.
— Obrigado.
— Fique.
Mélas fechou os olhos por um momento.
— Eu sabia.
Licaão foi até a abertura do pátio.
A luz do sol começava a tocar os cumes. No dia anterior, sob um céu quase igual, Leonte gritara o nome de Zeus enquanto estava preso a um banco.
E Mélas dissera uma palavra.
Hoje.
Licaão voltou-se.
— Quanto tempo?
Mélas olhou para ele.
— Até eu conseguir comer?
— Até Zeus.
Níctimo permaneceu junto à mesa.
Mélas entendeu.
— Não sei responder.
— Tente.
— Primeiro diga exatamente o que quer medir.
Licaão apoiou a mão sobre a madeira da mesa.
— Ontem você disse “hoje”. Quero saber quando essa palavra deixa de servir. Amanhã? Daqui a dez dias? Uma lua? Um ano?
— Eu não fiz uma promessa.
— Fez uma advertência.
— Fiz uma observação porque você parecia disposto a concluir uma questão grande demais em poucos minutos.
— Leonte chamou.
— Eu estava lá.
— Duas vezes.
— Também estava lá na segunda.
— Nós esperamos.
Mélas deixou escapar um suspiro cansado.
— Licaão, não vou fingir que sei em quantas respirações Zeus deveria responder a um homem.
— Então, se nada acontecer durante um ano, devo esperar dois? Se morrer velho, Agelau pode dizer que Zeus escolheu aquele momento para resolver o assunto?
— Pode. Agelau consegue dizer muitas coisas.
— Conveniente.
Mélas levantou-se.
— Não faça isso.
— O quê?
— Não transforme minha incapacidade de lhe dar uma medida numa prova de que a medida não existe.
Licaão saiu de perto da mesa.
— Você foi quem colocou tempo na conversa.
— Porque queria impedir que saísse daquele pátio dizendo que tinha acabado de provar alguma coisa.
— Eu provei que Leonte chamou e nada apareceu.
— Provou que nada aconteceu diante dos seus olhos enquanto você esperou.
Licaão parou.
— Sempre existe uma explicação, então.
— Para algumas coisas, sim.
— Se chove depois de uma oferenda, o deus aceitou. Se não chove, a oferenda não bastou. Se alguém suplica e é salvo, Zeus ouviu. Se suplica e morre, Zeus ouviu e decidiu não intervir. Se a punição chega amanhã, foi o deus. Se chega vinte anos depois, também pode ter sido.
Níctimo falou:
— Isso não prova que seja falso.
A intervenção surpreendeu Licaão.
Ele olhou para o filho.
— Não prova.
Níctimo pareceu não esperar concordância.
— Então qual é o problema?
Licaão procurou uma resposta que não viesse pronta demais.
— Eu preciso tomar decisões com aquilo que consigo conhecer.
Mélas sentou-se na borda da mesa.
— Talvez não precise tomar decisão nenhuma sobre Zeus.
— Sou rei. Não fazer nada também produz consequência.
— Sobre estradas, terras, homens, grão, impostos. Não precisa determinar o funcionamento dos deuses antes da primeira refeição.
— Não estou tentando decidir como Zeus funciona.
— Está chegando perto.
Licaão aproximou-se.
— Estou tentando decidir o que faço quando um homem usa o nome dele para estabelecer um limite às minhas decisões.
Mélas deixou de brincar.
— Isso é outra questão.
— É a questão que importa.
— E é mais perigosa.
— Por quê?
— Porque Agelau não precisa provar nada sobre Zeus para criar um problema político para esta casa.
Licaão riu.
— Finalmente algo que posso calcular.
Mélas não acompanhou.
— Não falei como ameaça.
— Eu sei.
Licaão voltou-se para a saída.
— Coma alguma coisa. Depois vá à sala grande. Os pastores do norte estão esperando.
Mélas permaneceu sentado.
— E esta conversa?
Licaão parou.
— Ainda não terminou.
Saiu.
Agelau chegou antes de Mélas.
Licaão o encontrou no pátio interno, diante do pequeno altar doméstico usado pela família. Não era a pedra maior dos sacrifícios públicos. Ali se deixavam vinho, farinha e pequenas oferendas ligadas às refeições, partidas, retornos e acontecimentos da casa.
Uma serva segurava uma cesta de farinha enquanto Agelau lhe explicava alguma coisa em voz baixa.
O sacerdote notou Licaão.
— Meu rei.
— Não mandei chamá-lo.
— Eu sei.
— Então já começou mal.
Agelau dispensou a serva. Ela saiu levando a cesta.
— Ouvi o que aconteceu ontem.
Licaão entrou no pátio.
— Quarenta pessoas assistiram. Eu ficaria surpreso se você não tivesse ouvido.
— Disseram que Leonte chamou por Zeus durante o castigo.
— Chamou.
— E que o senhor o fez repetir.
— Isso também aconteceu.
Agelau passou os dedos sobre a borda do altar.
— Por quê?
Licaão já respondera à pergunta para Níctimo e para Mélas.
— Queria descobrir se alguma coisa aconteceria.
— Zeus não é alguém do outro lado de uma porta que aparece porque você gritou mais alto.
— Leonte esperava alguma coisa.
— Leonte estava amarrado e sendo castigado.
— Exatamente.
Agelau encarou-o.
— É por isso que veio até aqui?
— Vim porque soube que uma súplica foi transformada em experiência.
A palavra incomodou Licaão.
Experiência.
— Eu apenas esperei.
— Como quem oferece a um deus uma oportunidade para se apresentar.
— Foi o que fiz.
Agelau saiu de trás do altar.
— Você realmente acha que pode escolher o momento em que Zeus deve responder?
— Não.
A resposta rápida fez o sacerdote parar.
Licaão continuou:
— Esse é o problema. Não tenho como escolher o momento. Nem você.
— Então entende.
— Não. Um homem precisa saber quando semear, quando colher, quando punir, quando enviar soldados e quando retirar uma ordem. Tudo isso tem tempo.
— E?
— E você quer que essas decisões convivam com uma vontade que ninguém sabe quando se manifesta.
— Nunca pedi que deixasse de governar.
— No outro dia, exigiu minha presença num rito porque um homem mencionara Zeus durante um julgamento.
Agelau ficou em silêncio.
Licaão lembrou do carneiro doente, do substituto branco, da insistência do sacerdote em separar a sentença do rei e a obrigação diante do altar.
Naquele dia cedera porque o custo político da disputa parecia maior do que a própria concessão.
Agora a questão já não lhe parecia tão pequena.
Agelau respondeu:
— Há costumes nesta casa mais antigos que você.
— Sei.
— Ritos que existiam antes de seu pai e continuarão depois de seu filho.
— Também sei.
— Então não entendo por que fala como se tivesse descoberto ontem que não controla tudo.
Licaão demorou a responder.
Talvez realmente tivesse descoberto alguma coisa.
Só não era sobre Zeus.
— Se estivesse no pátio ontem, teria mandado parar o castigo quando Leonte suplicou?
Agelau pensou.
— Talvez.
— Por quanto tempo?
— O suficiente para tratar a súplica com cuidado.
— Uma hora?
— Não se mede dessa forma.
— Até o fim do dia?
— Também não.
— Então o que faria?
— Não exigiria uma resposta de Zeus.
— Mas exigiria que eu respeitasse a possibilidade de uma.
— Sim.
— Com base em quê?
Agelau entendeu a direção da pergunta.
— Tenha cuidado.
Licaão sentiu a irritação voltar.
— Com o quê?
O sacerdote apontou para o altar.
— Com a diferença entre não compreender a vontade de um deus e concluir que ela não importa porque não consegue medi-la.
— Não disse isso.
— Ainda.
Licaão permaneceu diante dele.
A conversa podia se transformar num confronto maior. Não precisava acontecer naquele momento.
— Vá cuidar do que veio fazer.
Agelau não se moveu.
— Há outra razão para eu estar aqui.
— Sempre há.
— Amanhã é a oferenda da casa.
Licaão lembrava. Era um rito doméstico simples, realizado todos os anos. Vinho, farinha, parte de um animal. Nada que exigisse grande preparação.
— E?
— Quero Níctimo presente.
— Ele costuma estar quando é necessário.
— Quero que esteja especialmente amanhã.
— Por causa de ontem?
— Em parte.
Licaão aproximou-se.
— Não transforme meu filho em instrumento de correção.
— Não pretendo corrigir o senhor por meio dele.
— Então não o use.
Agelau sustentou o olhar.
— Ele é o herdeiro. Precisa saber que esta casa não começou com o homem que hoje se senta nela.
O pátio pareceu menor.
Licaão parou antes de chegar mais perto.
— Níctimo estará presente.
Agelau pareceu satisfeito.
Licaão completou:
— Porque eu decidi que estará.
A satisfação desapareceu.
— Como quiser.
— É exatamente assim.
Licaão indicou a saída.
Agelau foi embora sem despedida.
O rei permaneceu diante do altar.
Uma rachadura fina atravessava a base da pedra. Devia existir havia anos, mas ele nunca reparara. Passou o polegar por ela e sujou a pele de cinza.
A pedra não dizia nada.
Agelau falava. Os homens falavam. Os costumes chegavam até ele pela boca de pessoas que afirmavam guardá-los.
Talvez Zeus também falasse por alguém.
Licaão não conseguia provar que não.
Essa possibilidade, em si, não o incomodava tanto quanto na véspera.
O problema era o que poderia ser exigido dele enquanto esperava para descobrir.
Ao meio-dia, a sala grande estava cheia.
Os pastores do norte traziam outra disputa, desta vez sobre uma garganta estreita usada para conduzir rebanhos às pastagens altas. Um proprietário chamado Péron queria restringir a passagem durante parte do verão. Alegava que animais de outras aldeias comiam a vegetação de suas encostas e danificavam trechos próximos às terras cultivadas.
Três aldeias dependiam daquele caminho.
Mélas defendia que permanecesse aberto. Péron queria compensação.
Níctimo estava presente. Theron também.
Licaão mandou buscar o registro antigo das passagens.
A tábua não mencionava pagamento.
— Então o caminho continua aberto.
Péron se inclinou.
— Meu rei, meus avós permitiam a passagem por causa do altar na garganta.
Licaão levantou os olhos.
— O altar ainda existe?
— Parte dele.
— O que aconteceu?
— As chuvas derrubaram algumas pedras. Agelau disse que, enquanto o lugar continuar sagrado, o caminho deve permanecer livre.
Mélas esfregou a testa com dois dedos.
Licaão percebeu.
Naquela manhã, parecia que toda disputa encontrava alguma maneira de levar um deus para dentro da sala.
— Você quer fechar a passagem completamente? — perguntou.
— Quero limitar os dias e o número de animais.
— Porque comem sua vegetação.
— E pisoteiam a margem. Em alguns pontos já vejo terra nua.
— Quanto perde com isso?
Péron não entendeu.
— Meu rei?
— Em grão, pastagem, animais. Quanto essa passagem lhe custa durante um verão?
Mélas interveio:
— Podemos mandar alguém medir.
— Quero uma estimativa agora. Depois conferimos.
O conselheiro começou a fazer perguntas. Quantos rebanhos passavam, com que frequência, quanto tempo permaneciam na garganta, qual extensão da propriedade era atingida.
Péron exagerou.
Os representantes das aldeias também.
Depois de algum tempo, Mélas chegou a um valor provisório de compensação em cevada.
Péron achou pouco.
Os pastores acharam muito.
Licaão tomou isso como sinal de que podiam trabalhar a partir dali.
— O caminho permanece aberto. As três aldeias dividem a compensação. Mélas registra a quantidade e manda conferir depois da próxima passagem.
Péron não pareceu satisfeito, mas concordou.
Níctimo perguntou:
— E o altar?
A sala ficou mais quieta.
Licaão olhou para o filho.
— Continua onde está.
— Mas se Agelau disser que o caminho precisa ficar aberto porque o lugar é sagrado?
Licaão percebeu o que Níctimo realmente perguntava.
— A passagem ficará aberta porque há um acordo anterior e três aldeias dependem dela.
— Então o altar não entra na decisão?
As pessoas na sala prestaram atenção.
Havia uma resposta fácil. Bastava dizer que entrava, de algum modo, e encerrar.
Licaão não usou essa saída.
— Não para resolver esta disputa.
Péron abaixou a cabeça.
Níctimo continuou olhando para o pai.
Licaão apontou para a tábua do acordo.
— Se amanhã as últimas pedras do altar caírem, essas aldeias ainda precisarão atravessar a garganta. Se o altar permanecer ali por mais cem anos, a necessidade também continua.
Mélas disse:
— Continua.
— Então a decisão fica baseada no acordo, no uso e no prejuízo que podemos medir.
Péron aceitou.
Licaão encerrou o caso.
Theron saiu com os homens para garantir que o novo valor fosse registrado e que ninguém interpretasse “continuar aberto” como autorização para deixar animais pastando nas encostas de Péron.
Restaram Mélas e Níctimo.
O conselheiro recolheu as tábuas.
— Aquilo foi para Agelau?
— Não.
— Tem certeza?
Licaão pensou antes de responder.
— Tenho.
Mélas pareceu acreditar apenas o necessário.
— Então foi para quem?
Licaão não respondeu.
Níctimo levantou-se.
— Posso perguntar uma coisa?
— Você faria mesmo sem permissão.
— Se o altar não teve importância na decisão de agora, por que eu preciso estar na oferenda amanhã?
Mélas olhou discretamente para a porta, como quem reconsiderava a própria permanência.
Licaão não o dispensou.
— Porque é um costume desta casa.
— Mas não é o mesmo argumento?
— Não.
— Por quê?
Licaão puxou uma cadeira com o pé.
— Sente.
Níctimo sentou.
Licaão permaneceu de pé.
— Quando eu morrer, quem governa esta casa?
O rapaz se incomodou com a pergunta.
— Eu.
— Quando Mélas morrer, quem aconselha o rei?
— Espero sinceramente que esse problema venha depois do primeiro — disse Mélas.
Licaão continuou como se não tivesse ouvido.
Níctimo respondeu:
— Outro conselheiro.
— Quando Agelau morrer?
— Outro sacerdote.
— E a casa?
— Continua.
Mélas acrescentou:
— Desde que nenhum de vocês resolva incendiá-la por princípio.
Níctimo riu.
Licaão apoiou a mão no encosto da cadeira do filho.
— Amanhã você estará no rito porque precisa conhecer as coisas que recebeu. Não porque Agelau decidiu por você.
Níctimo pensou.
— Mas, se o costume é sagrado, isso não torna a ordem de Agelau correta?
— Talvez em parte.
— “Talvez” não parece muito seguro.
Mélas ajeitou as tábuas contra o peito, mas ficou quieto.
Licaão respondeu:
— Quero que saiba o que está fazendo antes de decidir por que continuará fazendo.
— Você sabe por que participa dessa oferenda?
Era uma pergunta boa.
Licaão retirou a mão da cadeira.
— Durante muitos anos, porque meu pai fazia. Antes dele, o pai dele. Nunca precisei de motivo melhor.
— E agora?
Licaão olhou para a luz além das colunas.
— Agora estou pensando nisso.
Níctimo ficou calado.
Mélas comentou:
— Pense devagar.
Licaão voltou-se.
— Preferia que eu não pensasse?
— Prefiro que nenhum pensamento novo seu se transforme em decreto antes da refeição.
Dessa vez Licaão riu.
Níctimo também.
Mélas juntou as últimas tábuas.
— Há mais alguma coisa hoje?
— Duas disputas sobre animais.
— Animais comuns ou algum deles pertence a Apolo sem nosso conhecimento?
— Cabras.
Mélas ergueu as mãos.
— Finalmente.
Licaão olhou para ele.
— Não diga.
— Nem falei o nome de deus algum.
— Continue assim.
Mélas saiu.
Níctimo ficou.
— Pai.
— O quê?
— Ontem você perguntou se eu achava que Zeus tinha ouvido Leonte.
Licaão esperou.
— Acho que a pergunta estava errada.
— Qual faria hoje?
Níctimo levou algum tempo.
— Se ouvir importa quando ele não faz nada.
Licaão sentou-se diante dele.
A pergunta atingia exatamente o ponto em que passara o dia.
— Para Leonte, não importou. Ele recebeu os vinte golpes.
— Eu sei.
— Para mim, importa.
Níctimo esperou.
— Como?
Licaão apoiou os braços nos joelhos.
— Quando você governar, muita gente vai lhe dizer o que deve fazer. Sua mãe. Conselheiros. Sacerdotes. Proprietários. Homens que não possuem nada. Soldados. Aldeias inteiras.
— Sei.
— Ainda não sabe quanto.
Níctimo aceitou.
— Alguns terão boas razões. Outros usarão medo. Outros vão se apoiar no costume. Às vezes a mesma pessoa usará tudo ao mesmo tempo.
— Agelau.
— Agelau será uma delas.
— E Zeus?
Licaão demorou.
— Se Zeus quiser alguma coisa de você, terá de descobrir como reconhecer.
— Isso não ajuda muito.
— É o que tenho.
Níctimo encarou o pai.
— Então você realmente não sabe.
— Não.
— E isso não incomoda?
— Incomodou mais ontem.
Níctimo esperou que ele continuasse.
Licaão passou os dedos pela madeira gasta da cadeira. Outros homens haviam se sentado ali antes dele; a borda estava lisa onde mãos repetidas haviam tocado ao longo dos anos.
— Se eu deixar de punir um ladrão porque alguém me diz que Zeus pode se ofender, quem tomou a decisão?
Níctimo pensou.
— A pessoa que disse.
— Se entrego terra porque alguém diz que Poseidon moveu um riacho para mostrar sua vontade?
— Quem interpretou o riacho.
— Exatamente. Talvez um sacerdote. Talvez o homem que escolheu o nome certo na hora certa.
— Mas pode acontecer de um deus realmente querer alguma coisa.
— Pode.
Licaão não teve dificuldade em admitir.
A possibilidade sempre existira. Continuava acima das montanhas, em altares, histórias, juramentos e medos que precediam sua própria casa.
Níctimo perguntou:
— Então como você distingue?
Licaão encarou o filho.
— Ainda não sei.
O rapaz se mostrou frustrado.
Licaão conhecia a sensação. Passara a noite desejando uma resposta que pudesse pesar como grão numa balança.
— E justamente porque não sei, não posso deixar a casa parada até descobrir.
Níctimo permaneceu atento.
Licaão prosseguiu:
— Homens vão continuar trazendo disputas. Estradas precisam ser abertas. Comida precisa ser repartida. Alguém vai mentir. Outro vai roubar. Um sacerdote vai dizer que certo costume deve ser respeitado. Tudo isso continuará acontecendo enquanto esperamos qualquer resposta dos deuses.
— Então você vai ignorá-los?
— Não.
— O que vai fazer?
Licaão pensou antes de responder.
— Governar com o que tenho diante de mim. Se um deus quiser impedir uma decisão minha, imagino que saberá onde me encontrar.
Níctimo ficou em silêncio.
— Agelau odiaria ouvir isso.
— Não disse para Agelau.
— Disse para mim?
— Também.
— E para quem mais?
Licaão olhou para o céu além das colunas.
— Para mim.
Naquela tarde, Licaão foi aos depósitos sem avisar.
O responsável quase derrubou uma tábua de contagem quando o viu entrar.
— Meu rei.
— Quero ver o grão.
O homem obedeceu.
Licaão percorreu as fileiras de sacos, cestos e ânforas. O ar era seco, carregado de cevada, palha e poeira. Pequenos feixes de luz entravam por aberturas próximas ao teto, revelando partículas suspensas.
Parou diante da porta lateral.
Uma tranca nova ocupava o lugar da que Leonte quebrara. A madeira em torno do encaixe ainda guardava a marca da violência.
— Foi por aqui?
— Sim, meu rei.
Licaão tocou a madeira lascada perto da fechadura.
— A família dele recebeu grão?
— Não daqui.
— Mélas mandou alguma coisa?
O responsável conferiu uma pequena tábua.
— Dois cestos esta manhã.
— Quanto isso dura?
— Depende da casa. Alguns dias, talvez uma semana economizando.
Licaão passou os olhos pelas fileiras.
— Há outras famílias na mesma situação?
O homem respondeu com cuidado.
— Sempre há gente passando dificuldade.
— Quantas estão perto de não ter o que comer?
— Não sei dizer.
— Descubra.
— Todas?
Licaão olhou para a nova tranca.
— Comece pelas que vivem perto o suficiente para chegar aqui de noite.
O homem não soube se aquilo era humor.
Não era.
— Quero nomes. Número de pessoas na casa, animais, terra e quanto grão ainda têm. Entregue a Mélas até amanhã.
— Sim, meu rei.
Licaão saiu do depósito.
Do lado de fora, homens carregavam madeira para reparar o telhado de uma construção menor. Dois meninos conduziam cabras pela passagem junto ao muro. Da cozinha vinha cheiro de pão recém-retirado do forno.
A casa seguia trabalhando.
Dessa vez, ao atravessar o pátio, Licaão não conferiu o céu.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


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