O homem queria que Licaão decidisse onde uma cerca deveria ficar. A cerca, segundo ele, ocupava o mesmo lugar havia onze anos.

— Onze?

Eutíades confirmou com a pressa de quem já repetira o número muitas vezes.

— Onze, meu rei.

Licaão indicou a tábua sobre os joelhos de Mélas.

— Tem certeza?

O proprietário olhou para o conselheiro e perdeu parte da convicção.

— Dez… talvez onze.

Mélas examinou as marcas na argila.

— Nove. A primeira reclamação sobre a mudança aparece aqui, nove anos atrás. Se a cerca já estava no lugar novo quando vieram reclamar, onze não cabem.

Eutíades tentou recuperar terreno.

— Então nove.

Licaão apoiou um braço no joelho.

— Há pouco eram onze.

— Enganei-me.

— Dois anos inteiros.

Mélas acrescentou, sem levantar os olhos:

— Quando falou comigo antes da audiência, eram doze. Estamos avançando.

Crítias, o vizinho mais velho, permanecia ao lado havia tempo suficiente para começar a parecer prudente. Não ajudava Eutíades nem o contradizia. Esperava.

Atrás deles, a casa seguia o curso normal do fim da tarde. Um servo atravessou o pátio com duas ânforas apoiadas contra o peito; mais longe, dois homens pesavam um saco de cevada pela terceira vez porque nenhum deles confiava na balança do outro. Da cozinha vinha cheiro de pão. Em algum curral, uma cabra berrava com persistência.

Licaão voltou à disputa.

— Por que a cerca precisa mudar agora?

Eutíades apontou para o vizinho.

— Porque ele abriu uma vala e desviou a água para minha terra.

Crítias enfim se manifestou.

— Não desviei para terra nenhuma. Quando chove forte, a água desce pelo meu campo levando tudo. Abri a vala para jogar o excesso no barranco.

— E agora ela corre junto à minha cerca.

— Porque sua cerca avançou onde não devia.

— Está ali há nove anos.

— Agora são nove?

Eutíades fez menção de responder.

Licaão cortou antes.

— A vala ainda está aberta?

— Está — disse Crítias.

— Mélas manda alguém olhar amanhã. Quero medida da cerca, da vala e do escoamento.

Eutíades começou:

— Meu rei, se—

— Se eu decidir sentado aqui para onde a água corre, vocês voltam depois da próxima chuva para me informar que ela não obedeceu.

Crítias abaixou a cabeça, tentando esconder o divertimento.

Licaão viu.

— Não fique satisfeito. A parte nova da vala será fechada até medirem.

O humor desapareceu de Crítias.

— Se chover esta noite, a água vai descer novamente pelo campo.

— Então terá descoberto o preço de alterar o curso antes de resolver a disputa.

— Sim, meu rei.

Licaão voltou a Eutíades.

— A cerca fica onde está até amanhã.

— Obrigado.

— Ainda não sabe se vai continuar ali.

O homem se corrigiu:

— Então agradeço depois.

— Se tiver motivo.

Mélas marcou a decisão.

Os dois proprietários se retiraram. Só quando atravessaram a galeria e já não podiam ouvir, Licaão repetiu:

— Onze anos.

Mélas soprou o pó acumulado sobre a tábua.

— Doze, nove, onze… se déssemos mais uma hora, ele talvez jurasse que a cerca foi erguida esta manhã.

Licaão pegou a taça ao lado do banco. Restava apenas um fundo de vinho. Bebeu assim mesmo.

A luz começava a entrar oblíqua pelo pátio. Tinham iniciado as audiências depois do meio-dia e quatro homens ainda aguardavam junto à parede, cada um convencido de que seu problema não sobreviveria até a manhã seguinte.

Normalmente Licaão ouviria todos.

Naquele dia, não queria.

Dormira mal, e a causa não fora Eutíades, água, cerca ou qualquer das tábuas empilhadas diante de Mélas.

Níctimo.

Desde a conversa dos dois, o filho cumpria tudo o que lhe cabia. Comparecia quando chamado, assumia audiências, entregava registros, respondia com respeito. Não recusara uma ordem nem levantara a voz.

Licaão teria preferido alguma raiva mais simples. Uma porta batida, uma refeição abandonada, qualquer gesto que pudesse ser confrontado e encerrado.

Aquela correção cuidadosa entre os dois era mais difícil.

— Os outros ficam para amanhã.

Mélas levantou a cabeça.

— Até o homem das cabras?

Licaão procurou entre os quatro.

— Qual?

— O baixo com o braço enrolado. Tem aparência de homem que perdeu uma discussão para o próprio rebanho.

O sujeito segurava o antebraço enfaixado.

— O que aconteceu?

— Diz que o vizinho soltou as cabras de propósito.

— E o vizinho?

— Afirma que cabras não recebem ordens dele.

Licaão devolveu a taça vazia.

— Amanhã.

Mélas passou as tábuas a um auxiliar.

Um guarda apareceu na entrada. Não correu. Os homens que serviam perto do rei aprendiam depressa que correr antes de falar transformava qualquer notícia em ameaça.

— Meu rei.

— Fale.

— Um estrangeiro chegou.

Licaão esperou o restante.

Nada veio.

— E?

— Pede abrigo esta noite.

— Então recebam-no.

— Sim, meu rei.

O guarda continuou onde estava.

Licaão percebeu.

— O que falta?

— Theron está na entrada.

Aquilo explicava a demora.

— Com o homem?

— Chegou enquanto o recebiam. Disse que já o encontrou antes.

Licaão olhou para Mélas.

— Theron começou a conhecer todo viajante da Arcádia?

— Facilitaria bastante o trabalho dele.

Licaão levantou-se.

— Onde estão?

— Pátio externo.

— Dê água e comida ao hóspede. Theron vem falar comigo.

O guarda se virou.

Licaão acrescentou:

— E não deixe o estrangeiro esperando em pé enquanto fazemos isso.

— Sim, meu rei.

Quando o homem saiu, Mélas recolheu mais uma tábua.

— Quer que eu fique?

— Quer ficar?

— Theron encontra um desconhecido na estrada e o mesmo homem aparece alguns dias depois pedindo teto nesta casa. Eu sobreviveria sem saber, mas preferia não testar.

— Então fique.


Theron entrou poucos minutos depois, ainda com poeira nas sandálias e na barra da túnica. A espada permanecia presa à cintura; provavelmente voltara de inspeção sem passar pelos próprios aposentos.

Licaão apontou para o banco, mas Theron ficou de pé.

— Encontrou esse homem antes?

— Na estrada.

— Quando?

— Alguns dias atrás.

— Onde?

Theron indicou a região com poucas palavras. Não precisava de mapa; Licaão conhecia o trecho.

— Estava sozinho?

— Estava.

— Fazendo o quê?

Theron pensou.

— Caminhando.

Licaão encarou-o.

— Atividade preocupante.

— Foi o que vi.

— Conversaram.

— Sim.

— Sobre quê?

Theron soltou a correia do manto do ombro e tornou a prendê-la melhor.

— Estrada. Trabalho. Depois, você.

Licaão se endireitou.

— Eu?

— Ele fez perguntas sobre como suas ordens chegam a quem executa.

Mélas interrompeu o que fazia com as tábuas.

Licaão observou Theron.

— E você respondeu?

— Respondi o que aconteceu.

— Isso permite muitas versões.

— Disse que algumas ordens deixam espaço para decidir o modo. Outras deixam pouco.

— Ele queria saber isso por quê?

— Não explicou.

— Você perguntou?

— Não.

Licaão passou o polegar pela borda da mesa.

— Um estrangeiro encontra o comandante dos meus homens numa estrada e resolve conversar sobre obediência.

Theron respondeu:

— Quando começou, não sabia quem eu era.

— Depois soube.

— E continuou.

Mélas entrou:

— Sacerdote?

— Não me pareceu.

— Mercador?

— Sem mercadoria.

— Soldado?

Theron levou mais tempo.

— Pode ter sido.

Licaão perguntou:

— O que faz pensar nisso?

— Anda bem. Presta atenção em distância, mãos, armas, terreno. Não como quem procura perigo a cada passo; como quem já teve motivo para aprender.

— Tinha cicatrizes?

— Algumas.

Mélas recostou-se.

— Depois de certa idade isso só prova que o homem chegou àquela idade.

Theron concordou.

Licaão ficou pensando no portão externo. Um viajante pedindo hospedagem não deveria interessá-lo mais que uma vala mal cavada. Ainda assim, Theron não costumava memorizar desconhecidos encontrados no caminho.

— Disse de onde vinha?

— Não de forma útil.

— Para onde ia?

— Não falou.

— Perguntou por esta casa?

— Não.

Isso interessou Licaão.

Um enviado poderia esconder o destino. Um viajante comum também.

— Parecia esconder alguma coisa?

Theron esfregou a poeira seca de uma das mãos.

— Não como quem tem medo de ser descoberto.

— Explique.

— Respondia quando queria responder. Quando não queria, também ficava claro.

Mélas perguntou:

— E isso tranquiliza ou piora?

— Ainda não decidi.

Licaão levantou-se.

— Vamos vê-lo.


Encontrou o estrangeiro sob uma cobertura do pátio externo.

Tinham lhe dado uma bacia com água. O homem deixara as sandálias ao lado do banco e terminava de secar os pés com um pano. Perto dele, uma serva dispunha pão, queijo, azeitonas e vinho diluído sobre uma mesa baixa.

Nada nele chamaria atenção num primeiro olhar.

Licaão não confiou no primeiro olhar.

Era um homem maduro, ainda vigoroso, de ombros firmes e barba curta carregada de poeira. O manto não trazia bordado, cor ou símbolo que anunciasse família, cidade ou ofício. A túnica era boa demais para mendigo e simples demais para homem preocupado em demonstrar riqueza.

As sandálias, porém, diziam alguma coisa.

Tinham andado muito.

As tiras estavam gastas em pontos diferentes, uma delas reparada recentemente. Havia pó acumulado onde cavaleiros não costumavam acumulá-lo. Aquele homem chegara a pé.

A serva colocou a última tigela.

Ele agradeceu.

Sem exagero.

Também não a tratou como se fosse parte da mobília.

Quando Licaão se aproximou, o estrangeiro se levantou. A inclinação da cabeça foi adequada à condição de um homem livre recebido por um rei: respeito suficiente, nenhuma teatralidade.

— Disseram que pediu abrigo.

— Pedi.

— Pode ficar esta noite.

— Agradeço.

O homem viu Theron.

— Chegou antes.

— Eu tinha cavalo.

— Isso costuma ajudar.

Licaão observou a troca.

Não havia tentativa de parecer íntimo do comandante nem desconforto com a possibilidade de Theron contradizer alguma coisa.

— Theron disse que vocês conversaram na estrada.

— Conversamos.

— E que fez muitas perguntas.

O estrangeiro considerou.

— Algumas.

— Costuma abordar homens armados e interrogá-los?

Ele olhou para a espada de Theron.

— Ele podia ter ido embora.

Mélas desviou o rosto.

Licaão quase riu.

— Sente.

O hóspede obedeceu.

Licaão ocupou o banco oposto. Theron só se sentou depois que recebeu indicação. Mélas preferiu ficar de pé, embora uma coluna estivesse próxima o bastante para apoiá-lo quando quisesse.

A serva serviu vinho.

O estrangeiro esperou Licaão tocar a própria taça antes de beber.

Outro hábito correto.

Sabia como se comportar numa casa importante.

Licaão reparou nas mãos. Calos nas palmas, pequenas marcas nos dedos, algumas antigas. Nenhum anel. Nenhuma mancha específica de tintura, argila ou metal.

— Seu nome?

— Agetor.

Veio sem demora.

Nome comum. Útil para esconder um homem, caso esse fosse o objetivo, mas também perfeitamente possível como nome verdadeiro.

— De onde vem, Agetor?

— Nos últimos dias, do sul.

— Perguntei de onde vem. Isso só me diz onde esteve.

Agetor bebeu um pouco.

— Nasci longe daqui.

— Onde?

— Do outro lado do istmo.

— Há bastante terra do outro lado do istmo.

— Há.

O homem voltou ao pão.

Licaão esperou.

Agetor não completou a resposta.

Normalmente, um homem naquela posição ofereceria mais. Por vontade de agradar, medo de parecer evasivo ou pressa de cobrir uma mentira. Agetor simplesmente parecia considerar a pergunta respondida.

Licaão tentou por outro caminho.

— Corinto?

— Não.

— Mégara?

— Mais longe.

— Argos?

Agetor levantou os olhos.

— Pretende descobrir a casa em que nasci antes de eu terminar de comer?

Theron baixou a atenção para a taça.

Mélas não conseguiu esconder inteiramente o divertimento.

Licaão estudou o hóspede. A frase poderia ter sido insolência. Não soara como tal. Havia humor, mas sem a ansiedade habitual de quem desafia um rei e imediatamente procura verificar se foi longe demais.

— Depende de quanto demorar com o pão.

Agetor observou o pedaço em sua mão.

— Nesse caso, ainda tenho alguma proteção.

Licaão sorriu.

O estrangeiro voltou a comer.

Foi então que percebeu o detalhe que vinha incomodando desde que chegara.

Agetor não tinha medo.

Licaão conhecia homens sem medo aparente. Guerreiros aprendiam a controlar o rosto; proprietários ricos erguiam a voz para mostrar que não estavam intimidados; jovens orgulhosos sustentavam os olhos de um rei por tempo demais porque queriam provar alguma coisa.

Todos trabalhavam contra o medo.

Agetor não parecia trabalhar contra nada.

Sentava-se diante de Licaão reconhecendo que o homem à sua frente era rei, mas sem permitir que isso alterasse a própria medida.

Enviados de outras casas, às vezes, possuíam aquela tranquilidade.

Mas vinham com selo, presentes, homens, animais, testemunhas.

Agetor chegara com poeira.

— Viaja sozinho há muito tempo?

— Nesta viagem?

— Houve outras?

— Houve.

— Nesta.

— Tempo suficiente.

Licaão soltou uma risada baixa.

— Responde muito pouco.

— Você pergunta bastante.

— Sou rei.

Agetor pegou uma azeitona.

— Percebi.

Theron olhou para ele.

Licaão manteve os olhos no hóspede.

Qualquer outro homem teria acrescentado alguma coisa: meu rei, não quis desrespeitar, é uma honra.

Agetor apenas comeu.

— E isso não o preocupa?

A mão com a azeitona parou.

— Ser rei?

— Estar sentado diante de um que faz perguntas demais.

Agetor realmente pensou.

O intervalo não pareceu procura por resposta segura. Escolhia o que acreditava ser exato.

— Deveria me preocupar?

— Muitos homens achariam que sim.

— Devem ter motivos.

— Você não tem?

— Pedi teto. Você abriu a casa.

Comeu a azeitona.

— Enquanto eu respeitar aquilo que me foi oferecido, espero ser tratado como hóspede.

Licaão precisou procurar onde pressionar a resposta.

— Confia bastante em homens que nunca viu.

— Quem não confia em ninguém não atravessa muitas estradas.

— Existem casas ruins.

— Claro.

— Reis ruins também.

— Também.

Mélas olhou para Licaão.

Agetor não percebeu ou não encontrou razão para se importar.

Licaão apoiou os antebraços sobre os joelhos.

— Já esteve diante de um?

— De rei?

— De um rei ruim.

Agetor tomou outro gole.

— Já estive diante de vários reis.

— Não foi isso que perguntei.

— Sei.

E permaneceu calado.

Agora, sim, havia intenção no silêncio.

Licaão reconheceu com mais facilidade.

— Então sabe evitar respostas.

— Sei evitar algumas que não ajudam em nada.

— Talvez essa me ajudasse.

— Nesse caso, poderia perguntar algo mais útil.

Licaão sorriu.

— O quê?

— Não sei.

— Não parece dizer isso com frequência.

— Digo sempre que é verdade.

A facilidade com que falava as palavras irritou Licaão mais do que o conteúdo.

Homens diziam não sei diante dele como pedido de desculpa, defesa ou confissão de incompetência. Agetor usava a expressão como indicaria uma pedra no caminho.

Está ali.

Não sei.

Licaão recostou-se.

— Theron acha que já foi soldado.

Agetor olhou para o comandante.

— Theron conseguiu tirar muitas conclusões de uma caminhada.

— Foi soldado?

— Já lutei.

— Por quem?

— Por homens que julgavam precisar.

— Isso inclui quase toda guerra.

— Talvez explique por que existem tantas.

Theron fez um ruído que quase foi riso.

Licaão voltou-se.

— Gostou?

— Já ouvi resposta pior.

— Minha?

— Principalmente.

Mélas riu.

Dessa vez Licaão acompanhou.

A tensão da mesa diminuiu por alguns instantes, e Agetor também sorriu. Não tentou usar o humor de Theron para aproximar-se do comandante nem colocar os dois contra o rei. Limitou-se a participar da conversa.

Licaão perguntou:

— Tem família?

O sorriso desapareceu naturalmente.

— Tenho.

— Esperam que volte?

Agetor levou alguns segundos.

— Alguns sempre esperam.

Estranho.

Não impossível.

— Mulher?

— Já tive muitas responsabilidades.

Licaão inclinou a cabeça.

— Isso respondeu?

— Respondeu o que escolhi responder.

Ali estava a primeira porta fechada de maneira clara.

Licaão compreendia portas fechadas.

Um homem sem segredos seria muito mais suspeito.

— Não vou arrancar sua vida inteira enquanto ainda come.

— Agradeço.

— Depois posso mudar de ideia.

Agetor olhou para o pão.

— Vou prolongar a refeição.

Mélas riu outra vez.

Dia apareceu quando a comida já diminuía sobre a mesa. Não vinha por causa do hóspede. Trazia uma questão sobre lã e parou ao perceber que Licaão ainda estava sentado no pátio externo.

— Disseram que chegou um viajante.

Licaão fez a apresentação.

— Agetor. Dia, minha esposa.

Agetor se levantou.

— Senhora.

Ela inclinou a cabeça.

— Deram água quente para os pés?

— Deram água. Bastou.

Dia reparou nas sandálias deixadas ao lado do banco.

— Essas tiras não chegam bem ao próximo vale.

Agetor acompanhou o olhar.

— Chegaram até aqui.

— O que prova apenas que conseguiram chegar até aqui.

Chamou uma serva.

— Veja se Dóron ainda está trabalhando. Se estiver, peça que examine essas sandálias.

Agetor começou:

— Não é necessário—

— Não perguntei se é.

Ele parou.

Licaão esperou para ver como reagiria àquela autoridade muito diferente da sua.

Agetor olhou para Dia, depois para as sandálias.

— Nesse caso, agradeço.

Ela passou o calçado à serva.

— Melhor.

Licaão conhecia aquele tom.

A esposa já decidira. O assunto acabara.

Agetor também percebeu.

Dia perguntou:

— De onde veio?

Licaão teve de controlar o riso.

Agetor olhou para ele.

— Cuidado. Já gastamos algum tempo nessa pergunta.

Dia ergueu as sobrancelhas.

— Ele tentou descobrir?

— Até agora chegamos ao istmo.

— Então não vou desfazer o progresso.

Virou-se para Licaão.

— Sobre a lã.

Duas famílias ainda não haviam entregue a parte prevista. Uma pedira mais alguns dias porque perdera cinco animais no inverno.

Licaão fez duas perguntas e concedeu o prazo.

Agetor não interferiu.

Também não fingiu que a conversa não estava ocorrendo. Escutou como qualquer hóspede sentado à mesma mesa escutaria.

Quando Dia saiu, Licaão perguntou:

— O que achou?

Agetor olhou para a porta.

— Das sandálias?

— Da decisão sobre a lã.

Ele pegou a taça.

— Não conheço o bastante para decidir por você.

A irritação voltou.

— Passou dias perguntando sobre meu governo e agora, sentado à minha frente, ficou sem opinião?

Theron deslocou os olhos para Licaão.

Agetor permaneceu tranquilo.

— Se quer saber se eu teria dado mais prazo, primeiro preciso saber o que você sabia quando decidiu.

— Perderam cinco animais.

— Quantos tinham?

Licaão não respondeu.

— Quanto deviam entregar? Quantos animais sobraram? Quanto tempo pediram? A perda aconteceu quando? Têm outro rebanho?

Licaão voltou-se para Mélas.

O conselheiro ergueu a tábua.

— Posso participar agora?

— Agora resolveu falar.

— Sempre quis. Só estava aproveitando a rara oportunidade de ver você descobrir que havia mais perguntas disponíveis.

Agetor baixou os olhos para a taça.

Licaão apontou para os dois.

— Estou cercado por homens difíceis.

Mélas respondeu:

— Melhor que homens tediosos.

Licaão riu.


Níctimo atravessou o pátio quando o sol já alcançava as paredes mais altas da casa.

Licaão o viu antes que o filho percebesse a pequena reunião. O rapaz vinha de uma das dependências administrativas com duas tábuas sob o braço.

Desde a discussão entre eles, passara mais tempo ali.

Trabalho.

Sempre trabalho.

Licaão reconhecia o uso de uma tarefa como distância porque já fizera o mesmo em outras épocas da vida.

— Níctimo.

O filho parou.

Veio até eles.

— Pai.

Nunca precisara chamá-lo de rei na casa.

Licaão apresentou o hóspede.

Níctimo cumprimentou Agetor. O estrangeiro se levantou outra vez, sem deixar transparecer qualquer irritação com o número de vezes que o protocolo já o fizera sair do banco.

— Fica conosco? — perguntou Níctimo.

— Esta noite.

— Veio falar com meu pai?

— Vim pedir abrigo.

Níctimo olhou para Licaão.

— E terminou conversando com ele.

— Uma coisa levou à outra.

Níctimo sorriu.

Pouco.

Mas Licaão percebeu quanto tempo fazia desde que vira aquela expressão surgir tão perto dele.

— Resolveu o caso de Féron?

O sorriso desapareceu.

— Ainda não.

— Por quê?

— Falta ouvir um homem.

— Qual?

— O irmão da mulher.

Licaão conhecia o caso.

— Ele não estava presente.

— Diz que estava.

— Você acredita?

Níctimo ajustou as tábuas contra o corpo.

— Vou ouvi-lo.

Licaão sentiu a velha vontade de perguntar mais. O que exatamente o homem alegava ter visto? Por que só aparecia agora? Quem o chamara?

Não fez.

— Amanhã?

— Sim.

Níctimo voltou-se para Agetor.

— Boa noite.

— Boa noite.

O rapaz saiu.

Licaão o acompanhou até desaparecer no corredor.

Quando voltou a atenção ao hóspede, encontrou Agetor bebendo.

Não havia curiosidade visível.

Nenhuma tentativa de transformar aquilo em pergunta.

Estranhamente, isso incomodou Licaão.

Qualquer homem interessado em política teria percebido a tensão entre pai e filho. Talvez Agetor também tivesse percebido. A diferença era que não tentava usá-la.

— Você observa muito.

Agetor pousou a taça.

— Estradas ensinam.

— O que observou agora?

Theron permaneceu quieto.

Mélas também.

Agetor poderia ter falado de Níctimo.

Não falou.

— Sua casa ainda está trabalhando a esta hora. Em muitos lugares já estariam apenas terminando o dia.

Licaão esperou.

— Só isso?

— Perguntou o que observei.

— E o que pensou?

Agetor olhou para ele durante alguns instantes.

— Que essa pergunta não era realmente sobre mim.

Licaão permaneceu quieto.

— Então era para quem?

Agetor lançou um olhar breve ao corredor por onde Níctimo desaparecera.

Voltou a Licaão.

— Não sei.

Bebeu.

Licaão riu.

— Você consegue ser irritante sem esforço.

— Não é a primeira vez que ouço.

— Muitas?

— Suficientes para considerar a possibilidade de o problema ser meu.


Licaão encerrou a conversa quando a luz começou a desaparecer.

Não porque tivesse perdido o interesse.

Era justamente o contrário.

Aprendera havia muito tempo que, quando queria demais uma resposta, precisava interromper antes de começar a encontrar significado onde talvez não houvesse.

Chamou um servo.

— Prepare lugar para Agetor na ala dos hóspedes. O que precisar, dê.

O estrangeiro levantou-se.

— Já recebi mais do que precisava.

— Então durma melhor do que precisava.

Agetor inclinou a cabeça.

— Agradeço, Licaão.

Mélas ergueu os olhos.

O detalhe foi pequeno.

O nome.

Sem título.

Sem rei.

Ainda assim, não soou como provocação. Agetor apenas usara o nome do anfitrião ao agradecer pela hospitalidade, como faria talvez na casa de qualquer outro homem.

Licaão continuou olhando.

Agetor percebeu.

— Errei alguma coisa?

A pergunta parecia sincera.

— Não.

— Então boa noite.

— Boa noite.

Ele seguiu o servo.

Um guarda passou na direção contrária, carregando lança. Agetor desviou um passo, abriu espaço e continuou andando. Não conferiu a arma depois.

Mélas esperou até que os dois desaparecessem.

— Quer que eu descubra alguma coisa?

— Sobre o quê?

— Ele. Posso perguntar aos homens da entrada, aos servos, a quem o recebeu.

Licaão virou-se.

— Para descobrir se lavou os pés de forma conspiratória?

— Você ficou examinando o homem desde que sentou.

— Era meu hóspede.

— Recebemos hóspedes com frequência.

— Eu sei.

Theron ainda estava sentado.

Licaão se voltou para ele.

— Quando encontrou Agetor, ele sabia que você servia nesta casa?

— Descobriu durante a conversa.

— Mudou o jeito de falar?

Theron entendeu exatamente a pergunta.

— Não.

— Nada?

— Ficou mais interessado no que eu dizia. Mais cuidadoso, não.

Licaão caminhou até a borda do pátio.

Servos acendiam pequenas lamparinas. Na cozinha, duas tampas de cerâmica bateram uma contra a outra; alguém reclamou. Um cão passou sob a mesa, farejando comida.

A casa seguia comum.

— Estava realmente sozinho quando o encontrou?

— Sim.

— Sem cavalo?

— A pé.

— Arma?

— Uma faca pequena, dessas de viagem.

— Dinheiro?

Theron olhou para ele.

— Não abri a bolsa.

— Você sabe que não perguntei isso.

— Não parecia pobre.

Licaão concordou.

— Nem rico.

— Não.

Olhou para Mélas.

— Enviado de alguma casa?

— Sem selo, presente, testemunha, cavalo ou sequer uma boa mentira sobre a própria origem?

— Pode estar escondendo posição.

— Pode.

— Espião?

Mélas fez uma careta.

— Se for, escolheu péssimo método.

— Por quê?

— Fez o comandante lembrar dele antes de chegar.

Theron acrescentou:

— E entrou pela porta pedindo teto.

— Espiões também usam portas.

— Os melhores normalmente evitam parar Theron na estrada para discutir como ordens são cumpridas.

Licaão voltou-se para o comandante.

— Ainda quero entender por que vocês chegaram a esse assunto.

— Ele perguntou.

— E você responde qualquer viajante que encontra?

Theron precisou pensar.

— Aquele, respondi.

— Por quê?

Silêncio.

Licaão deixou que permanecesse.

Theron acabou respondendo:

— Não sei.

Licaão reparou na diferença.

A mesma expressão que Agetor usara várias vezes naquela tarde. Em Theron, trazia desconforto; era uma falha que o comandante preferiria preencher. No estrangeiro, parecia apenas constatação.

Mélas perguntou:

— Parecia homem importante?

— Não.

Licaão falou antes que o conselheiro continuasse:

— Parece.

Os dois olharam para ele.

Licaão buscou uma definição melhor.

Não era riqueza, nascimento ou autoridade visível. Tampouco exatamente hábito de comando.

— Ele espera ser ouvido.

Mélas apoiou uma mão na mesa.

— Todo segundo homem que entra nesta casa espera isso.

— Agetor não espera do mesmo modo.

Licaão lembrava-se de proprietários ricos, chefes de família, enviados e guerreiros. Cada um carregava a própria importância em alguma coisa: nome, terras, número de homens, armas, pai, cidade.

Agetor chegara sem qualquer dessas garantias.

Quando falava, não conferia o rosto de Licaão para decidir se devia corrigir a frase. Quando permanecia em silêncio, não parecia aguardar permissão para fazê-lo. Admitia ignorância sem diminuir-se e discordava sem crescer para ocupar mais espaço.

Aquilo era incomum.

Homens sem temor diante de um rei quase sempre queriam que o rei percebesse.

Agetor parecia não ter pensado que a ausência de medo fosse algo digno de demonstração.

— Talvez tenha vivido perto de outros reis.

Mélas considerou.

— Explicaria alguma coisa.

— Uma parte.

— Também pode ter simplesmente chegado à idade em que homem se cansa de se impressionar.

Licaão olhou para ele.

— Não é tão velho.

— Cansaço não respeita idade.

Theron perguntou:

— Quer que alguém fique atento a ele?

Licaão se virou.

— É hóspede.

— Não falei em prendê-lo.

— Também não quero um soldado contando quantas vezes o homem sai para urinar.

Mélas riu.

Theron continuou sério.

— Então nada além do normal.

— Exato. Os guardas fazem o que já fariam com qualquer hóspede.

— Certo.

— Se resolver partir antes do amanhecer, não impeçam.

Theron assentiu.

Licaão acrescentou:

— Mas me avisem.

Mélas ergueu uma sobrancelha.

— Não quer vigiar.

— Não.

— Apenas quer saber quando ele sair.

— Isso.

— Distinção fundamental.

— Para a sua permanência nesta casa, sim.

Mélas recolheu as tábuas.

— Agora compreendi perfeitamente.

Theron já ia se levantar quando Licaão continuou:

— Depois que descobriu quem você era, Agetor continuou perguntando sobre minhas ordens?

— Continuou.

— O quê?

Theron procurou na memória.

— Como sei quando devo cumprir uma ordem exatamente e quando posso decidir o modo.

Mélas parou com as tábuas nas mãos.

— E o que respondeu?

— Que quase sempre existe alguma escolha na execução. Mesmo quando a ordem é clara.

— E depois?

Theron passou a mão pelo cinto da espada.

— Perguntou quem carrega o peso quando essa escolha dá errado.

Licaão ficou quieto.

Não havia nada impossível na pergunta. Nenhum conhecimento que um viajante atento não pudesse ter. Um homem poderia atravessar estradas, ouvir histórias, encontrar soldados e acabar chegando àquilo.

Mesmo assim, a pergunta combinava perfeitamente com o hóspede sentado pouco antes diante dele, indiferente ao cálculo constante que os outros faziam para descobrir quanto podiam dizer.

— Você não achou isso estranho?

Theron respondeu:

— Achei.

— E por que não falou antes?

O comandante encarou-o.

— Porque você não tinha perguntado.

Mélas riu.

Licaão passou a mão pela barba.

— Vá embora.

Mélas olhou de um para outro.

— Qual?

— Os dois.

Theron levantou-se e saiu.

Mélas ficou alguns instantes para reunir as últimas tábuas.

— Amanhã temos o homem das cabras.

— Eu sei.

— A vala.

— Também sei.

— E agora Agetor.

Licaão olhou para ele.

— Agetor não é uma audiência.

— Ainda.

Mélas saiu antes que recebesse resposta.


A noite entrou devagar na casa.

Uma serva recolheu a mesa onde haviam comido. Outra levou as taças. Os ruídos diminuíram sem desaparecer. Animais se mexiam nos currais; os guardas trocavam posições; em alguma parte sempre havia alguém pedindo água, reacendendo fogo ou fechando uma porta.

Licaão permaneceu no pátio.

Pensou em Níctimo.

Depois na vala de Crítias.

Por fim, contra a própria intenção, em Agetor.

Tentou enquadrá-lo em alguma coisa conhecida.

Um homem de outra corte explicaria os modos, mas não as roupas nem a chegada sozinho. Um antigo guerreiro explicaria a tranquilidade diante das armas, embora não necessariamente diante de posição. Um enviado escondendo a origem deveria medir cada palavra com mais cuidado. Agetor media apenas aquilo que decidia não revelar.

Um espião faria perguntas.

Provavelmente prepararia respostas melhores.

Talvez Mélas estivesse certo. Agetor podia ser simplesmente um homem que vivera bastante e já não encontrava grande novidade em reis.

A hipótese era suficiente.

Licaão não conseguiu aceitá-la como suficiente.

Conhecia medo.

Muito antes de decidir usá-lo de maneira consciente, aprendera a vê-lo nos outros. Sabia quando um homem falava depressa demais porque temia o silêncio; quando os dedos apertavam uma taça; quando alguém olhava para Theron porque a espada do comandante dizia aquilo que Licaão não precisava repetir.

Também conhecia homens que escondiam medo bem.

E os que o transformavam em raiva.

Agetor vira Theron, a espada, os guardas, a casa e o rei que a governava.

Nada parecera exigir ajuste.

Nem submissão maior.

Nem desafio.

O homem simplesmente ocupava o próprio espaço.

Isso incomodava Licaão porque não compreendia de onde vinha.

E irritava-o ainda mais perceber como essa curiosidade se aproximava de outra pergunta que o acompanhava havia meses.

Recusou o pensamento.

Não havia divindade alguma naquela questão.

Agetor era um viajante.

Um homem com poeira no manto, sandálias ruins, origem vaga e experiência suficiente para ter visto mais de um rei.

Nada além disso.

Licaão levantou-se.

Amanhã teria cercas, água, cabras e homens convencidos de que o próprio problema pesava mais porque lhes pertencia.

E teria um hóspede que, até aquele momento, não fizera nada além de aceitar comida, responder algumas perguntas e irritá-lo por não caber em nenhuma explicação imediata.

Antes de entrar, chamou um guarda.

— Agetor já foi levado para o quarto?

— Sim, meu rei.

— Pediu alguma coisa?

— Mais água.

— Nada além?

— Nada.

Licaão começou a andar.

Parou depois de dois passos.

— Se acordar cedo, diga que coma antes de partir.

— Sim, meu rei.

Licaão continuou pelo corredor.

Parou novamente.

O guarda aguardou.

— Quando ele acordar, me avise.

— Sim, meu rei.

O homem não perguntou por quê.

Licaão entrou.

Ser rei ainda oferecia algumas conveniências.

Na manhã seguinte, falaria outra vez com o estrangeiro.

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