Capítulo 23 — O Teste
por Sonhado acordadoA chama não repetiu o que fizera durante a oferenda.
Licaão tentou três vezes.
Na primeira, colocou sobre o braseiro uma porção de gordura próxima da que Agelau usara. O fogo reagiu como fogo: cresceu depressa, estalou, lançou uma faixa escura de fumaça para o lado do muro.
Na segunda, abriu a passagem lateral. O ar entrou com mais força do que recordava daquela tarde e desmanchou a fumaça antes que ela atravessasse metade do pátio.
Na terceira, deixou a madeira queimar até formar uma cama limpa de brasas. Fechou uma das portas, abriu a outra e esperou.
A chama quase morreu.
Licaão continuou agachado diante do altar, com os cotovelos apoiados nos joelhos.
Era tarde. Boa parte da casa dormia. Dos espaços mais afastados vinham apenas ruídos soltos: um animal raspando madeira, uma tosse, alguma porta mal assentada tocando a pedra quando o vento alcançava o corredor. A lamparina deixada junto dele mal iluminava o outro lado do pátio.
Nada do que encontrara naquela pedra exigia um deus.
Gordura queimava depressa. Resina fazia a chama subir. Fumaça acompanhava o ar. Portas abertas criavam correntes que um homem só percebia quando começava a procurá-las.
Agelau dissera que homens encontravam sinais quando desejavam encontrá-los.
Licaão retirou das cinzas um pedaço de madeira carbonizada, aproximou-o do rosto e cheirou.
Resina. Fumaça. Gordura.
Jogou-o novamente no braseiro.
— Vai reconstruir a oferenda inteira?
Dia estava na passagem.
Licaão não ouvira seus passos.
— Não.
Ela entrou no pátio e olhou para as manchas de gordura na pedra.
— Parece que está tentando.
— Estou verificando uma coisa.
— A fumaça?
— A causa.
Dia trazia uma manta enrolada sobre os ombros e os cabelos presos de qualquer maneira, sem os cuidados do dia. Aproximou-se do altar, mas não se agachou.
— Encontrou?
— Algumas possibilidades.
— Alguma que permita que você volte para a cama?
Licaão ergueu os olhos.
— Ainda não decidi que preciso de uma.
Dia apontou para o braseiro.
— Está acordado no meio da noite queimando gordura.
— Você também está acordada.
— Porque meu marido está no pátio, no meio da noite, queimando gordura.
Ela olhou para a madeira, para a porta aberta e depois para ele.
— Agetor fez alguma coisa hoje?
— Fez muitas coisas.
— Alguma que justifique isto?
Licaão indicou o altar.
— Ele não fez isto.
— Melhor ainda.
— Não foi o que quis dizer.
— Eu sei.
Dia apertou a manta contra o corpo.
— Lembra das cabras de Tisâmenes?
Licaão não precisou pensar muito.
— Estavam sendo roubadas.
— Estavam saindo por uma parte ruim do muro.
— Descobri depois.
— Depois de passar uma tarde inteira seguindo pegadas porque estava convencido de que havia um ladrão.
— Havia pegadas.
— De cabra.
— Cabras costumam deixar pegadas quando passam.
Dia sorriu.
Só por um instante.
Depois olhou outra vez para as cinzas.
— Quando percebeu que não havia ladrão, voltou para casa.
Licaão apoiou os antebraços nos joelhos.
— Ainda não descobri o que há aqui.
— Talvez nada.
— Talvez.
— E isso não está sendo suficiente para você.
Ele não respondeu.
Dia continuou:
— Agetor está sob nosso teto como hóspede.
— Eu sei.
— Então sabe o que devemos a ele.
Licaão se levantou.
— Não preciso que me ensine hospitalidade.
— Não estou ensinando. Estou lembrando por que você ainda não o tratou como trataria um espião.
Aquilo o fez parar.
Dia percebeu.
— Se acreditasse que ele veio contar guardas, medir passagens ou descobrir quantos homens Theron consegue pôr numa estrada, já teria dado ordem.
— Theron está verificando coisas.
— Não o bastante para você.
— Não.
— E você não mandou abrir a bolsa dele.
— Claro que não.
— Não mandou ninguém acompanhá-lo quando foi até a figueira.
— É meu hóspede.
— Não colocou guarda diante do quarto.
Licaão pegou a lamparina.
— Aonde quer chegar?
Dia demorou um pouco.
— Ainda não sei.
A resposta o incomodou mais do que uma acusação direta.
— Dia.
— É justamente isso que me preocupa.
Ela não aumentou a voz.
Licaão caminhou ao redor do altar.
— Não estou tentando provar nada.
— Ainda.
Ele a encarou.
Dia sustentou o olhar.
— Você não precisa entender tudo que cruza esta porta.
— Preciso entender o que pode ameaçar esta casa.
— Ele ameaçou?
— Não.
— Mentiu?
Licaão pensou nas respostas incompletas de Agetor.
— Não consegui provar.
— Mas tentou.
— Um homem que se recusa a dizer de onde vem merece perguntas.
— Concordo.
— E um homem que conhece coisas que não devia?
— Mais perguntas.
— Então estamos discutindo por quê?
Dia apontou para o altar.
— Por causa disso.
Licaão não respondeu.
— Você não está com medo — disse ela.
— Não.
— Eu sei.
A certeza na voz de Dia o incomodou.
— Está interessado.
— Interesse evita surpresa.
— Às vezes.
Ela se aproximou e retirou com dois dedos um pedaço de cinza preso à manga dele. O gesto era antigo, doméstico, quase absurdo naquele pátio em que Licaão vinha tentando reproduzir um possível sinal dos deuses.
— Venha dormir.
— Já vou.
Dia olhou as cinzas.
— Não faça outra.
— Outra o quê?
— Fogueira.
— Não pretendia.
Ela deu alguns passos e parou na passagem.
— E não transforme o homem numa pergunta só porque ainda não conseguiu a resposta.
Foi embora.
Licaão esperou mais um pouco, apagou a lamparina e voltou aos aposentos.
Dormiu mal.
Não por causa da fumaça.
Isso o irritava.
Quando amanheceu, tinha três explicações perfeitamente suficientes para o que acontecera no altar: a corrente de ar, a gordura, a resina. Talvez uma delas. Talvez as três.
O problema continuava sendo Agetor.
Licaão comeu pouco e começou a trabalhar antes de a casa despertar por completo.
Dois servos ainda retiravam tigelas da refeição quando Theron entrou.
— Descobriu alguma coisa?
Theron puxou um banco e sentou sem esperar convite.
— Sobre qual das dez?
— O hóspede.
— Não diga “o hóspede” como se só tivesse me dado uma pergunta.
— Dei uma.
— Cada resposta trouxe outras nove.
Licaão fez um gesto para que continuasse.
Theron tirou do cinto uma pequena tira de couro dobrada, usada para anotar nomes e lugares.
— Ninguém que chegou ontem conhece uma casa que o reclame.
— Perguntou por Agetor?
— Há outros Agetores.
— Aquele.
— Não.
— Ótimo.
— Não devia ajudar.
Theron abriu o couro sobre a mesa.
Havia marcas simples feitas a ponta de metal.
— Um homem vindo do oeste lembra de um viajante parecido junto a uma fonte três dias atrás. Outro diz que viu alguém da mesma descrição antes disso, mais ao sul.
— Sozinho?
— Nos dois casos.
— O que carregava?
— Manto, bolsa pequena e um bastão.
— O mesmo bastão?
Theron olhou para Licaão.
— Se pretende confiar na memória de homens sobre bastões, podemos parar agora.
Licaão ignorou.
— Mais.
— Falei com Dóron sobre as sandálias.
— E?
— Couro bom. Reparadas mais de uma vez. Um tipo de prego que ele já viu mais ao norte, costura parecida com trabalho do oeste e uma sola feita num lugar onde alguém sabia fazer sola.
Licaão ergueu os olhos.
— Isso foi inútil.
— Também achei.
Theron cruzou os braços.
— Não há marca de casa, selo escondido ou qualquer coisa que diga quem o homem é. Antes que pergunte, ninguém abriu a bolsa dele.
— Fez bem.
Theron estudou a reação.
— Achei que perguntaria se devíamos.
— Não.
— Certo.
— Enquanto estiver nesta casa como hóspede, ninguém toca no que pertence a ele.
Theron se apoiou no banco.
— E depois que sair?
Licaão olhou para ele.
— Quando sair, deixa de estar sob meu teto. Não deixa de ter comido meu pão.
Theron compreendeu.
— Continuamos perguntando a terceiros.
— Sim.
— Quem?
— Mercadores. Homens que conheçam outras cortes. Algum viajante vindo do istmo.
— Isso pode levar dias.
— Agetor não ficará dias.
— Então talvez nunca descubra.
A frase saiu sem provocação.
Licaão ergueu os olhos.
— Isso não incomoda você?
— Não saber quem é um viajante?
— Sim.
Theron deu de ombros.
— Convivo com não saber muitas coisas.
— Explica algumas decisões suas.
O comandante sorriu.
— Se vai me insultar, espere pelo menos o vinho.
Licaão dobrou o couro e o empurrou de volta.
— Falta uma coisa.
— Naturalmente.
— Ele tem moedas?
— Ofereceu pagamento a Dóron pelo reparo. O servo recusou porque o homem é hóspede da casa.
— Viu a moeda?
— Não.
— Descubra de onde é.
Theron levantou-se.
— Sem mexer na bolsa.
— Theron.
— Estou confirmando.
— Vá.
O comandante saiu.
Licaão permaneceu sozinho.
Roupa reparada em lugares diferentes. Nenhum selo. Nenhuma casa conhecida. Uma rota que parecia longa.
Nada disso era extraordinário.
Era o que se esperava de alguém que viajara muito.
O restante era que não se encaixava.
O modo como falava diante de reis.
A precisão com que se aproximava de histórias recebidas por partes.
O conhecimento de estradas e ritos.
A fumaça.
Licaão se levantou antes que a lista continuasse.
Havia homens esperando.
O primeiro assunto era um boi.
Ele recebeu a notícia com satisfação.
Bois eram melhores que hóspedes.
Tinham dono, peso, chifres e uma capacidade bastante previsível de atravessar onde não deviam.
Dois irmãos de uma propriedade a oeste discutiam sobre quem pagaria por um boi que quebrara a perna ao cair numa vala aberta durante um reparo de estrada.
O dono queria outro animal.
O responsável pela obra dizia que sinalizara a vala.
O irmão do dono afirmava que o aviso fora feito tarde.
Níctimo estava presente.
Mélas também.
Agetor entrou quando a discussão já começara.
Parou na porta.
Licaão o viu.
— Entre.
Agetor ficou onde estava.
— Não quero interromper.
— Não está interrompendo.
O dono do boi olhou para ele.
— Quem é?
— Meu hóspede.
Isso bastou.
Agetor sentou-se num dos bancos laterais.
Licaão voltou à audiência.
— Você viu a vala antes de soltar o animal?
— Só depois.
— Levou o boi para o campo quando?
— Pela manhã.
— E ele caiu?
— No fim da tarde.
Licaão olhou para o responsável pela obra.
— Quando marcou a vala?
— Antes do meio-dia.
— Como?
— Pedras e galhos.
— Quantos?
— O suficiente.
— Quero número, não confiança.
O homem demorou.
Níctimo baixou o rosto para esconder um sorriso.
Licaão viu.
— Quatro pedras grandes. Alguns galhos por cima.
— Dos dois lados?
— Só de um.
— Por quê?
— Não achei que algum animal viria pelo outro lado.
— O boi achou.
Mélas tossiu para disfarçar o riso.
O proprietário não achou graça.
Licaão continuou:
— O animal estava solto?
— Estava no campo.
— Sem ninguém tomando conta?
— Meu filho estava perto.
— Idade?
— Nove.
Licaão virou-se para o irmão.
— Você disse que soube da vala antes da queda.
— Soube.
— Quanto tempo antes?
— Uma ou duas horas.
— E não avisou seu irmão.
O homem não respondeu.
Licaão já tinha o bastante.
— O responsável pela obra paga um terço do valor do boi porque deixou uma passagem sem marca adequada. O dono paga outro terço porque deixou um menino de nove anos cuidando sozinho do animal perto de obra aberta. O terço restante fica com o irmão, que soube do risco e decidiu não dizer nada.
Os três começaram a protestar.
Licaão levantou uma mão.
As vozes cessaram.
— O animal continua vivo?
— Continua.
— Ainda trabalha?
— Não.
— Pode ser abatido?
O proprietário concordou com relutância.
— Então primeiro descontamos o valor da carne. O que restar é dividido como determinei.
Ninguém respondeu.
Licaão olhou para Níctimo.
— Algo?
O filho pensou.
— Não.
Licaão voltou-se para Agetor.
— E você?
O estrangeiro pareceu genuinamente surpreso.
— Eu?
— Queria ver como governo.
— Nunca pedi isso.
— Mesmo assim viu.
Agetor examinou os três homens.
— A decisão me parece boa.
A satisfação veio antes que Licaão pudesse impedir.
Pequena.
Inconveniente.
Recebera elogios de homens muito mais importantes que aquele viajante. A aprovação de Agetor não devia valer coisa alguma.
Valeu.
Licaão irritou-se consigo mesmo.
— “Parece”?
Agetor respondeu:
— Não conheço o boi.
Níctimo riu.
Até o dono do animal achou graça.
Licaão dispensou-os.
— Podem ir.
Os três saíram ainda discutindo sobre quanto valia a carne.
A audiência seguinte era uma mulher acompanhada pelo filho, um rapaz de uns dezesseis anos.
Ele devia ter trabalhado quatro dias na limpeza de uma passagem usada por rebanhos.
Cumprira dois.
No terceiro voltara para casa porque a irmã menor adoecera. No quarto não retornara. O responsável pela equipe registrara as ausências e exigia quatro dias adicionais como punição.
Licaão encarou o homem.
— Quatro dias por duas ausências?
— Para que os outros entendam que não podem simplesmente desaparecer.
— Ele avisou?
— Mandou um menino.
— O menino chegou?
— Chegou.
— Então não desapareceu.
O responsável tentou:
— Mas não voltou.
Licaão virou-se para a mulher.
— Sua filha?
— Está melhor.
— Morreu?
— Não.
— Havia alguém em casa além dele?
— Eu.
— Conseguia cuidar da menina?
A mulher demorou.
— Conseguia.
O rapaz olhou para ela.
Licaão percebeu.
— Então por que precisou voltar?
A mulher ficou quieta.
O filho respondeu:
— Minha mãe também estava doente.
— Eu não—
— Mãe.
Licaão olhou para a mulher.
— Estava?
Ela cedeu.
— Febre.
— E agora?
— Já passou.
Licaão apoiou o braço no assento.
— Você perdeu dois dias.
O rapaz confirmou.
— Vai cumpri-los.
O encarregado abriu a boca.
Licaão continuou:
— E mais um dia.
— Meu rei—
— Um. Porque não retornou nem procurou autorização direta para permanecer em casa. Não quatro.
O homem claramente não gostou.
— Os outros vão dizer que—
— Vão dizer que um rapaz avisou, tinha duas pessoas doentes em casa e mesmo assim pagou um dia adicional. Se quiser que digam algo diferente, traga uma situação diferente.
Agetor permanecera calado.
Licaão percebeu.
— Discorda?
— Não tenho informação suficiente.
— Pergunte.
Agetor voltou-se para o rapaz.
— Quem fez seu trabalho nos dias em que faltou?
O encarregado respondeu:
— Dividimos entre os outros.
— Quantos eram?
— Sete.
Agetor olhou para Licaão.
— Então esses sete trabalharam mais.
— Sim.
— O dia adicional será para eles?
Licaão entendeu a pergunta.
— Não.
— Para quem?
— Para a obra.
Agetor assentiu e não disse mais nada.
A pergunta, porém, ficou.
O responsável pela equipe parecia desejar que todos esquecessem.
Licaão olhou para o rapaz.
Depois para a mãe.
— O dia adicional será cumprido depois dos dois que já deve. Vai trabalhar onde estiverem os sete homens que cobriram a sua parte. Não no trecho anterior.
O encarregado protestou:
— Isso complica a escala.
— Então fique com sua proposta de quatro dias e explique aos homens por que dois dias perdidos custam quatro.
Ele se calou.
Licaão olhou para Agetor.
— Melhor?
— Mais claro.
A satisfação voltou.
Licaão passou a gostar ainda menos dela.
— Está usando o homem como espelho.
Mélas falou quando Agetor já saíra para comer.
Licaão juntava as tábuas.
— Uso você há anos. Nunca reclamou.
— Eu recebo vinho.
— Agetor também.
— Então fomos contratados para a mesma função.
Níctimo ainda estava na sala.
Licaão percebeu que o filho escutava.
— O que acha?
Níctimo ergueu os olhos.
— Da punição?
— De Agetor.
O rapaz levou algum tempo.
— Ele pergunta diferente.
— Diferente de quem?
— De você.
Mélas riu.
— Isso reduz bastante as possibilidades.
Licaão ignorou.
— Como?
Níctimo tocou a tábua diante dele.
— Você perguntou o que aconteceria se o rapaz não fosse punido. Agetor perguntou quem teve de fazer o trabalho enquanto ele estava fora.
— As duas coisas importam.
— Eu sei.
Licaão esperou.
Níctimo não completou.
— Continue.
— Já terminei.
A irritação veio depressa.
Licaão a segurou.
— Não parece.
Níctimo olhou para ele.
— Agetor não mudou sua decisão.
— Mudou.
— Você mudou.
A frase parou Licaão.
Mélas acompanhou os dois com os olhos.
Níctimo continuou:
— Ele só fez uma pergunta.
— E isso é diferente?
— É.
— Explique.
O rapaz precisou pensar.
— Ele não parece precisar que a resposta prove alguma coisa.
Mélas parou de mexer nas tábuas.
Licaão ficou olhando para o filho.
A frase não era apenas sobre Agetor.
Níctimo percebeu que o pai percebera.
— Há mais audiências?
Mélas respondeu:
— Duas depois da refeição.
Níctimo pegou uma tábua.
— Vou conferir a entrega de cevada antes.
Saiu.
Licaão acompanhou-o até a porta.
Mélas falou:
— Vai melhorar bastante se continuar olhando para ele desse jeito.
— Para quem?
— Escolha um dos dois.
Licaão encarou-o.
Mélas levantou as mãos.
— Só estou recolhendo tábuas.
Theron encontrou uma moeda.
Não dentro da bolsa de Agetor.
Na cozinha.
O estrangeiro entregara a peça a uma serva porque insistia que Dóron deveria receber algo pelo reparo das sandálias. A serva, sem saber se podia aceitar, levara a moeda ao comandante.
Theron colocou-a diante de Licaão.
Bronze.
Comum.
Tão gasta que a figura impressa mal podia ser reconhecida.
— De onde?
— Pode ter circulado em metade das regiões que ele diz ter atravessado.
Licaão pegou a moeda.
— Naturalmente.
— Quer que eu procure outra?
— Não.
Theron continuou parado.
Licaão ergueu os olhos.
— O quê?
— Nada.
— Theron.
— Está decepcionado porque a moeda é normal.
Licaão a largou sobre a mesa.
— Isso seria estúpido.
— Seria.
— E não estou.
— Certo.
— Pare de concordar comigo quando não acredita.
— Como quiser.
Licaão lançou-lhe um olhar.
Theron não sorriu.
— A bolsa continua fechada — disse o comandante.
— E vai continuar.
— Mesmo depois que ele sair?
Licaão ficou imóvel.
— Disse que vai sair?
— Perguntou se a passagem sul continua segura depois das chuvas.
— Isso não significa nada.
— Também perguntou a que horas o portão menor costuma abrir.
Licaão olhou novamente para a moeda.
— A quem?
— A um guarda.
— Quando?
— Há pouco.
O incômodo foi rápido demais.
Agetor era viajante.
Viajantes partiam.
Era a coisa mais natural que poderia fazer.
— Se quiser ir embora, vai.
— Eu sei.
— Ninguém impede.
— Eu sei.
Theron ficou quieto.
Licaão levantou os olhos.
— Pare.
— O quê?
— Ficar aí esperando como se eu fosse acrescentar outra ordem.
— Achei que acrescentaria.
— Não vou.
Theron pegou a moeda.
— Devolvo?
— Sim.
Virou-se para sair.
— Theron.
O comandante parou.
Licaão quase perguntou para onde Agetor pretendia seguir.
— Nada.
Theron foi embora.
Agetor estava no pátio menor ajudando um servo a levantar uma arca.
Licaão ficou na passagem por tempo suficiente para se irritar consigo mesmo.
A arca nem era grande. Um homem poderia movê-la arrastando. Dois faziam isso sem destruir o fundo nem os próprios dedos.
Agetor segurava uma ponta enquanto o servo tentava encaixar um pequeno suporte por baixo.
— Mais para a esquerda — pediu o servo.
Agetor moveu.
— A sua esquerda.
— Devia ter dito.
— Achei que viajante soubesse direção.
— Na estrada. Debaixo de arca tenho menos experiência.
O servo riu.
Conseguiram encaixar a madeira.
Agetor soltou a arca.
Nada de força incomum.
Nenhum gesto extraordinário.
Só um homem evitando que outro esmagasse os dedos.
Licaão entrou.
O servo ficou imediatamente sério.
— Meu rei.
Agetor olhou para ele.
Licaão apontou para a arca.
— Quebrou alguma coisa?
— Ainda não.
— Dê tempo.
O servo demorou um pouco para perceber que podia sair.
Quando ficaram sozinhos, Licaão observou a arca.
— Costuma pagar hospedagem trabalhando?
— Às vezes.
— Aqui não precisa.
— Eu estava parado.
— Isso o incomoda?
— Por muito tempo, sim.
Licaão indicou o banco.
— Então sente.
Agetor obedeceu.
Licaão permaneceu de pé por alguns instantes.
— Disseram que pretende partir amanhã.
— Pretendo.
— Para onde?
— Sul, por algum tempo.
— Isso é direção. Não destino.
— Ainda não escolhi destino.
— Viaja bastante sem escolher.
— Escolho quando preciso.
— E quando chega?
Agetor pensou.
— Descubro se escolhi bem.
Licaão sentou-se.
— Quero perguntar uma coisa.
— Isso já não surpreende.
— Você nunca sente medo?
Agetor o observou por alguns segundos.
— Sinto.
A resposta veio simples demais.
Licaão esperou mais.
— De quê?
— Do que merece.
— Eu não mereço?
Agetor não mudou de postura.
— Até agora, não.
A frase poderia ter sido insolência.
Não pareceu.
Talvez por causa do até agora.
Talvez porque não havia provocação nenhuma.
— Sabe o que posso fazer com um homem nestas terras.
— Sei o que reis podem fazer.
— Não é a mesma coisa.
— Não.
— Conhece Damon.
— Ouvi a história.
— Conhece outros casos.
— Alguns.
— E ainda assim senta diante de mim desse jeito.
Agetor passou o polegar pela borda da taça.
— Estou sob seu teto. Comi seu pão.
Licaão ficou em silêncio.
— E isso basta?
— Basta para alguma coisa.
— Homens quebram hospitalidade.
— Quebram.
— Reis também.
— Também.
— Então por que confiar?
Agetor ergueu os olhos.
— Se eu decidir que todo homem pretende me fazer mal antes de fazê-lo, vou passar a vida com medo de gente que ainda não fez nada.
— Parece confortável.
— Não é.
— E se estiver errado?
— Descubro.
Licaão riu sem humor.
— Fala como se descobrir nunca custasse caro.
Agetor ficou alguns instantes sem responder.
— Às vezes custa.
— Já custou para você?
Dessa vez o silêncio foi diferente.
Licaão percebeu que chegara perto de alguma coisa real.
— Já.
Nenhuma explicação veio.
Licaão poderia pressionar.
Não pressionou.
— Já esteve diante de muitos reis?
— De alguns.
— Quantos?
— Nunca contei.
— Isso é resposta de homem que encontrou poucos ou muitos?
Agetor sorriu.
— Depende de quem pergunta.
— E eu?
— Você quer que tenham sido muitos.
— Não.
— Quer que sejam suficientes para explicar por que eu não pareço impressionado.
A precisão irritou.
— Não estou falando de impressão.
— Medo, então.
— Medo mostra o que um homem reconhece.
— Às vezes mostra apenas o que ele imagina.
Licaão se inclinou.
— O que imagina quando olha para mim?
Agetor levou um instante.
— Um rei competente.
Licaão esperou.
— Só?
— Orgulhoso.
— Isso é insulto?
— Seria um insulto inútil.
Licaão quase riu.
— Continue.
Agetor bebeu água.
— Faz boas perguntas.
— Finalmente um elogio.
— Foi um elogio.
— E o resto?
Agetor olhou por cima do pátio e voltou a ele.
— Parece ter começado a gostar demais de perguntas que ninguém consegue responder depressa.
Licaão não se moveu.
— Quem lhe disse isso?
— Você.
— Quando?
— Desde que cheguei.
O incômodo aprofundou-se.
— Está me observando.
— Você está fazendo o mesmo comigo.
— Esta é minha casa.
— Por isso notei primeiro.
Licaão deixou o silêncio durar.
— O que um homem precisa viver para falar assim diante de reis?
Agetor inclinou a cabeça.
— Assim como?
— Sem medir a sala.
— Eu medi.
Licaão olhou ao redor.
— Não vi.
— Quando cheguei, vi a entrada, Theron, dois guardas e onde você se sentava.
Licaão não esperava aquela resposta.
Agetor continuou:
— Depois parei.
— Por quê?
— Porque já sabia onde estavam.
— Isso é coragem?
— Hábito.
— De quê?
Agetor pensou.
— De entrar em casas onde homens carregam armas.
Humano.
Inteiramente humano.
Licaão odiou que a resposta não resolvesse nada.
— E reis?
— Também.
— Quantos um homem precisa conhecer antes de deixar de se impressionar?
Agetor olhou para ele.
— O bastante para vê-los depois que a sala esvazia.
A frase ficou.
Licaão imaginou reis sem guardas, suplicantes ou homens observando.
Comendo.
Dormindo.
Envelhecendo.
Sangrando.
Nada daquilo removia a autoridade.
Removia apenas parte do cenário.
— E o que vê quando a sala esvazia?
— Depende do rei.
— E eu?
Agetor respondeu sem pressa:
— Ainda estou sob seu teto.
— Outra fuga.
— Uma razão para não responder depressa.
Licaão recostou-se.
Por algum tempo não perguntou mais nada.
Agetor pareceu perfeitamente satisfeito em deixá-lo assim.
Talvez fosse a característica mais irritante do homem.
Mais tarde, Licaão tentou por outro caminho.
Durante uma refeição menor da tarde, comentou a morte de um governante do norte lembrado por comerciantes por causa dos tributos cobrados em sua região. Não fora um homem importante o bastante para deixar grandes histórias.
— Morreu lutando contra homens do litoral — disse Licaão.
Agetor partiu o pão.
— Não morreu na luta.
Licaão ergueu os olhos.
Mélas, sentado ao lado, continuou comendo.
— Não?
— Foi ferido. Morreu depois.
— Quanto tempo depois?
— Meses.
— Tem certeza?
Agetor mastigou.
— Não.
Licaão esperou.
— Ouvi a história perto de onde aconteceu.
— Quando?
— Faz tempo.
— Quanto?
Agetor olhou para ele.
— O suficiente para não lembrar quantos meses.
Mélas ergueu a taça.
— Finalmente encontramos algo que ele não sabe.
Agetor inclinou a cabeça.
— Tenho uma coleção considerável.
— Devia mostrá-la ao rei. Ele só parece interessado na outra.
Licaão ignorou.
— Viu esse homem?
— Não.
— Alguém que o conheceu?
— Um velho dizia ter levado vinho para os feridos.
— Nome?
Agetor procurou.
— Não lembro.
Licaão não tinha motivo para acreditar ou desacreditar.
Era plausível.
Sempre plausível.
Aquilo começava a incomodá-lo tanto quanto qualquer contradição.
Passou a outro assunto: um rito praticado além das montanhas.
Agetor conhecia parte dele e desconhecia outra.
Licaão falou de uma rota perto do istmo. Agetor corrigiu uma curva e admitiu nunca ter percorrido o trecho final. O rei trocou de propósito um nome numa história.
Agetor não percebeu.
Alterou outro.
Agetor corrigiu.
Ao fim da refeição, Licaão sabia menos sobre o homem do que antes.
Quando Agetor saiu, Mélas esperou alguns instantes.
— Se continuar fazendo perguntas, corre o risco de descobrir uma resposta.
— É a ideia.
— Exatamente o que me preocupa.
Licaão olhou para ele.
Mélas limpou os dedos.
— Está fazendo comigo também?
— O quê?
— Esperando eu dizer alguma coisa que nem sei que sei.
— Você costuma fazer isso sem ajuda.
— Ótimo. Minha posição continua segura.
Licaão não sorriu.
Mélas percebeu.
— Parte amanhã?
— Disse que sim.
— Vai deixar?
— É hóspede.
— Perguntei outra coisa.
— Então perguntou mal.
Mélas permaneceu olhando.
— Licaão.
— O quê?
— O que quer daquele homem?
A resposta deveria ser simples.
Nome.
Origem.
Intenção.
Nenhuma serviu.
— Quero saber quem ele é.
— E depois?
— Depende.
— De quem ele for.
— Isso.
Mélas começou a enumerar:
— Se for homem importante?
— Descubro por que esconde a posição.
— Espião?
— Theron trabalha.
— Sacerdote de algum lugar?
— Agelau reclama.
— Louco?
— Não é.
— Mentiroso?
— Ainda não provamos.
Mélas cruzou os braços.
— E se for apenas Agetor?
Licaão sentiu irritação.
— Isso não significa nada.
— Significa que pode ser um homem com um nome comum e pernas funcionando bem.
— Sabe demais.
— Viajantes aprendem coisas.
— Não tem medo.
— Alguns homens são estúpidos.
— Ele não é.
— Alguns são corajosos.
— Não está tentando mostrar coragem.
Mélas inspirou fundo.
— A fumaça.
Licaão não respondeu.
— Está dentro disso também.
— A fumaça não significa nada.
— Então esqueça.
Licaão olhou para ele.
Mélas ergueu as sobrancelhas.
— Imaginei.
Dia separava peças de tecido quando Licaão entrou nos aposentos.
Duas servas saíram ao vê-lo.
— Mandou embora minhas mãos.
— Elas voltam.
— Espero.
Licaão sentou.
Dia terminou de dobrar uma peça de lã.
— Descobriu quem ele é?
— Não.
— Vai dormir esta noite?
— Provavelmente.
— Excelente progresso.
Ela deixou o tecido de lado.
— Agetor parte amanhã?
— Parece.
— E você vai deixá-lo ir.
— Claro.
— Bom.
Licaão olhou para ela.
— Por que todos falam como se eu pretendesse prendê-lo?
— Porque todos já viram como você olha para ele.
— Isso está ficando cansativo.
— Então pare.
— Sabe que não é simples.
— Sei.
Dia sentou diante dele.
— Por isso estou dizendo.
Licaão apoiou as mãos sobre as pernas.
— Ele não encaixa.
— Em quê?
— Em lugar nenhum.
— Homens não precisam encaixar.
— Precisam o bastante para que eu descubra quando estão mentindo.
— Encontrou alguma mentira?
— Não.
Dia esperou.
Licaão continuou:
— Conhece regiões muito distantes umas das outras. Histórias de homens separados por anos e caminhos. Ritos. Decisões que tomamos aqui antes de ele aparecer.
— Viajou.
— Muito.
— Parece.
— Fala como homem acostumado a posição.
— Talvez já tenha tido.
— Não carrega selo.
— Talvez nunca tenha precisado.
— E não teme.
Dia inclinou a cabeça.
— Você sempre volta a isso.
— Porque homens temem aquilo que pode destruí-los.
— Nem todos.
— Quase todos.
— E os outros?
Licaão pensou em Theron entrando numa luta. Agelau enfrentando-o no pátio. Níctimo discordando diante da mesa.
Todos sentiam medo.
Apenas não deixavam que ele decidisse sempre.
Agetor não parecia sequer começar dali.
— Alguns não compreendem o risco.
— Ele compreende.
— Sim.
Dia ficou quieta.
Chegara ao mesmo ponto.
— Talvez seja simplesmente um homem estranho.
— Talvez.
— Não acredita nisso.
— Não sei o que acredito sobre ele.
— Finalmente.
Licaão ergueu os olhos.
— Sobre você, eu sei.
— O quê?
— Está interessado demais em estar certo.
A frase o atingiu mais do que deveria.
— Certo sobre o quê?
— É justamente esse o problema.
Dia voltou ao tecido.
— Quando começou a enfrentar Agelau, queria provar que ele não mandava nesta casa.
— Não é a mesma coisa.
— Eu sei.
— Quando mandei cortar o bosque, havia uma questão concreta.
— Também sei.
— Não estou fazendo nada com Agetor.
— Ainda bem.
Ela dobrou o tecido.
— Então deixe que vá.
— Vou deixar.
Dia olhou diretamente para ele.
— Mesmo sem descobrir?
Licaão não respondeu.
Ela não insistiu.
A noite chegou cedo atrás das montanhas.
Agetor comeu com a casa.
Nada aconteceu.
Agelau não estava ali. Nenhuma chama subiu de maneira estranha, nenhuma fumaça mudou de direção. O vinho tinha gosto de vinho. Um servo derrubou uma colher e ficou vermelho enquanto a recolhia.
Níctimo contou que Éon e o vizinho tinham discutido outra vez sobre a largura das valas antes mesmo de chegar o homem enviado para medir.
Dia riu.
Mélas perguntou se a água também precisaria pedir audiência.
Agetor comentou que talvez fosse mais fácil ouvi-la que ouvir os dois proprietários.
Licaão observava.
O estrangeiro partia pão como qualquer homem.
Bebia sem atenção especial ao altar.
Não evitava nomes de deuses. Também não os introduzia na conversa quando não havia motivo.
Quando perguntaram se queria mais vinho, recusou. Quando Dia quis saber se a manta da noite anterior fora suficiente, agradeceu e disse que sim. Níctimo perguntou qual estrada tomaria pela manhã.
— Decido no primeiro desvio.
Comum.
Irritantemente comum.
Ao fim da refeição, Agetor levantou-se.
— Partirei cedo.
Dia perguntou:
— Antes de comer?
— Depois, se isso não abusar da hospitalidade.
— Se comer, deixa de ser abuso?
— A estrada fica melhor.
— Então comerá.
Agetor agradeceu.
Licaão falou:
— A passagem sul está forte depois das chuvas.
— Theron comentou.
— Pode esperar mais um dia.
Agetor olhou para ele.
— Consigo atravessar.
— Não duvido.
Era verdade.
Licaão não queria que ficasse por causa da água.
Sabia.
Agetor talvez soubesse também.
— Então amanhã — disse o estrangeiro.
— Amanhã.
Agetor saiu.
Licaão ouviu os passos diminuírem pelo corredor.
Níctimo começou a recolher duas tábuas.
— Pai.
— O quê?
— Encontrou alguma coisa?
— Sobre Agetor?
— Sim.
— Ainda não.
Níctimo segurou os registros contra o peito.
— Isso incomoda você.
— Incomoda.
— Porque acha que ele esconde algo?
Licaão abriu a boca.
Parou.
Níctimo percebeu.
Não insistiu.
Saiu.
Mélas permaneceu.
Theron apareceu pouco depois.
— O portão sul estará aberto ao amanhecer.
Licaão olhou para ele.
— Agetor pediu?
— O guarda perguntou.
Licaão assentiu.
Theron continuou ali.
— O quê?
— Nada.
— Você e Mélas combinaram isso?
Mélas levantou a taça.
— Eu estava bebendo.
Theron falou:
— Se quiser, posso mandar alguém seguir Agetor depois que deixar a casa.
A ideia apareceu inteira.
Um cavalo.
Distância suficiente.
Saber para onde iria, com quem falaria, onde dormiria.
Talvez resolver tudo.
— Não.
Theron confirmou:
— Certo.
— Recebeu nossa hospitalidade. Não vou fazer da estrada depois do portão uma extensão desta casa.
O comandante pareceu satisfeito.
Aquilo incomodou Licaão.
— Mas pergunte a quem vier depois se o encontrou.
— Isso já faria.
— Faça.
Theron se preparou para sair.
Licaão perguntou:
— Já conheceu algum homem que não tivesse medo de nada?
O comandante parou.
Mélas baixou a taça.
Theron pensou.
— Dois.
— E?
— Um morreu jovem.
— O outro?
— Também.
Mélas riu.
Licaão não.
Theron percebeu.
— Eram idiotas — acrescentou.
— Agetor não é.
— Não.
— Então?
Theron apoiou uma mão no cinto.
— Talvez tema alguma coisa que ainda não vimos.
— Todo homem teme.
— Então provavelmente ele também.
— Não foi o que perguntei.
Theron encarou-o.
— Perguntou se conheci homens que não tinham medo.
Licaão percebeu.
Estava fazendo aquilo outra vez.
Tentando empurrar a resposta para além do lugar em que ela terminava.
Dispensou-o.
Theron saiu.
Mélas continuou ali por alguns minutos.
Licaão foi até a abertura da sala.
A noite ocupava quase todo o pátio.
— O que existe acima de reis?
Mélas demorou.
— Está perguntando a mim?
— Estou.
— Deuses.
A palavra veio sem esforço.
Licaão permaneceu olhando para a escuridão.
Mélas acrescentou:
— E sacerdotes, quando conseguem nos convencer disso.
Licaão não reagiu.
— Era essa a resposta que queria?
— Não sei.
— Então escolheu mal a pessoa para perguntar.
Licaão virou-se.
— Se um deus entrasse nesta casa parecendo homem, você saberia?
O humor abandonou Mélas.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— Não faça isso.
— Responda.
— Não sei.
— Agelau saberia?
— Pergunte a ele.
— Pergunto a você.
Mélas colocou a taça sobre a mesa.
— Está falando de Zeus entrando por aquela porta com corpo de homem?
— Sim.
— Não sei.
Licaão esperou.
— Talvez houvesse sinal. Talvez Agelau percebesse alguma coisa. Talvez ninguém percebesse.
— Excelente.
— Fez uma pergunta ruim.
— É simples.
— Não significa que seja boa.
Licaão começou a andar.
— Um homem aparece sem origem que possamos confirmar.
— Acontece.
— Conhece caminhos distantes.
— Viajou.
— Histórias de regiões separadas.
— Ouviu.
— Sabe coisas daqui depressa demais.
— Notícias correm.
— Não teme rei.
— Alguns não temem.
— Participa de rito como quem fez aquilo durante a vida inteira.
— Homens vivem bastante.
Licaão parou.
— E a fumaça.
Mélas fechou os olhos por um instante.
— A fumaça.
— Você viu.
— Vi.
— Agelau viu.
— Também.
— Níctimo viu.
— Sim.
— E ninguém explicou.
— Temos três explicações.
— Temos três possibilidades.
— É quase a mesma coisa.
— Não é.
Mélas estudou-o.
Dessa vez entendeu de verdade para onde a conversa estava indo.
Não gostou.
— Não.
— Ainda não disse nada.
— Não precisa.
— Então diga por mim.
Mélas apontou para o corredor por onde Agetor saíra.
— Você começou a considerar que ele possa ser um deus.
O silêncio ficou entre os dois.
Ouvir aquilo na voz de outro homem tornou a hipótese mais absurda.
E, ao mesmo tempo, deu-lhe corpo.
— Eu disse isso?
— Não.
— Então não ponha palavras na minha boca.
— Ótimo.
Mélas pegou a taça.
— Esqueça.
Licaão não se moveu.
Mélas também não bebeu.
— Não consegue.
Licaão olhou para o corredor.
— Um deus não faria isso.
— O quê?
— Vir andando pela estrada.
— As histórias dão a eles hábitos piores.
— Pediria teto.
Mélas deu de ombros.
— Agelau vive dizendo que Zeus protege hóspedes.
— Não é a mesma coisa.
— Não.
— Deixaria Dóron remendar as sandálias?
— Essa é a melhor objeção que apresentou.
Licaão não acompanhou o humor.
— Se fosse Zeus, por que viria como Agetor?
— Não sei.
— Para quê?
— Também não sei.
— Por causa do bosque?
— Não sei.
— Leonte?
Mélas interrompeu:
— Licaão.
— O quê?
O conselheiro se aproximou.
— Está ouvindo o que está dizendo?
— Estou.
— Então ouça melhor.
Mélas apontou para o corredor.
— Há meses exige que um deus lhe mostre autoridade de um jeito que você considere suficiente. Agora aparece um viajante que você não consegue explicar por completo, há uma fumaça no meio, e já começa a construir o deus que passou meses querendo encontrar.
A acusação encontrou lugar.
Licaão sentiu.
— Acha impossível?
— Não.
Aquilo o surpreendeu.
— O quê?
— Não acho impossível.
— Acabou de dizer—
— Disse que você quer demais que essa pergunta exista. Isso não significa que eu conheça a resposta.
Licaão ficou quieto.
Mélas continuou:
— Os deuses existem. Nunca foi essa a disputa.
— Para mim também não.
— Não?
— Nunca disse que Zeus não existe.
— Não.
— Disse que, se exerce autoridade sobre homens, deveria existir alguma forma de sabermos onde essa autoridade começa.
Mélas ficou alguns segundos sem responder.
— Talvez ela não comece aparecendo na sua sala.
— Talvez.
A palavra saiu sem irritação.
Mélas percebeu.
— Vá dormir.
— Ainda não.
— Naturalmente.
O conselheiro pegou a taça.
— Então ao menos não acorde Agelau para perguntar se seu hóspede é Zeus.
— Não faria isso.
— Fico muito aliviado.
Mélas saiu pouco depois.
Licaão permaneceu sozinho.
Agora a hipótese possuía nome.
Zeus.
Não precisava chamar mais ninguém.
A casa já lhe dera tudo o que tinha.
Agetor partiria ao amanhecer.
Se fosse homem, iria embora.
Se fosse deus, também poderia ir.
Nada nisso ajudava.
Licaão caminhou até a mesa onde ainda restavam coisas da refeição: pão quebrado, algumas azeitonas, vinho no fundo de uma jarra e um pequeno pedaço de carne assada que ninguém terminara.
Um deus comia?
Claro.
As histórias estavam cheias disso. Sacrifícios existiam justamente porque os homens ofereciam alimento aos deuses.
Agetor comer não provava nada.
A ausência de medo podia ser explicada.
O conhecimento também.
A fumaça também.
Tudo tinha uma saída.
Se perguntasse diretamente, seria pior.
Você é Zeus?
Agetor poderia responder não.
Se fosse homem, estaria dizendo a verdade.
Se fosse outra coisa, poderia mentir.
Ou rir.
Ou fazer aquilo que já fazia e responder apenas metade.
Licaão apertou um pedaço de pão entre os dedos.
Precisava de uma pergunta que não dependesse da palavra do hóspede.
A resposta teria de estar no ato.
Olhou novamente para a carne.
Pegou um pedaço e mastigou.
Cabra.
Reconheceu antes de pensar, pelo gosto, pela gordura, pela textura.
Isso também não servia.
Um homem familiarizado com rebanhos distinguia cabra de carneiro. Um caçador reconhecia cervo. Um pastor sabia cabrito.
Um deus, se as histórias fossem verdadeiras, poderia saber ainda mais.
Licaão levantou-se e foi até o fogo.
Talvez precisasse inverter a questão.
Não procurar alguma coisa que apenas um deus conseguisse fazer.
Procurar alguma coisa que um homem comum não pudesse saber.
Ficou parado.
A ideia apareceu de maneira tão inteira que sua primeira reação foi recusá-la.
Não porque sentisse horror.
Porque era grande demais.
Olhou para o corredor.
Ninguém.
A casa respirava além das paredes. Uma porta fechou. Em algum lugar, um servo riu baixo.
Homens.
Carne humana.
Licaão voltou à mesa e pegou a taça.
Bebeu.
A ideia permaneceu.
Um homem diante de um prato poderia comer carne preparada sem reconhecer a origem.
Cortada.
Cozida.
Misturada a outras carnes.
Um hóspede não examinava cada pedaço como sacerdote observando vísceras.
Comia aquilo que a casa lhe oferecia.
Se Agetor comesse…
Homem.
A palavra apareceu imediatamente.
Mas a recusa não provaria o contrário.
Um homem podia rejeitar comida por suspeita, gosto, doença ou simples acaso.
Precisava reconhecer.
Se Agetor fosse Zeus, saberia.
Licaão sentiu o coração bater mais depressa.
Não medo.
Uma clareza repentina.
Durante dias tentara descobrir quem era Agetor procurando informações sobre Agetor.
Talvez esse fosse o erro.
Não precisava descobrir sua origem.
Precisava colocá-lo diante de algo que separasse as possibilidades.
Homem.
Deus.
Sem rumor de estrada.
Sem fumaça.
Sem Agelau explicando sinais.
Algo presente diante dos próprios olhos.
Se comesse sem saber, homem.
Se reconhecesse aquilo que nenhum homem teria como reconhecer apenas pelo prato…
Então teria resposta.
Licaão começou a andar pela sala.
A ideia se organizava enquanto caminhava.
Precisava de algo impossível de identificar por meios comuns.
Carne humana preparada junto das demais.
Agetor, se fosse homem, poderia comê-la sem saber.
Se fosse Zeus, saberia o que lhe tinham servido.
Licaão parou perto da porta.
Mélas retornou antes que ele o ouvisse.
— Esqueci a tábua.
Licaão se virou.
O conselheiro entrou, pegou o registro deixado sobre o banco e parou.
— O que aconteceu?
— Nada.
Mélas olhou para ele.
— Não.
Licaão quase sorriu.
— Agora você também?
— Conheço essa sua cara.
— Dia disse o mesmo.
— Dia conhece melhor.
Mélas segurou a tábua contra o peito.
— O que pensou?
— Uma maneira de descobrir.
O conselheiro não se mexeu.
— Descobrir o quê?
Licaão olhou para a mesa.
Mélas acompanhou o olhar.
Pão.
Vinho.
Carne.
O rosto dele mudou pouco.
Ainda não entendera por inteiro.
— Licaão.
— Se Agetor é homem, há coisas que ele não pode saber.
— Muitas.
— Se for Zeus…
Mélas ficou imóvel.
— Não termine.
— Por quê?
— Porque já não gosto do começo.
Licaão caminhou até a mesa.
— Perguntar diretamente não serve.
— Concordo.
— Mostrar alguma coisa também não. Pode fingir.
— Pode.
— Se acontecer outro sinal, Agelau chamará de sinal e Theron encontrará corrente de ar.
— Provavelmente.
— Então preciso de algo que não dependa da palavra de ninguém.
Mélas permaneceu calado.
Licaão tocou a borda da travessa.
— Algo que um homem aceite sem saber o que recebeu.
A resposta veio depressa:
— Não.
Licaão ergueu os olhos.
— Ainda nem sabe o que vou dizer.
— Sei o suficiente.
— Não sabe.
— Então prove que estou errado.
Licaão ficou alguns segundos em silêncio.
Depois disse:
— Carne.
Mélas não se moveu.
— Que carne?
Licaão sustentou o olhar.
A cor diminuiu no rosto do conselheiro.
Pouco.
Mas o rei viu.
— Não.
— Um homem não saberia.
— Não.
— Zeus saberia.
— Não sabe disso.
— Descobriríamos.
Mélas colocou a tábua sobre a mesa com cuidado exagerado.
— Não.
— Pare de repetir.
— É a única parte sensata desta conversa.
Licaão sentiu a irritação.
— Estou falando de um teste.
— Está falando de profanação.
— Ainda não fiz nada.
— Então pare antes de fazer.
— Se Agetor for homem, come.
— Ou percebe.
— Como?
— Não sei.
— Exatamente.
Licaão se aproximou.
— Se reconhecer aquilo diante dele sem qualquer meio humano de reconhecer, terei a resposta.
Mélas perguntou:
— E se comer?
— Terei outra.
O conselheiro ficou olhando.
— Escutou o que acabou de dizer?
— Sim.
— “Se comer, terei outra.”
— É um teste com duas respostas.
— Há uma pessoa morta no meio delas.
A frase mudou a sala.
Licaão não respondeu imediatamente.
Não porque não tivesse pensado nisso.
Mélas transformara a ideia em corpo.
Uma pessoa.
Ainda sem nome.
Sem rosto.
A operação ganhou peso.
Não o suficiente para desaparecer.
— Pessoas morrem.
Mélas recuou meio passo.
Parecia precisar de distância para olhar para o homem diante dele.
— É isso?
— Não coloque desprezo na minha boca.
— Não precisei.
— Já esteve ao meu lado quando ordenei punições piores.
— Com alguma finalidade.
— Esta também tem.
— Qual?
— Já expliquei.
— Explicou como pretende fazer.
Mélas apontou para a travessa.
— Quero saber por quê.
— Para descobrir quem entrou nesta casa.
— Agetor parte amanhã.
— Exatamente.
— Então deixe que vá.
— E nunca saberei.
Mélas fechou os olhos.
Quando abriu, parecia cansado.
— É isso.
— O quê?
— Dia estava certa.
Licaão endureceu a voz.
— Não traga minha mulher para isso.
— Você não quer proteger a casa.
— Cuidado.
Mélas continuou:
— Não está tentando descobrir um espião. Não quer impedir ataque. Não há outro rei medindo suas muralhas. Agetor não roubou, não ameaçou ninguém, não mentiu de maneira que consigamos provar.
Bateu uma vez com o dedo na mesa.
— Você só quer saber.
Licaão ficou calado.
— Só isso — repetiu Mélas. — Quer uma resposta.
— Se a resposta for Zeus, não é “só isso”.
— E se for homem?
— Então também saberei.
Mélas soltou uma risada sem humor.
— Com um morto.
Licaão não respondeu.
O conselheiro passou a mão pelo rosto.
— Quem?
A pergunta saiu baixa.
Licaão ainda não tinha decidido.
— Não sei.
Mélas o encarou.
— Isso devia me tranquilizar?
— Significa que não dei nenhuma ordem.
— Ainda.
A palavra de Dia.
Licaão percebeu.
— Não faça isso.
— O quê?
— Falar como se eu já tivesse feito.
— Estou tentando impedir que faça.
— Está tentando impedir que eu descubra se Zeus entrou sob meu teto.
— Estou tentando impedir que mate alguém porque não consegue suportar não saber.
A raiva veio inteira.
— Cuidado.
Mélas ficou imóvel.
Durante anos, aquilo bastara.
Sabia quando recuar. Sabia quando uma conversa deixava de ser conselho e começava a tocar a autoridade do rei.
Dessa vez, não recuou.
Também não avançou.
Apenas permaneceu.
— Estou tendo cuidado.
A voz dele era baixa.
— Com você.
Alguma coisa mudou.
Muito pouco.
Ainda não era desobediência.
Mas a antiga facilidade desapareceu.
— Vá dormir.
Mélas não se moveu.
— Mélas.
— Não dê essa ordem esta noite.
— Não dei.
— Então não dê.
Licaão apontou para a porta.
— Saia.
Dessa vez Mélas obedeceu.
Chegou à passagem e parou.
Não olhou para trás.
— Se Agetor for Zeus, talvez descobrir que entrou na casa de um homem disposto a matar apenas para testá-lo não seja a vitória que imagina.
Saiu.
Licaão permaneceu diante da mesa.
A frase atingira.
O pensamento continuava.
Agora tinha oposição.
E oposição dava forma.
Carne humana.
Preparada.
Servida entre outras carnes.
Sem espetáculo. Sem sacerdote. Sem anúncio.
Um homem comeria.
Um deus reconheceria.
Simples.
Não simples.
Licaão apoiou as mãos sobre a mesa.
Se Agetor fosse Zeus, servir-lhe aquilo seria afronta.
Essa própria afronta fazia parte do teste.
Qualquer coisa menor poderia produzir outra fumaça, outra explicação, outro talvez.
Mas, se Agetor fosse apenas homem, restava a vítima.
Licaão afastou-se da mesa.
Não escolheria alguém naquela noite.
Essa parte exigia cálculo.
Talvez um condenado.
Um homem cuja morte já estivesse determinada.
Nesse caso, o teste não criaria uma morte nova. Apenas usaria uma sentença que já existia.
A ideia era melhor.
Mais limpa.
A palavra incomodou.
Limpa.
Não estava escolhendo carne num depósito.
Estava escolhendo uma pena.
Ainda assim, um homem já condenado resolveria parte do problema.
Não precisaria envolver Mélas ainda.
Nem Theron.
Primeiro verificaria quem aguardava sentença.
Agetor, porém, pretendia partir cedo.
Isso criava outra dificuldade.
Licaão ergueu os olhos.
Precisava fazê-lo ficar.
Uma refeição de despedida.
Hospitalidade.
Nada incomum depois de três noites.
Agetor talvez aceitasse.
Se recusasse, aquilo não provaria nada.
Mas poderia pedir.
A mente começou a organizar o assunto como fazia com qualquer problema.
Tempo.
Homens.
Comida.
Lugar.
Testemunhas.
Separadas, as partes pareciam administráveis.
Talvez fosse por isso que Mélas reagira tão depressa.
Vira o conjunto antes que Licaão o dividisse.
O rei atravessou a sala até o corredor.
A ala dos hóspedes ficava do outro lado do pátio. Uma lamparina ainda queimava junto à passagem.
Agetor estava lá.
Talvez dormindo.
Talvez acordado.
Pela primeira vez desde a chegada do estrangeiro, Licaão não sentiu necessidade de descobrir o que fazia naquele instante.
Já tinha uma pergunta melhor.
Não Quem é você?
Essa dependia de Agetor.
A nova não.
Licaão permaneceu olhando para a luz distante.
Se o estrangeiro comesse sem saber, seria homem.
Se reconhecesse aquilo que nenhum homem teria como reconhecer, Licaão finalmente teria diante de si a autoridade que passara meses exigindo que se mostrasse.
Dessa vez não haveria vento.
Nem rumor.
Nem sacerdote interpretando fumaça.
Nem talvez.
A luz da ala dos hóspedes apagou.
Licaão continuou no escuro.
Ao amanhecer, Agetor não partiria.
Haveria um banquete.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
— Evite spoilers do capítulo ou da história.
— Comentários ofensivos serão removidos.
Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.