A ideia não foi embora.

Licaão tentou enterrá-la sob o trabalho que restara da manhã. Mandou trazer as tábuas, conferiu uma entrega de azeite, corrigiu duas marcas num registro e devolveu a um servo uma conta que estava certa, exigindo que a conferisse novamente. Durante alguns minutos, números, medidas e nomes ocuparam espaço suficiente em sua cabeça.

Então ouviu Níctimo falando no pátio.

Licaão pousou a tábua.

— Não.

Disse em voz alta dessa vez.

Não adiantou.

Levantou-se e abriu o pequeno cofre onde guardava selos, peças de metal e documentos que não deixava nas salas comuns. Precisava haver outra maneira de testar Agetor. Uma informação, um objeto, qualquer coisa escondida que não exigisse sangue.

Pegou o selo antigo do pai.

Agetor nunca o vira. Poderia colocá-lo diante dele sem explicar a origem. Mas, se o reconhecesse, talvez tivesse visto outro semelhante. Se não reconhecesse, nada estaria provado.

Licaão guardou o selo.

Poderia mentir sobre uma estrada, inventar um caminho que não existia. Agetor talvez percebesse pela geografia. Talvez não percebesse e continuasse sendo exatamente o que aparentava. Poderia perguntar por um homem morto havia décadas, mas histórias viajavam. Mercadores carregavam nomes junto com mercadorias; soldados levavam rumores de uma região para outra.

Pensou em esconder vinho num recipiente de água e irritou-se consigo mesmo pela estupidez da ideia. Carne de um animal incomum também não serviria. Caçadores reconheciam carne. Cozinheiros também.

Quando percebeu, estava atravessando a sala de uma parede à outra.

Parou.

Todo teste sofria do mesmo defeito: qualquer conhecimento demonstrado por Agetor podia ser atribuído à experiência. Licaão precisava de alguma coisa que nenhum viajante pudesse ter ouvido numa estrada, aprendido numa corte ou reconhecido pelo cheiro.

O pensamento voltou ao pátio.

Níctimo.

Licaão fechou as mãos.

Não.

Chamou um servo.

— Traga Theron.

O homem saiu.

Quando o comandante entrou, Licaão já sabia o que perguntaria.

— Os homens presos. Algum recebeu notícia nova desde a manhã?

Theron permaneceu perto da porta.

— Não. Nenhuma acusação nova, nenhuma sentença.

— E os procurados? Algum foi trazido?

— Ninguém.

Licaão fez um gesto curto.

— Certo.

Theron continuou onde estava.

— Mais alguma coisa, meu rei?

— Não.

Ainda assim, o comandante não saiu.

Licaão ergueu os olhos.

— O que foi?

— Esperava uma ordem.

— Não dei nenhuma.

— Ainda bem.

A resposta irritou Licaão.

— Agora escolhe quais ordens prefere receber?

Theron mexeu na correia que prendia a espada.

— Não escolho ordens. Posso ficar satisfeito quando não recebo uma que obrigue meus homens a fazer algo que não deveriam.

Licaão apoiou as mãos na mesa.

— E se eu precisasse manter um homem detido por algumas horas?

— Qual homem?

— Não perguntei quem.

— Eu perguntei.

O silêncio se prolongou.

Theron continuava reconhecendo a autoridade diante dele. Chamava-o de rei, aguardava ordens, mantinha a disciplina da casa. Ainda assim, alguma coisa mudara desde a manhã. O comandante agora queria saber onde começava e terminava aquilo que lhe seria exigido.

— Vá — ordenou Licaão.

Theron saiu.

A porta fechou.

Outra possibilidade terminara antes de começar.


Níctimo encontrou o pai pouco depois. Trazia uma tira de couro na mão.

— Isso é seu?

— Não.

— Tem certeza?

— Ainda reconheço minhas coisas.

— Minha mãe disse que era.

— Sua mãe também reconhece coisas que nunca foram minhas.

Níctimo sorriu.

— Então vou devolver e dizer que ela estava errada.

— Não faça isso.

— Por quê?

— Pretendo continuar casado até o anoitecer.

Níctimo riu.

Licaão também.

A risada escapou antes que pudesse evitá-la, e durante alguns segundos havia somente os dois naquela sala.

Níctimo colocou a tira de couro sobre a mesa.

— Vou dizer que você confirmou.

— Isso consegue ser pior.

— Para você.

Licaão reparou que o fecho do manto do filho estava torto.

— Venha aqui.

— Para quê?

— Venha.

Níctimo se aproximou.

Licaão ajeitou o fecho em seu ombro.

— Estava torto.

— Estava funcionando.

— Uma carroça com três rodas também funciona por algum tempo.

— Isso explica muitas decisões suas.

Licaão empurrou-lhe o ombro.

— Vá embora.

Níctimo deu dois passos, mas parou.

O humor desapareceu.

— Você desistiu?

Licaão soube imediatamente do que falava.

— De quê?

— Não faça isso.

— Isso o quê?

— Fingir que existem duas coisas sobre as quais poderíamos estar falando.

Licaão largou o fecho do manto.

— O jantar será normal.

— Não perguntei sobre o jantar.

— Então pergunte direito.

Níctimo o fez.

— Desistiu de testar Agetor?

Licaão poderia mentir.

A resposta já estava pronta. Bastava dizer sim. Talvez Níctimo não acreditasse inteiramente, mas iria embora. A conversa terminaria.

Não conseguiu.

— Ainda estou pensando.

O filho ficou sério.

— Pai…

— Não fiz nada.

— Mélas disse que tinha acabado.

— Mélas diz muitas coisas.

— Você também disse.

— Disse que não fabricaria uma execução.

— E isso não responde ao que perguntei.

Licaão percebeu que o filho compreendera a diferença antes que ele próprio quisesse admiti-la.

— Não existe plano.

Níctimo ficou alguns segundos olhando para ele.

— Então mande Agetor embora agora.

— Ele é meu hóspede.

— Justamente.

— Não vou expulsar um homem da minha casa quando mandei preparar uma refeição para ele.

— Ele nem se sentou ainda. Diga que mudou de ideia, dê pão e carne para a estrada e deixe que parta.

A irritação voltou.

— Agora administra meus hóspedes?

Níctimo baixou a voz.

— Estou tentando impedir que faça alguma coisa da qual não consiga voltar.

Licaão mexeu numa das tábuas sobre a mesa.

— Volte ao trabalho.

Níctimo permaneceu.

— Pai.

— O quê?

— Ainda acho que você vai parar.

Licaão ergueu os olhos.

O filho parecia cansado. Não havia provocação em seu rosto, nem desprezo.

— Por quê?

Níctimo estranhou a pergunta.

— Porque conheço você.

Respondeu sem pensar.

Pegou a tira de couro.

— Vou devolver isto para minha mãe.

— Não diga que ela estava errada.

— Eu jamais faria algo tão perigoso.

Saiu.

Licaão permaneceu diante da mesa.

Porque conheço você.

A porta estava vazia.

A ideia voltou acompanhada de vergonha.


Dia percebeu primeiro a mudança nas ordens.

Nenhuma delas era extraordinária isoladamente. Foi a sequência que a fez prestar atenção.

Licaão mandou dois servos levarem uma mesa menor para uma dependência próxima aos depósitos. Depois pediu água quente. Quis saber quais facas haviam sido usadas no abate e quantas pessoas trabalhavam naquele momento na cozinha. Mandou um dos homens buscar lenha, embora houvesse uma pilha suficiente junto ao fogo.

Na terceira ordem, Dia largou o pão que estava conferindo.

Encontrou Mélas no corredor.

— Ele não desistiu.

O conselheiro massageou a ponte do nariz.

— Eu sei.

— Sabe o quê?

— Menos do que gostaria.

— Então descubra.

— Estou tentando desde que seu marido decidiu tratar ignorância como doença mortal.

Dia segurou-lhe o braço.

— Mélas.

O humor desapareceu.

— Eu sei.

Theron surgiu na outra extremidade do corredor.

Mélas chamou-o.

— Venha aqui.

O comandante se aproximou.

— Ele falou com você?

— Perguntou pelos presos outra vez.

Dia perdeu a cor.

— Encontrou alguém?

— Não há ninguém condenado, nem chegou prisioneiro novo.

— Isso não impediu antes.

Theron se voltou para ela.

— Antes?

Dia percebeu o que revelara.

— Níctimo.

O comandante parou.

Mélas perguntou:

— Onde ele está?

— Acho que no pátio norte.

Dia já caminhava quando terminou a frase.


Licaão encontrou o filho primeiro.

Níctimo estava junto a uma dependência dos depósitos, examinando uma rachadura estreita na parede.

— O que houve?

— Nada ainda.

— Então por que está olhando?

— Porque pode cair.

Licaão examinou a pedra.

— Não vai.

— Abriu uma rachadura.

— A cobertura assentou.

— E se continuar?

— Chame um pedreiro amanhã.

Níctimo passou os dedos pela abertura.

— Foi o que eu disse.

— Então por que me chamou?

— Não chamei.

Licaão percebeu.

Tinha ido até ali sem motivo aparente.

Ou havia um.

— Preciso falar com você.

Níctimo se voltou.

— Sobre Agetor?

— Não.

— Então sobre o quê?

Licaão procurou uma resposta.

Não preparara aquela parte.

— Entre.

Níctimo olhou para a porta da dependência.

— Por quê?

— Não quero discutir no pátio.

Dessa vez o filho demorou antes de obedecer.

Foi pouco.

Licaão viu.

— Está com medo de mim?

Níctimo pareceu ofendido.

— Não.

— Então entre.

Soube que errara assim que terminou a frase.

Níctimo obedeceu.

A dependência era simples e cheirava a madeira seca, poeira e azeite velho. Havia uma mesa, um banco, uma bacia vazia e cordas usadas para prender cargas. Nada ali fora preparado para matar alguém.

Licaão se agarrou a isso.

Nada estava preparado.

Ainda podia sair.

Níctimo se virou.

— O que queria?

Licaão fechou a porta.

Não a trancou.

— Se Agetor for Zeus…

Níctimo perdeu a cor.

— Não. Você disse que não era sobre ele.

— Não é sobre ele.

A compreensão veio aos poucos.

Os olhos de Níctimo percorreram a sala.

A mesa.

A bacia.

O pai.

A porta.

— O que está fazendo?

A garganta de Licaão estava seca.

— Até agora, nada.

Níctimo recuou.

— Abra a porta.

— Não está trancada.

— Então saia da frente.

Licaão percebeu que se colocara entre o filho e a saída.

Afastou-se.

Níctimo poderia ter passado.

Não passou.

— Você pensou em mim.

Licaão ficou calado.

— Pensou.

— Sim.

A palavra saiu baixa.

Níctimo respirou fundo uma única vez.

— Como?

— Isso não importa.

— Para mim importa.

Licaão caminhou até a mesa.

— Não existe justificativa contra você. Nenhuma sentença, nenhum crime. Eu sei disso.

— Eu também.

Aquilo deveria facilitar.

Fez o contrário.

Durante dias, Níctimo o enfrentara. Questionara suas decisões. Dissera não. Repetira diante dele as lições que aprendera quando menino. Recusara participar e permanecera ao lado de Mélas, Theron e Dia quando todos haviam estabelecido um limite.

Licaão conhecia uma palavra capaz de organizar tudo aquilo.

Desobediência.

Reis puniam desobediência. Pais corrigiam filhos. Comandantes não permitiam que linhas se desfizessem.

Era possível ordenar os acontecimentos dessa maneira.

Bastava não olhar muito tempo para Níctimo.

— Você me desobedeceu.

O filho não recuou.

— Desobedeci quando achei que estava errado.

— Ficou contra mim diante dos meus homens.

— Quando não havia outro jeito.

— Disse que não participaria.

— E não participaria.

A irritação oferecia a Licaão uma justificativa pronta, pequena demais para sustentar o que pretendia e ainda assim tentadora.

— É meu herdeiro. Escolheu impor um limite ao seu rei.

Níctimo encarou-o.

— Não foi isso que fiz.

— Não?

— Eu disse que você não podia transformar um homem em carne para responder uma pergunta. Se prefere chamar isso de desobediência, então desobedeci.

A justificativa perdeu força antes de se completar.

Licaão sabia que não havia crime. Havia oposição, e ela doía justamente porque vinha de alguém cuja obediência sempre parecera parte natural daquela casa.

Mesmo assim, continuou.

— É justamente por não haver crime que você serviria.

Níctimo demorou a entender.

— O quê?

— Qualquer outro homem poderia trazer uma explicação junto. Um condenado teria sentença. Um inimigo teria vingança. Sempre haveria outra razão para sua morte.

— E eu não tenho.

— Não.

Níctimo encarou o pai.

— Então isso deveria me salvar.

Licaão sentiu a verdade da frase.

— Deveria.

Níctimo caminhou para a porta.

Licaão segurou-lhe o braço.

O gesto veio antes do pensamento.

Níctimo olhou primeiro para a mão, depois para ele.

— Solte.

Licaão não soltou.

— Pai.

A palavra quase bastou.

Quase.

Os dedos de Licaão apertaram.

Níctimo puxou o braço.

— Solte!

A porta abriu.

Theron apareceu.

Mélas vinha atrás dele. Dia já atravessava o corredor.

Todos encontraram a mesma cena: Licaão segurando o filho, Níctimo tentando se libertar, a mesa, a bacia vazia.

Dia parou.

— Licaão.

Não precisou gritar.

Licaão soltou Níctimo.

— Saiam.

Ninguém se moveu.

— Todos.

Mélas entrou.

— Não.

Licaão virou-se para ele.

— Já tivemos essa conversa.

— Então não devia ter criado ocasião para repeti-la.

Theron permaneceu junto à porta.

Níctimo passou pelo pai e se aproximou dele.

Licaão chamou:

— Theron.

O comandante continuava olhando para o rei.

— Meu rei.

— Segure Níctimo.

Ninguém se moveu.

— Ouviu?

— Ouvi.

— Então faça.

Theron olhou para Níctimo.

Depois para Licaão.

— Não vou fazer isso.

Alguma coisa rompeu dentro da sala.

Licaão deu um passo.

— Eu sou seu rei.

— Sim.

— Então obedeça.

Theron manteve a mão longe da espada.

— Níctimo é seu herdeiro e não cometeu crime algum.

— Desobedeceu.

O comandante respondeu:

— Isso não é sentença. E nós dois sabemos que não é por isso que quer que eu o segure.

A palavra perdeu o último apoio.

Dia entrou.

— Acabou.

Licaão olhou para ela.

— Tire Níctimo daqui.

— Vou tirar.

— Não foi uma permissão.

— Também não pedi.

Níctimo não se moveu.

— Mãe.

Dia se virou.

— Vá.

— Não.

— Níctimo.

— Não vou deixar vocês aqui.

A raiva de Licaão voltou.

— Pare de agir como se eu fosse atacar todos nesta sala.

Níctimo olhou para ele.

— Eu não achava que atacaria nenhum de nós.

Licaão ficou imóvel.

Mélas se aproximou.

— Ainda pode acabar aqui.

A porta estava aberta.

Ninguém prendia ninguém.

Níctimo podia sair. Agetor partiria pela manhã. Licaão ficaria sem resposta.

Só isso.

Não saber.

Porque conheço você.

Níctimo ainda acreditava nele.

Mesmo depois daquela sala, daquela mão em seu braço, ainda acreditava o suficiente para esperar.

Licaão percebeu um tremor nos próprios dedos e fechou a mão.

— Saiam.

Mélas permaneceu.

— Todos.

— Vou levar Níctimo.

— Leve.

Níctimo olhou para o pai.

Dia também.

Mélas demorou um pouco antes de acompanhar os outros. Theron foi o último.

A porta ficou aberta.

Licaão sentou-se.

Esfregou as mãos no rosto.

Tinha acabado.

Precisava acabar.

Então ouviu passos retornando.

Níctimo apareceu sozinho à porta.

Licaão se levantou.

— O que está fazendo?

— Minha mãe acha que fui para o pátio.

— Então vá.

Níctimo entrou.

— Não.

— Não faça isso.

— Você ia fazer.

Licaão não respondeu.

— Quero ouvir de você que não vai.

— Níctimo…

— Só isso.

O filho estava perto demais.

Sem Theron.

Sem Mélas.

Sem Dia.

Licaão entendeu por quê.

Níctimo não voltara para discutir sobre autoridade ou para vencer uma disputa. Voltara porque aquilo ainda era assunto entre pai e filho. Não queria levar Dia novamente para dentro da sala, nem transformar a casa inteira em testemunha.

Queria uma palavra.

Uma única palavra que permitisse acreditar que tudo ainda podia voltar ao lugar.

Licaão percebeu a confiança e sentiu horror.

— Diga.

— Não posso.

Níctimo ficou parado.

Algo mudou em seu rosto.

O afeto continuava ali, e talvez fosse justamente isso que tornou possível o que veio depois.

— Então eu estava errado.

Virou-se.

Licaão o alcançou.

Níctimo reagiu imediatamente. O banco tombou com estrondo e a mesa arrastou no chão. A luta não durou muito. O filho era mais jovem e mais rápido, mas entrara ali para conversar com o pai, não para enfrentá-lo.

Licaão conhecia quedas. Sabia onde colocar o quadril para roubar o equilíbrio de outro homem e quando prender uma mão antes que encontrasse apoio.

Níctimo percebeu tarde demais que a discussão havia terminado.

O ombro bateu no chão.

Tentou girar.

Licaão o segurou.

— Pai!

A palavra atravessou a violência.

Níctimo acertou-lhe o rosto.

Licaão perdeu o equilíbrio, e o rapaz quase alcançou a porta. Agarrou-o pelo manto. Os dois caíram.

A faca estava na cintura de Licaão.

Sempre estivera.

Não fora levada para aquela sala com esse propósito.

Ele a puxou.

Níctimo viu a lâmina e parou.

Não se rendeu.

Simplesmente não acreditou.

— Não.

Licaão também queria dizer aquilo.

Níctimo olhou para ele.

— Pai.

A faca tremia na mão de Licaão.

Ainda podia soltá-la.

Agetor partiria.

Ele nunca saberia.

Nunca.

Níctimo viu a decisão antes do movimento.

— Era só uma pergunta.

Licaão enfiou a lâmina.

Uma vez.

O corpo de Níctimo se contraiu. O ar lhe escapou. Licaão o segurou enquanto a faca caía no chão.

Níctimo tentou respirar.

Licaão pressionou a mão contra a ferida, como se ainda houvesse alguma decisão capaz de desfazer a anterior.

— Fique comigo.

Níctimo abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

— Fique.

Os dedos do filho se fecharam no braço dele.

Apertaram por um instante.

Depois perderam a força.

Licaão permaneceu ajoelhado, pressionando a ferida.

Esperou outra respiração.

Não veio.

Continuou esperando.


Mélas encontrou os dois.

Parou na porta.

Licaão não ergueu a cabeça.

— Feche.

Mélas não obedeceu.

— Mélas.

O conselheiro olhava para Níctimo.

— Feche a porta.

— Você fez.

Licaão manteve a mão sobre a ferida já inútil.

— Feche.

Mélas entrou e fechou.

Não para obedecer ao rei.

Para impedir que outros vissem.

— Chame Theron.

Mélas olhou para ele.

— Não.

— Preciso…

— Não.

Licaão finalmente ergueu os olhos.

Mélas chorava em silêncio.

Aquilo pareceu mais errado do que o corpo diante dele.

— Preciso terminar.

O conselheiro ficou parado.

— Terminar?

— Sim.

Mélas olhou para Níctimo.

Depois para Licaão.

— Faça sozinho.

Saiu.

Theron não entrou quando soube.

Ficou no corredor.

Dia chegou antes que alguém pudesse impedi-la. Mélas tentou detê-la, mas ela passou, abriu a porta e viu.

Nenhum som saiu.

Licaão se levantou.

— Dia.

Ela caminhou até Níctimo.

Ajoelhou-se.

Tocou o cabelo do filho, depois o rosto.

Licaão tentou falar.

— Eu…

Dia olhou para ele.

A palavra morreu.

Ainda não havia raiva em seu rosto. Havia algo que Licaão jamais vira quando ela o encarava: estranhamento. Como se o homem diante dela tivesse a aparência do marido, a voz do marido, as roupas do marido, e mesmo assim precisasse ser reconhecido outra vez.

— Saia.

Licaão permaneceu.

— Dia.

— Saia.

— Preciso…

Ela se levantou.

— Não diga que precisa de alguma coisa.

A voz continuava baixa.

— Não agora.

Dia apontou para a porta.

Licaão saiu.

Theron estava do outro lado.

Viu o sangue nas mãos do rei e passou a olhar para o chão.

Mélas permanecia junto à parede.

— Preciso de dois homens.

Ninguém respondeu.

— Dois.

Theron ergueu os olhos.

— Para quê?

Licaão demorou.

— Preparar o corpo.

Theron negou com a cabeça.

— Não farei isso.

— Theron.

— Não.

— Então encontre alguém.

— Também não farei isso.

Licaão se voltou para Mélas.

— Nem olhe para mim.

Durante anos, aqueles dois homens haviam transformado suas decisões em atos. Theron fornecia homens, segurança, força. Mélas encontrava caminhos, consequências, palavras que permitiam à casa continuar funcionando.

Agora nenhum deles se movia.

Se Licaão quisesse terminar, faria sozinho.


Os servos receberam ordens separadas.

Água.

Fogo.

Uma faca limpa.

Uma panela menor.

Ninguém fez muitas perguntas. O sangue na túnica do rei bastou para silenciá-las.

Um rapaz trouxe água e saiu depressa. Outro deixou sal. Uma mulher da cozinha recebeu ordem para manter o fogo aceso e não entrar na dependência.

Ela obedeceu.

Licaão fez o restante.

Cobriu primeiro o rosto do filho.

Depois trabalhou.

Rápido.

Sem cerimônia.

Obrigou as mãos a reconhecer apenas matéria, peso, articulações. A mentira precisava ser simples para funcionar: aquilo já não era Níctimo.

Era carne.

Percebia a monstruosidade dessa mentira enquanto a usava e, ainda assim, continuou.

Quando terminou, lavou a faca.

A água ficou turva.

Trocou-a.

Lavou outra vez.

Era a mesma lâmina que naquela manhã servira para cortar corda. A mesma que já usara em viagens para carne de cabra.

Licaão deixou-a dentro da bacia.

Na cozinha, o cheiro do fogo, das ervas, da gordura e das carnes assadas já se misturava a ponto de uma não se distinguir da outra.

Era exatamente o que precisava.

A constatação lhe causou repulsa.

O banquete, porém, não foi cancelado.

Mélas acreditou que seria. Dia exigiu que fosse. Theron simplesmente presumiu que nenhum homem seria capaz de continuar depois daquilo.

Licaão continuou.

Mélas o encontrou trocando a túnica.

— Foi para isso.

— Foi.

— Então matar seu filho ainda não bastou.

Licaão amarrou o cinto.

— Se eu parar agora, ele morreu por nada.

Mélas ficou olhando para ele.

— Não diga isso.

— É verdade.

— Não. Você o matou por nada antes de tocar naquela faca.

Licaão puxou o nó do cinto.

— Vá embora.

— Com prazer.

Mélas virou-se.

— Preciso de você à mesa.

O conselheiro parou.

— Não.

— Agetor espera uma refeição nesta casa. Se todos desaparecerem, saberá que aconteceu alguma coisa antes que eu descubra o que preciso.

Mélas olhou por cima do ombro.

— Ainda consegue chamar isso de teste.

— É o que é.

— Para Níctimo não foi.

Saiu.

Licaão não o chamou novamente.


Dia não foi à mesa.

Ninguém tentou obrigá-la.

Theron também não apareceu.

Mélas veio.

Licaão não sabia se o conselheiro estava ali por lealdade à casa, por receio do que ele faria sozinho ou porque precisava ver até onde aquilo chegaria.

Sentou-se longe.

Não falou.

Agetor chegou quando as lamparinas já estavam acesas. O fogo lançava sombras compridas sobre as paredes, e o cheiro de carne assada permanecia preso no salão.

O estrangeiro examinou os lugares vazios.

— Imaginei que haveria mais gente.

Licaão indicou onde deveria sentar.

— Tivemos um problema na casa.

Agetor tomou o lugar.

— Grave?

— Estamos resolvendo.

Mélas fechou a mão sobre a borda da mesa.

Agetor percebeu.

Não comentou.

Um servo trouxe pão.

Outro serviu vinho.

Agetor agradeceu a ambos e partiu um pedaço do pão.

— Dia não vem?

— Não.

— E Níctimo?

O nome percorreu o corpo de Licaão como uma pancada.

— Também não.

Agetor olhou para ele.

— Pensei que ficaria.

— Surgiu outra obrigação.

Mélas levantou os olhos.

Licaão não o encarou.

Agetor bebeu vinho.

— Então agradeça aos dois por mim antes que eu parta.

— Farei isso.

A mentira saiu sem esforço.

Licaão odiou isso.

Os primeiros pratos chegaram.

Pão, queijo, ervas, carne comum.

Agetor comeu pouco. Falou sobre a estrada do sul e perguntou se a chuva recente tornara a passagem difícil. Licaão respondeu. Mélas permaneceu quase todo o tempo em silêncio.

Por alguns minutos, o salão imitou dezenas de outras refeições oferecidas naquela casa. Servos entravam e saíam. Vinho passava de mão em mão. Lenha estalava no braseiro. Uma lamparina soltava fumaça porque alguém deixara o pavio alto demais.

Licaão percebeu cada detalhe.

O último recipiente continuava na cozinha.

Ele próprio indicara qual seria.

Quando o servo apareceu carregando-o, a boca de Licaão secou.

O rapaz não sabia.

Licaão acompanhou suas mãos enquanto atravessava o salão.

Não sabia.

Por algum motivo, isso importava.

O servo colocou o prato diante de Agetor.

Outro diante de Licaão.

Quando se aproximou de Mélas, o conselheiro levantou a mão.

— Não quero.

O homem se afastou.

Agetor continuou falando.

— Se sair cedo, alcanço a passagem antes do calor.

— Sim.

O estrangeiro pegou o pão e partiu um pedaço.

Então viu o prato.

A mão parou.

Licaão também.

Mélas permaneceu imóvel.

Agetor pousou o pão.

Nada aconteceu no salão. Nenhuma mudança de luz, nenhum som vindo do céu. O fogo continuou estalando. A fumaça da lamparina subia torta em direção às vigas.

Agetor apenas olhou para a carne.

Uma vez.

Depois ergueu os olhos para Licaão.

O coração do rei batia com força contra as costelas.

Agetor não perguntou o que lhe haviam servido.

Não aproximou o prato do rosto.

Não tocou na carne.

Olhou para ela outra vez.

Quando falou, sua voz era a mesma do viajante que chegara àquela casa dias antes.

— Onde está Níctimo?

Licaão não respondeu.

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