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Níctimo percebeu que havia alguma coisa errada quando Agelau estendeu a mão para receber a taça e Licaão não a entregou.

O gesto fazia parte da oferenda havia tanto tempo que Níctimo já não precisava pensar na ordem. Primeiro vinha a farinha. Depois, o vinho. Agelau recebia a taça, pronunciava as palavras devidas e derramava a primeira porção junto ao fogo. Só então a entregava ao chefe da casa.

Níctimo vira o pai repetir aquilo desde pequeno.

Naquela manhã, Licaão continuou segurando a taça.

Agelau manteve a mão aberta por alguns instantes.

— Meu rei. A taça.

Licaão olhou para ela.

— Eu sei.

Dia estava do outro lado do altar. Theron permanecia próximo à entrada do pátio com dois homens da casa. Mélas ainda não chegara. Um cordeiro amarrado junto à parede sacudiu a cabeça e puxou a corda até fazê-la ranger contra a argola.

Agelau recolheu a mão.

— Preciso fazer a libação antes de continuar.

— Por quê?

Níctimo voltou-se para o pai.

Licaão sempre perguntava. Sobre terras, animais, homens, ferramentas, pesos, registros. Perguntava quando já conhecia metade da resposta e, às vezes, quando conhecia quase tudo.

Mas aquela pergunta era diferente.

Agelau percebeu também.

— Porque é assim que a oferenda desta casa começa.

— Sei como começa.

— Então entregue a taça.

Licaão girou o recipiente entre os dedos.

— Quem recebe o vinho primeiro?

Agelau manteve a voz controlada.

— Zeus.

— Quanto?

Dia voltou a atenção para o marido.

Níctimo sentiu o estômago apertar.

— Não se mede uma libação dessa maneira.

— Alguém mediu o vinho antes de colocá-lo aqui.

— O volume da oferenda não é o que importa.

Licaão inclinou a taça.

Por um instante, Níctimo pensou que o pai fosse realizar o gesto habitual. Em vez disso, molhou dois dedos e deixou algumas gotas caírem sobre a pedra junto ao fogo.

O vinho chiou.

Três pequenas manchas escuras se abriram na superfície aquecida.

Licaão entregou a taça.

— Continue.

Agelau não a recebeu imediatamente.

— Isso não é a libação da casa.

— Vinho foi oferecido.

— Você sabe que não estou discutindo se houve vinho.

— Sei.

O cordeiro puxou a corda outra vez.

Dia chamou o sacerdote pelo nome.

— Agelau.

Só isso.

Ele aceitou a taça.

O rito prosseguiu.

Níctimo acompanhou os movimentos, mas deixou de prestar atenção às palavras. Observava o pai.

Licaão não estava zangado.

Quando a raiva vinha, Níctimo sabia reconhecê-la. O pai se tornava econômico até nos movimentos. Parava de desperdiçar palavras, cortava conversas pela metade, deixava claro a todos ao redor que qualquer insistência teria preço.

Naquela manhã, não havia isso.

Licaão observava.

Agelau lançou farinha sobre o fogo. Uma parte queimou imediatamente; outra caiu sobre a pedra. O cheiro seco do grão torrado se misturou à fumaça.

Licaão acompanhou as chamas.

Depois ergueu os olhos para o espaço aberto acima das colunas.

Ficou assim durante algumas respirações.

Níctimo reconheceu a espera.

Já a vira no pátio quando Leonte chamara por Zeus.

Ali, porém, o homem estivera amarrado a um banco, com sangue nas costas e quarenta pessoas assistindo. A espera fora pública, deliberada, pesada o bastante para obrigar todos a participarem dela.

Agora não durou mais que alguns instantes.

Licaão voltou a atenção para Agelau.

— Prossiga.

O sacerdote continuou.

Nada acontecera.

Níctimo sentiu-se ridículo por registrar isso.

O que deveria acontecer?

O fogo queimava porque havia lenha. A fumaça subia. O cordeiro estava inquieto porque cordeiros presos se inquietavam. Um pássaro pousou por um instante sobre o muro e tornou a voar.

Ainda assim, quando Agelau tomou a faca para a parte seguinte do rito, Níctimo percebeu que ele próprio também havia esperado.

Isso o incomodou mais do que as gotas de vinho.

A oferenda terminou sem outra alteração.

Agelau lavou as mãos.

— Preciso falar com você.

Licaão já se afastava.

— Fale.

— Em particular.

— Então espere até eu terminar o que tenho para fazer.

— Isto não deveria esperar.

Licaão parou.

— O reino já perde tempo suficiente com coisas que homens decidem chamar de urgentes.

Agelau indicou Theron e os outros presentes com um movimento da mão.

— Não vou discutir isso diante deles.

— Então não discuta agora.

Licaão passou por Níctimo.

— Venha.

O rapaz levou um instante para perceber que a ordem era para ele.

— Eu?

— Você é o herdeiro. Foi uma das razões de Agelau querer sua presença esta manhã.

O sacerdote não contestou.

Níctimo seguiu o pai.

Ao atravessar a porta, olhou para trás.

Agelau continuava junto ao altar.

Ainda segurava a taça.


— O que você fez foi errado?

Níctimo esperou até deixarem o pátio interno.

Licaão seguiu pelo corredor.

— Seja específico.

— A libação. As gotas.

— Você viu.

— Vi. Quero saber se devia ter feito de outro jeito.

— Agelau acha que sim.

— Eu sei o que Agelau acha.

Licaão lançou-lhe um breve olhar.

— E você?

Níctimo não gostava quando o pai devolvia perguntas desse jeito. Quase sempre descobria, no meio da própria resposta, que sabia menos do que imaginava.

— Não sei.

— Então somos dois.

— Mas você sabia que Agelau não aceitaria.

— Isso eu sabia.

— E fez mesmo assim.

— Fiz.

Desceram para o pátio maior.

Ali a casa já funcionava em pleno ritmo. Trabalhadores cruzavam o espaço com cestos, ferramentas e tábuas de registro. Dois homens discutiam junto ao celeiro. Um burro carregado de lenha resistia a avançar enquanto um rapaz tentava convencê-lo com palavras que não melhoravam a disposição do animal.

Theron surgiu por outro corredor e alcançou os dois.

— Encontramos seis famílias.

Licaão parou.

— Apenas seis?

— Seis que se encaixam no critério que deu ontem: gente com pouca comida, dívida ou razão suficiente para tentar o depósito se a situação piorar.

— Quantas pessoas?

Theron consultou a tábua.

— Vinte e nove. Talvez trinta. Uma das mulheres está grávida.

— Crianças?

— Onze.

Licaão tomou o registro e percorreu os nomes.

— Por que não receberam ajuda antes?

— Duas famílias nunca pediram. Uma deve cevada ao depósito. Nas outras três houve um problema com o grão separado.

Licaão levantou os olhos.

— Que problema?

Theron pareceu desejar ter escolhido palavras diferentes.

— Agelau pediu que parte do grão reservado para distribuição ficasse intocada até a oferenda do fim da lua.

Níctimo teve a sensação de que a manhã acabava de voltar ao ponto onde começara.

Licaão entregou a tábua.

— Quanto está separado?

— Quatro cestos grandes.

— Quanto dessa quantidade é realmente necessária para o rito?

— Não sei.

— Você sabe para que o grão seria usado?

— Para a oferenda.

— Isso é o nome do uso. Quero saber a quantidade necessária.

Theron não tentou inventar.

— Agelau poderá explicar.

Licaão percorreu o pátio com os olhos.

— Distribua dois cestos hoje.

Theron permaneceu onde estava.

— Dos quatro reservados?

— Sim.

— Temos outros estoques, mas os registros—

— Use os separados.

Níctimo teve o impulso de concordar antes mesmo de considerar qualquer outra coisa.

Havia crianças passando fome.

Havia cevada.

A oferenda só aconteceria no fim da lua.

Aquilo lhe parecia exatamente o tipo de decisão em que o pai era melhor: alguém apresentava o problema e Licaão removia tudo o que considerava desnecessário até chegar ao que podia ser feito.

Theron perguntou:

— Divido entre as seis famílias?

— Comece pelas que têm crianças. Veja quanto possuem em casa e dê o suficiente para não voltarem amanhã. As outras entram na próxima distribuição.

— Vou providenciar.

Licaão olhou para Níctimo.

— Você discorda?

— Não.

— Por quê?

— Porque quem está com fome precisa da cevada agora.

— Certo.

Licaão retomou o caminho.

Níctimo foi atrás.

A decisão fazia sentido.

O que o incomodou foi perceber que o pai parecia satisfeito com ela de um modo que ia além das seis famílias.

Agelau descobriu antes do meio-dia.

Níctimo estava com Mélas na sala grande, tentando acompanhar um registro de trabalhadores disponíveis para reparar outro trecho de estrada, quando ouviram a voz do sacerdote no corredor.

Agelau não gritava.

Não precisava.

— Onde está Licaão?

Um servo respondeu alguma coisa que Níctimo não conseguiu ouvir.

— Eu sei que está ocupado. Perguntei onde está.

Mélas interrompeu a leitura.

— Duas cabras.

Níctimo olhou para ele.

— O quê?

— Aposto duas cabras que ele entra sem ser anunciado.

A porta abriu.

Agelau entrou.

Mélas estendeu a mão para Níctimo.

— Duas.

Níctimo quase riu, mas a expressão do sacerdote matou a vontade.

— Onde está Licaão?

Mélas indicou o lado leste da casa.

— No terraço com os homens de Parrásia. Alguma emergência?

— Mandou retirar grão que estava reservado.

— Ah.

— Você sabia?

— Não.

— Então por que essa cara?

— Porque finalmente descobri por que chegou andando como se pretendesse derrubar a porta.

Agelau fez menção de sair.

Mélas o chamou:

— Se subir assim, vai entregar a Licaão a melhor parte da discussão antes de começar.

O sacerdote parou.

Níctimo também largou a tábua.

Agelau voltou até a mesa.

— Que discussão ele quer?

Mélas levou um instante antes de responder.

— Talvez não queira nenhuma.

— Acabou de dizer—

— Eu disse que você está zangado e ele provavelmente não. Em quase vinte anos observando os dois, aprendi que isso raramente termina bem para a pessoa zangada.

Agelau se aproximou.

— O grão foi separado.

— Sim.

— Não pertence ao estoque comum.

— Continua pertencendo à casa.

— Foi destinado a uma oferenda.

— E Licaão vai dizer que aquilo que foi destinado pode receber outro destino.

Agelau olhou para Mélas com evidente desprezo.

— É assim que o aconselha?

— Não. Estou economizando seu tempo e antecipando o argumento que ele usará.

Níctimo tentou voltar à tábua.

Não conseguiu.

Agelau apoiou as mãos sobre a mesa.

— Essa oferenda acontece dessa maneira desde antes do pai de Licaão.

— Sei.

— Hoje ele também alterou a libação.

Mélas voltou-se para Níctimo.

— Você estava lá.

— Estava.

Agelau se concentrou no rapaz.

— Então viu.

— Vi.

— O que achou?

Níctimo pensou.

— O rito continuou.

— Não perguntei se continuou.

— Perguntou o que eu achei.

Mélas levou a mão à boca.

Agelau lançou-lhe um olhar.

Níctimo percebeu, tarde demais, o quanto soara parecido com o pai.

— Você é o herdeiro — disse Agelau.

— Sei.

— Precisa compreender o que vai receber desta casa.

— Meu pai me disse a mesma coisa ontem.

— Imagino.

A maneira como falou irritou Níctimo.

— O que espera de mim?

Agelau não respondeu imediatamente.

Isso diminuiu a irritação do rapaz.

O sacerdote não parecia ter entrado ali procurando um aliado contra Licaão. Parecia, pela primeira vez, não saber exatamente onde colocar Níctimo dentro da disputa.

— Quero que aprenda — disse por fim.

— Estou tentando.

Agelau voltou-se para Mélas.

— Diga a Licaão que preciso falar com ele.

— Você está a poucos corredores de distância. Pode dizer pessoalmente.

— Sem plateia.

— Então espere a audiência acabar.

Agelau saiu.

Níctimo acompanhou-o até a porta fechar.

Mélas pegou novamente a tábua.

— Onde estávamos?

— Nos homens da estrada.

— Ótimo. Um problema em que nenhuma divindade se oferece para carregar pedra.

Níctimo não voltou a ler.

— Meu pai mandou distribuir o grão por causa das famílias.

Mélas pousou o estilete.

— Imagino que sim.

— “Imagina”?

— Há seis famílias com pouca comida e dois cestos saindo do depósito. É uma conclusão razoável.

— Você concorda com ele?

Mélas ajeitou a tábua para que um dos cantos não ficasse sobre uma poça de cera.

— Se temos grão e crianças passando fome, usar parte desse grão me parece defensável.

— Mesmo tendo sido separado para a oferenda?

— Eu disse defensável. Não disse que Agelau vai bater palmas.

Níctimo lembrou do pai diante do fogo.

— E as três gotas de vinho?

— Não estava lá.

— Ele fez aquilo de propósito.

Mélas ergueu os olhos.

Níctimo continuou:

— Agelau estendeu a mão. Meu pai perguntou quanto Zeus precisava. Depois deixou quase nada cair na pedra e ficou esperando.

O conselheiro demorou um pouco antes de responder.

— Entendo.

— Para quê?

— Essa é uma excelente pergunta.

— E?

— E você deve fazê-la ao homem que segurava a taça.


Os dois cestos de cevada saíram pouco depois.

Níctimo foi até o depósito por conta própria.

Queria ver as pessoas que receberiam o benefício daquela decisão. Depois de Kynos, tinha começado a desconfiar de números que chegavam à sala do rei sem rosto.

Uma mulher magra esperava perto da porta com duas crianças. Um homem mais velho segurava um saco remendado contra o peito. Outra família mandara um rapaz que talvez tivesse apenas alguns anos a menos que Níctimo; ele permanecia perto da parede, evitando olhar para qualquer pessoa que pudesse reconhecê-lo.

O responsável pelo depósito pesava as porções.

Theron conferia nomes e quantidades.

Nenhum sacerdote apareceu.

Nenhuma discussão sobre tradição ou autoridade.

Havia apenas grão saindo de cestos grandes e entrando em sacos menores.

Níctimo observou a primeira mulher receber sua parte. As crianças acompanhavam cada medida. Uma delas tinha os joelhos sujos de terra e segurava a borda da túnica da mãe.

Aquilo fazia sentido.

Não importava o que Agelau pretendia fazer com a cevada no fim da lua. Naquele dia, aquelas crianças comeriam.

O responsável fechou o saco.

— Agradeça ao rei.

— Não.

A voz veio atrás deles.

Todos se viraram.

Licaão havia chegado sem que Níctimo percebesse.

O responsável pelo depósito empalideceu.

— Meu rei, eu só—

— Ela não precisa me agradecer porque os filhos vão comer.

A mulher inclinou a cabeça mesmo assim.

— Obrigada.

Licaão aceitou sem insistir.

A menina menor se escondeu atrás da mãe.

Ele se abaixou até ficar próximo da altura dela.

— Como você se chama?

A criança apertou o tecido da túnica.

A mãe tocou-lhe o ombro.

— Responda ao rei.

— Etra.

— Está com medo de mim?

A menina confirmou com a cabeça.

A mãe ficou horrorizada.

Licaão riu.

— Pelo menos ninguém ensinou você a mentir por educação.

Etra não pareceu compreender.

Níctimo sorriu.

Era nesses momentos que tinha dificuldade de reconciliar o pai diante dele com o homem que, dois dias antes, mandara Leonte chamar por Zeus enquanto a vara esperava.

Licaão se levantou.

— Theron, quero as outras famílias aqui amanhã.

— Vou buscá-las.

— E descubra se dívida está impedindo alguém de pedir alimento. Não quero descobrir outro caso só depois de quebrarem uma porta.

— Entendido.

Licaão passou os olhos pelo interior do depósito.

Dois cestos ainda fechados estavam encostados ao fundo. Uma faixa de tecido amarrada a cada um marcava a reserva da oferenda.

— São os outros dois?

Theron seguiu o olhar.

— São.

— Abra um.

O comandante permaneceu parado.

Níctimo se virou para o pai.

— Por quê?

Licaão olhou para ele.

— Quero ver o conteúdo.

— É cevada.

Um dos guardas tossiu para esconder alguma reação.

Licaão não se irritou.

— Então terminamos rápido.

Theron aguardava a ordem final.

Licaão indicou o cesto.

— Abra.

O responsável cortou a amarra e retirou a tampa.

Cevada.

Licaão se aproximou, mergulhou a mão nos grãos e deixou-os escorrer pelos dedos.

Níctimo observou.

Não havia outra família esperando.

Nenhuma criança nova surgira à porta.

O terceiro cesto continuava sem destino.

Licaão tomou um punhado.

— Há alguma diferença entre esta cevada e a que acabou de sair?

Theron não respondeu.

O responsável pelo depósito se ocupou de uma corda.

Níctimo falou:

— Não.

Licaão voltou-se para ele.

— Tem certeza?

— É o mesmo grão.

— Exato.

O desconforto que havia desaparecido enquanto as famílias recebiam comida voltou.

— Então mande fechar.

Licaão inclinou a cabeça.

— Agora você está dando ordens no depósito?

— Estou perguntando por que continua aberto.

— Porque mandei abrir.

— Isso eu percebi.

Níctimo ouviu a própria voz e só então se deu conta de quantas pessoas estavam escutando.

Theron.

Os guardas.

O responsável.

As famílias ainda presentes.

Dois trabalhadores próximos à porta.

Não era uma audiência, mas também não era uma conversa entre pai e filho.

Licaão percebeu.

— Theron, feche o cesto.

O comandante fez sinal ao responsável.

Licaão perguntou:

— Terminou a distribuição?

— Por hoje.

— Níctimo, venha comigo.


Licaão não falou enquanto atravessavam a casa.

Níctimo teve tempo suficiente para imaginar várias formas de reprimenda.

O pai não o levou à sala grande nem aos aposentos privados. Subiu por uma escada estreita até uma parte alta do muro, de onde era possível ver as encostas, os caminhos e os telhados das construções próximas.

Havia dois bancos de pedra.

Licaão permaneceu de pé.

— Por que fez aquela pergunta diante deles?

Níctimo sentiu o rosto aquecer.

— Não pensei no lugar.

— Da próxima vez, pense.

— Sim.

— Se discordar de uma ordem minha, pode dizer. Mas escolha onde.

Níctimo olhou para o vale.

— Não estava tentando desobedecer.

— Eu sei.

A resposta o surpreendeu.

Licaão apoiou os antebraços sobre o muro.

— E você estava certo numa coisa.

— Qual?

— Eu mandei retirar dois cestos.

Níctimo voltou-se para ele.

— Então por que abriu o terceiro?

— Queria ver o que aconteceria.

A resposta foi tão simples que demorou a fazer sentido.

— Com a cevada?

— Comigo.

Níctimo sentiu um arrepio nos braços apesar do calor.

— Por abrir um cesto?

— Por tocar no que foi separado.

O rapaz ficou quieto.

— Você fez a mesma coisa durante a oferenda.

Licaão o encarou.

— O quê?

— Esperou.

O pai tornou a olhar para o vale.

— Sim.

Níctimo lembrou de Leonte, da voz do homem chamando Zeus, da longa espera diante de quarenta pessoas.

Naquela manhã não houvera sangue.

Só vinho.

Depois cevada.

Talvez fosse justamente isso que tornasse tudo mais inquietante. Aquilo podia caber numa manhã comum.

— Eu entendo os dois primeiros cestos.

— Ainda bem.

— As famílias precisavam.

— Precisavam.

— E Agelau queria guardar a cevada para uma oferenda que ainda vai demorar.

— Sim.

— Então usá-la agora tem motivo.

Licaão esperou.

Níctimo continuou:

— O terceiro não alimentou ninguém.

— Ainda pode alimentar.

— Mas não foi por isso que mandou abrir.

— Não.

Níctimo escolheu as palavras com cuidado. Não queria repetir Agelau nem transformar a conversa numa acusação de impiedade.

— Então o que queria descobrir?

Licaão passou o polegar por uma irregularidade da pedra do muro.

— Você lembra da cisterna velha no pátio norte?

Níctimo demorou a entender a mudança de assunto.

— A que ficava coberta com madeira?

— Essa.

Ele lembrava.

Quando criança, evitava até atravessar sozinho aquele pátio. Uma criada lhe contara que alguma criatura vivia no fundo da cisterna e puxava crianças que chegavam perto.

— Eu tinha seis anos.

— Sete.

— Isso melhora bastante.

Licaão sorriu.

— Tirei a tampa e fiz você olhar.

Níctimo lembrava com clareza.

Pedra úmida. Água escura muito abaixo. Cheiro de lodo.

Nenhuma criatura.

— Queria me mostrar que a história era falsa.

— Queria que você soubesse qual perigo era real. Podia cair na cisterna. Isso bastava.

— Um altar não é uma cisterna.

— Não.

— E Zeus não é uma história contada por criada para assustar criança.

Licaão ficou sério.

— Nunca disse que fosse.

— Mas está fazendo quase a mesma coisa. Abre o cesto, muda a libação, espera e olha em volta para ver se acontece algo.

O pai permaneceu em silêncio.

Níctimo perguntou:

— Você acha que Zeus existe?

— Já conversamos sobre isso.

— Não dessa maneira.

Licaão abandonou o muro e caminhou alguns passos.

— Homens demais contam ter visto coisas que não sei explicar. Não preciso chamar todos de mentirosos ou tolos para admitir que posso não compreender.

Níctimo não esperava aquela resposta.

— Então acredita.

— Acredito que a questão não termina em existir ou não.

— Qual é a outra parte?

Licaão voltou.

— Quanto da minha autoridade deve ser entregue a homens que dizem saber o que um deus quer.

Níctimo pensou.

— Agelau diria que não é autoridade dele. É de Zeus.

— Naturalmente.

— E você acha que ele mente?

— Não. Acho que Agelau acredita no que diz.

— Isso não torna melhor?

— Torna mais complicado.

Níctimo se aproximou do muro.

— Você está tentando descobrir os limites.

— Estou.

— Mexendo neles.

— Algumas vezes.

— E se um limite for real?

Licaão levou algum tempo antes de responder.

— Posso atravessá-lo sem saber.

A admissão interrompeu o argumento que Níctimo preparava.

— Isso preocupa você?

— Sim.

— Não parece.

Licaão virou-se de frente para ele.

— Estar preocupado não significa permanecer imóvel.

Níctimo conhecia aquele tom. Era o tom que o pai usava para ensinar.

Durante anos, quase sempre bastara.

Dessa vez, não.

— Mas também não significa que precisa tocar numa coisa só para descobrir se deve ter medo dela.

Licaão ficou parado.

Níctimo sentiu o coração acelerar.

Esperou uma repreensão.

Não veio.

— Tem razão — disse o pai.

O vento atravessou o alto do muro. Lá embaixo, alguém chamou uma mula. Uma criança respondeu de algum pátio.

Níctimo passou a mão pelos joelhos.

— Então continuo sem entender o terceiro cesto.

— Não precisa resolver tudo hoje.

— Você me levou à oferenda porque disse que preciso conhecer aquilo que vou herdar.

— E precisa.

— Então também preciso entender o que está fazendo com essas coisas.

Licaão observou o filho por alguns instantes.

— Quero saber de onde vêm as proibições que esta casa obedece.

— De costumes.

— Às vezes.

— De sacerdotes.

— Às vezes.

— De deuses.

— Talvez.

Níctimo quase protestou.

Licaão continuou:

— Algumas proibições existem porque alguém morreu fazendo determinada coisa. Outras porque um rei decidiu e os filhos repetiram. Outras porque um sacerdote interpretou um acontecimento e ninguém quis desafiar. Depois passam cinquenta anos e todos sabem o que não pode ser feito, mas ninguém sabe mais explicar de onde veio.

— E algumas existem porque um deus realmente proibiu.

— Pode ser.

— Você sempre volta para “pode ser”.

— Porque não tenho mais do que isso.

Níctimo sentou-se num dos bancos.

— Para Agelau, isso já bastaria.

— Agelau costuma tratar possibilidade como obrigação.

— E você vai tratar como se não existisse?

Licaão abriu a boca, mas demorou antes de responder.

Níctimo percebeu.

— Não.

O pai voltou a olhar para a encosta.

— Só não vou obedecer automaticamente a toda ordem que chegar com o nome de um deus preso a ela.

Níctimo tentou organizar a ideia.

Era justamente isso que o incomodava: havia sentido nela.

Um rei não podia abandonar um julgamento toda vez que alguém invocasse Zeus. Níctimo já vira homens usarem medo para conseguir vantagem. Vira como a autoridade de um nome fazia pessoas concordarem sem entender. Vira em Kynos o que acontecia quando uma ordem deixava o palácio e encontrava famílias de verdade.

O pai estava certo sobre parte daquilo.

O terceiro cesto ainda continuava aberto em sua cabeça.

— Se nenhuma daquelas famílias precisasse de comida, você teria mexido nos cestos reservados?

Licaão olhou para ele.

— Hoje?

— Sim. Se não houvesse Leonte, nem aquelas famílias, nem razão prática para tocar na cevada.

O pai demorou.

Níctimo soube a resposta antes de ouvi-la.

— Talvez.

— Então não era só sobre a fome.

— Os dois primeiros eram.

— O terceiro não.

— Não.

Níctimo passou a mão pelo joelho.

— Foi isso que me incomodou lá embaixo.

Licaão esperou.

— Quando você mandou tirar as cabras de Kynos, eu não gostei.

— Sei.

— Mas entendo a razão. A estrada precisava de trabalho, a aldeia recusou e um mensageiro foi atacado.

— Certo.

— Quando puniu Leonte, achei vinte golpes demais.

Licaão não comentou.

— Mas ele entrou no depósito. Estudou o guarda. Quebrou a tranca. Você estava punindo uma coisa que aconteceu.

— E o cesto?

— Não fez nada.

Licaão quase riu.

— É um cesto de cevada.

— Eu sei.

— Então por que isso o incomoda mais do que vinte golpes?

Níctimo levantou os olhos.

— Porque você sabe por que deu os golpes.

Licaão ficou quieto.

— E acha que não sei por que abri o cesto?

— Acho que está tentando descobrir depois de abrir.

O silêncio entre os dois se alongou.

Níctimo percebeu que talvez tivesse ido longe demais.

Licaão caminhou até o outro banco e sentou-se.

— Você acha que estou me divertindo?

— Não.

— Acha que faço isso só para provocar Agelau?

Níctimo pensou.

— Um pouco.

Licaão riu.

A tensão cedeu o suficiente para que Níctimo também risse.

— Talvez um pouco — admitiu Licaão.

— Eu sabia.

— Não fique tão satisfeito.

— É raro acertar uma antes de você.

O pai tocou de leve o joelho dele com o próprio.

Um gesto pequeno, antigo.

Níctimo sentiu afeto e culpa chegarem juntos.

Licaão ficou sério novamente.

— Um dia esta casa será sua. Vai receber as terras, os homens, os acordos e também os limites. Alguns foram estabelecidos por mim. Outros pelo meu pai. Outros por homens cujos nomes já ninguém lembra.

— E vou manter todos?

— Espero que não.

— Como vou saber quais tirar?

Licaão ficou olhando a encosta.

— Não sei.

Níctimo esperou por algo mais.

Não veio.

Talvez o pai começasse a descobrir que algumas perguntas resistiam até a ele.

— Então talvez não precise atravessar uma linha só para descobrir se ela existe.

Licaão virou-se.

— Talvez.

Níctimo sorriu.

— Agora você está usando a palavra.

— Não transforme em hábito.

Os dois se levantaram.

Licaão colocou a mão no ombro do filho antes de começar a descer.

— Fez bem em perguntar.

— Mesmo no depósito?

— Não. Ali escolheu mal o lugar.

— Certo.

— Mas a pergunta devia ser feita.

Níctimo assentiu.

Desceram até o primeiro lance da escada.

Vozes chegavam do pátio abaixo.

Agelau.

Licaão também reconheceu.

Parou.

O sacerdote estava diante da entrada da sala grande. Dois homens de outra aldeia haviam acabado de chegar, e trabalhadores passavam carregando tábuas de madeira. Mélas conversava com Agelau.

Níctimo não conseguia ouvir as palavras.

Conseguia ver as mãos do sacerdote.

Agelau segurava uma das faixas de tecido que marcavam os cestos reservados para a oferenda.

A mesma que fora retirada quando abriram o terceiro cesto.

Licaão desceu mais um degrau.

Níctimo ficou onde estava.

O pai percebeu e olhou para trás.

Não pediu que o acompanhasse.

Por alguns instantes, ficaram separados apenas pela altura de um degrau.

Depois Licaão continuou sozinho.

Níctimo permaneceu na escada.

Lá embaixo, Agelau dobrou a faixa uma vez, guardou-a entre as mãos e esperou o rei atravessar o pátio até ele.

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