Capítulo 6 — Chame por Ele
por Sonhado acordadoO sangue não queria sair da madeira.
Theron já mandara jogar água duas vezes sobre o banco baixo, e uma faixa escura continuava entranhada perto de uma das pernas. Um soldado esfregava o lugar com palha molhada, espalhando a mancha sem conseguir clareá-la.
Licaão observou por alguns instantes.
— Troque o banco.
Theron examinou a madeira.
— Ainda podemos raspar.
— A madeira absorveu. Se continuar, vai gastar água boa tentando limpar uma tábua ruim.
O soldado largou a palha.
Theron apontou para o muro.
— Levem.
Dois homens carregaram o banco para fora do centro do pátio.
Leonte aguardava ajoelhado, com os pulsos presos atrás das costas. Tinha pouco mais de trinta anos, ombros largos, barba irregular de alguns dias e terra endurecida nos joelhos da túnica. O lado esquerdo do rosto estava inchado.
O sangue na madeira não era dele.
O homem castigado antes, um ladrão de cabras, recebera seis golpes e saíra do pátio andando por conta própria. Leonte receberia mais.
Quase quarenta pessoas haviam ficado para assistir. Algumas tinham vindo apresentar queixas; outras acompanhavam parentes. Dois velhos esperavam uma decisão sobre uma divisa de terras. Havia ainda os que não possuíam assunto algum com o rei, mas encontravam tempo sempre que uma punição era anunciada.
Níctimo estava perto da parede, ao lado de Mélas.
Agelau não fora chamado. Licaão não via motivo para pôr um sacerdote entre uma porta arrombada e três sacos de cevada.
— Ponham-no de pé.
Leonte tentou sozinho primeiro. Theron acabou segurando-lhe o braço.
Licaão esperou até que o homem recuperasse o equilíbrio.
— Conte de novo como entrou no depósito.
Leonte passou a língua pelo lábio rachado.
— Já contei.
— Então não terá dificuldade.
O homem lançou um olhar às pessoas reunidas.
— Peguei o grão.
— Quanto?
— Dois sacos.
Theron respondeu antes que Licaão precisasse fazê-lo.
— Encontramos três na casa e no abrigo do cunhado. Todos tinham a marca de Phemon.
Leonte virou-se.
— Um era meu.
— O seu também tinha a marca de Phemon?
A resposta morreu.
A investigação já estava praticamente encerrada antes de o acusado subir até a casa.
Três sacos de cevada tinham desaparecido de um depósito onde parte do tributo recolhido de duas aldeias era armazenada. Leonte fora visto nas proximidades. Um saco aberto apareceu na casa dele; os outros dois estavam escondidos sob palha no abrigo de animais do cunhado.
Um roubo pequeno não chegaria normalmente a Licaão.
A forma como Leonte conseguira entrar, sim.
— A porta estava trancada?
— Quando cheguei, não.
Licaão virou-se para Theron.
— Quando seus homens examinaram?
— A tranca tinha sido quebrada.
— Por dentro ou por fora?
— Por fora.
Licaão voltou ao acusado.
— Tente uma história melhor.
— Não quebrei a tranca.
— Então alguém fez o trabalho para você e deixou três sacos esperando do outro lado.
Leonte não respondeu.
— Sorte admirável.
O homem respirou pela boca.
— Meus filhos estavam com fome.
A frase provocou murmúrios entre os presentes.
Licaão ouviu uma mulher dizer alguma coisa atrás da segunda fileira, mas não distinguiu as palavras.
— Quantos filhos?
Leonte pareceu desconfiar.
— Três.
— Que idade?
— O mais velho tem oito. Depois seis. O menor, dois.
— Sua mulher está viva?
— Está.
— Terra?
— Um pedaço ruim.
— Animais?
— Duas cabras.
Licaão apoiou os braços sobre os joelhos.
— Podia ter pedido ajuda antes de arrombar um depósito.
Leonte deu uma risada amarga.
— Pedir a quem?
— A parentes. Aos vizinhos. A quem tivesse grão para emprestar.
— E se todos dissessem não?
— Continuaria pobre. Não passaria a ser dono do que estava guardado atrás de uma porta fechada.
Leonte baixou a cabeça.
Licaão deixou que ele ficasse assim por algum tempo.
— Há outra coisa. Você não roubou a despensa de um vizinho. Entrou num depósito que carregava meu selo.
— Era só cevada.
— Sei o que havia nos sacos.
— Não rompi o selo.
Licaão observou-o com mais atenção.
— Não?
— A tranca ficava embaixo. O selo continuou inteiro.
Aquilo não fora acaso.
— Então você reparou nele antes de entrar.
— Todo mundo vê um selo.
— Nem todo mundo quebra uma tranca tomando cuidado para deixá-lo intacto.
— Eu precisava do grão.
— E sabia que romper o selo agravaria o que estava fazendo.
Leonte ficou calado.
Aquela parte interessava mais a Licaão do que os três sacos.
O homem não agira às cegas. Conhecia a diferença entre uma porta qualquer e uma porta protegida pela autoridade da casa. Escolhera até onde pretendia desafiar essa autoridade.
O calor aumentava no pátio. O sol já passara do meio do céu, e as pedras devolviam o calor pelas sandálias. Uma mosca insistia no canto da boca de Leonte; ele tentava afastá-la com pequenos movimentos de cabeça.
Licaão perguntou:
— Quem guardava o depósito naquela noite?
Theron consultou a pequena tábua que um soldado lhe entregou.
— Arces. Ele se alternava com outro homem.
— Onde estava quando Leonte entrou?
— Dormindo atrás do depósito.
Algumas pessoas murmuraram.
— Admitiu?
— Admitiu que bebeu durante a vigia e dormiu.
— Já foi punido?
— Dez golpes.
Licaão voltou ao acusado.
— Você sabia que Arces estaria lá naquela noite?
— Não.
— Conhecia Arces?
Leonte não respondeu imediatamente.
Theron respondeu por ele:
— São parentes pelo casamento. Arces é primo da mulher.
Mélas abandonou a parede e se aproximou um pouco.
Licaão continuou:
— Sabia que ele bebia durante a guarda?
— Todo mundo sabe que Arces bebe.
— Sabia quando era o turno dele?
— Talvez.
— Entrou justamente naquela noite.
Leonte mexeu as mãos presas.
— Eu sabia que tinha mais chance.
— De encontrá-lo dormindo.
— Sim.
A admissão saiu baixa.
Licaão recostou-se.
Fome ainda fazia parte da história. Os três filhos continuavam existindo. A pouca terra continuava sendo pouca, e duas cabras não alimentavam uma casa inteira.
Mas Leonte não encontrara uma porta aberta durante uma noite ruim.
Observara o depósito. Conhecia o guarda. Esperara o turno adequado. Quebrara a tranca sem tocar o selo e retirara três sacos, escondendo dois em outro terreno.
— Encontramos um saco aberto e dois escondidos. O que pretendia fazer com os outros?
— Usar quando precisasse.
— Durante quanto tempo?
— Não sei.
— E depois?
Leonte ficou sem resposta.
— Eu podia devolver o que sobrasse.
Mélas fez um pequeno ruído junto à parede.
Licaão olhou para ele.
— Algum comentário?
— Nenhum que ajude o homem.
Leonte percebeu a fraqueza da própria explicação.
— Eu devolveria o que pudesse.
Licaão chamou Theron.
— Vinte golpes.
A reação percorreu o pátio antes de Leonte conseguir falar. Algumas pessoas cochicharam. Níctimo saiu da sombra da parede. Mélas ficou onde estava.
Leonte empalideceu.
— Meu rei, vinte…
— O grão que restava já voltou ao depósito?
Theron confirmou.
— Tudo que encontramos.
— Então a dívida do grão está encerrada.
Por um instante, Leonte pareceu acreditar que aquilo reduziria a punição.
Licaão prosseguiu:
— Os vinte golpes são pela entrada deliberada num depósito sob proteção da casa. Você estudou a vigia, escolheu o turno mais fraco e teve cuidado suficiente para não romper o selo. Sabia muito bem onde estava entrando.
Mélas se aproximou.
— Assim fica mais claro.
Licaão olhou para ele.
— Tinha dúvida?
— Sobre o número, ainda tenho. Sobre o motivo, não.
— Quer propor outro?
Mélas examinou Leonte.
— Se ele tivesse tirado três sacos da casa de Phemon, provavelmente devolveria mais do que levou e passaria alguns dias fugindo dos parentes do homem. O que está sendo punido aqui é ter encontrado uma fraqueza na proteção do rei e usado essa fraqueza sabendo o que fazia.
— Foi exatamente o que acabei de dizer.
— Com menos palavras. É uma vantagem de reis.
Theron mandou trazer outro banco. A madeira nova era clara, sem marcas.
Níctimo saiu de junto da parede.
— Pai.
Licaão voltou-se.
— Fale.
— Arces recebeu dez golpes.
— Por dormir enquanto deveria vigiar.
— E Leonte recebe vinte porque aproveitou que ele dormia.
— Entre outras coisas.
Níctimo aproximou-se mais.
— Se Arces não dormisse, Leonte provavelmente não teria entrado.
— Provavelmente.
— Então a falha de Arces tornou possível o roubo.
— Sim.
— Mesmo assim ele recebe metade.
Licaão percebeu várias pessoas prestando atenção à conversa entre pai e filho.
— Arces falhou no trabalho. Leonte encontrou a falha, esperou o momento certo e a usou.
— Ainda foram três sacos.
— Foram.
Níctimo passou os olhos pela multidão e pelo banco novo.
— Em Kynos parecia mais simples quando eram cabras.
Theron interrompeu o que fazia.
Mélas também entendeu a referência.
O relatório de Kynos chegara naquela manhã: vinte cabras, doze homens, uma faca sacada e guardada, nenhum morto.
Theron também relatara a menina.
Ione.
A cabra de focinho branco fora presente do pai morto. Níctimo fizera questão de que essa parte chegasse a Licaão.
O rei perguntara se Kynos escolhera os próprios animais.
Sim.
Se vinte tinham sido trazidos.
Sim.
Se os doze homens estavam no alojamento dos trabalhadores.
Sim.
Se alguém morrera.
Não.
Para Licaão, aquelas respostas eram suficientes para avaliar o cumprimento da ordem.
Níctimo aparentemente continuava pensando no restante.
— O que as cabras lhe ensinaram? — perguntou Licaão.
O rapaz demorou antes de responder.
— Quando você escolhe um número daqui, não sabe exatamente quem vai pagar quando a ordem chegar lá.
Algumas cabeças se viraram.
Licaão considerou a resposta.
— E isso muda o caso de Leonte?
— Não sei.
— Então não force uma ligação só porque a ideia incomoda.
Níctimo aceitou a correção.
— Ainda estou pensando.
— Pense. Quando tiver algo melhor, diga.
O rapaz não retornou à parede.
Licaão fez sinal para Theron.
— Comecem.
Leonte não gritou no primeiro golpe.
Mestor segurava a vara.
Não era o maior nem o mais forte dos homens de Theron. Licaão o escolhera para aquele trabalho porque sabia controlar o braço. Castigo público não devia depender da raiva de quem executava.
A vara atingiu as costas de Leonte de lado a lado.
O homem puxou o ar.
Mestor esperou.
Veio o segundo.
No quarto golpe, os joelhos de Leonte cederam. Agora seus pulsos estavam presos diante do corpo, amarrados sob o banco para impedir que se erguesse. Entre os golpes, Mestor esperava tempo suficiente para o condenado recuperar a respiração.
Licaão assistia.
Não encontrava prazer naquilo. Também não via motivo para se retirar. Se ordenava que um homem fosse castigado diante de sua casa, ficaria ali enquanto a ordem fosse cumprida.
No sexto golpe, uma mulher entre os presentes começou a chorar.
Devia ser a esposa.
No oitavo, Leonte tentou levantar o tronco.
Theron interveio:
— Não lute contra a corda. Só vai machucar os pulsos.
Mestor aguardou que ele se acomodasse.
Dois golpes depois, Theron levantou a mão.
Era costume oferecer água quando uma pena passava de dez.
Um soldado levou uma tigela. Leonte bebeu mal; parte da água escorreu pelo queixo e pingou sobre o banco novo.
Níctimo se aproximou do pai.
— Já foram dez.
— Foram.
— O mesmo que Arces.
Licaão sabia onde aquilo iria.
— Leonte não é Arces.
— O grão voltou. Arces perdeu o posto e recebeu dez. Leonte já recebeu dez também.
— Quer que eu pare?
Níctimo observou o condenado.
— Quero saber o que os outros dez fazem que os primeiros não fizeram.
Era uma pergunta melhor.
Licaão respondeu sem pressa.
— Arces abandonou a guarda por bebida e deixou uma fraqueza. Por isso apanhou e perdeu o posto. Leonte conhecia essa fraqueza, esperou por ela, rompeu a tranca e tomou três sacos de um depósito protegido pela casa. Se eu parar agora, dou aos dois a mesma pena por atos diferentes.
— Poderia ter dado menos a Arces.
— Poderia. Não dei.
Níctimo não pareceu satisfeito.
— Você acha os vinte necessários?
— Acho que foi a pena que determinei depois de ouvir o que ele fez.
— Não foi isso que perguntei.
Mélas abaixou a cabeça.
Licaão percebeu.
— Está aprendendo os hábitos ruins da família.
Níctimo não riu.
— Você gosta de fazer isso?
A pergunta mudou o pátio.
Theron permaneceu junto de Mestor. Mélas já não parecia disposto a interferir.
Licaão encarou o filho.
— Gostar não é parte da decisão.
— Para mim é.
Aquilo saiu rápido demais para ter sido preparado.
Licaão sentiu irritação, mas ela passou antes de alcançar a voz.
— Então olhe. Quando tiver homens sob sua responsabilidade, vai precisar decidir o que sua repulsa pode mudar e o que ela não pode.
Níctimo voltou-se para Leonte.
Licaão fez sinal.
— Continue.
O décimo primeiro golpe arrancou o primeiro grito inteiro.
No décimo segundo, Leonte puxou as cordas até que elas marcassem seus pulsos. Mestor manteve a mesma força.
Treze.
Quatorze.
No décimo quinto, Leonte falou alguma coisa contra a madeira.
Mestor preparou o golpe seguinte.
— Zeus…
Licaão ergueu a mão.
— Pare.
Mestor interrompeu o movimento.
O pátio inteiro ficou atento.
Leonte respirava contra o banco.
Licaão levantou-se.
— O que você disse?
Nenhuma resposta.
— Leonte.
O homem conseguiu levantar o rosto. Suor corria da testa até a barba.
— Zeus.
Uma velha entre os presentes fez um gesto com os dedos junto à boca.
Outros baixaram os olhos.
Licaão reparou nisso antes de tornar a perguntar:
— Está chamando por Zeus?
— Estou.
— Para pedir o quê?
Leonte fechou os olhos.
— Que veja.
Licaão olhou para o céu.
Não havia nada extraordinário nele.
Nuvens muito distantes se acumulavam sobre as montanhas do oeste, finas demais para prometer chuva. Sobre o pátio havia apenas azul, calor e luz. Um pequeno pássaro passou acima do muro.
Licaão tornou a encarar o homem amarrado.
— Chame.
Leonte pareceu não entender.
— Meu rei…
— Você quer que Zeus veja. Chame por ele.
Theron olhou para Licaão.
Mélas saiu da sombra.
Leonte puxou os pulsos contra as cordas.
— Zeus…
— Faça como fez antes.
O homem umedeceu os lábios.
— Zeus!
A voz bateu contra as paredes.
Ninguém se mexeu.
— Diga o que quer dele.
Leonte fechou os olhos.
— Zeus, vê o que estão fazendo comigo.
Licaão esperou.
Uma mosca pousou no canto do banco. O vento trouxe o cheiro dos currais, esterco seco e palha aquecida pelo sol. A barra do manto de Mélas se moveu.
Nenhum trovão.
Nenhuma mudança na luz.
Nenhuma voz.
O tempo se alongou de maneira estranha porque ninguém sabia quanto deveria durar aquela espera.
Licaão também não.
Essa percepção o incomodou.
Se um deus fosse responder a um homem, quanto tempo levaria? Uma respiração? Dez? O tempo necessário para terminar uma oração? Talvez a pergunta fosse absurda.
Leonte, porém, continuava esperando.
Isso chamou mais a atenção de Licaão do que o céu vazio.
O homem acreditava.
Ali não havia sacerdote conduzindo palavras antigas, vinho sobre pedra ou animal preparado para a oferenda. Leonte estava preso a um banco, com quinze marcas nas costas e cinco golpes restantes.
Se fingia, escolhia uma hora ruim para representar.
— Chame outra vez.
Níctimo virou-se para o pai.
Leonte abriu os olhos.
— Meu rei…
— Talvez queira ser mais claro.
Mélas finalmente falou:
— Licaão.
Havia advertência na voz.
O rei olhou para ele.
Mélas parecia procurar uma forma de dizer algo sem transformá-lo numa ordem diante de quarenta pessoas.
Não encontrou.
Licaão voltou ao condenado.
— Chame.
Leonte tremia.
— Zeus! Senhor do céu… veja-me!
Dessa vez a voz quebrou no fim.
Todos esperaram.
Mestor mantinha a vara abaixada. A esposa de Leonte chorava em silêncio. A velha ainda segurava o amuleto. Uma gota caiu do jarro de água esquecido perto do banco e escureceu a poeira.
Depois outra.
O céu continuou igual.
Licaão sentiu o próprio pulso no pescoço.
Desde menino ouvira histórias sobre Zeus observando hóspedes maltratados, suplicantes recusados, juramentos violados. Homens falavam do deus como falavam das tempestades além dos cumes: não era necessário vê-las sobre a própria cabeça para respeitar a possibilidade de que chegassem.
Leonte chamara duas vezes.
Nada acontecera.
Licaão observou o condenado.
— Não veio resposta.
Ninguém riu.
Leonte o encarou.
A frase pareceu feri-lo de uma maneira que a vara não conseguira.
Licaão olhou mais uma vez para o céu.
— Talvez ele tenha visto e não queira interferir.
— Pai.
Níctimo falou baixo.
— O quê?
— Por que fez ele chamar outra vez?
— Porque queria saber o que aconteceria.
— Usando Leonte?
Licaão se voltou completamente para o filho.
— Ele chamou primeiro.
— Porque estava apanhando.
— E pediu que Zeus visse.
— Talvez não funcione assim.
— Como funciona?
Níctimo abriu a boca.
Nada saiu.
Olhou para Mélas e depois para Theron. Nenhum dos dois o socorreu.
— Eu não sei.
— Eu também não.
Licaão voltou ao banco.
Leonte chorava agora, sem conseguir esconder.
— Você pediu que ele visse.
O homem permaneceu calado.
— Acha que viu?
— Não sei.
A resposta saiu quase num sussurro.
Licaão levou alguns segundos antes de responder.
— Nem eu.
Theron baixou a mão que mantinha Mestor parado.
— Meu rei?
— Quantos faltam?
— Cinco.
— Termine.
A esposa de Leonte gritou.
— Não!
Dois soldados impediram que ela avançasse. Ela não tentou atacá-los; apenas estendeu os braços na direção do marido.
— Ele já recebeu quinze. Por favor.
Licaão reconheceu que ainda não sabia o nome dela.
Leonte virou o rosto com dificuldade.
— Thaleia. Fique com as crianças.
A mulher cobriu a boca.
Licaão fez sinal para Mestor.
A vara caiu.
Leonte gritou.
Níctimo virou o rosto.
— Olhe.
O rapaz encarou o pai.
— Eu já vi.
— Perguntou se a pena era necessária. Veja a pena inteira antes de decidir.
Níctimo voltou-se para o banco.
Mestor golpeou novamente.
Depois outro.
Nos últimos golpes, Leonte já não tentava levantar o tronco. No penúltimo, Mestor reposicionou os pés antes de mover a vara. O trabalho cansava até quem estava daquele lado.
O vigésimo golpe caiu.
Theron se aproximou imediatamente.
— Soltem as mãos.
Os soldados desataram as cordas.
Leonte tentou levantar e perdeu as pernas. Theron o segurou por baixo de um dos braços.
— Não tenha pressa.
Thaleia correu assim que os soldados permitiram. Ajoelhou-se e passou o braço do marido sobre os ombros. Outro homem da multidão veio ajudá-la.
Licaão indicou o portão.
— Pode ir.
Mélas interrompeu antes que todos se dispersassem.
— E Arces?
— O que tem ele?
— Se Leonte escolheu aquela noite porque toda a região sabia que o guarda bebia e dormia, não há motivo para devolvê-lo ao depósito depois dos dez golpes.
Licaão olhou para Theron.
— Já o afastou?
— Esta manhã.
— Coloque-o na estrada do leste. Trabalha com os homens de Kynos até terminarem os dias devidos.
Theron confirmou.
Uma providência simples. Útil.
Níctimo ainda observava.
Licaão perguntou:
— Tem mais alguma coisa?
— Agora não.
Licaão percebeu que não era verdade, mas deixou o assunto.
A multidão começou a se dispersar. Alguns olhavam para Leonte. Outros para Licaão.
Muitos olhavam para o céu.
A velha mantinha o amuleto entre os dedos. Um homem fez um gesto discreto antes de atravessar o portão.
Thaleia e o outro ajudante levavam Leonte devagar. Ele andava curvado, sustentando parte do peso sobre a mulher.
Licaão esperou até que chegassem perto da saída.
— Leonte.
Thaleia virou-se primeiro.
O marido levou mais tempo.
— Se sua casa ficar sem comida outra vez, venha pedir antes de quebrar uma porta.
Leonte respirou com dificuldade.
— Pedir a quem?
Era a mesma pergunta de antes.
Licaão apontou para Mélas.
— A ele.
Mélas virou-se.
— A mim?
— Você passa metade do dia dizendo que entende o que acontece fora desta casa. Pode provar.
— Espero que não cheguem todos com três sacos faltando.
Licaão ignorou.
— Se houver necessidade real, Mélas verá o que pode ser feito.
Leonte continuou parado.
— Por quê?
— Porque sua família passar fome não lhe dá direito de entrar no meu depósito.
— Não perguntei isso.
Theron interrompeu o que fazia com as cordas.
Níctimo voltou a atenção para o homem.
Licaão podia simplesmente mandá-lo embora.
— Então pergunte direito.
Leonte olhou rapidamente para o céu.
— Por que me ajudaria depois de mandar me bater?
Licaão compreendeu.
— Porque os vinte golpes acabaram.
Leonte permaneceu imóvel por alguns segundos.
Depois Thaleia puxou-lhe o braço com cuidado.
Ele foi embora.
O pátio esvaziou mais depressa do que em dias comuns. As duas disputas sobre terras ficaram para a manhã seguinte. Nenhum dos envolvidos reclamou.
Mestor entregou a vara a outro soldado e foi até a água para lavar as mãos.
Não havia sangue nelas.
Mesmo assim, lavou.
Theron recolhia as cordas quando Licaão o chamou.
— Quero o restante do relatório de Kynos.
O comandante se virou.
— Entreguei tudo que estava por escrito hoje cedo.
— Quero a parte que Níctimo fez questão de incluir.
O rapaz ainda estava perto da parede.
Mélas, que já começava a se afastar, desistiu.
— Ele pediu que você me contasse sobre Ione.
— Pediu.
Licaão olhou para o filho.
— Por quê?
Níctimo demorou.
— Porque achei que precisava saber.
— Agora sei. A decisão mudaria se eu soubesse antes?
O rapaz não respondeu imediatamente.
— Não sei.
— Eu sei. Não mudaria.
Níctimo permaneceu em silêncio.
— Kynos devia homens para a estrada e atacou um mensageiro. Vinte cabras foram parte da punição. Poderia ter sido pior se alguém tivesse morrido quando Theron entrou na aldeia.
— Eu entendo.
— Então me explique por que Ione importa para a decisão.
Mélas pareceu disposto a falar.
Licaão levantou a mão.
Queria ouvir o filho.
Níctimo olhou para o banco usado no castigo. A água derramada no primeiro ainda deixava terra escura perto do muro.
— Quando você disse “vinte cabras”, aqui parecia só um número.
Licaão esperou.
— Lá havia uma cabra que o pai morto tinha dado à filha. Duas eram o leite dos filhos de Doro. Theron deixou a aldeia escolher, mas toda vez que poupavam uma casa, outra perdia alguma coisa.
— E o que isso muda?
Níctimo procurou as palavras.
— Talvez nada na ordem.
— Então?
O rapaz se irritou consigo mesmo.
— Não sei explicar ainda.
— Tente.
Níctimo apontou para o banco.
— Hoje foi parecido. Você disse vinte golpes.
— Sim.
— Depois de dez, eu já achava suficiente. Quando você disse vinte antes de começar, parecia só a pena. Vendo cada um… ficou diferente.
— Achou excessivo?
— Achei.
Licaão assentiu.
— Então diga isso.
Níctimo pareceu surpreso.
— Só isso?
— Por enquanto. Você viu uma coisa, teve uma reação e ainda não consegue transformá-la numa razão melhor. Inventar uma razão para parecer mais seguro seria pior.
O rapaz ficou quieto.
— Quando souber por que considera dez suficientes e vinte excessivos, diga. Aí discutimos de verdade.
— Você vai ouvir?
Licaão olhou para ele.
— Estou ouvindo agora.
Níctimo aceitou aquilo.
Mélas passou por eles.
— Se a aula de governo acabou, gostaria de descobrir se ainda existe comida nesta casa.
Licaão se voltou.
— Você ficou muito calado quando Leonte chamou Zeus.
O humor de Mélas desapareceu.
Theron parou com uma corda ainda nas mãos.
— Fiquei.
— Esperava alguma coisa?
Mélas caminhou até um dos bancos e recolheu um pedaço de corda esquecido no chão.
— Não tenho o hábito de apostar contra Zeus.
— Não perguntei se apostaria.
— Então talvez esteja fazendo perguntas para as quais homens prudentes não têm resposta.
— Você achou que ele responderia?
Mélas passou os olhos pelo céu, agora mais pálido junto ao muro oriental.
— Achei que fazer um homem gritar duas vezes para descobrir era uma experiência que eu preferia não assistir.
— Por quê?
— Porque qualquer resultado seria ruim.
Licaão cruzou os braços.
— Explique.
Mélas largou a corda junto das outras.
— Se nada acontece, o senhor pode começar a acreditar que descobriu alguma coisa sobre Zeus. Se alguma coisa acontece, provavelmente nenhum de nós vai gostar do método pelo qual conseguiu a resposta.
Theron permaneceu em silêncio.
Licaão olhou para o céu.
— Nada aconteceu.
Mélas pegou o manto que deixara junto à parede.
— Desta vez.
Licaão tornou a olhar para ele.
Depois para o céu claro sobre o pátio.
A palavra permaneceu em sua cabeça enquanto os homens recolhiam o banco, a vara e as cordas.
Desta vez.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


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— Comentários ofensivos serão removidos.
Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.