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Níctimo decidiu ouvir o segundo homem antes de dar a questão por encerrada. Éon não gostou.

— Ele vai dizer exatamente o que já disse.

— Nesse caso, não perderemos muito tempo.

— Senhor, essa água passa pelo meu campo desde antes de meu pai morrer.

Níctimo conferiu a tábua.

— Seu pai morreu há doze anos. Há pouco você falou em vinte.

Éon demorou a responder.

— A vala já existia antes dele morrer.

— Não foi isso que perguntei.

O homem fechou a boca.

Éon cultivava terras a pouco mais de uma hora da casa e chegara cedo para acusar o vizinho de desviar água de uma vala comum para irrigar uma faixa recente de cevada. A história parecera simples nos primeiros minutos: havia um curso antigo, o vizinho abrira outro e parte da água deixara de chegar onde sempre chegava.

Depois Níctimo começara a perguntar.

— Você disse que a água passava primeiro pelo seu campo porque sempre tinha sido assim.

— Tinha.

— E o vizinho abriu a vala nova há cinco dias. Foi antes ou depois de você fechar a passagem que levava água às oliveiras dele?

Éon mexeu a sandália na poeira.

— Aquela passagem estava roubando água.

— Você a fechou antes ou depois?

— Antes.

— Quanto?

— Dois dias.

Níctimo encostou-se no banco.

O segundo homem entrou acompanhado de um servo. Era mais velho que Éon, magro, com barro seco cobrindo as pernas até a metade das canelas. Ao ver o vizinho, fez uma expressão que bastava para explicar por que os dois precisavam de alguém de fora para decidir qualquer coisa.

— Sente-se.

O homem obedeceu.

Níctimo não perdeu tempo.

— É verdade que abriu uma vala nova?

— É. Ele fechou a antiga e minhas oliveiras começaram a receber menos água.

— A passagem antiga vinha primeiro pela propriedade dele?

— Passava por lá.

— Perguntei se vinha primeiro pela terra dele.

O homem lançou um olhar para Éon.

— Sim.

— E sua vala nova pega água antes que ela chegue lá?

— Pega.

Éon abriu as mãos.

— Está vendo?

Níctimo apontou para ele.

— Já ouvi sua parte. Deixe o homem terminar.

Voltou-se para o vizinho.

— Quanto está desviando?

— Só o que preciso.

— Isso não me diz nada.

— Não medi.

— Então não sabe se está tirando das oliveiras de Éon mais água do que elas podem perder.

— Ainda chega água lá.

— Quanto?

A resposta não veio.

Níctimo teve vontade de mandar os dois de volta para casa com uma pá, uma corda de medir e a ordem de só reaparecerem quando conseguissem dividir água sem transformar uma vala em assunto para o rei. Talvez Licaão fizesse exatamente isso. Ou multasse ambos por mexerem num curso comum sem acordo.

A ideia veio automática.

O que meu pai faria?

Níctimo percebeu que ainda começava por aí muitas vezes. Pensava primeiro na resposta de Licaão e só então voltava ao que tinha diante dos olhos.

Releu as anotações.

— A passagem antiga será reaberta.

Éon imediatamente pareceu satisfeito.

— E a vala nova continua onde está.

A satisfação desapareceu.

— Senhor…

— Até sabermos quanto cada uma está levando. Vocês dois mexeram no caminho da água por conta própria. Se eu fechar uma delas hoje, posso descobrir amanhã que protegi um campo estragando o outro.

Nenhum dos homens gostou.

Melhor assim.

— Amanhã mandarei alguém medir as duas passagens. A antiga volta à largura que tinha antes de Éon fechá-la. A nova não aumenta nem um palmo até que tenhamos a medida.

Éon apontou para o vizinho.

— E se ele abrir mais durante a noite?

— Se tocar na vala antes da medição, perde a passagem nova e paga o homem que vou mandar.

Níctimo olhou para o outro.

— Se você tornar a fechar a antiga, pago esse mesmo homem com a sua cevada. Não quero voltar a discutir isso porque um dos dois resolveu trabalhar no escuro.

Éon ainda tentou insistir.

— Meu pai dizia que—

— Amanhã.

Foi suficiente.

Os dois saíram contrariados, cada qual provavelmente convencido de que o outro escapara barato.

— Deixou os dois zangados.

Níctimo ergueu a cabeça.

Licaão estava na entrada. Não sabia havia quanto tempo.

— Ouviu bastante?

— O suficiente.

O rei entrou, pegou a tábua e leu as anotações.

— Por que manteve a vala nova?

— Porque não sei quanto ela tira.

— Foi aberta sem direito.

— Depois que Éon fechou a passagem antiga.

— Isso não dá ao outro homem direito de fazer o mesmo.

— Não dá.

Licaão ergueu os olhos.

Níctimo continuou:

— Mas, se eu fechar a nova agora e amanhã descobrir que as oliveiras ficaram sem água, resolvo uma infração criando um prejuízo que eu poderia ter evitado por um dia.

O pai devolveu a tábua.

— E depois da medição?

— Se estiver puxando demais, reduzo. Se as duas puderem funcionar sem secar nenhum campo, mantenho as duas.

— E a punição?

Níctimo pensou.

— Os dois dividem o custo do homem que fará a medição.

— Isso eu cobraria de qualquer maneira.

— Então, pelo menos nessa parte, concordamos.

Um vestígio de humor passou pelo rosto de Licaão.

— Não transforme em hábito.

Por alguns segundos, a conversa quase voltou aos tempos em que discordar do pai fazia parte de uma lição e nada mais.

Um servo apareceu.

— Meu rei.

Licaão virou-se.

— Fale.

— O estrangeiro perguntou se pode caminhar até a figueira além do muro menor.

A mudança no pai foi pequena.

Níctimo percebeu mesmo assim.

— Perguntou? — disse Licaão.

— Sim, meu rei.

— Está acompanhado?

— Não.

— Disse que pretende sair das terras da casa?

— Não.

Licaão deixou a tábua sobre a mesa.

— Pode caminhar onde quiser. É hóspede, não prisioneiro.

— Sim, meu rei.

O servo partiu.

Licaão ficou olhando para a porta por alguns segundos.

Níctimo baixou a atenção para o próximo registro. Ainda havia duas questões esperando. O pai não perguntou por nenhuma delas.


Níctimo encontrou Agetor junto à figueira.

Não fora procurá-lo.

Ao menos era isso que dizia a si mesmo depois de escolher o caminho do muro menor quando poderia ter atravessado o pátio central.

Agetor estava agachado junto a uma pedra, mexendo na terra com os dedos.

— Perdeu alguma coisa?

— Encontrei.

Abriu a mão.

Uma pequena peça de bronze repousava na palma, escurecida de terra.

Níctimo reconheceu o formato.

— Prendedor de manto.

— Foi o que pensei.

— Deve ser de algum trabalhador.

Agetor limpou a superfície com o polegar.

— Ou de qualquer pessoa que passou por aqui antes dele.

— Isso inclui metade da casa.

— É uma dificuldade comum das coisas perdidas.

Níctimo estendeu a mão. Agetor lhe entregou a peça.

— Deixo com alguém. Se houver dono, acaba aparecendo.

Agetor se levantou.

À luz da manhã, havia ainda menos nele que justificasse a curiosidade de Licaão. Túnica simples. Manto sem marca. Sandálias consertadas por Dóron, já recebendo poeira nova. Barba de homem que passara mais dias em caminho do que diante de espelho de bronze.

Níctimo tentou imaginá-lo entrando pelo portão sem conhecer nada das conversas com o pai.

Não conseguiu.

Já o vira diante de Licaão. Isso mudava tudo.

— Meu pai pediu que ficasse outra noite.

— Pediu.

— Ele costuma encerrar conversas mais depressa.

Agetor tocou uma folha baixa da figueira.

— Talvez esta ainda não tenha acabado.

— É isso que me preocupa.

O estrangeiro se virou.

Níctimo percebeu a frase tarde demais.

— Não por sua causa.

— Muito reconfortante.

Havia humor, embora pouco.

Níctimo guardou o prendedor no cinto.

— Posso perguntar uma coisa?

— Pode.

— Por que você não tem medo dele?

Agetor demorou.

A pergunta pareceu infantil no instante em que saiu. Níctimo quase desejou recolhê-la.

— Deveria ter?

— Isso não respondeu.

— Aprendi ontem que sua família não gosta muito quando faço isso.

Níctimo quase riu.

— Meu pai pode mandar um homem perder mais do que uma discussão.

— Eu sei.

— Conhece a história de Damon.

— Conheço.

— E outras.

— Algumas.

— Mesmo assim fala com ele quase do mesmo jeito que fala comigo.

Agetor observou a casa acima do muro.

— Não é o mesmo jeito.

— Perto o bastante.

— Seu pai é rei.

— Exatamente.

Agetor soltou um pedaço seco de casca do tronco.

— Ele me recebeu como hóspede. Deu comida, teto, água. Mandou consertar minhas sandálias. Até agora fez muitas perguntas e pouco além disso.

— Muitas perguntas.

— Bastante.

— E isso basta para confiar nele?

— Eu não disse que confio.

— Então admite que pode haver motivo para ter medo.

— Sempre pode haver.

Agetor dizia aquilo com uma simplicidade que incomodava Níctimo.

— Há homens que têm medo do meu pai antes de ele ameaçar qualquer coisa.

— Vi alguns.

— Outros antes mesmo de abrir a boca diante dele.

— Também vi.

— Você não.

— Não.

A resposta não continha orgulho.

Era isso que Níctimo não compreendia.

Conhecia coragem. Theron entrava onde outros homens recuavam. Soldados conseguiam manter a lança firme com o corpo inteiro querendo fugir. Coragem custava alguma coisa: esforço, controle, escolha.

Arrogância era ainda mais fácil de reconhecer. Homem arrogante queria que os outros notassem sua falta de medo. Falava alto, sustentava demais o olhar, tratava deferência como derrota.

Agetor não fazia nada disso.

— Já viveu em corte?

— Já passei por algumas.

— Como quê?

— Às vezes, como visitante.

— Soldado?

— Não por muito tempo.

Níctimo esperou mais.

Nada.

— Sua família é importante?

Agetor olhou para ele.

— Para mim, bastante.

Níctimo riu.

— Sabe o que perguntei.

— Sei.

— Então?

— Minha família tem problemas suficientes para ocupar uma conversa inteira.

— Isso ainda não respondeu.

— Respondeu uma parte.

Níctimo começou a caminhar de volta.

— Faz de propósito?

Agetor o acompanhou.

— Nem sempre.

Passaram pelo muro baixo. Duas mulheres estendiam lã lavada sobre uma estrutura de madeira. Uma cumprimentou Níctimo, depois Agetor. O estrangeiro respondeu sem cerimônia.

Níctimo o observava agora com mais atenção.

Quem entrava pela primeira vez numa casa régia costumava notar guardas, passagens, portas e quem poderia estar ouvindo. Agetor simplesmente caminhava.

— Meu pai está tentando descobrir quem você é.

— Percebi.

— E isso não incomoda?

— Um pouco.

Níctimo olhou para ele.

A resposta não era a esperada.

— Um pouco?

— Gostaria de terminar minha viagem.

— Pode partir quando quiser.

— Sei.

— Então por que ficou?

— Seu pai pediu.

— Aceita todo pedido feito por rei?

— Não.

— Por que este?

Agetor levou alguns passos para responder.

— Ainda há coisas que quero entender.

— Sobre meu pai?

— Sobre esta casa também.

Níctimo diminuiu o ritmo.

— Soa pior quando fala desse jeito.

Agetor sorriu.

— Então esqueça a última parte.


Perto do meio-dia, Níctimo descobriu que Licaão não se limitava a reconstruir os caminhos de Agetor por meio de terceiros.

Havia três homens na sala quando o estrangeiro entrou: Licaão, Mélas e um comerciante que trouxera sal e tecido das regiões ao norte. Níctimo estava junto à parede conferindo a entrega.

Agetor aparecera porque um servo o chamara para comer, mas a mesa ainda não estava pronta.

Licaão pediu que esperasse.

— Passou perto de Mantineia?

— Passei.

— Pela estrada oriental?

— Em parte.

O comerciante ergueu a cabeça.

— Está ruim.

Agetor voltou-se para ele.

— Por causa da chuva?

— Antes dela já estava.

— Então a chuva só piorou.

— Bastante.

Licaão marcou alguma coisa na tábua.

— Disseram que uma ponte cedeu.

O comerciante corrigiu:

— A ponte está inteira. Foi a margem.

— A sul?

— Norte.

Licaão olhou para Agetor.

— Quando passou por lá, já havia desmoronado?

Agetor procurou a lembrança.

— A margem norte tinha perdido terra. Uma carroça ainda passava, mas devagar.

O comerciante concordou.

— Depois caiu mais.

Níctimo continuou conferindo os sacos de sal.

Agora entendia o que o pai fazia.

Não era apenas conversa sobre estrada.

— E a imagem junto à passagem? — perguntou Licaão. — Ainda estava lá?

Agetor demorou.

— Que imagem?

— Uma pequena figura de Hermes. Do lado norte.

O comerciante respondeu antes dele:

— Não está mais. A base cedeu no inverno. Levaram a imagem para a aldeia.

Licaão virou-se.

— Caiu?

— Há meses.

— Não sabia.

Agetor não comentou.

Níctimo também não.

Era uma pergunta perfeitamente plausível. Uma informação antiga que Licaão poderia desconhecer.

Ou uma armadilha pequena.

Níctimo guardou a conclusão para si.

— Estes dois sacos estão menores.

Mélas se virou.

— Quanto?

— Ainda não pesei. Basta colocar ao lado dos outros.

O comerciante reagiu imediatamente.

— A medida é a mesma.

Licaão puxou um dos sacos e comparou.

A conversa sobre Agetor desapareceu.

Durante os minutos seguintes, o rei tratou apenas do sal. Mandou buscar uma medida conhecida, ouviu a explicação do mercador e descobriu que dois sacos tinham sido trocados depois que uma costura se abrira durante o transporte. Decidiu que a casa pagaria pela quantidade entregue, não pela registrada.

Não ameaçou ninguém.

Não prolongou a discussão.

Ainda encontrou manchas de umidade em um dos tecidos enquanto conferia o resto da carga.

Níctimo observou.

Era difícil transformar Licaão numa caricatura quando o homem estava diante de uma pilha de sal. Via depressa. Perguntava o necessário. Separava erro de fraude e seguia para o problema seguinte.

O comerciante saiu.

Licaão voltou a Agetor.

— Estranho não ter visto Hermes.

— Não procurei.

— Viajantes costumam reparar nessas imagens.

— Eu costumo reparar onde ponho os pés.

— Se estivesse lá, teria visto?

Agetor deu de ombros.

— Talvez.

Mélas ergueu uma tábua.

— Temos três homens esperando.

Licaão olhou para ele.

— Eu sei.

— Dois vieram de longe.

— Mande o primeiro entrar.

Agetor foi levado para comer.

Níctimo acompanhou-o até a saída. Ao se virar, viu o pai olhando para a porta.

Durou pouco.

Licaão chamou a audiência seguinte.


Agelau chegou no fim da tarde.

Trouxe um rapaz carregando uma pequena cesta e um jarro. Não havia solenidade de festival ou sacrifício público. Era uma obrigação doméstica, simples, que deveria ter sido cumprida dois dias antes e fora empurrada por audiências, homens vindos da estrada e outros trabalhos da casa.

Níctimo não sabia se o atraso irritara o sacerdote.

Provavelmente.

Agelau não ofereceu o prazer de demonstrar.

Licaão recebeu-o no pátio interno.

— Achei que mandaria outro sacerdote.

— Pensei nisso.

— E resolveu vir.

— Acontece.

O cumprimento entre eles foi correto.

Dia chegou pouco depois. Mélas apareceu ainda com uma tábua, terminou uma instrução a um servo e entregou o registro. Theron permaneceu próximo da passagem, dedicando mais atenção a homens descarregando madeira do que ao rito.

Agetor apareceu por último.

Parou antes de entrar.

— Devo esperar?

Agelau examinou-o.

— É hóspede desta casa?

Licaão respondeu:

— É.

— Então pode ficar.

Agetor entrou.

Níctimo viu o pai observá-lo.

O altar doméstico era baixo, feito de pedra escurecida por incontáveis fogos. Agelau colocou a cesta ao lado. Dentro havia farinha, gordura e ervas secas. O jarro continha vinho.

O rapaz tentou acender a chama com carvão retirado de um braseiro.

A madeira não pegou direito.

Agelau esperou.

O jovem soprou, reposicionou duas lascas, tornou a aproximar o carvão.

Mélas falou baixo:

— Espero que os deuses aceitem madeira úmida.

Agelau lançou-lhe um olhar.

— Os deuses talvez. Eu ainda não decidi.

Dia sorriu.

Até Licaão achou graça.

O rapaz, vermelho, tentou outra vez.

A chama se firmou.

Agelau começou o rito.

Níctimo conhecia as palavras desde criança: purificação simples, reconhecimento da casa, a parte retirada antes da refeição. Nada se pedia. Nenhuma guerra, chuva, cura ou vingança.

Era aquilo que uma casa fazia porque tinha alimento e porque, desde muito antes de qualquer homem ali nascer, uma parte era separada.

Agetor permaneceu atrás de Dia.

Quando recebeu água para lavar as mãos, soube o que fazer sem observar ninguém. Agelau percebeu. Níctimo também.

Não significava muito. Qualquer viajante que atravessasse casas suficientes aprenderia.

Agelau derramou vinho.

A chama encolheu e se recuperou.

Espalhou farinha. O cheiro do cereal tostando juntou-se ao das ervas. A fumaça se espalhava baixa na direção do muro.

Níctimo sentiu ar tocar-lhe o rosto.

Agelau colocou um pedaço de gordura no fogo.

Houve um estalo.

A chama subiu de repente, alta o suficiente para fazer o rapaz puxar a mão.

A fumaça mudou.

Por alguns instantes, ergueu-se quase reta acima do altar. Depois inclinou-se lentamente, atravessando a luz oblíqua do fim da tarde.

Passou diante de Dia.

Diante de Níctimo.

Seguiu na direção de Agetor.

Não chegou a envolvê-lo. Desfez-se antes, espalhando-se no ar como fumaça comum.

Agelau perdeu uma palavra.

Só uma.

Retomou o rito.

Níctimo olhou para Agetor.

O estrangeiro observava o altar.

Não demonstrava medo nem satisfação.

Quando Agelau terminou, Mélas inclinou o corpo para examinar a lenha.

— Resina?

— Gordura.

— A chama subiu bastante.

— Gordura costuma fazer isso.

Mélas olhou para a fumaça, que agora se dispersava para outro lado.

— E aquilo?

Agelau começou a fechar a cesta.

— Aquilo foi fumaça.

— Percebi.

— Então estamos progredindo.

Theron ergueu a mão para sentir o ar.

Dia olhou para Licaão.

Níctimo também.

O rei já não observava o fogo.

Observava Agetor.

— Isso acontece com frequência? — perguntou.

Agelau parou de recolher os objetos.

— O quê?

— A fumaça mudar de direção desse jeito.

— Há corrente de ar no pátio.

— Quase nenhuma.

Theron apontou para a passagem.

— Vem dali.

Licaão virou-se.

— Já vinha antes?

— Provavelmente.

— Sentiu?

— Não estava prestando atenção.

Licaão olhou para Mélas.

— E você?

— Eu estava preocupado com a possível rejeição divina à madeira molhada.

Agelau fechou a cesta.

— Não houve rejeição.

— Não perguntei isso.

A leveza desapareceu.

Dia interferiu antes que os dois encontrassem outro conflito.

— Licaão, Agelau terminou.

O rei olhou para ela.

A comida esperava. Os servos também. O jovem do sacerdote ainda segurava o jarro.

— Terminou — disse Licaão.

Agelau pegou a cesta.

Licaão não deixou que partisse ainda.

— Já viu isso antes?

O sacerdote parou.

— Fumaça mudar de direção?

— Durante uma oferenda.

— Sim.

— Dessa maneira?

Agelau olhou para o altar.

Depois para Agetor.

Níctimo viu.

Licaão também.

— Não sei o que espera que eu diga.

— O que viu.

Agelau reposicionou a cesta na mão.

— Já vi chama subir quando recebe gordura. Já vi fumaça encontrar correntes de ar que ninguém percebeu antes. E já vi homens observarem um fogo até conseguirem extrair mensagem de qualquer movimento.

Ninguém comentou.

Licaão perguntou:

— Qual dos três aconteceu agora?

— Se soubesse, não teria esperado sua pergunta.

Agelau começou a se afastar.

Agetor falou pela primeira vez desde o início do rito.

— Posso ajudar?

O sacerdote se virou.

— Com quê?

Agetor apontou para o rapaz.

— Ele está carregando a cesta e o jarro.

Agelau pareceu pego de surpresa.

— Não precisa.

— Certo.

Agetor não insistiu.

Aquilo tornou a cena ainda mais estranha para Níctimo. Todos olhavam para o estrangeiro como se houvesse acabado de participar de alguma coisa que ninguém conseguia nomear.

E Agetor prestava atenção no peso que um rapaz carregava.

Agelau saiu.

Theron retornou à passagem. Mélas chamou um servo. A casa recomeçou seu movimento.

Licaão não.

— Agetor.

O estrangeiro parou.

— Sim?

— Já viu fumaça fazer aquilo?

— Mudar de direção? Claro.

— Durante uma oferenda.

— Provavelmente.

Licaão se aproximou do altar.

— Provavelmente?

— Vi oferendas demais para lembrar de cada fumaça.

— Alguma já veio diretamente para você?

Agetor pensou.

— Não lembro.

— Sentiu vento agora?

— Um pouco.

Theron se virou.

— De onde?

Agetor ergueu a mão, esperou a corrente tocar a pele e apontou.

— Da passagem.

Theron foi até lá.

— Vem daqui.

Licaão chamou um servo.

— Essa porta estava aberta durante o rito?

— Estava, meu rei.

— Desde quando?

— Desde antes da chegada de Agelau.

Licaão olhou para a lenha.

Mélas suspirou.

— Licaão.

— O quê?

— Há homens esperando audiência.

— Podem esperar.

Níctimo sentiu um desconforto difícil de justificar.

Era um atraso.

Só isso.

Reis faziam homens esperar. O pai fizera outros esperarem por assuntos muito menores. Uma chama subira porque recebera gordura e a fumaça encontrara vento.

Mesmo assim, perguntou:

— Esperar para quê?

Licaão se virou.

Níctimo percebeu quantas pessoas continuavam perto: Dia, Mélas, Agetor, servos.

Escolheu as próximas palavras com cuidado.

— O que muda se descobrir por que a fumaça fez isso?

— Depende do motivo.

— Há alguma decisão que precise dessa resposta?

O silêncio durou alguns segundos.

Licaão não gostava de ser questionado diante de outros homens.

Ainda assim, não elevou a voz.

— Há um desconhecido sob meu teto. Um homem que sabe coisas que eu não esperava que soubesse e que fala comigo de um modo incomum. Agora acontece isto durante uma oferenda, e você acha que eu não deveria prestar atenção?

Era uma resposta razoável.

Níctimo sabia.

Se Agetor escondesse posição, intenção ou vínculo com outra casa, importava. Se mentisse sobre quem era, também.

— Deve prestar atenção — disse. — Só não vejo nada que Agetor tenha feito. Agelau terminou o rito. Theron encontrou a corrente de ar.

— Eu vi.

— Então o que ainda procura?

Licaão observou o altar.

— Quero saber se existe alguma coisa para procurar.

Níctimo não respondeu.

O pai sempre fora bom nisso. Uma pergunta difícil encontrava outra pergunta melhor, ou uma resposta que reorganizava a questão até que ela parecesse resolvida.

Antes, Níctimo normalmente aceitava.

Agora olhou para o altar.

Depois para Agetor.

O estrangeiro não parecia confortável por estar no centro da atenção, mas tampouco fazia qualquer esforço para fugir dela.

Dia aproximou-se.

— A comida vai esfriar.

Licaão olhou para ela.

— Melhor evitar outra ofensa aos deuses.

Mélas soltou uma risada baixa.

A tensão cedeu.

Foram comer.


Níctimo alcançou Agelau antes que o sacerdote deixasse a propriedade.

Ele estava perto do portão menor, ajustando a correia da cesta. O rapaz esperava ao lado com o jarro.

— Agelau.

O sacerdote se virou.

— Níctimo.

— Aquilo foi um sinal?

A pergunta saiu depressa demais.

Agelau olhou para o jovem que o acompanhava.

— Espere perto do portão.

O rapaz se afastou.

O sacerdote terminou de ajeitar a correia.

— Não sei.

Níctimo esperara mais.

— Só isso?

— Prefere que invente?

— Meu pai acha que houve alguma coisa.

— Seu pai encontra assunto para examinar em coisas que outros homens deixariam quietas.

Havia amargura suficiente na frase para lembrar a Níctimo que aquela não era uma conversa neutra.

— Não estou perguntando sobre ele.

Agelau aceitou a correção.

— Então continuo não sabendo.

— A chama?

— Gordura pode fazê-la subir daquele jeito.

— E a fumaça?

— Havia ar no pátio.

— Você interrompeu o rito.

— Por uma palavra.

— Porque viu.

— Vi algo incomum.

— Isso não torna importante?

Agelau puxou a correia da cesta para testar o nó.

— Incomum e divino não são sinônimos.

Níctimo olhou na direção do portão.

— E Agetor?

— O que tem?

— Você olhou para ele.

— Primeiro porque seu pai estava olhando. Depois porque você também estava.

Níctimo não gostou da resposta.

— Ele conhecia o rito.

— Metade da Arcádia conhece.

— Não precisou copiar ninguém quando deram água.

— Homens viajam.

— E a fumaça não o assustou.

Agelau parou o que fazia.

— Agora está fazendo exatamente o que seu pai fez.

Níctimo ficou calado.

O sacerdote continuou:

— Se houver alguma coisa para ser entendida, pode ser entendida sem transformar toda chama numa mensagem. Seu pai procura respostas em cada silêncio. Não comece a procurá-las em toda fumaça.

— Não quero encontrar sinal nenhum.

— Melhor.

Agelau pegou a cesta.

Níctimo abriu caminho.

Antes de passar pelo portão, o sacerdote acrescentou:

— Mas também não vou fingir que não vi.

Foi embora.

Níctimo permaneceu ali até o sacerdote e o rapaz desaparecerem pela estrada.


Encontrou Agetor mais tarde, sentado perto dos depósitos com uma taça de água.

Níctimo parou diante dele.

— Você viu.

Agetor ergueu a cabeça.

— A fumaça?

— Sim.

— Vi.

Níctimo sentou-se no outro lado do banco.

— Agelau disse que pode ter sido o vento.

— Pode.

— E o que você acha?

Agetor olhou para a água.

— Acho que fogo faz coisas estranhas quando queima.

Níctimo esperou mais.

Nada veio.

— Meu pai está testando você.

— Está.

— Isso não incomoda?

— Um pouco.

Níctimo apoiou os braços nas pernas. Durante algum tempo ouviram animais sendo conduzidos para dentro dos currais.

— Eu ficaria irritado.

— Você é filho dele.

— Isso deveria me fazer ficar menos irritado.

Agetor considerou.

— Deveria?

Níctimo olhou para ele.

— Não sei.

Agetor aceitou a resposta como se nada mais fosse necessário.


Depois da refeição, ainda havia homens esperando.

Níctimo lembrava dos dois desde antes da oferenda. Um tratava de passagem de rebanhos; o outro queria permissão para retirar uma árvore caída junto a um caminho mantido pela casa.

Licaão chamou o primeiro.

Fez poucas perguntas e resolveu.

Chamou o segundo.

— Onde caiu a árvore?

O homem descreveu.

— Bloqueia a passagem inteira?

— Uma parte. Animal passa. Carroça, não.

— Quem pretende cortar?

— Eu e meus filhos.

— E quer a madeira.

— Quero, meu rei.

Licaão calculou rapidamente.

— Retire. Metade fica com sua casa pelo trabalho. A outra metade vem para cá.

O homem agradeceu e saiu.

Níctimo sentiu um alívio que quase o envergonhou.

Ali estava o pai.

O mesmo homem que percebera dois sacos menores numa entrega. Que encontrava numa disputa de água a pergunta que ninguém fizera. Que lhe ensinara durante anos a pensar no dia seguinte, no custo e em quem arcaria com ele.

Mélas trouxe outra tábua.

— Esta pode esperar até amanhã.

Licaão leu.

— Pode.

Níctimo começou a recolher os registros.

— Theron.

O comandante se aproximou.

— Meu rei.

Licaão começou:

— Amanhã cedo, quero…

Níctimo levantou a cabeça.

O pai parou.

— O quê?

Níctimo percebeu que Licaão já estava preparado para uma interrupção que ainda nem existira.

— Falta registrar a decisão sobre a água.

— Registre.

— Preciso saber quem fará a medição.

Licaão olhou para Theron, depois para a tábua.

— Aristeu.

— Está no trecho da estrada.

— Volta esta noite.

— Certo.

Licaão tornou a atenção ao comandante.

Por um instante Níctimo esperou que retomasse a frase anterior.

O pai apenas lhe entregou uma tábua.

— Veja se os homens da estrada vão precisar de mais duas mulas amanhã.

Theron recebeu.

— Vou verificar.

Nada sobre Agetor.

Níctimo não soube se sentia alívio ou vergonha por ter esperado outra coisa.


Mais tarde, quando a casa já começava a se aquietar, um servo chamou Níctimo para conferir a cevada que seria separada para a manhã seguinte.

Ele atravessou o pátio com uma lamparina.

Além dos muros, a noite estava quase inteira. O fogo da oferenda desaparecera. Só restavam cinzas escuras e alguma gordura queimada na pedra.

Níctimo passou pelo altar.

Deu três passos.

Parou.

Licaão estava ali.

Sozinho.

Segurava uma lamparina numa das mãos e, na outra, um pedaço da madeira usada durante a oferenda.

Níctimo não se moveu.

O pai aproximou a madeira da luz, virou-a, examinou a superfície e raspou alguma coisa com a unha. Depois se abaixou junto ao altar e passou os dedos pela pedra onde a gordura queimara.

Não rezava.

Agelau havia ido embora havia horas.

Não havia público, servos esperando instrução ou homens diante dos quais precisasse sustentar posição alguma.

Licaão apenas examinava o que restara do fogo.

— Senhor?

Níctimo se virou.

O servo da cevada esperava perto do depósito.

— Já vou.

Quando tornou a olhar, o pai continuava com o pedaço de madeira diante da chama pequena.

Níctimo apertou a tábua contra o corpo.

Depois seguiu para o depósito e foi medir a cevada.

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