Capítulo 17 — O Homem que Cumpriu
por Sonhado acordadoTheron tomou a lança das mãos de Mestor, examinou a ponta e devolveu-a.
— Troque.
Mestor girou a arma, procurando o defeito.
— O que há com esta?
Theron mostrou a fissura fina que começava junto à amarração de couro, quase escondida pela sombra do bronze.
— A haste.
Mestor aproximou o rosto.
— Isso ainda aguenta.
— Até o dia em que partir na mão de alguém.
— Essa descrição serve para todos nós.
Theron levantou os olhos.
Mestor entregou a lança ao soldado mais próximo.
— Pegue outra.
O homem obedeceu.
Havia nove soldados no pátio lateral, dois cavalos já selados e outros três presos à sombra. A ronda daquela manhã não justificava levar mais gente. Theron reduzira o grupo depois de ler os relatos vindos do sul: uma cerca derrubada, dois rebanhos atravessando terra disputada e nenhuma notícia de homens armados.
Era o tipo de manhã que, algum tempo antes, ele teria considerado boa.
Mestor trouxe outra lança.
Theron percorreu a haste com a mão, verificou a amarração e devolveu.
— Esta serve.
O soldado que ainda segurava a primeira arma examinou a rachadura.
— Posso cortar a parte ruim e fazer um dardo.
— Pode.
— Então ela não está perdida.
Theron já seguia pela fileira.
— Eu disse que estava?
— Não.
— Ótimo. Estamos fazendo progresso.
Alguns homens sorriram.
Theron verificou capacetes, correias, sandálias, odres. Nada exigiu segunda correção até chegar a Leôn.
— Sua espada.
Leôn entregou-a. A lâmina estava limpa e bem cuidada. Theron passou o polegar pelo lado sem fio.
— Afiou quando?
— Ontem.
— Antes ou depois da ronda?
— Antes.
Theron devolveu a arma.
— Faça depois.
Leôn recebeu a espada.
— Por quê?
— Porque, quando volta, sabe o que aconteceu com ela.
— Eu nem usei.
— Ontem.
— Não usei.
— Então o trabalho teria sido rápido.
Theron continuou.
O último homem era Filon, ainda jovem o bastante para deixar cada pequena contrariedade estampada no rosto. A correia do escudo estava presa um furo acima do necessário.
Theron apontou.
— Afrouxe.
Filon obedeceu.
— Mais um.
— Assim vai ficar solto.
— Levante o braço.
O rapaz ergueu o escudo. A borda subiu sem puxar o ombro.
Theron tocou a correia.
— Agora está solto?
Filon testou de novo.
— Não.
— E melhor?
— Sim.
— Então o problema não era o tamanho da correia.
Filon entendeu.
— Era eu.
— Agora entendeu.
Theron se afastou.
— Água e uma refeição por homem. Não vamos dormir fora.
Mestor perguntou:
— Vamos primeiro até Kéron?
— Primeiro quero ver a cerca.
— Kéron mandou reclamar dos animais.
— Exatamente.
Mestor aguardou.
Theron indicou a saída do pátio.
— Se a cerca caiu, animais atravessam. Prefiro olhar para ela antes de interrogar cabras por se comportarem como cabras.
Mestor aceitou.
Os soldados começaram a preparar a partida.
Uma discussão surgiu perto dos cavalos antes que Theron chegasse ao próprio. Reconheceu Filon e Leôn pelas vozes.
— Eu disse que era minha.
— Disse depois que eu peguei.
— Porque estava na minha sela.
— Estava entre as duas.
Theron encontrou os dois segurando uma capa velha. A peça tinha pouco valor e conseguira produzir barulho suficiente para parecer herança disputada entre duas casas.
— O que houve?
Ambos começaram ao mesmo tempo.
Theron levantou a mão.
— Filon. Primeiro você.
O rapaz apontou para a capa.
— Deixei na minha sela ontem. Hoje ele pegou.
Theron voltou-se para Leôn.
— Achei que fosse a minha. Estava pendurada entre as selas.
— E quando Filon avisou que era dele?
Leôn examinou a peça.
— Eu já tinha pegado.
Theron esperou.
Mestor surgiu atrás dos três.
Leôn enfim percebeu que aquilo não melhorava sua posição.
— Eu devolvo.
Theron tomou-lhe a capa.
— Não.
Filon ficou confuso.
— Senhor?
Theron passou a peça a Mestor.
— Segure até voltarmos.
Mestor abriu a capa diante do corpo.
— Sempre quis uma destas.
— Não é sua.
— Minha felicidade foi curta.
Theron apontou para os dois soldados.
— Vocês ficam juntos na retaguarda.
Filon abriu a boca.
— Senhor…
— Tem algum problema?
A pergunta saiu antes que Theron pensasse nela.
Filon calou-se.
Theron ouviu outra voz em algum lugar da memória.
Algum problema?
Licaão diante da mesa. A ordem já dada. Damon ainda com a mão direita presa ao corpo.
Theron expulsou a lembrança.
Filon balançou a cabeça.
— Nenhum.
— Então preparem os cavalos.
Leôn foi com ele.
Mestor continuou ali.
— Retaguarda por causa de uma capa?
— Juntos por causa de uma capa.
— Parece punição.
— É.
Mestor ergueu a peça.
— E isto?
Theron a tomou e entregou a um soldado que passava.
— Pendure onde estava.
Mestor acompanhou a capa.
— Então por que não devolver logo ao dono?
— Porque, quando voltarem, os dois talvez lembrem onde colocam as coisas.
— É muita esperança para uma manhã só.
Theron começou a prender a espada ao cinto.
Mestor não saiu.
— Diga.
— Não tenho nada.
— Você não sabe ficar quieto por nada.
— Estou envelhecendo.
— Não nessa velocidade.
Mestor observou os outros soldados.
— Desde Pheneos, eles discutem menos.
Theron apertou o cinto.
— Estão trabalhando.
— Naturalmente.
— Mestor.
O homem ergueu uma mão.
— Eu disse apenas que obedecem depressa.
Theron olhou para os homens.
Filon recebia instruções de um veterano perto dos cavalos. Respondeu antes que a ordem fosse concluída.
Theron já percebera a mudança.
Não apenas nos soldados.
Proprietários que antes exigiam ver a marca do rei agora aceitavam a palavra de um mensageiro. Dois dias antes, uma família enviara um animal devido sem mandar junto um irmão, um tio ou qualquer outro homem para tentar diminuir a quantidade.
Na véspera, um trabalhador convocado para reparar uma passagem aparecera antes do horário. Trouxera o próprio filho.
A notícia da mão de Damon viajara mais depressa que qualquer patrulha.
Mestor falou baixo:
— Está funcionando.
Theron terminou de ajustar a correia.
— O quê?
— Sabe muito bem.
— Sei muitas coisas.
— Isso explica por que conversar com você é tão agradável.
Theron pegou o capacete.
Mestor continuou:
— Ninguém quer descobrir até onde vai a paciência de Licaão.
— Talvez seja melhor descobrirem antes de atacar outro enviado.
— Concordo.
Theron olhou para ele.
Não havia provocação.
Isso tornou a conversa pior.
— Damon mentiu aos homens do rei.
Mestor apoiou uma mão na sela.
— Eu sei.
— Aletes quebrou os dedos de Iason sabendo quem ele era. Polemon podia ter perdido um olho. E Phorbas continua fugido.
— Não estou absolvendo nenhum deles.
Theron colocou o capacete sob o braço.
— Então havia motivo para agir.
— Havia.
— E, mesmo assim, continua rondando o assunto.
Mestor o encarou.
— Eu só disse que funcionou.
Theron virou-se para o cavalo.
— Funcionou.
Mestor veio atrás.
— Imaginei que isso tornaria tudo mais fácil.
Theron colocou o pé no apoio e parou.
— Para quem?
Mestor não respondeu.
Theron montou.
O gesto conhecido exigiu tão pouco pensamento quanto respirar: pé, impulso, peso, rédea.
Quando a mão direita fechou o couro, por um instante não sentiu a tira fina entre os dedos.
Sentiu o cabo do machado.
Mais grosso.
Pesado.
Damon ajoelhado.
Por que precisa ser a sua mão?
Theron abriu os dedos, ajeitou a rédea e tornou a segurá-la.
Mestor montou ao lado.
— Kéron primeiro?
— A cerca.
— Certo.
Theron chamou os homens. A formação surgiu quase imediatamente.
Rápida demais.
Ele percebeu.
Não comentou.
O homem do rei encerrou a briga com duas palavras.
Zeus o ouviu antes de vê-lo.
— Guardem isso.
Havia quatro homens junto à passagem estreita entre uma encosta pedregosa e um muro baixo. Dois seguravam bastões. Outro tinha uma corda na mão, presa a três cabras inquietas. O quarto trazia sangue seco sob o nariz.
Mais acima estavam seis soldados.
Nenhuma espada fora desembainhada.
Zeus vinha pela estrada havia tempo suficiente para entender a origem da confusão. As cabras haviam atravessado uma cerca caída. O dono do campo acusava o vizinho de soltá-las de propósito; o dono dos animais jurava que o outro derrubara a própria barreira para cobrar indenização.
Nenhuma das duas versões exigia grande imaginação.
O homem que dera a ordem estava desmontado. Alto, ombros largos, barba curta já tocada de grisalho. A espada continuava na bainha.
O homem de nariz ferido apontou para o vizinho.
— Ele me acertou.
O outro ergueu o bastão alguns dedos.
— Depois que ele veio para cima de mim com isso.
— Você entrou na minha terra.
— Atrás das minhas cabras.
O comandante indicou os bastões.
— Guardem.
Os dois baixaram as armas. Não as soltaram.
Ele deixou para depois.
— Quem encontrou a cerca caída?
Um rapaz perto do muro respondeu:
— Eu.
— A que horas?
— Antes de o sol subir direito.
— As cabras já tinham entrado?
— Duas. Vi a terceira passar depois.
O comandante voltou-se para o dono dos animais.
— Quantas cabras tem?
— Trinta e quatro.
— Se pretendia soltar o rebanho no campo dele, por que mandaria três?
O homem olhou para os próprios pés.
— Não mandaria.
O proprietário da terra protestou:
— Isso não prova que ele não fez.
— Não prova.
O comandante foi até o trecho quebrado e se agachou.
Zeus percebeu como os soldados mudaram de atenção sem que ninguém precisasse dar ordem. Permaneceram onde estavam, mas todos acompanhavam o homem.
Ele tocou uma pedra caída, examinou a base do muro e pegou dois galhos quebrados usados numa reparação recente.
— A barreira cedeu de dentro para fora.
O dono do campo respondeu imediatamente:
— Cabra empurra cerca.
— Empurra.
— Então…
O comandante mostrou-lhe um dos galhos.
— E você consertou isto com madeira verde dois dias atrás.
O homem ficou quieto.
— Como sabe?
— Ainda tem folha.
Um soldado sorriu.
O comandante nem olhou.
— A cerca estava ruim. As cabras passaram. Depois vocês dois resolveram bater um no outro em vez de admitir uma coisa que qualquer criança consegue ver.
Apontou para o dono das cabras.
— Você ajuda no reparo.
Depois ao outro:
— E você não inventa prejuízo onde elas não comeram nada.
— Comeram.
— Onde?
O proprietário indicou um canto.
Algumas folhas realmente haviam sido arrancadas.
O comandante caminhou até lá.
— Quanto perdeu?
— Duas fileiras.
O vizinho protestou:
— Três cabras não comeram isso tudo.
— Não comeram. Mas comeram alguma coisa.
O comandante tornou a reunir os dois com o olhar.
— Uma medida de cevada depois da próxima colheita.
O dono das cabras ia discutir.
Parou ao ver a expressão dele.
— E vocês consertam a cerca hoje.
Os dois aceitaram.
O comandante então apontou para os bastões.
— Agora me entreguem.
Dessa vez o dono do campo resistiu.
— Este é meu.
— Eu sei.
— Preciso dele.
— Hoje, não.
O homem olhou para os soldados e fez a conta.
Entregou.
O vizinho fez o mesmo.
O comandante passou ambos a um soldado.
— Devolva quando o trabalho acabar.
— Sim, Theron.
O nome pôs em ordem o que Zeus já suspeitava.
Theron.
Ouvira-o muitas vezes sem nunca ter visto o homem. Estradas, homens convocados, propriedades, castigos. E, mais recentemente, Pheneos.
Damon.
A história da mutilação percorrera a Arcádia com a velocidade comum às histórias que assustavam. Em algumas bocas, Damon atacara sozinho um grupo de soldados. Em outras, Licaão empunhara pessoalmente o machado. Outras versões chegavam mais próximas dos fatos.
Em todas as que mereciam confiança, uma coisa permanecia.
Theron cumprira a ordem.
O homem diante de Zeus, porém, recusava-se à simplicidade que as histórias gostavam de dar às pessoas.
Não era surpresa.
Poucos homens cabiam bem nas histórias contadas sobre eles.
Theron aproximou-se dos dois proprietários.
— Na próxima vez, chamem alguém antes de se baterem.
O homem de nariz ferido tocou o sangue seco.
— Ele me acertou primeiro.
— E você ainda está inteiro.
— Isso não significa…
Theron olhou para ele.
O homem desistiu.
— Certo.
— Melhor.
Theron se virou e encontrou Zeus.
O olhar passou primeiro pelas mãos, depois pelo cinto, pelas sandálias e pela estrada atrás dele.
Um soldado avaliando um desconhecido.
Zeus perguntou:
— Posso passar?
— Pode. Vá junto ao muro até terminarem a cerca.
Zeus obedeceu.
Ao passar, ouviu Theron falar com um soldado:
— Dois ficam aqui.
— Só dois?
— Quantos homens acha que uma cerca precisa?
O soldado olhou para o trecho quebrado.
— Depende da cerca.
— Esta já perdeu uma guerra para três cabras.
O homem sorriu.
Theron montou.
Zeus retomou o caminho.
Os cavalos o alcançaram pouco depois.
Theron seguia à frente com outro soldado que os demais tratavam com familiaridade suficiente para Zeus reconhecê-lo antes mesmo de ouvir o nome.
— Mestor, leve quatro pela parte baixa. Veja a passagem junto à água e nos encontre na propriedade de Kéron.
Mestor puxou as rédeas.
— E você?
— Vou pela estrada.
Mestor olhou para Zeus alguns passos adiante e voltou-se ao comandante.
— Perigoso.
— Muito.
— Estrangeiros costumam andar armados de perguntas.
Theron lançou-lhe um olhar.
Mestor sorriu, chamou quatro homens e tomou a rota inferior.
Zeus continuou.
Pouco depois, o cavalo de Theron emparelhou com ele.
— Vai longe?
— O suficiente.
— Resposta de homem perdido.
— Ou de homem que não quer explicar o destino.
Theron olhou para ele.
— Não é daqui.
— Já me informaram disso.
— Para onde segue?
— Leste. Por enquanto.
Theron apontou para a frente.
— Depois da oliveira partida há uma bifurcação. Pegue a da esquerda. A outra desce até um leito seco e depois sobe tudo de novo. Só serve para cansar quem não conhece.
— Obrigado.
Theron fez um gesto, e os soldados começaram a ultrapassá-lo.
Zeus pensou que a conversa terminara.
Um dos cavalos da retaguarda tropeçou.
O cavaleiro conseguiu manter-se na sela no primeiro desequilíbrio. No segundo, o animal cedeu para o lado.
Theron estava no chão antes do rapaz.
— Solte o pé!
O soldado puxou a perna.
A sandália ficara presa.
Theron agarrou a rédea perto da cabeça do cavalo, impedindo-o de rolar.
— Agora.
O rapaz conseguiu libertar-se.
O animal se debateu, assustado. Theron falou baixo com ele e esperou que parasse de lutar. Depois passou a mão pelo pescoço e desceu até a pata dianteira.
Zeus se aproximou.
Theron estendeu-lhe a rédea sem cerimônia.
— Segure.
Zeus segurou.
O comandante apalpou a perna do cavalo em dois pontos. Na terceira pressão, o animal reagiu.
— Aqui.
O soldado perguntou:
— Quebrou?
— Não parece.
Theron ergueu o casco. Uma pequena pedra estava presa na parte mais baixa.
Retirou-a.
O cavalo tentou puxar a pata.
— Calma.
Theron manteve a mão ali até que o animal aceitasse apoiar o peso.
— Ande com ele.
O soldado conduziu.
A manqueira era pequena.
— Não monta até eu conferir de novo depois da subida.
— Consigo ir andando.
— Espero.
O rapaz fez uma careta.
Theron olhou para ele.
— Você se machucou?
— Só o quadril.
— Consegue apoiar?
— Sim.
— Então caminhe.
O rapaz deu alguns passos.
— Dói.
— Perguntei se consegue apoiar.
— Consigo.
— Então está decidido por enquanto.
Theron pegou de volta a rédea que Zeus segurava.
— Obrigado.
— Não fiz muito.
— Segurou a rédea.
Zeus soltou-a.
Theron montou, mas continuou atento ao soldado a pé.
— Vamos devagar até a bifurcação.
Nenhum homem reclamou.
Zeus retomou a caminhada.
Dessa vez, Theron permaneceu ao lado dele, deixando o cavalo andar.
— Já lidou com animais?
— Um pouco.
— Não tentou puxar quando ele caiu.
— Teria feito o cavalo lutar mais.
Theron concordou.
— Muita gente puxa.
— Muita gente piora o problema quando se assusta.
— Isso também.
Seguiram algum tempo sem conversar. A estrada começava a subir. O sol aquecia o tecido sobre os ombros de Zeus e arrancava cheiro seco das ervas junto ao caminho.
Muito além daquilo que os olhos daquela forma humana alcançavam, nuvens nasciam sobre montanhas distantes.
Ele deixou-as lá.
— Theron.
O comandante voltou o rosto.
— Ouvi um dos seus homens chamá-lo.
— E?
— Conheço o nome.
Theron não mostrou orgulho nem preocupação.
— De onde?
— Das estradas.
— Mau sinal. Prefiro que conheçam a estrada.
Zeus continuou:
— Também ouvi em Pheneos.
Algo mudou.
A mão de Theron apertou a rédea uma vez.
— Então ouviu uma história.
— Algumas.
— Isso costuma acontecer.
Zeus escolheu as palavras com cuidado.
— Sei que Damon escondeu o homem procurado. Mentiu aos enviados do rei e, quando a situação se rompeu, houve feridos.
Theron olhava a estrada.
— Foi o que aconteceu.
— Depois Licaão mandou puni-lo.
O comandante agora sabia exatamente aonde a conversa chegaria.
Zeus disse:
— A mão.
Theron demorou apenas o necessário.
— Sim.
O soldado que seguia a pé estava longe o bastante para não escutar bem.
— A ordem veio do próprio rei?
— Veio.
— E ficou com você a execução.
Theron virou o rosto.
Já não olhava para um viajante curioso. Media intenção.
— Ficou.
Zeus esperou.
Theron não acrescentou nada.
— Foi você quem usou o machado?
— Fui.
Não havia pedido de perdão na resposta.
Tampouco orgulho.
Zeus olhou para as mãos dele. Uma segurava a rédea; a outra permanecia junto à coxa. Havia um corte pequeno no indicador, desses que podiam vir de couro, pedra, metal ou trabalho cotidiano.
Mãos de homem.
— Por que não deixou outro fazê-lo?
Theron caminhou vários passos antes de responder.
— Já me perguntaram isso.
— E o que respondeu?
— O que eu tinha para responder.
— Serviu?
Theron encarou-o.
— Para quem perguntou, não sei.
— Para você.
O comandante indicou Zeus com o queixo.
— Faz isso sempre?
— Isso o quê?
— Pega a resposta de alguém e continua cavando embaixo dela.
— Algumas vezes.
— Deve ser cansativo viajar com você.
— Viajo sozinho.
— Agora entendo.
Zeus esperou.
Theron acabou cedendo.
— Eu tinha recebido a ordem.
— Isso explica por que precisava ser cumprida. Não por que precisava ser sua mão.
Theron olhou para ele.
— Foi exatamente o que Damon perguntou.
Zeus não fingiu surpresa.
— Antes?
— Antes.
A única palavra trouxe mais do que várias frases.
— E o que respondeu a ele?
Theron fitou a estrada.
— Que eu era o homem a quem o rei dera a ordem.
Zeus deixou o silêncio trabalhar.
Theron suportou alguns passos.
Depois se irritou.
— Está esperando o quê?
— Nada.
— Parece muito com alguma coisa.
— Talvez seja você quem esteja esperando.
Theron soltou uma risada baixa e sem alegria.
— Não sei quem é você, estrangeiro, mas pergunta como sacerdote sem altar.
— Isso foi ofensa?
— Ainda estou decidindo.
A inclinação aumentou.
Theron olhou para trás e conferiu o soldado que caminhava. O homem seguia sem piorar.
Zeus retomou:
— Damon resistiu quando vocês chegaram?
— Não.
— Tentou fugir?
— Também não.
— Ainda assim a ordem continuou.
Theron virou-se para ele.
— Um homem não apaga o que fez porque resolveu cooperar depois que ficou sem saída.
— Concordo.
A concordância pareceu irritá-lo mais do que uma contestação.
— Já comandou homens?
— Conheço homens que comandam.
— Não é a mesma coisa.
— Frequentemente, não.
Theron acompanhou o movimento da estrada.
— Damon teve oportunidade de evitar tudo aquilo.
— Entregando Phorbas quando os enviados chegaram.
— Exato.
— Depois já não podia voltar ao ponto anterior.
— Não.
— Então a punição lidava com o que já tinha acontecido.
— Sim.
Zeus caminhou mais alguns passos.
— Poderia tê-lo levado até Licaão e cumprido a mutilação lá.
Theron virou a cabeça devagar.
Nada naquela pergunta exigia conhecimento divino. Era apenas uma possibilidade óbvia para qualquer homem que ouvisse a história inteira.
— Poderia.
— Pensou nisso?
O silêncio respondeu.
Theron confirmou:
— Pensei.
— E por que não fez?
A oliveira partida começava a aparecer no alto da estrada.
Theron fixou nela o olhar.
— Porque não havia motivo prático para adiar. A ordem podia ser cumprida onde estávamos.
— Ainda não respondeu tudo.
— Para um comandante, responde bastante.
— Então explique como comandante.
Theron passou o polegar pela rédea.
— Se recebo uma ordem e começo a procurar atraso toda vez que ela me desagrada, estou escolhendo quais ordens do rei merecem ser cumpridas.
— Seria impossível fazer isso?
— Seria perigoso.
— Para você?
— Para todo mundo.
Theron apontou para os soldados atrás deles.
— Se mando aquele homem segurar uma passagem e ele decide que dez passos adiante seria melhor, talvez esteja certo. Talvez não. Se cada um redesenha sua posição sozinho, em algum momento não existe mais linha.
— Cortar a mão de um homem não é uma linha de escudos.
A resposta veio mais dura:
— Eu sei.
Zeus ficou quieto.
Theron continuou por conta própria:
— Também sei que há diferença entre decidir durante uma batalha e receber do rei uma punição específica para cumprir.
— Quanto mais grave a ordem, menos espaço teria para julgá-la?
Theron virou-se.
— Não coloque palavras na minha boca.
— Estou tentando entender.
— Está tentando empurrar uma resposta até ela cair do lado que você quer.
— Há um lado?
Theron levou algum tempo.
— Há responsabilidades diferentes.
Zeus aguardou.
O comandante continuou:
— O rei decide o que a casa exige. Eu decido como a ordem será executada.
— Então escolhe.
— Todo comandante escolhe alguma coisa.
A resposta saiu depressa.
Theron percebeu e acrescentou:
— Dentro da ordem. Não sobre a existência dela.
— Essa fronteira é clara?
Theron não respondeu.
Chegaram à oliveira partida. Metade do tronco ainda vivia; a outra terminava numa massa seca, cinzenta, aberta talvez por um inverno antigo ou pelo machado de algum homem.
Theron fez sinal para os soldados pararem.
Desmontou e examinou outra vez o cavalo ferido. Levantou a pata, pressionou a articulação em dois pontos e soltou.
— Está melhor.
O soldado perguntou:
— Posso montar?
— Quando a estrada ficar plana.
— Falta muito?
Theron devolveu-lhe a rédea.
— Vai faltar menos se não gastarmos o dia discutindo.
O rapaz sorriu.
Theron bebeu do próprio odre e depois o ofereceu a Zeus.
A água estava morna.
Zeus bebeu.
— Se todo homem escolhe alguma coisa dentro de uma ordem, quem responde pelo que escolheu?
Theron respondeu sem dificuldade:
— Ele.
— E pelo que estava fora da escolha dele?
— Quem mandou.
— É tão simples assim?
Theron estendeu a mão para o odre.
Zeus devolveu.
— Não.
O comandante prendeu-o à sela.
— Se dissermos que nada pertence a quem manda porque sempre existe outro homem executando, um rei pode ordenar qualquer coisa e fingir que suas mãos estão limpas. Se dissermos que tudo pertence apenas a quem executa, damos a ele a mesma desculpa. Nenhuma serve.
Zeus permaneceu em silêncio.
Theron pareceu perceber que falara mais do que pretendia.
— E onde isso deixa você?
O comandante olhou para a própria sela.
— No meio, aparentemente.
— Lugar confortável?
Theron lançou-lhe um olhar cansado.
— Já se sentou numa sela?
Zeus sorriu.
Theron também.
Dessa vez o humor durou apenas um momento.
Zeus perguntou:
— Se Licaão desse a mesma ordem amanhã, faria outra vez?
Theron não pediu esclarecimento.
Olhou para os homens e depois para a bifurcação.
— A mesma situação?
— A mesma.
Ele passou a mão pela crina do cavalo.
— Se disser que não, vou querer saber se estou mentindo.
— E se disser que sim?
— Também.
Zeus esperou.
Theron apoiou uma mão na sela.
— Quando estava naquela propriedade, pensei em adiar.
— Por segurança?
— Não. Estava tudo controlado.
— Faltava ferramenta?
— Também não.
— Damon resistia?
— Não.
Theron fitou os próprios dedos sobre o couro.
— Eu pensei em adiar porque não queria fazer.
Zeus permaneceu atento.
— E isso fez você continuar.
— Fez.
— Por quê?
Theron olhou diretamente para ele.
— Se minha obediência depende de gostar da ordem, não sirvo para comandar homens.
— Mas não suportar uma ordem também não seria motivo bastante para recusá-la?
— Também não.
— O que seria?
Theron demorou.
Ao redor deles, a Arcádia prosseguia sem esperar aquela resposta. Um inseto rondou o focinho do cavalo. Mais abaixo, alguém chamava outro homem numa propriedade. Um soldado ajustava a sandália.
Theron disse:
— Não sei.
Não havia vergonha.
Havia irritação de homem que preferiria possuir uma resposta e não possuía.
Zeus perguntou:
— Nunca recebeu uma ordem que não cumpriria?
— Já recebi ordens ruins.
— E obedeceu?
— Algumas vezes. Outras consegui corrigir durante a execução.
— Ainda chama isso de obedecer?
Theron deu de ombros.
— Quando dá certo, chamam de experiência.
— E quando dá errado?
— Chamam outro comandante.
Zeus riu.
Theron montou.
— No caso de Damon havia pouco para corrigir.
— Ainda havia alguma coisa.
O comandante observou-o.
A pergunta estava implícita.
Theron acabou falando:
— A família dele estava lá.
Ali surgia uma informação que Zeus, do alto, poderia ter buscado cedo demais.
Agora vinha do próprio homem.
— E?
— Não precisavam assistir.
— Então você os afastou.
— Sim.
— Havia outros homens na propriedade.
— Também afastei. Já sabia os nomes e não precisava deles em volta.
Zeus caminhou alguns passos.
— Quantos soldados levou?
Theron olhou de lado.
— Oito.
— Precisava de oito?
— Não sabia o que encontraria quando saí.
— E depois?
— Depois já estavam comigo.
— Ninguém resistiu.
— Não.
Zeus reuniu o que ouvira.
— Então reduziu o dano onde podia.
Theron reagiu de imediato.
— Não transforme isso em favor.
— Não transformei.
— Damon saiu de lá sem a mão. Ter afastado a família não faz daquilo bondade.
Zeus o observou.
O comandante não queria absolvição comprada com pequenas misericórdias.
— Não disse que fazia.
Theron sustentou o olhar e acabou aceitando.
— Certo.
Zeus perguntou:
— Quer que eu diga que estava errado?
Agora Theron se surpreendeu.
— Eu estava prestes a perguntar o que você quer.
— Não é isso.
— Acha que Licaão estava errado?
— Também não respondi isso.
— Então por que passou metade da estrada me interrogando?
Zeus pensou nas vozes que chegavam ao Olimpo.
Homens pedindo proteção contra soldados.
Soldados pedindo que os companheiros voltassem vivos.
Mercadores agradecendo pelas estradas.
Myrine deixando pão sobre uma pedra e pedindo apenas que Orestes retornasse para casa.
Damon de Pheneos não era Damon, filho de Myrine. Dois homens partilhavam um nome e nada mais. Pequena coincidência entre mortais; lembrança útil para um deus de que cada história precisava de rosto antes de julgamento.
Zeus respondeu:
— Quero saber se considera aquilo somente uma ordem do rei.
Theron ficou imóvel sobre a sela.
— Era ordem dele.
— Eu sei.
— Fui eu quem executou.
Zeus não preencheu o silêncio.
Theron passou a língua pelos dentes.
— Está fazendo outra vez.
— O quê?
— Esperando depois que já recebeu resposta.
— Talvez ainda falte alguma coisa.
Theron baixou os olhos para a mão direita.
Só um instante.
Depois encarou Zeus.
— Licaão mandou.
Fez uma pausa curta.
— E eu escolhi cumprir.
Zeus permaneceu calado.
Theron soltou a rédea um pouco.
— Agora basta?
— Para mim?
— Você é quem perguntou.
— Não sou eu quem vai viver com a resposta.
Por um momento Theron pareceu disposto a irritar-se.
A vontade passou.
— Realmente fala como sacerdote.
— Conheci alguns.
— Imagino que tenham gostado muito de você.
— Nem todos.
Theron reuniu as rédeas.
— Vou para o sul.
— Eu continuo por esta estrada.
— Na próxima casa há água. Se não encontrar ninguém, a fonte fica atrás do muro. E não entre no curral pela esquerda.
— Por quê?
— Tem um bode.
— Perigoso?
Theron olhou na direção da estrada.
— Ele acredita que é.
Zeus assentiu.
Theron chamou os homens.
O soldado que machucara o quadril recebeu autorização para montar. A coluna se reorganizou sem atropelo. Ordens curtas, movimentos conhecidos, nenhuma voz elevada.
Antes de partir, Theron olhou novamente para Zeus.
— Estrangeiro.
— Sim?
Por um instante, pareceu prestes a perguntar seu nome.
Não perguntou.
— Se ouvir outra história sobre Pheneos, tente chegar até o fim antes de decidir o que aconteceu.
— É o que procuro fazer.
Theron quase sorriu.
— Exatamente a resposta que eu esperaria de alguém que pergunta demais.
Virou o cavalo.
Os soldados seguiram.
Zeus permaneceu junto à oliveira enquanto a patrulha tomava o caminho sul. Theron ia à frente. Na primeira curva, um dos homens se afastou demais da formação.
O comandante ergueu uma mão.
O soldado corrigiu a posição.
Nada extraordinário.
Pouco depois, homens e cavalos desapareceram atrás da elevação.
A estrada ficou vazia.
Zeus retomou a caminhada no sentido oposto.
Encontrou a casa indicada pouco mais acima.
E, quando chegou ao curral, entrou pela direita.
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