Capítulo 27 — Sem Nome
por Sonhado acordadoLicaão correu até deixar de ouvir a casa.
Não tomou a decisão. O corpo a tomou por ele.
As patas golpeavam a terra depressa demais para que pudesse pensar nos movimentos. Pedra, raiz, declive e lama eram percebidos e corrigidos antes que seus olhos terminassem de reconhecê-los. Uma árvore surgiu em seu caminho; desviou sem diminuir o passo. O terreno caiu alguns palmos adiante, e as pernas se ajustaram sozinhas.
Licaão apenas foi levado.
Mais fundo no bosque. Mais longe do fogo.
Só quando as árvores esconderam completamente a casa tentou parar. As patas dianteiras escorregaram na terra seca, e ele quase caiu sobre o peito.
Girou com violência e bateu o flanco contra um tronco.
A dor foi real. Pequena diante do resto.
Ficou ali, imóvel, respirando depressa por uma boca que ainda não compreendia. O ar trazia coisas demais: terra úmida sob folhas apodrecidas, casca de árvore, insetos escondidos no chão, o rastro de um animal pequeno que passara horas antes, água correndo em algum ponto mais baixo.
E fumaça.
Licaão ergueu a cabeça.
A casa.
Mesmo sem enxergá-la, sabia exatamente de onde vinha.
A fumaça atravessava o bosque numa corrente fina que nariz humano algum teria encontrado. Cinza, madeira de oliveira, lã, óleo queimado.
Carne.
O estômago se contraiu.
Licaão fechou a boca.
Não.
A palavra existiu inteira dentro da cabeça. Tentou pronunciá-la.
— N…
A garganta produziu um som áspero, baixo demais e grosso demais.
Parou.
Tentou outra vez, devagar. Sabia como palavras eram feitas. Língua contra dentes. Ar controlado. Boca moldando sílabas.
Níctimo.
Passara a vida pronunciando aquele nome. Quando o menino demorava a voltar. Quando fazia uma pergunta ruim. Quando fazia uma boa. Quando precisava chamá-lo para junto da mesa ou fazê-lo parar no corredor. Quando queria apenas que o filho olhasse para ele.
Níctimo.
Abriu a boca.
Saiu um ganido grave.
O corpo inteiro de Licaão endureceu.
Tentou outra vez. Vieram sons partidos, nenhum deles próximo de uma sílaba.
Mordeu o ar em frustração.
Os dentes bateram.
Licaão passou a língua sobre eles.
Longos.
Pontiagudos.
Errados.
Recuou de si mesmo sem possuir para onde recuar.
Baixou os olhos.
Patas cobertas de pelo escuro. Garras enterradas na terra.
A mão direita.
Onde estava sua mão direita?
Tentou abri-la. A pata se moveu pouco, os dedos presos a outra anatomia. Tentou fechá-la e as garras arranharam o chão.
Por algum tempo, não pensou em Zeus, no reino ou no julgamento. Pensou apenas que deveria haver um homem naquele lugar e não havia.
Levantou-se.
Tentou ficar sobre as patas traseiras.
Conseguiu por menos de uma respiração. O peso o puxou para frente e ele caiu. Tentou novamente, apoiando as patas dianteiras num tronco. A posição lhe devolveu alguma altura, mas não o bastante.
Olhou para o próprio peito coberto de pelos, para o ventre estreito, para as pernas que se dobravam de maneira perfeitamente compreensível aos olhos e absolutamente errada à memória.
Soltou o tronco.
Caiu sobre quatro patas.
A posição era confortável.
Isso foi pior que a queda.
Licaão permaneceu imóvel.
O corpo preferia aquilo. Não lutava contra a forma. Sabia usá-la.
Só ele resistia.
Um ruído surgiu à esquerda.
Folhas se moveram.
Licaão virou a cabeça depressa demais.
Uma lebre saiu debaixo de um arbusto e parou por um instante.
Os dois se viram.
A lebre correu.
Licaão disparou atrás dela.
Quatro saltos.
Talvez cinco.
Só então percebeu o que fazia e travou as patas. Escorregou de lado enquanto a lebre desaparecia entre pedras e vegetação.
Ficou olhando para o lugar vazio.
O coração batia depressa.
Não pensara em perseguir.
O movimento do animal fora suficiente.
Pequeno.
Quente.
Vivo.
Seu corpo quisera alcançar, morder, fechar os dentes.
Esperou sentir a fome.
Veio pouco. Quase nada.
A lembrança de Zeus retornou.
Carne humana.
Uma fome que não terminaria.
A ideia produziu repulsa, mas outra coisa acompanhou a repulsa. Uma curiosidade que não parecia nascer da mente.
Nascia mais baixo.
Licaão se afastou.
— N…
Outro som animal.
Virou na direção oposta à casa e começou a andar.
Não sabia quanto tempo passara desde que fugira. O sol ainda atravessava partes da copa, embora a luz já tivesse mudado. Uma hora? Menos?
A percepção do tempo parecia menos confiável, enquanto todo o restante se tornara excessivamente preciso. Sentia a umidade diminuir no solo. O calor do sol sobre o dorso. O vento mudar entre as árvores. Escutava uma ave pousar muito além de onde seria capaz de enxergá-la. Um inseto cavava madeira. Alguma coisa maior caminhava num trecho distante da mata.
Havia água ao norte.
Não via.
Sabia.
Seguiu o cheiro e o som até o terreno começar a descer.
Encontrou um riacho entre pedras escuras.
Talvez já tivesse passado perto dali montado, em alguma caçada ou inspeção. Como rei, conhecia aquelas terras por estradas, propriedades, fronteiras e relatos.
Agora o bosque chegava por odores.
Parou junto à água.
A sede veio simples e incontestável.
Baixou a cabeça.
O reflexo o deteve.
A corrente distorcia a imagem, mas não o bastante.
Olhos.
Focinho.
Orelhas altas.
Pelo escuro.
Licaão recuou.
A imagem se desfez.
Aproximou-se outra vez.
Lobo.
Não um homem deformado.
Não uma criatura entre duas formas.
Um lobo grande, mais pesado que os que vira em caçadas, porém reconhecível como qualquer outro animal de sua espécie.
Mostrou os dentes ao reflexo.
O reflexo mostrou os mesmos.
Um rosnado começou em sua garganta.
Fechou a boca.
A sede continuava.
Bebeu.
A língua tocou a água.
A humilhação veio imediatamente.
Sabia usar uma taça. Sabia distinguir vinho bom de ruim. Sabia perceber quando um servo diluíra demais uma ânfora. Conhecia a preferência de Dia por determinado recipiente em refeições maiores.
Agora bebia de um riacho.
Tentou puxar a água de outra maneira.
Não tinha mãos.
Voltou a beber.
Quando terminou, ergueu a cabeça. Uma gota correu pelo focinho, e Licaão sacudiu o rosto por reflexo.
Parou imediatamente.
Mais uma coisa que o corpo sabia fazer.
Seguiu o curso da água.
A primeira tentativa de se alimentar veio pouco depois. Frutos maduros haviam caído sob uma árvore. Reconheceu o cheiro antes de vê-los. Alguns estavam esmagados; outros permaneciam inteiros.
Mordeu um.
A polpa doce se rompeu na boca.
Engoliu.
Esperou.
Nada.
Comeu outro.
O estômago recebeu alimento. A outra necessidade permaneceu onde estava, funda e separada do vazio comum do ventre.
Licaão abandonou os frutos.
Mais adiante encontrou restos de uma cabra, provavelmente arrastada por algum predador. Moscas se ergueram quando se aproximou. Os ossos ainda guardavam pequenos trechos de carne seca.
O cheiro teria feito o homem que fora recuar.
O lobo reconheceu comida.
Licaão arrancou um pedaço.
Sangue velho e carne fria preencheram sua boca.
Mastigou.
Engoliu.
O ventre respondeu.
A outra fome, não.
Soltou o osso.
Agora sabia.
Zeus não falara por metáfora, nem ampliara uma necessidade comum para humilhá-lo. Aquela fome era específica. Poderia encher o estômago até não conseguir caminhar e ela permaneceria.
Carne humana.
Licaão afastou-se da carcaça.
O gosto ficou preso entre os dentes. Entrou no riacho e tentou lavar a boca.
Não ajudou.
Permaneceu com água correndo sobre as patas.
Carne humana.
Níctimo.
Licaão saltou para fora do riacho tão depressa que pedras voaram sob as patas.
Correu.
Não sabia exatamente do quê. Da lembrança. Do cheiro que nem sequer estava ali. Do próprio corpo.
Um galho atingiu seu rosto.
Rosnou.
Mordeu a madeira e arrancou um pedaço. Fibras ficaram presas entre os dentes. Cuspiu.
Um som longo escapou de sua garganta, alguma coisa entre palavra e uivo.
Tentou dizer o nome do filho.
Nada.
O bosque jamais saberia que aquele ruído significava Níctimo.
Só Licaão.
Talvez aquilo também fizesse parte da punição. Sua memória permanecera humana o bastante para dar nome às coisas, enquanto a boca perdera a capacidade de compartilhá-los.
Então ouviu homens.
Vozes distantes.
Licaão parou.
O corpo se virou antes que ele decidisse.
Ainda não distinguia as palavras, mas não precisava delas para reconhecer pessoas.
O cheiro chegou em seguida.
Suor.
Couro.
Bronze.
Cavalo.
Dois homens.
Talvez três.
O estômago se contraiu.
A boca encheu-se de saliva.
Licaão avançou um passo.
Parou.
A fome cresceu de uma maneira que a lebre não provocara. Aquilo não era apenas impulso de perseguição. Era desejo físico, tão nítido quanto sede.
Havia carne viva atrás das árvores.
A carne certa.
Licaão recuou.
As vozes ficaram mais claras.
— …por aqui.
Uma palavra.
Entendeu.
A compreensão humana continuava intacta.
Outra voz respondeu:
— Não estou vendo nada.
Um galho se partiu.
Mais perto.
O cheiro de cavalo aumentou, acompanhado pelo de um homem jovem. Suado. Havia sangue nele, pouco, talvez um corte na mão ou no braço.
Licaão deu um passo adiante sem querer.
O mundo se estreitou.
Sangue.
Sua língua passou pelos dentes.
Recuou.
Obrigou o corpo.
Outro passo para trás.
— Ouviu?
As vozes pararam.
Licaão também.
— Alguma coisa.
Metal raspou contra bainha.
Uma espada.
Conhecia aquele som havia décadas. Quantas vezes homens haviam puxado lâminas quando ele chegava? Quantas vezes sacado armas por sua ordem?
Agora a espada surgia contra um ruído entre arbustos.
— Lobo?
— Talvez.
A palavra atingiu Licaão de maneira inesperada.
Lobo.
Não rei.
Não Licaão.
Lobo.
O homem ferido aproximou-se. O cheiro de sangue se tornou forte demais.
Licaão sentiu as patas se afastarem um pouco, o corpo baixar e o peso se distribuir.
A posição de ataque.
Não escolhera.
Forçou-se a erguer.
Virou.
Correu.
— Ali!
— Eu vi!
Passos.
Um cavalo se agitou.
A terceira voz impediu a perseguição.
— Deixa. Não viemos caçar.
Licaão continuou.
Só diminuiu quando os cheiros desapareceram.
Não o procuravam.
Talvez fossem guardas vindos da casa. Talvez viajantes. Não fazia diferença. Não sabiam quem ele era.
Ainda.
Licaão se escondeu entre duas pedras e permaneceu ofegante.
A palavra covardia surgiu.
Usara-a muitas vezes para outros homens.
Homens que abandonavam posição.
Homens que recuavam quando julgava que uma demonstração de força bastaria.
Homens que cediam antes de experimentar a própria resistência.
Tentou sentir desprezo.
Não conseguiu.
Os homens tinham espadas.
Ele tinha dentes.
Ainda assim temera.
O medo não chegara como argumento. Chegara no corpo, antes de qualquer escolha. Empurrava. Exigia.
Talvez Theron soubesse disso.
Talvez qualquer soldado soubesse.
Licaão afastou a ideia.
Não queria aprender com a punição. Não queria encontrar Zeus em cada sensação nova daquele corpo.
Queria voltar.
A palavra apareceu inteira.
Casa.
Dia.
Mélas.
Theron.
Níctimo.
Seu lugar.
Mesmo destruído.
Seu.
Virou-se e procurou o cheiro da fumaça.
Seguiu.
A casa apareceu ao longe quando a luz começava a amarelar entre as árvores.
Licaão não se aproximou pela estrada.
O corpo escolheu a cobertura do bosque.
Percebeu depois e se irritou.
Forçou-se a sair por alguns passos.
Terreno aberto.
Um homem surgiu perto do muro quebrado.
Licaão voltou imediatamente para as árvores.
Raiva.
De quem se escondia?
Da própria casa?
Avançou outra vez.
O homem se moveu.
Licaão recuou.
Dessa vez permaneceu na sombra e respirou devagar.
Não era apenas medo.
Era cheiro.
Muitos.
Dezenas de humanos.
O vento soprava da casa trazendo suor, pele queimada, sangue de feridos, pão, vinho, fumaça.
E carne humana.
A fome explodiu.
Não aumentou aos poucos.
As patas avançaram.
Uma.
Duas.
Licaão travou o corpo.
Pessoas cruzavam os pátios.
Podia ouvi-las e distingui-las de maneiras que jamais distinguira homens antes. Um tinha sangue no braço. Outro mancava. Uma mulher carregava pano molhado. Um rapaz vinha dos estábulos.
Corpos vivos.
Quentes.
Perto demais.
Licaão recuou até bater as costas contra uma árvore.
A saliva escorria da boca.
Rosnou contra si mesmo.
O cheiro continuou chegando em ondas.
Então um atravessou todos os outros.
Conhecido.
Dia.
Licaão ficou imóvel.
Não era perfume.
Era ela.
Pele, óleo nos cabelos, fumaça entranhada na roupa, lã, sal.
Dia.
A memória ofereceu um rosto ao cheiro.
Licaão deu um passo em direção à casa.
A fome veio junto.
Parou.
Dia era humana.
A percepção foi obscena.
Seu corpo não fazia diferença alguma entre esposa e alimento.
Dia.
Carne.
Licaão recuou.
Tentou pronunciar o nome.
Saiu um gemido grave.
Movimento no pátio.
Ela apareceu.
Distante demais para olhos humanos enxergarem detalhes.
Não para os dele.
Tecido escuro sobre os ombros. Passos lentos. Duas mulheres caminhavam ao lado.
Licaão avançou.
Queria ir até ela.
Tocar.
Falar.
Explicar.
Não sabia qual dessas coisas ainda estava ao seu alcance.
A fome apertou.
Parou novamente.
Dia virou a cabeça na direção do bosque.
Licaão congelou.
Por um instante absurdo, acreditou que ela o tivesse visto.
Não.
O olhar percorreu apenas as árvores.
Depois ela retomou o caminho.
O rei que existira podia atravessar aquela distância e homens abririam passagem.
Agora Licaão precisava descobrir se conseguia chegar até a própria esposa sem desejar mordê-la.
Abaixou o corpo entre os arbustos.
Vergonha, dessa vez.
O vento virou.
Os cheiros enfraqueceram.
A fome cedeu o bastante para que conseguisse se mover.
Contornou o terreno e aproximou-se por outra lateral. Uma seção do muro fora destruída pelo raio. Pedras se espalhavam onde antes existira uma barreira sólida.
Licaão conhecia aquele muro.
Mandara repará-lo anos atrás.
Um trabalhador avisara que a base era ruim. Licaão ordenara pedras maiores. Níctimo ainda era criança e passara metade do dia perguntando por que muros caíam.
Licaão respondera que qualquer coisa acabava caindo se a base fosse malfeita.
Parou.
A lembrança pareceu uma provocação inventada por outro homem.
Continuou.
Do outro lado do muro, Theron dava ordens.
— Dois homens no acesso norte. Ninguém entra na parte central até conferirmos as paredes. Quero o depósito contado antes da noite.
Outro homem perguntou:
— E o portão leste?
— Um basta. Se a parede piorar, chama mais dois.
Ordens.
Theron.
Licaão se aproximou.
— E o rei…
O homem que falara não terminou.
Seguiu-se um silêncio curto.
Theron respondeu em voz baixa demais para que Licaão escutasse.
Ele avançou até encontrar uma abertura entre as pedras.
O pátio apareceu.
O salão principal estava destruído.
Não danificado.
Destruído.
Parte da parede onde ficava o assento real desaparecera. O teto abrira como madeira esmagada. Vigas negras apontavam para o céu. Homens retiravam escombros; outros carregavam água, caixas, cestos e qualquer coisa que ainda pudesse ser salva.
Um servo atravessou o pátio com registros nos braços.
Mélas veio atrás, mandou-o mudar de direção e apontou outro lugar onde as tábuas deveriam ser guardadas.
O rapaz obedeceu.
Mélas não perguntou a ninguém.
Theron também não.
A casa trabalhava.
Sem Licaão.
Uma fúria inteiramente humana surgiu, e por um instante ele quase se sentiu de volta ao próprio corpo.
Deveriam estar procurando.
Esperando.
Deveriam…
O pensamento perdeu forma.
Esperando o quê?
Que o rei voltasse?
Qual rei?
Licaão abriu a boca.
Mostrou os dentes.
Podia entrar.
Rosnar.
Fazer alguém reconhecê-lo.
Talvez Theron entendesse.
Mélas.
Dia.
Avançou um passo.
Um guarda percebeu movimento.
— Ei!
Licaão parou.
O homem virou com a lança.
— Tem alguma coisa ali.
Outro guarda veio.
Licaão podia sair.
Ficar diante deles.
Era sua casa.
O primeiro homem estreitou os olhos.
— Um lobo.
A ponta da lança baixou.
— Grande — disse o outro.
Pegou uma pedra.
Licaão rosnou.
Os dois recuaram.
Por medo.
Não por autoridade.
O mesmo medo que ele próprio sentira diante da espada dos viajantes.
— Afasta!
A pedra foi lançada.
Errou.
Bateu no muro.
Licaão saltou para trás.
A vergonha virou raiva.
Avançou.
O guarda ergueu a lança.
O cheiro dele atingiu Licaão.
Humano.
A fome tomou o restante.
Pescoço.
Pulso descoberto.
Carne sob a túnica.
Bastava um salto.
Licaão viu o movimento inteiro antes de fazê-lo.
Poderia matar aquele homem.
Não por causa da lança.
Por fome.
Recuou.
O guarda gritou:
— Theron!
Licaão correu para o bosque.
Vozes se multiplicaram atrás dele.
— Não perseguem! — gritou Theron. — Ninguém entra na mata por causa de um lobo. Temos feridos demais aqui.
Licaão diminuiu.
Continuou andando.
Não o perseguiriam.
O rei da Arcádia chegara à própria casa e fora afastado por uma pedra.
Não.
Não fora expulso.
Fugira.
Isso era pior.
O céu escureceu antes que encontrasse um lugar para ficar.
O frio veio junto.
Licaão jamais percebera quanto fogo existia na vida humana. Braseiros. Casas. Cobertores. Corpos próximos. Paredes impedindo o vento de entrar. Telhados mantendo a noite do lado de fora.
No bosque, a temperatura caiu depressa.
O pelo ajudava.
O corpo sabia se encolher.
Encontrou um espaço protegido entre raízes grossas.
Deitou.
Levantou imediatamente.
A posição lhe pareceu animal demais.
Tentou sentar.
Também era.
Apoiou as costas numa árvore e descobriu que o corpo não fora construído para aquele gesto.
Depois de várias tentativas, desistiu.
Deitou.
Os músculos relaxaram.
Licaão odiou a sensação.
A noite cresceu.
A escuridão já não era ausência completa de visão. Enxergava formas, movimentos e pequenas diferenças entre tons que antes seriam apenas negro. Ouvia tanto que o bosque inteiro parecia desperto.
Durante anos mandara homens atravessarem estradas à noite.
Guardas.
Mensageiros.
Soldados.
Perguntara por que haviam demorado, por que esperaram amanhecer, por que escolheram uma rota maior.
Agora todo ruído podia esconder dentes.
Licaão tinha dentes também.
A constatação não ajudou.
Um uivo surgiu longe.
Lobo.
Outro respondeu.
Licaão ergueu a cabeça.
O som atravessou o vale, longo e limpo.
Veio uma terceira resposta, mais próxima.
O corpo de Licaão preparou-se.
O peito vibrou.
A garganta abriu.
Ele conteve.
Não.
Não faria aquilo.
Os lobos chamaram outra vez.
Um som curto escapou de sua garganta.
Licaão fechou a boca.
Tarde.
O bosque ficou quieto.
Pouco depois, uma resposta veio.
Mais próxima.
Licaão levantou-se.
Não pertencia à casa.
Também não pertenceria àqueles animais.
Começou a caminhar.
Horas depois, a fome o acordou com força.
Não sabia se dormira. Talvez sim. Lembrava-se de escuridão e, depois, de a lua estar em outra posição.
O ventre doía.
Havia agora duas necessidades claras.
A fome comum.
E a outra.
Tentou raízes.
Não serviram.
Perseguiu um animal pequeno.
Matou-o antes de compreender que a perseguição terminara.
Quando percebeu, os dentes estavam fechados no pescoço e o corpo quente deixava de se mover.
Licaão soltou imediatamente.
Ficou olhando.
Sangue fresco.
Animal.
Mordeu.
Comeu.
Não pensou na maneira.
Quando terminou, a dor do ventre desaparecera.
A outra fome continuava intocada.
Zeus fora preciso.
Não acabaria.
Um cheiro novo chegou antes que pudesse permanecer muito tempo naquela conclusão.
Fumaça.
Não da casa.
Uma fogueira pequena.
Homens.
Perto.
Licaão ergueu a cabeça.
Duas vozes.
Talvez três.
Viajantes.
A fome se acendeu novamente.
Ele ficou imóvel.
Uma das vozes riu.
Outra respondeu.
Licaão começou a caminhar naquela direção.
Um passo.
Outro.
Não queria ir.
O corpo queria.
Poderia se aproximar.
Ver.
Nada além disso.
A fome não era uma ordem.
Podia escolher.
A frase trouxe Níctimo para dentro da cabeça.
Não porque o filho a tivesse pronunciado. Desde sua morte, qualquer pensamento sobre escolha carregava agora alguma coisa dele.
Licaão parou.
A luz da fogueira aparecia entre os troncos abaixo.
Um homem estava sentado.
Outro deitado.
O terceiro mexia numa panela sobre o fogo.
Carne assada.
O cheiro de animal se misturou ao cheiro humano.
Licaão salivou.
O homem sentado ergueu a cabeça.
— Ouvi alguma coisa.
Licaão não se mexeu.
— Deve ser raposa.
— Raposa não pesa assim.
O homem pegou uma lança.
Virou-se.
Licaão viu o pescoço.
O pulso.
A mão segurando a arma.
Carne.
A palavra apareceu antes que pudesse impedir.
Não homem.
Carne.
Licaão recuou como se tivesse recebido um golpe.
Ali estava a punição.
Não nas patas.
Não nos dentes.
Na facilidade com que aquele corpo mudava o nome das coisas.
Homem.
Carne.
Súdito.
Recurso.
Níctimo.
Prato.
Virou-se e correu.
Os homens ouviram.
— Lobo!
— Deixa.
— Já está indo.
Licaão correu até a luz desaparecer.
Depois continuou, porque alguma parte dele ainda queria voltar.
O amanhecer encontrou-o numa elevação.
De lá enxergava a fumaça da casa.
Era menor.
O incêndio devia estar controlado.
Licaão parou enquanto a luz começava a crescer atrás das montanhas.
Durante anos, aquela hora significara o início de um dia conhecido.
Homens chegando para audiência.
Servos abrindo portas.
Theron trazendo notícias.
Mélas com tábuas debaixo do braço.
Dia reclamando que alguém colocara alguma coisa onde não devia.
Níctimo.
A lembrança veio devagar.
Níctimo teria trabalho naquela manhã.
Sempre tinha.
Uma terra disputada.
Um animal.
Uma quantidade de grão.
Alguma pergunta que o filho faria de um modo diferente.
Licaão imaginou o corredor.
Níctimo aproximando-se com uma tábua sob o braço.
Pai.
O som existiu perfeito na memória.
Licaão abriu a boca para responder.
Nenhuma palavra saiu.
O primeiro raio de sol tocou a encosta.
Lá embaixo, homens começavam a circular pelas ruínas.
Mesmo daquela distância, Licaão os via.
Pequenos.
Organizados.
A casa sobrevivera à noite.
Sem parte do teto.
Sem rei.
Sem herdeiro.
Ainda assim existia.
Licaão desceu alguns passos.
O vento mudou.
O cheiro humano chegou.
A fome abriu dentro dele.
Parou.
Mais abaixo, dois homens caminhavam pela estrada. Um conduzia um animal. O outro levava uma pequena bolsa.
Mensageiros, talvez.
Camponeses.
Dias antes, encontrando Licaão naquele caminho, abririam espaço.
Agora ele se escondeu atrás de pedras antes que pudessem vê-lo.
Esperou.
O corpo acompanhava os movimentos dos dois.
A fome também.
Quando desapareceram pela estrada, Licaão fechou os olhos.
Não podia voltar.
Não porque Zeus o proibira.
Nem porque Theron guardasse a casa ou Dia já não quisesse vê-lo.
Tudo isso era verdade.
Havia algo pior.
A casa estava cheia daquilo que seu corpo agora desejava consumir.
Homens.
Mulheres.
Servos.
Soldados.
Dia.
Se retornasse, levaria aquela fome consigo.
Permaneceu escondido até os viajantes desaparecerem completamente.
Depois subiu outra vez.
Do alto, olhou as ruínas pela última vez.
Tentou dizer:
Minha casa.
A garganta produziu um ruído grave.
Tentou de novo.
Meu reino.
Outro som animal.
Por fim buscou o próprio nome.
Licaão.
Nada.
O nome continuava existindo dentro dele. Completo. Intacto.
Mas já não havia boca capaz de entregá-lo ao mundo.
Lá embaixo, a casa começava outro dia sem o rei.
Licaão se virou para as montanhas.
Atrás dele ficavam o teto, a esposa, o filho, os homens, os registros, as estradas, o nome e o lugar que ocupara à mesa.
Adiante havia pedra, frio, fome e caminhos onde ninguém saberia o que se aproximava antes de enxergar os dentes.
Começou a descer pelo outro lado.
Antes de desaparecer entre as árvores, ouviu um homem na estrada comentar sobre a criatura vista perto das ruínas.
Licaão parou.
Esperou pelo próprio nome.
Ele não veio.
— Um lobo — disse o homem.
Licaão seguiu andando.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
— Evite spoilers do capítulo ou da história.
— Comentários ofensivos serão removidos.
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