Capítulo 3 — A Casa e o Altar
por Sonhado acordadoO carneiro ainda respirava quando Agelau mandou colocá-lo diante do altar.
Licaão percebeu isso antes de terminar de descer os três degraus do pátio. O animal jazia sobre uma esteira de junco, com as pernas recolhidas sob o corpo e a cabeça baixa. A lã, amarelada em torno do ventre, formava tufos grudados à pele. Cada respiração fazia as narinas se abrirem num esforço curto.
Ao lado dele estava o substituto prometido por Eutíades: branco, jovem, pernas firmes, olhos atentos.
Dois servos atravessavam o pátio carregando uma ânfora de vinho para a casa. Outro vinha do depósito com lenha nos braços. Perto do portão, três homens aguardavam com animais destinados ao sacrifício. Agelau permanecia junto ao altar, com cinza nos dedos e a tranquilidade de quem esperava aquela conversa.
Licaão parou diante dos carneiros.
— Por que o doente ainda está vivo?
— Porque não pode ser oferecido. E, antes que pergunte, o outro chegou saudável.
— Não mandei oferecer o primeiro. Mandei entregá-lo a você para decidir o destino dele.
— E foi o que fiz.
Licaão esperou que continuasse. Agelau, naturalmente, não continuou.
— Se decidiu mantê-lo longe do altar, devolva-o a Eutíades ou mande abatê-lo. O substituto está aqui. Essa parte da sentença terminou.
— Ainda há o juramento.
Licaão deixou os animais e se aproximou do altar. A pedra conservava as marcas dos sacrifícios anteriores: cinza acumulada nos cantos, gordura ressecada numa das bordas, uma mancha de vinho que o tempo não apagara por completo.
— Eutíades mentiu. Perdeu o carneiro, entregou outro e pôs os filhos para trabalhar no canal durante trinta dias. O que ainda falta?
— Ele não mentiu apenas para conseguir uma decisão favorável. Trouxe o animal diante deste altar, invocou Zeus e jurou que apresentava prova verdadeira.
— Eu estava presente.
— Então sabe por que não posso simplesmente receber outro carneiro e fingir que o juramento não aconteceu.
Licaão conhecia aquela espécie de problema. Uma disputa pela água podia ser resolvida dividindo horas, trabalho e prejuízo. Um sacerdote era capaz de pegar a mesma disputa e estendê-la até alcançar homens que sequer haviam tocado o canal.
— Diga o que pretende fazer.
— Eutíades volta aqui. Reconhece que jurou sobre uma falsidade, lava as mãos, oferece cevada e vinho e pede purificação para a própria casa. Só depois o carneiro será sacrificado.
— Faça isso.
Agelau permaneceu diante dele.
— Preciso que o senhor esteja presente no início.
Licaão olhou para o sacerdote durante alguns segundos.
— Finalmente chegamos ao que você queria dizer.
— Eu não escondi nada.
— Só esperou até o fim para mencionar a parte que me envolve.
Perto do portão, um dos homens que aguardavam com uma cabra começou a examinar a corda do animal com atenção repentina. Outro se ocupou do casco de um boi.
Licaão conhecia aquele tipo de surdez. Até o anoitecer, metade das casas próximas saberia que Agelau exigira alguma coisa do rei. No dia seguinte, a outra metade teria acrescentado detalhes.
— Explique por que minha presença é necessária.
— Porque Eutíades usou o juramento durante um julgamento conduzido sob sua autoridade. O senhor reconheceu aquela palavra como parte da prova apresentada.
— Reconheci porque ele tentou me enganar com ela.
— E eu fui chamado para ouvir o juramento diante de Zeus. A punição que o senhor impôs resolve o que Eutíades fez perante a casa. Eu ainda preciso resolver o que ele fez no altar.
— Minha casa não jurou coisa alguma.
— Não estou purificando sua casa.
— Então não precisa de mim.
Agelau passou o polegar pela cinza presa aos dedos.
— Preciso que reconheça diante das mesmas testemunhas que o juramento falso foi usado no julgamento. Depois disso, Eutíades continua sozinho.
— Você encontrou uma maneira bastante trabalhosa de me colocar numa cerimônia que pertence a ele.
— Estou tentando impedir que amanhã alguém invoque Zeus diante do rei, minta e conclua que basta pagar uma multa ou entregar outro animal.
— Os filhos dele trabalharão trinta dias.
— Para reparar a disputa da água.
— E o carneiro?
— Para substituir o animal impróprio.
— Então já custou bastante mentir.
— Custou diante do rei. O homem também jurou diante de Zeus.
Licaão aproximou-se mais do altar. Alguns grãos queimados permaneciam presos numa rachadura da pedra.
— Se toda mentira pronunciada com o nome de um deus acabar exigindo minha presença aqui, você terá de construir um assento para mim.
— Não estou pedindo isso.
— Está criando o precedente.
— Estou tratando deste juramento.
— Até aparecer o próximo.
Agelau permaneceu firme.
— Quando aparecer, trataremos dele.
Licaão quase riu.
— Claro. Sacerdotes nunca ficam sem trabalho.
Um dos homens junto ao portão disfarçou mal a reação. Agelau percebeu, mas não lhe deu atenção.
— O senhor pode zombar de mim. Só não trate o juramento como se a descoberta da mentira o apagasse.
— A mentira foi descoberta porque eu a investiguei.
— Isso não muda o nome sob o qual foi sustentada.
— Zeus não apareceu ontem para reclamar.
O pátio aquietou-se.
Nada no mundo mudou. A lenha continuou estalando num braseiro menor; uma cabra puxou a corda; alguém arrastou uma ânfora dentro da casa. Ainda assim, os homens próximos ficaram atentos.
Licaão percebeu e se irritou mais com eles do que com a própria frase.
Agelau respondeu sem elevar a voz:
— Não cabe a mim dizer quando um deus responde.
— Mas cabe a você falar bastante em nome dele.
— Cabe a mim guardar o rito.
— Dentro da minha casa.
Agelau apontou para a pedra entre os dois.
— Este altar não é uma mesa do seu salão.
Licaão ficou imóvel.
Agelau percebeu tarde demais onde colocara os pés. O altar de Zeus estava no pátio de Licaão, diante dos servos de Licaão, cercado por homens que haviam subido até ali para receber julgamento ou oferecer sacrifícios. A distinção talvez fosse importante para um sacerdote. Diante de testemunhas, tinha outro peso.
— Repita.
Agelau não repetiu. Também não pediu desculpas.
— Meu rei.
Mélas vinha da entrada da casa com um pedaço de pão na mão.
Licaão não desviou os olhos imediatamente.
— Há quanto tempo está ouvindo?
— O bastante para lamentar não ter tomado o desjejum em outro pátio.
Só então Licaão se voltou.
— Está comendo?
Mélas examinou o pão.
— Estava tentando. Posso devolvê-lo à cozinha, se isso melhorar a piedade de todos.
A resposta arrancou um ruído abafado de alguém perto do portão. Até Agelau perdeu parte da rigidez.
Licaão apontou para o sacerdote.
— Agelau quer que eu participe da purificação de Eutíades.
Mélas mastigou o que ainda tinha na boca antes de responder.
— Espero que Eutíades não tenha encontrado uma segunda maneira de nos ocupar desde ontem.
— O substituto chegou — explicou Agelau. — Está saudável. Antes do sacrifício, Eutíades precisa reconhecer o juramento falso e purificar a casa.
Mélas examinou os dois animais.
— Até aí não vejo motivo para o rei interromper a manhã.
— Quero que ele reconheça que o juramento foi apresentado durante o julgamento.
— Por quanto tempo?
Agelau voltou-se para ele.
— Não estou medindo um rito pelo tempo.
— Eu estou. Tenho cevada para contar, homens esperando resposta sobre um caminho e, pelo que vejo, Licaão já está a uma frase de transformar seu altar em cascalho. Portanto, seja prático.
Licaão lançou-lhe um olhar.
— Continue falando assim e talvez eu comece por você.
— É justamente por desejar evitar trabalho extra que estou perguntando.
Agelau respondeu:
— O rei precisa estar presente quando Eutíades reconhecer a falsidade. Depois pode partir.
— Isso poderia ter sido dito antes — comentou Mélas.
— Foi o que tentei explicar.
— Não. Você começou pelos deuses. É sempre mais demorado quando começa pelos deuses.
Agelau ignorou a provocação.
— Permitir que tudo termine apenas com a sentença de ontem ensina algo perigoso.
Licaão interrompeu:
— Escolha bem essa explicação.
— O senhor mesmo falou diante daqueles homens sobre o que uma decisão ensina a quem observa. Se alguém invoca Zeus para fortalecer uma mentira e depois tratamos tudo como parte de uma disputa por água, os próximos aprenderão que o juramento serve enquanto ninguém descobre a fraude.
Ouvir as próprias palavras devolvidas pelo sacerdote desagradou a Licaão, sobretudo porque Agelau as usava com precisão.
— E minha punição não ensinou nada?
— Ensinou que mentir ao rei tem consequência. Quero que também entendam que usar o nome de Zeus numa mentira traz outra obrigação.
— Duas punições pela mesma boca.
— Uma pessoa pode dever reparação a mais de uma casa pelo mesmo ato.
— E agora vai me explicar onde eu fico em relação a Zeus?
Mélas finalmente engoliu o último pedaço de pão.
— Talvez possamos evitar essa parte da conversa.
Licaão ignorou-o.
— Agelau, se há duas autoridades ofendidas, qual delas cobra primeiro?
O sacerdote demorou o suficiente para mostrar que conhecia a armadilha.
— Não vim disputar precedência com o senhor.
— Veio exigir minha presença.
— Porque sua ausência também dirá alguma coisa.
— Homens sem trabalho encontram significado até em porta fechada.
— Um rei não controla tudo que os outros entendem de seus gestos.
Cascos soaram no pátio exterior. Um soldado entrou pelo portão, seguido de dois homens carregando cestos. Atrás deles vinha uma mulher com uma cabra presa por uma corda.
Mais testemunhas.
Mélas tocou de leve o braço de Licaão.
— Preciso falar com o senhor em particular.
— Já está falando.
— Minha opinião sobre esta manhã piorou bastante. Prefiro não compartilhá-la com toda a Arcádia.
Licaão apontou para Agelau.
— Não sacrifique o carneiro ainda.
— Não faria isso antes de concluir o rito.
— Sua teimosia finalmente encontrou utilidade.
Licaão entrou na casa. Mélas veio atrás.
A pequena sala lateral ficava além de um corredor estreito. Tinha uma mesa baixa, duas cadeiras, uma arca e uma abertura na parede por onde a luz da manhã cortava o chão. Mélas ainda segurava o resto do pão.
Licaão apontou para ele.
— Coma ou largue isso.
Mélas terminou a última mordida e limpou os dedos.
— Agelau escolheu mal as palavras.
— “O altar não é sua mesa.”
— Principalmente essas.
— Posso mandar retirar o altar.
— Pode. Os homens obedeceriam antes do meio-dia.
Licaão esperou.
Mélas prosseguiu:
— À tarde, Agelau perguntaria onde deveria erguer outro. Amanhã, alguém repetiria que o rei arrancou o altar de Zeus porque um sacerdote o contrariou diante de três criadores de cabras. Antes do fim da semana, a história teria uma tempestade, dois presságios e talvez um morto.
— Não preciso de outro altar.
— Talvez não. As pessoas que vêm até ele discordariam.
— Elas acreditam em Zeus, não em Agelau.
— Para o problema desta manhã, separar os dois não nos ajuda muito.
Licaão foi até a abertura. Lá fora, o pátio continuava funcionando. Um servo levava água aos animais. Agelau permanecia junto à pedra e não conversava com ninguém.
Esperava.
— Você quer que eu fique ao lado de Eutíades enquanto ele lava as mãos por uma mentira que eu já descobri e puni.
— Não quero nada disso. Quero descobrir o mínimo que Agelau realmente precisa para terminar o assunto sem passar o próximo mês dizendo que o rei desprezou um juramento feito diante de Zeus.
— E depois espera que eu faça esse mínimo.
— Espero.
— Você me trouxe até esta sala para recomendar que eu ceda.
— Trouxe porque, se eu dissesse isso no pátio, o senhor talvez me mandasse carregar o carneiro.
Licaão virou-se para ele.
— E aqui não?
— Aqui pelo menos consigo explicar antes.
Mélas apoiou as mãos na mesa.
— Há diferença entre permitir que Agelau preserve o rito e permitir que ele decida onde o rei deve ficar. Descubra o que ele exige. Se quiser que o senhor acompanhe a lavagem, a cevada, o vinho, o sacrifício e as cinzas até esfriarem, então está tentando sair desta manhã maior do que entrou.
— Não vai acontecer.
— Concordamos. Mas, se ele só precisa que o senhor confirme diante das testemunhas que o juramento falso foi apresentado durante um julgamento, faça a confirmação e vá cuidar do resto da Arcádia.
— Ele contará como vitória.
— Talvez. Agelau também precisa continuar vivendo neste pátio amanhã. Deixe que volte para o altar com uma história que não obrigue nenhum dos dois a descobrir até onde o outro pretende ir.
Licaão observou-o.
— Está confortável demais com isso.
— Estou velho o bastante para gostar de disputas que terminam antes de homens armados precisarem participar.
— Ninguém falou em homens armados.
— Ainda.
Mélas caminhou até a abertura e espiou o pátio.
— Se o senhor simplesmente recusar, o carneiro fica vivo. Eutíades volta para casa dizendo que cumpriu a sentença do rei, mas o sacerdote recusou a oferta. Agelau terá de explicar o motivo a cada homem que vier ao altar. Depois de falar diante de tanta gente, também não poderá recuar sem perder autoridade. O senhor terá de decidir se o força a isso.
— Posso obrigá-lo.
— Sei.
Mélas deixou a frase descansar enquanto retirava uma migalha da mesa.
— Só não vejo grande proveito em vencer Agelau numa guerra começada por um carneiro doente.
Licaão voltou a olhar para o pátio.
— Acha que ele planejou isso?
— Não. Se tivesse planejado, teria escolhido palavras melhores.
— Concordo.
— O que, infelizmente, não torna a situação menos pública.
Licaão saiu da sala.
Agelau ainda estava junto ao altar. Havia mais gente no pátio agora, e entre os recém-chegados estava Níctimo, com poeira na barra da túnica e cansaço no rosto. Theron não o acompanhava.
O rapaz viu o pai.
— O canal está funcionando.
Licaão parou antes de chegar ao sacerdote.
— Conte.
— Retiramos a barragem. A margem cedeu durante o trabalho e tivemos de fechar a água para consertá-la, mas a comporta está pronta. Drímon ficou responsável por abrir e fechar.
— Eutíades cumpriu a parte dele?
— Ele e os filhos ficaram até o fim. Um dos rapazes cortou a mão, mas voltou depois de limpar.
— A margem atrasou a divisão da água?
Níctimo confirmou.
— Fechei a passagem enquanto consertávamos. Depois devolvi aos campos o tempo que perderam e atrasei as pastagens pela mesma quantidade. Eutíades reclamou, mas recebeu todas as horas dele.
Licaão estudou o filho.
— Theron decidiu isso?
— Mandou que eu fizesse sua ordem funcionar.
— Então foi você.
— Foi.
Uma satisfação simples atravessou Licaão.
— Fez bem. Se tivesse deixado a água correr com a margem aberta, hoje dividiríamos horas e amanhã reconstruiríamos o canal inteiro.
Níctimo pareceu aceitar o elogio sem a alegria que Licaão esperava.
— Aconteceu alguma outra coisa?
O rapaz lançou um olhar para o altar.
— Depois eu conto.
— Depois, então.
— Agelau está esperando há muito?
— Tempo suficiente para transformar um carneiro numa manhã inteira.
Níctimo sorriu de leve e se afastou.
Licaão acompanhou o filho até que ele se juntasse aos homens próximos da casa. Havia algo que ainda queria dizer; isso era evidente. Theron saberia se fosse grave.
O rei voltou ao sacerdote.
— Mélas conseguiu me convencer a perguntar de novo. Quanto da minha presença você realmente precisa?
Agelau percebeu a mudança.
— Eutíades declara diante do altar que apresentou uma falsidade sob o nome de Zeus. O senhor confirma que isso aconteceu durante julgamento em sua casa. Depois ele lava as mãos, oferece cevada e vinho e começa a purificação.
— E eu saio.
— Se desejar.
— Desejo.
— Então basta.
Licaão apontou para o carneiro saudável.
— Esse será oferecido?
— Sim.
— E o doente fica longe do altar.
— Já estava decidido.
— Ótimo. Mandaremos buscar Eutíades.
— Posso enviar—
— Não.
Agelau interrompeu a frase.
Licaão chamou um dos guardas.
— Vá às terras de Eutíades. Diga que o rei ordena que ele se apresente aqui antes do meio-dia para concluir a sentença de ontem.
O soldado partiu.
Licaão voltou-se para Agelau.
— Ele vem porque eu o convoquei. Vem concluir uma sentença dada nesta casa. Quando estiver diante do altar, você cuida da parte que lhe pertence.
Agelau considerou os termos.
— Isso é suficiente.
— Então não havia necessidade de transformar a manhã numa disputa.
— A disputa começou porque o senhor queria mandar embora o animal.
— E continuo querendo mandar embora o animal doente.
— Nesse ponto nunca discordamos.
Licaão decidiu que qualquer resposta prolongaria a conversa.
Eutíades chegou antes do meio-dia, sozinho.
Entrou no pátio e viu imediatamente os dois carneiros. O saudável continuava preso perto do altar; o outro permanecia sobre a esteira, ainda vivo, respirando com dificuldade.
Licaão esperava junto à entrada da casa. Mélas estava próximo. Níctimo permanecia alguns passos atrás, observando.
Eutíades parou diante do rei.
— Senhor. Disseram que eu precisava voltar.
— Para terminar o que começou ontem. O substituto que trouxe está saudável?
— Está. Escolhi um dos melhores que tinha.
— Agelau?
O sacerdote examinou o animal com atenção. Abriu-lhe a boca, verificou os olhos e as pernas, passou a mão pelo dorso e apalpou o ventre.
— Está adequado.
— Então acabemos com isso.
Agelau indicou o espaço diante do altar.
Eutíades aproximou-se. Licaão permaneceu junto aos degraus da casa.
O sacerdote esperou.
— Daqui eu escuto.
Agelau pareceu disposto a discutir a distância, mas abandonou a ideia.
— Estenda as mãos, Eutíades.
As unhas do homem ainda guardavam terra do trabalho no canal.
A jarra de água permanecia ao lado do altar, porém Agelau não a tocou.
— Ontem você trouxe um animal diante do rei e o apresentou como prova do prejuízo causado pela falta de água. Diga o estado daquele carneiro quando o trouxe.
Eutíades olhou para Licaão antes de responder.
— Estava doente.
— E você sabia quando a doença começara?
— Sabia que vinha de antes.
— Mesmo assim afirmou que a falta de água o havia deixado daquele jeito.
Eutíades passou a língua pelos lábios ressecados.
— Afirmei.
— E sustentou essa afirmação invocando Zeus como testemunha.
O homem levou algum tempo.
— Sim.
Agelau não o mandou repetir. Talvez tivesse aprendido alguma coisa naquela manhã.
— Diante de qual autoridade você apresentou essa prova?
O sacerdote voltou-se para Licaão.
O rei não lhe deu oportunidade de formular a resposta.
— Diante de mim.
Desceu um dos degraus, sem se aproximar do altar.
— Eutíades apresentou aquele carneiro durante um julgamento realizado nesta casa. Usou o juramento para fortalecer uma afirmação que sabia não poder provar. Descobri a falsidade, dei a sentença e ela está sendo cumprida. Seus filhos trabalham no canal, o animal foi substituído e a divisão da água permanece como determinei.
Agelau escutou até o fim.
Licaão indicou o altar.
— Agora conclua o que diz respeito ao juramento.
— Será feito.
Agelau pegou a jarra e derramou água sobre as mãos de Eutíades. A terra sob as unhas escorreu em filetes escuros.
Licaão virou-se para entrar na casa.
— Meu rei.
Ele parou.
— O reconhecimento terminou. Não precisa permanecer para a purificação.
Licaão olhou por cima do ombro.
— Foi exatamente o que combinamos.
Entrou.
Atrás dele, Agelau começou o restante do rito.
Licaão não diminuiu o passo para ouvir.
O cheiro chegou mais tarde.
Gordura queimada, madeira e carne.
Ele estava numa sala lateral com Mélas, conferindo as reservas de cevada da casa. Pequenas peças de madeira marcavam quantidades sobre a mesa; duas tábuas traziam registros das últimas retiradas. A fumaça entrou pela abertura na parede e se espalhou devagar.
Mélas percebeu quando Licaão ergueu a cabeça.
— Antes que pergunte, é o carneiro saudável.
— Sei reconhecer cheiro de sacrifício.
— Imaginei. Só estava poupando uma viagem ao pátio.
Licaão voltou às contas.
Durante algum tempo, ouviram apenas o som das peças de madeira tocando a mesa.
— Vai ficar aí esperando que eu pergunte? — disse Licaão.
— Eu estava aproveitando o raro momento em que não estamos discutindo com um sacerdote.
— Fale.
Mélas puxou uma das tábuas para perto.
— Queria saber se considera o assunto encerrado.
— Agelau recebeu a declaração?
— Recebeu.
— Eutíades lavou as mãos?
— Quando saí, estava oferecendo a cevada.
— Então está encerrado.
Mélas reorganizou duas peças da contagem.
— Melhor assim.
— Você parece satisfeito demais para um homem que passou a manhã me aconselhando a ceder.
— Estou satisfeito porque ninguém precisou descobrir o que aconteceria se Agelau se recusasse a sacrificar o animal.
Licaão largou a peça que segurava.
— Eu sei o que aconteceria.
— É precisamente por isso que prefiro não descobrir.
Licaão riu.
— Continue assim e ainda vou arranjar para você uma propriedade distante.
— Desde que tenha água e pouca religião, considerarei.
Licaão voltou às tábuas.
A fumaça continuava entrando pela abertura, fina o bastante para não incomodar os olhos, mas persistente.
— Ele usou minhas palavras contra mim.
Mélas demorou um instante.
— Sobre as decisões ensinarem alguma coisa aos homens?
— Exatamente.
— Usou bem.
Licaão ergueu os olhos.
— Às vezes você demonstra pouco apego ao emprego.
— É porque já sobrevivi tempo suficiente nele para conhecer seus limites.
— Ainda não conhece todos.
— Espero morrer antes de descobrir.
Licaão empurrou a tábua para o lado.
— Agelau acredita que preservou alguma coisa hoje.
— Preservou.
— Um rito.
— Para um sacerdote, isso costuma ocupar boa parte do mundo.
— Para mim, Eutíades mentiu, foi descoberto e recebeu uma sentença. O canal foi corrigido. Drímon perdeu parte da colheita, mas manteve água suficiente. O carneiro foi substituído. Os filhos estão trabalhando juntos. Níctimo voltou dizendo que a comporta funciona.
— Até aqui concordamos.
— Mesmo assim, perdi metade da manhã porque um homem que já foi punido precisava lavar as mãos diante de uma pedra.
Mélas passou um dedo pela borda da tábua.
— Se fosse apenas a água nas mãos, o senhor teria mandado Eutíades até a fonte e não teria voltado ao pátio.
Licaão não respondeu.
Mélas continuou:
— O senhor não fez aquilo por Agelau. Também não fez porque de repente passou a gostar do rito. Fez porque havia gente ouvindo. Amanhã haverá mais. Se tivesse recusado, cada homem teria contado uma versão diferente da recusa, e nenhuma delas estaria sob seu controle.
— Controle histórias demais e não sobra tempo para governar.
— Por isso escolhemos quais merecem atenção.
Licaão olhou para a fumaça que atravessava o feixe de luz.
Agelau podia falar de Zeus, purificação e juramentos até perder a voz. Mélas preferia legitimidade, precedentes e o que os homens repetiriam nos mercados. Licaão não precisava saber qual deles compreendia melhor os deuses. Precisava saber o que aconteceria com as pessoas que viviam sob sua autoridade.
— Da próxima vez, Agelau deverá tomar cuidado antes de decidir onde termina o altar.
Mélas recolheu uma das peças de contagem que havia caído perto da borda da mesa.
— Provavelmente.
Depois colocou-a de volta.
— Convém ao senhor pensar também onde termina a casa.
Licaão ficou olhando para ele.
Mélas puxou a tábua de cevada para o centro da mesa.
— Temos cento e quarenta e duas medidas registradas aqui. O depósito diz cento e trinta e oito. Antes que o senhor me expulse, eu gostaria de descobrir quem está errado.
Licaão ainda o encarou por um momento.
Então pegou novamente a peça de contagem.
Do lado de fora, as vozes do rito chegaram ao fim. Alguém acrescentou madeira ao fogo, e a fumaça engrossou antes de subir para além dos muros do pátio. O cheiro de gordura queimada permaneceu na sala enquanto Licaão e Mélas refaziam as contas da cevada.
Quando terminaram, o altar continuava no mesmo lugar. A casa também.
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