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Myrine soube que faltava cevada antes mesmo de erguer o pote.

Conhecia aquele recipiente havia anos: o peso do barro vazio, o esforço necessário quando estava cheio, a diferença quase imperceptível quando alguém tirava duas ou três medidas sem avisar. Naquela manhã, bastou empurrá-lo alguns dedos sobre a mesa.

Ainda assim, abriu a tampa.

Os grãos não alcançavam a marca escura na parede interna.

— Damon.

Nenhuma resposta.

Myrine deixou a tampa ao lado do pote.

— Damon!

Veio um arrastar de pedras atrás da casa. Thaleia, sentada junto à parede com um emaranhado de lã no colo, levantou a cabeça.

— Ele está lá fora.

— Eu percebi. O que está fazendo?

A menina começou a separar outro nó.

— Disse que estava construindo uma muralha.

— Com o quê?

— Pedras.

— Que pedras, Thaleia?

A demora da filha respondeu antes dela.

Myrine saiu.

Damon estava agachado junto à parede dos fundos. Aos sete anos, tinha o talento de parecer culpado antes mesmo de alguém descobrir do que se tratava. Diante dele erguia-se uma cidade de duas palmas de altura: pedras empilhadas, gravetos marcando uma entrada e dois fragmentos de cerâmica como torres.

O menino abriu os braços para mostrar a obra.

— É uma cidade.

— Estou vendo.

— Fiz uma muralha.

— Também estou vendo.

Myrine apontou para uma pedra achatada na base.

— De onde veio essa?

Damon examinou a construção como se nunca tivesse pensado no assunto.

— Do chão.

— O chão vai daqui até Esparta. Seja mais preciso.

Ele apontou para perto do depósito.

Myrine caminhou até lá. Alguns grãos esmagados estavam grudados na terra em torno de uma das pedras removidas.

— Você derrubou o pote?

O menino se interessou muito por uma das torres.

— Só um pouco.

— Quanto?

Damon mostrou dois dedos.

— Isso significa o quê?

— Pouco.

— Para quem não planta cevada, talvez.

Ele abaixou a cabeça.

Dentro da casa, havia mais grãos espalhados atrás do pote. Alguns tinham caído numa fresta junto à parede; outros estavam pisados e já não serviam para nada.

Thaleia continuava com a lã.

— Você viu isso acontecer?

— Vi. Ele disse que ia recolher depois.

Myrine apontou para o quintal.

— Depois de terminar a cidade?

Thaleia confirmou.

— Precisava fechar a muralha primeiro.

Myrine ajoelhou-se e começou a separar os grãos aproveitáveis da poeira.

— Naturalmente. O inimigo não podia esperar.

Damon apareceu na porta.

— Eu ajudo.

— Vai ajudar bastante.

Ele se ajoelhou ao lado dela. Durante alguns minutos, mãe e filho recolheram a cevada em silêncio enquanto a luz da manhã avançava pelo chão. A casa ainda guardava parte do frio da noite, embora o calor já começasse a entrar pela abertura da parede. Uma cabra reclamava em algum cercado próximo; mais longe, golpes regulares de madeira contra madeira marcavam o início do trabalho de outra família.

Damon colocou um grão na palma da mãe.

— Esse serve?

— Serve.

Pegou outro.

— E esse?

— Também.

Na terceira tentativa mostrou-lhe um pequeno seixo.

Myrine examinou a pedra.

— Se você conseguir fazer pão com isso, guardamos.

Damon aproximou o seixo do rosto.

— Parece cevada.

— Então mastigue.

Ele o largou imediatamente.

Thaleia riu.

Myrine teve vontade de acompanhá-la, mas já estava contando.

O pote grande. O menor. Farinha. Lentilhas. Um pouco de azeite. Queijo para alguns dias, desde que Damon deixasse de cortá-lo como se alimentasse uma companhia inteira de soldados.

Depois viria a colheita.

Ela parou de contar.

— Mãe?

Damon depositou outro punhado na mão dela.

— Está brava comigo?

— Estou fazendo contas.

— Pai fala que, quando você faz contas com essa cara, alguém perde alguma coisa.

Thaleia riu outra vez.

— Seu pai deveria aprender a guardar certas observações para ele mesmo.

— Você fala isso para ele — disse a menina.

— Porque continuo esperando que funcione.

Damon sorriu.

Myrine recolocou no pote os últimos grãos aproveitáveis.

A muralha podia permanecer de pé.

Quando Orestes voltou, pouco depois, ela já havia contado as provisões duas vezes.

Ele entrou com poeira até os tornozelos e sem tirar as sandálias. Myrine viu seu rosto e esqueceu imediatamente o punhado de cevada perdido atrás do pote.

— Eles vieram.

Thaleia entendeu que aquilo não era conversa para crianças antes de Damon.

— Quem veio?

Orestes apontou para a porta.

— Vá buscar água.

— O jarro está cheio.

— Então veja se a fonte continua no mesmo lugar.

A menina abriu a boca.

Myrine interveio:

— Leve Damon.

— Minha cidade — protestou ele.

— Sobrevive alguns minutos sem você.

— Eu sou o rei.

— Então deveria ter alguém para buscar água no seu lugar.

Damon pensou.

— Não tenho.

— Começou a entender o trabalho.

Thaleia agarrou-o pelo braço.

— Venha, rei.

Os dois saíram.

Orestes esperou até as vozes desaparecerem pelo caminho.

— Kleon veio com dois homens.

— Hoje?

— Esta manhã.

Myrine empurrou o pote para o fundo da mesa.

— Disseram que só tomariam a terra depois da colheita.

— A decisão disse que a faixa voltava para ele. Ninguém falou da colheita.

— Nós plantamos.

Orestes puxou um banco, mas continuou de pé.

— Eu sei.

— Limpamos aquela terra. Você refez a parede do lado sul.

— Eu sei disso tudo.

— Então a cevada é nossa.

O silêncio dele respondeu.

Myrine esperou.

— A terra pertence a Kleon — disse Orestes.

— Estou falando da cevada.

— Ele diz que o que cresce nela acompanha a terra.

Myrine soltou uma risada sem humor.

— Claro que diz. E os homens que trouxe?

— São da casa de Demas. Concordam com ele.

— E você explicou que plantamos antes da decisão?

— Expliquei.

— O que responderam?

Orestes sentou-se.

— Que sabiam. Também disseram que o rei reconheceu o direito da família de Demas sobre a faixa.

— Da família de Kleon.

— Myrine…

— Diga o nome dele. “Família de Demas” faz parecer que estamos perdendo nossa colheita para um morto.

Orestes esfregou a poeira de um dos tornozelos.

— Kleon tem direito à terra.

— Você veio para casa me convencer disso?

— Vim porque tentei convencê-lo a deixar a colheita conosco e ele recusou.

Aquilo acalmou a raiva o suficiente para que Myrine pudesse pensar.

Ela puxou outro banco.

— Conte desde o começo.

A faixa ficava ao sul da pequena elevação, onde o solo era mais escuro e conservava melhor a água. Myrine e Orestes cultivavam aquele terreno havia onze anos. Antes disso, pertencera ao pai de Demas — ou ao avô, conforme quem contasse a história. Uma morte, um casamento e dois homens que haviam deixado a região tinham embaralhado o uso da área até que Orestes começara a plantá-la sem oposição.

Kleon voltara anos depois e reclamara o direito da família.

A disputa chegara à casa de Licaão.

Myrine não pudera acompanhar Orestes porque Thaleia passara dois dias ardendo em febre. O marido voltara dizendo que o rei ouvira os dois lados, enviara homens para verificar os marcos e concluíra que onze anos de uso não apagavam o direito anterior. A faixa seria devolvida a Kleon.

Myrine odiara a decisão.

Ainda assim, conseguira entendê-la.

Na época, Orestes acreditava que ao menos colheriam o que já haviam semeado.

Agora descobriam que essa parte nunca fora decidida.

— Licaão disse que Kleon ficaria com a colheita?

— Não.

— Disse que nós ficaríamos?

— Também não.

— Então ninguém decidiu.

— Kleon decidiu esta manhã.

— E você deixou.

Orestes encarou-a.

— Ele trouxe dois homens.

— Isso torna a cevada dele?

— Torna pouco inteligente começar uma briga no campo.

Myrine ficou quieta.

Orestes apoiou os braços nos joelhos.

— Eu poderia impedir os três por algum tempo. Talvez. Depois um deles sairia machucado, ou eu sairia, e a próxima conversa seria com soldados do rei. Não queria transformar uma disputa de colheita em desobediência à sentença.

Ela olhou para as próprias mãos. Havia farinha sob uma unha.

— Quanto perdemos?

Orestes demorou.

Foi a demora que a assustou.

— Quanto?

— Talvez um terço do que esperávamos guardar.

Myrine levantou a cabeça.

— Talvez?

— A faixa baixa produziu melhor. Se eles colherem tudo de lá, pode ser mais.

Ela sabia disso.

O problema tomou forma dentro da casa: refeições menores, pão diluído, queijo guardado, uma estação seca demais, inverno chegando muito depois de as reservas começarem a cair. Fome ainda não existia. Existiam apenas números levando até ela.

Myrine foi até os potes e abriu o maior.

— Isso dura quanto?

— Algumas semanas.

— Quantas?

— Não sei exatamente.

— Eu sei.

Orestes deixou que ela contasse.

— Cortamos parte do pão da manhã. Misturamos mais lentilha quando houver. Damon para de cortar queijo como se tivesse vinte irmãos.

— Isso parece justo.

— Você também come menos.

— Eu trabalho o dia inteiro.

— Então faça a gentileza de trabalhar com menos fome.

Orestes riu.

Myrine voltou aos potes.

— Aison tem grão.

— Sempre tem algum.

— Mais do que admite.

— Qualquer homem com juízo guarda mais do que admite.

— É por isso que ainda tem para vender.

Ela percorreu a casa com os olhos.

Pouca coisa podia ser trocada sem criar outro problema. A cabra dava leite; vendê-la para comprar comida seria transformar uma reserva renovável em algumas semanas de grão. As duas mantas boas seriam necessárias no inverno. Ferramentas estavam fora de questão.

A pequena ânfora de azeite podia valer algo.

Havia também a lã.

Myrine olhou para Thaleia havia deixado o feixe.

— A lã de Damon.

— Não.

— Ainda não fiz a túnica.

— Você guardou para o inverno.

— E pretendo chegar ao inverno com ele alimentado.

Orestes levantou-se.

— Posso trabalhar para Aison.

— Você já trabalha.

— Faço algumas horas a mais.

— Quando?

— Antes do amanhecer.

— Depois passa o resto do dia no campo?

— Passo.

— Até cair no meio da terra.

— Não vou cair.

Myrine apontou para ele.

— Todo homem diz isso enquanto ainda está de pé.

Orestes massageou os olhos.

— Então qual é sua ideia?

— Vou negociar com Aison.

— Eu posso ir.

— Você acabou de voltar de uma negociação com Kleon sem cevada.

— Não fui comprar cevada.

— Ótimo. Está sem prática.

Ele riu.

Dessa vez Myrine acompanhou.

— Eu vou.

Orestes conhecia a esposa o bastante para não desperdiçar energia proibindo.

— Não aceite o primeiro preço.

— Eu me casei com você.

— O que isso quer dizer?

— Que já tive prática em aceitar negócios ruins.

Ele riu mais alto.

Thaleia e Damon voltaram carregando água suficiente para justificar a ausência.

Myrine não explicou a disputa inteira. Disse que a família teria de economizar comida durante algum tempo.

Damon olhou imediatamente para o pote.

— Por causa da minha cidade?

Myrine fechou os olhos por um momento.

— Não.

— Eu posso devolver.

— A cevada?

— A cidade.

Thaleia começou a rir.

— Não se devolve cidade.

— Se eu desmontar, devolvo as pedras.

Myrine ajoelhou-se diante dele.

— Você não perdeu nossa comida, Damon.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Então posso continuar a cidade?

— Pode. Só não use comida como material de construção.

O menino pareceu ofendido.

— Usei pedras.

— Continue usando pedras.

Ao se levantar, Myrine encontrou Orestes observando-a.

Nenhum dos dois comentou.

A casa de Aison ficava quase uma hora abaixo.

Myrine levou uma ânfora pequena de azeite. Não todo o que tinham, mas o suficiente para interessar a um homem que vendia grão. Enrolou a lã num tecido e prendeu o embrulho com uma faixa vermelha que guardara para outra coisa.

Não se permitiu pensar muito na outra coisa.

O caminho descia entre pequenas plantações e terrenos de pastagem. Àquela hora, o sol já fazia o calor subir das pedras e distorcer o ar sobre a estrada. Myrine cruzou com duas mulheres carregando cestos; trocaram cumprimentos, e uma perguntou por Thaleia.

— Melhor. A febre não voltou.

Não falaram da terra.

Myrine suspeitava que não seria necessário por muito tempo.

Encontrou Aison sentado sob uma cobertura lateral, separando grãos com a filha mais velha. Ele viu primeiro o embrulho de lã, depois a ânfora.

— Isso parece uma visita cara.

— Só se você decidir ser ladrão hoje.

Aison sorriu.

Era mais velho que Orestes, magro, de braços finos e mãos desproporcionalmente grandes.

— Entre.

— Aqui tem sombra. Serve.

A filha começou a se levantar, mas o pai indicou o cesto.

— Continue.

Myrine pousou o azeite no chão.

— Preciso de cevada.

— Hoje você é a quarta pessoa a me dizer isso.

— As outras trouxeram pagamento?

— Todas achavam que sim.

— Eu trouxe de verdade.

— Isso ainda vamos descobrir.

Myrine olhou para os cestos espalhados sob a cobertura.

— Quanto consegue vender?

Aison acompanhou o olhar.

— Menos do que está imaginando.

— Estou imaginando bastante.

— Então muito menos.

Myrine sentou-se sem convite.

— Quero um cesto.

Aison apontou para o maior.

— Daquele tamanho?

— Daquele.

— Com azeite e lã, não.

— Ainda nem examinou.

— Tenho olhos.

— Use as mãos também.

Ele abriu a ânfora, cheirou o conteúdo e derramou uma gota no dedo.

— É bom.

— Era da minha mãe.

— Isso não melhora o sabor.

— Também não piora.

Aison provou.

— Continua bom.

Myrine colocou a lã sobre a mesa.

A filha dele acompanhou o movimento. Aison percebeu.

— Quanto tem aí?

— Dá para uma túnica de criança.

Ele abriu o tecido e passou os dedos pela lã.

— Criança pequena.

— Damon não é tão pequeno.

— Para a mãe dele.

— Para a túnica também.

— É boa. Um pouco áspera.

— Você esperava lã de cabra criada por Afrodite?

A filha de Aison abafou um riso.

Aison começou:

— Meio cesto.

— Um inteiro.

— Meio.

— Três quartos.

— Meio, e você leva o azeite de volta.

Myrine recolheu o tecido.

— Então vou procurar alguém que precise mais do meu azeite do que eu preciso da cevada dele.

Começou a se levantar.

— Sente.

— Está quente. Não quero perder a manhã.

— Então pare de tentar fugir com meu grão.

Myrine permaneceu em pé.

Aison passou a mão pelos grãos do cesto.

— Ouvi falar da faixa de terra.

Ela não respondeu.

— Kleon foi hoje?

— Foi.

— Vai ficar com a colheita?

— É por isso que estou aqui.

Aison examinou novamente o azeite.

— Nesse caso, meio cesto não resolve seu problema.

— Finalmente chegou a uma conclusão útil.

— Também significa que você talvez precise comprar outra vez antes da próxima colheita.

— Talvez.

— E não terá outra lã igual para trazer.

Myrine entendeu a direção.

— Quanto falta para o cesto inteiro?

— Trabalho.

— Meu?

— Você sabe separar grão. Também precisamos refazer dois cestos, e minha irmã começa a secar figos em alguns dias.

— Quantos dias?

— Quatro.

— Dois.

— Quatro.

— Três.

Aison apontou para a estrada.

— E um dia de Orestes.

— Orestes não está dentro desse embrulho.

— A cevada também não.

— Três dias meus.

— Três seus, um dele, lã e azeite.

— Fico com metade do azeite.

— Todo.

— Metade.

— Todo.

Myrine olhou para a ânfora.

Depois para a lã que seria a túnica de Damon.

Depois para o cesto.

Lembrou-se do menino perguntando se podia devolver a cidade.

— Fique com o azeite. Quero o cesto cheio.

— Até onde?

— Até o ponto que você chamaria de cheio se fosse eu quem estivesse entregando.

A filha dele riu.

Aison apontou para ela.

— Você devia estar do meu lado.

— Ela sabe medir.

Myrine apontou para a borda.

— Até ali.

— Vai derramar na estrada.

— Então coloque um pouco a mais para compensar.

Aison soltou uma gargalhada.

— Três dias seus, um de Orestes, todo o azeite e a lã.

— Pelo cesto cheio.

— Pelo grão. O cesto fica comigo.

Myrine inclinou a cabeça.

— Eu tinha de tentar.

— Tentou.

Fecharam o acordo.

A filha começou a encher o cesto, medida após medida. Myrine observou cada uma cair. Quando Aison levantou a mão para que parasse, ainda havia dois dedos até a borda.

— Cabe mais.

— Já está pesado.

— Tenho braços.

Mais uma medida caiu.

— Agora chega.

Myrine testou o peso.

— Agora chega.

A faixa vermelha permaneceu sobre a mesa quando ela amarrou o tecido por cima do cesto.

Aison percebeu.

— Quer levar a faixa?

Myrine passou os dedos pelo tecido uma última vez.

Depois ajustou o peso contra o corpo.

— Fique.

— Venha depois de amanhã.

— Para começar o trabalho?

— Antes do sol.

Myrine fez uma careta.

— Você e os homens importantes sofrem da mesma doença.

— Qual?

— Gostam de mandar os outros acordar quando ainda está escuro.

Aison sorriu.

— Não sou importante.

— Então tem menos desculpa.

Myrine pôs o cesto no ombro e tomou o caminho de volta.

Perto da bifurcação, escolheu a subida que passava pela faixa de terra.

Não era o caminho mais curto.

Kleon estava no campo com os dois homens que o acompanhavam pela manhã. A cevada ondulava sob o vento, dourada em alguns pontos e ainda verde em outros.

Myrine parou junto ao marco de pedra.

Kleon apoiou a ferramenta no chão.

Era mais velho que Orestes alguns anos, largo de ombros, e Myrine o conhecia desde antes de ele deixar a região.

— Myrine.

— Kleon.

Ele reparou no cesto.

— Foi comprar grão?

— Não. Carrego pedras por esporte.

Um dos trabalhadores riu atrás dele.

Kleon ignorou.

— Orestes falou com você?

— Falou.

— Então sabe que não vim tomar nada além do que o rei decidiu.

— O rei decidiu sobre a terra.

Kleon apontou para a cevada.

— Isto cresce nela.

— As pedras também. Vai levar para casa?

O mesmo trabalhador tornou a baixar a cabeça.

— Não quero discutir com você.

— Está trabalhando no campo que plantei. Achei difícil evitar o assunto.

— Campo que pertence à minha família.

Myrine sentiu o peso da frase.

Meu campo.

Podia odiá-la, mas isso não a tornava falsa. A partir da decisão de Licaão, era de Kleon. Talvez sempre tivesse sido, dependendo de quais mortos fossem chamados para contar a história.

— Nós semeamos essa cevada.

— Eu sei.

— Limpamos o terreno.

— Também sei.

— Orestes refez a parede no ano passado.

— Eu estava aqui quando ela caiu antes de partir. Sei quem consertou.

— Então sabe quase tudo.

Kleon esperou.

— O que quer de mim?

Myrine olhou para a plantação.

Aquela era a única pergunta que importava naquele momento.

— Quando colher, deixe uma parte conosco.

Kleon negou.

— Não posso fazer isso.

— Pode. Não quer.

— Se eu entregar parte da colheita, alguém pode dizer depois que reconheci direito de vocês sobre ela.

— Eu plantei. Não preciso que reconheça com a boca.

— E eu preciso evitar outra disputa daqui a cinco anos.

— Daqui a cinco anos Damon já terá derrubado minha casa para aumentar a cidade dele. Estou falando deste inverno.

Kleon olhou para o cesto no ombro dela.

— Você conseguiu comprar comida.

— Consegui comprar um cesto. Paguei com lã, azeite e quatro dias de trabalho.

Ele começou a responder e parou.

Myrine percebeu.

— Termine.

— Ia dizer que pelo menos agora tem grão.

— E decidiu que seria melhor continuar com todos os dentes.

Kleon riu sem vontade.

— Não quero brigar com você.

— Nem eu. Dá trabalho demais.

O vento fez a cevada tocar as pernas dos dois.

— Meu irmão morreu acreditando que esta terra ainda pertencia à família — disse Kleon. — Quando voltei e vi outra casa colhendo nela, não podia simplesmente fingir que não existia.

— Orestes passou onze anos acreditando que era dele.

— Licaão ouviu os dois.

— Eu sei o que o rei decidiu. Não vim pedir a terra.

Kleon ficou em silêncio.

— Também não vou arrancar a cevada antes de você colher.

— Eu sei.

— Mas, quando chegar a época, olhe para esse campo antes de colocar tudo nos seus cestos. Lembre de quem abriu os sulcos e jogou as sementes.

Kleon olhou para as hastes.

— Vou lembrar.

Era pouco.

Não enchia pote, não alimentava Damon e não comprometia Kleon com medida alguma.

Era o que ele oferecia.

Myrine ajustou o cesto no ombro.

— Se deixar algum grão apodrecer no campo, volto para assombrá-lo enquanto ainda estou viva.

— E o que vai fazer?

— Até lá penso em alguma coisa.

Dessa vez Kleon sorriu de verdade.

Myrine desceu.

Damon foi o primeiro a vê-la chegando.

— Comida!

— Não grite como se nunca tivesse visto cevada.

— Mas tem muita!

Thaleia veio atrás dele. Orestes apareceu à porta e avaliou primeiro o cesto, depois as mãos vazias da esposa.

A ânfora não voltara.

A lã também não.

— Quanto custou?

Myrine depositou o cesto no chão.

— Três dias meus.

Orestes fechou os olhos.

— Myrine…

— E um seu.

Ele tornou a abri-los.

— Meu?

— Você não passou a manhã dizendo que queria trabalho extra?

— Queria escolher o trabalho.

— Pronto. Poupei essa dificuldade.

Thaleia riu.

Orestes apontou para a filha.

— Isso não é engraçado.

— É um pouco.

Damon levantou a mão.

— Eu acho também.

— Você nem sabe do que estamos falando.

— Posso ficar do lado delas?

Myrine abriu o tecido que cobria o cesto.

— Pode.

Orestes apontou para o filho.

— Traidor.

Damon pareceu satisfeito com a promoção.

Thaleia se aproximou da cevada.

— É bastante.

— Para agora, é.

— Vai durar?

Myrine encarou a filha.

Podia dizer que sim e encerrar a conversa. Thaleia tinha idade suficiente para perceber quando a casa mudava seus hábitos; em pouco tempo notaria qualquer redução nas porções.

— Vai ajudar bastante. Depois vemos quanto ainda precisamos.

A menina aceitou.

Myrine começou a transferir os grãos para o pote. O som da cevada batendo no barro encheu a casa.

Damon acompanhava cada punhado.

— Posso ajudar?

— Depois da cidade, você está proibido de transportar cevada até nova ordem.

Orestes riu.

— Finalmente uma sentença real.

— Algumas leis precisam nascer de desastre.

Damon fez uma careta.

O pote principal ficou cheio. Ainda restou cevada suficiente para cobrir parte do segundo.

Naquela noite, Myrine preparou a papa um pouco mais grossa.

Damon percebeu na primeira colherada.

— Hoje tem mais.

— Tem.

— Por quê?

Orestes olhou para a esposa.

Myrine continuou comendo.

— Porque sua mãe negociou.

Damon pensou por alguns segundos.

— Você ganhou?

Myrine observou as quatro tigelas sobre a mesa.

Pensou na lã que não voltaria, na ânfora da mãe deixada na casa de Aison, nos três dias de trabalho que devia e no dia que acabara de vender em nome do marido.

— Coma antes que esfrie.

— Isso quer dizer que ganhou?

— Quer dizer que a comida está na sua frente.

Damon decidiu que era resposta suficiente.

As quatro tigelas terminaram vazias.

Depois que os filhos dormiram, Myrine lavou a louça e ficou algum tempo junto à porta. A noite esfriara. No quintal, a cidade de Damon permanecia intacta: muralha de pedras, dois gravetos formando um portão e um fragmento de cerâmica no centro.

Ela se agachou.

Entre duas pedras encontrou um único grão de cevada.

Levou-o para dentro e abriu o pote.

Orestes preparava o lugar onde dormiriam.

— Um grão?

— Um.

— Vai salvar o inverno.

Myrine colocou-o junto aos outros.

— Estou procurando os irmãos.

Orestes sorriu.

Ela fechou o pote.

Licaão provavelmente nunca saberia da faixa vermelha deixada sobre a mesa de Aison. Também não saberia que Orestes passaria um dia trabalhando para pagar cevada comprada depois de uma sentença sobre terra. Não havia motivo para saber.

O rei recebera dois homens, ouvira a história dos marcos, do uso e das famílias mortas, mandara verificar e decidira.

Alguém teria de sair perdendo.

Desta vez, haviam sido eles.

Myrine passou os dedos pela marca que a borda do cesto deixara em seu ombro. Pelo menos o pote estava cheio outra vez. O preço aparecia em outros lugares: na lã de Damon, no azeite da mãe, nos quatro dias prometidos e na plantação que agora balançava em terra de Kleon.

Na manhã seguinte, Orestes trabalharia para outro homem. Dois dias depois, seria a vez dela começar na casa de Aison. Quando chegasse a colheita, veriam o que Kleon faria.

Depois cuidariam do que viesse em seguida.

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