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Níctimo encontrou Dia antes que ela chegasse aos próprios aposentos.

Ela ouviu os passos no corredor e soube que era o filho antes de se virar. Desde pequeno, Níctimo tinha dois modos de atravessar a casa: depressa quando alguma coisa lhe ocupava a cabeça e devagar quando alguém acabara de lhe dar uma tarefa.

Naquela tarde, vinha depressa.

Dia parou.

— Sua avó dizia que homem correndo dentro de casa ou traz notícia ruim ou roubou comida.

Níctimo diminuiu o passo.

— E se eu disser que não fiz nenhuma das duas coisas?

— Vou olhar suas mãos antes de acreditar.

Ele baixou os olhos para elas por reflexo.

Atrás dele, entre as colunas, ainda era possível ver parte do pátio. A faixa deixada por Agelau permanecia sobre o banco. A cesta de figos desaparecera, e um servo varria perto da entrada da sala grande com cuidado exagerado para não chegar perto do tecido.

Dia acompanhou o olhar do filho.

— Seu pai mandou deixá-la?

— Não sei se mandou. Ninguém mexeu.

— Eu também não mexeria.

Ela estivera na galeria apenas na parte final da discussão, mas ouvira o bastante. Vira Agelau aceitar conduzir a oferenda depois de Licaão transformar sua possível recusa numa escolha que o sacerdote não podia fazer sem custo. Também vira Níctimo parado junto à coluna, assistindo aos dois.

— Estava me procurando?

— Estava.

— Então venha.

Dia seguiu pelo corredor sem perguntar por quê.

Passaram por duas servas carregando tecidos dobrados. Ambas cumprimentaram Dia e Níctimo. A segunda desviou os olhos para o pátio assim que pensou que ninguém notava.

A casa já começava a absorver o ocorrido.

Era sempre assim. Uma discussão diante de seis pessoas pertencia a vinte antes da refeição seguinte e, no dia seguinte, metade dos que a contavam jurava ter estado presente.

Dia entrou nos aposentos e deixou a porta aberta.

— Sente-se.

Níctimo permaneceu de pé.

— Não quero.

— Então fique cansado em pé.

Dia retirou um bracelete e o colocou sobre uma pequena arca. Fez o mesmo com o outro.

Níctimo caminhou até a abertura voltada para o pátio menor.

— Mãe.

— Estou ouvindo.

— Quanto você ouviu?

— Não tudo. O suficiente para saber que Agelau saiu andando sozinho.

Níctimo soltou uma risada curta.

— Mélas deve considerar isso uma vitória.

— Mélas considera qualquer dia em que ninguém precise limpar sangue uma administração competente.

O filho virou-se para ela.

— Isso foi quase uma piada.

— Se contar para alguém, nego.

A boca de Níctimo se moveu num sorriso.

Dia deixou que durasse.

— Comeu?

— Comi.

— O quê?

— Pão.

— Quando?

Níctimo tentou lembrar.

— Antes.

— Antes quando?

— Não sei. Antes.

— Então não comeu.

— Pão é comida.

— Para um homem viajando, talvez. Para alguém que mora numa casa cheia de queijo, figos e cabras, é preguiça.

Dia chamou uma serva e pediu pão, queijo, figos e água.

Níctimo se entregou e sentou.

— Não estou com fome.

— Aos doze anos dizia a mesma coisa enquanto roubava comida do prato de todo mundo.

— Eu não tenho doze.

— Felizmente. Era cansativo.

A comida chegou pouco depois.

Níctimo estendeu a mão para um figo antes que a serva terminasse de arrumar a travessa.

Dia bateu nos dedos dele.

— Espere.

— Você mandou trazer para mim.

— Para nós.

— Então metade é minha.

— Você vai herdar a Arcádia. Não tudo que alcançar com a mão.

Níctimo devolveu o figo.

A serva mordeu a parte interna da boca para não rir.

Dia viu.

Níctimo também.

— Pode ir.

A moça saiu.

Níctimo esperou os passos desaparecerem e pegou exatamente o mesmo figo.

— Agora?

— Agora posso fingir que não vi.

Ele o abriu com os dedos.

— Você fazia isso quando eu era pequeno.

— Fazia o quê?

— Mandava os servos embora antes de deixar eu fazer alguma coisa que tinha acabado de proibir.

— Nunca fiz.

Níctimo mastigou.

— Claro.

Dia cortou um pedaço de queijo.

— Havia coisas que eu preferia permitir sem testemunhas.

— É a mesma coisa.

— Não é.

— Parece bastante.

— Essa é uma das razões pelas quais você ainda não governa.

Ele riu.

O som relaxou alguma coisa nela que não percebera manter tensa desde o pátio.

Níctimo estendeu a mão para o pão.

Dia reparou na manga.

— Venha aqui.

— Por quê?

— Venha.

— Estou comendo.

— Traga o pão, então.

Ele se aproximou, desconfiado.

Dia segurou o braço dele e encontrou um rasgo pequeno perto do cotovelo.

— De novo.

Níctimo tentou olhar.

— Nem tinha percebido.

— Eu percebi.

— É pequeno.

— Também era pequeno da última vez.

— Não é a mesma túnica.

Dia ergueu os olhos.

— Isso torna a situação pior, não melhor.

Níctimo tentou puxar o braço.

Dia não permitiu.

— Como rasgou?

— Não sei.

— Níctimo.

— Deve ter sido no treino.

— “Deve”?

— Theron não para um exercício porque minha manga se ofendeu.

— Theron também não paga o tecido.

— Eu também não.

Dia soltou o braço.

— Pelo menos sabe disso.

Foi buscar linha e agulha.

— Tire a túnica.

Níctimo olhou para ela.

— Agora?

— Não. No inverno.

Ele olhou para a porta aberta.

— Mãe.

— Eu vi você nu antes de aprender a andar.

— Esse argumento venceu a validade há muitos anos.

— Para você.

— Feche a porta.

Dia riu e foi fechá-la.

Quando voltou, Níctimo já puxava a túnica pela cabeça. Havia um arranhão perto do ombro.

Dia apontou.

— Isso também foi treino?

Ele tentou enxergar a própria pele.

— O quê?

Dia tocou perto da marca.

Níctimo se afastou.

— Não mexa.

— Então não foi treino.

— Foi um galho.

— Um galho no pátio?

Níctimo percebeu tarde demais.

— Isso foi ontem.

— Onde?

Ele voltou a sentar, usando apenas a peça de linho de baixo.

— Fui com dois homens olhar uma cerca acima dos currais.

— Por quê?

— Uma cabra escapou.

Dia ficou parada com a agulha na mão.

— Você foi procurar uma cabra.

— Fui ver por onde ela saiu.

— Encontrou?

— A cerca, sim.

— A cabra.

Níctimo pegou outro figo.

— Também.

— Onde?

Ele tentou manter a seriedade.

Falhou.

— Numa oliveira.

Dia parou.

— Numa oliveira?

— Não estava tão alto.

— Cabra nenhuma precisa estar muito alto numa oliveira para já estar no lugar errado.

— Descobrimos isso.

— Quem subiu?

Níctimo comeu metade do figo.

Dia esperou.

— Eu.

— Naturalmente.

— Um dos homens era velho.

— E o outro?

— Estava ocupado rindo.

Dia ficou olhando para ele.

— Então o herdeiro da Arcádia subiu numa oliveira atrás de uma cabra enquanto um trabalhador ria.

— Ele parou quando eu desci.

— Porque lembrou quem você era?

— Porque mandei que carregasse a cabra de volta.

Dia começou a rir.

Níctimo também.

— Isso foi indigno.

— De mim?

— Da cabra.

— Ela mordeu o homem no caminho.

Dia teve de pousar a túnica. A agulha tremia na mão enquanto ria.

Por alguns instantes não existiram sacerdote, grão reservado, oferenda ou céu silencioso. Havia apenas o filho sentado diante dela, descrevendo a expressão de um homem que tentava manter a dignidade enquanto carregava uma cabra irritada.

Níctimo imitou o rosto.

Dia mandou parar.

Ele piorou a imitação.

— Se continuar se mexendo, rasga outra.

— Esta já está rasgada.

— Posso deixar como está.

Níctimo finalmente se aquietou.

Dia começou a costurar.

A linha atravessava o tecido num movimento conhecido. Havia mulheres na casa que fariam aquilo mais depressa, mas durante anos ela própria remendara parte das roupas do filho. Quando criança, Níctimo parecia incapaz de usar uma túnica durante mais de uma semana sem encontrar pedra, espinho ou cerca suficientemente agressivos para estragá-la.

— Lembra da azul?

Ele gemeu.

— Não.

— Lembra.

— Gostaria de não lembrar.

— Chorou porque eu disse que o rasgo não tinha conserto.

— Eu tinha sete anos.

— Oito.

— Você sempre acrescenta um ano às histórias humilhantes.

— Tentou esconder o buraco com barro.

— Eu estava improvisando.

— Barro claro num tecido azul.

— Eu tinha sete.

— Agora voltou para sete?

— Para essa história, sim.

Dia terminou o ponto e mordeu a linha.

Entregou a túnica.

Níctimo vestiu e puxou a manga.

— Está apertando.

— Está exatamente como antes.

— Puxa aqui.

— Você cresceu.

— Desde ontem?

— Às vezes parece.

Ele ajeitou o tecido.

Dia o observou.

O menino de oito anos não estava mais ali. Ainda assim, sobreviviam coisas reconhecíveis: a inclinação da cabeça quando examinava algo, a impaciência com roupas, a incapacidade quase cômica de esconder que alguma coisa o preocupava.

Níctimo percebeu.

— O quê?

— Nada.

— Nunca significa nada quando você diz assim.

— Significa que não pretendo explicar.

Ele pegou água.

O silêncio entre os dois permaneceu confortável enquanto comiam.

Foi Níctimo quem o rompeu.

— Você acha que Agelau estava certo?

Dia pousou o pão.

— Em que parte?

— Sobre o grão.

— Dois cestos foram entregues a famílias que precisavam.

— Sei.

— Eu não mandaria buscar de volta.

— Nem eu.

— Então não tenho dificuldade com esses dois.

Níctimo passou o polegar pela borda da taça.

— E o terceiro?

Dia abriu um figo.

— O terceiro não alimentou ninguém.

— Foi exatamente o que falei para meu pai.

Ela já imaginava que os dois haviam conversado. Não sabia o conteúdo.

— E ele respondeu o quê?

— Que queria descobrir o que aconteceria.

Dia levantou os olhos.

— Com essas palavras?

— Sim.

O figo permaneceu sobre o prato.

Agora ela compreendia melhor a expressão de Níctimo no pátio.

— E o que você disse?

— Perguntei por quê.

— Ele explicou?

Níctimo apoiou o cotovelo na mesa.

— Disse que queria saber se havia alguma coisa além da proibição. Agelau dizia para não tocar, então ele tocou.

Dia não respondeu.

— Não desperdiçou o grão — acrescentou Níctimo. — Só abriu.

A defesa saiu depressa demais.

— Eu sei.

— E hoje poderia ter mandado prender Agelau.

— Poderia.

— Não fez.

— Eu estava lá.

— Agelau foi quem escolheu falar diante de todos.

— Também vi.

Níctimo fez uma careta.

— Está fazendo isso.

— O quê?

— Concordando comigo sem dizer o que pensa.

Dia pegou outro pedaço de queijo.

— Aprendi com seu pai.

Ele riu, mas por pouco tempo.

— Pai não estava errado em tudo.

— Seu pai quase nunca está errado em tudo.

Níctimo ergueu o rosto.

— Isso parece insulto.

— É uma das razões pelas quais governa bem.

— Estranha forma de elogiar.

— Estou casada com ele há tempo suficiente para não desperdiçar elogios fáceis.

Níctimo voltou à taça.

— Agelau também não podia exigir que tirassem comida das famílias.

— Não.

— E ainda pode fazer a oferenda.

— Pelo que ouvi, sim.

— Então meu pai estava certo nisso.

— Estava.

Níctimo ficou algum tempo quieto.

— Só acho que ele não precisava perguntar qual vinha depois.

Dia parou.

— Depois de quê?

— Do próximo limite.

Não havia humor agora.

— Primeiro Leonte chamou Zeus. Depois ele mudou o vinho. Depois o cesto. Hoje, Agelau.

Dia deixou o filho continuar.

— Talvez acabe aí.

Ele ofereceu a possibilidade sem convicção.

Dia estendeu a mão e ajeitou a dobra da manga recém-costurada.

— Talvez.

Níctimo olhou para os dedos dela.

— Não me trate como criança.

— Estou examinando meu ponto.

— Mentira.

— Está malfeito?

Ele conferiu a costura.

— Não.

— Então permita que sua mãe admire um trabalho competente.

Níctimo sorriu.

O sorriso não durou muito.


Mais tarde, Dia encontrou Licaão governando.

Isso a inquietou mais do que teria admitido.

Havia três homens diante dele quando ela entrou discretamente na sala grande. Um proprietário das terras ao sul reclamava que rebanhos atravessavam seus campos. Dois pastores sustentavam que o caminho era antigo e que o proprietário estreitara a passagem ao construir uma cerca nova.

Licaão ouviu os três.

Perguntou quando a cerca fora erguida, quantos animais tinham passado naquele ano, quem conhecia a largura anterior do caminho e se havia registro de reclamações antigas. Mandou chamar um homem que conhecia a região. Lembrou-se de uma disputa semelhante ocorrida perto de Mantineia dois anos antes e pediu a Mélas que recuperasse a solução adotada naquela ocasião.

Dia ficou junto à parede.

Nada nele sugeria descontrole.

Quando um dos pastores tentou falar por cima do proprietário, Licaão mandou que esperasse. Quando o proprietário afirmou ter perdido um número impossível de animais por causa das passagens, Licaão obrigou-o a refazer a conta diante de todos.

Ao final, manteve o caminho aberto, mas determinou que os pastores respondessem pelos danos causados fora da passagem reconhecida.

Os três saíram sem satisfação.

Dia conhecia o marido o bastante para saber que ele consideraria isso aceitável.

Licaão tomou água.

Só então percebeu sua presença.

— Veio reclamar da estrada também?

— Tenho poucas cabras.

— Níctimo parece estar trabalhando para aumentar o número.

Dia ergueu as sobrancelhas.

— Já chegou até você?

— Um homem me informou que viu meu herdeiro descendo de uma oliveira atrás de uma cabra.

— Contou que estava rindo?

— Esqueceu essa parte.

Dia se aproximou.

— Níctimo não esqueceu.

Licaão riu.

Por um instante, foi fácil enxergá-lo como sempre.

Então Theron entrou e conversou com Mélas sobre homens que partiriam na manhã seguinte. Licaão ouviu parte da conversa, fez duas perguntas sobre comida para a viagem e corrigiu o número de animais de carga.

Dia observou.

Aquilo tudo vinha de um homem lúcido.

Licaão ainda conseguia guardar cinco problemas diferentes na cabeça e perceber quando alguém tentava esconder o sexto. Não havia confusão, fúria ou impulso cego no que vinha fazendo nos últimos dias.

Talvez justamente por isso ela estivesse preocupada.

Esperou a sala esvaziar.

Mélas foi o último a sair. Ao passar por Dia, demorou os olhos nela um pouco mais que o necessário, mas não disse nada.

Quando ficaram sozinhos, Licaão perguntou:

— Ficou esperando toda a audiência para falar comigo?

— Você estava trabalhando.

— Isso geralmente significa que não vou gostar do assunto.

— Nem sempre.

— Quase sempre.

Dia aproximou-se.

O fecho do manto dele estava torto.

Ela o corrigiu.

Licaão permitiu.

— Melhor?

— Um pouco.

— Então comecei bem.

Dia manteve os dedos no tecido por mais um instante.

— Não quero Níctimo no meio disso.

O pouco humor que ainda havia no rosto dele desapareceu.

— No meio de quê?

— Não faça isso comigo.

— Estou perguntando.

— Sabe exatamente.

Licaão se afastou meio passo.

— Níctimo estava no pátio. Não fui buscá-lo para assistir.

— Estava na escada porque tinha acabado de conversar com você.

Licaão estudou-a.

— Ele contou?

— Parte.

— Qual?

— A importante.

— Isso não me ajuda.

— O terceiro cesto.

Licaão foi até a mesa e começou a reunir duas tábuas que alguém deixara abertas.

— Ele foi procurar você.

— Sou a mãe dele.

— Também sou pai.

— É por isso que vim conversar.

Licaão colocou uma tábua sobre a outra.

— Agelau escolheu fazer aquilo diante de Níctimo. Diante de todos.

— Não estou defendendo Agelau.

— Parece.

— Então não está ouvindo direito.

Dia esperou até que ele parasse de mexer nas tábuas.

— Os dois cestos deviam ter sido distribuídos?

— Sim.

— Concordo. Agelau deveria mandar buscá-los de volta?

— Não.

— Concordo outra vez.

Licaão apoiou as mãos na mesa.

— Está construindo alguma coisa?

— Estou eliminando o que não é problema.

— Continue.

— Deveria ter prendido Agelau?

— Mélas acha que não.

— Perguntei o que você acha.

— Seria inútil e pioraria a disputa.

— Concordo.

Licaão ficou esperando.

— Então onde está o problema?

— No terceiro cesto.

— Nada aconteceu com aquele cesto.

— Eu sei.

— O grão ainda serve.

— Também sei.

— Agelau continuará sacerdote.

— Sei.

— Então qual prejuízo está procurando?

Dia percebeu como ele pensava.

Cada objeto separado. Cada consequência mensurável.

Falou devagar:

— Leonte chamou por Zeus.

Licaão não respondeu.

— Você mandou que ele chamasse outra vez.

— Mandei.

— E ficou esperando.

— Esperei.

— Na oferenda, reduziu o vinho e tornou a esperar.

— Por alguns instantes.

— Depois abriu o cesto.

Licaão saiu de trás da mesa.

— Aonde quer chegar?

— Ainda não cheguei. O cesto não é o fim.

— Para mim, essa conversa está fazendo bastante esforço para transformar um cesto em alguma coisa maior.

— Porque você não abriu por causa da cevada.

Ele ficou quieto.

— Quando Agelau disse que não podia fazer aquilo, não bastou decidir que ele estava errado. Você quis demonstrar que ele não conseguia impedir.

— Ele me confrontou no meio da casa.

— E você venceu.

— Venci.

A resposta veio simples.

Dia encarou-o.

— É isso que me preocupa.

Licaão riu sem humor.

— Agora uma vitória virou defeito?

— Pode virar, se começar a precisar da próxima.

Ele parou.

Dia sabia que havia chegado ao ponto onde recuar seria mais fácil.

Não recuou.

— Não estou perguntando se Zeus vai castigá-lo.

— Ótimo.

— Nem se Agelau está certo sobre tudo.

— Melhor.

— Estou perguntando quantas coisas desta casa você pretende tocar apenas para descobrir onde alguém consegue fazê-lo parar.

Licaão ficou imóvel.

— Ninguém precisa me fazer parar.

— Você sempre soube disso.

A frase saiu mais baixa do que Dia planejara.

Demorou algum tempo até ele responder.

— Ainda sei.

— Então por que está testando?

Licaão foi até a abertura voltada para o pátio.

Dali, a faixa deixada por Agelau ainda era visível sobre o banco.

— Agelau passou anos me dizendo onde termina minha autoridade. Quando preciso de homens, há dia sagrado. Quando preciso de grão, há oferenda. Quando alguma coisa precisa ser resolvida depressa, sempre existe costume, rito ou obrigação mais antiga que eu.

— E muitas vezes você ignorou.

— Muitas vezes cedi.

— Porque julgou mais conveniente.

— Porque governar também é decidir quais brigas custam mais do que valem.

— Ainda é.

Licaão se virou.

— Foi exatamente o que fiz hoje.

Dia não podia negar.

— Foi.

Ele abriu as mãos.

— Então o que quer?

— Níctimo fora dessa disputa.

A resposta o atingiu de outro modo.

— Ele é o herdeiro.

— Sei perfeitamente quem é meu filho.

— Então precisa assistir.

— Governar, sim.

— Isso é governo.

— Parte dele.

— Tudo dentro desta casa acaba sendo parte.

Dia se aproximou.

— Não transforme Níctimo em testemunha de cada pergunta que resolver fazer aos deuses.

O silêncio veio imediato.

Licaão andou na direção dela.

— Não estou usando meu filho para perguntar nada a Zeus.

— Ainda não.

Ele parou.

Dia percebeu que talvez tivesse escolhido a pior formulação possível.

Ou a única que serviria.

— Cuidado.

A palavra não soou como ameaça. Isso a tornou mais pesada. O marido estava diante dela, mas o rei existia dentro daquele homem e nunca desaparecia completamente.

Dia manteve a voz baixa.

— É justamente o que estou tentando fazer.

Licaão permaneceu olhando para ela.

— Níctimo precisa aprender que Agelau não governa esta casa.

— Já sabe.

— Precisa aprender que um rei não pode recuar toda vez que alguém usa os deuses para assustá-lo.

— Também sabe.

— Então do que você está tentando protegê-lo?

Dia pensou no filho sentado diante da mesa, defendendo o pai enquanto o medo permanecia na pergunta seguinte.

Pensou no modo como ele dissera: talvez acabe aí.

— De ter que escolher.

Licaão não entendeu de imediato.

— Escolher entre o quê?

— Entre acreditar em você e acreditar no que está vendo.

Ele recuou como se ela tivesse sido injusta.

— Acha que Níctimo não acredita em mim?

— Acho que quer acreditar.

— Isso é outra coisa.

— É.

Licaão ficou calado.

Dia sentiu vontade de tocá-lo.

Ainda não.

— Ele me procurou depois do pátio.

— Eu vi.

— Não veio acusá-lo.

Licaão esperou.

— Defendeu você. Disse que as famílias precisavam ficar com o grão. Disse que Agelau escolheu tornar a disputa pública. Disse que você poderia ter mandado prendê-lo e não fez.

Licaão voltou a olhar para ela.

— Então entendeu.

— Uma parte.

— Qual não?

— A mesma que eu não entendo.

Dia deixou alguns segundos passarem.

— Qual vai ser o próximo limite?

Licaão tornou a olhar para o pátio.

Quando falou, a irritação diminuíra.

— O que quer que eu faça?

Agora era uma pergunta real.

— Não peça que Níctimo escolha entre você e Agelau.

— Não faria isso.

— Nem entre você e o rito.

— Dia…

— E não use a presença dele como se fosse aprovação.

— Nunca fiz.

— Então não terá dificuldade em continuar não fazendo.

Licaão percebeu a estrutura da frase.

— Está negociando comigo?

— Sou sua mulher há tempo suficiente para saber que pedir raramente é o método mais eficiente.

A boca dele se moveu.

— Isso explica muita coisa.

Dia finalmente tocou-lhe o braço.

— Deixe que ele aprenda a governar com você. Não o obrigue a aprender a desafiá-lo só para continuar pensando por conta própria.

Licaão olhou para a mão dela.

— Está presumindo muita coisa.

— Talvez.

— Níctimo não é criança.

— Sei.

— Vai herdar homens que mentem, sacerdotes que exigem, famílias que disputam terra e vizinhos que testam fronteiras. Não posso poupá-lo de escolhas difíceis.

— Não pedi isso.

— Parece.

— Pedi que não crie uma escolha desnecessária dentro da própria casa.

Licaão ficou alguns instantes sem responder.

Então pousou a mão sobre a dela.

Dia conhecia aquele gesto. Conhecia a aspereza dos dedos dele, o peso tranquilo da palma, a forma como às vezes um toque substituía uma frase que nenhum dos dois queria formular.

— Não vou exigir que Níctimo tome partido entre mim e Agelau.

Dia esperou.

— E não vou chamá-lo para uma disputa com o sacerdote só para colocá-lo ao meu lado.

Era menos do que ela desejava.

Mais do que esperava conseguir naquela tarde.

— Está bem.

— Basta?

Dia conhecia o marido.

— Por hoje.

Licaão riu.

— Generosa.

— Foi uma das razões pelas quais se casou comigo.

— Não está entre as três primeiras.

Dia bateu de leve no braço dele.

— Cuidado.

Dessa vez a palavra era dela.

Licaão sorriu.

Por alguns instantes permaneceram próximos, sem precisar resolver mais nada. Não eram rei e senhora da casa, nem duas pessoas posicionadas em lados diferentes de um sacerdote. Eram marido e mulher que conheciam os hábitos, defeitos e pequenas crueldades um do outro havia tempo suficiente para não transformar qualquer desacordo numa ruptura.

Dia desejou que aquilo a tranquilizasse.

Não conseguiu.


No fim da tarde, ela voltou ao pátio.

A faixa ainda estava sobre o banco.

Ninguém a tocara.

Uma serva deixara uma pequena jarra perto demais do tecido e aparentemente reconsiderara. A marca circular da base permanecia na madeira alguns dedos mais adiante.

Dia passou sem parar.

Encontrou Níctimo diante da sala grande, conversando com um homem dos currais.

— Se outra cabra escapar, não suba em árvore nenhuma.

O trabalhador ficou confuso.

Níctimo fechou os olhos.

— Mãe.

— Estou protegendo a sucessão.

O homem não sabia se tinha autorização para rir.

Dia seguiu pelo corredor.

Atrás dela, Níctimo disse alguma coisa baixa demais para que pudesse entender.

Pouco depois, ouviu Licaão chamar da sala.

— Níctimo.

Dia parou.

O filho também.

Foi um instante.

Antes, ela talvez não tivesse percebido.

Níctimo olhou para a porta da sala grande e depois para a mãe.

Dia não fez gesto algum. Não o chamou para perto nem tentou detê-lo.

Licaão estava junto à mesa, com duas tábuas abertas.

— Venha ver isto. Quero saber se encontra o mesmo problema que eu.

Níctimo entrou.

Dia permaneceu no corredor por mais alguns segundos.

Então continuou andando.

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