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Níctimo percebeu que havia alguma coisa errada com o jantar antes de descobrir o quê.

A cozinha estava mais barulhenta do que de costume, mas isso, por si só, não significava nada. Podia haver visita inesperada, homens voltando de viagem ou alguma obrigação de hospitalidade que Dia resolvera cumprir com mais zelo do que Licaão consideraria necessário. Do corredor lateral vinha cheiro de pão assando, cebola cortada e carne no fogo. Panelas batiam, servos atravessavam o pátio com cestos, e uma mulher discutia com alguém sobre a quantidade de vinho que deveria sair do depósito.

Tudo comum.

Os homens é que não estavam.

Theron atravessou o pátio duas vezes em menos de meia hora. Na primeira, vinha da direção dos depósitos com Mestor e outro soldado. Na segunda, voltou sozinho. Não carregava mais armas que o habitual, não parecia mobilizar tropa e tampouco demonstrava pressa, mas um rapaz do estábulo tentou detê-lo com uma pergunta e recebeu a resposta sem que o comandante diminuísse o passo.

Mélas estava pior.

Níctimo encontrou-o diante de uma mesa baixa com uma tábua nas mãos.

— Está de cabeça para baixo.

Mélas examinou o objeto e o virou.

— Melhorou bastante.

— Continua sem ler.

— Não queria constranger o escriba.

Níctimo apoiou uma mão na mesa.

— O que aconteceu?

— Bastante coisa acontece todos os dias nesta casa.

— Estou perguntando sobre hoje.

— Hoje também se mostrou produtivo.

Níctimo esperou.

Mélas acabou baixando a tábua.

— Onde está seu pai?

— Achei que soubesse.

— Isso é preocupante. Em geral descubro antes dele.

Níctimo quase sorriu. Quase.

Desde a chegada de Agetor, a casa parecia deslocada por uma fração pequena demais para ser apontada e grande demais para passar despercebida. Licaão continuava ouvindo homens, conferindo provisões, discutindo água e terras. Ainda identificava erros nos registros antes dos homens que os haviam escrito. Ainda sabia quanto grão podia sair dos celeiros sem comprometer os meses seguintes.

Mas a atenção voltava sempre ao estrangeiro.

À estrada que percorrera.

Ao que sabia.

Ao que não temia.

À fumaça.

Agetor deveria ter partido naquela manhã. Níctimo descobrira que não partiria quando o encontrou no pátio menor, comendo figos.

— Pensei que fosse para o sul.

Agetor ergueu o fruto que segurava.

— Eu também.

— A estrada fechou?

— Seu pai me convidou para o jantar.

Níctimo ficara olhando para ele.

— E isso prende suas pernas?

— Não.

— Então por que ficou?

Agetor mastigou antes de responder.

— Porque aceitei.

Nada além disso.

Era uma das coisas mais irritantes naquele homem. Talvez fosse também uma das razões pelas quais Licaão não conseguia deixá-lo em paz.

Níctimo afastou-se da mesa.

— Vou procurar meu pai.

— Níctimo.

Ele voltou.

Mélas já não fazia humor.

— Quando o encontrar, escute antes de falar.

— Esse conselho não é novo.

— Não.

— Então por que parece?

O conselheiro pousou a tábua.

— Porque hoje talvez precise se lembrar dele.

Níctimo aguardou alguma explicação.

Nenhuma veio.

— Você sabe de alguma coisa.

— Sei muitas. É uma das maldições da profissão.

— Mélas.

O conselheiro olhou para o corredor por onde Theron desaparecera.

— Vá falar com seu pai.

Foi tudo.


Licaão estava trabalhando.

Por alguns instantes, aquilo aliviou Níctimo.

O rei ocupava a mesma sala em que os dois haviam resolvido dezenas de casos ao longo dos anos. Havia três tábuas sobre a mesa, uma pequena pedra de peso e um homem esperando junto à parede. Níctimo reconheceu Éon, responsável por parte dos celeiros.

Licaão levantou os olhos.

— Chegou na hora.

— Para quê?

— Éon quer que eu faça milho aparecer num campo de cevada.

Éon fez uma careta.

— Não foi isso que eu disse.

— Ficou mais interessante assim.

Níctimo aproximou-se.

— Qual é o problema?

Éon apontou para os registros.

— Faltam seis medidas no segundo depósito.

— Sumiram?

— Se eu soubesse, não teria vindo até aqui.

Licaão empurrou uma das tábuas para o filho.

— Veja.

Níctimo leu.

Entrada de grão. Retirada. Perda por umidade. Separação para moagem. O número final realmente não fechava.

— Quem faz as medições?

— Dois homens.

— Sempre os mesmos?

— Não.

Níctimo acompanhou as marcas com o dedo.

Uma delas o fez voltar.

— Esta retirada está registrada duas vezes.

Éon tomou a tábua.

— Onde?

Níctimo mostrou.

— Aqui. Depois aparece de novo dois dias mais tarde.

— Pode ser outra entrega.

— Com exatamente o mesmo número de sacos e a mesma perda?

Éon conferiu ambas.

— Então não faltam seis.

— Faltam duas.

Licaão, encostado no assento, esperou.

— E agora?

Níctimo olhou de novo.

— Duas ainda faltam.

— O que faz?

Era uma pergunta antiga.

Quantas vezes o pai já a fizera?

Quando pequeno, Níctimo procurava a resposta no rosto dele. Depois aprendera a procurá-la nos fatos. Agora havia uma terceira etapa: descobrir também onde a resposta deixava de ser suficiente.

— Confiro as duas retiradas mais recentes e descubro quem estava no depósito.

— Se for erro?

— Corrijo o registro.

— Se for roubo?

— Descubro quem tirou.

— E depois?

Níctimo olhou para Éon antes de responder.

— Depende da quantidade, de quem roubou e do que fez com o grão.

Licaão assentiu.

— Melhor.

Era só uma palavra.

Ainda importava.

Níctimo percebeu isso e se irritou consigo mesmo.

— Achei que fosse mandar cortar a mão dele.

Éon parou de respirar por um instante.

Licaão encarou o filho.

Níctimo soube que a frase saíra mais dura do que pretendia.

— Por duas medidas? — perguntou o rei.

— Não.

— Então por que eu diria isso?

Níctimo pousou a tábua.

— Não sei.

— Ficou evidente.

Éon agora olhava para qualquer lugar menos para os dois.

Licaão percebeu.

— Vá conferir as retiradas.

— Sim, meu rei.

Éon pegou os registros e saiu rápido demais.

Pai e filho ficaram sozinhos.

Licaão reuniu duas peças de cera.

— Você veio por algum motivo?

— Agetor ficou.

— Ficou.

— Por quê?

— Convidei.

— Para jantar.

— Sim.

— Ele já comeu aqui muitas vezes.

— Bastantes.

— Então por que outro jantar?

Licaão levantou os olhos.

— Vai começar a controlar o pão da casa?

— Não.

— Ótimo.

— Quero saber por quê.

Dessa vez o pai não respondeu imediatamente.

Pegou a pedra de peso, girou-a entre os dedos e a recolocou na mesa.

— Porque é meu hóspede.

— Também era quando decidiu partir.

— Continua sendo.

— Pai.

A palavra mudou alguma coisa.

Licaão ficou quieto.

Níctimo procurou uma maneira de formular sem transformar a conversa em repetição das últimas.

— O que ainda precisa descobrir?

— Sobre Agetor?

— Não estou falando de Éon.

Licaão recostou-se.

— Ainda não sei quem ele é.

— Talvez nunca saiba.

— Talvez.

Níctimo esperou.

O pai não acrescentou nada.

— E isso basta?

— Para você, aparentemente não.

— Para você também não. “Talvez” nunca foi resposta que aceitasse quando queria chegar ao fim de alguma coisa.

Licaão não contestou.

Níctimo percebeu que acertara e não encontrou prazer nisso.

— Ontem achei que estivesse tentando descobrir de onde ele veio.

— Ainda estou.

— Não.

O pai ergueu os olhos.

— Não?

— Agora quer descobrir o que ele é.

A mão de Licaão parou sobre a mesa.

Níctimo esperou negação.

Ela não veio.

— E se eu quiser?

— Para quê?

A pergunta saiu sem cuidado.

O olhar de Licaão se estreitou. Níctimo conhecia aquela expressão desde criança; muitas lições haviam começado assim.

— Um homem entra na minha casa sabendo coisas que não deveria conhecer com tanta facilidade. Passou por regiões separadas como se todas lhe fossem familiares. Não teme autoridade. Um rito muda diante dele. E você pergunta por que quero saber quem está sob meu teto?

— Pergunto o que muda quando descobrir.

— Pode mudar tudo.

— O quê?

Licaão abriu a boca.

Parou.

Níctimo raramente via aquilo.

— Se ele for apenas homem, parte amanhã — prosseguiu.

— Talvez.

— E se for alguma coisa diferente?

O pai ficou alguns segundos sem resposta.

— Não sei.

Um frio pequeno percorreu Níctimo apesar do calor da sala.

— Então não há uma decisão esperando essa resposta.

— Nem toda resposta precisa existir apenas porque há uma decisão a tomar depois.

— Foi você que me ensinou a perguntar o que vem depois.

Licaão passou a mão pela mesa.

— E aprendeu a usar minhas próprias lições para me irritar.

— Tive um excelente professor.

Por um segundo, quase sorriram.

O momento passou.

Licaão voltou aos registros.

— O jantar acontece.

— Eu sei.

— Agetor continua meu hóspede.

— Também sei.

— Então não fique olhando como se eu estivesse reunindo homens para uma guerra.

Níctimo desejou conseguir.

— Vou verificar o depósito.

— Faça.

Chegou à porta.

— Níctimo.

Ele voltou.

Licaão apontou para a tábua esquecida.

— Se pretende governar algum dia, tente não deixar metade do reino na sala anterior.

Níctimo retornou e pegou-a.

— Poderia ter avisado antes.

— Poderia.

— Preferiu esperar.

— Funcionou.

Níctimo saiu balançando a cabeça.

O afeto daquela pequena troca o acompanhou por alguns passos.

Depois a pergunta voltou.

O que o pai ainda precisava descobrir?


Theron estava perto dos estábulos com Mestor.

Os dois discutiam uma ronda ao sul. Níctimo esperou até Mestor se afastar.

— Posso falar com você?

Theron examinou-o.

— Depende de quanto trabalho pretende me dar.

— Pouco.

— Então talvez.

Níctimo apoiou a tábua contra a parede.

— Meu pai perguntou se temos condenados à morte?

A reação foi pequena.

Pequena demais.

— Quem disse?

— Ninguém.

— Então por que está perguntando?

— Porque Mélas estava tentando ler uma tábua de cabeça para baixo e você atravessou o pátio mais vezes hoje do que nos últimos três dias.

Theron olhou para o pátio.

— Talvez tenha começado a gostar dele.

— Theron.

O comandante desistiu.

— Perguntou.

— Por quê?

— Pergunte a ele.

— Já perguntei outras coisas.

— Então acrescente essa.

— Você sabe.

Theron não respondeu.

A inquietação de Níctimo aumentou.

— Há alguém condenado à morte?

— Não.

— Ninguém?

— Ninguém neste momento.

— Aletes?

— Não.

— Os homens de Phorbas?

— Alguns nem foram encontrados. Os capturados não receberam sentença de morte.

— Então por que meu pai perguntou?

Theron cruzou os braços.

— Níctimo.

— O quê?

— Se o rei quiser que saiba, ele conta.

— Está me respondendo como comandante ou como homem que não quer responder?

— Os dois.

— Muito útil.

— Não foi feito para ser.

Níctimo pegou a tábua.

— Theron.

— Sim?

— Está tudo bem?

O comandante quase respondeu depressa.

Não respondeu.

— A casa continua de pé.

— Não perguntei isso.

— Eu sei.

Níctimo esperou.

Theron mexeu numa correia do cinto.

— Fale com seu pai.

Não havia humor agora.

Níctimo o deixou.


Encontrou Agetor perto da cozinha.

Uma mulher mais velha discutia com um rapaz sobre onde colocar três jarros. O estrangeiro segurava um quarto.

— Se colocar aí, cai — dizia o rapaz.

— Então não coloque aí.

— Eu estava falando com ela.

— Eu também.

A mulher apontou para um canto.

— Ali.

Agetor levou o jarro.

Níctimo observou.

Era difícil conciliar a cena com tudo que cercava aquele homem.

Se escondia posição importante, escondia-a bem demais. Se fosse espião, possuía uma forma peculiar de passar despercebido, porque conversava com quase todos. Se era sacerdote, não tentava ensinar ninguém. Se algum grande senhor atravessava a Arcádia sem séquito, ao menos aprendera a carregar jarros.

Agetor o viu.

— Encontrou o grão?

— Ainda não.

— Então continua faltando.

— Duas medidas.

— Melhor que seis.

— Diga isso a quem perdeu duas.

Agetor concordou.

Níctimo se aproximou.

— Vai realmente partir amanhã?

— Pretendo.

— Meu pai sabe?

— Espero que sim. Foi ele quem pediu que eu ficasse.

— Também convidou você para um banquete.

— Sim.

— Não acha estranho?

Agetor olhou para o movimento da cozinha.

— Há comida demais?

— Não estou falando da quantidade de comida.

— Então do quê?

— Meu pai normalmente não precisa de tantas refeições para entender um homem.

Agetor apoiou a mão na mesa.

— Talvez eu seja difícil.

— É.

— Parece um defeito meu.

— Ainda não decidi.

Agetor sorriu.

Níctimo percebeu, com algum desconforto, que estava fazendo exatamente o que criticava no pai.

Tentava extrair alguma coisa.

— Sabe por que ele pediu que ficasse?

— Porque ainda tem perguntas.

— Isso não incomoda?

— Perguntas?

— As dele.

— Algumas são boas.

— Não respondeu.

— Aprendeu com ele.

Níctimo soltou uma pequena risada.

— Infelizmente.

O humor morreu rápido.

— Agetor.

— Sim?

— Se percebesse que o anfitrião está tentando descobrir alguma coisa sobre você, ficaria?

Agetor pensou.

— Dependeria do que estivesse fazendo para descobrir.

— E se não soubesse?

— Prestaria atenção.

— Está prestando?

— Desde que cheguei.

Níctimo o observou.

— Você realmente não teme meu pai.

Agetor olhou para o jarro recém-colocado.

— Já falamos disso.

— Ele falou. Eu estou perguntando outra coisa.

— Qual?

Níctimo não tinha certeza.

— Não sei.

Agetor esperou.

Não ofereceu ajuda.

— Isso é irritante.

— Também já me disseram.

— Meu pai?

— Entre outros.

Níctimo passou a mão pelos cabelos.

— Se ele pedir que fique mais uma noite?

— Não pretendo.

— Por quê?

— Porque já fiquei.

Era uma resposta banal.

Boa.

Talvez fosse exatamente o que Níctimo desejasse ouvir.

Agetor pegou um pedaço de pão de uma cesta.

— Posso?

A mulher da cozinha respondeu antes de Níctimo:

— Perguntar depois de pegar não é perguntar.

Agetor devolveu.

Ela empurrou o pão para ele.

— Agora pode.

— Agradeço.

Níctimo saiu sem saber mais do que sabia antes.

Começava a compreender por que aquilo enlouquecia Licaão.

A percepção o assustou.


Mélas já não fingia ler tábuas.

Discutia com Licaão.

Níctimo ouviu as vozes antes de chegar à porta.

— Não existe — dizia Mélas.

— Isso eu já entendi.

— Então acabou.

— Não.

— Licaão…

Níctimo parou no corredor.

Sabia que deveria seguir.

Não seguiu.

— Temos homens presos — continuou Mélas. — Temos acusados aguardando julgamento e alguns talvez recebam morte quando os fatos forem examinados. O que não temos é um condenado esperando que você encontre uma nova utilidade para ele.

— Não preciso que esteja “esperando”.

— Precisa que já esteja condenado.

Silêncio.

Níctimo aproximou-se um pouco mais.

— Se houver crime suficiente…

A resposta de Mélas veio mais baixa.

— Não comece a procurar uma sentença depois de escolher o que quer fazer com o condenado.

— Não estou fazendo isso.

— Está perguntando qual homem pode morrer antes de perguntar o que fez.

O corpo de Níctimo ficou rígido.

— Está entendendo demais.

— Estou ouvindo você há uma hora.

— E ainda não entendeu.

— Então explique.

Passos dentro da sala.

— Não aqui.

— Onde?

— Depois.

— É esse “depois” que está me preocupando.

Níctimo recuou quando ouviu movimento perto da porta.

Mélas saiu e o encontrou ali.

Os dois ficaram parados.

— Quanto ouviu?

— O suficiente.

Mélas fechou os olhos.

— Essa resposta é de seu pai.

— Aprendi bem.

— Hoje todos resolveram me punir assim.

Níctimo aproximou-se.

— Para que ele quer um condenado?

Mélas olhou para a porta.

— Pergunte a ele.

— Theron respondeu a mesma coisa.

— Theron é um homem inteligente.

— Você também.

— Não espalhe.

Níctimo segurou o braço dele.

Mélas olhou para a mão.

Níctimo soltou.

— Para quê?

O conselheiro não respondeu.

Foi resposta suficiente.

Níctimo entrou.


Licaão estava de pé ao lado da mesa.

Não pareceu surpreso ao vê-lo.

— Estava ouvindo atrás da porta?

— Estava.

— É um hábito ruim.

— Perguntar não estava funcionando.

— Então resolveu escutar escondido.

— Funcionou.

Licaão fechou a boca por um momento.

— Não faça isso comigo.

— Por que quer um condenado?

— Não quero um condenado.

— Mélas parece ter entendido outra coisa.

— Mélas entende coisas demais e outras de menos.

— Theron também?

— Também.

— Então os dois entenderam errado a mesma pergunta?

Licaão afastou-se da mesa.

— Tenho uma ideia.

— Qual?

— Ainda não importa.

— Envolve matar alguém.

O pai olhou para ele.

— Condenados à morte acabam morrendo.

— Não temos nenhum.

— Eu sei.

— Então por que perguntou?

A paciência de Licaão começou a acabar.

— Porque precisava saber.

— Para quê?

— Níctimo.

— Para quê?

A voz subiu.

Não muito.

Bastou.

Licaão ficou imóvel.

Níctimo obrigou-se a diminuí-la.

— Você me ensinou a perguntar isso.

— Arrependo-me disso quase todos os dias.

— Não parece brincadeira agora.

— Não é.

O coração de Níctimo batia forte.

— Tem a ver com Agetor?

O silêncio durou apenas uma fração.

Mas existiu.

— Tem.

— O que quer fazer?

Licaão olhou para a passagem.

Depois para ele.

— Feche a porta.

Níctimo fechou.

O pai demorou antes de falar.

— Se tivesse diante de você um homem que talvez não fosse aquilo que afirma ser, como descobriria?

— Perguntaria.

— Já fiz.

— Investigaria.

— Já fiz.

— Esperaria.

Algo quase divertido atravessou o rosto do pai.

— Claro.

— Qual é o problema?

— Nenhum.

— Se não representa ameaça, deixaria partir.

— E se aquilo que ele é importar?

— Para quê?

Licaão passou a mão pelo rosto.

— Você não larga essa pergunta.

— Não.

— Suponha que Agetor não seja um viajante comum.

— Pode significar muita coisa.

— Suponha que seja algo que não deveria caminhar por esta casa sem que eu saiba.

Níctimo entendeu a direção antes de chegar à palavra.

Não quis segui-la.

— Um espião?

— Não.

— Outro rei?

— Não.

— Sacerdote?

— Não.

— Então o quê?

Licaão o observou.

— Você viu a fumaça.

— Vi.

— Viu como ele fala comigo.

— Vi.

— Sabe parte do que conhecia antes de chegar.

— Sei.

— Então?

Níctimo sentiu o estômago apertar.

— Não.

— Não disse nada.

— Eu sei.

— Então diga.

— Não.

Licaão se aproximou.

— Por quê?

— Porque é absurdo.

— Ótimo. Então concordamos.

A voz não combinava com as palavras.

Níctimo disse:

— Você acha que Agetor pode ser um deus.

A frase pareceu errada dentro da sala.

Licaão não respondeu.

O medo de Níctimo mudou.

Não era medo de Agetor.

Era do pai.

— Pai…

— Eu disse que acho?

— Não precisava.

— Não sei o que ele é.

— Então deixe que vá.

Licaão olhou para ele.

— E se estiver diante da resposta que pedi durante meses?

A compreensão veio de uma vez.

Leonte.

O céu.

Os cestos.

O bosque.

Agelau.

Agetor.

Tudo preso à mesma pergunta.

— Você pediu isso?

— Muitas vezes.

— Isso não significa que ele tenha vindo porque pediu.

— Não.

— Nem que seja Zeus.

Licaão não reagiu ao nome.

Aquilo foi pior.

— Não.

— Então o que pretende fazer?

Níctimo soube que não gostaria da resposta antes de ouvi-la.

— Descobrir.

— Como?

— Ainda estou decidindo.

O condenado.

A morte.

Agetor.

Níctimo ligou as três coisas.

— Com um homem?

Licaão desviou o olhar.

O estômago de Níctimo virou.

— O que pensou?

— Nada foi decidido.

— O que pensou?

— Níctimo.

— Diga.

Licaão foi até a mesa.

— Se Agetor for homem, há coisas que não poderá saber.

— Que coisas?

— Algo posto diante dele sem que lhe digam o que é.

— Não estou entendendo.

O pai apoiou as mãos na madeira.

— Carne.

Níctimo ficou imóvel.

Licaão continuou, agora mais depressa, como se a lógica ficasse mais aceitável quando organizada em sequência.

— Um prato pronto não diz de onde veio o animal. Depois de abatido, cortado e cozido…

— Não.

— Escute.

— Não.

— Você nem sabe o que vou dizer.

— Sei o suficiente.

Licaão encarou-o.

— Se Agetor for apenas um homem, poderá comer acreditando que recebeu carne comum.

Níctimo sentiu náusea.

— E se for deus?

— Talvez reconheça.

— Reconheça o quê?

Licaão não respondeu.

Não precisava.

Níctimo deu um passo para trás.

— Você quer servir carne humana ao seu hóspede.

— Quero saber se ele a reconheceria.

— É a mesma coisa.

— Não é.

— Vai estar no prato.

— Não disse que vou fazer.

— Procurou um condenado.

Licaão fechou a boca.

Níctimo entendeu o resto.

— Procurou um homem que já fosse morrer para não precisar admitir que matou alguém por causa do teste.

A expressão do pai endureceu.

— Cuidado.

— Estou tendo.

Não havia humor na ironia.

— Se já estivesse condenado, morreria de qualquer maneira.

— Mas não temos ninguém.

— Não.

— Ótimo.

Níctimo caminhou até a porta.

— Acabou.

— Não.

Ele parou.

Virou-se.

Licaão continuava perto da mesa.

— Não?

— Não decidi nada.

— Então decida não fazer.

— Acha que é tão simples.

— É.

— Não é.

Níctimo apontou para a casa ao redor.

— Um homem entrou aqui. Comeu seu pão. Dormiu sob seu teto. Você quer colocar carne de outro homem diante dele para descobrir se ele é Zeus. É simples.

Licaão veio em sua direção.

— E se for?

— Então estará fazendo isso com Zeus sentado à sua mesa.

A frase ficou.

O pai parou.

Níctimo acreditou que, enfim, conseguira alcançá-lo.

Então viu o que apareceu no rosto de Licaão.

Não alegria.

Não medo.

Interesse.

Aquilo o apavorou.

— Pai.

Licaão percebeu.

— O quê?

— Escutou o que eu disse?

— Escutei.

— Não parece.

— Se for Zeus, reconhecerá.

Níctimo ficou olhando.

— É isso que importa?

— É a pergunta.

Alguma coisa pequena cedeu dentro dele.

— Não.

Licaão permaneceu imóvel.

— Não o quê?

— Não vou participar.

— Não pedi.

— Vai pedir.

— Está se adiantando.

— Espero que sim.

— Níctimo.

— Não.

Dessa vez a palavra saiu firme.

O pai ficou muito quieto.

— Sabe com quem está falando?

Níctimo quase respondeu como filho.

A resposta veio de outro lugar.

— Sei.

— Então mude o tom.

— Posso mudar.

Licaão esperou.

Níctimo disse:

— Não participarei disso, meu rei.

O título criou uma distância maior que qualquer grito.

Licaão piscou uma vez.

— Saia.

Níctimo saiu.


Dia estava no corredor.

Ao ver o rosto do filho, largou o pano que carregava.

— O que aconteceu?

Níctimo tentou responder.

Não conseguiu imediatamente.

Ela segurou-lhe o braço.

— Níctimo.

— Ele quer testar Agetor.

— Isso eu já sei.

— Não desse jeito.

A mãe ficou imóvel.

— Como?

Níctimo olhou para os servos ao longe.

— Não aqui.

Dia o levou para um aposento lateral e fechou a porta.

— Diga.

Ele contou.

Sem ornamentar.

A palavra carne bastou para quase tudo.

Dia sentou-se.

Por alguns instantes, permaneceu em silêncio.

— Tem certeza?

— Ouvi dele.

— Já decidiu?

— Diz que não.

Dia ficou alguns segundos olhando para o chão.

— Então ainda não decidiu.

Níctimo encarou a mãe.

— Você não viu o rosto dele.

Dia levantou os olhos.

— Vejo esse rosto há mais tempo do que você.

— Então sabe.

Ela passou a mão pelo rosto.

— Onde está Mélas?

— Não sei.

— Theron?

— Nos estábulos.

Dia se levantou.

Níctimo segurou-a.

— O que vai fazer?

— Falar com seu pai.

— Ele sabe o que está fazendo.

— Saber o que faz não significa entender o que está escolhendo.

— Para ele significa.

Dia parou.

Níctimo percebeu a própria dureza.

— Desculpe.

— Não se desculpe por isso.

Ela tocou o rosto dele de leve, como fazia quando ele voltava machucado de alguma coisa que jurava não ter doído.

— Fique longe da cozinha.

Níctimo quase riu de incredulidade.

— Não sou criança.

— Não falei como se fosse.

— Falou.

Dia respirou fundo.

— Então escute como herdeiro: fique longe de lá até sabermos se seu pai deu alguma ordem.

— Não.

— Níctimo.

— Se ele der, preciso saber.

— Por quê?

A pergunta o atingiu.

Porque era filho?

Porque era herdeiro?

Porque alguém precisava impedir?

Nenhuma resposta parecia suficiente.

— Porque não vou deixar Mélas ou Theron enfrentarem isso sozinhos.

Dia fechou os olhos.

— Vocês três e esse homem.

— Qual?

Ela olhou para ele.

— Seu pai.

Saiu.


O resto da manhã continuou.

Essa talvez fosse a parte mais absurda.

Pão saiu do forno.

Homens chegaram com questões.

Uma cabra escapou do cercado menor e obrigou dois rapazes a persegui-la pelo pátio.

Agetor conversou com Dóron sobre uma correia de sandália.

Uma serva reclamou da quantidade de vinho separada para a noite.

A casa existia.

Níctimo teve de resolver as duas medidas desaparecidas.

Encontraram uma delas: erro de registro.

A outra realmente faltava.

Um rapaz que trabalhava na moagem admitiu ter retirado quase uma medida e levado para a casa da irmã. Ela tinha quatro filhos. O marido estava longe. O rapaz pretendia devolver o grão depois da próxima entrega.

— Quanto levou?

— Uma medida.

— Inteira?

— Quase.

— E alterou o registro?

— Sim.

Níctimo pensou no pai.

Pensou nas perguntas que faria meses antes.

Pensou nas que faria agora.

— Vai devolver metade na próxima entrega e o restante na seguinte.

O rapaz ergueu os olhos.

— Senhor?

— Trabalhará dois dias extras no depósito.

— Sim.

— E Éon vai saber por quê.

O rosto do homem perdeu cor.

— Senhor…

— Se eu esconder sua mentira, ensino que mexer no registro funciona quando há uma história triste por trás.

A frase soava como algo que Licaão diria.

Talvez fosse.

Níctimo continuou:

— Sua irmã recebe duas medidas da reserva da casa.

O rapaz piscou.

— Mas fui eu quem roubou.

— Exatamente.

— Então por que—

— Ela não roubou.

O rapaz ficou calado.

— Se eu cobrar de sua irmã aquilo que você fez, estarei punindo quatro crianças junto.

— Entendi.

— Tem certeza?

— Tenho.

Níctimo o dispensou.

Éon permaneceu.

Coçou a barba.

— Seu pai teria dado mais dias.

— Talvez.

— Vai contar a ele?

— Claro.

— E se mandar mudar?

Níctimo pensou.

— Vou ouvir.

Éon percebeu a diferença.

— Não foi isso que perguntei.

Imediatamente pareceu se arrepender.

— Desculpe.

Níctimo recolheu a tábua.

— Não. Foi uma boa pergunta.

Saiu.

Encontrou Licaão no corredor.

Sozinho.

Os dois pararam.

Por alguns segundos, eram apenas pai e filho com uma decisão entre eles.

Licaão apontou para a tábua.

— Encontrou?

— Sim.

— Roubo?

— Uma medida.

— Quem?

Níctimo contou.

Incluiu a irmã.

As crianças.

A alteração do registro.

A decisão.

Licaão ouviu tudo.

— Dois dias extras?

— Sim.

— Pouco.

— Talvez.

— E duas medidas para a irmã?

— Saem da reserva.

— Está premiando a família de quem roubou.

— Estou alimentando quatro crianças que não roubaram nada.

Licaão olhou para ele.

A conversa era tão comum, tão antiga, que por um instante tudo pareceu voltar ao lugar.

— Três dias.

— Dois.

— Três. Ele mexeu no registro.

Níctimo pensou.

— Três.

— A irmã recebe uma medida agora. A segunda, depois que ele cumprir os dias.

Níctimo não gostou.

— Por quê?

— Se fugir da consequência, ela não recebe o restante.

— Está usando a fome dela para garantir a obediência dele.

Licaão respondeu sem demora:

— Estou ligando a reparação àquilo que ele escolheu proteger.

Havia lógica.

Níctimo odiou isso.

— Não gosto.

— Também não gosto das suas duas medidas.

— Uma.

— Pior.

Níctimo quase sorriu.

Licaão também.

Durante alguns instantes, tudo se encaixou.

— Então uma agora — decidiu Níctimo. — A segunda depois dos três dias.

— Feito.

Licaão estendeu a mão.

Níctimo entregou a tábua.

Os dedos se tocaram.

O pai segurou o objeto e demorou a soltá-lo.

— Decidiu bem.

Níctimo olhou para ele.

— Você mudou metade.

— Foi por isso que terminou bem.

O sorriso veio curto.

Familiar.

E, por isso mesmo, doeu.

— Pai.

Licaão soltou a tábua.

— Não.

— Nem falei ainda.

— Sei o que vai dizer.

— Então não faça.

O rosto do rei se fechou.

— Volte ao trabalho.

— Você também.

Níctimo saiu antes que a discussão destruísse aquele pequeno retorno ao que haviam sido.

Não sabia que o guardaria depois como se fosse o último.


No início da tarde, começaram os preparativos da refeição maior.

Dois animais foram abatidos.

Nenhum homem.

Níctimo verificou.

Sentiu vergonha por ter verificado.

Havia pão para mais pessoas do que estariam à mesa. Vinho melhor foi retirado de outro depósito. Dia supervisionava a cozinha com uma rigidez que fazia os servos falarem menos.

Agetor parecia não perceber nada incomum.

Ou percebia e não demonstrava.

Theron passou pela entrada.

Níctimo chamou:

— Alguma ordem?

O comandante parou.

— Muitas.

— Sabe qual estou perguntando.

— Não.

Níctimo estudou-o.

— Está falando sério?

— Estou.

Um alívio pequeno.

— Mélas?

Theron indicou o corredor.

— Com o rei.

— Ainda?

— Desde pouco depois de sua mãe entrar.

Níctimo foi até lá.

Não chegou à porta.

As vozes já eram audíveis.

Dia falava:

— Você prometeu.

— Não envolvi Níctimo.

— Ele já está envolvido. Mora nesta casa. É seu herdeiro e sabe o que você está considerando.

— Não estou fazendo nada.

— Está procurando como fazer.

Silêncio.

Mélas interveio:

— Dia…

— Não transforme isso numa disputa de palavras.

Licaão respondeu alguma coisa baixa demais para Níctimo ouvir.

Ele se aproximou.

Mélas falou:

— Então diga outra vez. Para nós dois.

— Não preciso repetir.

— Precisa.

— Não temos condenado.

— Isso já sabemos.

— Então não haverá homem.

Níctimo soltou o ar.

Talvez Dia também.

Mélas não.

— E o banquete?

— Acontece.

— Como refeição normal?

— Sim.

Outra pausa.

Níctimo sentiu o corpo relaxar.

Acabara.

O pai desistira.

Agetor comeria cabra, carneiro, pão, beberia vinho e partiria.

A pergunta ficaria sem resposta.

Licaão sobreviveria.

Todos sobreviveriam.

Então Mélas perguntou:

— E vai deixá-lo partir sem saber?

O silêncio voltou.

Níctimo fechou os olhos.

Licaão respondeu:

— Não sei.

Dessa vez não havia cálculo na voz.

Só verdade.

Dia falou:

— Então fique sem saber.

Níctimo quase entrou.

Não entrou.

— Saia, Dia.

— Não sou seu soldado.

— Nunca disse que era.

— Então não me dê ordem como se eu fosse.

Mélas cortou:

— Chega.

Passos.

A porta abriu.

Níctimo recuou.

Dia surgiu primeiro. Viu o filho e não perguntou há quanto tempo estava ali.

Passou.

Mélas saiu logo depois.

Parecia cansado.

— Acabou? — perguntou Níctimo.

O conselheiro olhou para trás.

— Por enquanto.

— O que significa?

— Que não há ordem.

— E o jantar?

— Jantar.

Níctimo o observou.

— Acredita nisso?

Mélas levou tempo demais para responder.

— Quero acreditar.

Seguiu pelo corredor.

Níctimo entrou.

Licaão estava sozinho.

— Todos nesta casa resolveram ouvir atrás da minha porta?

— Talvez devesse falar mais baixo.

— Talvez precisem trabalhar.

— Eu tenho trabalho.

— Então vá.

Níctimo não se mexeu.

— Obrigado.

O pai olhou para ele.

— Pelo quê?

— Por não fazer.

— Já disse para não agradecer por uma decisão que não tomei.

A inquietação voltou imediatamente.

— Você disse que não haverá homem.

— Disse que não temos condenado.

— Não é a mesma coisa.

Licaão voltou os olhos para a mesa.

Níctimo avançou.

— Pai.

— O quê?

— Termine.

— Termine o quê?

— Diga que acabou.

— Não vou prometer alguma coisa só para você parar de perguntar.

— Então não acabou.

Licaão se virou.

— Quer governar um dia?

A mudança foi tão brusca que Níctimo demorou a responder.

— Quero.

— Então aprenda uma coisa: há perguntas que continuam existindo mesmo quando você decide ignorá-las.

— E há perguntas que não dão direito a qualquer resposta.

Licaão ficou imóvel.

— Está gostando demais de falar assim comigo.

— Não estou gostando de coisa nenhuma.

— Parece.

— Porque não abaixo a cabeça?

O rei deu um passo.

— Porque está começando a confundir discordância com autoridade.

— Não.

— Não?

— Estou começando a entender que posso reconhecer sua autoridade e ainda achar uma ordem errada.

— Não dei ordem nenhuma.

— Ainda.

A palavra atingiu.

Licaão se aproximou.

— Pare de dizer “ainda” como se soubesse o que vou fazer.

Níctimo respondeu:

— Você fez isso com o céu durante meses.

Silêncio.

Níctimo soube que passara do ponto.

Não recuou.

— O quê?

A voz do pai saiu baixa.

— Ficou esperando a próxima coisa. Depois outra. E outra. Zeus não respondeu ainda. Agelau não provou ainda. O bosque não mostrou nada ainda. Agora Agetor não explicou quem é ainda.

O rosto de Licaão ganhou cor.

— Cuidado.

— Estou tentando.

— Não parece.

— Porque você não está.

A frase voltou.

Níctimo lembrava de tê-la dito antes.

Licaão também.

— Você já me falou isso.

— E naquele dia disse que fiz bem em perguntar.

— Fez.

Níctimo parou.

Não esperava.

Licaão continuou:

— E está fazendo bem agora.

Aquilo o desarmou por um instante.

— Então pare.

— Não.

— Por quê?

— Porque você fazer a pergunta certa não significa estar certo.

— Nem você.

— Exatamente.

A frustração de Níctimo explodiu.

— Então deixe Agetor partir!

— Vai partir.

— Sem teste.

Licaão não respondeu.

Níctimo virou-se para a porta.

— Se fizer isso, não conte comigo.

— Não pedi que contasse.

Níctimo olhou para trás.

— Vai precisar de alguém.

Alguma coisa mudou no pai.

Um pensamento passou pelo rosto dele.

Níctimo não soube qual.

Desejou não ter dito.

— Saia.

Níctimo saiu.


A tarde caiu sobre a casa.

A refeição seria servida ao anoitecer.

Níctimo tentou trabalhar.

Não conseguiu.

Leu a mesma marca três vezes. Mandou um homem repetir uma informação que já ouvira. Errou uma soma simples e percebeu tarde demais.

Por fim, largou tudo.

Foi procurar Mélas.

Encontrou-o perto do depósito de vinho.

— Ele não desistiu.

Mélas fechou os olhos.

— Eu sei.

— Como?

— Conheço seu pai.

— Então faça alguma coisa.

— Estou fazendo.

— O quê?

— Tentando impedi-lo.

— Não parece suficiente.

Mélas se virou.

— E o que sugere?

Níctimo abriu a boca.

Não tinha resposta.

— Exatamente.

— Podemos mandar Agetor embora.

— É hóspede, não prisioneiro. Se contarmos que o rei pode estar preparando alguma coisa contra ele, o que acontece?

— Vai embora.

— E seu pai?

Níctimo entendeu.

A pergunta não iria embora com Agetor.

Talvez se tornasse pior.

— Então contamos a Agetor a verdade.

— Qual verdade? Que Licaão teve uma ideia e ainda não ordenou nada?

— Sim.

Mélas balançou a cabeça.

— E se isso bastar para transformar um hóspede em inimigo?

— Melhor do que—

Mélas ergueu uma mão.

Níctimo parou.

— Não sei quem Agetor é. Você não sabe. Seu pai também não. Tudo o que temos é um pensamento ruim e nenhuma ordem.

— Até quando?

Mélas desviou a atenção.

Níctimo lembrou-se de uma conversa antiga.

A mesma pergunta.

Até quando?

— Mélas.

— O quê?

— Se ele ordenar?

— Depende da ordem.

— E se for aquilo?

O conselheiro ficou muito quieto.

— Então não participo.

A resposta veio baixa.

Sem pose.

Níctimo sentiu alívio e medo ao mesmo tempo.

— Vai recusar?

Mélas olhou para ele.

— Se seu pai mandar matar um homem para cortá-lo e colocá-lo na mesa de um hóspede, minhas mãos não entram nisso.

— Ele pode chamar de traição.

— Pode chamar do que quiser.

— Mélas…

— Não transforme minha parte numa tragédia antes da hora.

— É grande.

— Não. Minha parte é simples.

Níctimo esperou.

— Licaão dá a ordem. Eu escolho se participo.

Mélas tocou-lhe o ombro.

— Vá ficar com sua mãe.

— Não.

— Claro que não.

— Vou ficar aqui.

— Então ao menos não fique onde seu pai possa interpretar sua cara como provocação.

— Minha cara?

— Herdou dele. É um problema antigo desta casa.

A vontade de rir apareceu e morreu antes de se completar.

O humor doeu.


Pouco antes do escurecer, Licaão mandou chamar Theron.

Níctimo viu o mensageiro atravessar o pátio.

Seguiu.

Theron entrou numa sala pequena próxima aos depósitos. Mélas apareceu por outro corredor e encontrou Níctimo diante da porta.

— Não entre.

— Vou entrar.

— Níctimo.

— Você acabou de dizer o que faria.

— Falei do que eu faria.

— E eu sei o que farei.

Mélas segurou o braço dele.

Níctimo puxou.

— Solte.

A porta se abriu.

Licaão estava ali.

— Entrem todos.

Mélas soltou.

Os três entraram.

Theron permaneceu de pé.

Licaão fechou a porta.

— Não há condenado.

Ninguém respondeu.

— E não haverá execução inventada para produzir um.

Níctimo respirou.

Mélas não se mexeu.

Licaão continuou:

— O jantar acontece normalmente. Agetor parte amanhã.

Ao dizer aquilo, parecia acreditar.

Talvez fosse a primeira decisão do dia que trouxesse algum alívio ao próprio rei.

Não saberia.

E teria de suportar.

Theron assentiu.

— Sim, meu rei.

— É tudo.

Mélas não se moveu.

— Tudo?

— Tudo.

— Então por que nos chamou?

Licaão olhou para ele.

— Para impedir que passem a noite imaginando ordens que não dei.

Mélas finalmente relaxou um pouco.

— Foi quase gentil.

— Não se acostume.

Theron saiu primeiro.

Mélas o seguiu.

Níctimo permaneceu.

Licaão percebeu.

— O quê?

— Nada.

— Então vá.

Níctimo caminhou um passo.

Parou.

— Pai.

— Níctimo.

— Obrigado.

A irritação veio de imediato.

— Já disse para não agradecer.

— Vou agradecer mesmo assim.

— Saia.

Níctimo saiu.

No pátio encontrou Dia.

Ela leu a resposta em seu rosto.

— Acabou?

— Disse que sim.

Dia fechou os olhos por um momento.

— Bom.

Do outro lado do pátio, Agetor caminhava com o manto dobrado sobre o braço. Dóron vinha atrás, dizendo alguma coisa sobre as sandálias. O estrangeiro respondeu, mas Níctimo não ouviu.

Dia chamou:

— Venha.

— Para onde?

— Preciso decidir onde sentar três homens que aparentemente não conseguem comer sem transformar posição à mesa em assunto de guerra.

— Isso é função do herdeiro?

— Hoje é.

Níctimo seguiu a mãe.

No meio do caminho, olhou para trás.

Licaão havia saído da sala.

Estava parado na passagem.

Também observava Agetor.

A inquietação retornou.

Menor.

O pai dissera que tinha acabado.

Precisava bastar.


Licaão chamou Mélas outra vez quando já havia pouca luz.

Níctimo não soube.

Estava com Dia reorganizando os lugares do jantar. Depois foi aos depósitos conferir vinho. Depois discutiu com um servo sobre uma ânfora rachada.

A casa continuava trabalhando.

Quando retornou ao pátio principal, encontrou Licaão sozinho.

Agetor estava mais distante, conversando com Theron perto do portão.

Níctimo se aproximou.

— Está tudo pronto.

— Ótimo.

— Agetor parte cedo.

— Eu sei.

— Theron mandará dois homens à passagem sul por causa da água.

— Bom.

Níctimo observou o pai.

Licaão parecia cansado.

Mais velho do que na manhã anterior.

A visão suavizou alguma coisa.

— Quer que eu fique no jantar?

O pai olhou para ele.

— É sua casa.

— Não perguntei isso.

Licaão ia responder com irritação.

Mudou.

— Quero.

— Então fico.

Agetor disse alguma coisa a Theron.

O comandante riu.

Licaão acompanhou a cena.

Níctimo acompanhou o pai.

— Depois ele vai embora.

— Sim.

— E você ficará sem saber.

Licaão mexeu a língua contra os dentes.

— Parece.

— Vai sobreviver?

— Não sei.

Níctimo sorriu.

Dessa vez Licaão também.

— Vá ajudar sua mãe.

— Ela não precisa.

— Então finja.

Níctimo deu alguns passos.

— Filho.

Parou.

Licaão quase nunca o chamava assim.

Níctimo voltou-se.

O pai parecia prestes a dizer alguma coisa.

Não disse.

— Nada.

Níctimo esperou mais um instante e seguiu.


A ideia apareceu quando Níctimo riu.

Não havia nada de especial na risada.

Dia dissera alguma coisa sobre onde Mélas deveria sentar à mesa. Níctimo respondeu, e ela bateu de leve no braço dele.

Uma cena comum.

Licaão assistiu de longe.

A princípio, a ideia nem chegou inteira.

Foi apenas uma associação.

Casa.

Mesa.

Sangue.

Conhecimento.

Agetor.

Níctimo.

Ele a afastou.

O corpo reagiu antes da razão.

Uma contração no estômago.

Repulsa.

Não.

Licaão virou-se e entrou na sala onde deixara as tábuas.

Tentou ler uma.

Não conseguiu.

A ideia retornou.

Dessa vez não como desejo.

Como solução.

Aquilo a tornou pior.

Agetor podia ter ouvido histórias em qualquer estrada. Podia conhecer ritos. Podia ter passado anos entre cortes. Podia não temer reis.

Tudo tinha explicação.

Mas um deus deveria saber alguma coisa que um homem não saberia apenas olhando.

Um morto qualquer serviria ao princípio.

Níctimo serviria de outro modo.

Licaão se levantou abruptamente.

Não.

Foi até a porta.

O filho continuava no pátio, agora conversando com um rapaz dos depósitos. Corrigiu alguma coisa na tábua do jovem, apontou para uma marca, ouviu a resposta e fez outra anotação.

O herdeiro.

Seu filho.

A continuidade da casa.

E havia mais.

O homem que acabara de lhe dizer não.

Licaão afastou o pensamento com violência.

Aquilo não podia participar da decisão.

Não escolheria Níctimo porque o filho o desafiara.

Não era punição.

Não faria dele exemplo por ter tido coragem de contrariá-lo dentro da própria casa.

Mas a recusa existia.

Misturada à ideia.

Níctimo dissera que não participaria.

Chamou-o de meu rei quando até então falava como filho.

Traçara uma distância entre os dois.

Licaão sentiu raiva de si mesmo por lembrar.

Não podia importar.

O fato de precisar repetir isso tornava tudo pior.

Agetor conhecia Níctimo.

Falara com ele.

Vira pai e filho juntos.

Sabia que o rapaz era o herdeiro.

A própria continuidade daquela casa.

Se fosse deus…

Licaão fechou os olhos.

Não.

Era monstruoso.

Isso deveria bastar para expulsar a ideia.

Precisava bastar.

Quando abriu os olhos, Níctimo entregava a tábua ao rapaz.

Ergueu o rosto e encontrou o pai observando.

Sorriu de leve.

Licaão virou-se.

Foi procurar Mélas.


Encontrou-o perto do corredor da cozinha.

— Preciso de você.

Mélas olhou para o rosto dele.

Mudou imediatamente.

— Fale.

— Não aqui.

O conselheiro não saiu do lugar.

— Então onde?

— Venha comigo.

Mélas o seguiu até a sala menor.

Licaão fechou a porta.

O conselheiro permaneceu de pé.

— Diga.

Licaão demorou.

As palavras eram piores quando precisavam sair da cabeça.

— Existe uma forma.

Mélas perdeu cor.

— Qual?

Licaão não respondeu de imediato.

O conselheiro percebeu.

— Licaão.

— Escute primeiro.

— Passei anos escutando primeiro.

A voz continuava baixa.

— Kynos. Leonte. Damon. O bosque. Sempre havia uma razão para eu ouvir até o fim.

A raiva apareceu em Licaão.

— E quase sempre havia uma razão.

— Sim.

Mélas concordou.

— Foi por isso que continuei ouvindo.

— Então ouça agora.

Mélas sustentou o olhar.

— Diga.

Licaão respirou.

— Se Agetor for aquilo que suspeito…

— Nem consegue dizer.

— Se for…

— Diga o nome.

Licaão ficou imóvel.

Depois falou:

— Zeus.

Era a primeira vez que ligava o nome diretamente a Agetor.

A sala pareceu menor.

Mélas fechou os olhos.

Licaão continuou:

— Se for Zeus, um teste comum não serve.

— Não existe teste comum para isso.

— Há algo que um homem não reconheceria e que ele deveria reconhecer.

Mélas ficou absolutamente imóvel.

— Não.

Uma vez.

Sem elevar a voz.

Sem hesitar.

A recusa atingiu Licaão mais que um grito.

— Nem sabe—

— Sei.

— Não disse quem.

— Não precisa.

Licaão andou pela sala.

— Não há condenado.

— Eu sei.

— Também não vou escolher alguém ao acaso.

Mélas recuou um passo.

— Licaão.

— É meu filho.

— Sim.

— Meu herdeiro.

— Sim.

— Minha casa.

Mélas encarou-o.

— Não termine essa linha.

— Se Agetor for Zeus—

— Então sua ideia é receber Zeus em casa e descobrir se é Zeus assassinando o próprio filho para servi-lo no jantar.

O estômago de Licaão revirou.

— Não fale assim.

— Como quer que eu fale?

— É um teste.

— É Níctimo.

Silêncio.

Licaão respondeu:

— Ele me desafiou.

As palavras saíram antes que conseguisse contê-las.

Mélas ficou imóvel.

Licaão percebeu.

— Não é por isso.

— Então não diga isso.

— Não é.

— Ótimo.

Mélas se aproximou da mesa.

— Tire essa parte da decisão.

Licaão abriu a boca.

Nenhuma resposta veio.

Mélas viu.

— Aí está.

— Não sabe do que está falando.

— Sei exatamente.

— Níctimo se colocou contra mim.

— Porque você queria servir carne humana ao hóspede.

— Antes disso.

— Porque começou a transformar o reino inteiro numa pergunta pessoal.

Licaão bateu a mão na mesa.

— Ele é meu filho!

— Sim.

— Meu herdeiro!

— Sim.

— Deve lealdade a esta casa.

Mélas o encarou.

— E você está pensando em reduzi-lo a carne para provar que ainda manda nela.

A frase atingiu como golpe.

— Não.

— Então pare.

— Não é punição.

— Talvez seja pior por não ser apenas punição.

Licaão ficou imóvel.

Mélas deixou o silêncio trabalhar.

Por fim, o rei falou:

— Se for Zeus, reconhecerá Níctimo.

— Talvez.

— Agetor o viu. Falou com ele. Sabe quem é.

— Sabe.

— Um homem veria apenas carne.

— Pare.

— Um deus saberia.

Mélas balançou a cabeça.

— E chama isso de resposta.

— Chamo.

O conselheiro pareceu envelhecer alguns anos diante dele.

— Então já não tenho conselho que consiga tornar isso aceitável.

Licaão ergueu o rosto.

— Continua sendo meu conselheiro.

— Continuo.

— Então aconselhe.

Mélas levou um momento.

— Não faça.

Licaão esperou mais.

— É tudo?

— É.

— Depois de todos esses anos?

— Justamente por causa deles.

A raiva cresceu.

— Você me deve obediência.

— Devo conselho. Serviço. Lealdade à casa.

— Eu sou a casa.

Mélas olhou para ele.

— Não sozinho.

A frase caiu.

Licaão quase chamou Theron.

Quase.

Então ouviu uma risada do lado de fora.

Níctimo.

Distante.

Vivo.

Licaão fechou a mão.

Mélas também ouvira.

— Ele é seu filho.

— Eu sei.

— Então lembre antes de ser tarde.

Licaão fitou-o.

— Se eu ordenar?

Mélas não desviou.

A resposta não veio como desafio, pose ou tentativa de derrubar autoridade alguma.

Veio como limite.

— Não.

Licaão ficou imóvel.

— Não o quê?

— Não participarei.

— Está recusando uma ordem que ainda não dei.

— Estou dizendo o que acontecerá se der.

— Posso chamar isso de traição.

— Pode.

— Pode sair desta casa sem posição.

— Posso.

— Pode morrer por isso.

Mélas demorou apenas uma respiração.

— Posso.

Nada além.

O homem que durante anos encontrara cálculo político para quase qualquer coisa não procurava nenhum agora.

Licaão sentiu.

Talvez fosse por isso que doesse.

— Saia.

Mélas virou-se.

— Não o dispensei.

O conselheiro parou na porta.

— Hoje isso importa menos do que costumava.

Abriu.

Saiu.

Licaão ficou sozinho.

Sua respiração levou algum tempo para voltar ao ritmo normal.

Ainda podia acabar ali.

Agetor comeria.

Dormiria.

Partiria.

Licaão continuaria rei.

Níctimo continuaria herdeiro.

Dia continuaria reclamando de coisas pequenas.

Mélas talvez voltasse a fazer piadas ruins quando a raiva passasse.

Theron continuaria obedecendo ordens que ainda conseguisse chamar de ordens.

Nada precisava mudar.

Bastava aceitar que não sabia.

Licaão foi até a porta.

Abriu.

Do outro lado do pátio, Níctimo conversava com Agetor junto à mesa onde os servos organizavam os lugares.

O rapaz falou alguma coisa.

Agetor respondeu.

Níctimo riu.

Licaão observou.

Seu filho.

Seu herdeiro.

O homem a quem ensinara a perguntar.

O homem que agora usava aquelas perguntas contra ele.

O homem que lhe dissera não.

E a única carne naquela casa cuja origem Agetor, caso fosse realmente Zeus, não poderia confundir com a de um animal qualquer.

A repulsa voltou.

Ainda existia.

Deveria tê-lo salvado.

Não salvou.

Porque agora havia lógica ao lado dela.

Licaão permaneceu na porta.

A ideia voltou.

Dessa vez, ficou.

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