Capítulo 16 — Aqueles que Pagaram
por Sonhado acordadoA estrada se dividiu pouco depois do amanhecer, e Zeus tomou o caminho menor.
Não houve presságio na escolha. Na noite anterior, um pastor lhe explicara que aquela ramificação acompanhava a encosta por dois vales antes de reencontrar uma rota maior. Era usada sobretudo por famílias da região, homens que procuravam trabalho e pastores deslocando animais entre uma pastagem e outra.
Depois do movimento do dia anterior, o que primeiro chamou sua atenção foi o silêncio. Não faltavam pessoas; faltava trânsito. As marcas de rodas tornaram-se escassas, e as margens abertas deram lugar a cercas de pedra, pequenos campos apertados entre oliveiras e figueiras e terrenos que a inclinação obrigava os homens a cultivar quase contra a montanha.
Algumas casas ficavam tão distantes entre si que um grito só alcançaria a próxima se o vento ajudasse.
Zeus caminhou durante boa parte da manhã. Passou por um velho arrancando pedras de uma lavoura, por uma mulher que sacudia um tecido diante da porta e por dois rapazes conduzindo cabras. Nenhuma aldeia destruída, nenhum campo abandonado, nenhum corpo à margem da estrada. A Arcádia continuava ali, ocupada com as tarefas de sempre.
Mais adiante, uma faixa já colhida chamou sua atenção. Restavam talos baixos, palha espalhada e marcas de gente e animais entre os sulcos. Dois homens juntavam o que sobrara perto de uma extremidade; um terceiro carregava feixes para uma construção pequena.
Zeus teria passado sem parar se não visse, do outro lado do caminho, um rapaz tentando cortar lenha.
O machado era grande demais para ele. Não muito, apenas o suficiente para tornar cada erro mais trabalhoso.
O garoto, de treze ou quatorze anos, tinha pernas compridas e braços que ainda pareciam não ter alcançado o resto do corpo. Ergueu o machado, golpeou fora do centro e deixou a lâmina presa no tronco. Puxou uma vez. Depois outra.
Uma voz veio da casa:
— Se quebrar esse cabo, vai cortar lenha para pagar outro.
O menino torceu o corpo para arrancar a lâmina.
— Não vou quebrar.
— Foi o que disse da enxada.
— A enxada já estava ruim.
— Depois que você quebrou, ficou muito pior.
Uma menina apareceu detrás de uma figueira.
— Eu falei que ele ia errar.
O rapaz puxou o machado com mais força.
— Você fala isso toda vez.
— E acerto.
— Porque fala toda vez.
A menina pareceu considerar aquilo uma vitória.
Zeus diminuiu o passo.
A mulher que discutira com o garoto estava agachada junto a uma parte baixa do muro de pedra, refazendo um trecho que cedera. Havia uma cesta ao lado, água numa pequena vasilha e várias pedras separadas conforme o tamanho. Ela viu o viajante, avaliou-o rapidamente e continuou o trabalho.
— Se procura a estrada maior, passou da curva.
— Não procuro.
— Então está indo bem.
O garoto enfim conseguiu libertar o machado e quase caiu para trás.
A menina explodiu em riso.
— Cala a boca, Thaleia.
O nome ainda não significou nada para Zeus.
A mulher se levantou e limpou a terra das mãos na túnica.
— Não mande sua irmã calar a boca.
— Você manda.
— Eu sou sua mãe.
O rapaz apoiou o machado no chão.
— Então, quando eu for pai, posso?
— Se encontrar uma mulher disposta a suportá-lo.
Thaleia riu de novo.
— Vou morar sozinho — anunciou o garoto.
— Ótimo. Leve a cabra.
— Não quero a cabra.
O animal berrou de algum ponto atrás da casa, como se tivesse acompanhado a conversa.
— Nem ela quer você.
Zeus parou junto ao muro.
— Há água por perto?
A mulher indicou com o queixo uma jarra deixada à sombra.
— Pode beber.
O rapaz largou o machado.
— Mãe…
Ela virou-se.
— O que foi?
Ele baixou a voz, embora não o suficiente.
— Você nem conhece esse homem.
— Se ele roubar a jarra, você corre atrás.
— Por que eu?
— Porque é você quem está preocupado.
Zeus aproximou-se. Um pedaço de tecido cobria a jarra. Retirou-o, encheu a tigela deixada ao lado e bebeu. A água estava fresca.
— Obrigado.
— A fonte não é minha.
Zeus recolocou a tigela.
— A jarra é.
— Essa aceita agradecimento.
O garoto ainda o observava.
— Vem de longe?
— Venho.
— De onde?
— Damon.
A mãe nem precisou aumentar a voz.
O rapaz retornou ao machado.
Damon.
Zeus olhou para ele outra vez.
O nome era comum. Ainda assim, alguma coisa começou a se ordenar. A casa. A figueira. A encosta. O campo já colhido do outro lado da estrada.
As vozes que chegavam às alturas não se organizavam como lembranças humanas. Uma súplica podia deixar dor, nome, promessa e medo sem sequência clara. Zeus não precisava recordar primeiro uma coisa e depois outra. Os fragmentos podiam existir juntos.
Mesmo assim, aquela família ainda não se ligava a nenhuma certeza.
A mulher retornou ao muro. Tentou erguer uma pedra achatada e girou-a duas vezes, buscando posição.
Zeus se aproximou.
— Essa não entra aí.
Ela levantou o rosto.
— Entra se eu convencer.
— É larga.
— Trabalha com pedra?
— Já vi alguns muros.
— Eu também. Este está caindo na minha frente há três dias.
Zeus apontou para outra pedra próxima ao cesto.
— Aquela.
A mulher olhou para a pedra menor e depois para ele.
— Se estiver errado, tira sozinho.
— Justo.
Zeus a pegou. Naquele corpo, o peso exigia braços, costas e posição correta. Colocou-a na abertura enquanto a mulher empurrava pelo outro lado.
— Mais baixo.
Ele ajustou.
— Agora.
Ela encaixou uma pedra pequena sob a borda, pressionou com a palma e testou a firmeza.
Ficou no lugar.
— Irritante.
— O muro?
— Você ter razão.
— Posso tirar e pôr a grande.
— Não estrague o primeiro trabalho útil que fez.
Thaleia aproximou-se e avaliou a pedra.
— Eu teria usado a grande.
— É por isso que você não mexe no muro.
— Você não deixa porque eu derrubei aquela parte.
A mãe parou.
— Eu ainda não sabia disso.
Thaleia levou as mãos à boca.
Damon começou a rir.
— Eu falei para não contar.
A mãe virou-se para o filho.
— Você sabia?
O riso desapareceu.
— Descobri depois.
— E não contou.
— Ia contar.
— Quando?
Damon precisou pensar.
— Depois de consertado.
Ela olhou para o trecho ainda aberto.
— Plano impecável.
Zeus pegou outra pedra.
— Talvez seja uma boa hora para eu seguir viagem.
A mulher riu.
— Agora fica. Se for embora, esses dois vão passar o dia acreditando que me salvou de matar alguém.
Thaleia perguntou, séria:
— Ia matar?
— Vá buscar pedras menores.
— Isso quer dizer não?
— Thaleia.
A menina correu.
Zeus ajudou com mais duas pedras. A mulher trabalhava bem: escolhia, testava, descartava o que não servia e não desperdiçava força tentando convencer pedra ruim a caber onde não cabia. As mãos tinham calos antigos e uma cicatriz pequena perto do polegar.
Havia cansaço nela, mas Zeus começava a perceber tipos diferentes de cansaço. Um homem podia terminar uma manhã exausto. Outro carregava meses de trabalho nos ombros antes mesmo do primeiro movimento do dia.
Damon voltou à lenha.
Zeus segurou uma pedra enquanto a mulher ajustava a base.
— Seu marido?
Ela indicou com o queixo uma direção além das oliveiras.
— Trabalhando.
— Nas terras de vocês?
A pergunta a fez parar por um momento.
— Hoje, sim.
Zeus aguardou.
Ela empurrou a pedra até firmá-la.
— Amanhã pode ser nas de Heges. Depois, onde pagarem melhor.
— Falta trabalho aqui?
A mulher soltou uma pequena risada.
— Trabalho nunca falta.
Pegou a vasilha e bebeu.
— Falta alguém pagar.
Zeus olhou para o campo colhido do outro lado da estrada.
— Aquela faixa não é de vocês?
Ela acompanhou seu olhar.
— Não.
O machado de Damon parou no ar por um instante.
A mãe percebeu.
— Continue.
A lâmina desceu.
Zeus perguntou:
— Já foi?
Ela pousou a água.
— Está perguntando pela estrada ou pela terra?
— Pela terra.
— Então vai levar mais tempo.
— Não tenho pressa.
— Viajante sem pressa é coisa rara.
Ela voltou ao muro.
— Segure aqui.
Zeus obedeceu.
— Meu marido cultivou aquela faixa com o pai durante anos. Depois continuou comigo. Onze anos desde que casei e vim para esta casa.
Indicou a figueira.
— Os dois cresceram achando que aquilo fazia parte daqui.
Damon falou sem se virar:
— Eu trabalhei lá.
— Trabalhou.
— Muito.
A mãe olhou para ele.
— Três dias arrancando erva não são uma vida de trabalho.
— Eu tinha doze anos.
— Reclamou como se tivesse cinquenta.
Damon golpeou a madeira com força.
A mulher olhou de novo para o campo.
— Antes, aquilo pertencia a Demas.
Zeus conhecia o nome apenas da maneira como conhecia milhares de nomes mortais: alguém o pronunciara diante de um altar, numa disputa, numa morte ou num juramento.
— Demas morreu sem filhos — continuou ela. — O irmão morava em outro vale. Durante anos, o pai de meu marido plantou ali porque Demas permitiu.
— Havia testemunhas desse acordo?
A mulher o examinou com atenção maior.
— Você pergunta como homem acostumado a ouvir briga por terra.
— Já ouvi muitas.
— Então sabe como terminam.
— Nem sempre.
Ela empurrou a pedra com o pé.
— A nossa terminou mal para nós.
Zeus soltou quando ela indicou.
— O irmão de Demas voltou?
— Voltou. Os filhos estavam crescidos, precisavam de terra, e ele tinha o sangue de Demas. Nós tínhamos anos de trabalho e a palavra de um morto que ninguém vivo tinha ouvido.
Zeus já imaginava qual princípio Licaão provavelmente escolhera.
— Foram até o rei.
— Eles foram primeiro.
— E seu marido?
— Depois.
Ela se sentou numa pedra e secou o suor com o antebraço.
— Havia homens que lembravam os marcos antigos. Um ainda estava no lugar. Outro tinha sido deslocado quando abriram um sulco.
— Licaão reconheceu o direito da família de Demas.
A mulher ficou quieta por pouco tempo.
— Você conhece essa história.
Zeus percebera tarde demais que avançara demais.
— Conheço decisões parecidas.
Ela o estudou.
— Então conhece reis.
— Alguns.
— Esse é fácil de entender nessa parte. Sangue, testemunha, marco. Quando os três apontam na mesma direção, é difícil fazê-lo olhar para o que ficou do outro lado.
Não havia insulto na voz.
Também não havia reverência.
Zeus voltou os olhos para a faixa colhida. Havia parentesco, marcos antigos e testemunhas. Do outro lado, anos de uso que não conseguiam provar uma transferência definitiva. Um rei não precisava ser corrupto nem estúpido para chegar àquela conclusão.
Damon golpeou com força demais.
A lenha se abriu de uma vez.
A mãe acompanhou o som.
— O rei tinha razão sobre a terra.
Zeus voltou a atenção para ela.
— Mas a cevada continuou doendo quando mudou de dono.
Thaleia retornou com quatro pedras apertadas contra o peito.
— Essas servem?
A mãe examinou.
— Duas.
— Quais?
— Escolha.
— Se você falar, é mais rápido.
— E amanhã continua sem saber.
A menina pôs as quatro no chão e começou a compará-las.
Zeus observou novamente o campo. A decisão de Licaão não fora absurda. Também não contava quantas medidas de cevada havia nos potes daquela casa.
— Isso aconteceu antes da colheita?
— Pouco antes.
— Como atravessaram até a seguinte?
— Comendo menos por algum tempo.
Damon respondeu do outro lado:
— Eu não comi menos.
A mãe virou-se.
— Você reclamou mais. Não é a mesma coisa.
— Eu estava crescendo.
— Continua crescendo. Estou esperando acabar.
Thaleia ergueu uma das pedras.
— Esta.
A mãe pegou.
— Essa serve.
A menina sorriu.
— Eu sabia.
— Naturalmente.
A fome atravessara a conversa e saíra do outro lado sem exigir silêncio. Não porque tivesse sido pequena, mas porque já acontecera. A casa sobrevivera àqueles dias e agora precisava de muro, água, lenha e jantar.
— Alguém ajudou vocês?
A mulher escolheu outra pedra.
— Compramos cevada de Aison.
— Com quê?
— Azeite, lã e trabalho.
O machado de Damon não caiu.
A mãe percebeu.
— Ainda pensa na túnica?
— Não.
— Está pensando.
— Não estou.
Thaleia olhou para Zeus.
— Era vermelha.
Damon largou a cabeça para trás.
— Obrigado, Thaleia.
— De nada.
A mãe explicou:
— Eu estava guardando lã para uma túnica dele.
— Eu não precisava.
— Precisava. A velha fazia você parecer um espantalho.
Thaleia acrescentou:
— Ainda parece.
Damon apontou o machado para a irmã.
— Você nem sabe o que é espantalho.
— Sei.
— O que é?
Ela pensou.
— Damon.
A mãe riu.
Zeus também.
O garoto pegou dois pedaços de lenha.
— Vou trabalhar mais longe.
— Ótimo. Volte com todos os dedos.
Ele se afastou.
A mulher sentou de novo.
— Agora fica ofendido até a comida.
— Por causa da lã?
— Por causa da irmã.
— Talvez pelos dois.
— Talvez.
Ela esticou as pernas.
— Dei a lã, um jarro de azeite, três dias meus e um de Orestes.
— Por um cesto de cevada?
— Cheio até a borda.
— Foi caro.
— Aison diria que saiu barato.
— E você?
A mulher olhou para a casa.
— Eu diria que comemos.
Zeus não encontrou resposta melhor que o silêncio.
Ela se levantou e voltou ao muro. Thaleia passou a oferecer pedras, quase sempre erradas. Na terceira tentativa, a mãe aceitou uma sem comentar. A menina percebeu e sorriu para si mesma.
Orestes retornou quando o sol já passava do alto.
Zeus o viu surgir no caminho com uma enxada sobre o ombro e um pequeno saco preso ao cinto. Thaleia o percebeu logo depois.
— Pai!
O homem baixou a ferramenta antes que a filha o alcançasse e a ergueu do chão. Thaleia se agarrou ao pescoço dele.
— Tem um homem aqui.
— Eu vi.
— Ele consertou o muro.
— Então pode ficar.
A mulher cruzou os braços.
— Interessante.
O homem colocou a filha no chão.
— Myrine.
O nome chegou sem aviso.
Zeus voltou-se para ela.
Myrine.
Ela já se virava para o marido.
— O quê?
— Você deixou um estranho mexer no muro.
— Ele não derrubou.
— Já está acima do padrão da família.
Thaleia protestou:
— Foi só uma parte.
Myrine apontou para a menina.
— Uma parte sobre a qual seu pai ainda não conhece todos os detalhes.
Orestes considerou aquilo e decidiu não perguntar.
Agora Zeus reconhecia o nome.
Myrine não fizera uma oração que se destacasse entre milhares. Mas seu nome passara pelas vozes de outros: disputa de terra, colheita, homens enviados para verificar marcos, uma família que perdera uma faixa cultivada durante anos.
No Olimpo, fora pouco.
Ali havia uma figueira, duas crianças, um marido cansado, um muro malfeito e uma túnica vermelha que jamais existira.
Myrine apontou para o saco.
— Trouxe o quê?
Orestes abriu.
— Queijo.
Ela olhou.
— Isso é pagamento?
— Parte.
— Por quanto trabalho?
— Dois dias. Amanhã entra uma medida de cevada.
Myrine tornou a observar o queijo.
— Heges está ficando avarento.
— Diz que eu trabalho devagar.
— Heges anda devagar.
— Foi o que falei.
— E ele?
— Mandou eu trabalhar mais depressa.
Myrine pegou o saco.
— Homem coerente.
Orestes só então se aproximou de Zeus.
— Está em minha casa por quê?
— Sua mulher me deu água.
— Então já deve alguma coisa.
— Orestes.
— Estou brincando.
Zeus apontou para o muro.
— Ajudei ali.
Orestes examinou a parte reparada.
— Então a dívida está paga.
Myrine o chamou de novo:
— Orestes.
— O quê?
— Ele ajudou mais do que bebeu.
O marido olhou para Zeus.
— Então coma.
Myrine ficou olhando para ele.
— Eu ia oferecer.
— Ofereça.
— Acabou de fazer.
— Poupei trabalho.
Ela tomou o saco de queijo das mãos dele.
— Vá lavar as mãos.
Orestes obedeceu.
Zeus poderia ter retomado a estrada.
Ficou.
A refeição era simples: pão, queijo, azeitonas, ervas e uma papa distribuída em tigelas. Myrine não encheu nenhuma delas demais. Thaleia observou a porção de Zeus e depois a própria.
— A dele tem mais.
— Ele é visita.
— Eu moro aqui.
— Por isso também come amanhã.
Thaleia olhou para Zeus.
— Ele não?
Damon respondeu:
— Se continuar perguntando tanto, talvez.
Zeus olhou para o garoto. Damon estava com a atenção na tigela, mas sorria.
Orestes perguntou:
— Perguntando o quê?
— Sobre a terra.
A mão do homem parou perto do pão.
Myrine sentou.
— É viajante. Viajante pergunta.
— Alguns perguntam mais.
Zeus disse:
— Posso deixar o assunto.
Orestes olhou para a esposa.
Myrine deu de ombros.
— A terra não desaparece porque paramos de falar dela.
O marido voltou a comer.
Durante alguns minutos, Thaleia dominou a conversa. Contou ao pai que escolhera a pedra correta para o muro. Damon explicou que ela escolhera uma certa depois de várias erradas. Thaleia sustentou que a última continuava contando. Orestes ficou do lado dela.
Myrine acusou o marido de premiar métodos ruins.
Uma cabra apareceu na porta e tentou roubar um pedaço de pão deixado sobre uma pedra.
Thaleia gritou.
Damon chegou primeiro e agarrou o animal pelo pescoço.
— Eu falei que ela queria meu pão.
Orestes comentou:
— Tem bom gosto.
— Pai.
— Solta lá fora.
Damon começou a arrastar a cabra, que resistiu desde o primeiro passo.
Myrine sorriu enquanto comia.
Não havia esforço naquele sorriso. Ninguém naquela casa parecia empenhado em provar a um estrangeiro que continuavam felizes apesar do que haviam perdido. A alegria simplesmente ainda aparecia quando tinha motivo.
Quando Damon voltou, Zeus perguntou a Orestes:
— Vocês cultivam hoje a mesma quantidade de terra?
— Não.
— Quanto perderam?
Orestes apontou com o pão para o outro lado da estrada.
— Aquela faixa.
Myrine corrigiu:
— Ele perguntou quanto.
O marido voltou-se para ela.
— Quer que eu saia com corda e meça?
— Quero que responda.
Orestes mastigou antes de fazê-lo.
— Quase um terço do que plantávamos.
Era mais do que Zeus imaginara.
— Conseguiram compensar em outro lugar?
— Um pouco. Plantei mais acima neste ano.
Myrine acrescentou:
— Em terra pior.
— Ainda é terra.
— Pedra também vira terra se cavar bastante.
Orestes apontou para Thaleia.
— Não dê ideia.
A menina levantou a cabeça.
— O quê?
— Coma.
Zeus perguntou:
— Por isso trabalham mais fora?
Orestes entendeu.
— Sim.
— Muito?
— O suficiente para Myrine reclamar.
Ela passou o pão pela papa.
— Eu reclamava antes.
— Agora tem justificativa.
— Antes também tinha.
Orestes sorriu, mas logo voltou a atenção para a tigela.
— Trabalho fora põe comida aqui. Também tira braço daqui.
Apontou para Damon.
— Ele ajuda mais.
O rapaz deu de ombros.
— Eu já ajudava.
Myrine não deixou passar.
— Agora ajuda mais.
Damon não discutiu.
Zeus já tinha visto os sinais. O machado um pouco pesado demais. O muro esperando três dias. Orestes cedendo dias a Heges. Os dias de Myrine dados a Aison. Cada manhã trabalhada em outra propriedade era uma manhã ausente daquela.
Zeus perguntou:
— Licaão sabia que vocês perderiam a colheita junto com a terra?
Orestes respondeu primeiro:
— A decisão dizia que a terra e tudo que estava nela passavam com o direito.
Myrine mexeu a papa com a colher.
— Então sabia.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei.
Orestes olhou para Zeus.
— O rei ouviu uma disputa de terra. Não veio aqui contar nossos potes.
Myrine ergueu os olhos.
— Ninguém falou que veio.
— Parece que está falando.
— Para quem?
Orestes não respondeu.
Thaleia acompanhava os pais de um lado para o outro. Damon também.
Myrine percebeu.
— Comam.
Os filhos obedeceram.
Por algum tempo.
Orestes voltou ao assunto em voz mais baixa:
— O irmão de Demas tinha direito.
— Tinha.
— Os marcos estavam lá. Havia gente que lembrava.
— Eu sei.
— Então o que o rei devia ter feito?
Myrine partiu uma azeitona entre os dedos.
— Não sei.
Orestes pareceu sinceramente surpreso.
— Você sempre sabe.
— Dessa vez, não.
Ela comeu metade da azeitona.
— Talvez desse a terra a eles e deixasse a colheita conosco.
— Eles diziam que a colheita acompanhava a terra.
— Eu sei o que disseram.
— Então…
Myrine largou o caroço.
— Orestes, eu não sou rei.
A conversa parou ali, embora o problema continuasse inteiro sobre a mesa.
Zeus olhou para ela.
Myrine não estava tentando transformar uma decisão difícil em coisa simples. Isso tornava mais difícil descartá-la como ressentimento de quem perdera.
— Você considera Licaão injusto?
Ela o encarou.
— Você pergunta demais mesmo.
— Pergunto.
Orestes soltou uma risada baixa.
Myrine bebeu água antes de responder.
— Meu sogro usou aquela terra porque Demas deixou. Depois Demas morreu. Nós continuamos plantando. O irmão voltou. Tinha o sangue da família, homens que lembravam os marcos e uma pedra que continuava onde sempre esteve.
Pousou a taça.
— Se Licaão tivesse dado a terra a nós, agora era a outra família que estaria contando esta história para algum estranho.
Zeus não esperava a resposta.
Orestes olhou para a tigela.
Myrine continuou:
— É a parte que eu consigo admitir.
— E a outra?
Ela olhou para o campo vazio.
— Damon arrancou erva de lá. Orestes levou estrume com a perna inchada. Eu plantei. E, quando faltou comida, vendi azeite, lã e dias de trabalho enquanto a nossa cevada crescia do outro lado do caminho.
Voltou a encará-lo.
— Essa parte também existe.
Ninguém falou.
Thaleia levantou a colher.
— Posso pegar mais?
Myrine olhou para a panela.
— Um pouco.
A menina já estava de pé.
— Um pouco.
— Eu ouvi.
— Sua ideia de pouco muda quando está segurando a colher.
Thaleia serviu-se.
Myrine tirou metade de volta.
— Viu?
— Isso é quase nada.
— Então vai ser fácil comer.
A menina voltou ao lugar contrariada.
A conversa passou para Heges, uma cabra que talvez estivesse prenhe, o telhado e um homem que devia dois dias de trabalho a Orestes e parecia desenvolver perda de memória sempre que a dívida era mencionada.
Ninguém tornou a falar de Licaão durante a refeição.
Zeus não perguntou mais.
Já havia ouvido o suficiente naquela mesa.
Orestes voltou ao trabalho pouco depois. Damon o acompanhou para a parte alta da propriedade. Thaleia recebeu a tarefa de buscar água.
Myrine entregou-lhe a jarra.
— Sem derrubar.
— Nunca derrubei água.
Já distante, Damon gritou:
— Porque eu carregava metade!
— Mentira!
Thaleia correu atrás do irmão e só depois de alguns passos lembrou que a fonte ficava na direção oposta.
Myrine observou.
— Vai voltar quando perceber.
Zeus recolheu duas tigelas.
— E se não perceber?
— Fica com sede.
Levou os recipientes até a jarra.
Myrine tomou um deles.
— Não precisa ajudar.
— Eu sei.
Ela deixou.
Lavava usando pouca água, molhando o necessário e aproveitando o mesmo fio para mais de uma tigela.
— Vai seguir viagem hoje?
— Vou.
— A estrada maior reaparece depois da elevação. Se passar junto ao campo de Kleon, encurta o caminho.
Zeus olhou para a faixa colhida.
— Kleon é da família que ficou com a terra?
— Filho do homem que a reclamou.
— Ainda moram perto?
Myrine começou a empilhar as tigelas.
— Sempre moraram na região. O pai voltou para reclamar uma coisa que considerava da família. Não caiu de outro mundo só para nos prejudicar.
Ela pegou outro recipiente.
— Kleon separou parte da colheita para nós quando cortaram.
Zeus voltou-se.
— Vocês aceitaram?
— Claro.
A resposta veio imediata.
— Pensei que talvez recusasse.
Myrine o encarou.
— Por quê?
— Orgulho.
Ela apoiou as tigelas na mesa.
— Orgulho enche barriga?
Zeus sorriu.
— Depende do homem.
— Nesta casa já tenho Damon. Não precisamos alimentar outro.
Pegou a cesta vazia.
— Kleon não era obrigado a separar. O pai dele não gostou. Ele fez mesmo assim.
— Isso mudou o que pensa da decisão?
— Não.
— De Kleon?
Myrine pensou por alguns passos.
— Um pouco.
Foram até a parte de trás da casa, onde um espaço cercado mantinha a cabra. O animal viu a cesta vazia e imediatamente enfiou o focinho nela.
Myrine empurrou-o.
— Você já comeu.
A cabra insistiu.
— Não use a defesa de Damon.
Zeus perguntou:
— E as estradas?
Myrine olhou para ele como se a pergunta tivesse aparecido de outra conversa.
— O que têm?
— Ouço que estão melhores.
— Algumas estão.
— E mais seguras.
— Também dizem isso.
— Não acredita?
Myrine conferiu a estaca da cabra.
— Orestes foi trabalhar em Heges antes do amanhecer e, algum dia desta semana, vai voltar depois do sol baixar. Eu prefiro que ninguém corte a garganta dele na estrada.
Zeus aguardou.
Ela puxou o nó da corda.
— Está esperando que eu diga que gostaria que as estradas voltassem a ser ruins só porque perdemos a terra?
— Não.
— Ainda bem. Seria estupidez.
Testou a corda.
— Licaão mandou reparar a passagem perto do rio no ano passado. Ficou melhor. Antes, uma carroça atolava ali sempre que chovia direito.
— Então há coisas pelas quais agradeceria a ele.
Myrine parou de mexer na corda.
— Você tem interesse demais em agradecimento.
— Ontem ouvi bastante.
— Então devia estar satisfeito.
A corda estava gasta. Ela virou-a entre os dedos.
— Um rei pode acertar uma estrada sem ser bom em tudo.
Testou outra parte da fibra.
— E pode mandar tirar uma colheita sem errar em tudo.
A corda começou a se desfazer entre os dedos.
Myrine ergueu a voz:
— Damon!
Nada.
— DAMON!
A resposta veio distante:
— O quê?
— A corda da cabra!
— O que tem?
— Venha descobrir!
Um gemido de adolescente atravessou a propriedade.
Myrine olhou para Zeus.
— Esse é o governo que realmente dá trabalho nesta casa.
Zeus riu.
Ela também.
Antes de partir, ele voltou à jarra. Thaleia ainda não regressara com água, e a segunda vasilha já estava pela metade. Zeus bebeu pouco.
Myrine percebeu.
— Pode pegar mais.
— Precisa durar até ela voltar.
— Se demorar, mando Damon buscar.
— Vai reclamar.
— Por isso mesmo.
Zeus cobriu a jarra.
Myrine pegou alguma coisa de uma prateleira presa à parede externa: um pedaço de pão, já duro de um lado.
Caminhou até uma pedra baixa junto à oliveira.
Zeus reconheceu o gesto antes que ela terminasse.
Não havia solenidade.
Myrine pousou o pão sobre a pedra e tocou-a com dois dedos.
— Por Orestes voltar inteiro.
Acrescentou:
— E pelos dois não derrubarem a água.
Zeus estava a poucos passos.
Ela se virou.
— Não ria.
— Não ri.
— Pensou.
— Talvez.
Myrine apontou para o pequeno pedaço de pão.
— Os deuses podem cuidar de duas coisas.
Zeus acompanhou o gesto.
— Talvez possam.
— Espero. Não vou gastar duas oferendas.
Ela voltou para o muro.
Não pedira a terra de volta. Não pedira punição contra Licaão, nem vingança contra Kleon. Queria o marido vivo ao fim do caminho e a água chegando inteira da fonte.
Zeus permaneceu diante da oferenda por um momento.
Poderia responder.
O pão poderia desaparecer numa chama que não queimasse a pedra. Um trovão poderia partir o céu limpo. A oliveira poderia florescer fora da estação. Bastava um gesto, e Myrine contaria aquele dia até a velhice de forma diferente.
Ele não fez nada.
Quando se virou, ela já tentava arrastar outra pedra para o trecho do muro.
Zeus apontou.
— Essa também não entra.
Myrine levantou o rosto.
— Vá embora.
— É larga.
— Estrangeiro.
— Use a menor perto do cesto.
Myrine pegou a outra pedra.
Testou.
Entrou.
Levantou a cabeça.
Zeus já caminhava.
— Irritante! — gritou ela.
Ele ergueu uma mão sem olhar para trás.
O caminho indicado por Myrine passava ao lado da antiga faixa da família. A colheita terminara, e alguns homens recolhiam palha. Zeus reconheceu Kleon pela descrição antes de ouvir outro trabalhador chamá-lo: jovem, ombros largos, pequena cicatriz no queixo.
Kleon carregava um feixe quando Zeus passou.
Cumprimentou-o com um aceno de cabeça.
Zeus respondeu e continuou.
Mais adiante, o terreno subia. Quando chegou ao ponto alto, olhou para trás.
A casa de Myrine parecia pequena na encosta. A figueira permanecia ao lado da porta; o muro, ainda incompleto. Diante da casa estendia-se a faixa que durante onze anos pertencera à vida daquela família e agora pertencia legalmente a outra.
Mais longe, a estrada principal aparecia entre as elevações.
Uma carroça avançava por ela.
Depois outra.
Mesmo a distância, Zeus escutava o atrito das rodas.
Alguma mercadoria chegaria ao destino. Talvez um homem voltasse para casa depois do escurecer sem precisar pagar guardas.
Na propriedade abaixo, Damon apareceu trazendo a corda nova — ou alguma coisa que pretendia convencer a mãe de que poderia servir como uma. Myrine apontou para a estaca. O garoto respondeu algo que Zeus não conseguiu ouvir. Ela respondeu mais alto.
Thaleia surgiu no caminho da fonte com a jarra.
Sozinha.
Andava devagar demais para uma criança que costumava correr.
A água chegaria quase inteira.
Zeus retomou o caminho.
Primeiro o campo perdido desapareceu atrás da elevação. Depois a figueira. Por último, o teto da casa.
A estrada principal continuou visível por muito mais tempo.
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