Uma carroça carregada de jarros quebrados conseguiu fazer o que vinte homens armados talvez não fizessem: fechou a estrada inteira.

A roda traseira afundara num sulco endurecido e o eixo se partira junto ao encaixe. Dois jarros haviam sobrevivido à queda. O restante da carga espalhava vinho, palha e cacos de barro pela passagem estreita entre a encosta e o barranco. O líquido escorria pelas pedras em fios escuros, e o cheiro adocicado chegava antes da própria carroça.

Mélas estava parado diante do estrago, as mãos na cintura.

— Se isso for presságio, espero que signifique que devemos voltar.

Theron agachou-se junto à roda. A madeira rachara de lado a lado.

— Desde quando acredita em presságios?

— Desde que algum deles possa me poupar de subir esta montanha.

— Faça uma oferenda.

Mélas indicou com o queixo o vinho espalhado pelo caminho.

— Parece que alguém já providenciou.

O carroceiro, um homem de barba curta e túnica manchada até os joelhos, não achou graça.

— Era vinho de Tegea.

Mélas perdeu parte da disposição para brincar.

— Então lamento sinceramente.

Theron passou os dedos pela madeira partida. Não havia reparo rápido ali. O eixo precisaria ser retirado, reforçado ou substituído, e nenhum deles viajara com tempo para esperar.

Atrás, seis soldados aguardavam com escudos presos às costas e lanças apoiadas nos ombros. Duas mulas levavam cordas, ferramentas e as provisões. Níctimo estava junto dos homens e, até então, não reclamara uma única vez da subida.

Theron desconfiava de jovens que não reclamavam de estrada. Em geral, significava que ainda tinham energia suficiente para fazer perguntas.

— Quanto vai demorar? — perguntou Níctimo.

— O conserto? Até amanhã, se ele tiver sorte.

— Quero dizer para abrirmos passagem.

O carroceiro se adiantou.

— Não vão empurrar minha carroça para o barranco.

Theron se levantou.

— Primeiro tire os dois jarros inteiros.

— Preciso descarregar o que sobrou.

— O que sobrou está quebrado.

— Ainda tem madeira, palha, corda…

Theron examinou novamente a estrada. À esquerda, pedra e arbustos subiam quase na vertical. À direita, o terreno descia abrupto até um fio de água no fundo. Nem homem a pé passaria com conforto ao lado da carroça; as mulas, de modo algum.

— Separe o que consegue carregar. Depois tiramos a carroça daqui.

O homem acompanhou o olhar de Theron até o barranco.

— Ela é minha.

— Eu sei.

— Posso consertar o eixo.

— Hoje?

O carroceiro tocou a madeira partida. Não respondeu.

— Amanhã talvez — admitiu.

— Então hoje a estrada continua fechada.

Níctimo se aproximou da traseira.

— Se levantarmos deste lado e puxarmos contra a encosta, talvez deixe espaço.

Theron mediu a largura.

— Para uma pessoa, talvez. Para as mulas, não.

— E se tirarmos uma roda?

— Teremos uma carroça sem roda bloqueando quase a mesma estrada.

Mélas observava a discussão com crescente diversão.

— Podemos passar a manhã inteira nisso. Daqui a pouco Agelau aparece e dá um nome grego importante para o problema.

Níctimo riu.

Theron também teria rido, se não quisesse estar em Kynos antes de o sol subir mais.

— Dois homens ajudam o carroceiro a salvar o que presta. Os outros pegam corda.

O dono da carroça aproximou-se de Theron.

— Comandante…

— Vou tentar deixar a madeira num lugar onde você consiga recuperar depois. Se ficarmos consertando o eixo aqui, perde o dia e talvez a carroça quando a roda escorregar outra vez.

O homem olhou para o barranco, depois para os jarros.

— E os quebrados?

Mélas tossiu.

Theron fingiu não ouvi-lo.

— Salve o que ainda é jarro.

Levaram quase meia hora.

Os dois recipientes intactos foram retirados e colocados junto à encosta. Juntaram cordas, pedaços de madeira e tudo que ainda pudesse servir. Depois amarraram o corpo da carroça.

Theron puxou com três soldados e o próprio dono. A madeira rangeu quando a roda enterrada saiu do sulco.

— Agora. Empurrem.

Dois homens pressionaram a lateral.

A carroça inclinou-se.

O dono soltou um ruído baixo, quase um protesto, mas continuou segurando a corda. No esforço seguinte, a roda ultrapassou a borda. O veículo caiu poucos côvados, bateu numa pedra e ficou preso entre arbustos. O eixo terminou de partir.

Mélas espiou lá para baixo.

— Pelo menos não vai mais bloquear ninguém.

O carroceiro encarou-o.

— Você não ajuda em nada.

— Essa opinião tem tradição.

Theron soltou a corda. O suor já se acumulava sob a túnica apesar da manhã ainda jovem.

Antes de partir, retirou do cinto uma pequena peça de bronze e a entregou ao homem.

Não pagaria uma carroça. Talvez comprasse madeira suficiente para um eixo.

Mélas esperou até retomarem a subida.

— Isso não fazia parte da ordem.

— Não.

— Quer que eu informe ao rei que seu comandante distribui bronze pelas estradas?

— Informe.

— Posso acrescentar que chorou pelo vinho?

— Desde que diga que era de Tegea.

Mélas sorriu e a marcha continuou.

Por alguns minutos, só se ouviram sandálias contra terra, o ruído das correias e os insetos escondidos na vegetação seca. Theron conhecia aquela região razoavelmente bem. A aldeia de Kynos ficava além da próxima elevação, espalhada em torno de uma fonte e de dois campos maiores. Pouco mais de quarenta famílias, dependendo de quantas pessoas alguém precisava reunir sob um mesmo nome para chamá-las de família.

Pastores nas encostas. Cevada mais abaixo. Algumas oliveiras.

Cabras demais.

Havia três dias, porém, nenhum homem de Kynos aparecera para cumprir a obrigação de trabalho na estrada do leste.

No primeiro dia, o encarregado esperara.

No segundo, enviara um mensageiro.

No terceiro, o mensageiro voltara com um ombro ferido e uma história sobre pedras. Uma delas acertara a mula, que reagira muito pior que o homem.

A ordem de Licaão chegara naquela manhã.

Theron pedira que fosse repetida.

A aldeia perderia, durante uma lua, o direito de usar a pastagem real acima do bosque. Vinte cabras seriam recolhidas como compensação pelo trabalho recusado e pelo ataque ao mensageiro. Doze homens de Kynos seriam levados para cumprir os dias de estrada que a aldeia negara.

Sem execução. Sem casa incendiada. Sem mutilação.

Theron já recebera ordens piores.

Mesmo assim, oito homens entrando numa aldeia para levar animais e trabalhadores raramente produziam gratidão.

Níctimo alcançou-o.

— Eles já sabem que estamos indo?

— Um mensageiro com a sentença saiu antes de nós.

— Então sabem.

— Se ele chegou.

Mélas respondeu de trás:

— Depois da carroça, não colocaria minha fé em estrada alguma.

Níctimo ignorou-o.

— Você acha que vão resistir?

Theron continuou andando.

— Alguns podem estar com raiva. É diferente de resistir.

— E se passarem da raiva?

— Vai depender do que fizerem.

Níctimo aumentou o passo.

— Theron, meu pai mandou buscar homens e cabras. Não mandou ferir ninguém.

Theron parou e deixou os soldados avançarem alguns passos. Falou apenas quando havia espaço suficiente para que a conversa não se tornasse assunto de toda a coluna.

— Se gritarem, gritam. Se se recusarem a entregar os animais, nós os recolhemos. Se tentarem impedir, afastamos. Se alguém puxar uma faca, eu não vou pedir aos meus homens que esperem para descobrir se pretende usar.

— Então pode haver mortos.

— Pretendo voltar sem nenhum.

— Pretende.

Theron suportou o olhar.

— Já entrou numa aldeia irritada com seis soldados para levar vinte cabras e doze homens?

— Não.

— Eu já. Ordem nenhuma diz qual homem vai cuspir num soldado, qual mulher vai agarrar uma corda ou qual rapaz vai decidir que uma faca pequena não conta como arma porque está com medo.

Níctimo absorveu aquilo.

— Então temos de impedir que chegue até aí.

— É o plano.

— Como?

Theron retomou a subida.

— Quando vir a aldeia, talvez consiga me dizer.


O mensageiro chegara.

Theron percebeu antes mesmo de atravessarem as primeiras casas.

Ninguém trabalhava nos campos.

Homens estavam reunidos perto da fonte. Mulheres permaneciam mais próximas das casas, algumas com crianças ao lado. As cabras tinham sido conduzidas para dois cercados maiores.

Aquilo exigira tempo.

E organização.

Um dos soldados murmurou:

— Eles já fizeram metade do nosso trabalho.

Theron ergueu uma mão sem olhar para trás.

Mélas aproximou o cavalo. Era o único montado; alegava que um conselheiro quebrado no meio de uma montanha seria menos útil que um conselheiro preguiçoso sobre um cavalo.

— Reunir os animais pode facilitar — comentou.

— Ou significar que pretendem impedir que toquemos neles.

— Você encontra desastre até em cercado de cabra.

— É por isso que você veio.

— Pensei que fosse por minha conversa.

Theron já não escutava.

No centro do grupo estava um homem velho, mas sólido, de barba branca curta e bastão na mão. Três homens mais jovens ocupavam o espaço ao redor dele. Havia também uma mulher de cabelos presos por uma faixa escura.

Nenhuma arma visível.

Theron nunca decidia se isso era bom.

Parou a uma distância suficiente para falar sem se deixar cercar.

— Quem responde por Kynos?

O velho deu um passo.

— Hoje, eu.

— Nome?

— Eryx.

— Recebeu a decisão do rei?

— Recebi palavras de um homem que disse falar por ele.

Mélas retirou do manto a pequena tábua selada.

— Então agora também recebe o selo.

Eryx examinou o objeto sem estender a mão.

— Sei reconhecer a marca de Licaão.

— Melhor. Economizamos uma explicação.

Mélas entregou a tábua a Theron.

O comandante a ergueu.

— A decisão é esta: durante uma lua, os rebanhos de Kynos ficam fora da pastagem real acima do bosque. Vinte cabras serão entregues à casa. Doze homens vêm conosco para cumprir os dias de trabalho devidos na estrada do leste.

As vozes começaram imediatamente.

Uma mulher gritou atrás do grupo:

— E o gado come o quê enquanto isso? Pedra?

Eryx levantou o bastão até os murmúrios baixarem.

— Nossa gente usa aquela pastagem desde antes de Licaão nascer.

— Continua pertencendo à casa real.

Eryx bateu a ponta do bastão no chão.

— A montanha nunca soube disso.

Mélas inclinou-se discretamente na sela.

— As montanhas têm péssimo respeito por selos.

Theron lançou-lhe um olhar.

Mélas decidiu estudar as próprias rédeas.

Eryx continuou:

— Não mandamos homens para a estrada porque precisamos deles aqui. Perdemos dois rebanhos para doença nesta estação.

Theron sabia de doença.

Não de dois rebanhos.

Olhou rapidamente para Mélas. O conselheiro confirmou com um pequeno gesto.

— Informaram isso quando receberam a obrigação?

— Dissemos ao homem que veio contar quantos braços tínhamos.

— Ele levou o pedido ao rei?

Eryx respondeu com impaciência:

— Quando querem nossos homens, ele é homem do rei. Quando queremos que leve nossas palavras, deixa de ser?

Alguns aldeões riram.

Theron não tentou impedir.

— Depois disso, um mensageiro foi apedrejado.

— Dois rapazes jogaram pedra.

— Uma atingiu o homem. Outra, a mula.

— Nenhum osso quebrou.

— Porque tiveram sorte.

Um dos jovens junto de Eryx avançou um pouco.

— Ou boa pontaria.

Theron olhou para ele.

O rapaz conseguiu sustentar a provocação por alguns segundos.

Theron voltou-se para o velho.

— Vinte cabras. Doze homens.

— Não vamos entregar.

Eryx falou sem levantar a voz.

Aquilo preocupou Theron mais do que os murmúrios.

— Não subi até aqui para discutir se a ordem existe.

— Então por que perguntou quem fala por nós?

— Porque prefiro sair daqui com o que foi ordenado sem mandar meus soldados entrar nos cercados.

Eryx firmou o bastão no chão.

— Há pessoas dentro deles.

— Tire as pessoas.

— Os animais são nossos.

— Eu sei.

— Nossos filhos vivem do leite.

Theron não desviou.

— Também sei.

Eryx pareceu esperar discussão, justificativa ou ameaça. Não recebeu nenhuma.

Theron indicou os cercados.

— Escolham as vinte.

A mulher de faixa escura falou:

— Isso é escolha?

— É alguma escolha.

— Muito generoso.

— Não vim ser generoso.

Ela se calou.

Mélas aproximou o cavalo alguns passos.

— Eryx, a estrada do leste também serve a Kynos. Quando o vale alaga, vocês usam aquele caminho para levar rebanho. Sal chega por ali. Grão também. Não foi aberta para entreter o rei.

— Não precisa me explicar estrada.

— Então sabe por que todas as aldeias receberam dias de trabalho.

— E nós avisamos que não podíamos entregar homens agora.

— Atirando pedras no mensageiro.

— Dois rapazes atiraram.

— E quarenta famílias decidiram que o assunto acabava aí.

O jovem que falara antes avançou.

— Vinte cabras por duas pedras?

Theron se voltou para ele.

— Foi você?

O silêncio entregou a resposta antes que o rapaz falasse.

— Uma delas?

Ele olhou para Eryx.

Theron caminhou em sua direção.

A aldeia se mexeu.

Os soldados também.

— Ninguém sai do lugar.

A ordem serviu aos dois lados.

Theron parou diante do jovem.

— Nome.

— Phorbas.

— Você acertou o mensageiro?

— Acertei.

— Por quê?

— Veio dizendo que iam levar homens de qualquer jeito.

— E você achou que uma pedra mudaria isso.

Phorbas deu de ombros.

— Talvez mudasse.

— Quantos anos tem?

— Dezenove.

— Suficiente para responder pelo que arremessa.

Phorbas olhou para a lança nas mãos de um soldado.

— Uma lança também não conversa.

Theron acompanhou o olhar.

— Não. E hoje ela está aqui porque sua pedra chegou primeiro.

O rapaz não respondeu.

Theron voltou para Eryx.

— Phorbas vai entre os doze.

— Não vai.

— É homem da aldeia e participou do ataque.

— Está escolhendo porque ele abriu a boca.

— Estou escolhendo porque acertou o mensageiro.

Eryx apontou para a tábua.

— O rei mandou você escolher nomes?

Theron não respondeu de imediato.

Mélas interveio:

— Mandou que doze homens fossem levados.

— Então nós entregamos os doze.

Mélas olhou para Theron.

Havia uma saída ali.

Theron aceitou.

— Escolham vocês.

Eryx ficou quieto. A mulher tocou-lhe o braço e os dois começaram uma discussão em voz baixa.

Se Kynos entregasse doze homens e vinte animais sem lâmina sacada, Theron consideraria a viagem um sucesso.

Níctimo aproximou-se enquanto os aldeões discutiam entre si.

— Vai mesmo deixar que escolham?

— Vou.

— Meu pai disse isso?

— Seu pai disse doze.

— E se entregarem os mais fracos?

— Então a estrada manda alguns de volta.

— E você aceita que escolham as cabras também?

— Aceito.

Níctimo observou o cercado.

— Isso torna a punição menor.

Theron virou-se para ele.

— Eles continuam perdendo vinte animais e doze homens por vários dias.

— Podem entregar os animais que fazem menos falta.

— Melhor para eles.

— Então estamos alterando a sentença.

Mélas chegou ao lado dos dois.

— Seu pai quer a estrada trabalhada e vinte cabras recolhidas. Não quer Theron passando a tarde apalpando úbere para decidir qual animal produz mais leite.

Níctimo olhou para o conselheiro.

— Você sabe que ele pensa assim ou espera?

Mélas fez uma careta.

— Está ficando parecido demais com seu pai.

— Ele faria a pergunta melhor.

— Exatamente.

A discussão dos aldeões terminou antes que Mélas encontrasse outra resposta.

Escolheram os homens rapidamente.

As cabras demoraram.

Theron compreendeu o motivo antes da décima. Os homens voltariam. Os animais, provavelmente não.

A mulher da faixa escura entrou no cercado com mais dois aldeões. Pegavam uma cabra, examinavam dentes, pernas, úbere, discutiam e só então separavam.

Na décima terceira, um soldado murmurou:

— Se continuarem assim, vamos dormir aqui.

Theron respondeu:

— Então agradeça por não estar escolhendo.

O homem calou.

Níctimo conversou por alguns momentos com Eryx. Theron não tentou ouvir.

Na décima oitava cabra, surgiu o primeiro problema sério.

Uma menina correu para dentro do cercado e agarrou o pescoço de um animal pequeno, de focinho branco.

— Essa não!

A mulher da faixa escura fechou os olhos.

— Ione, saia daí.

— Ela é minha.

Um soldado deu um passo.

Theron o deteve.

— Espera.

A menina encarou-o por cima do pescoço da cabra. Tinha lágrimas no rosto, mas segurava o animal com força.

Theron perguntou à mulher:

— Está entre as escolhidas?

— Está.

— Por quê?

— Não está prenhe e dá pouco leite.

Ione apertou a cabra contra o peito.

— Dá para mim.

Ninguém riu.

A mulher entrou no cercado.

— Filha, solta.

— Não.

— Precisamos entregar vinte.

— Entrega outra.

— As outras—

— Outra!

A cabra se assustou e puxou o pescoço. Ione quase caiu.

Theron examinou os animais restantes.

Não sabia qual estava prenhe. Não sabia qual dava leite suficiente para uma casa. Não sabia que cabra tinha sido criada por outra criança.

Era justamente por isso que havia deixado a aldeia escolher.

Agora a escolha estava diante dele com nove ou dez anos e os braços em volta de um animal.

Níctimo falou perto de Theron:

— Troque.

A mulher olhou para ele.

— Senhor?

— Escolha outra cabra.

Theron não interferiu de imediato.

A mulher explicou:

— As outras podem estar prenhes. Ainda não temos certeza.

— Nenhuma que não esteja?

Eryx respondeu:

— Não se sabe assim tão cedo em todas.

Níctimo apontou para o cercado.

— Há mais de cinquenta.

— E todas têm algum valor.

— Aquela também.

Eryx olhou para Ione.

— Para ela, muito.

Níctimo ficou quieto.

Theron disse:

— São vinte, Níctimo.

— Eu sei. Estou pedindo outra.

— Outra sai de outra casa.

Níctimo olhou para os animais.

Theron prosseguiu:

— Talvez dê mais leite. Talvez esteja prenhe. Talvez outro menino cuide dela desde pequena. Não há animal sem custo esperando num canto só porque ninguém está abraçado nele.

A raiva de Ione começava a ceder ao medo.

— Então não temos escolha — disse Níctimo.

A mãe da menina respondeu antes de Theron.

— Ione.

Ela se ajoelhou diante da filha.

— Solte.

— Pai me deu.

A mulher parou por um instante.

Theron perguntou:

— Onde está o pai?

— Morreu no inverno.

Mélas ficou em silêncio ao lado deles.

A mulher falou alguma coisa no ouvido da menina. Theron não ouviu. Não tentou.

Demorou até os braços de Ione se soltarem.

A cabra foi conduzida para fora.

A menina correu para casa.

Níctimo acompanhou-a até desaparecer.

A vigésima cabra foi escolhida pouco depois.

Os doze homens estavam prontos antes do meio-dia.

Phorbas estava entre eles.

Eryx o incluíra por decisão própria.

Theron registrou isso.

Os animais foram amarrados em pequenos grupos. A punição estava praticamente executada quando um soldado gritou:

— Para trás!

Theron virou-se.

Um homem agarrara a corda de três cabras e tentava soltá-la. O soldado o empurrou. Ele caiu, levantou-se e puxou uma faca.

Duas lanças baixaram imediatamente.

Theron correu.

— Ninguém se mexe!

O homem da faca estava a poucos passos de um soldado.

— Largue.

— Essa é minha.

— A faca.

— Minha mulher—

— Largue.

Ele respirava depressa. Não tinha a postura de alguém preparado para lutar. Parecia um homem encurralado.

Theron conhecia bem esse tipo de perigo.

— Doro! — gritou Eryx. — Guarde isso!

— Levaram as duas!

Theron olhou para as cabras e depois para a mulher de faixa escura.

Ela empalideceu.

— As duas o quê?

Doro respondeu:

— As duas que dão leite para minha casa.

A mulher protestou:

— Eu precisava chegar a vinte.

— Você sabia quais eram!

— E devia escolher quais? As minhas?

— Meus filhos—

— Os meus também comem!

A aldeia explodiu em vozes.

Theron sacou a espada apenas o suficiente para que o bronze aparecesse.

— Silêncio!

Os mais próximos recuaram.

Ele manteve a lâmina apontada para o chão.

— Doro. Entregue a faca.

O homem continuava olhando para as cabras.

— Meu filho tem quatro anos.

— E continua tendo pai se você guardar essa lâmina.

Doro olhou para Níctimo.

— Senhor. Uma só. Devolva uma.

Níctimo respondeu antes de Theron:

— Podemos trocar.

Theron virou-se.

— Por qual?

Níctimo examinou o cercado.

— Pegamos outra.

— Qual casa perde no lugar dele?

O rapaz não respondeu.

Doro abaixou um pouco a mão da faca.

— Só uma.

— Meu pai não ordenou que tirássemos o leite das crianças — insistiu Níctimo.

— Ordenou vinte cabras.

— Então substituímos com uma do rebanho da casa quando voltarmos.

Theron ficou sério.

— Não.

— Eu posso autorizar.

— Não pode aqui.

Níctimo se aproximou.

— Sou filho do rei.

— E veio para observar a execução da ordem dele, não para pagar a sentença com os bens da casa depois que ela já foi dada.

— Estou vendo o que a ordem está fazendo.

— Então continue vendo.

Níctimo baixou a voz.

— Você chama isso de cumprir bem?

Theron sentiu a pergunta, mas não a respondeu.

Ainda havia um homem armado diante de seus soldados.

— Doro, guarde a faca.

Doro obedeceu.

Theron embainhou a espada.

— Uma das duas cabras volta para sua casa.

O alívio surgiu imediatamente no rosto do homem.

Theron continuou:

— E outra entra no lugar dela.

O alívio desapareceu.

Toda Kynos compreendeu ao mesmo tempo.

Outra família pagaria.

— Não — disse Níctimo.

Theron virou-se.

— Foi o que pediu.

— Pedi que ajudássemos aquela casa.

— E a única maneira de manter vinte é escolher outra.

Níctimo olhou para o cercado.

Ninguém falava agora.

Nem Eryx.

Nem Mélas.

Nem os soldados.

O rapaz caminhou até os animais. Cabras se empurravam, mordiam cordas, procuravam espaço, indiferentes à sentença, ao selo e às necessidades dos homens em volta.

Níctimo permaneceu ali por bastante tempo.

Depois voltou.

— Não sei qual escolher.

Theron chamou a mulher da faixa escura.

— Escolha.

Ela recuou.

— Não vou fazer isso outra vez.

— Eryx?

O velho balançou a cabeça.

— A aldeia já entregou vinte.

— Uma será devolvida.

— Então leve dezenove.

— A ordem é vinte.

— Então fique com as vinte que estão amarradas.

Doro tentou protestar.

Eryx virou-se para ele.

— Cale a boca.

Doro calou.

Theron olhou para Níctimo.

O rapaz retornou até Doro.

— As vinte ficam.

O homem ficou pálido.

Níctimo apontou para a mão dele.

— Entregue a faca.

— O quê?

— Você a puxou contra um soldado. Entregue.

Doro retirou a lâmina e, depois de alguma resistência, colocou-a na mão do príncipe.

Era uma faca comum, curta, com cabo de madeira.

Níctimo passou-a a Theron.

— Ele guardou quando recebeu a ordem.

Theron entendeu.

— Guardou.

— Coloque isso no relatório.

— Vou colocar o que aconteceu.

— Então coloque isso também.

Theron prendeu a faca ao próprio cinto.

Doro parecia não saber se deveria agradecer.

Níctimo não lhe deu espaço para isso.

Mélas aproximou-se de Theron quando o rapaz se afastou.

— Interessante.

— Não.

— Para mim foi.

— Você estava sentado num cavalo.

— Melhora bastante a qualidade da reflexão.

Theron lançou-lhe um olhar.

Mélas abandonou o humor.

— Licaão vai perguntar tudo.

— Eu sei.

— Inclusive por que você permitiu que escolhessem homens e animais.

— Ele pediu doze homens e vinte cabras. É o que terá.

Mélas balançou a cabeça.

— Já ouvi essa frase causar mais problema do que gostaria.

Theron observou Níctimo. O rapaz estava perto da fonte, lavando as mãos embora não houvesse sangue ou barro nelas.

— Ele tentou aliviar a punição.

— Tentou impedir que uma casa recebesse duas perdas iguais.

— Transferindo uma delas para outra casa.

Mélas acompanhou o olhar.

— Está aprendendo alguma coisa.

— O quê?

O conselheiro demorou.

— Pergunte daqui a alguns anos.


Partiram depois de o sol passar do ponto mais alto.

Os doze homens de Kynos caminhavam sem amarras.

Theron decidira que cordas só criariam problema. Eles não eram criminosos sendo levados para prisão; deviam dias de trabalho. Se resolvessem fugir pelas montanhas, seis soldados não os manteriam presos sem transformar a marcha numa perseguição.

Ainda assim, ao olhar para a coluna, Theron se surpreendeu pensando na palavra prisioneiros.

Não gostou.

As cabras avançavam pior que os homens. Duas empacavam continuamente. Uma tentou subir a encosta. Outra mordeu a barra da túnica de um soldado.

Mélas assistiu à cena.

— Finalmente alguém reagiu com coragem.

O soldado afastou a cabra.

— Leve no seu cavalo.

— Meu cavalo tem padrões.

Phorbas caminhava entre os aldeões. Passou perto o bastante para ouvir.

— Talvez o cavalo tenha.

Mélas virou o rosto para ele.

Theron aguardou a resposta.

— Gosto desse rapaz.

— Ele acertou um mensageiro com uma pedra.

— Todo mundo tem defeitos.

Aos poucos, Kynos ficou para trás.

A tensão não desapareceu de imediato, mas a distância ajudou. Theron percebeu que Níctimo caminhava mais devagar e esperou até que o rapaz o alcançasse.

— Cansado?

— Pensando.

— Pior.

— Para quem?

— Depende do pensamento.

Níctimo olhou para os homens de Kynos.

— Meu pai sabia dos rebanhos doentes?

Theron percebeu Mélas suficientemente perto para ouvir.

Níctimo também.

— Mélas.

O conselheiro soltou um suspiro.

— Eu sabia.

— Dos dois rebanhos?

— Sim.

— E recomendou a punição mesmo assim?

Mélas ajustou as rédeas.

— Recomendei que a recusa e o ataque ao mensageiro não ficassem sem resposta.

— Não foi isso que perguntei.

— Seu pai realmente lhe ensinou esse hábito cedo demais.

Níctimo não sorriu.

Mélas percebeu que precisava responder de verdade.

— Considerei a doença quando discutimos a sentença.

— E achou adequado tomar vinte cabras?

— Achei que a estrada precisava ser terminada. As outras aldeias já tinham entregue seus dias. Se Kynos recusasse a obrigação e a única consequência fosse continuarem em casa, na semana seguinte teríamos três outras aldeias explicando por que também eram especiais.

— Mesmo se realmente tivessem motivo?

— Algumas teriam. Outras não.

— Então quem tem motivo paga porque os outros podem mentir?

— Não foi o motivo que puniu Kynos. Foi recusar o trabalho e atirar pedras no homem enviado para resolver a situação.

— Você torna tudo muito simples quando fala.

Mélas olhou para o caminho à frente.

— É parte do meu trabalho. Reis recebem problemas grandes demais para serem carregados inteiros. Alguém precisa separá-los em pedaços que possam ser decididos.

Theron guardou a frase.

Mélas percebeu.

— Não olhe assim.

— Assim como?

— Como quem vai usar isso contra mim numa reunião.

— Não preciso decorar nada. Você fala demais.

Mélas bufou.

Níctimo continuou:

— E se a punição tiver sido maior do que a recusa?

— Então calculamos mal.

— Só isso?

— O que quer que eu diga? Que os deuses descem e marcam numa tábua o número correto de cabras?

Níctimo não respondeu.

Mélas falou com menos ironia:

— A dificuldade é justamente essa. Seu pai decidiu que a estrada precisava de homens, que a recusa precisava de consequência e que matar alguém seria desproporcional. Posso defender tudo isso. O que não consigo provar é que vinte era o número perfeito.

Níctimo olhou para os animais.

— Então meu pai decidiu certo?

Mélas apontou para Theron.

— Pergunte ao soldado.

— Não me envolva.

— Covarde.

— Conselheiro.

— Soldado.

— Exatamente.

Níctimo finalmente riu.

Mélas prosseguiu:

— Seu pai decidiu que uma obrigação comum não pode depender da vontade de cada aldeia. Também decidiu que apedrejar um mensageiro exige resposta. Posso dizer por que essas decisões fazem sentido. Se quer saber se dezenove cabras seriam melhores que vinte, não tenho resposta.

— E vinte e uma?

— Pior para minha manhã.

Theron balançou a cabeça.

Chegaram à carroça quebrada perto do fim da tarde.

O dono ainda trabalhava no eixo, que agora estava novamente ao nível da estrada, reforçado com madeira e cordas.

Ao ver a coluna, olhou primeiro para as cabras.

— Compraram?

Mélas respondeu:

— Houve uma transação.

Theron virou-se para ele.

— O quê? Não disse que foi voluntária.

O carroceiro reconheceu Theron.

— Consegui salvar a roda.

— Bom.

— Acho que o eixo também aguenta.

— Melhor ainda.

O homem examinou os doze aldeões, mas teve a prudência de não perguntar.

Mais abaixo, onde a estrada se alargava, Theron ordenou uma parada.

Os homens beberam. Levaram as cabras até um trecho raso do córrego. Níctimo sentou-se numa pedra. Theron permaneceu de pé por alguns minutos antes de aceitar que as próprias pernas estavam cansadas.

Mélas desmontou com um gemido.

Theron olhou para ele.

— Se fizer esse som diante do rei, digo que a montanha venceu.

— A montanha pesa mais que eu.

— Também é mais velha.

— Principalmente isso.

Theron pegou o odre.

Mélas estendeu a mão.

Theron bebeu primeiro.

— Fez de propósito.

— Fiz.

Depois entregou-lhe a água.

Por algum tempo, os dois observaram os homens e os animais.

Mélas devolveu o odre.

— Você poderia ter permitido que Níctimo salvasse a cabra de Doro.

— Substituindo por uma da casa real?

— Isso seria estupidez.

— Então substituindo por qual?

Mélas não respondeu.

Theron prendeu o odre ao cinto.

— Foi o que aconteceu com ele.

— O rapaz queria ajudar.

— Eu sei.

— E você fez questão de obrigá-lo a enxergar que não havia solução limpa.

Theron virou-se.

— Se eu deixasse que apontasse outra cabra, o que ele teria aprendido?

— Que escolher é difícil.

— Ele já sabe que é difícil para quem escolhe.

Theron olhou para Níctimo, que conversava com um dos homens mais velhos de Kynos.

— Hoje viu o outro lado.

Mélas ficou quieto.

Theron percebeu que a própria frase soava mais solene do que pretendia.

— Não guarde isso.

— Não disse nada.

— Sua cara disse.

— Agora tenho uma cara específica para roubar frases?

Theron tomou o odre de volta.

— Tem.

Mélas riu.

Theron também, baixo.

A risada não durou muito.

Quando retomaram a marcha, o sol já tocava as montanhas. Theron colocou dois soldados à frente e dois atrás. Não queria cruzar o trecho estreito depois de escurecer. A lua seria fina e, entre os cumes, a noite chegava cedo.

Níctimo voltou a andar ao lado dele.

Por algum tempo, manteve silêncio.

Theron aproveitou.

— Quando chegarmos, onde os homens vão dormir?

Theron suspirou.

— Durou menos do que eu esperava.

— Onde?

— Perto dos trabalhadores da estrada. Há um abrigo.

— Recebem comida?

— A mesma dos outros trabalhadores.

— E quando terminarem os dias?

— Voltam para Kynos.

— Todos?

— Se nenhum deles resolver esfaquear alguém antes disso, pretendo devolver os doze.

Níctimo aceitou.

Depois apontou para os animais.

— E as cabras?

— Vão para o rebanho da casa.

— Meu pai vai vê-las?

— Provavelmente nem saberá onde foram colocadas.

Níctimo observou o grupo.

A cabra de focinho branco caminhava no meio. Theron a reconheceu imediatamente.

Não gostou de reconhecer.

— Então ele não vai saber que aquela era de Ione.

— Vai saber se eu contar.

— Mas não vai saber olhando.

— Não.

— Nem quais eram as de Doro.

— Não.

— Nem por que uma família escolheu uma cabra em vez de outra.

Theron deixou algum espaço antes de responder.

— Não.

Níctimo continuou caminhando.

— Mas mandou buscar vinte.

— Mandou.

O rapaz ficou quieto por mais tempo dessa vez.

— Se Kynos não recebesse punição, outra aldeia poderia recusar.

— Poderia.

— E se várias recusassem, a estrada talvez não ficasse pronta antes das chuvas.

— É possível.

— E quando o vale alagar, essas mesmas aldeias vão precisar dela.

— Vão.

Níctimo chutou uma pedra para fora do caminho.

— Então meu pai tinha motivo.

— Tinha.

— Só que, lá dentro, ainda parece pior do que quando ele falou a ordem na casa.

Theron sentiu o peso da espada no quadril. A faca de Doro estava presa do outro lado. Nenhuma lâmina fora usada.

Mesmo assim, doze homens caminhavam longe das próprias casas e vinte cabras desciam a montanha sob guarda.

— Ordens costumam ser mais simples antes de encontrarem pessoas.

Níctimo olhou para ele.

Theron quase se arrependeu da frase, mas o rapaz apenas continuou andando.

— Meu pai diz que um rei não pode usar a dificuldade de decidir como desculpa.

— Concordo.

— Você concorda muito com ele.

— Ajuda na carreira.

Níctimo riu.

Theron acrescentou:

— Mas concordo com isso de verdade.

A estrada fez uma curva e o vale se abriu. Muito longe, fumaça subia das casas próximas ao centro do domínio. Atrás deles, uma cabra berrou. Outra respondeu.

Os homens de Kynos continuavam andando.

— Theron.

— Diga.

— Quando falar com meu pai, conte que cumprimos a ordem.

— Vou contar.

— Conte sobre Doro também. Que ele puxou a faca e depois a entregou.

— Isso estará no relatório.

Níctimo ficou alguns passos em silêncio.

— E conte sobre Ione.

Theron virou-se.

— Por quê?

O rapaz acompanhava a estrada.

— Não sei ainda.

Theron esperou.

Níctimo não encontrou explicação melhor.

— Só acho que ele precisa saber.

Theron olhou para a cabra branca no meio do rebanho, presa por uma corda na mão de um soldado.

— Está bem.

Continuaram descendo.

Quando a luz começou a desaparecer entre as montanhas, Theron mandou todos apressarem o passo. Antes que o escuro tomasse a estrada, contou novamente os homens.

Doze.

Depois as cabras.

Vinte.

Ninguém morrera.

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