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Licaão continuou descendo a encosta até perder de vista a fumaça.

Primeiro ela desapareceu entre os galhos. Depois sumiu aquela impressão absurda de que ainda conseguia sentir o calor do incêndio contra o pelo, embora a casa já estivesse longe demais. O cheiro foi o último a deixá-lo: madeira queimada, óleo, animais assustados, suor e sangue.

Homens.

Quando o vento virou e trouxe novamente o odor da casa, suas patas se enterraram na terra antes que ele próprio entendesse por quê. As orelhas apontaram para trás. A boca se abriu, e a saliva veio quase imediatamente.

Licaão recuou.

Continuou descendo.

Não sabia para onde.

Aquilo também era novo.

Durante quase toda a vida, caminhar significara ir a algum lugar. Uma propriedade em disputa, uma aldeia, uma estrada danificada, um limite de terras, a casa de um homem que precisava ser ouvido ou punido. Mesmo durante a caça havia um propósito simples: encontrar o animal, cercá-lo, abatê-lo e voltar.

Agora apenas aumentava a distância entre si e tudo o que conhecia.

Uma raiz grossa atravessava o declive. Licaão a percebeu tarde e tentou erguer o pé esquerdo como faria um homem.

Não havia pé.

A pata respondeu de outro modo. Tropeçou, o corpo girou e ele bateu o ombro no chão, rolando pela encosta até um tronco interromper a queda.

Levantou-se de imediato.

Olhou em volta.

Ninguém.

Mesmo assim, sentiu vergonha.

Um ramo baixo tocava-lhe o focinho. Licaão tentou afastá-lo com a pata dianteira. As garras passaram pelas folhas sem agarrar nada, e o galho voltou contra seu rosto.

Tentou outra vez.

O mesmo resultado.

Licaão abriu a boca.

— Mal…

O som saiu rouco e deformado.

Ficou imóvel.

A língua parecia conhecer a intenção, mas não o movimento.

Tentou outro nome.

— Níctimo.

Não saiu sequer a primeira sílaba. Um gemido baixo escapou da garganta, seguido por uma respiração pesada que ninguém confundiria com fala humana.

Licaão fechou a boca.

Continuou andando.

A floresta estava cheia de coisas que antes não existiam para ele — ou existiam e simplesmente nunca haviam merecido sua atenção. Cheiro sobre cheiro. Folhas recentes cobrindo as apodrecidas do inverno anterior. Terra remexida por algum animal pequeno. Fezes. Casca partida. Água. Sangue velho.

Parou.

Ergueu o focinho sem decidir fazê-lo e procurou a corrente correta.

À direita.

Água.

Conhecia aquela região. Pelo menos acreditava conhecer. Já percorrera aquelas encostas a cavalo, caçara mais ao norte e ordenara anos antes que homens abrissem um trecho do caminho do vale.

O curso d’água deveria estar abaixo.

Desceu.

Dessa vez prestou atenção ao chão.

As quatro patas escolhiam apoios que seus olhos humanos não teriam escolhido. Evitavam algumas pedras aparentemente firmes e preferiam terra, folhas compactadas, pequenas saliências do terreno.

Num trecho estreito, tentou endireitar-se por reflexo para olhar acima dos arbustos. As patas traseiras sustentaram o peso durante alguns instantes. A coluna protestou e o corpo caiu outra vez para frente.

Licaão ficou parado.

Não havia postura de rei naquela forma.

Nenhuma maneira de erguer os ombros, ocupar um assento ou olhar um homem de cima.

Prosseguiu.

Encontrou o riacho quando a lua começava a aparecer entre os galhos. Era estreito, frio e corria sobre pedras escuras.

A água refletiu uma forma negra.

Licaão desviou os olhos.

A sede não desapareceu.

Tentou abaixar-se como um homem se ajoelharia e descobriu outra vez que o movimento não existia. As patas dianteiras desceram, o peito se aproximou da água. Abriu a boca tentando puxá-la e se engasgou.

Recuou tossindo.

A superfície se partiu em círculos.

Ele sabia beber água.

Passara uma vida bebendo água.

Pegava uma taça, uma concha ou juntava as mãos quando não havia nada melhor.

Mãos.

Licaão olhou para as patas.

A garganta doía.

Voltou à margem.

O corpo sabia.

A língua avançou antes que ele aceitasse completamente o gesto. Recolheu água.

Outra vez.

E outra.

Parou.

Ainda tinha sede.

Voltou a beber até a necessidade diminuir.

Quando ergueu a cabeça, gotas escorriam pelo focinho.

Afastou-se do riacho e ficou entre duas pedras.

Bebia como animal agora.

Não havia argumento que modificasse isso. Nenhuma ordem de Zeus precisava ser repetida. Nenhum sacerdote tinha de interpretar o significado.

Seu estômago se contraiu.

Fome.

Ao menos aquela sensação era conhecida.

Uma lebre estava perto.

Licaão não a viu primeiro.

Cheirou.

Parou no meio de um passo.

O animal encontrava-se além de um arbusto baixo, quase imóvel. Licaão conseguia distinguir a respiração curta e o coração acelerado.

Aquilo não deveria ser possível daquela distância.

Para um homem.

A lebre moveu-se.

O corpo de Licaão baixou.

As patas se ajustaram. O peso recuou. A cabeça aproximou-se da terra.

Carne.

Ele deu um passo para trás.

A lebre ergueu as orelhas.

Licaão pensou em faca.

Usava lâmina desde menino. Um corte rápido na garganta. Morte limpa. Depois abriria o animal, retiraria o que não servia e prepararia a carne.

Não possuía faca.

Pensou em lança.

Arco.

Pedra.

Fogo.

Nenhuma dessas coisas pertencia às patas.

A lebre disparou.

Licaão foi atrás.

Só percebeu a perseguição quando já atravessara o arbusto.

O corpo acelerava sem consultar a mente. Galhos passavam ao lado. A terra sumia sob as patas numa velocidade que jamais conseguira a pé. A lebre mudou de direção e ele mudou junto, acompanhando-a sem cálculo consciente.

Durante um instante, houve algo quase agradável naquilo.

Velocidade.

Precisão.

Nenhuma dúvida entre vontade e movimento.

Então alcançou o animal.

A mandíbula fechou.

Houve um som curto.

Depois apenas peso.

Licaão parou.

A lebre pendia de sua boca.

Abriu os dentes.

O pequeno corpo caiu.

Recuou.

Sangue cobria sua língua.

Tentou cuspir. Tornou a fazê-lo.

O gosto continuou.

Olhou para o animal.

O peito não se movia.

O primeiro pensamento foi prático: precisava abri-lo, limpar a carne, conseguir fogo.

O segundo veio logo depois.

Não podia.

Olhou para as próprias patas.

Podia rasgar.

Só isso.

A fome apertou.

Licaão virou-se e foi até a água.

Bebeu.

O vazio permaneceu.

Retornou.

A lebre estava onde a deixara.

Nenhum servo apareceria com uma faca. Ninguém prepararia brasas. Ninguém perguntaria como desejava a carne.

O cheiro quente do sangue aumentou sua fome.

Licaão se aproximou.

Abriu a boca.

Parou.

Níctimo apareceu na memória.

Não porque houvesse qualquer semelhança. Era justamente o contrário.

Aquilo era um animal.

Carne de animal.

Deveria ser fácil.

Não foi.

Licaão mordeu.

A carne ainda estava quente.

Recuou imediatamente.

O corpo queria outra mordida.

Ficou alguns instantes respirando depressa, olhando para o pequeno cadáver.

Depois voltou.

Comeu.

Sem sal.

Sem fogo.

Sem faca.

Sem mesa.

Quando terminou, afastou-se e encarou os restos.

A fome comum diminuiu. O vazio no ventre se fechou, e o leve tremor das pernas desapareceu.

Ainda estava faminto.

Licaão olhou para a carcaça.

Não queria mais dela.

A compreensão veio sem pressa.

Havia duas fomes.


A algumas horas dali, o mensageiro de Tegea ainda esperava uma decisão.

A antiga sala de audiências já não podia ser usada. Uma parede perdera parte da cobertura, outra estava rachada e homens continuavam retirando pedras do chão. Theron recebeu o mensageiro no pátio, sentado diante de uma caixa virada que agora servia de mesa.

Mélas colocou uma tábua limpa sobre a madeira.

— Comece do princípio. Sem transformar seus vizinhos em exércitos inimigos desta vez.

O mensageiro, um homem de barba mal aparada e poeira ainda presa às sandálias, olhou de Mélas para Theron.

— Se deixarmos os dois lados buscar água quando quiserem, alguém acaba morto.

Theron apoiou os antebraços nas pernas.

— Há quanto tempo usam a mesma nascente?

— Mais tempo do que sei.

— E só começaram a ameaçar uns aos outros agora?

— A água baixou.

Mélas já tinha o estilete na mão.

— Quanto?

O homem abriu os braços.

— Bastante.

Mélas pousou o estilete sem escrever.

— “Bastante” não cabe numa tábua. Algum dos campos já está seco?

— Não.

— As duas casas continuam recebendo água?

— Continuam. O problema é que cada uma acha que a outra está tirando mais.

Theron perguntou:

— Moveram as pedras da passagem?

— Ainda não.

— Cavaram algum canal novo?

— Também não.

Theron olhou para Mélas.

— Então ninguém toca em nada até medirmos.

O mensageiro protestou:

— Eles não vão esperar sentados.

— Não precisam sentar.

— Você não conhece aqueles homens.

— Conheço homens irritados por causa de água.

Theron pegou uma pequena pedra do chão e a girou entre os dedos.

— Dois dos meus seguem com você ao amanhecer. Até alguém medir a vazão, uma família usa a nascente do nascer do sol até o meio do dia. A outra fica com a segunda metade.

— E quem começa?

— Amanhã, uma. No dia seguinte, a outra.

O mensageiro coçou a barba.

— Vão reclamar.

— Podem reclamar à vontade. Só não levam bastões para a nascente.

— E se não aceitarem?

— Meus homens ficam.

Theron devolveu a pedra ao chão.

— Depois descobrimos se alguém realmente está levando mais água ou se os dois só decidiram brigar antes da medição.

O homem olhou para o pátio destruído.

Servos ainda carregavam caixas de registros. Homens trabalhavam sobre a parte queimada do teto. Mais adiante, Agelau conversava com duas mulheres.

Dia permanecia sentada junto ao corpo coberto de Níctimo.

O mensageiro voltou a Theron.

— Isso é ordem do rei?

Mélas parou com o estilete acima da cera.

Theron não respondeu imediatamente.

O movimento do pátio continuou ao redor deles.

— É o que vai impedir que dois homens se matem amanhã por uma quantidade de água que ninguém mediu ainda.

O mensageiro aguardou.

Talvez esperasse outro nome.

Não veio.

— Está bem.

Theron apontou para uma das dependências ainda utilizáveis.

— Durma algumas horas. Vocês saem antes da luz.

O homem se levantou.

Quando já estava longe, Mélas olhou para a tábua.

— Registro isso como o quê?

Theron também olhou para ela.

— Como fizemos.

— Sem nome?

— O seu está aí.

— Prefiro que o homem da espada assuma parte.

Theron não respondeu ao humor.

Mélas começou a escrever.

— Eu teria aconselhado Licaão a fazer quase a mesma coisa.

O estilete raspou a cera.

Theron acompanhava dois homens carregando um pedaço de viga.

— Talvez perguntasse primeiro qual família usa mais água.

— Nós vamos perguntar.

Mélas terminou uma linha.

— Sim.

Do outro lado do pátio, Dia chamou Agelau.

O sacerdote se inclinou para escutá-la.

Theron examinou os muros danificados.

— Amanhã temos a nascente.

Mélas olhou para ele.

— Amanhã.

Não disseram mais nada.


O cheiro veio junto com o vento.

Fogo.

Lã.

Cabra.

Homem.

Licaão ergueu a cabeça.

A reação foi imediata. A boca se encheu de saliva e o estômago, já alimentado pela lebre, contraiu-se como se estivesse vazio havia dias.

Uma elevação baixa cortava o terreno adiante. Além dela, uma luz tremia entre as árvores.

Fogueira.

Licaão virou para o lado oposto.

Deu três passos.

Parou.

O vento soprou de novo.

Humano.

O cheiro separava-se de tudo.

Suor sobre pele. Sangue correndo sob aquela pele. Calor.

Licaão fechou a boca até a mandíbula doer.

Começou a descer na direção contrária ao fogo.

Andou depressa.

O cheiro não desapareceu.

Pior.

Ficou mais forte.

Licaão parou.

Percebeu que o corpo fizera uma curva ampla em torno da encosta. Sem que notasse, aproximara-se do acampamento.

A raiva veio antes do medo.

Mudou de direção com violência e começou a subir.

As patas escorregaram na terra úmida. Recuperou o equilíbrio.

Uma voz chegou até ele.

— Ouvi alguma coisa.

Licaão congelou.

Outra respondeu:

— Deve ser raposa.

— Raposa não pesa desse jeito.

Silêncio.

Licaão ouvia o estalo da lenha, o som de uma cabra puxando a corda, respirações.

Três homens.

A fome apertou.

Ele avançou entre os arbustos.

Não queria.

Sabia disso.

Mesmo assim, avançou até enxergar a fogueira.

Dois homens estavam sentados. Um terceiro dormia enrolado num manto. Três cabras permaneciam amarradas a uma árvore, e uma carga coberta por tecido descansava perto delas.

Pastores, talvez.

Ou viajantes levando animais até algum povoado.

Um dos homens segurava pão.

Licaão quase não viu o pão.

Havia uma pequena fissura no dedo do homem. Corte de corda ou madeira.

Sangue seco.

Seu corpo baixou.

O homem junto ao fogo virou a cabeça.

— Ali.

O segundo levantou-se.

Licaão continuou entre as árvores.

— É um lobo.

O homem pegou um bastão. O outro largou o pão e procurou a lança apoiada num tronco.

Licaão recuou.

A fome exigia movimento na direção oposta.

Dois homens acordados.

Um dormindo.

Cabras que se assustariam.

A lança ainda fora de posição.

Ele poderia alcançar o primeiro antes que o segundo estivesse pronto.

O cálculo apareceu completo.

Distância.

Ângulo.

Qual homem reagiria primeiro.

Licaão sentiu um horror maior do que a própria fome.

A mente continuava sendo a mesma.

Só mudara o problema que tentava resolver.

O homem da lança avançou.

— Vai!

Licaão recuou.

— Sai daqui!

Uma pedra bateu no chão perto da pata.

Ele tentou falar.

Não sabia o que pretendia dizer.

Não.

Talvez.

Eu entendo.

Fiquem longe.

Abriu a boca.

Saiu um rosnado.

O homem firmou a lança.

— Está vendo? Vai atacar.

Não.

Licaão tentou produzir outro som.

Veio mais baixo.

Pior.

O terceiro homem acordou.

— Que foi?

— Lobo.

— Onde?

— Perto demais.

Licaão entendia tudo.

Cada palavra.

O homem da lança avançou mais um passo.

— Vai!

Licaão poderia ter fugido.

Não fugiu.

O cheiro daquele pequeno corte continuava ali.

Um salto.

Só precisava de um.

A garganta ficaria ao alcance.

As patas traseiras se tensionaram.

Licaão recuou uma dianteira.

Depois a outra.

A fome resistiu.

Ele também.

O homem ergueu a lança.

Licaão virou e correu.

Uma pedra passou entre as folhas à esquerda. Outra bateu num tronco.

As vozes ficaram para trás.

— Foi embora.

— Hoje ninguém dorme sem fogo alto.

— Eu disse que tinha ouvido alguma coisa.

Licaão continuou até o cheiro de sangue desaparecer por completo.

Parou entre árvores, arfando.

Ninguém o perseguira.

Tinham visto uma fera e afastado uma fera.

Uma reação perfeitamente razoável.

Licaão quase riu.

O corpo produziu um ruído baixo e estranho.

Calou-se.

Quisera matá-los.

Essa era a parte que importava.

Poderia consolar-se dizendo que recuara, mas primeiro precisara resistir ao desejo de avançar.

A lebre resolvera uma fome.

Os homens despertaram a outra.

Zeus não precisava aparecer novamente para explicar o castigo.

Licaão compreendia.


A noite esfriou.

Encontrou abrigo sob uma pedra inclinada, onde raízes grossas formavam uma cavidade estreita. Havia terra dos dois lados e folhas secas no fundo. Cheirava a outro animal que usara o lugar dias antes.

Licaão entrou.

Deu uma volta.

Depois outra.

Parou.

O corpo queria girar antes de deitar.

Recusou-se.

Tentou simplesmente abaixar-se.

A posição ficou desconfortável. Levantou.

Permaneceu alguns segundos parado.

Então circulou uma vez.

Deitou.

Ficou com raiva porque funcionou.

O frio subia da terra. Licaão encolheu as pernas contra o corpo, e a cauda se aproximou sozinha.

Fechou os olhos.

Abriu de novo.

A floresta não ficava quieta.

Havia animais pequenos se movendo sob folhas, insetos, ramos cedendo, frutos caindo e coisas distantes demais para que um homem sequer soubesse que existiam.

Dormir significava aceitar que nenhuma porta seria fechada.

Não haveria guarda no corredor.

Nenhum homem de turno.

Nenhuma parede entre seu corpo e aquilo que caminhasse na noite.

Pensou na casa.

Theron.

Mélas.

Dia.

Níctimo.

A memória veio inteira.

O filho curvado sobre uma tábua.

— A conta está errada.

Licaão dizendo que não.

Níctimo refazendo.

Estava errada.

Outra lembrança: o rapaz rindo porque Mélas perdera uma aposta sobre chuva.

Depois o pátio.

Níctimo olhando para ele.

Porque conheço você.

Licaão abriu os olhos.

A floresta continuava ali.

Tentou fechá-los de novo.

Era só uma pergunta.

O corpo se contraiu.

Levantou-se.

Não suportava permanecer deitado com aquela voz.

Saiu do abrigo.

A lua já estava alta.

Tentou pronunciar o nome do filho.

— Níc…

Nada.

O som morreu a poucos passos.

Licaão mostrou os dentes para a escuridão, irritado com a própria boca.

Então ouviu um uivo.

Distante.

Ergueu a cabeça.

O som vinha do outro lado da encosta. Longo, contínuo, desaparecendo pouco a pouco.

O corpo reagiu.

Dessa vez não com fome.

As orelhas se orientaram. O peito pareceu preparar-se para alguma coisa.

Resposta.

Licaão fechou a boca.

Outro uivo surgiu mais longe.

Depois um terceiro.

Lobos.

Lobos de verdade.

Voltou para perto das raízes.

Parou antes de entrar.

Novo chamado.

Seu peito vibrou.

Não.

Ficou ouvindo.

Os lobos chamaram novamente.

A floresta reconhecia aquela forma sem precisar saber o que havia dentro dela.

Licaão tentou dizer o próprio nome.

A língua procurou o gesto impossível.

Nenhuma sílaba veio.

Dentro da cabeça, porém, tudo permanecia.

Licaão.

Filho de uma linhagem.

Marido de Dia.

Pai de Níctimo.

Rei da Arcádia.

Licaão.

Outro uivo atravessou o vale.

O corpo respondeu antes que ele conseguisse impedi-lo.

O som saiu de sua garganta e se ergueu por entre as árvores.

Longo.

Animal.

Licaão fechou a boca assim que recuperou o controle.

Tarde demais.

Do outro lado da montanha, um lobo respondeu.

Depois outro.

Licaão permaneceu imóvel sob a lua.

O nome continuava inteiro dentro dele.

A floresta não o ouvira.

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