Capítulo 21 — Sob o Mesmo Teto
por Sonhado acordadoO guarda bateu duas vezes antes de entrar. Licaão já estava de pé, terminando de ajustar o cinto da túnica.
— O estrangeiro acordou?
— Há pouco, meu rei. Ainda não comeu. Está no pátio menor, com Dóron.
Licaão terminou o nó.
— Fazendo o quê?
— Vendo Dóron consertar as sandálias.
Natural.
Perfeitamente natural.
E, ainda assim, não era a resposta que Licaão esperara receber quando ordenara, na noite anterior, que o avisassem assim que Agetor acordasse. Imaginara que o homem tentaria partir cedo, procuraria Theron ou passaria a manhã perguntando aos servos alguma coisa sobre a casa.
Em vez disso, observava um artesão trabalhar couro.
— Mande levar pão, queijo e figos para lá. Vinho diluído também.
O guarda saiu.
A luz da manhã entrava por uma abertura estreita na parede, branca ainda, antes do calor mais pesado. A casa despertava aos poucos: passos nos corredores, uma porta arrastando sobre pedra, animais sendo conduzidos para fora, alguém exigindo saber quem havia levado uma jarra durante a noite.
Licaão gostava daquele horário. Durante pouco tempo, ninguém ainda lhe pedira terra, água, grão, reparação, homens ou justiça. O reino demorava algumas horas depois do amanhecer para começar a explicar por que tudo precisava ser resolvido naquele mesmo dia.
Naquela manhã, porém, Licaão já escolhera o primeiro assunto.
Agetor.
O nome continuava parecendo pequeno para o homem.
Quando chegou ao pátio menor, Dóron estava sentado num banco baixo, com uma das sandálias do hóspede presa entre os joelhos. Tinha dedos largos, barba curta e uma expressão de permanente desaprovação diante de qualquer objeto que precisasse de conserto.
Agetor estava descalço ao lado dele.
— A tira não estava tão ruim — dizia.
Dóron puxou o couro para mostrar o desgaste.
— Estava.
— Cheguei até aqui com ela.
— Isso prova que chegou até aqui. Não que chegaria ao próximo vale.
Agetor examinou a sandália.
— Difícil discutir com isso.
— Couro não melhora porque o dono discorda.
Licaão entrou sob a cobertura.
— Já perdeu.
Agetor se virou. Reconheceu-o imediatamente, sem o pequeno sobressalto que muitos homens tinham ao perceber o rei perto demais.
— Estou percebendo.
Dóron começou a se levantar.
— Meu rei.
— Continue trabalhando.
O artesão sentou novamente.
Licaão ocupou outro banco.
— Dormiu bem?
— Melhor do que na estrada.
— Pediu apenas água durante a noite.
Agetor sentou no banco oposto.
— Era o que precisava.
— Hóspedes costumam descobrir novas necessidades depois de uma noite debaixo de um teto.
— Talvez eu tenha passado tempo demais aprendendo a precisar de pouco.
Uma serva trouxe a refeição e a distribuiu sobre a mesa. Agetor agradeceu antes de tocar na comida. Licaão já notara aquele hábito. Ele agradecia a guardas, servos, artesãos; não para ser percebido fazendo isso, porque muitas vezes ninguém importante estava olhando.
Parecia apenas costume.
Licaão partiu um figo.
— Pretendia partir hoje?
Agetor rasgou o pão.
— Pretendia continuar a viagem.
— Isso significa partir.
— Então sim.
— Para onde?
— Ainda não decidi.
Licaão mastigou o figo.
— Caminha pela Arcádia sem saber onde vai?
— Sei para onde vou quando preciso saber.
— Deve chegar atrasado com frequência.
— Evito prometer que vou chegar.
Dóron soltou um ruído baixo, entretido com a conversa enquanto trabalhava.
Licaão continuou:
— Viaja por prazer?
— Não somente.
— Não é mercador.
— Não.
— Não serve outro rei.
— Não.
— Procura alguém?
Agetor pensou enquanto passava queijo sobre o pão.
— Não uma única pessoa.
— Então o que procura?
— Ver.
Licaão apoiou os antebraços sobre as coxas.
— Todo homem com olhos faz isso.
— Menos do que imagina.
Licaão esperou.
Agetor pareceu aceitar que devia oferecer mais.
— Estradas. Casas. Gente trabalhando. Onde param para beber água e onde aceleram o passo porque não querem ficar. Queria conhecer a região.
— Antes de chegar até mim.
— Sim.
— E perguntou por mim durante o caminho.
— Algumas vezes.
A resposta saiu sem tentativa de escondê-la.
Licaão deixou o figo de lado.
— Então conte o que viu.
Agetor continuou comendo antes de responder.
— Estradas melhores do que muita gente esperava encontrar.
— Isso já sei.
— Mercadores usando trechos que antes evitavam.
Licaão fez um gesto para que continuasse.
— Famílias deixando disputas esperando porque acreditam que alguém ligado à sua casa vai ouvi-las antes que precisem resolver tudo com bastões.
— Isso é bom.
— Na maior parte das vezes.
Licaão notou a escolha.
— Na maior parte?
— Uma disputa pode terminar sem sangue e ainda assim alguém sair pagando um preço alto demais.
Licaão não interrompeu.
— Vi homens chamados para trabalhar nas estradas. Reclamavam de perder dias nas próprias terras e, quando perguntei se preferiam o caminho antigo, reclamaram da estrada antiga também.
— Isso parece correto.
— Um mercador que encontrei agora viaja sem pagar três homens armados para acompanhá-lo.
— Porque os ladrões diminuíram.
— Foi o que ele disse.
— Então viu bastante coisa funcionando.
Agetor confirmou com simplicidade.
— Vi.
Licaão sentiu uma satisfação pequena, quase ridícula, e percebeu isso tarde demais.
— E o que viu que não funciona?
Agetor limpou migalhas dos dedos.
— Nem tudo que chega às pessoas com seu nome começou em você.
A satisfação desapareceu.
— Explique.
Agetor contou sobre a cobrança de cevada que encontrara no caminho: um rapaz recolhia dois cestos de uma propriedade dizendo agir em nome da casa. A ordem vinha de Filon, segundo ele. Filon responderia a Eudoro. Em outra versão, o nome de Mélas aparecia no início da cadeia.
— Dois cestos? — perguntou Licaão.
— Foi o que estavam levando.
— E quanto realmente era devido?
— Talvez um.
— Talvez?
Agetor bebeu um pouco de vinho diluído.
— O rapaz conhecia a ordem de Filon. Não sabia quem tinha mandado Filon. O proprietário conhecia a cobrança anterior, mas não sabia se havia uma nova. A mulher que estava lá dizia que Filon às vezes recolhia para Eudoro.
— Então você não sabe se houve abuso.
— Não.
Licaão apoiou as costas contra a parede.
— E mesmo assim usa isso como exemplo do meu governo.
— Você me perguntou o que vi. Vi um homem com dois cestos e três nomes acima dele.
— Isso não é conclusão.
— Talvez porque eu ainda não tenha uma.
Dóron puxava uma tira nova através da sola, concentrado demais para demonstrar se escutava.
Licaão encarou Agetor.
— Passou dias fazendo perguntas. Alguma conclusão deve ter tirado.
Agetor não se esquivou.
— As pessoas esperam que sua palavra tenha consequência.
— Claro que esperam.
— Isso ajuda a fazer com que obedeçam.
— Deve ajudar.
— Algumas obedecem antes de saber se a palavra veio mesmo de você.
Licaão percebeu os sons do pátio como se tivessem se afastado: cerâmica na cozinha, um animal preso em algum cercado, o couro rangendo nas mãos de Dóron.
— Acha que deveriam duvidar dos meus enviados?
— Não.
— Então qual é seu ponto?
— Que um homem usar seu nome não torna automaticamente a vontade dele na sua.
— Isso é evidente.
Agetor pegou outra azeitona.
— Para você.
Licaão sustentou o olhar.
— Para quem mais precisa ser evidente?
— Para o homem que está diante daquele que invoca seu nome.
A resposta trouxe consigo a lembrança de Theron na noite anterior.
Uma ordem.
Um comandante.
Damon ajoelhado em algum lugar que Licaão não vira.
— Se alguém usa meu nome sem autoridade, eu o castigo.
— Quando descobre.
— Eu descubro.
Agetor apontou para os cestos de comida sobre a mesa.
— Então alguém precisa conseguir chegar até você e contar.
— Homens podem falar comigo.
— Podem.
Agetor não carregou a palavra com ironia. Ainda assim, Licaão a recebeu como pergunta.
— Você está sentado na minha casa discordando de mim desde ontem.
— Sou seu hóspede.
— E isso o protege?
— Deve proteger.
A palavra tocou um costume muito mais antigo do que qualquer discussão recente com Agelau. O estrangeiro aceitara água, comida e teto. Enquanto estivesse sob a hospitalidade da casa, havia deveres para os dois lados.
Licaão sabia disso antes de ter idade para governar qualquer coisa.
— E quem não está sob meu teto?
— Depende de quem seja.
— Resposta conveniente.
— Ainda assim verdadeira.
Dóron interrompeu:
— Pronto.
Agetor voltou-se para ele.
— Quanto devo?
Dóron olhou automaticamente para Licaão.
— Nada — respondeu o rei.
Agetor tornou a olhar para ele.
— As sandálias são minhas.
— Dóron trabalha para a casa.
— Então trabalhou para quem?
Dóron permaneceu parado, com uma sandália em cada mão.
Licaão riu.
— Para mim. Enquanto estiver aqui.
Agetor considerou a explicação.
— Então agradeço aos dois.
Dóron entregou-lhe o calçado.
— Tente não destruir as tiras antes de sair das terras da casa. Tenho reputação.
— Vou protegê-la.
Dóron foi embora.
Agetor calçou as sandálias, testou o reparo e apertou as novas tiras.
Licaão perguntou:
— Ainda pretende partir hoje?
— Era o plano.
— Fique até amanhã.
Agetor ergueu o rosto.
— Por quê?
— Ainda tenho perguntas.
— Isso ficou evidente ontem.
— E você continua respondendo metade.
— Respondi bastante. Só não respondi o que queria ouvir.
Licaão indicou a comida.
— Mais uma noite.
Agetor olhou pelo pátio, talvez avaliando estrada, distância, tempo ou simplesmente a proposta.
— Se sua casa permite.
— Permite.
Níctimo apareceu perto do meio da manhã com duas tábuas sob o braço.
Licaão já havia voltado a uma das salas menores, onde tratava questões que não exigiam audiência pública. Agetor, em vez de descansar, ficara perto da abertura para o pátio observando dois servos separar sacos de cevada.
Licaão decidiu não perguntar por quê.
Níctimo pousou as tábuas.
— O caso de Féron.
— Terminou?
— Acredito que sim.
Licaão olhou para o filho.
— Ainda está em dúvida?
— Ouvi o irmão da mulher. Ele realmente estava presente.
Licaão estendeu a mão.
Níctimo entregou a primeira tábua.
O assunto era pequeno, ao menos perto das coisas que costumavam chegar à casa. Féron devia dois carneiros a outra família por uma dívida antiga. Separara os animais, mas um morrera antes da entrega. A família credora exigia dois vivos; Féron sustentava que o animal morto já devia contar, porque fora apartado do rebanho para cumprir a dívida.
— Qual é sua decisão? — perguntou Licaão.
Níctimo respondeu sem procurar ajuda no rosto dele.
— Um carneiro agora. Metade do valor do segundo depois da próxima tosquia.
— Por que metade?
— Porque o animal morreu depois de ser separado.
— Separado ainda na propriedade de Féron.
— Sim.
— Alimentado por ele.
— Sim.
— Guardado por ele.
Níctimo fechou a mão sobre a borda da tábua.
— Pai, eu sei onde está indo.
— Então me poupe caminho.
— O homem que receberia os carneiros adiou a retirada por três dias porque queria esperar o irmão voltar. Se tivesse buscado quando combinaram, o animal provavelmente já estaria na propriedade dele quando morreu.
Licaão ficou quieto.
Aquilo mudava a distribuição da perda.
— Onde está isso?
Níctimo indicou a segunda tábua.
— Aqui.
Licaão leu.
A informação estava registrada: atraso solicitado pela própria casa credora, testemunha presente, prazo de três dias.
Ergueu os olhos.
— Fez bem em ouvir o irmão.
Níctimo pareceu pego de surpresa pela aprovação direta.
— Foi por isso que adiei.
— Um carneiro agora. Metade do segundo depois da tosquia.
— Foi o que decidi.
Licaão marcou a tábua.
— Então por que veio até mim?
Níctimo juntou os registros.
— Queria que soubesse antes de mandar executar.
Houve um tempo em que aquela frase significaria outra coisa: quero saber se fiz certo.
Agora Níctimo trazia a decisão já formada.
Licaão devolveu a tábua.
— Fez certo.
O filho recebeu.
Um silêncio pequeno surgiu entre os dois.
Agetor, da abertura para o pátio, perguntou:
— A outra família precisa do animal agora?
Pai e filho olharam para ele.
Níctimo respondeu:
— Não. Perguntei isso.
— Então a espera pesa menos.
Licaão virou-se para o hóspede.
— Era a aprovação que faltava.
Agetor percebeu o sarcasmo.
— Nesse caso, cheguei tarde.
Níctimo sorriu.
Dessa vez Licaão também.
Agetor perguntou ao rapaz:
— Se precisassem do carneiro agora, manteria a mesma decisão?
Níctimo pensou.
— Não. Faria Féron entregar dois.
— Mesmo que terminasse pagando três animais por uma dívida de dois?
— A perda continuaria sendo dele porque a outra família teria necessidade imediata e o atraso da retirada já não poderia ser tratado como simples escolha sem consequência.
Agetor aceitou.
— Entendo.
Licaão observou o filho.
Era aquilo que passara anos tentando ensinar: uma decisão não terminava no ato. Havia de se perguntar onde o custo caía, quem podia suportá-lo, o que aconteceria depois.
O orgulho veio sem esforço.
Veio acompanhado de outra percepção, menos confortável.
Níctimo chegara àquela lógica sozinho.
Agetor comentou:
— Seu filho aprendeu bem.
A frase agradou Licaão mais do que gostaria de demonstrar.
— Aprendeu bastante.
Níctimo ficou quieto.
Licaão apontou para as tábuas.
— Pode ir. Sua decisão está confirmada.
— Certo.
O rapaz passou por Agetor, recebeu um breve cumprimento e saiu.
Licaão esperou até os passos desaparecerem pelo corredor.
— Você pergunta bastante quem vai pagar.
Agetor apoiou o ombro na parede.
— Costuma mudar a resposta.
— Onde aprendeu isso?
— Em muitos lugares.
— Com Theron?
— Também.
Licaão riu sem humor.
— Theron não fala como você.
— Ainda bem para os homens dele.
— O que aprendeu com ele?
Agetor não respondeu de imediato.
— Que cumprir uma ordem também exige escolhas.
Licaão permaneceu junto à mesa.
— Foi isso que ele disse?
— Não nessas palavras.
— Falavam de Damon.
Agetor confirmou.
Ali estava.
— Então conhece a história.
— Parte.
— Theron contou.
— Parte.
Licaão deixou a tábua que segurava sobre a mesa.
— Damon escondeu Phorbas. Mentiu para homens que carregavam uma ordem minha. A mentira terminou em luta. Iason teve dedos quebrados; Polemon levou uma pedra no rosto. Depois Damon resolveu cooperar quando já sabia que continuar resistindo não lhe servia.
Agetor ouviu.
— Ordenei que fosse trazido sem a mão direita.
O estrangeiro não demonstrou choque.
Também não fingiu indiferença.
— Havia razão para puni-lo.
Não era a resposta que Licaão esperava.
— E quanto à mão?
Agetor demorou.
— Não sei.
A irritação de Licaão apareceu imediatamente.
— Passa dias perguntando pelo meu governo, fala de homens obedecendo antes de ouvir uma ordem e, quando pergunto o que deveria ter feito, não sabe?
— Eu não estava aqui quando decidiu.
— Conhece os fatos.
— Conheço os que chegaram até mim.
— Então diga qual punição escolheria.
Agetor manteve a mesma resposta.
— Não sei.
Licaão se levantou.
— É confortável considerar uma pena exagerada quando outro homem precisa inventar a alternativa.
— Eu não disse que foi exagerada.
— Está pensando nisso.
— Estou tentando saber o bastante para pensar.
— Pois saiba isto: funcionou. Mensageiros encontram menos resistência. Proprietários sabem o que pode acontecer se esconderem homens procurados. Ordens são cumpridas com menos demora.
Agetor não contestou.
— Então produziu o efeito que buscava.
— Exatamente.
— Isso sabemos.
Licaão se aproximou da mesa.
— E o que falta?
— Quanto está disposto a pagar pelo próximo resultado.
— Uma mão.
— Neste caso, sim.
— Damon está vivo.
— Está.
Licaão abriu as mãos.
— Então o que mais quer colocar nessa conta?
Agetor tomou algum tempo antes de responder.
— Não conheço Damon.
— Theron conheceu.
— Quando chegou à propriedade.
— Eu conhecia o que Damon tinha feito.
— E precisou decidir.
— Sim.
— Sem conhecer tudo.
— Nenhum rei conhece tudo.
Agetor aceitou.
— Imagino.
Licaão sentou na borda da mesa.
— Então entende mais do que parece.
— Talvez.
— Essa palavra de novo.
Agetor sorriu.
— Não prometi facilitar sua manhã.
Antes do meio-dia, os dois caminharam pelo pátio maior.
Licaão preferiu continuar a conversa ali. Gente entrava e saía, servos carregavam cestos, um mensageiro desmontava perto da entrada, Theron conversava com um soldado junto aos estábulos. Era difícil transformar uma discussão em duelo filosófico quando alguém ao lado gritava porque uma mula pisara no pé de outro homem.
Licaão falou:
— Você disse que algumas pessoas obedecem ao meu nome antes de saber se a ordem é realmente minha.
— Disse.
— Se retiramos isso, o que resta?
Agetor respondeu:
— Sua autoridade.
Licaão olhou para ele.
— Isso parece frase de sacerdote.
— Não sou um.
— Então explique como homem comum.
Agetor indicou com os olhos o corredor por onde Níctimo saíra mais cedo.
— Seu filho decidiu um caso hoje.
— E eu confirmei.
— Sim. Mas ele tomou a decisão antes.
— Porque sabe que posso sustentá-la.
— Exatamente.
Licaão esperou.
— Não precisou ameaçar Féron para que a sentença tivesse peso.
— Porque Féron sabe que ela será executada.
— Então existe consequência.
— Naturalmente.
— Nunca falei que deveria deixar de existir.
Licaão diminuiu o passo.
— Então qual é a diferença que está tentando me mostrar?
Agetor observou um servo atravessar o pátio com uma tábua apertada contra o peito.
— Uma coisa é um homem saber que haverá consequência depois de uma decisão. Outra é acreditar que não pode falar antes dela.
— E como mede isso?
Agetor riu.
— Não sei.
Licaão também.
— Finalmente uma resposta previsível.
— Está começando a me conhecer.
Theron percebeu os dois e se aproximou.
— Algum problema?
Licaão respondeu:
— Nenhum. Agetor está me ensinando a governar.
Theron olhou para o estrangeiro.
— Sinto muito.
— Ainda não consegui.
— Continue. Ele aprende devagar.
Licaão olhou para Theron.
— Contou a ele tudo sobre Damon?
O humor do comandante desapareceu.
— Não.
— Quanto?
Theron pensou na conversa.
— Disse que recebi a ordem e a cumpri. Disse que Damon cooperou quando chegamos, que não houve luta e que fui eu quem executou a pena.
— Mais?
— Falamos sobre escolhas durante uma ordem.
Licaão percebeu a omissão.
— Isso não apareceu ontem.
Theron respondeu:
— Ontem perguntou o que Agetor queria saber. Não achei que o resto fosse segredo.
Não era.
Ainda assim, Licaão não gostou da sensação de descobrir partes de sua própria ordem por meio da conversa entre dois homens.
— O que disse a ele?
Theron colocou uma mão no cinto.
— Que poderia ter adiado a execução.
Licaão ficou parado.
— Adiado?
— Algumas horas. Talvez mandar um homem de volta.
— Para confirmar algo que já estava claro.
— Sim.
— E por que não fez?
Theron respondeu sem desviar.
— Porque a ordem estava clara.
Licaão olhou para Agetor.
— Isso também entra na sua conta?
— Entra na escolha de Theron.
— A ordem foi minha.
— Eu sei.
— Então a responsabilidade é minha.
Agetor pensou antes de responder:
— Uma parte.
Theron baixou a atenção para o chão por um breve instante.
Licaão percebeu.
— Parte?
— Theron não podia mudar sua ordem sem desobedecer. Mas podia escolher muita coisa na maneira como a cumpriria.
Licaão voltou-se para o comandante.
— Que coisas?
Theron pareceu não gostar de ser transformado em objeto da conversa, mas respondeu.
— Levei menos homens do que podia porque não queria chegar à propriedade como se fosse tomá-la. Quando Damon se entregou, mantive as armas baixas. Tirei a mulher e o filho de perto. Também afastei outros homens antes da punição.
Licaão sabia de parte.
Não sabia de tudo.
— Isso alterou a ordem?
— Não.
Agetor respondeu antes que Licaão insistisse:
— É justamente por isso que importa. Mostra onde sua decisão terminou e onde começou a dele.
Licaão olhou para Theron.
O comandante não parecia aliviado por dividir responsabilidade. Parecia apenas cansado.
— Vá cuidar dos seus homens.
— Sim, meu rei.
Theron saiu.
Agetor acompanhou-o por alguns passos.
— É um bom comandante.
— É.
— Os homens confiam nele.
— Têm razão.
Agetor deixou o assunto morrer.
Licaão gostou disso.
Por alguns minutos.
Dia encontrou os dois ainda conversando perto do meio-dia.
Olhou para Licaão, depois para Agetor.
— O hóspede ainda não fugiu.
Agetor respondeu:
— Considerei.
— Coma primeiro. Fugir de barriga vazia é falta de planejamento.
Mandou colocar comida sob a sombra.
Níctimo não voltou.
Licaão percebeu que estava agradecido por isso e não gostou da própria reação.
A refeição, durante algum tempo, não teve política.
Dia perguntou pela viagem. Agetor contou sobre um pastor que passara metade de uma subida discutindo com uma mula e perdera. Dia declarou que mulas não reconheciam derrota porque jamais reconheciam participação numa disputa.
Agetor falou de uma menina que acusara a mãe de reclamar tanto quanto uma cabra.
Dia quis saber quem vencera.
— A cabra.
— Natural.
Licaão ouviu.
Por alguns minutos, Agetor se tornou apenas um homem de estrada com histórias comuns. Aquilo quase trouxe alívio.
Dia saiu antes do fim da refeição.
Licaão tomou vinho.
— Passou perto do bosque?
Agetor percebeu qual bosque.
— Não pelo centro.
— Mas viu a madeira.
— No depósito.
— E ouviu histórias.
— Muitas.
Licaão apoiou a taça na mesa.
— Quantas árvores disseram que mandei cortar?
Agetor pensou.
— Uma. Três. Metade do bosque.
Licaão riu.
— Foram três.
— Era a versão que parecia menos interessada em melhorar a história.
— E nada aconteceu.
Agetor não respondeu.
Licaão esperou.
— Não vai dizer nada?
— Não sei o que espera que eu diga.
— O bosque era ligado a Zeus. Havia um dia em que Agelau dizia que não se devia cortar. Mandei cortar.
Agetor corrigiu com naturalidade:
— Mandou homens cortar.
— Sim. E o teto ficou pronto.
— Ficou.
— Então?
— Então a madeira serviu ao depósito.
Licaão sentiu a atenção se estreitar.
— Só isso?
— Você perguntou sobre o teto.
— Estou falando da proibição.
Agetor o encarou.
— Quer saber se ela possuía alguma força além das pessoas que a respeitavam.
Licaão ficou quieto.
Mélas formulara algo próximo. Agelau falara de forma completamente diferente. Agetor chegara à pergunta com poucas informações.
— Sim.
— E acha que três árvores poderiam responder.
— Se havia perigo em cortá-las, foi uma boa oportunidade.
Agetor apoiou o pão no prato.
— É estranho escolher a hora em que um deus deve provar a você que existe um limite.
Um frio breve passou pela nuca de Licaão.
— Quem lhe contou isso?
Agetor pareceu não entender.
— O quê?
— Que eu estava esperando.
— Você acabou de me dizer.
— Não com essas palavras.
Agetor retomou o fio sem dificuldade.
— Mandou cortar porque queria descobrir se havia perigo. Então esperava alguma consequência.
— Naturalmente.
— Quando?
Licaão não respondeu.
Agetor prosseguiu:
— Quando o primeiro machado entrou na árvore? Antes que a madeira chegasse ao depósito? Até hoje? Até a próxima lua? Quanto tempo sem consequência transforma uma proibição em falsa?
Licaão ficou olhando para ele.
A pergunta chegava ao mesmo ponto que Mélas tentara colocar diante dele. Mas o caminho de Agetor era simples demais para ser suspeito. Bastava seguir as palavras que o próprio Licaão pronunciara.
Isso o irritou.
— Se existe autoridade acima da minha, não posso governar esperando para sempre que alguém me diga o que ela quer.
— Então não espere.
Licaão quase acreditou ter ouvido errado.
— Como?
— Governe.
— Finalmente.
— Você é rei. Decida estrada, grão, água, homens.
— E quando um sacerdote diz que não posso?
— Escute.
— E depois?
— Decida.
Licaão ficou alguns instantes em silêncio.
— Foi exatamente o que fiz.
— Pode ser.
— Lá vem a palavra de novo.
Agetor pegou a taça.
— Só não entendo por que cada decisão precisa se transformar numa pergunta dirigida ao céu.
A frase atingiu mais fundo que as anteriores.
— Não faço isso.
— O bosque?
— O depósito precisava de madeira.
— Havia outra.
A irritação subiu.
— Quem disse?
— Trabalhadores.
— E sabe que era verdade?
— Ouvi de mais de um.
— Ficava mais longe.
— Sim.
— Exigia mais homens.
— Sim.
— Levava mais tempo.
— Também.
Licaão inclinou-se sobre a mesa.
— Então havia custo em escolher a outra madeira.
— Havia.
— Ótimo.
Agetor não recuou.
— Mas esse não foi o único motivo de escolher o bosque.
Silêncio.
Licaão já admitira aquilo diante de Mélas.
Nunca diante daquele homem.
Ainda assim, qualquer viajante que ouvisse as duas versões poderia perceber.
— Não.
Agetor esperou.
— Queria saber se a proibição era real.
— Queria uma resposta.
— Sim.
— E recebeu?
Licaão apertou os dedos em volta da taça.
— Nada aconteceu.
Agetor continuou olhando para ele.
— Nada que você tenha aceitado como resposta.
Licaão ficou imóvel.
A formulação não continha segredo. Não exigia conhecimento oculto. Mesmo assim, incomodava.
— Fala como sacerdote sem altar.
— Theron já me acusou da mesma coisa.
— Naturalmente.
Licaão deixou a taça na mesa.
— Então diga: o que contaria como resposta?
Agetor refletiu.
— Não sei.
Licaão soltou uma risada amarga.
— Claro que não.
— Mas sei que um deus não responder na hora que você escolheu não prova que não exista autoridade alguma acima de você.
Licaão pensou na conversa com Mélas.
Hoje.
A palavra o irritara porque parecia saída pronta para qualquer silêncio.
Agetor chegara ao mesmo ponto por uma estrada que Licaão podia acompanhar passo a passo.
Talvez fosse justamente isso que a tornasse mais difícil de afastar.
— Se existe um deus acima de mim, ele também não pode exigir que eu adivinhe indefinidamente.
Agetor partiu outro pedaço de pão.
— Talvez não exija.
— Agelau exige.
— Agelau é homem.
Licaão ergueu os olhos.
Agetor pronunciara aquilo como fato comum, sem perceber — ou sem demonstrar perceber — quanto aquelas quatro palavras faziam diferença.
— Finalmente chegamos a alguma coisa em que concordo inteiramente.
— Então a refeição valeu a pena.
No fim da tarde, Agetor voltou para a ala dos hóspedes.
Licaão esperou até vê-lo desaparecer pelo corredor e mandou chamar Theron.
Mélas chegou pouco depois, provavelmente porque aprendera a reconhecer quando Licaão fazia perguntas demais sobre o mesmo assunto.
— Quando encontrou Agetor? — perguntou o rei.
Theron respondeu.
Licaão calculou.
— Onde exatamente?
O comandante repetiu o trecho da estrada.
— Depois ele seguiu para qual direção?
— Não sei.
— Falou que vinha para cá?
— Não.
— Mencionou o bosque?
— Não.
— Damon?
— Sim.
— A mutilação já tinha acontecido.
— Tinha.
— E o corte do bosque?
Theron pensou.
— Também.
Licaão assentiu.
Portanto, nada do que Agetor dissera sobre aqueles fatos exigia conhecimento impossível.
Podia ter ouvido no caminho.
— E a cobrança irregular de cevada?
Theron não conhecia.
Licaão explicou.
Mélas entrou:
— Essa reclamação chegou ontem.
— Quando aconteceu?
— Três ou quatro dias atrás.
— Onde?
Mélas indicou a região.
Licaão ficou quieto.
— Agetor falou dela esta manhã.
Theron cruzou os braços.
— Pode ter passado por lá depois que me encontrou.
— Daria tempo?
— Sim.
Licaão calculou a distância.
Dava.
Apertado, dependendo da rota.
Mas dava.
— Tem certeza do dia? — perguntou a Mélas.
— Não. E imagino que essa incerteza tenha se tornado subitamente importante.
Licaão ignorou.
— Quero reconstruir por onde ele passou.
Theron perguntou:
— De que maneira?
— Converse com os homens que chegaram hoje. Mercadores, mensageiros, trabalhadores. Veja se alguém o reconhece.
— Meu rei…
Licaão sabia o que vinha.
— Continua hóspede. Ninguém mexe nas coisas dele. Ninguém o interroga. Ninguém fica seguindo o homem pelos corredores. Quero apenas saber por onde chegou.
Theron aceitou.
— Certo.
Mélas apoiou-se na mesa.
— O que espera encontrar exatamente?
Licaão demorou.
— Quero saber onde ouviu certas coisas.
— E se conseguir localizar tudo?
— Paro de estranhar.
— E se não conseguir?
— Continuo estranhando.
Mélas abriu as mãos.
— Pelo menos temos método.
Theron começou a sair.
— Theron.
O comandante parou.
— Quando encontrou Agetor, tinha certeza de que estava sozinho?
— Nenhum homem viajava com ele.
— Falou com alguém perto de vocês?
— Não enquanto estivemos juntos.
— Descubra quem passou por aquela estrada depois.
Theron assentiu e saiu.
Mélas permaneceu.
— Você o convidou para mais uma noite.
— Convidei.
— E agora está reconstruindo os passos dele.
— Estou.
— Acha perigoso?
— Não sei.
— Espião?
— Talvez.
— Enviado de outro rei?
— Talvez.
— Homem de Agelau?
Licaão fez uma careta.
— Agelau não escolheria alguém que ri tanto.
— Argumento surpreendentemente sólido.
Mélas observou-o.
— Ou ele pode ser apenas um homem inteligente que atravessou muitas estradas e ouviu bastante.
Licaão respondeu:
— Talvez.
Mélas sorriu.
— Agora a palavra serve quando sai da sua boca.
— Vá trabalhar.
— Essa resposta, ao menos, continua estável.
Mélas saiu.
Theron voltou quando já estava escuro.
Encontrou Licaão na sala menor, sozinho junto ao fogo. Uma tábua aberta repousava sobre a mesa.
— Achei um mercador que viu Agetor.
Licaão ergueu a cabeça.
— Onde?
Theron disse.
Licaão conhecia o caminho.
— Quando?
— Três dias antes de eu encontrá-lo.
— Isso não ajuda.
— Há outro.
Licaão esperou.
— Um homem afirma ter conversado com ele depois do nosso encontro.
— Quanto depois?
— Um dia.
Possível.
— Onde?
Theron informou.
Também possível.
— Depois?
— Ninguém soube dizer até encontrarmos um homem que o viu perto de uma fonte mais ao sul.
— Quando?
Theron forneceu a estimativa.
Licaão puxou a tábua para perto e marcou três pontos.
— Isso o colocaria perto da cobrança de cevada.
— Colocaria.
— No mesmo dia?
— Talvez no seguinte.
Licaão olhou para a marca.
— Talvez.
A palavra soou péssima na própria boca.
Theron teve a educação de não comentar.
Licaão perguntou:
— O homem que trouxe a reclamação ainda está na casa externa?
— Está.
— Traga-o.
O mensageiro chegou sonolento, túnica mal ajustada, tentando lembrar datas que alguns minutos antes não imaginava que precisaria defender diante do rei.
— A cobrança aconteceu três dias antes de eu sair.
Licaão perguntou:
— Três?
O homem esfregou um olho.
— Ou quatro.
— Qual?
— Acho que três. Nós dormimos uma noite na propriedade de Menes antes de vir, então talvez quatro se contar a manhã em que…
Licaão ergueu a mão.
— Chega.
Dispensou-o.
Theron continuou ao lado da mesa.
Licaão examinou os pontos marcados.
Agetor poderia ter estado naquela região.
Se tivesse desviado.
Se caminhara o que dizia ter caminhado.
Se o mensageiro errasse por um dia.
Se ouvira a história de outra pessoa.
Tudo ainda cabia.
— Quer que continue? — perguntou Theron.
Licaão olhou para o fogo.
— Sim.
— Procurando quais informações?
Dessa vez levou mais tempo para responder.
— Onde dormiu. Com quem conversou. Quais estradas tomou.
Theron completou:
— Sem parecer que estamos reconstruindo a viagem dele.
— Exato.
O comandante quase sorriu.
— Naturalmente.
Licaão apontou para a porta.
— Vá dormir.
Theron obedeceu.
Sozinho, Licaão ficou algum tempo diante do fogo.
A madeira estalava, lançando pequenos pontos de luz contra a argila da parede.
Notícias viajavam depressa quando assustavam, divertiam ou indignavam. Um homem perdia uma mão numa propriedade e, poucos dias depois, outro jurava ter visto o próprio rei empunhar o machado. Três árvores viravam metade de um bosque. Algumas gotas de vinho transformavam-se em proibição de oferendas. Um cesto podia virar dois enquanto uma ordem passava de uma boca para outra.
Agetor tinha pernas.
Tinha ouvidos.
E parecia ter o hábito inconveniente de conversar com todo tipo de gente.
Havia explicações suficientes para tudo que sabia.
Nenhuma exigia mais do que estrada, sorte e atenção.
Licaão puxou outra tábua para perto do fogo.
Até aquela noite, tentara imaginar de qual casa, exército ou corte Agetor poderia ter vindo.
Agora começou por outra pergunta.
Marcou na cera a estrada onde Theron o encontrara.
Depois a fonte.
Depois o lugar da cobrança.
E passou a reconstruir o caminho que o hóspede teria precisado percorrer para chegar até sua porta.
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