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Sair

A mulher tirou o pão das mãos do filho antes que ele conseguisse pousá-lo no altar.

— Esse não.

O menino ficou diante da pedra com as mãos vazias.

— Mas você disse que era para ele.

— Eu disse para trazer.

— É a mesma coisa.

— Não é, e pare de discutir antes que eu resolva que você também fica aqui.

Zeus ouviu a conversa junto à fonte. A água corria por uma canaleta de pedra e se acumulava numa bacia rasa, onde dois animais bebiam sem se importar com o conflito a poucos passos dali. Ele acabara de lavar a poeira do rosto. O sol ainda não chegara ao ponto mais alto, mas a estrada já estava quente sob as sandálias.

O altar ficava debaixo de uma oliveira torta. Não havia sacerdote, recinto ou estátua. Era apenas uma pedra escurecida por vinho, gordura, farinha e anos de pequenas oferendas deixadas por viajantes e pelas famílias das propriedades próximas.

A mulher segurava o pão redondo contra o peito. O menino devia ter sete ou oito anos.

— Então por que a gente trouxe?

— Porque sua avó mandou.

— Ela mandou deixar inteiro.

— Sua avó manda em muita coisa quando não precisa carregar.

Um homem que lavava as mãos na fonte riu.

A mulher virou-se para ele.

— Quer participar, Lísias?

— De jeito nenhum. Estou aprendendo que até pão pode virar assunto perigoso.

— Então aprenda calado.

Lísias mergulhou as mãos outra vez na água.

— Só acho que sua mãe vai apreciar muito quando descobrir que o pão voltou quase inteiro.

— Minha mãe não precisa descobrir.

— Agora já me colocou dentro da mentira. Vou cobrar.

O menino apontou para o altar.

— E se ele ficar zangado?

O silêncio veio de maneira diferente.

Zeus percebeu a mudança antes que qualquer um dos adultos respondesse.

A mulher deixou de discutir. Lísias também.

O garoto procurou uma resposta primeiro no rosto da mãe, depois em Lísias e, por fim, no estrangeiro junto à fonte. Crianças tinham essa liberdade. Quando dois adultos falhavam, podiam recorrer a um terceiro sem se preocupar se ele tinha qualquer direito de responder.

Zeus bebeu mais um pouco.

A água estava fria.

A mulher percebeu para onde o filho olhava.

— Não incomode o viajante.

— Só queria saber—

— Você já quis saber demais por uma manhã.

Lísias secou as mãos na túnica.

— Esse conselho anda ficando popular por aqui.

A mulher não respondeu.

Zeus voltou a atenção para o altar. Havia cevada presa nas fendas da pedra, uma mancha recente de vinho e três figos, dois deles já abertos por insetos.

O culto continuava ali.

A mulher apenas não sabia mais quanto pão deixar.

Zeus mostrou o odre.

— Posso encher?

— A fonte é de todos.

Ele se abaixou.

Atrás dele, o menino ainda encarava o pão.

— Minha avó disse que agora tem que oferecer mais.

A mãe puxou o tecido que cobria a cesta presa ao braço.

— Sua avó está assustada.

— Com o rei?

Ela segurou o filho pelo ombro.

— Com a língua que você herdou do seu pai.

Lísias recolheu uma corda enrolada perto da fonte.

— O menino não inventou nada. O rei mandou cortar árvore do bosque e continua com as duas mãos.

A mulher baixou a voz.

— O rei não cortou árvore nenhuma.

— Mandou homens cortarem.

— Não é a mesma coisa.

Lísias ajeitou a corda no ombro.

— Para a árvore, duvido que faça grande diferença.

— Agelau disse—

— Agelau também disse que o rei mexeu no grão separado para oferenda.

— Não disse que roubou grão do altar, que é o que estão espalhando.

— Foi o que me contaram.

— Então quem contou mentiu.

— Também ouvi que Licaão proibiu vinho nas oferendas.

A mulher ergueu o pão.

— Ninguém proibiu vinho.

— Diminuiu.

— Na própria casa.

— E o bosque?

Ela levou um momento antes de responder.

— O bosque é outra coisa.

Lísias riu.

— Tudo vira outra coisa quando se pergunta direito.

A mulher perdeu a paciência.

— Você acha engraçado porque não é sua mãe que acorda antes do sol e gasta farinha toda vez que alguém chega com uma história nova.

— Minha mãe sacrificaria minha melhor cabra se um corvo pousasse no lado errado do telhado.

— Sua mãe tem juízo.

— Minha cabra tem outra opinião.

O menino riu.

A mulher lutou contra o próprio riso e perdeu por pouco. O medo não desapareceu; apenas cedeu espaço durante alguns instantes àquilo que também existia entre os homens.

O garoto puxou a túnica da mãe.

— Então vamos deixar ou não?

Ela encarou o altar, depois o pão.

— Um pedaço.

— A avó disse inteiro.

— Sua avó não está aqui.

Lísias inspirou para falar.

A mulher apontou para ele antes.

— Nem uma palavra.

Partiu o pão. Deu metade ao filho, colocou um quarto sobre a pedra e guardou o restante.

— Pronto.

O menino examinou a oferenda.

— Isso basta?

— Se não bastar, sua avó pode trazer outro amanhã.

Ele pousou o pedaço com cuidado.

Zeus observou.

Não havia desafio no gesto da mulher. Também não havia abandono. Ela apenas tentava encontrar uma medida que antes talvez nunca tivesse precisado procurar.

Lísias ajustou a corda.

— Vai para o depósito?

Zeus apertou a tampa do odre.

— Se a estrada passar por lá.

— Passa. Pode ir comigo. Minha carroça está adiante.

A mulher apontou para Lísias.

— Se tiver pressa, vá andando. Ele chama de carroça uma coisa que continua inteira porque os bois ainda não aprenderam a reclamar.

— Aprenderam. Só têm mais educação que você.

Zeus agradeceu pela água e seguiu com ele.

Antes de sair, olhou outra vez para o altar.

O menino já comia a metade do pão que recebera.

A mãe não o impediu.


A carroça de Lísias cumpria exatamente a descrição.

Uma das rodas rangia em todas as voltas. O eixo parecia ter recebido tantas correções que seria difícil dizer qual parte ainda pertencia à construção original. Zeus preferiu caminhar ao lado.

Lísias conduzia dois bois magros e conversava com eles com a familiaridade de quem passara muitas horas na mesma companhia.

— Se parar de puxar outra vez, vendo você.

O boi da esquerda continuou no mesmo passo indiferente.

Zeus observou:

— Não parece preocupado.

— Sabe que é ameaça vazia.

— Então por que continua usando?

Lísias bateu com a vara na lateral da carroça, longe do animal.

— Porque é importante manter alguma autoridade, mesmo quando ninguém acredita nela.

Zeus voltou os olhos para ele.

Lísias devia ter perto de quarenta anos, braços marcados de sol, uma cicatriz antiga junto à boca e mãos de quem alternava terra, madeira e ferramenta. Na carroça levava duas enxadas, uma cesta vazia e um saco pequeno de pregos.

— Trabalha no depósito?

— Quando pagam.

— E quando não pagam?

— Reclamo enquanto trabalho. É quase outra profissão.

A estrada se alargou à medida que avançavam. As marcas de rodas e cascos se multiplicaram. Dois homens passaram conduzindo um jumento carregado de sacos. Depois veio um mensageiro montado, rápido demais para trocar palavra com alguém. Mais adiante, uma carroça de ânforas obrigou Lísias a puxar os bois para a margem.

A proximidade da casa real aparecia antes de qualquer muralha: mais movimento, caminhos mais bem mantidos, gente que parecia saber para onde levava cada carga.

Zeus perguntou:

— Sempre houve tanto trânsito?

— Não por esta estrada.

— O que mudou?

— Antes muita gente preferia dar a volta pelo sul. Demorava mais, mas era menos provável chegar sem mercadoria.

— Ladrões?

— Ladrões, homens inventando pedágio, lama, animal morto no caminho… escolha o problema.

— E agora?

Lísias pensou.

— A lama continua.

Zeus sorriu.

— Só ela?

— Não exija milagre de rei. Ainda temos parentes ruins.

O depósito apareceu depois de uma curva.

Era uma construção comprida, assentada sobre pedra, com paredes de barro endurecido. O teto destoava do resto. Parte das vigas era nova, clara, e algumas ainda conservavam a cor fresca do corte.

Trabalhadores descarregavam sacos sob a supervisão de um homem de túnica curta.

Lísias apontou.

— Aí está sua madeira santa.

Zeus não respondeu.

Reconheceu a origem das vigas antes de tocar qualquer uma delas.

Continuavam sendo madeira. Nada visível as distinguia de outras árvores cortadas em qualquer encosta. Ainda assim, ele conhecia o bosque de onde tinham vindo, as pequenas oferendas depositadas junto às raízes, o vinho absorvido pelo solo e as palavras pronunciadas ali por homens mortos havia muitas gerações.

Agora sustentavam um teto.

Um trabalhador passou carregando uma viga curta. Antes de pousá-la, tocou dois dedos nos lábios e depois na madeira.

O supervisor viu.

— Outra vez, Pítaco?

O homem baixou a mão.

— O quê?

— Isso que acabou de fazer.

— Tinha poeira na boca.

— E resolveu limpar na viga?

Alguns trabalhadores riram.

Pítaco acompanhou.

— A poeira daqui é insistente.

— Se cada peça precisar de bênção antes de subir, terminaremos no inverno.

— Então não abençoe.

— Eu não.

— Pronto. Metade do problema resolvida.

O supervisor preparava uma resposta quando outra carroça entrou pelo lado oposto. O trabalho engoliu a conversa.

Zeus ficou sob a parte já coberta.

Havia muito grão ali. Sacos empilhados, cestos, recipientes vedados. Sem o reparo, uma chuva mais forte poderia alcançar parte da reserva.

Perto da parede, um velho separava pregos tortos daqueles que ainda serviam.

Zeus indicou o teto.

— A madeira veio do bosque?

O velho não perguntou qual bosque.

— Parte dela.

— Foi difícil trazer?

— Trazer, um pouco. Cortar árvore é simples se o machado presta.

— Não era esse tipo de dificuldade que perguntei.

O homem levantou a cabeça.

Uma das sobrancelhas brancas crescera mais que a outra, projetando-se de maneira quase cômica.

— Estrangeiro?

— Sim.

— Melhor para você. Ainda consegue perguntar essas coisas sem todo mundo decidir de que lado está.

Zeus sentou numa pedra.

— Já existem lados?

O velho voltou aos pregos.

— Pergunte amanhã.

— Por que não hoje?

— Porque hoje ainda fingimos que não.

Escolheu um prego, tentou endireitá-lo com os dedos e o descartou.

Zeus continuou:

— O teto precisava ser reparado?

— Se queria manter o grão seco, precisava.

— Havia madeira em outro lugar?

— Havia.

— Então por que trouxeram esta?

— Porque foi a que chegou primeiro.

— Quem trouxe?

— Homens da casa.

— Ninguém recusou?

O velho riu.

— Você recusa madeira quando tem cinquenta sacos de cevada esperando a próxima chuva?

— Algumas pessoas recusariam.

— Algumas não têm cinquenta sacos de cevada debaixo do teto.

Zeus olhou para as vigas.

— Acha que fizeram certo?

O velho examinou outro prego antes de responder.

— Meu filho come do grão guardado aqui.

Jogou o prego na pilha boa.

— Meu pai, se estivesse vivo, provavelmente quebraria um cajado nas minhas costas por trabalhar com esta madeira sem purificação.

— E qual dos dois pesa mais?

— Meu pai está morto.

— Isso facilita?

O velho sorriu.

— Muito menos do que eu esperava quando era jovem.

O supervisor chamou dois homens.

Pítaco passou novamente junto a uma viga.

Dessa vez não fez gesto algum.

O velho percebeu.

— Fazia oferenda naquele bosque desde pequeno.

— E agora ajuda a montar o teto.

— Tem três filhos.

Zeus observou Pítaco erguer uma extremidade da madeira com outro homem.

— Obrigaram-no?

— A trabalhar? Claro. Todo mundo é obrigado a alguma coisa.

— A trabalhar nessas vigas.

— Não.

Outro prego foi testado.

— O sacerdote daqui disse que não devíamos usar.

— Agelau?

— Tímon.

— E o supervisor?

— Perguntou se Tímon pagaria pela cevada estragada caso chovesse.

— Pagaria?

O velho soltou uma risada.

— Tímon parou de falar antes de chegar nessa parte.

— Então aceitaram.

O velho fez uma careta.

— Aceitar é palavra bonita demais.

— Qual usaria?

Ele pensou enquanto separava dois pregos.

— Continuaram trabalhando.

Zeus se levantou.

Lísias já descarregara o saco de pregos.

— Vai seguir para o norte? — perguntou.

— Para a casa do rei.

Lísias assobiou.

— Então já está quase lá.

O velho ergueu a cabeça.

— Vai pedir audiência?

— Ainda não sei.

— Se for reclamar deste teto, espere a chuva. Pelo menos terá argumento ruim para oferecer aos dois lados.

Zeus agradeceu.

Antes de partir, viu uma mulher entrar no depósito e contar os sacos. Ao passar por uma das novas colunas, encostou nela dois dedos.

O mesmo gesto de Pítaco.

Tão discreto que ninguém comentou.


O problema seguinte apareceu menos de uma hora depois.

Seis homens estavam parados junto a uma ponte pequena. Três cabras ocupavam o outro lado da estrada com uma tranquilidade que as tornava a parte mais razoável da cena.

Havia também uma carroça, dois cestos de cevada no chão e um rapaz segurando uma vara com força suficiente para sugerir que logo deixaria de servir apenas para conduzir animais.

Um homem mais velho bloqueava o caminho.

— Não vai levar.

— Já está separado — respondeu o rapaz.

— Então separe de volta.

— Tenho ordem.

— Mostre.

— Não preciso mostrar nada.

Zeus diminuiu o passo.

O rapaz percebeu.

— A estrada está livre para você.

Zeus olhou para os homens, os cestos e as cabras.

— Não parece.

— Passe pela lateral.

O velho apontou para a cevada.

— Ele quer levar isto dizendo que é para a casa do rei.

— Porque é — respondeu o jovem.

— Já entregamos nossa parte.

— A anterior.

— Que parte nova apareceu?

— Mandaram recolher para os alojamentos.

— Quem mandou?

O rapaz respondeu depressa demais:

— A casa.

O velho riu.

— A casa acordou esta manhã com fome?

Zeus aproximou-se o bastante para ver pequenas tábuas presas por cordões aos cestos.

— Quem deu a ordem?

O rapaz voltou-se para ele.

— Você não tem nada com isso.

— Então continue discutindo. Eu posso esperar.

O velho abriu as mãos.

— Viu? Até o estrangeiro percebe.

— Ele não percebe nada.

Zeus apontou para o rapaz.

— Quem, na casa, mandou recolher?

A resposta já não veio tão rápida.

— O responsável.

— Qual?

— Eudoro.

O velho soltou um ruído de desprezo.

— Agora virou Eudoro. De manhã era Mélas.

— Eu disse que Eudoro recebeu de Mélas.

— Não disse.

— Disse.

— Você falou “veio de cima”. Até chuva vem de cima.

Uma mulher apareceu de uma propriedade próxima carregando uma tigela.

— O que aconteceu desta vez?

— Querem mais cevada.

— De quem?

— De todo mundo, se esse rapaz conseguir começar.

O jovem bateu a ponta da vara no chão.

— É para os homens que patrulham a estrada.

A mulher parou.

— A patrulha que passou ontem?

— Sim.

— Disseram que desceriam para o sul.

— Alguns ficam.

— Quantos?

O rapaz não sabia.

A mulher prosseguiu:

— E quanto grão precisam?

Outra vez, ele não soube responder.

O velho olhou para Zeus.

— Aí está.

O rosto do rapaz avermelhou.

— Meu trabalho é recolher. Não contar soldados.

— Seu trabalho é roubar com um nome melhor.

A vara subiu alguns dedos.

Zeus viu o movimento antes que se transformasse em golpe.

O velho também se preparou.

Dois cestos de cevada estavam prestes a virar uma história sobre o rei.

Zeus apontou para as pequenas tábuas amarradas aos recipientes.

— Quem marcou os cestos?

A pergunta desviou os dois homens.

— O quê? — perguntou o rapaz.

— Se pertencem à casa, deve haver marca.

O jovem olhou para as tábuas como se não tivesse pensado nelas desde que as amarrara.

— Filon marcou.

— Com o quê?

— O sinal dele.

— Não o da casa?

O velho avançou para examinar.

O rapaz bloqueou.

— Não mexa.

— Quero ver.

— Fique onde está.

A mulher pousou a tigela no chão.

— Meu irmão trabalha nos depósitos. Mostre.

— Não preciso.

— Se é ordem do rei, por que está escondendo a marca?

O rapaz não tinha resposta adequada.

Baixou a vara e soltou o cordão.

A marca era simples: duas linhas cortadas por uma terceira.

A mulher reconheceu.

— É de Filon.

— Eu disse.

— Filon recolhe para Eudoro quando Eudoro manda.

— Também falei isso.

— Não recolhe em nome da casa por conta própria.

— Eudoro trabalha para a casa.

— Às vezes.

O velho tomou a tábua.

— Onde diz que são dois cestos?

O rapaz tentou recuperá-la.

— Filon mandou.

— Onde está marcado?

— Ele falou.

— E quem mandou Filon?

O jovem fechou a boca.

A mulher olhou para Zeus.

— A patrulha recebe grão daqui?

— Não sei.

Ela pareceu surpresa por um homem simplesmente admitir ignorância.

Zeus perguntou ao rapaz:

— Você sabe?

— Sei o que Filon me disse.

— Isso, sim.

O rapaz examinou a estrada e os cestos.

— Disse que a casa aumentou a parte enquanto houver mais homens patrulhando.

— Quanto aumentou?

— Um cesto por propriedade.

O velho apontou para os dois no chão.

— Então de onde saiu o segundo?

Dessa vez a resposta apareceu no rosto do jovem antes de qualquer palavra.

A mulher falou:

— Um vai para os soldados. O outro, para Filon.

— Não sei disso.

— Sabe alguma coisa.

— Eu não fico com nada.

— Ninguém perguntou se fica.

Zeus aproximou-se dos cestos.

— Se Filon aumentou a cobrança sozinho, o que você faz?

— Cumpro a ordem.

— De Filon.

— Sim.

— Mesmo se estiver errada?

O rapaz encarou-o.

Zeus lembrou-se de Theron.

A cadeia era muito menor. A responsabilidade também. Aquele jovem não comandava homens, não carregava anos de serviço nem tinha recebido uma ordem direta do rei.

Possuía apenas uma vara, dois cestos e o medo de ser o homem que voltaria a Filon dizendo que fizera perguntas.

Por fim, respondeu:

— Levo a marca até Eudoro.

O velho bufou.

— E leva o quê mais?

— A tábua.

— Estou perguntando da cevada.

O rapaz pensou.

— Fica aqui.

— Até quando?

— Até eu voltar.

— E se não voltar?

O jovem respondeu já se afastando:

— Então coma e diga que foi o rei.

O velho riu.

A mulher também.

A tensão perdeu força. Até o rapaz sorriu contra a própria vontade.

Pegou a tábua e começou a atravessar a ponte.

Zeus chamou:

— E Filon?

Ele parou.

— O que tem?

— Vai contar que questionou a cobrança?

O sorriso desapareceu.

— Vou dizer que o velho não entregou.

— Não é a mesma coisa.

— Para Filon, é melhor.

— Para você também?

O rapaz ficou olhando para Zeus.

— Você é sempre assim?

— Algumas vezes.

— Então tente não chegar à casa do rei antes de mim.

Continuou.

As cabras só saíram do caminho quando ele quase esbarrou nelas.

O velho recolheu os dois cestos.

— Obrigado.

— Não fiz nada.

— Fez pergunta.

— Você já estava fazendo várias.

— Quando sou eu, chamam de reclamação.

A mulher recuperou a tigela.

— Porque você reclama até quando está satisfeito.

— É assim que descubro o que presta.

Ela se voltou para Zeus.

— Vai mesmo até a casa?

— Estou indo naquela direção.

— Se encontrar Eudoro, avise que Filon anda usando o nome dele.

O velho corrigiu:

— O nome do rei. Diga que usa o nome do rei. Aí talvez alguém acorde.

Zeus observou os dois.

— E se Licaão não souber?

O velho deu de ombros.

— Devia saber.

A mulher discordou imediatamente.

— Como? Vai sair contando cesto por cesto de toda propriedade?

— É rei.

— Não é pastor de galinha.

— Então que escolha gente que não roube.

— Talvez tenha escolhido, e Filon esteja mentindo sozinho.

— Continua sendo problema do rei.

A mulher apontou para Zeus.

— Não escute. Esse velho culpa Licaão quando chove.

— Porque manda consertar estrada e esquece de mandar no céu.

Ela riu.

O velho também.

Zeus retomou o caminho antes que encontrassem outro assunto.

Levou consigo menos a marca de Filon do que o percurso feito por aquela autoridade.

Um homem usara o nome de outro, que usara o nome de Eudoro, que usara o nome de Mélas ou talvez apenas da casa, que por fim existia sob Licaão.

Em algum ponto dessa corrente, um cesto se transformara em dois.

Talvez Filon tivesse mentido. Talvez Eudoro se expressasse mal. Talvez a cobrança nova realmente existisse e tivesse chegado incompleta.

Zeus ainda não sabia.

Era justamente isso que importava.

O poder de Licaão já alcançava lugares onde a ordem de Licaão talvez nunca tivesse chegado.


Mais tarde, Zeus recebeu pão numa casa onde ninguém perguntou seu nome.

A mulher que o chamou da estrada era baixa, velha e caminhava com um dos pés virado um pouco para fora. Vira-o parar sob uma figueira para ajustar a sandália.

— Comeu?

— Pouco.

— “Pouco” é palavra de homem com fome que quer manter dignidade. Sente.

Trouxe pão, queijo e água.

Zeus comeu do lado de fora.

Um homem mais jovem reparava uma cesta junto à porta. Trabalhava as fibras com uma lâmina curta e uma paciência que não combinava com a quantidade de perguntas que fazia.

— Vai para onde?

— Para a casa de Licaão.

— Tem assunto com ele?

— Talvez.

— Então fale na entrada.

A velha bateu levemente no ombro do homem.

— Deixe o viajante engolir antes de começar o interrogatório.

— Estou ajudando.

— Você ajuda demais com a boca.

Zeus comeu mais um pedaço de queijo.

O homem retornou à cesta.

— Se quiser audiência, pode esperar.

— Você já pediu?

— Minha irmã.

— Foi recebida?

— Pelo filho do rei.

Zeus manteve o interesse na medida adequada.

— Níctimo?

— Ele mesmo.

A velha trouxe mais queijo.

— Bom rapaz.

O homem fez um ruído.

Ela se voltou.

— Diga.

— Você chama todo homem com menos de trinta de bom rapaz.

— Porque depois dos trinta estragam.

— E antes?

— Ainda há esperança.

Zeus perguntou:

— O que sua irmã levou até ele?

— Questão de terra.

— Resolveu?

— Mandou medir de novo.

— Licaão estava presente?

— Não.

— Perguntei porque falou do filho.

O homem puxou uma fibra com os dentes.

— Dizem que anda ouvindo mais casos sozinho.

A velha levantou a cabeça.

— Quem diz?

— Gente.

— Gente também jurou que o rei proibiu sacrifício.

— Eu não falei que acredito.

— Repetiu.

— Repetir não significa acreditar.

— É exatamente como começa.

Zeus bebeu.

— Há problema em Níctimo julgar casos?

O homem deu de ombros.

— Algum dia vai precisar.

— Então por que comentou?

— Porque estão falando.

A velha não desistiu.

— Falando o quê?

O homem demorou o suficiente para revelar que a resposta não estava pronta.

— Que às vezes decide diferente do pai.

— Filho que decide tudo igual ao pai não é herdeiro. É uma boca mais nova.

O homem riu.

— Vá dizer isso na casa.

— Se me chamarem, digo.

— É por isso que não chamam.

Ela entrou.

Zeus observou o homem terminar o fundo da cesta.

— Sua irmã ficou satisfeita?

— Com Níctimo?

— Com a decisão.

— Ainda não mediram.

— E com ter sido ouvida?

Ele pensou.

— Sim.

Depois continuou:

— Meu cunhado não.

— Por quê?

— Queria o rei.

— Faz diferença?

— Para ele, faz.

— Por quê?

O homem levantou a cesta para conferir a trama.

— Você faz perguntas demais para um sujeito que “talvez” só queira audiência.

Zeus sorriu.

— Já me disseram isso hoje.

— Duas pessoas certas no mesmo dia. Considere o aviso.

A velha voltou com mais água.

— Não dê conselho a hóspede antes de oferecer vinho.

— Não temos vinho.

— Então fique sem conselho.

O homem ergueu as mãos e desistiu.

Zeus agradeceu pela comida. A velha recusou pagamento.

— A estrada já cobra bastante de quem anda.

Ele partiu.

Antes de se afastar, ouviu o homem perguntar:

— Você diria mesmo aquilo sobre filho e pai diante de Licaão?

A velha respondeu:

— Não sou idiota.


A estrada começou a subir no fim da tarde.

A terra ao redor mudou aos poucos. Os campos estavam mais bem delimitados, os muros de pedra mais regulares e as oliveiras apareciam em linhas organizadas. Construções maiores se aproximavam dos caminhos. Homens passavam levando registros, animais, sacos e ferramentas.

Dois guardas cruzaram com Zeus.

Observaram o estrangeiro.

Continuaram.

Mais adiante, trabalhadores reparavam a lateral da estrada onde a água abrira um sulco profundo. Zeus parou para beber.

O corpo que escolhera carregava o dia.

Pés doloridos, sal seco sobre a pele, fome reaparecendo mesmo depois da refeição.

Aquilo não o tornava mortal. Não precisava.

Era suficiente para dar peso às distâncias.

Enquanto bebia, uma oração o alcançou.

Muito longe dali, homens enfrentavam vento contrário sobre o mar. Um chamou por Zeus.

Outra voz surgiu das montanhas.

Depois uma terceira.

Ele poderia abrir a percepção e recebê-las todas com clareza.

Não abriu.

O vento permaneceu vento para os homens no mar.

Zeus fechou o odre.

Dois trabalhadores conversavam perto do sulco.

— Se o rei quisesse isso terminado hoje, tinha mandado mais gente.

O outro empurrava terra com uma pá.

— Disseram que quer pronto.

— Quem disse?

— O encarregado.

— Encarregado fala “o rei quer” até quando precisa que alguém busque água.

— E funciona.

Os dois riram.

Zeus observou.

Nenhum parecia assustado.

O nome de Licaão já fazia parte da linguagem cotidiana do trabalho. Servia para apressar homem cansado, encerrar argumento, justificar tarefa, ameaçar preguiçoso e, às vezes, fazer piada.

Continuou subindo.

O último viajante apareceu perto de uma bifurcação. Conduzia um burro carregado com duas ânforas vazias e trazia poeira nos cabelos e uma mancha de tinta no pulso.

Zeus perguntou:

— A casa do rei?

O homem apontou para a estrada que subia.

— Por aí.

O outro caminho seguia para oeste entre árvores.

— Falta muito?

— Menos de uma hora se andar sem inventar motivo para parar.

— Vem de lá?

— Passei a manhã toda lá.

— Trabalha na casa?

— Levo azeite quando precisam. Hoje fui acertar contas.

— Acertaram?

O homem soltou uma risada.

— Conta nunca termina. Só muda de tábua.

Zeus sorriu.

— Falou com Licaão?

— Não.

— Com quem?

— Primeiro com um homem de Mélas. Depois apareceu outro dizendo que o primeiro tinha entendido errado. Aí o primeiro voltou e explicou que o segundo tinha razão, mas por motivo diferente.

— E qual foi o resultado?

— Devo três medidas a menos do que devia de manhã.

— Então valeu a viagem.

O homem olhou para os próprios pés.

— Depende do preço que põe num dia inteiro perdido.

Zeus indicou a estrada mais alta.

— O rei recebe estrangeiros?

— Se vierem como inimigos, imagino que receba de outro jeito.

— E como hóspedes?

O homem reajustou a corda do burro.

— A casa sempre recebeu viajante.

— Sem saber quem é?

Ele riu.

— Quer que descubram quem é antes de deixar entrar?

Zeus ficou olhando para ele.

O homem percebeu a própria pergunta.

— Desculpe. Passei o dia discutindo conta e agora quero recibo de toda resposta.

— Não tem problema.

— Se vai pedir teto e comida, peça. Se quer audiência, fale depois.

— Fazem assim?

— Foi assim comigo quando era menino. Meu pai me levou numa viagem. Chegamos tarde e com chuva. Primeiro deram lugar aos animais. Só depois perguntaram por que estávamos ali.

Coçou a mancha de tinta no pulso.

— Não sei se ainda é igual.

Zeus perguntou:

— Mudou muito?

— A casa?

— Licaão.

O homem puxou o burro alguns passos antes de parar.

A pergunta parecia grande demais para uma bifurcação.

— Depende de quem você pergunta.

Zeus quase riu. Escutara aquilo em formas demais durante os últimos dias.

— Estou perguntando a você.

O homem apoiou a mão no lombo do animal.

— Licaão resolveu uma disputa de água para meu irmão. Também mandou meu primo trabalhar vinte dias numa estrada depois que ele escondeu parte do que devia.

— E o que pensa disso?

— Meu irmão fala melhor dele que meu primo.

— E você?

— Eu não era dono da água nem escondi grão.

Zeus esperou.

O homem percebeu.

— As estradas estão melhores.

Começou a andar, mas parou outra vez.

— Minha mulher deixa mais vinho no altar agora.

— Por quê?

— Minha sogra disse que o rei irritou os deuses.

— Você acredita?

O homem pensou.

— Acredito que discutir com minha sogra custa mais vinho do que oferecer.

Zeus riu.

O homem também.

Tomou o caminho para oeste.

— Estrangeiro.

Zeus virou-se.

— Se for pedir comida, chegue antes de escurecer. Ninguém gosta de hóspede que espera a panela ser guardada para aparecer.

— Vou lembrar.

O homem ergueu uma mão e desceu com o burro.

Zeus permaneceu sozinho na bifurcação.

A estrada a oeste levava a mais casas, altares, famílias e histórias. Se a seguisse, encontraria outro homem salvo por uma patrulha e alguém que temia essa mesma patrulha. Um agricultor agradeceria por uma estrada enquanto outro reclamaria dos dias que perdera construindo-a. Haveria trabalhadores usando o nome do rei para acelerar tarefas e outros acrescentando ordens que Licaão talvez nunca tivesse dado.

Talvez alguém conseguisse reconstruir palavra por palavra a discussão entre o rei e Agelau.

Ainda assim, faltaria aquilo que estrada nenhuma podia oferecer.

Licaão decidindo.

Theron mostrara que uma ordem atravessava homens e adquiria as escolhas deles pelo caminho. Myrine mostrara que uma sentença continuava dentro de uma casa muito depois de deixar de ser argumento diante do rei. Mercadores haviam mostrado por que agradeciam. Trabalhadores, por que reclamavam.

Naquela manhã, uma mulher dividira um pão diante de um altar porque já não sabia quanto deveria oferecer.

Pouco depois, um rapaz quase levara dois cestos porque alguém usara o nome de alguém que usava o nome da casa.

Nos dois casos, Licaão estivera presente sem estar.

Zeus já tinha o bastante.

Tomou a estrada que subia.

A casa surgiu aos poucos.

Primeiro vieram os sinais: caminho mais largo, muros baixos, estábulos, homens entrando e saindo, um depósito maior perto do acesso. Depois os telhados apareceram acima da inclinação, seguidos por paredes distribuídas ao redor de pátios ainda escondidos daquele ponto.

Nenhuma nuvem se reuniu sobre ele.

Nenhum trovão anunciou sua aproximação.

Zeus apenas ajustou o manto sobre o ombro e continuou dentro do corpo cansado que escolhera para a viagem.

Quando alcançou o trecho onde a estrada claramente passava a pertencer à casa, parou.

Ainda poderia voltar.

Outra aldeia ofereceria outra história. Outra estrada mostraria mais uma consequência. Sempre existiria alguém que tivera razão, alguém tratado com dureza, alguém protegido, alguém que se julgava esquecido.

Não precisava de mais.

Vira homens favorecidos pelo governo de Licaão e outros feridos por suas decisões. Vira medo produzir ordem. Vira a autoridade do rei alimentar abusos que talvez nunca tivessem chegado até ele. Vira a devoção sobreviver, mudar de forma, esconder-se e tornar-se maior quando o medo aumentava.

Tudo aquilo dizia alguma coisa sobre o reino.

Ainda não bastava para julgar o rei.

Faltava Licaão.

Zeus retomou o passo.

Não chegaria como deus.

Não pisaria diante do rei acompanhado por trovão, fogo ou nome capaz de obrigar qualquer homem a ajoelhar-se. Não pediria audiência reivindicando autoridade superior.

Chegaria coberto de poeira.

Estrangeiro.

Um homem no fim de uma estrada.

A casa de Licaão fora erguida sob costumes muito anteriores à disputa entre rei e sacerdote. Um viajante chegava. Pedia abrigo. O senhor da casa decidia como recebê-lo.

Zeus continuou subindo.

Quando alcançasse o portão, pediria hospitalidade.

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