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Pérdicas dizia seis dias. A tábua registrava quatro.

Níctimo passou o polegar pela cera, conferiu as marcas pela segunda vez e ergueu os olhos.

— Aqui estão quatro.

Pérdicas, encarregado de uma das equipes que reconstruíam a estrada do norte, manteve-se firme.

— Ele trabalhou seis.

— Então por que você registrou quatro?

— Porque foram quatro dias completos.

Níctimo deixou o estilete sobre a mesa.

— Explique o que chama de dia incompleto.

O homem percebeu que a formulação anterior não o ajudara. Olhou de relance para os dois trabalhadores perto do muro. Ambos estavam cobertos de poeira até os joelhos, e um deles, Símias, era justamente quem trouxera a reclamação.

Segundo ele, passara seis dias carregando pedra e terra depois que as chuvas levaram parte da encosta. Recebera cevada por quatro porque o registro de Pérdicas considerara os outros dois como ausência.

— Nos dois dias ele chegou tarde — explicou o encarregado. — O restante da equipe já estava trabalhando.

— Quanto tempo perdeu?

— Algumas horas.

— Algumas quantas?

Pérdicas não respondeu.

Símias tentou falar.

Níctimo levantou a mão.

— Espere. Quero ouvir primeiro quem fez a marca.

Voltou-se para o encarregado.

— Você contou as horas?

— Não.

— Então como decidiu que não valiam um dia?

— Porque chegaram depois dos outros.

— E trabalharam até quando?

— Até o fim.

Níctimo apoiou os braços nos joelhos.

— Pérdicas, se vai descontar trabalho, precisa saber quanto trabalho está descontando.

O homem mexeu o peso sobre os pés.

— Vieram depois do sol alto.

— Antes da refeição?

— No primeiro dia, sim.

Níctimo olhou para Símias.

— E no outro?

— Pouco depois.

— Por quê?

— Minha mãe estava doente.

Pérdicas soltou um ruído de impaciência.

Níctimo se voltou para ele.

— Diga.

— Todo homem tem algum parente doente quando chega atrasado.

Símias deu meio passo adiante.

— Sua mãe já estava morta havia três anos quando você—

— Símias.

O trabalhador parou.

Níctimo conhecia aquela estrada. Mais alguns minutos e ninguém se lembraria de pedra, pagamento ou trabalho. Falariam de mães, pais, animais emprestados e dívidas acumuladas desde algum casamento que cada lado recordava de maneira diferente.

— Você avisou Pérdicas no primeiro dia?

— Avisei.

Níctimo olhou para o encarregado.

— Isso é verdade?

— É.

— E no segundo?

Símias abaixou os olhos.

— Não.

— Sua mãe piorou naquela noite?

— Sim.

— Entendo o atraso. Ainda precisava avisar.

— Eu sei.

Níctimo voltou à tábua.

Quatro marcas.

Duas ausências inteiras.

Era uma solução fácil para quem olhasse apenas a cera.

Lembrou-se de quando Licaão começara a ensiná-lo a conferir registros. O pai raramente perguntava primeiro quantos dias estavam marcados. Queria saber quem ganhava com uma marca a mais, quem perdia com uma a menos, quem segurava o estilete e quem fornecia a informação.

Na época, Níctimo achava excesso de desconfiança.

Depois descobrira quantos homens conseguiam empurrar um estilete sem sequer tocar nele.

— Nos dois dias em que chegou tarde, Símias recebeu alguma tarefa diferente dos outros?

Pérdicas coçou a lateral do pescoço.

— Carregou pedra.

— Menos viagens?

— Não contei.

— Terminou o que você mandou?

Pérdicas ficou calado.

Níctimo repetiu:

— Terminou?

— Terminou.

— Nos dois dias?

— Sim.

— A equipe atrasou por causa dele?

— Não.

Símias olhava para Níctimo com expectativa demais.

Isso o incomodou.

— Você perde metade de um dia.

A esperança diminuiu.

— Senhor…

— No segundo atraso, chegou depois da refeição e não avisou ninguém. Isso vai custar alguma coisa.

Símias aceitou.

— Sim.

Níctimo apontou para a tábua.

— Pérdicas, registre cinco dias e meio.

O homem encarou a cera.

— Não usamos metade.

— Vai usar agora.

— Vai parecer que errei a conta.

— Então invente uma marca para meio dia que não pareça erro.

Um dos trabalhadores junto ao muro baixou a cabeça para esconder o sorriso.

Pérdicas não achou graça.

— E a cevada?

— Complete um dia e meio.

— Ele chegou atrasado duas vezes.

— E trabalhou duas vezes.

— Se eu pagar, os outros podem começar a fazer o mesmo.

Níctimo puxou a tábua para perto.

— Então diga a todos o que aconteceu: Símias perdeu parte do pagamento por chegar tarde.

— Mas continua recebendo.

— Porque continuou trabalhando.

A resposta parecera simples quando saiu.

Depois, nem tanto.

Níctimo imaginou o que Licaão faria com ela.

E se dez homens começassem a chegar depois do sol alto? E se aceitassem perder parte do pagamento? E se, pouco a pouco, a estrada deixasse de ficar pronta?

Havia respostas para algumas dessas perguntas.

Para outras, ainda não.

— Corrija a tábua.

Pérdicas recebeu-a.

— Sim, senhor.

Símias fez uma reverência curta.

— Obrigado.

— Não me agradeça pela metade que perdeu.

— Ainda saio com mais do que tinha ontem.

Níctimo apontou para ele com o estilete.

— Esse cálculo, pelo menos, você fez bem.

Símias sorriu e saiu com os outros.

Níctimo permaneceu sentado.

Uma serva atravessou o pátio carregando figos. Dois homens esperavam junto à galeria por outra audiência. Mais adiante, alguém discutia o peso de um saco de cevada com uma convicção que provavelmente aumentava à medida que a diferença em questão diminuía.

A casa pouco se importava se Níctimo estava satisfeito com a decisão.

A próxima já esperava.

Ele pegou outra tábua.

— Quem vem agora?

— Ninguém, durante alguns minutos.

Níctimo ergueu o rosto.

Mélas estava junto à entrada.

— Isso sim seria intervenção divina.

— Não gaste essa frase aqui. Agelau pode ouvir e exigir uma oferenda.

Mélas entrou.

— Seu pai quer falar com você.

Níctimo largou a tábua.

— Sobre quê?

O conselheiro olhou para o lugar onde Pérdicas estivera.

— Posso estar enganado, mas suspeito que seja sobre a recente invenção do meio dia.

Níctimo passou a mão pelos cabelos.

— Já chegou até ele?

— Pérdicas encontrou Licaão no corredor.

— Claro.

— Esta casa foi construída de modo admirável. Notícias ruins quase nunca precisam caminhar muito.

Níctimo se levantou.

— Você acha que decidi errado?

Mélas fez um gesto impreciso.

— Acho complicado armazenar meio dia num celeiro.

— Mélas.

O conselheiro parou.

Níctimo esperou uma resposta real.

— Ainda não sei. Você não me explicou por que decidiu assim.

— Símias trabalhou.

— Então diga isso ao seu pai.

— Pretendo.

Mélas não saiu do lugar.

Níctimo percebeu.

— O que foi?

— Entre para explicar. Não para vencer.

— Vou conversar com meu pai.

— Exatamente o que eu quis dizer.


Licaão estava na sala menor de audiências.

Não ocupava o assento elevado reservado às recepções formais. Trabalhava junto a uma mesa baixa com três tábuas abertas e um pedaço de pão que parecia esquecido havia tempo suficiente para endurecer.

Dia estava perto da janela.

Quando Níctimo entrou, ela olhou primeiro para ele, depois para Mélas.

— Vou deixar os três trabalhando.

Licaão ergueu o rosto.

— Pode ficar.

— Não preciso.

Dia passou por Níctimo e tocou-lhe o braço de leve.

Nenhuma palavra.

Ele acompanhou a mãe até a porta.

— Sente.

Níctimo obedeceu.

Mélas permaneceu de pé.

Licaão puxou uma das tábuas para perto.

— Cinco dias e meio?

— Sim.

— Pérdicas registrou quatro.

— E registrou mal.

— Conte o que aconteceu.

Níctimo explicou desde o início. Não defendeu a própria decisão enquanto falava. Apenas apresentou o atraso, a doença da mãe, o aviso feito no primeiro dia, o silêncio no segundo, as horas trabalhadas e as tarefas concluídas.

Licaão ouviu sem interromper.

Ao fim, apontou para a tábua.

— O que Pérdicas deveria registrar?

— Os dias de trabalho.

— Ele fez isso.

— Fez de maneira ruim.

— Segundo você.

Níctimo conhecia aquele tom.

Durante boa parte da infância, essas conversas tinham sido quase um jogo entre os dois. Licaão localizava uma falha, e Níctimo tentava enxergá-la antes que o pai a mostrasse por inteiro.

Às vezes conseguia.

Gostava quando conseguia.

— Segundo o trabalho que foi feito.

Licaão recostou-se.

— Amanhã três homens chegam depois do sol alto. O que Pérdicas faz?

— Desconta o tempo.

— Quanto?

— Aquilo que deixaram de trabalhar.

— Como mede?

Níctimo começou a responder e parou.

— Pode registrar a hora de chegada.

— Então transformamos Pérdicas em contador de horas.

— Ele já controla uma equipe.

— Não controlava tempo dessa maneira.

— Porque até agora só precisava escolher entre presente e ausente.

Licaão inclinou o corpo sobre a mesa.

— E você acaba de tornar a função dele mais difícil.

— Mais precisa.

— Precisão custa homem, tempo e atenção.

Níctimo tocou a tábua.

— Dois dias de cevada também custam.

— Para quem?

— Para Símias.

Licaão ergueu uma sobrancelha.

Níctimo conhecia aquele gesto.

— Se dez homens descobrirem que podem chegar tarde e ainda receber alguma coisa?

— Perdem parte do pagamento.

— E se aceitarem perder?

— Trabalham menos. Recebem menos.

— E a estrada?

Níctimo já tinha pensado nisso.

— Se começar a atrasar, mudamos a consequência.

Licaão permaneceu quieto por um instante.

— Melhor.

Uma única palavra.

Ainda funcionava.

Níctimo odiou perceber quanto a queria.

Licaão partiu o pão ao meio e empurrou uma parte para ele. Níctimo pegou sem agradecer; dividiam comida daquele jeito desde que se lembrava.

— Então me explique por que Pérdicas saiu do pátio acreditando que você proibiu descontar atrasos.

Níctimo mastigou.

— Eu não proibi.

— Ele entendeu assim.

— Isso é problema meu ou dele?

O olhar de Licaão respondeu antes que Níctimo terminasse a pergunta.

— Meu.

— Quando um homem sai de uma decisão sua entendendo outra ordem, não importa tanto o que você acha que decidiu.

Níctimo assentiu.

Aquilo era verdade.

— Vou falar com ele.

— E mudar a decisão?

— Não.

— Mesmo Símias tendo chegado tarde duas vezes?

— Ele trabalhou nos dois dias.

— E no segundo sequer avisou.

— Por isso perdeu metade.

— Poderia perder o dia todo.

— Poderia.

— Os outros aprenderiam mais rápido.

Níctimo pousou o pão.

— Aprenderiam o quê?

Licaão respondeu:

— A chegar na hora.

— Talvez aprendam a mentir sobre quando chegaram.

Mélas mudou discretamente o apoio das pernas.

Licaão encarou o filho.

— Por quê?

— Se admitir três horas de atraso custar um dia inteiro, da próxima vez alguém chega tarde e procura um amigo disposto a jurar que o viu desde cedo.

— Então puna a mentira.

— Quando descobrir.

— Descubra.

Níctimo passou o polegar pela borda do pão.

— Talvez seja mais fácil descobrir enquanto ainda vale a pena dizer a verdade.

Licaão não respondeu.

Níctimo reconheceu aquele silêncio e, pela primeira vez, não correu para preenchê-lo.

O pai falou depois de alguns instantes:

— Você acha que estão com medo de me dizer as coisas.

Não era pergunta.

— Alguns estão.

— Homens sempre tiveram medo de reis.

— Não desse jeito.

Mélas entrou na conversa:

— Talvez seja melhor acabarmos com Pérdicas antes de abrirmos outra frente.

Licaão manteve os olhos no filho.

— Que diferença você está vendo?

Níctimo queria aquela pergunta.

Quando finalmente a recebeu, descobriu que era difícil respondê-la sem transformar uma sensação em acusação.

— Eles tentam descobrir o que queremos ouvir antes de responder.

— Isso é novidade?

— Está acontecendo mais.

— Porque obedecem mais depressa?

— Não.

Níctimo procurou as palavras.

— Porque concordam depressa demais.

A boca de Licaão quase se moveu.

— Está reclamando porque homens concordam com o rei?

— Quando o senhor está certo, não.

— Que generosidade.

Mélas fechou os olhos.

Em outro dia, Níctimo teria respondido ao humor.

Não respondeu.

Licaão percebeu.

— Dê um exemplo.

— Drímon.

O nome saiu antes que Níctimo decidisse se queria usá-lo.

— Qual situação?

— No canal. Theron tinha mandado ninguém tocar em nada até Eutíades chegar. Drímon perguntou o que aconteceria se ele não viesse.

— Lembro.

— Theron olhou para ele e Drímon desistiu da pergunta.

— Theron não o ameaçou.

— Eu sei.

— Então por que isso importa?

Níctimo inclinou-se.

— Porque Drímon não parou depois de receber uma resposta. Parou sem receber nenhuma.

Licaão ficou imóvel.

— Talvez a pergunta não levasse a lugar algum.

— Talvez.

— Eutíades apareceu.

— Sim.

— O canal foi corrigido.

— Foi.

— A água voltou a correr como devia.

— Voltou.

Licaão abriu uma das mãos.

— Então, naquele caso, qual foi o prejuízo?

A sequência estava completa.

Eutíades viera. O trabalho fora concluído. A água fora dividida. Ninguém morrera.

Era assim que tantas discussões terminavam. O pai seguia os fatos até que qualquer desconforto começasse a parecer uma coisa vaga demais para carregar peso.

Níctimo respondeu:

— Naquele dia, nenhum.

— Então o que estamos discutindo?

— O dia em que houver.

Licaão inclinou um pouco a cabeça.

— Isso pode ser dito sobre qualquer escolha.

— O senhor me ensinou a pensar no que vem depois.

O silêncio durou pouco.

— Ensinei.

— É o que estou fazendo.

— E eu estou respondendo.

— Não está.

A frase saiu rápida demais.

Mélas endireitou o corpo.

Níctimo sentiu o coração acelerar.

Licaão apenas perguntou:

— Não?

Níctimo poderia recuar.

Pediu desculpas apenas pelo que precisava.

— Pelo modo como falei, sim. Mas o senhor está me mostrando que funcionou até agora. Eu estou perguntando o que esse medo produz na próxima vez.

— Homens sempre temeram consequência.

— Não é consequência que estou discutindo.

— Então o quê?

— Medo suficiente para começarem a nos contar aquilo que acreditam que queremos escutar.

Licaão cruzou os braços.

— E sua solução é punir menos.

— Não.

— Foi o que fez com Símias.

— Dei a ele o pagamento pelo que trabalhou e tirei pelo que não trabalhou.

— Porque se incomodou em retirar dois dias.

O rosto de Níctimo aqueceu.

— Não.

— Tem certeza?

— Ele carregou pedra.

— Já ouvi.

— Porque isso importa.

— Também importa que dez homens trabalhando menos atrasem uma estrada.

— Se isso acontecer, a punição muda.

— Depois.

— Sim. Depois que houver motivo.

Licaão bateu uma vez com o dedo sobre a mesa.

— Um rei que espera o prejuízo chegar paga para consertá-lo.

Níctimo conhecia aquela lógica.

Prevenir custava menos que reparar. Uma punição pública podia evitar dez outras. Um homem castigado talvez poupasse três soldados de uma luta futura.

Ele acreditava nisso.

Ainda acreditava.

— E se punir antes do prejuízo, pune o quê?

Mélas mexeu o peso outra vez, mas ficou em silêncio.

Licaão respondeu:

— O risco.

— Todo homem é risco para alguma coisa.

— Alguns mais.

— Como sabemos antes?

— Experiência.

— E se a experiência errar?

— Corrigimos.

Níctimo não desviou.

— Depois.

A palavra voltou para Licaão.

Nenhum dos dois pareceu satisfeito com isso.

O rei se levantou.

— Venha.

Níctimo também ficou de pé.

Mélas apontou para a porta.

— Para onde?

— Pátio maior.

— Há homens esperando audiência.

— Eu sei.

Mélas não se moveu.

— Então talvez essa parte da conversa não precise ir junto.

Licaão virou-se.

— Por quê?

O conselheiro abriu as mãos.

— Porque já estou tendo dificuldade para descobrir exatamente sobre o que vocês estão brigando. Preferia que metade da Arcádia não tivesse a oportunidade de descobrir antes de mim.

O humor não encontrou lugar.

Licaão olhou para Níctimo.

— Fique aqui.

Saiu.

Níctimo acompanhou a porta vazia.

— Isso foi bom?

Mélas pegou o pedaço de pão que restara sobre a mesa.

— Não.

Mordeu.

— Mas já vi família sair pior de uma conversa.

— Essa frase serve para guerra.

— Família tem surpreendentes semelhanças.

Níctimo começou a andar pela sala.

— Eu não disse que ele estava errado sobre Símias.

— Disse muitas outras coisas.

— Porque não estou falando só de Símias.

— Eu percebi algumas perguntas atrás.

Níctimo parou.

— Você acha que estou errado?

Mélas mastigou com uma lentidão irritante.

— Cinco dias e meio me parece defensável.

— Sabe que não perguntei isso.

— Sei.

— Então?

Mélas deixou o pão na mesa.

— Seu pai governa homens que mentem, roubam, escondem grão, mudam marcos, brigam por água e juram diante dos deuses coisas que escolheram esquecer antes de voltar para casa.

— Eu sei.

— Quando esta casa for sua, vai governar os mesmos homens.

— Também sei.

— Então não descarte a utilidade do medo.

— Não descarto.

— Às vezes parece.

— E às vezes vocês falam como se ele fosse a única coisa que funciona.

Mélas ficou calado.

Níctimo continuou:

— Depois de Damon, todo mundo obedece mais depressa.

— Obedece.

— Pérdicas quase não discutiu comigo hoje.

— Você é filho do rei.

— Eu também era antes de Damon.

Mélas apoiou as mãos na mesa.

— O que quer de mim, Níctimo?

A pergunta o pegou desprevenido.

Talvez quisesse que Mélas dissesse que tudo fazia sentido. Que Licaão continuava seguindo algum cálculo que o filho ainda não alcançara. Mélas sempre enxergava o custo político por trás de uma decisão. Mesmo quando discordava, conseguia mostrar por que o rei encontrara vantagem ali.

Níctimo perguntou:

— A mão de Damon resolveu alguma coisa?

Mélas olhou para a porta.

— Não faça essa pergunta em qualquer lugar.

— Estamos sozinhos.

— Estamos numa casa cheia de corredores, servos e paredes.

— As paredes contam ao meu pai?

— Algumas provavelmente recebem grão para isso.

Níctimo não sorriu.

Mélas também perdeu a disposição para brincar.

— Resolveu? — insistiu.

O conselheiro demorou.

— Fez homens pensarem melhor antes de atacar enviados da casa.

— Então resolveu.

— Uma parte.

— A mutilação era necessária para conseguir isso?

Mélas ficou parado.

Níctimo esperou.

— Seu pai decidiu que era.

— Não perguntei o que ele decidiu.

Mélas ergueu os olhos.

Níctimo percebeu a diferença depois de formulá-la.

Antes talvez não tivesse formulado.

— Você acha que ele estava certo?

Mélas passou os dedos pela barba.

— Acho que esta conversa não pode sair desta sala.

Um frio pequeno apareceu no estômago de Níctimo.

— Isso não responde.

— Para você, neste momento, responde mais do que gostaria.

— Por quê?

Mélas se aproximou.

— Porque já não tem dez anos. Quando era criança, podia interromper uma audiência e perguntar por que seu pai não mandava todo mundo para casa. As pessoas ouviam um menino aprendendo.

— Nunca fiz isso.

— Fez coisas piores.

— Quando?

— Pergunte a Dia. Ela guarda histórias humilhantes com dedicação admirável.

Níctimo cruzou os braços.

Mélas prosseguiu:

— Agora, quando questiona uma ordem do rei, há homens que ouvem o herdeiro questionando o homem a quem precisam obedecer hoje.

— Então paro de perguntar?

— Não.

— Pergunto só quando ninguém estiver perto.

— Seria um começo sensato.

Níctimo olhou para a porta.

— E quando eu for rei?

Mélas deu de ombros.

— Aí poderá escolher onde as respostas serão dadas.

— Não perguntei isso.

— Eu sei.

Níctimo voltou-se para ele.

— Se eu aprender agora que a primeira obrigação do herdeiro é parecer concordar, quando aprendo a discordar?

Mélas abriu a boca.

Nada veio.

Níctimo percebeu.

O conselheiro tentou outra direção:

— Existe diferença entre discordar do rei e dividir a casa.

— Onde?

— No modo.

— E se o modo não mudar nada?

— Nem toda discordância existe para mudar uma decisão.

— Então serve para quê?

Mélas soltou o pão e apoiou as mãos na mesa.

— Para que o rei ouça.

— Ele está ouvindo?

Dessa vez a resposta veio simples:

— Está.

— E muda alguma coisa?

Mélas ainda procurava uma forma de responder quando passos chegaram pelo corredor.

Licaão retornou carregando uma pequena tábua.

Pousou-a sobre a mesa.

— Leia.

Níctimo se aproximou.

Era um relatório de produção vindo de uma propriedade a oeste: quantidade estimada, parte reservada, entrega feita e perda atribuída à umidade.

— O que estou procurando?

— A perda.

— Onze medidas.

— E quanto entregaram?

— Trinta e duas.

— Some.

Níctimo calculou.

— Quarenta e três.

Licaão lhe passou uma tábua mais antiga.

— Compare com a primeira estimativa.

Níctimo encontrou o número.

— Quarenta e oito.

— Cinco medidas desapareceram.

— Ou a primeira estimativa estava errada.

— Foi o que o responsável alegou.

Níctimo comparou as marcas.

O mesmo homem havia confirmado os dois registros.

— E estava?

— Theron contou os recipientes antes de deixar a propriedade.

— Então ele mentiu.

— Sim.

— O que fez com o grão?

— Duas medidas ficaram com a família. Três foram trocadas por dois animais.

Níctimo perguntou:

— Passavam fome?

— Não.

— Tinham dívida?

— Não.

Níctimo voltou à cera.

— Então tomou o que não devia.

— Exato.

Licaão se sentou.

— Decida a consequência.

A sala pareceu mudar de tamanho.

Níctimo olhou por reflexo para Mélas.

— Não olhe para ele.

Voltou ao pai.

— Primeiro devolve as três medidas ou o equivalente aos animais. As duas que usou saem da próxima parte dele.

— Só?

— Não. Também mentiu quando foi questionado.

— Quanto custa isso?

Níctimo pensou.

— Perde mais cinco medidas.

— Por quê?

— Porque tentou esconder cinco.

— Isso devolve a perda. Não me diz quanto vale a mentira.

Níctimo percebeu.

— Mais duas.

Licaão perguntou:

— Por que duas?

A resposta quase saiu apenas para ocupar o espaço.

Níctimo segurou.

Era aquilo.

Um número podia crescer indefinidamente enquanto houvesse uma pergunta capaz de justificá-lo.

— Não sei.

Licaão apoiou o antebraço na mesa.

— Então não escolha ainda.

Níctimo tentou imaginar a propriedade.

Cinco medidas desviadas. Dois animais comprados. Nenhuma fome. Nenhuma dívida.

Uma mentira para esconder o resto.

— Três.

— Por que três?

— Porque mentir precisa custar mais do que admitir o desvio.

— E três garantem isso?

— Não garantem.

— Então por que não cinco?

Níctimo olhou para o pai.

— Por que cinco?

— Porque dobra o que ele tentou esconder.

— Essa conta foi escolhida do mesmo jeito que a minha.

Mélas mexeu a cabeça quase imperceptivelmente.

Licaão permaneceu imóvel.

— Cinco é uma medida que os outros entendem.

— Como?

— Esconde cinco, perde dez.

Níctimo entendeu.

— E se, da próxima vez, isso não impedir?

— Aumentamos.

O desconforto voltou.

— Até onde?

— Até funcionar.

A resposta era simples.

E familiar.

Estradas precisavam ficar seguras até que assaltantes deixassem de aparecer. Guardas precisavam ser suficientes até repelirem ataque. Água precisava ser distribuída até as terras sobreviverem.

Punição também podia seguir a mesma lógica.

A diferença era que, agora, Níctimo não conseguia enxergar onde a medida terminava.

— Como sabemos quando passou do necessário?

Licaão respondeu:

— Quando o custo se torna maior que aquilo que evita.

— Custo para quem?

— Para a casa.

— Qual casa?

O pai mudou um pouco.

Nada dramático.

A voz bastou.

— Cuidado.

Níctimo conhecia aquela advertência.

Era a mesma voz que o corrigira criança, ensinara-o a segurar uma lança, ler registros e desconfiar da primeira versão de qualquer disputa.

Isso tornava tudo mais difícil.

— Estou perguntando.

— Está insinuando.

— Então vou perguntar melhor.

Níctimo tocou a tábua.

— Se o senhor tirar dez medidas desse homem, nossa casa recebe. A dele perde. Talvez outros cinco proprietários vejam e parem de mentir. Mas talvez esses mesmos cinco só escondam melhor da próxima vez. Se tiverem medo demais para falar, como sabemos qual dessas coisas aconteceu?

Licaão permaneceu imóvel.

Níctimo continuou antes que a coragem diminuísse.

— É disso que estou falando.

— Desde Símias?

— Desde antes.

— Damon.

Níctimo não respondeu.

O pai entendeu.

— Diga.

Níctimo engoliu.

— A punição funcionou.

Licaão inclinou a cabeça.

— Explique.

— Desde Damon, os homens obedecem rápido. Mensageiros quase não precisam repetir quem os enviou. Pérdicas ouviu meu nome e começou a concordar antes que eu terminasse de falar.

Licaão esperou.

Níctimo conseguiu dizer:

— Isso não significa que a mão dele era necessária.

O silêncio da sala mudou.

Mélas afastou-se um pouco da mesa.

Licaão não elevou a voz.

— Você estava em Pheneos?

— Não.

— Theron estava. Iason estava. Polemon estava. Aletes quebrou os dedos de um dos meus homens. Phorbas acertou outro e fugiu. Damon mentiu para escondê-lo.

— Sei.

— Então o que exatamente está questionando?

— A mutilação.

— Por quê?

Níctimo tentou responder.

Licaão continuou antes:

— Se eu tivesse mandado Damon devolver grão, estaria aqui? Se tivesse tomado parte dos animais? Se o tivesse expulsado da região?

— Talvez.

— Não estaria.

Níctimo não sabia se era verdade.

Isso o irritou.

— Então o senhor já sabe o que eu pensaria em qualquer situação.

Licaão parou.

Mélas entrou antes que a frase seguinte viesse.

— Chega.

Ambos olharam para ele.

O conselheiro apontou para o corredor.

— Há seis homens esperando audiência no pátio maior, dois mensageiros chegaram do sul e aposto o resto desse pão que alguma família começou uma disputa nova enquanto vocês transformavam cinco medidas de cevada no destino da Arcádia.

Ninguém respondeu.

Mélas continuou:

— O rei tem trabalho. O herdeiro também.

Níctimo ouviu a palavra.

Herdeiro.

Licaão ouviu também.

— Ele é meu filho antes de ser seu problema político.

A frase atingiu Níctimo num lugar para o qual não estava preparado.

Mélas baixou um pouco a cabeça.

— E um dia vai deixar de poder ser apenas seu filho.

Licaão encarou-o.

O conselheiro prosseguiu:

— Discordem aqui. Gritem, se isso ajudar. Mas não ensinem esta casa a escolher entre o homem a quem deve obedecer agora e aquele a quem terá de obedecer depois.

Níctimo sentiu a irritação retornar.

— Então esse é o problema?

Mélas virou-se.

— Qual?

— Alguém ouvir.

— É um deles.

— E o outro?

Mélas não respondeu.

Níctimo apontou para Licaão.

— Você acha que ele está certo?

O pai olhou para o conselheiro.

Mélas percebeu a armadilha tarde demais.

— Acho que vocês dois não podem transformar cada discordância numa escolha para todo mundo ao redor.

— Não foi o que perguntei.

— É o que consigo responder agora.

Licaão soltou um som curto.

— Finalmente uma pergunta que Mélas não consegue transformar em política.

O conselheiro virou-se para ele.

— Estou tentando transformar em política justamente porque a outra parte está ficando difícil demais.

O silêncio veio.

Mélas percebeu a própria frase.

Passou a mão pelo rosto.

— Muito bem. Isso saiu pior do que eu pretendia.

Níctimo falou baixo:

— Acho que saiu certo.

Mélas preferiu não continuar.

Licaão tornou a olhar para a tábua.

— Três medidas.

Níctimo levou um momento para entender.

— Pela mentira?

Licaão empurrou o registro para ele.

— Foi sua decisão.

— O senhor aceita?

— Perguntei o que faria.

— E eu respondi.

— Então será feito.

Níctimo não esperava.

A raiva perdeu sustentação.

— Pai…

Licaão levantou-se.

— Não confunda discordância com surdez.

Níctimo ficou quieto.

O pai se aproximou e puxou uma dobra da túnica que estava presa debaixo do fecho do ombro.

Um gesto rápido.

Antigo.

Quando Níctimo era menor, aparecia nas audiências com a roupa torta tantas vezes que Licaão certa vez lhe dissera que um herdeiro não precisava parecer rico, mas devia ao menos parecer capaz de vestir a própria túnica.

— Está assim desde que entrou.

Níctimo olhou para o ombro.

— Podia ter dito antes.

— Queria ver quanto tempo levaria para perceber.

Em outra manhã, Níctimo teria rido.

Apenas corrigiu o fecho.

Licaão afastou a mão.

— Você acha que estou punindo demais.

Níctimo encontrou os olhos do pai.

— Algumas vezes.

— Porque olha para quem está pagando.

— Foi o senhor que me ensinou a olhar.

— Também ensinei a pensar além do homem que está na frente.

— Estou tentando.

— Ainda não carrega tudo.

A frase doeu.

Níctimo perguntou:

— Porque não sou rei?

— Porque ainda parece acreditar que existe governo sem escolher quem paga.

Níctimo respondeu antes de pensar muito.

— Não.

Licaão esperou.

— Eu sei que alguém paga.

A voz saiu mais baixa.

— Só não acho que isso torne qualquer preço aceitável.

O rosto do pai não cedeu.

Níctimo continuou:

— Ione pagou.

— A aldeia escolheu aquela cabra.

— Eu sei.

— Leonte pagou.

— Roubou o depósito.

— Arces pagou.

— Dormiu durante a guarda.

— Damon pagou.

Licaão não precisou responder.

Níctimo prosseguiu:

— Quantos deixaram de pagar porque viram o que aconteceu com ele?

Ali estava o argumento do pai, inteiro.

Talvez alguns homens tivessem decidido não atacar um mensageiro. Talvez proprietários entregassem o devido sem luta. Talvez soldados voltassem para casa porque outro homem perdera uma mão.

Níctimo não podia provar o contrário.

— Não sei.

Licaão respondeu:

— Eu também não.

Níctimo levantou os olhos.

Não esperava aquilo.

O pai foi até a mesa e pegou a tábua.

— Governar é decidir antes de ter todos os números.

— Então como sabe que escolheu o preço certo?

Licaão não respondeu imediatamente.

— Não sei.

A segunda admissão atingiu Níctimo mais fundo que a primeira.

O pai colocou a tábua em sua mão.

— Mas tive de decidir.

Níctimo olhou para a cera.

— Isso basta?

Licaão demorou.

— Há dias em que precisa bastar.

— Para o rei.

— Para quem depende dele também.

Níctimo ergueu os olhos.

— É dessa parte que não tenho certeza.

O pai permaneceu imóvel.

Mélas não interferiu.

Quando Licaão falou, não havia grito na voz.

— Então talvez ainda não esteja pronto.

Níctimo sentiu a frase no peito.

Passara a vida inteira tentando estar pronto.

Cada tábua. Cada disputa. Cada estrada. Cada vez que o pai mandara que observasse antes de falar. Cada pergunta feita até entender por que a primeira resposta não bastava.

— Talvez não esteja.

Licaão pareceu não esperar aquilo.

Antes, Níctimo teria se defendido. Perguntaria o que ainda faltava aprender ou provaria o quanto já aprendera.

Dessa vez, não.

— Mas se ficar pronto significa parar de fazer essas perguntas, prefiro levar mais tempo.

Mélas fechou os olhos.

Licaão encarou o filho.

Níctimo sustentou.

O pai poderia mandá-lo sair.

Não mandou.

Apontou para a tábua.

— Cinco medidas devolvidas. Três pela mentira.

Níctimo pegou o estilete.

— Certo.

— Registre.

Escreveu.

A mão permaneceu firme.

Quando terminou, Licaão leu.

— A propriedade fica sob observação até a próxima colheita.

Níctimo pensou antes de responder.

— Concordo.

— Por quê?

A pergunta veio do mesmo jeito que sempre vinha.

Níctimo não procurou no rosto do pai nenhum sinal da resposta certa.

Olhou para a cera.

Cinco medidas escondidas. Uma mentira. Nenhuma fome. Um homem que, dali em diante, saberia que alguém conferiria sua próxima entrega.

— Porque ele já mentiu uma vez. Não preciso tirar mais dele hoje para descobrir se tenta de novo amanhã.

Licaão não sorriu.

Também não discutiu.

— Muito bem.

As mesmas palavras que durante anos haviam encerrado lições entre os dois.

Níctimo esperou a satisfação conhecida.

Ela não veio.

Mélas abriu a porta.

As vozes do pátio entraram imediatamente: um homem reclamando de um animal, passos de servos, madeira arrastando sobre pedra, alguém pedindo água.

O reino continuava esperando.

Licaão recolheu duas tábuas e entregou uma ao filho.

— Essa fica com você.

Níctimo recebeu.

— Agora?

— Agora.

Saíram juntos.

Mélas vinha alguns passos atrás.

Na divisão dos corredores, Licaão parou.

— O homem da oliveira e o dos carneiros. Brigam pela mesma faixa há três anos. Já ouvi ambos duas vezes.

Níctimo lembrava.

— A pedra de limite foi movida.

— Cada um acusa o outro.

— E ainda não sabemos quem está mentindo.

Licaão lhe entregou a segunda tábua.

— Quem ouviria primeiro?

Era uma pergunta pequena.

Quase banal.

Anos antes, Níctimo teria olhado imediatamente para o pai, procurando um movimento de sobrancelha, uma mudança de postura, qualquer indicação de que estava seguindo o caminho que Licaão já considerava correto.

A vontade apareceu.

Passou.

Níctimo abriu os registros.

Leu os nomes.

Pensou nos três anos, na pedra e em quem chamara novamente os homens da casa.

— O dos carneiros.

— Por quê?

Níctimo continuou olhando para a tábua.

— Foi ele quem pediu a última medição. Se moveu a pedra, quero entender por que chamou nossos homens de volta para examiná-la.

Licaão perguntou:

— E se estiver dizendo a verdade?

— Então quero saber por que esperou três anos antes de pedir a nova medição.

Níctimo fechou a tábua.

Licaão assentiu.

— Vá.

Níctimo tomou o corredor da esquerda.

Depois de alguns passos, percebeu que o pai não vinha.

Parou e olhou para trás.

Licaão já seguia na direção do pátio maior, com Mélas ao lado.

Níctimo quase o chamou.

Não chamou.

Abriu novamente a tábua e retomou o caminho.

Desta vez, não tentou imaginar o que o pai teria respondido.

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