Capítulo 15 — Aqueles que Agradecem
por Sonhado acordadoEudoro cobrava menos pela hospedagem do que anunciava. Zeus descobriu isso pela manhã, quando o homem devolveu parte da moeda.
— Foi demais.
— Ontem não era.
Eudoro empurrou a pequena peça para a mão dele.
— Ontem eu ainda não sabia quanto você comia.
A esposa, ocupada junto ao fogo, virou a cevada na panela.
— Ele comeu menos que você.
— Isso é impossível.
— Você comeu antes de ele acordar.
Eudoro fechou os dedos de Zeus sobre a moeda.
— Leve. Se eu ficar com tudo, ela vai passar três dias dizendo que roubei um estrangeiro.
— Cinco.
Zeus guardou a peça.
Na tigela diante dele havia cevada cozida com restos de queijo desfeito por cima. O menino mais velho da casa comia depressa enquanto lutava com a correia de uma sandália. A irmã menor ainda trazia o sono no rosto e acompanhava uma mosca que rondava o pão. A casa já estava em movimento antes que o sol alcançasse a porta.
Eudoro levaria dois animais a uma propriedade do outro lado do vale. A esposa pretendia trocar lã por sal. O menino precisava buscar alguma coisa na casa do tio e repetia que conhecia o caminho.
— Conhece tão bem que se perdeu da última vez — disse a mãe.
— Eu não me perdi. Só voltei por outro lado.
— Pelo lado oposto.
— Mas voltei.
Zeus terminou a cevada.
Eudoro apontou a colher para o filho.
— Está vendo? Argumento perfeito.
— Não incentive.
Quando Zeus se levantou, a mulher lhe entregou um pedaço de pão envolvido num pano.
— Para a estrada.
— Já paguei pela comida.
— Pagou pelo jantar. Isso é para a estrada.
Eudoro ergueu as mãos.
— Aceite. Eu já tentei discutir.
A mulher olhou para ele.
— Uma vez?
— Uma vez que ainda lembro.
Zeus guardou o pão e agradeceu.
Já havia deixado a casa quando ouviu passos correndo atrás dele.
— Estrangeiro!
O menino parou perto da estrada.
— Se chegar ao cruzamento grande, não pegue o caminho que sobe depois das pedras brancas.
— Algum problema?
— É mais rápido.
Zeus esperou a continuação.
O menino passou o pé pela terra úmida.
— Minha mãe diz que caminho mais rápido sempre tem uma parte que explica por que ninguém usa.
Eudoro apareceu à porta.
— Finalmente aprendeu alguma coisa.
— Foi você que me levou por lá.
— Por isso sua mãe aprendeu primeiro.
Zeus seguiu estrada abaixo enquanto as vozes da família ficavam para trás.
O orvalho ainda escurecia a terra onde o sol não alcançara. A manhã conservava um frescor que desapareceria em poucas horas. Durante algum tempo, Zeus caminhou entre propriedades pequenas, separadas por muros baixos, árvores, valas e limites antigos que os moradores pareciam conhecer melhor do que qualquer marco de pedra.
A estrada começou a alargar. Vieram marcas de rodas sobrepostas na terra, esterco de animais e, depois, gente.
Um homem conduzia um jumento com duas ânforas presas aos flancos. Três mulheres caminhavam com cestos. Um rapaz tocava porcos adiante. Uma carroça coberta de tecido grosso passou por Zeus, puxada por uma mula grande e mal-humorada.
As vozes chegaram antes do cruzamento.
Não havia cidade ali. Apenas estradas que se encontravam e, com elas, gente suficiente para fazer surgir comércio.
Coberturas de tecido protegiam cestos de grão, lã, queijo, recipientes de azeite, sal e cerâmica. Dois homens discutiam o tamanho de uma medida. Uma mulher examinava uma faca contra a luz. Perto dela, um garoto tentava convencer um homem de barba avermelhada de que um cabrito magro tinha pouca carne porque ainda era jovem.
O homem apalpou o lombo do animal.
— Jovem eu também já fui. Nunca fiquei mais pesado por causa disso.
Zeus atravessou o movimento sem despertar mais interesse do que qualquer outro estrangeiro.
Um vendedor sentado diante de três sacos de sal chamou:
— Se vai para o sul, compre aqui.
Zeus parou.
— O sal desaparece ao sul?
— Meu preço sobe.
— Não é exatamente a mesma coisa.
O vendedor apontou para ele.
— Você entende comércio.
Zeus continuou.
Perto de uma carroça, dois homens descarregavam pequenas ânforas. O mais velho tinha barba curta, barriga firme e uma cicatriz atravessando o dorso da mão. O outro mal passara dos vinte anos e encontrava um defeito em cada recipiente que recebia.
— Essa está vazando.
— Então deixe de pé.
— Já está de pé.
— Ponha mais de pé.
O rapaz segurou a ânfora diante do pai.
— Como uma coisa fica mais de pé?
Zeus parou perto da carroça.
O mais velho percebeu.
— Quer vinho?
— Depende.
— De quê?
— Se junto com o vinho tenho de carregar as ânforas.
O jovem riu.
O pai bateu na coxa.
— Finalmente aparece alguém útil e não é meu sobrinho.
— Sou seu filho.
— Pior ainda. Filho não dá para devolver.
Havia doze ânforas na carroça e seis no chão. Zeus aproximou-se.
— De onde trazem o vinho?
— Mais a oeste. O vinho daqui não sabe viajar sem virar vinagre.
O filho pousou outra ânfora.
— O vinho não é daqui.
— Foi exatamente o que eu disse.
— Não foi.
O pai prosseguiu como se não tivesse ouvido.
Zeus examinou a carroça. Não havia homens armados, apenas os dois.
— Viajam sozinhos?
O comerciante olhou em volta, teatralmente.
— Pelo que estou vendo.
— Sempre?
— Antes levávamos homens conosco.
O filho corrigiu:
— Três.
— Dois.
— Três.
— Seu primo não conta.
— Ele tinha lança.
— E medo de usar.
O rapaz virou-se para Zeus.
— Eram três.
O pai pegou outra ânfora.
— Está bem. Três.
— Por que levavam escolta?
O comerciante passou a mão pela madeira da carroça.
— Porque eu gostava das minhas mercadorias.
— E agora?
— Agora gosto de não alimentar três homens durante seis dias.
O filho indicou a estrada.
— Melhorou depois que o rei mandou limpar as rotas.
— Limpar?
O pai apoiou a ânfora no chão.
— Ladrões. Gente cobrando passagem onde não tinha direito nenhum. Bandos escondidos nos trechos estreitos. Um comerciante saía com vinho e chegava sem vinho, sem mula e, com azar, sem alguns dentes.
— Licaão acabou com eles?
— Se tivesse acabado com todos, eu desconfiaria que criou alguns só para depois matá-los.
O filho interrompeu:
— Matou alguns.
O pai confirmou enquanto verificava uma das tampas.
— Matou. Outros foram presos. Alguns fugiram para estradas diferentes. Para quem vive de transportar mercadoria, pouco importa onde foram parar, desde que não estejam esperando atrás da próxima curva.
Zeus passou os olhos pelas ânforas.
— Isso aumentou seu lucro.
— Depois de aumentar meu custo. Fui chamado para fornecer homens para reparo de estrada. Dei um. Meu irmão deu dois. Depois pediram grão.
O filho sorriu.
— Agora começa a reclamação.
— Dei o grão reclamando. Se você entrega sem reclamar, alguém pode pensar que estava sobrando.
— E valeu o custo? — perguntou Zeus.
O comerciante pegou uma ânfora menor. Conferiu a vedação com o polegar e tornou a colocá-la no chão.
— Meu pai perdeu uma carroça inteira nesta estrada.
O filho continuou trabalhando. Pela maneira como mexia nas vasilhas, já conhecia aquela história.
— Não havia guerra nem tempestade. Cinco homens desceram de uma encosta, levaram tudo e deixaram meu pai voltar a pé com a roupa do corpo e a cabeça aberta. Ninguém fez nada. Para juntar homens suficientes, uma família precisava pedir ajuda a outra, depois outra, e logo alguém estava cobrando uma dívida antiga ou começando uma briga nova.
Ele bateu na lateral da carroça.
— Hoje venho com meu filho.
O rapaz ergueu uma ânfora.
— E esta continua vazando.
— Porque você colocou errado.
— Já vazava antes.
O comerciante indicou o filho a Zeus.
— Meu maior perigo agora.
Zeus perguntou:
— Se Licaão cobrar mais, o que fará?
— Reclamo mais.
— E paga?
O homem passou o antebraço pela testa suada e examinou o estrangeiro.
— Você veio de onde?
— De longe.
— Muito longe, pelo jeito.
Apontou com o queixo para a estrada.
— Manter isso custa grão, trabalho, homens. Ficar sem ninguém mantendo também custava. Meu pai aprendeu quanto.
Voltou às ânforas.
Zeus deixou os dois trabalhando.
Pai e filho continuaram descarregando sem que houvesse um homem armado por perto.
O movimento no cruzamento aumentava conforme a manhã avançava. Zeus comprou figos e provavelmente pagou mais do que valiam. Percebeu pelo sorriso rápido demais da vendedora. Não discutiu. Comeu enquanto caminhava.
Um ferreiro trabalhava sob uma cobertura baixa, reparando a ponta de uma ferramenta agrícola. Mais adiante, um pastor negociava queijo em troca de lã. Crianças atravessavam o mercado levando pequenos recipientes e recebiam gritos sempre que passavam perto demais das rodas das carroças.
No centro do cruzamento havia uma pedra baixa. Alguém deixara sobre ela farinha e algumas azeitonas.
Uma mulher derramou duas gotas de vinho ao lado da oferenda.
— Pela viagem.
O marido ajustava uma corda presa à mula.
— Já chegamos.
— Ainda temos de voltar.
— Você nunca fica satisfeita.
— Por isso continua vivo.
Ela tocou a pedra com os dedos e seguiu com ele.
Zeus deixou que fossem.
Um grito surgiu atrás.
— Não vou pagar isso!
Dois homens estavam diante de uma pilha de lã. Um segurava uma balança pequena. O outro tinha o rosto vermelho e apertava na mão um tufo retirado da carga.
— Foi o combinado — disse o vendedor.
— Combinamos lã seca. Olhe isto.
— Está seca.
O comprador mostrou o tufo.
— Então isso aqui nasceu coberto de lama?
O vendedor bateu na pilha.
— Caiu no caminho.
— E agora tenho de comprar o caminho junto?
Algumas pessoas diminuíram o passo para olhar. Ninguém interferiu.
— Você escolheu a carga ontem.
— Ontem ela estava no celeiro.
— Então devia ter pago ontem.
— Eu pagaria quando chegasse.
— Pois chegou.
Os dois avançaram um contra o outro. A balança foi colocada de lado. Nenhuma faca apareceu ainda, mas havia espaço suficiente nos cintos para que a discussão chegasse a isso.
Um terceiro homem, sentado perto de sacos de farinha, falou sem se levantar:
— Briguem logo.
Os dois se viraram.
O vendedor perguntou:
— O quê?
— Briguem. Estou sem entretenimento.
O comprador apontou para ele.
— Cuide do que é seu.
— Estou cuidando. Quando um de vocês cair, vai derrubar minha farinha.
Algumas pessoas riram.
O homem apontou para a balança.
— Ou levem a questão a Pérsio.
O nome produziu efeito imediato. O vendedor recuou meio passo.
— Não preciso de Pérsio.
— Então aceite a medida.
O comprador apontou para a lã suja.
— Aceito se ele tirar da conta o peso dessa parte.
— Não está molhada.
— Ótimo. Pérsio pode olhar e confirmar.
O vendedor percorreu com os olhos as pessoas em volta. Já não esperavam uma luta; aguardavam o acordo.
— Metade dessa parte fica fora.
O comprador examinou a lã.
— Um terço.
— Metade.
— Dois quintos.
O homem da farinha ergueu a voz:
— Querem que eu vá buscar Pérsio para ensinar vocês a dividir também?
O comprador cedeu.
— Metade.
O vendedor concordou.
A balança voltou para as mãos deles.
Nenhuma espada fora desembainhada. Nenhum soldado aparecera.
Zeus aproximou-se do homem sentado junto à farinha.
— Quem é Pérsio?
O homem levantou o rosto. Tinha sobrancelhas grossas e poucos dentes.
— Resolve disputas daqui.
— Sacerdote?
Ele riu.
— Não.
— Chefe local?
— Depende de quem está perguntando.
Zeus esperou.
O homem puxou um dos sacos para perto antes de continuar.
— Foi escolhido para responder pela casa do rei nesta região. Coisa pequena fica com ele. Se for grande, sobe.
— Até Licaão.
— Se valer o trabalho.
Zeus observou os dois negociantes retomando a pesagem.
— E obedecem a Pérsio?
— Na maior parte das vezes.
— Por medo?
— Às vezes.
O homem não demonstrou vergonha ao admitir.
Zeus sentou-se na pedra ao lado.
— E nas outras vezes?
— Porque alguém precisa terminar a discussão. Se ninguém obedece, ela volta no dia seguinte, depois na semana seguinte, depois aparece um primo com bastão.
— Antes de Pérsio, como resolviam?
O homem apontou para os dois comerciantes.
— Mais depressa.
— Lutando?
— Quando tinham juízo suficiente para parar depois da primeira luta.
O sorriso mostrou os poucos dentes restantes.
— Meu irmão perdeu dois dedos numa disputa por cinco cabras.
— Quem ficou com elas?
— Meu tio.
— Eram dele?
O homem deu uma pequena risada.
— Até hoje ninguém sabe. Quando quatro homens resolvem propriedade com bastões, depois todos lembram quem apanhou e quem quebrou a mão. Das cabras ninguém lembra direito.
Zeus passou os olhos pelo mercado.
— Pérsio costuma decidir bem?
— Não.
— E Licaão?
— Também erra.
O homem abriu o saco de farinha, verificou o conteúdo e tornou a amarrá-lo.
— É homem.
— Ainda assim prefere levar as disputas a eles.
— Prefiro saber onde ir quando decidem mal.
Uma mulher que passava ouviu.
— Você reclama em qualquer lugar.
Ele apontou para ela.
— É treino.
Ela continuou andando, rindo.
Zeus perguntou:
— Já levou alguma questão a Licaão?
— Eu, não.
— Então como sabe que seria ouvido?
O humor desapareceu do rosto do vendedor.
— Meu cunhado levou uma disputa de terra.
— O que aconteceu?
— Perdeu.
Zeus aguardou.
O homem abriu outro saco, enfiou dois dedos na farinha e tornou a fechá-lo.
— A terra não era dele.
— E aceitou?
— Aceitar é palavra forte. Voltou furioso. Passou um mês inteiro dizendo que Licaão tinha favorecido a outra família. Depois encontrou uma pedra de divisa que o próprio pai dele ajudara a colocar quando era menino.
O homem riu.
— E antes que pergunte: não pediu desculpas ao rei.
— Não ia perguntar.
— Melhor. Porque não pediu.
Zeus levantou-se.
Atrás deles, os negociantes de lã já discutiam novamente. As mãos, porém, continuavam longe das facas.
Zeus deixou o cruzamento depois do meio-dia.
A estrada avançava por terreno mais aberto. O cheiro de animais chegou antes dos primeiros rebanhos.
Durante parte da tarde, caminhou atrás de uma família que conduzia ovelhas: um homem, uma mulher, dois filhos e três cães.
As ovelhas ocupavam toda a largura da estrada e tratavam qualquer espaço vazio como convite para preenchê-lo.
Zeus poderia ultrapassá-las com facilidade.
Continuou atrás.
O homem percebeu.
— Se estiver com pressa, vai sofrer.
— Não estou.
— Então sofre mais devagar.
A mulher assobiou. Um dos cães disparou para a lateral do rebanho e empurrou três animais de volta ao grupo. O menino mais velho caminhava com uma vara e copiava os gestos do pai sempre que julgava que ninguém estava vendo.
Depois de algum tempo, Zeus perguntou:
— Vão até onde?
— Pastagem depois do rio.
— Fazem esse caminho sempre?
— Nesta estação.
A mulher acrescentou:
— Quando o portão está aberto.
— Que portão?
O homem apontou para uma elevação adiante.
— Uma passagem entre duas propriedades. Durante anos, toda vez que alguém precisava mover rebanho, começava discussão.
— E agora não começa?
A mulher riu.
— Começa.
O marido lançou-lhe um olhar.
— Mas passamos.
— Quem resolveu?
O menino respondeu antes dos pais:
— Licaão.
O pai corrigiu:
— Seu avô ajudou.
— Licaão decidiu.
— Depois que seu avô levou dois homens até a casa dele e falou durante metade de um dia.
O menino olhou para Zeus.
— Licaão decidiu.
A mãe riu.
O pastor desistiu.
— Está bem. Licaão decidiu.
Quando chegaram à passagem, Zeus viu um marco de pedra junto ao caminho. Não havia soldados, apenas uma abertura entre dois muros baixos e uma barreira de madeira.
O pastor abriu o portão.
As ovelhas começaram a passar.
Da propriedade vizinha apareceu outro homem.
— Quantas?
— Quarenta e oito.
O vizinho examinou o rebanho.
— Isso aí tem cinquenta.
— Se quiser contar, conte.
— Vou contar.
A mulher falou para Zeus:
— Ele sempre conta.
O vizinho apontou para ela.
— Porque vocês sempre trazem mais.
— E você sempre diz isso.
Começou a contar as ovelhas.
Havia irritação antiga entre os dois homens. Isso aparecia no modo como conferiam cada movimento um do outro, mas nenhum tentou fechar a passagem. O rebanho continuou atravessando.
— Quarenta e nove.
O pastor virou-se para a esposa.
— Perdemos uma ou ganhamos uma?
— Com a sua contagem, qualquer coisa é possível.
O filho mais novo apontou para o meio do rebanho.
— Tem uma pequena ali.
O vizinho encontrou o animal.
— Essa não conta.
O pastor abriu os braços.
— Então quarenta e oito.
— Hoje.
A última ovelha passou.
O vizinho fechou a barreira.
Zeus perguntou:
— E se você se recusasse a abrir?
O homem pareceu achar a pergunta estranha.
— Abriria amanhã.
— Por quê?
Ele deu uma pancada no portão para encaixá-lo.
— Porque foi decidido.
O pastor acrescentou:
— E porque eu não quero um homem do rei aparecendo aqui para perguntar por que ainda estamos discutindo a mesma passagem.
Os dois proprietários continuavam sem gostar um do outro.
A decisão não exigira amizade.
Zeus deixou a família pouco depois.
A mulher ofereceu-lhe um pedaço de queijo. Ele aceitou.
O menino perguntou:
— Vai para a casa do rei?
Zeus voltou-se para ele.
— Por que acha isso?
— Pergunta muito sobre Licaão.
O pai riu.
— E você responde antes de todo mundo.
O menino ignorou o comentário.
— Vai?
— Ainda não.
— Então vai para onde?
Zeus indicou a estrada.
— Vou continuar por ela.
O menino claramente esperava algo melhor, mas uma ovelha saiu da formação e o obrigou a correr atrás dela.
Zeus prosseguiu sozinho.
No fim da tarde encontrou um grupo de mercadores parado junto a uma pequena ponte. Era estreita, construída de pedra e madeira, mas parecia firme. A água corria baixa por baixo dela.
Duas carroças já haviam atravessado. A terceira esperava enquanto um homem examinava uma roda.
— Aguenta — disse alguém.
O homem agachado junto à roda respondeu:
— Você falou isso da última.
— E aguentou.
— Quebrou no dia seguinte.
— Então naquele dia eu estava certo.
Zeus sentou-se perto do rio.
Um viajante mais velho cortava uma romã com uma faca pequena. Separou metade e ofereceu.
Zeus aceitou.
— Vem do cruzamento?
— Venho.
— Estava cheio?
— Bastante.
O velho retirou algumas sementes com o polegar.
— Melhor época.
— Viaja para vender?
— Comprar.
— O quê?
— Lã, se não tentarem me vender barro junto.
Zeus olhou para as carroças.
— Viajam juntos?
— Até a próxima aldeia.
— Por segurança?
— Pela conversa. Segurança também ajuda.
O homem levou algumas sementes à boca.
Zeus disse:
— Ouvi que as estradas melhoraram.
— Melhoraram.
— Desde que Licaão passou a controlá-las.
O velho examinou Zeus.
— Você pergunta bastante sobre o rei.
— Sou estrangeiro.
— Estrangeiro pergunta onde tem água, onde dorme e qual estrada leva para onde. Você pergunta sobre Licaão.
Zeus comeu uma semente da romã.
— Quero entender o lugar por onde estou andando.
O velho aceitou a resposta.
Limpou a faca na túnica.
— Então aprenda uma coisa: não esconda homem procurado pelos enviados dele.
Zeus esperou.
— Ouviu falar de Damon?
— Pouco.
— Perdeu a mão.
Um dos viajantes que trabalhava na roda falou sem se levantar:
— Aquilo foi exagero.
O velho virou-se.
— Mentiu para os homens do rei.
— Não falei que era inocente.
— Então?
O homem puxou a roda para testar o encaixe.
— Falei que cortar a mão foi demais.
O velho indicou-o a Zeus.
— Está vendo? Agora todo homem resolveu virar juiz.
— Você começou a julgar primeiro.
— Sou mais velho.
— Isso não é cargo.
O velho fez um gesto rude na direção dele.
Zeus perguntou:
— Você considera a punição justa?
O mercador passou a faca pela casca da romã antes de guardá-la.
— Considero perigoso mentir para homens enviados por um rei.
Zeus não interrompeu.
O velho mexeu nas sementes que ainda restavam na fruta.
— Se precisava perder a mão, não sei.
O homem junto à roda levantou a cabeça.
— Finalmente.
— Cale a boca.
— Continue. Está chegando perto.
O mercador ignorou.
— Depois de Damon, qualquer homem pensa antes de esconder alguém procurado.
— Pensa quatro vezes — acrescentou o outro.
— Você entendeu.
— Entendi. Ainda acho demais.
O velho guardou a faca na cintura.
— E eu continuo usando as estradas de Licaão.
Ninguém respondeu.
O homem junto à carroça terminou de ajustar a roda. A conversa acabou ali, absorvida pelo trabalho.
Pouco depois, os mercadores começaram a se preparar para partir. A luz já descia sobre as elevações.
Zeus observou enquanto prendiam as cargas.
— Vão continuar?
O homem que reparara a roda respondeu:
— Até o próximo povoado.
— Vai escurecer antes de chegarem.
— Um pouco.
O velho amarrou a bolsa.
— Dá para seguir.
As carroças começaram a atravessar a ponte.
Uma depois da outra.
A primeira chegou à outra margem sem acelerar. Nenhum homem puxou lança debaixo das coberturas. Ninguém verificou as encostas. A conversa recomeçou antes mesmo de a segunda carroça terminar a travessia: lã, uma mula manca e o preço absurdo cobrado por um homem chamado Eutícrates.
Zeus permaneceu junto ao rio até a última carroça desaparecer na curva.
Durante todo o dia, ouvira reclamações sobre impostos, trabalho obrigatório, decisões erradas e punições severas. O comerciante de vinho ainda trazia na família a lembrança de uma carroça roubada; o homem da farinha lembrava os dedos perdidos pelo irmão numa disputa; dois proprietários que mal se toleravam mantinham aberta uma passagem porque alguém dera fim à questão. E agora mercadores avançavam para a noite sem contratar lanças para cada trecho da estrada.
Zeus levantou-se.
Havia outra aldeia adiante. Mantendo o passo de um viajante comum, a escuridão chegaria primeiro.
Seguiu mesmo assim.
Atrás das curvas, o ruído das carroças diminuiu aos poucos até desaparecer. Ficaram seus passos na poeira, o rumor baixo do rio se afastando e a estrada escurecendo diante dele.
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