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A primeira pedra entrou pela lateral da sandália.

Zeus parou.

Era pequena, arredondada numa ponta e afiada na outra, presa entre o couro e a sola do pé esquerdo. Um viajante acostumado à estrada talvez seguisse até encontrar sombra ou água. Zeus poderia simplesmente deixar de senti-la.

Preferiu não fazê-lo.

Abaixou-se junto à margem, soltou a tira de couro e virou a sandália. A pedra caiu na poeira.

Ficou olhando para ela por um instante.

Do alto, aquela estrada era uma linha traçada entre encostas.

Ali embaixo, tinha pedras.

Recolocou a sandália.

A forma que escolhera era a de um homem já além da juventude, embora ainda robusto. Ombros largos, barba escura salpicada de grisalho, cabelos que o vento deslocava sem cerimônia. Vestia túnica de lã clara, manto mais pesado sobre um ombro e sandálias já sujas de estrada. Uma bolsa pequena pendia do cinto.

Nenhum ouro.

Nenhum bronze.

Nenhuma marca que dissesse a outro homem que devia baixar a cabeça.

Levava apenas uma vara de viagem.

Estrangeiro.

Bastava.

Zeus retomou o caminho.

A estrada descia por uma encosta aberta e desaparecia adiante entre duas elevações cobertas de arbustos. O sol estava alto. As oliveiras esparsas ofereciam sombras curtas, quase inúteis. Insetos levantavam da vegetação quando seus passos chegavam perto.

O corpo suava.

Ele permitiu isso também.

Havia diferença entre conhecer o calor dos homens e sentir a lã presa às costas.

A sede veio algum tempo depois. Não como uma necessidade verdadeira, mas como parte daquele corpo e da medida que escolhera habitar. Passou a língua pelos dentes. A boca estava seca.

À frente, a estrada fazia uma curva.

Do Olimpo, bastaria querer para saber o que havia além.

Zeus não quis.

Continuou andando.

Primeiro veio o som.

Madeira gemendo.

Depois, uma voz.

— Se continuar puxando desse jeito, você acaba de vez com o eixo.

Outra respondeu:

— O eixo já está quebrado.

— E isso impede de quebrar mais?

— Pai, não existe “mais quebrado”.

— Existe quando a carroça é minha.

Zeus dobrou a curva.

Uma carroça ocupava metade da estrada. A roda direita afundara numa depressão perto da borda, inclinando o eixo num ângulo ruim. Duas mulas permaneciam presas ao jugo, ocupadas em espantar moscas enquanto os homens discutiam atrás delas.

Eram três.

Um velho magro segurava as rédeas. Um homem mais jovem tentava enfiar uma corda sob a carroça. O terceiro apoiava o peso sobre um cajado; uma das pernas tinha pouca flexão.

O velho percebeu Zeus.

— Se veio do norte, ainda dá tempo de voltar.

Zeus parou.

— Por quê?

— Meu filho está tentando ensinar uma carroça carregada de cevada a voar.

O homem junto à corda levantou-se.

— Estou tentando levantar a roda.

— Viu? Já mudou a história.

Zeus aproximou-se.

— Quanto peso há aí?

— Cevada — respondeu o mais novo.

O velho apontou para ele.

— E teimosia.

O homem do cajado completou:

— A teimosia viaja por conta própria. A cevada é que pesa.

Zeus examinou a roda.

A depressão não era profunda, mas a carga mantinha o veículo inclinado. As mulas puxavam para a frente e apenas enterravam mais a roda.

— Descarreguem alguns sacos.

O jovem largou a corda.

— Leva metade do dia.

— Menos do que fazer outra roda.

O velho abriu um sorriso.

— Gostei dele.

— Você gosta de qualquer um que apareça dizendo que estou errado.

— Viajantes assim são difíceis de encontrar.

O filho olhou para Zeus.

— Vai ajudar também ou veio só distribuir sabedoria?

A pergunta saiu áspera. O homem pareceu perceber isso logo depois.

— Se puder ajudar.

— Posso.

Zeus tomou cuidado para usar apenas a força que aquele corpo poderia justificar.

Retiraram seis sacos. O velho desatrelou as mulas e levou os animais alguns passos adiante. Zeus e o jovem ergueram a lateral da carroça enquanto o homem do cajado empurrava pedras largas para preencher a depressão.

A madeira pressionou o ombro de Zeus.

Peso.

Atrito.

O esforço teve de continuar sendo esforço.

O rapaz prendeu a respiração entre os dentes.

— Agora.

Zeus empurrou.

A roda subiu sobre uma pedra, depois sobre outra. A carroça caiu de volta ao leito firme da estrada com um solavanco que fez os sacos restantes balançarem.

O velho levantou as mãos.

— Viram?

O filho ficou curvado, recuperando o fôlego.

— Vimos o quê?

— Meu plano funcionando.

— Seu plano era reclamar até alguém aparecer.

— E apareceu.

O homem do cajado riu.

O filho também.

Zeus soltou a carroça.

O som do riso o surpreendeu mais do que o peso.

Não porque os homens rissem pouco.

As vozes que alcançavam as alturas é que raramente levavam aquilo consigo. Orações nasciam de necessidade. Juramentos vinham de disputa. Agradecimentos costumavam chegar depois do medo.

O riso não chamava os deuses.

Não precisava deles.

— Quer água? — perguntou o homem do cajado.

Zeus voltou-se para ele.

— Quero.

O homem tirou um odre da carroça.

A água estava morna e tinha gosto de couro.

Na estrada, era água.

Zeus bebeu e devolveu o odre.

O velho perguntou:

— Vai para onde?

— Sul.

— Isso ainda deixa metade da Arcádia.

— Então não estou tão perdido.

O velho riu.

— Espere mais duas curvas.

O filho começou a recolocar os sacos. Zeus pegou um deles.

— Deixe — disse o jovem.

— Ajudei a tirar. Posso ajudar a pôr.

O peso do saco surpreenderia um homem que tivesse visto apenas a carroça carregada.

Zeus o recolocou.

O homem do cajado perguntou:

— Vai até Tegeia?

— Talvez.

Ele examinou Zeus.

— Não é daqui.

Não era uma pergunta.

— Não.

— De onde?

Zeus poderia inventar uma aldeia, uma família, um caminho percorrido.

Não lhe interessava construir uma mentira inteira.

— De longe.

O velho voltou a prender as mulas.

— Todo estrangeiro vem “de longe” quando não quer dizer de onde.

Zeus sorriu.

— Funciona?

— Acabou de funcionar.

O filho apertou a corda sobre os sacos.

— Se continuar por esta estrada, encontra uma fonte depois do trecho em reparo.

— Quanto falta?

— Uma hora.

O velho fez um ruído de desprezo.

— Para você.

O rapaz virou-se.

— E para ele?

— Depende dos pés.

Zeus olhou para as próprias sandálias.

— Uma hora serve.

— Jovens acham que distância se mede falando — disse o velho.

O filho puxou a corda mais uma vez.

— Velhos medem reclamando.

O homem do cajado bateu na lateral da carroça.

— Se recomeçarem, a roda quebra de novo só para não ter de escutar vocês.

Os dois se calaram.

Zeus perguntou:

— Que trecho está em reparo?

O jovem apontou para baixo da encosta.

— Mais adiante. A chuva levou parte da borda na última estação. Estão levantando um muro de pedra.

— Quem mandou fazer?

O rapaz deu de ombros.

— Homens estão fazendo.

O velho olhou para ele.

— Ele perguntou quem mandou, seu asno.

— Não perguntou desse jeito.

— Ia perguntar.

Zeus aguardou.

O velho respondeu:

— O rei.

— Licaão?

O filho confirmou.

— Chamaram homens das casas por aqui. Teve reclamação, claro. Depois foram trabalhar.

O velho ajustou uma tira do arreio.

— E colocaram uma pedra torta.

— Uma pedra.

— Uma pedra é como muro começa a cair.

O homem do cajado interferiu:

— Está melhor do que antes.

O velho não teve resposta pronta para aquilo.

Zeus guardou a frase.

Com a carroça novamente pronta, o velho perguntou:

— Vai conosco até a fonte?

Zeus ainda não sabia que ele se chamava Xantos.

Não havia razão para recusar.

— Vou.

Começaram a andar.

Uma hora mortal era longa quando se escolhia vivê-la sem atravessá-la de uma vez.

Não pelo cansaço.

Pela quantidade de coisas que cabiam nela.

O velho se chamava Xantos. O filho, Menon. O terceiro homem era Pyrrhos e não tinha parentesco com nenhum dos dois. Pagara para viajar na carroça até um desvio onde seguiria sozinho para a casa da irmã.

Zeus soube tudo isso sem precisar perguntar.

Homens conversavam quando dividiam estrada.

Falavam do calor, das mulas, do preço do sal. Xantos reclamou de uma mulher de Mantineia que cobrava pelo vinho como se Dioniso tivesse dormido dentro de cada ânfora.

Menon lembrou que o pai comprara duas.

— Isso prova a força de Dioniso — respondeu Xantos. — Não a qualidade do vinho.

Pyrrhos não ria muito, mas, quando ria, precisava firmar melhor o cajado.

Licaão ficou fora da conversa por algum tempo.

Zeus não o trouxe de volta.

A estrada estreitou. De um lado, a encosta subia em terra seca e pedra. Do outro, caía para um vale onde pequenas plantações apareciam entre árvores.

Uma cabra os observava do alto de uma rocha.

Menon apontou.

— Aquela ali vale metade da carroça.

— Só porque não é sua — respondeu Xantos.

— Se fosse minha, valia mais.

Zeus olhou para o animal.

A cabra continuou mastigando.

Mais adiante apareceram os primeiros sinais do reparo.

Pedras novas sustentavam a borda da estrada no ponto onde a encosta cedera. Estacas ainda permaneciam fincadas no solo. A terra compactada tinha cor diferente da antiga, e marcas recentes de ferramenta cortavam algumas pedras.

Mais abaixo, trabalhavam talvez quinze homens.

Dois carregavam pedras numa padiola. Outro batia numa saliência da rocha com um martelo pesado.

Nenhum parecia soldado.

Um homem junto à passagem levantou a mão.

— Devagar.

Xantos respondeu das rédeas:

— Se essas mulas ficassem mais devagar, começavam a voltar para trás.

O trabalhador ignorou.

— Uma roda de cada vez pelo lado de dentro.

Menon desceu.

Zeus também.

A carroça avançou.

O muro suportou.

Xantos inclinou o corpo para examinar as pedras.

— Aquela está torta.

O trabalhador apontou para a estrada.

— Está torta há três dias. Continue andando.

— Três dias torta.

— Quando cair, eu encontro outro velho para me avisar.

Xantos pareceu satisfeito com a resposta.

Zeus permaneceu perto do muro.

Um rapaz carregando pedras deixou a padiola no chão para beber. Uma faixa de tecido protegia o ombro onde a madeira costumava apoiá-la.

— Trabalham aqui há quanto tempo? — perguntou Zeus.

O rapaz limpou a boca.

— Nove dias.

— Todos desde o primeiro?

— Alguns mudam. Outros ficam.

— Vieram da mesma aldeia?

O rapaz apontou vagamente para o vale.

— De três lugares.

— Convocados pela casa do rei?

O jovem examinou Zeus.

Um estrangeiro perguntando demais.

Ainda assim, respondeu.

— Sim.

— Recebem pagamento?

— Comida enquanto trabalhamos.

— E depois?

O rapaz deu de ombros.

— Depois voltamos para nossas terras.

Uma voz chamou por ele.

Já pegando a padiola, o jovem apontou para Xantos.

— Não deixe aquele velho subir no muro.

Xantos ouviu.

— Eu só ia mostrar a pedra.

— É justamente por isso.

O rapaz se afastou.

Zeus acompanhou por alguns instantes o tecido preso ao ombro dele.

Nenhuma voz ouvida do Olimpo lhe dissera quanto pesava uma pedra carregada durante nove dias.

A carroça terminou de atravessar o trecho.

Zeus seguiu com os três.

Encontraram a fonte perto do meio-dia.

Água brotava entre duas pedras sob uma árvore e caía numa bacia rasa antes de seguir por um sulco até o terreno mais baixo. Duas mulheres enchiam jarros. Uma menina segurava uma cabra por uma corda curta.

Zeus sentou-se à sombra.

A mudança de temperatura sobre a pele foi imediata.

Menon soltou as mulas.

Xantos procurou comida na carroça.

— Estrangeiro.

Zeus levantou a cabeça.

O velho lhe oferecia metade de um pão achatado.

— Ajudou com a carroça.

— Já me deram água.

— Água é de quem passa.

Estendeu o pão novamente.

Zeus aceitou.

Xantos acrescentou um pedaço pequeno de queijo.

Não houve invocação.

Nenhuma libação.

Nenhuma cerimônia.

Um viajante ajudara a tirar uma carroça do buraco.

Recebia pão.

Zeus comeu.

O pão estava duro nas bordas. O queijo tinha sal demais.

Menon sentou-se perto dele.

— Se comer devagar, ele vai achar que não gostou.

Xantos respondeu:

— Se comer depressa, vou achar que estava morrendo de fome.

— Então o que ele faz?

— Agradece. É mais simples.

Zeus olhou para o velho.

— Obrigado.

Xantos fez um gesto para o filho.

— Viu como não é difícil?

Menon balançou a cabeça.

Na fonte, uma das mulheres tentou erguer um jarro cheio e precisou ajustar o corpo para receber o peso.

Zeus acompanhou o movimento.

A menina percebeu.

— É pesado.

— Parece.

— Minha mãe diz que fica ainda mais pesado quando reclamo.

A mulher se virou.

— Não coloque o viajante no meio das suas desculpas.

Zeus perguntou à criança:

— Você já verificou?

Ela pensou seriamente.

— Ainda estou testando.

Xantos riu alto.

A mãe segurou o jarro.

— Perdoe.

— Não fez nada.

A menina puxou a cabra.

— Ela também reclama.

Zeus apontou para o animal.

— A cabra?

— Minha mãe.

Menon virou o rosto para esconder o riso.

A mulher fechou os olhos por um instante.

— Vamos embora antes que você descubra como é pesado carregar o jarro inteiro.

Antes de sair, porém, encheu uma pequena tigela na fonte. Derramou algumas gotas junto à pedra de onde brotava a água e tocou os dedos molhados na própria testa.

O gesto durou pouco.

Depois ela pegou a filha e foi embora.

Zeus acompanhou-a com os olhos.

Xantos continuava cortando o queijo.

— Fazem isso sempre?

— Isso o quê?

— A água na pedra.

O velho olhou para a fonte.

— Alguns fazem.

— Você não.

Xantos deu outra mordida no pão.

— Eu agradeço bebendo.

Menon falou:

— Minha mãe fazia.

Xantos ficou alguns segundos em silêncio.

— Sua mãe fazia muita coisa que eu não entendia.

— E você deixava.

O velho apontou o pão para o filho.

— Não era rei dela.

Menon sorriu.

Zeus guardou a frase sem lhe acrescentar uma intenção que Xantos não colocara ali.

Pyrrhos terminou de comer e começou a se levantar.

— Vou seguir.

Xantos olhou para a posição do sol.

— Agora?

— Se continuar ouvindo vocês dois, minha irmã morre de velhice antes que eu chegue.

— Ela é mais nova que você.

— Por isso mesmo.

Pyrrhos precisou usar as duas mãos no cajado para ficar de pé.

Zeus percebeu.

— O que houve com a perna?

Pyrrhos olhou para ela.

— Um cavalo caiu em cima.

— Quando?

— Quinze anos atrás.

— Ainda dói.

O homem examinou Zeus com alguma desconfiança.

— Algumas manhãs. Mais quando esfria.

Zeus sabia mais do que aquela resposta oferecia.

Poderia tocar o joelho.

Poderia retirar o dano.

Não fez.

Pyrrhos ajustou a bolsa no ombro.

— Vai continuar para o sul?

— Vou.

— Depois das figueiras tem uma bifurcação. Pegue a esquerda se quiser passar por casas. A direita é mais curta, mas não encontra água até bem tarde.

— Obrigado.

— E, se vir um homem vendendo mel perto de uma colina branca, não compre.

Zeus perguntou:

— É ruim?

— Excelente.

Zeus esperou.

Pyrrhos sorriu.

— Por isso cobra o dobro.

Seguiu sozinho.

Zeus observou a maneira desigual como ele afastava a perna a cada passo.

Conhecer a existência da dor à distância não dizia como um homem passava quinze anos ensinando o próprio corpo a continuar andando com ela.

As vozes eram verdadeiras.

Só não continham tudo.

Zeus deixou Xantos e Menon pouco depois.

O velho tentou convencê-lo a seguir na carroça.

— Há lugar atrás.

Menon olhou para os sacos.

— Não há.

— Ele senta em cima.

— Aí não temos coluna vertebral para devolver no fim.

Zeus agradeceu, mas recusou.

Queria andar.

Xantos apontou a estrada.

— Lembre das figueiras. Esquerda.

— Pyrrhos disse o mesmo.

— Então está condenado a chegar.

Separaram-se.

Zeus seguiu sozinho.

O sol avançou. Uma nuvem crescia muito longe a oeste. Ele a percebeu sem precisar olhar.

Em outra região, alguém pronunciou seu nome por causa de um juramento quebrado.

Por hábito, sua atenção quase se abriu em direção à voz.

Zeus parou.

Duas formigas atravessavam a poeira carregando alguma coisa branca entre elas.

Mais à frente, um homem conduzia três burros.

Um pequeno sino preso ao pescoço de um deles tocava a cada passo.

Zeus deixou a oração distante seguir sem ele.

Descera para ouvir também o que ninguém transformava em súplica.

Continuou.

As figueiras apareceram no fim da tarde.

A bifurcação veio logo depois.

À direita, a estrada subia por entre rochas. À esquerda, descia para um vale onde fumaça se levantava de algumas casas.

Zeus tomou a esquerda.

Encontrou primeiro um menino conduzindo ovelhas.

— Há onde dormir por aqui?

O menino apontou com o cajado.

— Na casa de Eudoro, se ele estiver de bom humor.

— E se não estiver?

O rapaz pensou.

— A mulher dele manda mais.

Fez outra pausa.

— Então tem sempre.

Zeus seguiu.

A aldeia era pequena, com talvez vinte casas espalhadas pelo terreno. Um cercado guardava ovelhas. Duas mulheres trabalhavam lã junto a uma porta. Um homem consertava uma alça de madeira. Crianças corriam atrás de uma bola feita de couro e pano velho.

Ninguém interrompeu a própria vida por muito tempo para olhar o estrangeiro.

Um cachorro veio cheirar sua sandália.

Zeus esperou.

O animal decidiu que ele não era interessante e foi embora.

A casa de Eudoro tornou-se fácil de encontrar porque o menino já correra na frente.

Um homem apareceu à porta. Tinha barriga grande, braços fortes e expressão de quem começava qualquer negociação desconfiando.

— Disseram que procura teto.

— Só por esta noite.

Eudoro olhou para o céu.

— Não vai chover.

— Prefiro teto de qualquer jeito.

— Justo.

Examinou Zeus.

— Tem moeda?

Zeus retirou uma pequena peça da bolsa.

Eudoro avaliou-a na palma.

— Isso paga comida e teto.

— É o que quero.

— Então está pago.

Uma mulher surgiu atrás dele.

— Não vai colocar o homem para dormir com os animais.

Eudoro virou-se.

— Eu não disse isso.

— Ainda não.

— Agora lê pensamento?

— O seu faz barulho.

Zeus reconheceu algo que prece alguma lhe oferecera daquela forma.

Uma casa vivendo.

A mulher apontou para dentro.

— Entre antes que ele resolva cobrar por ficar parado na porta.

Eudoro resmungou:

— Eu mando nesta casa.

— Claro.

Ela entrou.

Eudoro esperou que se afastasse.

Então disse em voz baixa:

— Em certas áreas.

Zeus entrou.

O teto era baixo. Havia cheiro de lentilhas, fumaça e lã. Uma criança dormia sobre uma esteira. Outra desenhava linhas no chão com carvão.

Zeus precisou baixar a cabeça para passar sob uma viga.

Eudoro percebeu.

— Da próxima vez, nasça menor.

— Vou considerar.

O homem riu.

Zeus sentou-se onde lhe indicaram.

Recebeu uma tigela.

No início a família fez poucas perguntas. Depois vieram mais.

Queriam saber de onde ele vinha.

— Norte.

— Norte onde? — perguntou Eudoro.

— Mais ao norte do que faz diferença para esta refeição.

Eudoro aceitou.

Perguntou se havia guerra.

Zeus disse que não vinha de nenhuma.

A mulher quis saber das estradas.

Ele falou do trecho em reparo.

— Ainda estão trabalhando naquela borda? — perguntou Eudoro.

— Estão.

— Caí ali com um saco dois anos atrás.

A esposa respondeu da panela:

— Você cai em terreno plano.

— Lá eu tinha motivo.

A criança com carvão levantou a cabeça.

— Pai caiu na lama.

Eudoro apontou para ela.

— Você nem estava lá.

— Mãe contou.

Ele olhou para a esposa.

— Traição.

Ela serviu mais lentilhas a Zeus.

— Estou avisando o estrangeiro onde pisa.

A conversa continuou.

Licaão só apareceu bem depois.

Eudoro comentou que os homens da estrada tinham sido chamados pelo rei. A mulher disse que o irmão estava entre eles.

— Está reclamando? — perguntou Eudoro.

— Ele reclama até quando come.

— Então está vivo.

Ela jogou um pedaço pequeno de pão no marido.

Errou por pouco.

Zeus perguntou:

— Seu irmão perdeu a colheita por estar na estrada?

— Não.

A resposta veio sem drama.

— O vizinho cuida dos animais enquanto ele trabalha. Depois meu irmão ajuda o vizinho quando for a vez dele.

— E se não quisesse ir?

Ela levantou os olhos da tigela.

— Foi chamado.

Zeus não insistiu.

Eudoro bebeu água.

— A estrada precisava de homem.

A mulher olhou para ele.

— Não disse que não precisava.

— Então concordamos.

— É justamente por isso que fico irritada.

A criança menor acordou e começou a chorar.

A mãe a pegou.

Eudoro levantou-se para buscar uma manta.

A discussão sobre reis morreu sem conclusão porque alguém precisava cobrir uma criança, mexer o fogo e verificar os animais.

A casa continuou existindo.

A noite caiu do lado de fora.

Escura de verdade.

Sem a visão aberta das alturas.

Zeus poderia atravessá-la com os olhos se quisesse.

Não quis.

Quando Eudoro abriu a porta para conferir os animais, o mundo além da luz do fogo era uma massa negra, quebrada apenas por poucas estrelas entre as montanhas.

— Não aconselho seguir agora.

— Não vou.

— Tem lobo por aqui.

Zeus olhou para ele.

— Muitos?

— Depende do inverno.

— E ladrões?

Eudoro pensou.

— Menos.

A esposa falou do outro lado da sala:

— Lobos não obedecem ao rei.

Eudoro ajeitou a porta.

— Ainda.

Ela riu.

Zeus guardou a frase.

Mais tarde, deitado numa esteira junto à parede, ouviu a família se acomodar.

A madeira estalava no fogo.

Uma criança murmurava dormindo.

Do lado de fora, algum animal mexeu na palha.

Nenhum homem naquela casa o chamava de Zeus.

Em algum lugar distante, uma voz pronunciou seu nome.

Ele percebeu.

Dessa vez, não a seguiu.

Ficou.

Pouco depois, Eudoro levantou-se.

Não chamou deus algum.

Não murmurou prece.

Pegou uma acha, aproximou-a das brasas e voltou para a esteira.

A chama cresceu.

Zeus fechou os olhos.

Além da parede, a estrada desaparecia no escuro.

Ao amanhecer, seguiria por ela.

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