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A chuva ainda não tocara a terra quando Zeus percebeu onde terminaria.

Nascia sobre o mar, pesada e escura, empurrada para leste por ventos que atravessariam durante a noite ilhas onde homens dormiam sem saber que seus telhados seriam testados antes do amanhecer. Muito além da água, aquilo já lhe chegava como cheiro de pedra molhada, rios engrossando entre margens, folhas vergadas sob gotas que ainda não haviam caído.

Uma chama se apagou numa casa junto à costa.

Um cordeiro gritou sob uma lâmina.

Neve se desprendeu de uma encosta onde nenhum homem estava para vê-la cair. Um navio subiu sobre uma onda que ainda não alcançara seu casco. Em algum ponto daquele mesmo mar, um homem pediu que o vento cessasse; algumas milhas adiante, outro rogava por vento bastante para fazê-lo chegar ao porto antes do rival.

Zeus abriu os olhos.

A pedra sob sua mão estava fria.

Nuvens se acumulavam abaixo das alturas do Olimpo sem esconder o mundo. Para olhos mortais, formariam uma barreira. Para ele, eram água suspensa, sombra em movimento sobre os campos, o começo de uma tempestade numa região e o resto de outra dissolvendo-se muito longe dali.

O horizonte não terminava onde a vista terminava.

Também não se oferecia inteiro.

Zeus podia voltar a atenção para uma montanha e sentir a distância até outra, seguir um rio até a planície ou acompanhar um navio por águas que um homem levaria dias para atravessar. Quando deixava de prestar atenção, o espaço voltava a perder importância.

O mar não estava próximo.

A Arcádia tampouco.

As casas de onde vinham as vozes estavam espalhadas por distâncias que nenhum mortal poderia percorrer numa vida de jornadas.

Ainda assim, chegavam.

Nem sempre como palavras.

Uma mulher pressionava as mãos contra o ventre e chamava primeiro Hera, depois Zeus, depois qualquer deus que pudesse escutá-la. O medo vinha antes do nome. Um velho tocava a pedra de um altar com dedos sujos de farinha e prometia uma cabra caso o neto retornasse. Dois homens diante de marcos de propriedade juravam possuir o mesmo pedaço de terra.

Ambos chamavam Zeus por testemunha.

Um deles mentia.

Zeus não sabia qual.

A voz por si só não revelava tudo. Juramentos carregavam peso; mentiras também, quando eram descobertas. A boca de um homem não se tornava transparente apenas porque pronunciava o nome de um deus.

As duas vozes desapareceram sob outras.

Um capitão queria mar calmo.

Um comerciante desejava que o rival não alcançasse o porto.

Um pastor procurava três cabras.

Um pai prometia vinho se a febre da filha cedesse.

Mais longe, um homem pedia que Zeus quebrasse as pernas de outro. Não dizia por quê. Soldados sacrificavam antes de uma marcha e pediam vitória. Do outro lado do caminho que percorreriam, homens destinados a combatê-los faziam exatamente o mesmo.

Zeus ouviu os dois lados.

A pedra permaneceu fria.

Uma águia cruzou o ar abaixo das nuvens e encontrou uma corrente ascendente. Por alguns instantes, o movimento da ave chamou sua atenção: uma asa inclinada, a cauda corrigindo o corpo, o voo tornando-se mais alto sem um único esforço visível.

Não havia oração ali.

Nenhum juramento.

Nenhum pedido.

Depois as vozes voltaram a ocupar o mundo.

Nunca haviam parado.

Algumas existiam durante o tempo de um susto. Outras reapareciam por anos. Havia homens que só se lembravam dos deuses quando uma lâmina estava próxima demais. Outros começavam cada manhã lançando uma porção de farinha ao fogo e encerravam a noite da mesma maneira, sem pedir fortuna, vitória ou vingança — apenas que o dia seguinte chegasse.

Zeus conhecia os dois tipos.

Uma súplica nascida do medo podia ser sincera.

Uma oferenda abundante podia esconder cálculo.

Um rei podia sacrificar cem animais pela manhã e quebrar a palavra antes que o sangue secasse. Um pobre podia despejar no altar vinho que lhe faria falta na semana seguinte.

Entre todas aquelas vozes, uma lhe chegou de maneira familiar.

Não era forte.

Era antiga apenas porque deixara rastro.

— Zeus, vê isto.

Leonte.

O nome não acompanhara a súplica naquele momento. Zeus o recuperou da impressão que ela deixara: dor, poeira, homens próximos, o corpo preso contra madeira.

E uma espera.

Essa parte permanecera.

A oração em si não era incomum. Um homem sofria e desejava que a ordem do mundo se dobrasse imediatamente à sua necessidade. Milhares haviam pedido o mesmo, com palavras diferentes.

O que a cercara era mais raro.

Os homens em volta também esperavam.

Tinham interrompido o castigo. Permaneceram sob o céu, aguardando alguma coisa.

Não por misericórdia.

Queriam saber se haveria resposta.

Zeus lembrava-se disso.

Lembrava-se ainda melhor do nome que começara a surgir em torno daquela súplica.

Licaão.

Desde então, o nome aparecera muitas vezes.

Em oferendas.

Em maldições.

Em agradecimentos.

Em pedidos para que uma sentença fosse desfeita e em outros para que fosse mantida.

Um agricultor agradecera ao deus porque animais roubados tinham sido devolvidos.

Uma mulher pedira que o rei não levasse outro homem de sua casa.

Um viajante agradecera por encontrar guardas numa estrada onde antes temia ladrões.

Um condenado pedira que Zeus destruísse Licaão e todos os seus descendentes.

Dias depois, o irmão daquele mesmo homem pedira apenas que a punição não alcançasse as crianças.

As vozes não produziam um veredicto.

Produziam pessoas.

Zeus deixou-as passar por algum tempo.

Depois voltou a atenção para a Arcádia.

A terra se definiu sob as nuvens por partes. Montanhas separando comunidades. Estradas comprimidas entre encostas. Água descendo por vales estreitos. Campos pequenos, arrancados de solos que mudavam de qualidade de uma colina para outra. Rebanhos. Fumaça. Altares antigos, suas pedras marcadas por vinho muito antes do nascimento de qualquer homem que agora vivia ali.

E vozes.

A maioria sequer mencionava Licaão.

Um rapaz pedia força para levantar uma pedra que o pai carregara na mesma idade. Uma mulher chamava por auxílio durante um parto. Um homem prometia a primeira parte da colheita se a chuva viesse antes que a cevada secasse.

Perto dali, outro pedia que aquela mesma chuva esperasse mais alguns dias.

Uma criança queria encontrar um cão perdido.

Um sacerdote pronunciava palavras antigas diante do fogo.

Então o nome apareceu de novo.

Licaão.

Veio dentro da súplica de um homem que devia grão e queria mais prazo. Quase ao mesmo tempo, um mercador agradeceu pela estrada segura.

— …sob a paz de Licaão…

A frase se perdeu.

Um velho pediu que os homens do rei obrigassem o vizinho a devolver a água desviada de um canal. Na mesma região, outro homem escondia duas cabras antes da chegada dos cobradores e pedia para não ser descoberto.

Zeus ouviu.

Fome, filhos, terra, inverno e dívida mudavam o significado de justiça de uma casa para outra. Um homem podia pedir rigor pela manhã e temê-lo à tarde caso o rigor mudasse de direção.

Outra voz se ergueu.

Agelau.

Zeus reconhecia o sacerdote sem esforço. Anos de invocação haviam dado forma ao modo como aquele homem pronunciava seu nome. Agelau não precisava gritar.

Naquele dia havia fogo diante dele.

Farinha.

Vinho.

A fumaça subia de uma oferenda mais modesta que outras feitas no mesmo altar. Agelau pronunciava cada palavra com cuidado.

Pediu que o rito permanecesse íntegro.

Pediu que a casa de Licaão não se afastasse tanto dos costumes que já não encontrasse caminho de volta.

E pediu medida para o rei.

Não castigo.

Medida.

Zeus prestou mais atenção.

Agelau também possuía orgulho.

Sacerdotes eram homens. Podiam defender um deus e, no mesmo gesto, defender o lugar que ocupavam entre outros homens. Uma afronta ao altar podia ferir devoção e autoridade ao mesmo tempo.

Zeus não precisava decidir naquele momento quanto havia de cada coisa na oração.

Então percebeu o bosque.

Não pela voz de Agelau.

Pelo machado.

Ferro encontrou madeira.

Zeus voltou sua atenção para a encosta.

O primeiro golpe já caíra havia horas segundo o tempo dos homens. Para aqueles trabalhadores, a manhã avançara. Três árvores tinham sido abertas. Homens suavam entre troncos. Cordas eram presas à madeira, os cortes aprofundados, os primeiros pedaços arrastados encosta abaixo.

Para Zeus, porém, o ato ainda conservava suas bordas.

A regra ligada ao lugar era antiga.

As árvores não lhe pertenciam como cabras pertenciam a um pastor. Bosques cresciam, queimavam, apodreciam, tombavam sob vento e raio desde muito antes de homens escolherem dias para preservá-los.

O que importava era o gesto construído em torno delas.

A separação.

Hoje não.

Amanhã, sim.

Uma renúncia pequena, repetida durante gerações. Homens reservavam uma parte daquilo de que necessitavam e reconheciam que a própria necessidade não era a única medida possível.

Licaão conhecia o costume.

Outro machado desceu.

A vibração da árvore pareceu repetir-se dentro da percepção de Zeus.

O rei podia ter esperado.

Havia madeira em outro lugar.

Essa informação não viera da mente de Licaão, à qual Zeus não se abria como quem abre uma porta. Viera das vozes ao redor. Servos comentavam. Trabalhadores sabiam. Agelau sabia.

Mestor sabia.

A ordem havia corrido de boca em boca.

Licaão escolhera aquele bosque conhecendo a alternativa.

Zeus retirou a mão da pedra.

O vento passou por seus dedos.

Muito longe, uma nuvem se rompeu sobre o mar e despejou chuva.

Ele permaneceu onde estava.

Na Arcádia, alguém agradeceu porque ninguém fora ferido durante o corte.

Outra voz pediu perdão pelo mesmo ato.

Uma terceira não pediu coisa alguma. Um dos trabalhadores derramara algumas gotas de vinho perto de uma pedra antes de erguer o machado. Fizera escondido dos companheiros.

Zeus percebeu o gesto.

Talvez medo.

Talvez devoção.

Talvez ambos.

O homem cortara a árvore de qualquer maneira.

A ordem de Licaão chegara ao braço dele.

Zeus deixou o bosque e encontrou outro nome que surgira com frequência desde o dia anterior.

Damon.

Um homem sem a mão direita.

A história já se deformava.

Em uma versão, Damon atacara soldados do rei.

Em outra, dera abrigo a um assassino.

Alguns diziam que recusara entregar um ladrão.

Havia quem afirmasse que perdera a mão numa luta, e quem soubesse que fora punição.

Um homem jurava que o próprio Licaão segurara a lâmina.

Outra voz corrigia com detalhes melhores.

Theron.

Zeus conhecia esse nome principalmente pelas orações de terceiros. Soldados pediam que fossem trazidos vivos quando marchavam sob o comando dele. Mulheres incluíam Theron em súplicas sobre maridos e filhos. Outros o amaldiçoavam quando sua chegada significava cobrança, busca ou punição.

Agora o nome vinha ligado a Damon.

Zeus não sabia o que Theron pensara no instante em que levantou o machado.

Sabia que o levantara.

Sabia que Damon chegara vivo à casa de Licaão.

E sabia que, naquela manhã, homens falavam de modo diferente quando mencionavam o rei.

Um proprietário dizia ao irmão que, finalmente, ninguém teria coragem de esconder fugitivos de um enviado.

Outro perguntava se uma mão perdida tornara a estrada mais segura.

Zeus deixou a discussão seguir sem acompanhá-la.

Outras vozes chegavam.

Licaão mantinha estradas.

Licaão cobrava demais.

Licaão mandara consertar uma ponte.

Licaão humilhara Agelau.

Licaão impedira uma disputa entre famílias de acabar em sangue.

Licaão punira um homem que já se entregara.

Licaão fazia seus mensageiros chegarem onde antes homens armados evitavam ir.

Licaão estava perdendo o temor.

Licaão fazia a Arcádia obedecer.

Seu nome não estava entre os mais pronunciados do mundo.

Longe disso.

Mas alguma coisa mudara.

Antes, Licaão chegava às vozes porque era rei.

Agora começava a chegar porque estava olhando para cima.

Uma sombra cruzou a pedra.

Zeus ergueu os olhos.

Hera se aproximava.

Não perguntou de imediato o que ele fazia. Primeiro olhou para as nuvens, depois para ele.

— Está ouvindo a Arcádia.

Zeus voltou a atenção para o mundo abaixo.

— Estou.

Hera permaneceu ao seu lado.

Durante algum tempo, não precisaram falar.

Ela também conhecia o movimento das vozes. Nem sempre eram as mesmas que chegavam a Zeus. Havia nomes que os mortais pronunciavam diante de casamento, parto, casa e linhagem. Certos pedidos alcançavam ambos. Outros nunca lhe chegariam se alguém não os trouxesse.

— O rei? — perguntou Hera.

— Um entre muitos.

Ela percebeu a escolha das palavras.

— Se ainda fosse apenas isso, você não estaria escutando desse jeito.

Zeus não contestou.

Uma súplica de Argos ganhou força por um instante e desapareceu sob outra trazida do mar.

Hera perguntou:

— Agelau?

— Pediu medida para o rei.

— Sacerdotes costumam chamar castigo de medida quando querem parecer moderados.

— Não acho que tenha pedido castigo.

— Tem certeza?

Zeus recuperou a oração.

— Não.

Hera aceitou a resposta sem comentário.

— E Licaão?

Zeus não precisou localizar a casa do rei com os olhos.

— Ainda não me pediu nada.

Hera observou-o.

— Talvez esteja esperando que seja você quem peça alguma coisa.

Zeus virou-se.

Ela não sorria.

— Ele manda cortar um bosque ligado ao seu nome para descobrir se será impedido — continuou Hera. — Não parece preocupado em passar despercebido.

— Não está.

— Vai responder?

Zeus ficou em silêncio.

Abaixo, um trovão nasceu dentro de uma nuvem sobre o mar. Ele sentiu a carga se formar antes do clarão.

Poderia puxá-la para a Arcádia.

Seria fácil.

Um raio numa árvore.

Um estrondo sobre a casa de Licaão.

Fogo.

Homens cairiam de joelhos. Agelau teria sua confirmação. Os trabalhadores passariam o resto da vida contando a manhã em que Zeus respondera ao machado.

Licaão receberia exatamente aquilo que parecia exigir.

Zeus deixou a tempestade continuar rumo ao lugar para o qual já seguia.

— Não assim.

Hera inclinou a cabeça.

— Então vai ignorá-lo.

— Não foi o que disse.

Ela o estudou por mais um instante.

— Não.

Depois se afastou.

Zeus ficou sozinho outra vez.

As vozes prosseguiam.

Uma mãe chorava porque a febre do filho baixara. Agradecia a Zeus.

Ele não tocara a criança.

Em outro lugar, uma embarcação virou. Três homens chamaram pelos deuses. Dois voltariam à superfície.

Um não.

O mundo dos mortais jamais fora uma mesa sobre a qual Zeus deslocasse cada objeto.

Ainda assim, havia coisas que lhe pertenciam de maneira diferente.

Juramentos.

Suplicantes.

O vínculo entre hóspede e anfitrião.

Aquilo que impedia homens de se comportarem como feras quando nenhuma força humana estava presente para obrigá-los a fazer outra coisa.

Reis também estavam sujeitos a essas coisas.

Talvez sobretudo reis.

Um homem com autoridade sobre muitos podia produzir justiça em escala maior que qualquer pastor.

Podia também multiplicar violência.

Zeus conhecera reis piedosos que governavam mal. Conhecera homens duros que mantinham terras em paz. Vira governantes oferecerem sacrifícios perfeitos e quebrarem a palavra dada antes mesmo de saírem do altar.

Licaão ainda não cabia numa única voz.

Zeus voltou à Arcádia.

Dessa vez, não procurou o nome do rei.

Escutou o que havia em torno dele.

Uma ponte estava sendo reparada. Os trabalhadores reclamavam, mas a madeira precisava ser trocada.

Numa estrada, comerciantes viajavam com escolta menor do que anos antes.

Um pai amaldiçoava Licaão porque o filho fora convocado para trabalho.

Outro dizia que a convocação era justa, pois todas as casas deviam homens.

Havia um sacerdote ferido no orgulho.

Um comandante que obedecera.

Um herdeiro cujo nome começava a aparecer com mais frequência entre as vozes da casa.

Níctimo.

Zeus deixou-o passar.

Ainda era apenas um jovem para ele. Filho. Herdeiro. Homem ainda incompleto da casa de Licaão.

Outro nome aparecia em conversas próximas.

Dia.

Esposa.

Mãe.

Seu nome vinha de servos e mulheres da casa mais do que de altares.

Zeus não tentou alcançar além daquilo que lhe era oferecido.

Voltou ao rei.

Encontrou medo em torno de Licaão.

Encontrou gratidão.

Raiva.

Ordem.

Nenhuma dessas coisas apagava as outras.

Um homem podia reparar uma ponte e mutilar outro.

Podia tornar uma estrada segura e humilhar um sacerdote.

Podia impedir duas famílias de se matarem e iniciar outra disputa por orgulho.

Zeus não precisava decidir ainda qual ato explicava o homem inteiro.

A voz de Leonte retornou à lembrança.

— Zeus, vê isto.

Ele vira.

Não como um mortal teria visto.

Não estivera ao lado do banco.

Não sentira o suor dos homens, a madeira aquecida pelo sol, o sangue ou o medo de quem aguardava. Não ouvira o intervalo entre a ordem de Licaão e o golpe como alguém presente o ouviria.

Recebera a súplica.

Recebera também a expectativa construída em torno dela.

Depois vieram milhares de outras vozes.

Licaão, porém, tomara aquele silêncio como informação.

Isso agora estava claro.

O rei estava usando a ausência de resposta para medir alguma coisa.

Cada dia sem consequência permitia outro gesto.

O bosque tornara isso mais evidente.

Não por causa da madeira.

Pela escolha.

Zeus poderia mandar um sinal.

Considerou.

Um trovão sobre o palácio bastaria para Agelau.

Talvez bastasse para os trabalhadores.

Talvez para Níctimo.

Para Licaão?

Zeus não sabia.

Um sinal fraco podia ser chamado de acaso.

Um sinal forte, de prova.

Se a tempestade matasse homens no bosque, o reino pagaria pela pergunta do rei.

Se atingisse apenas Licaão, Zeus já teria pronunciado sentença antes de conhecer o homem além das vozes que chegavam até ele.

Não.

Precisava de outra coisa.

Ver a Arcádia de baixo.

Percorrer os caminhos que Licaão mantinha.

Ouvir homens que não soubessem estar falando diante daquele cujo nome colocavam nas súplicas.

Conhecer o medo fora das orações.

A gratidão sem oferenda.

A raiva antes que se transformasse em maldição.

Descobrir quanto as histórias haviam se deformado ao viajar de casa em casa.

Depois iria até o rei.

Não como raio.

Não como deus diante de rei.

Ainda não.

Zeus levantou-se.

Por um instante, o ar ao redor pareceu estreito demais para o movimento.

A pedra permaneceu onde estivera durante eras.

As nuvens seguiram seu curso.

O mundo não parou porque ele tomara uma decisão.

Uma voz distante pediu chuva.

Outra pediu que a chuva não viesse.

Na Arcádia, um homem agradeceu porque os troncos retirados do bosque chegariam ao depósito antes da noite. Outro encostou a testa numa pedra e pediu perdão pelo corte.

Agelau ainda mantinha fogo diante do altar.

Na casa de Licaão, ninguém pronunciava o nome de Zeus naquele instante.

Não importava.

Ele se afastou da pedra.

Atrás dele, as alturas permaneceram cheias de vento, luz e vozes.

À frente, muito abaixo, os caminhos da Arcádia esperavam por pés mortais.

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