Pesquisa Discord Conta Estante de livros Pular: Comentários
Sair

Theron retirou quatro homens da fileira antes de mandar selar os cavalos.

— Vocês ficam.

Mestor acompanhou com os olhos os dispensados e depois contou os que restavam.

— O rei autorizou doze.

— Oito bastam.

— Não foi o que eu disse.

— Foi o que quis dizer.

Mestor puxou a correia do escudo para acomodá-la melhor no ombro.

— Eu jamais duvidaria da sua capacidade de contar. De outras coisas, com frequência.

Theron deixou a provocação morrer.

Oito homens lhe davam margem suficiente. Se encontrassem resistência, seis poderiam parecer fraqueza; doze entrando armados numa propriedade isolada fariam a família acreditar que o rei mandara conquistar o lugar. O objetivo era tirar dois homens dali antes do meio-dia, não ocupar a encosta.

Percorreu os cavalos enquanto os soldados terminavam os preparativos. Conferiu odres, cordas, mantas, duas lanças extras e os pequenos sacos de comida presos às selas. Numa delas havia uma marreta de madeira.

— Tire isso.

O soldado olhou para a ferramenta.

— E se o portão estiver fechado?

— Batemos.

— Com a mão?

— Primeiro.

— E se continuarem sem abrir?

Theron verificou a corda que prendia o odre.

— Aí você pode lamentar ter deixado a marreta em casa.

O homem ainda pareceu confuso, mas obedeceu.

Mestor esperou que se afastasse.

— Dois homens nossos foram feridos naquela propriedade.

— Eu li o relato.

— Iason ainda não fecha a mão direito.

Theron passou para o cavalo seguinte.

— Sei como estão.

— Então por que entrar com oito?

Theron conferiu a fivela da sela e puxou-a com força.

— Porque quero voltar com dois homens. Se chegarmos parecendo um exército, talvez precisemos lutar para conseguir exatamente o que eles já disseram que vão entregar.

Mestor não insistiu.

A ordem viera na noite anterior. Licaão a repetira naquela manhã para que não houvesse dúvida.

Damon de Pheneos deveria ser levado à casa do rei.

Vivo.

Aletes, irmão mais novo dele, também.

Os dois haviam escondido Phorbas durante três dias depois que ele abandonara uma equipe encarregada de abrir um trecho de estrada entre propriedades do norte. Quando homens enviados por Licaão chegaram procurando o fugitivo, Damon afirmara que Phorbas não estava ali.

Até aquele ponto, seria apenas mentira e abrigo a um homem procurado.

O restante tornara tudo pior.

Phorbas tentou escapar pelos fundos. Um dos enviados o viu. Houve luta. Aletes apareceu com um bastão. Outro trabalhador entrou na confusão. Um soldado recebeu uma pedra no rosto; Iason terminou com dois dedos quebrados.

Phorbas fugiu.

Damon e Aletes ficaram.

Dois dias depois, mandaram um homem até a casa de Licaão para informar que se apresentariam e responderiam pelo ocorrido.

Theron considerara aquilo útil.

Licaão não considerara suficiente.

Naquela manhã, o rei examinava contas de cevada quando Theron lhe apresentou o resumo da situação.

— Damon sabia que meus homens procuravam Phorbas e mentiu para eles — disse Licaão.

Theron confirmou.

— Sabia.

— Aletes atacou Iason.

— Com um bastão. Admitiram isso na mensagem.

— E Phorbas continua desaparecido.

— Ainda.

Níctimo não estava ali. Mélas também não.

Theron preferia daquele jeito.

Licaão percorreu outra linha da conta antes de falar.

— Traga os irmãos. Os outros que participaram da luta ficam onde estão até sabermos quem fez o quê.

Até então, nada surpreendera Theron.

Já estava se preparando para sair quando Licaão acrescentou:

— Damon virá sem a mão direita.

Theron levou alguns segundos para entender que ouvira corretamente.

— Senhor?

Licaão levantou os olhos da tábua.

— A mão que usou quando garantiu aos meus homens que Phorbas não estava sob o teto dele.

— Ele não jurou diante de altar.

— Não estou julgando perjúrio.

O rei deixou o estilete sobre a mesa.

— Damon sabia que meus homens estavam cumprindo uma ordem. Mentiu para esconder o homem que procuravam e os deixou entrar numa propriedade onde acabaram atacados. É isso que estou punindo.

Theron conhecia o relato.

— A luta começou quando Phorbas tentou fugir.

— Teria começado se Damon o tivesse entregue?

Não.

Theron não precisou dizer.

Licaão empurrou a tábua de cevada para o lado.

— Traga Damon vivo. Aletes vem inteiro. Quero saber quem jogou a pedra, quem acertou Iason e se havia mais alguém envolvido.

Theron permaneceu diante da mesa.

O rei percebeu.

— Fale.

— Se Damon vier sem resistência, a ordem sobre a mão continua?

— Continua.

— Mesmo se entregar os nomes?

— Sim.

— E se encontrarmos Phorbas antes de voltar?

Licaão estudou-o por alguns instantes.

— Theron, eles não podem descobrir que atacar meus enviados custa menos depois que a situação deixa de ser vantajosa. Se um homem pode mentir, deixar meus soldados sangrarem e então negociar quando percebe que perdeu, a próxima ordem minha chegará a uma porta fechada.

Aquilo fazia sentido.

Era exatamente esse o problema.

Theron gostaria que não fizesse.

Licaão concluiu:

— Quero que os próximos pensem nisso antes de escolher a mesma coisa.

Theron reparou na mão direita do rei, pousada sobre a mesa.

— Entendido.

Agora cavalgava para cumprir.


A propriedade de Damon ocupava uma encosta baixa, onde oliveiras cresciam entre pedras e pequenas faixas de cevada aproveitavam os trechos de solo melhor. Não era aldeia, o que ajudava. Havia menos gente, menos parentes aparecendo atrás de muros e menos oportunidades para um conflito se espalhar antes que alguém entendesse como começara.

A casa principal tinha dois anexos, um abrigo para animais e um muro de pedra baixo demais para deter qualquer homem realmente disposto a atravessá-lo. Cabras se moviam mais acima entre arbustos; abaixo, o caminho descia para um riacho estreito.

Theron viu três homens antes de chegar ao portão.

Nenhum carregava lança.

Fez dois soldados se separarem da coluna e contornarem pela lateral, mantendo distância suficiente para cobrir os fundos.

— Armas baixas.

Mestor olhou para a casa.

— Se correrem?

— Corremos atrás.

— A cavalo?

— Só se quiser derrubar oliveiras e assustar cabras.

Mestor não respondeu.

Os homens da propriedade também não acharam graça.

Theron desmontou antes do portão.

Um deles se aproximou. Tinha cerca de cinquenta anos, barba curta e uma cicatriz velha perto da boca.

— Theron?

— Sou eu.

— Damon.

Isso poupava tempo.

Theron entregou as rédeas a um soldado.

— Onde está Aletes?

— No anexo.

— E Phorbas?

— Não está aqui.

Theron encarou-o.

Damon compreendeu.

— Desta vez pode procurar antes de decidir se acredita.

Theron fez sinal para dois homens.

Eles entraram na casa.

Damon não os impediu.

Uma mulher apareceu na porta. Não parecia velha, embora fios brancos já se misturassem aos cabelos escuros. Um rapaz de uns quinze anos surgiu atrás dela.

Theron indicou o interior da casa.

— Fiquem lá dentro.

Damon se colocou um pouco à frente.

— Minha mulher e meu filho não fizeram nada.

— Então não precisam fazer nada agora.

— Podem assistir.

— Não quero plateia.

A mulher tocou no ombro do rapaz e o levou para dentro.

Theron percebeu o alívio breve em Damon.

Logo desapareceu.

— Aletes! — chamou ele.

O irmão saiu de um dos anexos.

Era mais novo e mais largo nos ombros. Um pano enrolado no antebraço esquerdo cobria parte da pele.

Theron observou primeiro as mãos.

— Está armado?

Aletes abriu os braços.

— Não.

— Tire o pano.

— É só um corte.

— Tire.

Aletes desenrolou o tecido. Havia um ferimento cicatrizando no antebraço, sem espaço para esconder lâmina alguma.

Theron indicou-o para Mestor.

O soldado examinou rapidamente.

— Limpo.

Os homens enviados à casa voltaram.

— Phorbas não está.

— Armas?

— Facas de trabalho, dois arcos e algumas lanças de caça. Nada preparado para combate.

Era o que Theron esperava.

Voltou-se para Damon.

— Quem acertou Polemon com a pedra?

— Phorbas.

— E os dedos de Iason?

Aletes respondeu antes do irmão.

— Fui eu.

Damon virou-se.

— Aletes, não precisa—

— Ele perguntou.

Theron se concentrou no homem mais novo.

— Usou o bastão?

— Usei.

— Iason estava fazendo o quê?

— Em cima de Phorbas.

— Tentando prendê-lo.

— Estava.

Não havia orgulho na resposta.

Também não havia arrependimento.

— Você sabia que eram enviados do rei.

— Sabia.

— Mesmo assim atacou.

Aletes olhou para o braço do próprio irmão antes de responder.

— Ataquei.

Damon entrou na conversa.

— Foi por isso que mandei o homem até vocês. Nós dois vamos.

Theron estudou-o.

— Há coisas que precisamos esclarecer antes.

Damon percebeu que a visita carregava mais do que uma escolta.

— O quê?

Theron não respondeu ainda.

Primeiro precisava fechar o relato.

— Quem estava aqui no dia da luta?

Damon indicou dois homens que permaneciam junto ao muro.

— Tímon e Echelas. Nenhum deles tocou nos soldados.

— Mais alguém?

— Não.

— Quando Phorbas chegou?

— Três noites antes.

— Pediu abrigo?

— Pediu.

— Explicou por que tinha fugido?

Damon olhou para Theron como se soubesse que dali em diante cada palavra teria peso.

— Disse que o responsável pela estrada acusou ele de roubar uma ferramenta. Queriam prendê-lo até alguém decidir o que fazer.

Theron só conhecia a versão enviada à casa.

— Ele roubou?

— Disse que não.

— Você acreditou?

— Conheço Phorbas desde menino.

— Isso não me diz se acreditou.

— Para mim dizia.

Theron sentiu a irritação aparecer.

— Dois homens meus sangraram por causa dessa confiança.

Damon respondeu:

— Seus homens.

Theron não corrigiu a escolha de palavras.

— Para onde Phorbas foi depois?

— Não sei.

— Pense bem antes de responder.

— Penso nisso há dois dias.

Theron aproximou-se.

— Vim com oito homens porque você disse que se entregaria. Se estiver escondendo o paradeiro dele, da próxima vez não serão oito.

— Não sei onde está.

Theron acreditou.

Damon não parecia estar tentando convencê-lo. Parecia cansado da própria resposta.

Theron apontou para Aletes.

— Amarrem os pulsos dele.

O homem mais novo estendeu as mãos por conta própria.

Damon fez o mesmo.

Theron indicou que não.

— Você não.

O soldado encarregado das cordas parou.

Damon também.

— Por quê?

Theron olhou para a mão direita dele.

Damon acompanhou o olhar.

Os dedos se fecharam.

— O que Licaão mandou?

Aletes avançou um passo.

Mestor trouxe a lança para a frente.

— Fique.

Aletes parou.

Damon não tirou os olhos de Theron.

— Diga.

Theron preferia uma batalha curta àquela conversa.

— Sua mão direita.

Aletes reagiu primeiro.

— Não.

Damon permaneceu calado.

Theron continuou:

— Pela mentira aos homens do rei e pelo que aconteceu depois dela.

— Não — repetiu Aletes.

— Você será levado inteiro para responder pelo ataque a Iason.

Aletes avançou de novo.

Damon ergueu o braço entre eles.

— Pare.

— Damon—

— Pare.

Aletes obedecia ao irmão mais facilmente do que aos soldados.

Dentro da casa houve movimento.

Talvez a mulher.

Talvez o filho.

Damon gritou para a porta:

— Fiquem aí!

Ninguém apareceu.

Theron sentiu o estômago se fechar.

Não era medo de luta. Com isso sabia trabalhar.

Damon acabara de ajudá-lo a impedir uma.

Theron conduziu os dois irmãos para o espaço entre o abrigo de animais e o muro baixo. Ali a casa ficava parcialmente escondida. Não evitaria que a família soubesse. Ao menos não precisariam assistir da porta.

A ordem de Licaão não determinava lugar.

Nem testemunhas.

Theron escolheu isso por conta própria.

Mandou Tímon e Echelas se afastarem.

Mestor não gostou.

— Eles estavam presentes na luta.

— Já temos os nomes.

— Podem fugir.

Theron indicou as encostas.

— Se fugirem, amanhã decidimos se vale a pena procurá-los. Hoje temos outra tarefa.

Os dois trabalhadores recuaram.

Theron mandou trazer uma tábua grossa e água.

Damon ouviu.

— Vai fazer aqui.

Theron não respondeu.

— Theron.

— Aqui.

Damon recebeu a notícia com um movimento curto da cabeça.

Aletes começou a puxar as cordas.

— Soltem minhas mãos.

Nenhum soldado obedeceu.

— Fui eu que bati em Iason.

— E vai responder por isso diante de Licaão.

— Então corte a minha mão.

— Não foi a ordem.

— Damon nem estava na luta.

Theron olhou para o irmão mais velho.

— Estava antes dela.

Aletes insistiu:

— Ele mentiu. Foi isso que fez. Mentiu.

— Sim.

— Uma mentira vale uma mão?

Theron poderia mandar que se calasse.

Não mandou.

Damon respondeu pelo comandante:

— Pelo visto, vale.

Aletes virou-se para ele.

— Não diga assim.

— Como quer que eu diga?

— Não fale como se já tivesse acontecido.

Damon olhou para a própria mão.

— Vai acontecer.

Os soldados ficaram mais silenciosos.

Mestor aproximou-se de Theron.

— Posso fazer.

Falou baixo, para que os irmãos não ouvissem.

— Já fiz antes.

Theron sabia.

Mestor tinha mão firme para punições. Sabia medir golpes, usar uma lâmina e terminar o trabalho sem precisar repetir.

— Não.

Mestor não perguntou por quê.

Foi procurar o que seria necessário.

Damon continuava observando Theron.

— Foi ordem direta?

— Foi.

— Do próprio rei?

Theron o encarou.

Damon quase riu.

— Esqueça. Pergunta idiota.

— Sim.

— E você veio cumprir.

— Vim levá-los.

— E fazer isso antes.

Theron não respondeu.

Mestor voltou com um machado curto usado para madeira, corda grossa e pequenos trabalhos de acampamento. Não era arma de guerra.

Theron tomou-o e examinou o fio.

— Não serve.

Mestor passou o polegar perto da lâmina.

— Serve.

— Para madeira.

— Posso afiar.

— Faça.

Aletes xingou entre os dentes.

Theron fingiu não ouvir.

Mestor sentou-se numa pedra e começou a trabalhar a lâmina. O ferro raspando contra a pedra tomou conta do espaço entre as construções.

Theron mandou apoiar a tábua sobre dois blocos baixos.

Damon não afastava os olhos da própria mão. Movia os dedos de vez em quando: fechava, abria, encostava o polegar no indicador.

Theron já vira homens antes de castigos.

Alguns gritavam muito antes de serem tocados. Outros ameaçavam. Alguns prometiam ouro que não tinham, terras que não possuíam, parentes importantes que ninguém conhecia. Muitos chamavam pelos deuses.

Damon contava os dedos.

Um soldado trouxe água.

Theron verificou o odre.

— Mais.

— Acabou.

— Busque na casa.

— Não — disse Damon.

Theron olhou para ele.

— Há um jarro perto do abrigo. Use aquele.

O soldado foi.

Theron entendeu.

Damon não queria ninguém entrando na casa. Não queria a mulher perguntando por que soldados precisavam de mais água.

Não queria que o filho viesse atrás.

Theron permitiu.

Mestor terminou de afiar e trouxe o machado.

Theron testou o fio.

Melhor.

Tudo ao redor estava controlado.

Nenhum homem carregava arma.

Damon estava ali por vontade própria.

Aletes tinha se entregado.

Os dois haviam fornecido os nomes.

Phorbas não estava na propriedade.

Theron poderia simplesmente amarrar Damon, colocá-lo num cavalo e levar a punição de volta à casa do rei.

Pensou nisso por tempo demais.

— Se soubesse onde Phorbas está, diria agora?

Damon respondeu depois de considerar.

— Agora eu diria.

— Mas não sabe.

— Não.

Theron acreditou.

Olhou para a tábua.

— Coloque a mão.

Aletes avançou e dois soldados o seguraram.

— Não!

Damon virou-se para ele.

— Pare.

— Não deixa fazer isso.

— Aletes.

— Nós mandamos avisar que iríamos até o rei! Não fugimos. Não lutamos agora. Então para quê?

Damon olhou para Theron.

A pergunta ficou entre os dois.

Theron respondeu:

— Porque se entregar depois não apaga o que aconteceu antes.

Ouviu a frase na própria voz e reconheceu Licaão dentro dela.

Damon percebeu alguma coisa também.

— Não foi o que perguntei.

Theron encarou-o.

Damon apontou para o machado.

— Perguntei por que é você que vai fazer.

Mestor ficou parado alguns passos atrás.

Theron segurou o cabo.

Não encontrou resposta imediata.

Damon continuou:

— Sei que o rei mandou. Quero saber por que essa mão é sua.

Theron apertou o couro em volta do cabo.

— Porque recebi a ordem.

Damon aceitou a frase com uma calma irritante.

— Certo.

Theron detestou o alívio que sentiu por não precisar explicar mais.

— Mão.

Damon ajoelhou-se.

Colocou a direita sobre a tábua.

Os dedos continuavam se mexendo.

Theron observou-os.

— Abra.

Damon abriu a mão.

— Mais para a frente.

Ele deslizou o braço.

Theron ajustou a posição, afastando o polegar do ponto onde pretendia golpear. Se tirasse quatro dedos e parte da palma, o homem ainda poderia usar alguma coisa daquela mão.

Mestor falou atrás dele:

— A ordem foi a mão.

Baixo.

Sem acusação.

Apenas lembrando.

Theron soltou o braço de Damon.

Levantou-se.

Poderia levá-los de volta.

Poderia dizer que preferira cumprir a mutilação diante do rei por segurança, confirmação ou qualquer outro motivo razoável. Não seria recusa aberta.

Seria adiamento.

E sabia exatamente por que procurava essa saída.

Nada na propriedade tornava a ordem impossível.

Ele simplesmente não queria fazê-la.

— Segurem o braço.

Dois soldados se aproximaram.

Damon não resistiu.

Theron posicionou o membro novamente.

Desta vez, pelo pulso.

Aletes começou a gritar. Palavras atropeladas, súplicas, ameaças, o nome do irmão.

Theron deixou de ouvi-las.

Olhou para Damon.

— Não se mova.

Damon respirou uma vez, profunda.

— Faça logo.

Theron ergueu o machado.

Por um instante o mundo pareceu reduzir-se à madeira da tábua, à pele do pulso e ao peso do ferro acima de sua cabeça.

Então golpeou.

O grito de Damon veio curto e bruto.

A lâmina atravessou carne e osso com um impacto que subiu pelo cabo até o ombro de Theron.

Sangue correu pela tábua.

— Pano!

Mestor já estava ao lado dele.

Theron pressionou o tecido contra o braço.

Damon tentou puxar.

— Fique parado.

— Tire a mão de mim.

— Você vai sangrar até morrer.

— Tire—

A força desapareceu da voz.

Theron manteve a pressão.

— Corda.

Um soldado entregou.

Theron amarrou acima do ferimento e apertou.

Damon se curvou, soltando um gemido rouco.

— Água.

Mestor derramou o bastante para enxergar.

Theron limpou somente o necessário.

— Outra faixa.

Aletes parara de gritar.

Theron ergueu os olhos.

O irmão mais novo encarava alguma coisa junto à tábua.

A mão.

Estava caída na terra, com os dedos ainda parcialmente curvados.

— Cubram.

Ninguém se mexeu.

Theron ergueu a voz.

— Agora.

Um soldado pegou um pano e cobriu o que restara no chão.

Theron tornou a cuidar de Damon.

— Olhe para mim.

O homem abriu os olhos.

— Continue acordado.

Damon levou alguns segundos.

— Estou ouvindo.

— Bom.

— Quer que agradeça?

Theron reforçou a faixa. O sangue já atravessara parte do primeiro tecido.

— Preciso de mais pano.

Mestor entregou.

Theron envolveu o braço novamente.

— Vamos sair agora.

Aletes finalmente encontrou a voz.

— Ele vai morrer no caminho.

— Não vai.

— Como sabe?

Theron virou-se para ele.

— Porque vamos cuidar para que chegue vivo.

Aletes riu.

O som tinha mais cansaço que humor.

— Agora vocês cuidam.

Theron não respondeu.


A mulher de Damon saiu quando trouxeram os cavalos.

O rapaz veio logo atrás.

Theron não conseguiu impedir.

Talvez nunca pudesse.

Ela viu primeiro o marido sentado no chão, pálido, com o braço envolto em faixas ensanguentadas.

Depois viu o pano sobre a terra.

Parou.

O filho continuou andando por três passos até compreender.

— Pai?

Damon ergueu a cabeça.

— Fique com sua mãe.

O rapaz olhou para Theron.

Theron conhecia aquele olhar.

O mesmo que homens lhe davam depois de batalhas quando sabiam que ele não tinha como devolver alguém.

— Vamos levá-lo à casa do rei.

A mulher conseguiu falar:

— Para quê?

Theron desejou que a pergunta tivesse uma resposta que não soasse absurda diante do braço mutilado.

— Para responder pelo que aconteceu.

Ela olhou novamente para o ferimento.

— Ainda?

Theron não respondeu.

Aletes respondeu por ele:

— Ainda.

Theron mandou colocar Damon num cavalo. Não amarrou seus pés. Aletes subiu em outro com os pulsos presos.

Antes de partir, Theron chamou Tímon.

O trabalhador aproximou-se.

Theron indicou o pano na terra.

— A mão.

Tímon olhou para o volume coberto.

— O que faço com ela?

Theron não havia pensado nisso.

Pertencia a Damon.

Aquilo, pelo menos, parecia claro.

— Entregue à família.

Tímon assentiu.

Theron montou.

Damon continuava consciente.

Precisava permanecer assim.

A descida foi lenta.

Theron parava com frequência para conferir a amarra, o sangramento e a cor do homem.

Na terceira parada, Damon viu o comandante abrir o odre.

— Vai acabar gastando toda a água comigo.

— Trouxemos bastante.

— O rei ficará decepcionado.

Theron levantou a cabeça.

Mesmo pálido, Damon ainda encontrava força para ironizar.

— Poupe energia.

— Para quê?

— Para chegar vivo.

— Você fala como se fosse prêmio.

Theron terminou de ajustar a faixa.

— Se a ordem fosse matá-lo, não teríamos tanto trabalho.

Damon observou-o.

— Isso deveria me consolar?

Theron guardou o odre e voltou ao cavalo.

Mestor cavalgou ao lado dele por algum tempo.

— O golpe saiu limpo.

Theron continuou olhando a estrada.

— Eu estava lá.

— Quero dizer que não precisou repetir. Ele vai viver.

Theron não respondeu.

Mestor tentou outra vez:

— Você fez certo.

Theron virou o rosto.

Mestor percebeu imediatamente.

— Estou falando do golpe. Tecnicamente.

— Eu sei.

Seguiram.

Mais tarde encontraram um curso d’água raso entre pedras. Theron mandou parar. Os soldados beberam, molharam os rostos e deixaram os cavalos descansar.

Damon recusou comida, mas aceitou água.

Aletes recusou tudo.

Theron desceu até o riacho.

Ajoelhou-se.

Havia sangue seco nos dedos e na manga.

Mergulhou as mãos na água fria.

Uma mancha avermelhada se abriu ao redor delas e seguiu a corrente.

Esfregou os dedos e o polegar, limpando as dobras da pele e a região das unhas. O sangue saiu quase todo.

Uma linha escura permaneceu perto do indicador.

Theron esfregou outra vez.

Mestor aproximou-se.

— Se demorarmos muito, perdemos a luz no último trecho.

— Dois minutos.

— Damon está aguentando bem.

Theron continuou lavando.

Mestor não falou durante algum tempo.

— Theron.

Ele parou.

As mãos estavam limpas.

— Já vou.

Levantou-se.


Chegaram à casa de Licaão antes do escurecer.

Damon foi retirado do cavalo e levado imediatamente para um aposento onde um homem acostumado a tratar ferimentos pudesse cuidar do braço.

Aletes ficou sob guarda.

Theron entregou o relatório.

Tímon e Echelas tinham estado presentes, mas não atacaram os enviados.

Phorbas continuava desaparecido.

Aletes admitira quebrar os dedos de Iason com um bastão.

Damon admitira esconder Phorbas e mentir aos homens do rei.

Nenhum deles resistira à prisão.

A propriedade fora revistada.

Nenhuma arma precisara ser usada.

Tudo podia ser resumido de maneira simples.

Um servo encarregado dos registros esperava com a tábua.

— A punição de Damon foi cumprida?

Theron olhou para ele.

O homem baixou um pouco o estilete.

— Preciso registrar a chegada.

Theron respondeu:

— Foi cumprida.

O servo marcou a cera.

Um risco.

Poucos movimentos da mão.

Levou menos tempo que cortar uma correia.

— Há mais alguma coisa que deva constar?

Theron pensou em Damon perguntando por que era sua mão a segurar o machado.

Na mulher olhando para o braço do marido e perguntando ainda?

Em Aletes rindo quando Theron prometera que não deixaria o irmão morrer.

— Não.

Saiu.

Mestor o esperava no corredor com o machado.

Limpo.

Theron apontou para a ferramenta.

— Onde estava?

— Na minha sela.

Pegou o machado e examinou o ferro.

Mestor o lavara bem.

Theron encontrou uma pequena marca escura perto da base.

— Ficou sangue.

Mestor se aproximou.

— Onde?

Theron mostrou.

Mestor passou a unha.

— Isso já estava aí. Ferrugem velha.

Theron esfregou o polegar.

Era ferrugem.

Devolveu a ferramenta.

— Guarde.

Mestor não a recebeu imediatamente.

— Vai falar com o rei?

— Depois.

— Sobre a ordem?

Theron olhou para ele.

— Sobre a missão.

Mestor entendeu o limite.

— Certo.

Tomou o machado e começou a se afastar.

Depois voltou meio passo.

— Theron.

— O quê?

Mestor pareceu considerar a frase.

— Nada.

Foi embora.

Theron seguiu para o pátio dos cavalos.

Conferiu os animais. Um deles tinha uma pequena lesão na pata; mandou limpar e verificar pela manhã. Contou as selas, os cavalos e os homens que tinham retornado.

Oito soldados.

Dez cavalos, contando os usados para trazer Damon e Aletes.

Nenhuma lança perdida.

Nenhum homem ferido.

Fez a contagem de novo.

Um soldado percebeu.

— Algum problema?

— Não.

Theron viu uma mancha escura numa das rédeas.

Sangue.

Pouco.

Provavelmente Damon tocara o couro quando o colocaram sobre o cavalo.

— Traga água.

O soldado trouxe.

Theron molhou um pano e esfregou a correia.

A mancha clareou.

Continuou.

— Senhor, já saiu.

Theron olhou.

O homem tinha razão.

Entregou o pano.

— Então termine de guardar tudo.

O soldado foi embora.

Theron permaneceu diante da sela.

A missão tinha sido cumprida.

Não houvera combate.

Nenhum homem de sua tropa morrera ou se ferira.

Damon chegara vivo.

Aletes chegara inteiro.

Tinham os nomes dos envolvidos.

Phorbas continuava desaparecido, mas agora sabiam mais do que antes.

A ordem do rei fora executada.

Theron abriu e fechou a mão direita.

Não havia sangue nela.

Mesmo assim, sentiu outra vez o cabo do machado.

SUA OPINIÃO

O que você achou deste capítulo?

REGRAS DOS COMENTÁRIOS

— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.

— Evite spoilers do capítulo ou da história.

— Comentários ofensivos serão removidos.

Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.
CONVERSA

Nota
NOVERA

Biblioteca offline

0 capítulos
Preparando offline…