CAPÍTULO 31 — O LADO DE CÁ
por Sonhado acordadoÀs 5h47, Helena caiu sobre cimento molhado.
O joelho bateu primeiro. Depois a mão queimada. A dor subiu limpa pelo braço, sem se dividir em versões, e o prontuário de Marina Lopes escapou contra seu peito, deslizou vinte centímetros e parou junto à faixa amarela da plataforma.
Parou.
Helena ficou olhando para a pasta. Esperou que a capa recuasse, que surgisse outra por baixo dela ou que o símbolo das duas linhas mudasse de posição quando piscasse. Nada aconteceu. A água da chuva correu pela lombada, contornou o desenho escuro e pingou nos trilhos.
Um único par de trilhos.
Ela ergueu a cabeça.
A Estação de Santa Augusta permanecia abandonada. O telhado de zinco cobria só metade da plataforma; além dele, a chuva caía reta sob a luz cinzenta da madrugada. O banco de madeira apodrecido continuava preso ao chão. Uma lâmpada de emergência, alimentada por algum circuito que ainda não deveria funcionar, lançou um clarão amarelo e ficou acesa. Não pulsou. Não mostrou corredor algum dentro da parede.
Helena puxou o ar. A costela esquerda interrompeu o movimento antes da metade. Tentou outra vez, menor. O ponto sob a clavícula queimava a cada batimento; o corte no antebraço, coberto por sangue ressecado e gaze improvisada, reabrira perto do cotovelo. Quando apoiou a palma no chão para se levantar, a queimadura colou por um instante no cimento áspero.
— Lívia?
O nome foi apenas até o fim da plataforma e voltou enfraquecido. Um eco comum.
Helena recolheu o prontuário com a mão menos ferida. MARINA LOPES continuava impresso na etiqueta. A data, a assinatura de Helena e as anotações que ela preferiria não reler estavam ali. Na capa, o símbolo das duas linhas não borrara sob a chuva.
Daniel não estava.
Lívia também não.
Helena contou cinco segundos no relógio redondo acima da antiga bilheteria. O ponteiro vermelho avançou de marca em marca, sem hesitar. Contou mais cinco. Depois dez.
No décimo terceiro segundo, uma faixa branca surgiu sob o telhado, três metros à sua direita.
Não se abriu numa parede. Não havia moldura nem porta. Era um recorte vertical no ar, tão claro que apagava as gotas antes de elas o atravessarem. De dentro dele veio primeiro uma fotografia, presa entre dedos enfaixados. Depois um braço, um ombro e a cabeça de Lívia, inclinada como se enfrentasse vento.
O pé da menina procurou apoio onde o chão já existia.
Encontrou.
Ela caiu de lado, sem largar a fotografia. A faixa branca se fechou antes que a barra do casaco terminasse de passar; por um instante o tecido pareceu preso no nada. Lívia puxou com força. O último fio atravessou e o branco sumiu.
Não deixou marca.
Helena atravessou a plataforma depressa demais. A segunda passada apertou as costelas; na terceira, precisou agarrar a coluna de ferro e esperar que o chão parasse de escurecer nas bordas.
— Não levanta.
Lívia já tentava fazer isso.
— Eu consigo.
— Fica onde está.
— O chão está molhado.
— E continua no mesmo lugar. Aproveita.
A resposta fez Lívia parar por um segundo. Ela olhou para a plataforma sob a própria mão, abriu os dedos e os fechou sobre a superfície granulada. Bateu duas vezes com o nó do indicador. O som veio de baixo. Só de baixo.
Helena se agachou com dificuldade. Tocou o pescoço da menina, contou a pulsação, aproximou dois dedos dos olhos dela. Lívia afastou o rosto.
— Não começa.
— Olha para a luz.
— Eu atravessei uma coisa que não tinha fim. Acho que minhas pupilas não são o problema.
Helena levantou a lanterna do celular mesmo assim. A tela marcava 5h47. A luz acendeu uma vez e permaneceu acesa.
— Acompanha meu dedo.
Lívia acompanhou, irritada. Helena examinou as têmporas, a base da orelha, o pulso em que uma mancha surgira na locomotiva. A pele estava limpa. Não havia queimadura nova, nem o joelho duplicava quando ela se movia. Os cortes reais permaneciam: a pele aberta sob duas bandagens, a escoriação na palma, um roxo antigo no quadril. Fuligem ocupava as linhas do rosto.
— Quantos dedos?
— Dois. Se mostrar mais três, continuo tendo quatorze anos.
Helena baixou a mão. Conferiu o contorno dos ombros contra a luz da plataforma. Uma única Lívia. Quando a menina mudou o peso de lado, a sombra demorou uma fração curta para aparecer sob ela, como se precisasse escolher uma direção. Depois fixou-se à esquerda e acompanhou todos os movimentos seguintes.
— Daniel? — Helena perguntou.
Lívia apertou a fotografia entre as mãos. A borda vincou o curativo.
— Ele soube que eu cheguei.
Não respondeu à pergunta que Helena não terminara.
A chuva batia no telhado e escorria para baixo. Nenhuma gota subiu.
Helena sentou no banco mais próximo. A madeira sustentou seu peso sem mudar de tamanho. Desbloqueou o telefone; havia sinal, data, chamadas perdidas. A primeira tentativa de ligar para Daniel nem chegou ao terceiro toque. Uma gravação informou que o aparelho estava indisponível.
Ela ligou outra vez.
O mesmo resultado.
— Me dá — disse Lívia.
— Para quem?
A menina já estendia a mão. Helena observou o sangue seco nos dedos enfaixados, depois entregou o aparelho.
Lívia digitou um número sem consultar nada. Errou o último algarismo, apagou e começou de novo. O telefone chamou quatro vezes.
— Alô? — disse uma mulher.
Lívia não falou.
A voz tornou a vir, amassada pelo pequeno alto-falante:
— Alô? Quem é?
Lívia virou-se para o trilho. A fotografia estava presa sob o polegar: Daniel de um lado, uma mulher do outro, a menina entre ambos.
— Mãe.
Houve um ruído de lençóis, depois o clique de um interruptor.
— Desculpa, quem está falando?
— Sou eu.
— Eu acho que você ligou para o número errado.
Lívia passou a língua pelo corte no lábio.
— Você ainda deixa um copo na pia porque diz que água guardada pega gosto de geladeira. Tem uma rachadura no azulejo atrás do fogão. E quando chove você põe a bacia azul no corredor, não a branca, porque a branca escorrega.
Do outro lado, o silêncio não era vazio. A mulher respirou perto do telefone.
— Onde você está?
— Santa Augusta.
— Você está sozinha?
Lívia olhou para Helena, que pressionava o antebraço ferido com a borda do prontuário.
— Não.
— Qual é o seu nome?
A menina demorou tanto que a lâmpada da plataforma produziu um estalo elétrico. Não apagou.
— Lívia Montenegro.
— Eu não conheço nenhuma Lívia.
A frase veio baixa, cuidadosa. Não havia dureza nela. Isso pareceu pior.
— Conhece o Daniel?
Outro silêncio.
— Conheço. Nós… faz muito tempo. Escuta, Lívia, se você está machucada, me diga quem está com você. Eu posso chamar alguém. Não precisa inventar que—
— Eu tenho uma foto.
— Que foto?
— Nós três.
A mulher respirou fundo. Quando falou de novo, cada palavra veio separada.
— Passe o telefone para o adulto que está com você.
Lívia encerrou a chamada.
Helena não pediu o aparelho de volta. Esperou até a tela escurecer na mão dela.
— Ela está viva — Lívia disse.
Afastou o polegar da fotografia. A mãe sorria para a câmera com um dente ligeiramente torto. A imagem não perdera cor. Não perdera ninguém.
— Está.
— Não fala assim.
— Assim como?
Lívia enfiou a foto no bolso interno do casaco.
— Como se isso fosse o suficiente.
Helena recolheu o telefone. Não respondeu. Abriu a tela de chamada de emergência e ficou um instante com o dedo sobre o botão.
— Nós precisamos de um hospital.
— Você precisa.
— Seus dedos precisam ser limpos e refeitos. E, até sabermos quem responde legalmente por você—
— Eu respondo por mim.
Uma fisgada dobrou Helena antes que completasse a frase. O prontuário quase caiu. Lívia o segurou pela parte de baixo, mas não se aproximou mais do que o necessário.
Helena ligou.
Quando a ambulância chegou, às 6h09, o céu já clareava atrás dos depósitos. Os faróis varreram a plataforma por uma abertura na cerca e permaneceram dois fachos iguais no cascalho. Dois socorristas entraram carregando uma maca. Fizeram perguntas que obedeciam à ordem em que eram feitas: nomes, idades, origem dos ferimentos, presença de responsáveis.
Helena respondeu o que podia.
— Helena Duarte. Trinta e nove. Trauma torácico fechado, lesão perfurante sob a clavícula, queimadura de segundo grau na palma e laceração no antebraço.
O socorrista mais velho tentou fazê-la deitar.
— A senhora caiu de onde?
— Preciso que examine a menina primeiro.
— Doutora, a sua saturação—
— Examine os dedos dela. Depois eu deito.
Lívia soltou um ruído impaciente, mas abriu as mãos.
— Nome completo? — perguntou a segunda socorrista.
— Lívia Montenegro.
— Data de nascimento?
Ela respondeu. A mulher digitou no tablet, tornou a perguntar, conferiu a grafia. A tela devolveu um campo vermelho.
— Tem CPF?
— Não trouxe.
— Sabe o número?
— Não.
— Nome da mãe?
Lívia disse. O dedo da socorrista percorreu a tela. Tentou outra combinação. O campo continuou vermelho.
— Não estou encontrando o cadastro. Pode ser instabilidade.
— Não é — disse Lívia.
Helena entrou na ambulância por fim, mantendo o prontuário contra o abdômen. Quando o veículo arrancou, ela observou a estação pela janela traseira. A plataforma diminuiu numa velocidade única. Não havia luz branca. Não havia locomotiva.
O hospital tinha portas que abriam para um só lugar.
Helena percebeu isso na primeira entrada e odiou perceber. O corredor de emergência cheirava a desinfetante diluído e café velho. Rodas de maca produziam ruído apenas enquanto giravam; pessoas atravessavam as portas e não surgiam novamente mais jovens, mortas ou duplicadas. Um relógio digital mudou de 6h31 para 6h32 sem apagar nenhum minuto entre os dois.
Na triagem, uma enfermeira cortou a manga de Helena. Ao descobrir o ferimento sob a clavícula, chamou outro profissional e empurrou a cadeira de rodas na direção da sala de trauma.
— A menina vem comigo — Helena disse.
— A assistente social já foi chamada. Ela pode esperar ali.
— Ela vem comigo.
— Doutora, a senhora precisa—
Helena prendeu o prontuário entre os joelhos e estendeu a mão não queimada para Lívia.
Não foi um convite carinhoso. Foi uma decisão diante de testemunhas.
Lívia olhou para a mão, depois para a enfermeira. Não a segurou. Empurrou a própria cadeira até ficar ao lado de Helena.
— Eu vou andando.
— Então acompanha — disse Helena.
Na sala, enquanto retiravam a gaze do antebraço, uma funcionária aproximou-se com um computador móvel. Tinha um crachá de serviço social e perguntas demais para aquela hora.
— Lívia, preciso confirmar alguns dados. O sistema não localizou sua certidão pelo nome e pela data. Você já foi atendida aqui antes?
— Não nesta versão.
A mulher suspendeu os dedos sobre o teclado.
Helena fechou os olhos quando o antisséptico alcançou a carne aberta.
— Ela está desorientada após uma situação de risco — disse. — Registre como paciente sem documento por enquanto.
Lívia virou-se para ela.
— Eu não estou desorientada.
— Eu sei.
— Acabou de dizer—
— Eu disse o que mantém você nesta sala e não numa delegacia até conseguirmos contato.
A funcionária desviou os olhos para o prontuário sobre o colo de Helena.
— Esse documento é do hospital?
Helena cobriu o símbolo das duas linhas com a palma queimada e imediatamente a retirou. A pele ardeu.
— Era.
Abriu a capa. A ficha de Marina Lopes permaneceu presa pelos grampos enferrujados. Sua assinatura estava no rodapé, quinze anos mais nova e ainda reconhecível. Havia uma ordem de transferência, uma correção escrita à mão e uma autorização cujo número não seguia a sequência usada pelo hospital naquela manhã.
— Preciso falar com a direção — Helena disse. A voz falhou no meio; ela bebeu ar em duas porções curtas. — E com o jurídico. Mas este prontuário fica comigo até ser protocolado na presença de duas testemunhas.
— A senhora trabalha aqui?
Helena olhou para o próprio nome no crachá antigo preso ao documento. Depois para o jaleco que não vestia.
— Trabalhei. Eu fiz essas anotações.
Não acrescentou que recebera ordens. Não disse que não havia alternativa.
— Eu escolhi a transferência — completou.
A enfermeira parou de enrolar a faixa por um instante. Helena deixou que o silêncio permanecesse.
O telefone dela vibrou sobre a bandeja metálica.
Uma mensagem de número desconhecido apareceu na tela:
ESTÃO PROCURANDO DANIEL MONTENEGRO. VOCÊ FOI A ÚLTIMA LIGAÇÃO REGISTRADA PARA ELE. FAVOR RETORNAR.
Helena pegou o aparelho antes que a assistente social lesse. Ligou para o número. Um atendente da polícia confirmou o nome de Daniel, o endereço, a empresa em que trabalhava. Disse que a mãe e o irmão haviam comunicado o desaparecimento depois de não conseguirem contato com ele. O carro de Daniel fora encontrado próximo à Estação de Santa Augusta. O telefone dele deixara de responder pouco antes da meia-noite.
— Irmão? — Helena perguntou.
Lívia ergueu a cabeça.
— Gabriel Montenegro — disse o atendente. — Consta como contato familiar. A senhora conhece o desaparecido?
Helena olhou para o relógio na parede. O ponteiro dos segundos avançava, indiferente.
— Conheço.
— Sabe onde ele esteve esta noite?
— Na Estação de Santa Augusta.
Houve barulho de teclado.
— A equipe esteve lá há meia hora. Encontrou o carro próximo à entrada e marcas recentes junto ao cadeado rompido, mas nenhuma pessoa. As câmeras da rodovia mostram o veículo chegando à estação, mas não registram o senhor Montenegro saindo da área. A senhora estava com ele?
Helena apertou o prontuário contra as pernas.
— Estava.
— Onde ele está agora?
Ela demorou.
— Não sei como dar essa resposta por telefone.
O atendente pediu que permanecesse no hospital. A ligação terminou com instruções sobre as quais Helena não comentou.
Lívia puxou a cadeira para mais perto.
— Ele está vivo.
— Gabriel consta como contato familiar.
— Não foi isso que eu perguntei.
Helena voltou à tela. O número de Daniel continuava na lista. Abaixo dele, uma mensagem não lida enviada às 5h12 por GABRIEL:
Você foi mesmo pra estação? Me liga quando sair de lá. A mãe acordou preocupada.
O texto não tremulou. O nome não apagou.
Helena mostrou a tela a Lívia.
A menina leu duas vezes. Na segunda, tocou apenas o horário. Depois abriu o contato e pressionou o ícone de chamada.
— Não — Helena disse, tarde demais.
Chamou uma vez.
Duas.
— Daniel? — respondeu um homem.
Lívia segurou o telefone com ambas as mãos.
— Não.
O ruído do outro lado mudou. Uma porta fechou; passos aceleraram.
— Quem é? Esse telefone é da doutora Helena? Onde está meu irmão?
Helena pediu o aparelho. Lívia não entregou.
— Ele não pode atender — disse a menina.
— Por quê?
— Porque… — A fotografia apareceu entre os dedos dela, retirada do bolso sem que Helena visse o movimento. — Você está vivo.
O homem ficou em silêncio.
— Eu sei disso — respondeu, devagar. — Quem é você?
Helena tomou o telefone antes que Lívia tentasse explicar quinze anos numa frase.
— Senhor Gabriel, meu nome é Helena Duarte. Estamos no Hospital Municipal. Daniel está desaparecido. A polícia já foi avisada.
— Desaparecido desde quando?
— Desde a noite passada.
— Eu estou a dez minutos daí.
— Espere. Há coisas que—
A ligação terminou.
Lívia manteve a fotografia sobre o joelho. O Daniel da imagem tinha uma linha fina ao lado dos olhos que não existia no rosto dele dentro do trem. A mãe encostava a cabeça no ombro dele. Entre os dois, Lívia mostrava os dentes num sorriso contrariado pelo sol.
— Ele fala parecido — ela disse.
— Você o conhece pelas lembranças do Daniel?
— Conheço o rapaz de dezenove anos. Não esse.
Helena tentou se levantar quando terminaram o curativo. A pressão sob a clavícula a obrigou a sentar de novo. Um médico insistiu em radiografia, sutura e observação. Ela negociou ficar perto da entrada por cinco minutos e recebeu uma negativa. Levou oito para convencer a equipe.
No corredor, a assistente social aguardava com um formulário impresso. O campo NOME estava preenchido: LÍVIA MONTENEGRO. Abaixo, RESPONSÁVEL permanecia em branco.
— Até localizarmos um familiar, ela não pode sair desacompanhada — disse a mulher. — Se a pessoa indicada como mãe nega o vínculo, teremos de acionar o conselho.
Lívia arrancou os olhos do papel.
— Ela não negou. Ela não lembra.
— Lívia— começou Helena.
— Não fala por mim.
— Então responde você. Para onde vai quando sair daqui?
A menina abriu a boca. Fechou. A mão procurou o bolso interno para conferir se a fotografia continuava ali.
Helena pegou a caneta presa ao formulário.
— Por esta manhã, ela fica sob minha responsabilidade.
A assistente social franziu a testa.
— A senhora não é parente.
— Não.
— E está sendo internada.
— Em observação.
— Doutora, isso não resolve a guarda.
— Eu sei o que não resolve.
Helena escreveu o próprio nome no espaço ao lado, não no campo de parentesco. A queimadura impediu uma assinatura completa; a última letra saiu aberta.
— Registre que não vou autorizar que ela saia daqui com um desconhecido e que prestarei esclarecimentos assim que minha respiração permitir uma frase inteira.
Lívia ficou olhando para a assinatura torta.
— Eu não pedi.
Helena devolveu a caneta.
— Não.
Não acrescentou que isso não mudava a decisão.
As portas automáticas da emergência se abriram às 7h18.
Um homem entrou com a chuva nos ombros e um capacete de obra na mão. Tinha trinta e poucos anos, barba curta mal aparada e cabelos escuros recuando levemente nas têmporas. A manga da camisa trazia pó de cimento; dois dedos da mão direita tinham calos grossos perto das unhas, e ele os flexionava como quem passara anos segurando ferramentas mais pesadas do que uma chave de fenda.
Não era o rapaz da estação.
Ainda assim, antes de ver o rosto inteiro, Lívia reconheceu o modo como ele evitou uma cadeira no caminho: girou o corpo pelo lado esquerdo e levantou o calcanhar direito, o mesmo gesto que Daniel carregava numa lembrança de dois irmãos correndo pela cozinha.
O homem falou com a recepcionista. Mostrou o telefone. A funcionária apontou para Helena.
Ele veio até elas sem grandiosidade, cansado e molhado, apertando o capacete contra a coxa.
No pulso havia uma tira de couro gasta sem relógio. Uma marca mais clara circundava a pele, como se durante anos ele tivesse usado um e, naquela manhã, saísse de casa sem encontrá-lo.
Helena levantou o prontuário de Marina do assento ao lado. Lívia fechou a mão sobre a fotografia.
— Doutora Helena?
— Sim.
— Gabriel Montenegro.
Ele olhou primeiro para os curativos de Helena, depois para as mãos enfaixadas de Lívia. O cuidado durou pouco. Seus olhos voltaram às portas, ao corredor, às pessoas que passavam.
— Disseram que vocês estavam com ele na estação.
Helena tentou se pôr de pé. Gabriel fez menção de ajudá-la, mas interrompeu o gesto quando ela firmou a mão no braço da cadeira.
Lívia retirou a fotografia do bolso. Não a mostrou ainda. Observou as linhas ao redor da boca de Gabriel, o corte antigo na sobrancelha, a unha escurecida do polegar. Quinze anos haviam ocupado o lugar onde deveria existir apenas um rapaz parado diante de uma luz.
Gabriel procurou atrás das duas, como se Daniel pudesse estar voltando do banheiro ou preenchendo algum formulário.
— Onde está meu irmão?
Itens de O Último Trem da Meia-Noite
Fones de Ouvido Bluetooth TWS M25 com Redução de Ruído Avançada
KRE Eletrônicos & AcessóriosR$ 59,90Ver na Shopee ↗PRETO - Kit Fone de Ouvido Bluetooth Tune 510 + Conjunto Teclado e Mouse Sem Fio
Premium.StoreR$ 284,00Ver na Shopee ↗Os preços podem variar conforme cupons, Pix, promoções e variações do produto.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
— Evite spoilers do capítulo ou da história.
— Comentários ofensivos serão removidos.
Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.