CAPÍTULO 29 — O PREÇO DE LEMBRAR
por Sonhado acordadoÀs 5h40, filamentos se inclinaram para Daniel.
Não avançaram. Apenas o acompanharam quando ele mudou o peso de uma perna para a outra, pontas finas suspensas à altura dos tornozelos, do braço esquerdo, das costas. Os encaixes vazios no chão pareciam menos buracos que medidas tomadas antes de ele chegar.
Lívia fechou o manual.
A terceira linha desapareceu. O vidro mostrou duas cabines incompatíveis: numa, a caldeira estava apagada; na outra, o metal respirava em ondas vermelhas. A alavanca existia nas duas, apontando para lados opostos.
— Abre — disse Daniel.
Ela enfiou o caderno sob o casaco. O gesto apertou suas costelas, e uma faixa escura surgiu por baixo da camiseta, como a lembrança de um cinto que nunca a havia atingido. Lívia dobrou o corpo por um instante. Quando tornou a endireitar-se, o ferimento já migrava para o lado errado.
— Não.
Helena apoiou a mala com a sola do sapato antes que o piso escorregasse meio palmo para a esquerda. A queimadura na palma deixara de sangrar, mas a gaze ao redor do antebraço estava úmida. Cada inspiração terminava num ruído pequeno, cortado.
Daniel olhou para o relógio de Gabriel. O ponteiro permanecia diante do cinco, um segundo além do lugar em que estivera por quinze anos.
— Eu não vou tocar em nada sem saber o resto.
— Então não toca.
— O relógio não vai parar por você pedir.
— Já parou antes.
Daniel ergueu o pulso. Não respondeu. A coroa do relógio tinha uma lasca que ele nunca notara; nela, um fio de cobre refletia a luz da caldeira, embora nenhum filamento o tocasse.
Helena estendeu a mão para Lívia.
— O manual.
A menina recuou para uma parte do chão que ainda conservava rebites. Atrás dela, a janela mostrou por meio segundo uma parede pintada de amarelo, com riscos de lápis marcando alturas. O último risco tinha a data de um aniversário que ainda não acontecera. A parede fechou-se antes que Daniel lesse o número.
— Vocês já entenderam.
— Entendemos o desenho — Helena disse. — Não o procedimento.
— Dá na mesma.
Uma nova marca apareceu no pescoço de Lívia: dois pontos vermelhos ligados por uma linha fina, como se um fio cirúrgico de outra vida atravessasse sua pele. Ela passou o dorso da mão no lugar, encontrou sangue e ficou olhando para ele.
Daniel tirou a chave de fenda e a lanterna do bolso, alinhando-as sobre a mala. Por último, pousou o relógio de Gabriel no couro. O ponteiro deu um golpe seco contra o vidro, sem avançar.
— Abre.
Ela apertou o caderno contra o corpo. O lábio inferior perdeu a cor antes do resto do rosto.
— Eu prefiro não ir.
A frase saiu depressa, quase inteira dentro do ruído da locomotiva.
Helena deixou a alça da mala e o piso tornou a se deslocar. Segurou-se no painel com o antebraço bom. Um mostrador se formou debaixo de sua mão, os números girando para trás, e desapareceu quando ela o encarou.
— Isso não é uma escolha disponível — disse.
— Você não sabe.
— Seu ombro apareceu queimado há três minutos. Agora há uma sutura no seu pescoço que ninguém fez. Se a linha some, você começa a receber o que aconteceu com todas as outras.
— Eu aguento.
— Não.
Lívia abriu a boca, mas Helena já desviava o rosto para tossir contra a manga. Quando voltou, havia fuligem nos dentes.
Daniel pegou o manual pela borda inferior. Lívia resistiu sem puxar; apenas manteve o peso do corpo sobre ele. Por um momento, ficaram presos ao mesmo objeto, sem se olhar.
— Eu preciso ler — disse ele.
— Para fazer o quê?
— Não sei ainda.
— Sabe, sim.
— Eu sei onde fica o assento. Não sei o que ele leva.
O manual estalou entre os dois. Lívia soltou primeiro.
As páginas abriram sozinhas quando Daniel o apoiou sobre a mala. O frio do prontuário atravessou o couro e fixou as folhas por alguns segundos. Helena se aproximou de lado, poupando as costelas. Lívia permaneceu a dois passos, os braços caídos, como se esconder o caderno tivesse consumido toda a força que ainda possuía.
No papel, o círculo vazio ocupava o centro. Daniel girou a mala até a frase deixar de ser risco.
PERMANECER NÃO QUITA A MEMÓRIA.
O relógio de Gabriel bateu uma vez sobre o couro. Nas janelas, reflexos de Daniel surgiram com idades diferentes. Nenhum estava sem rosto.
Helena inclinou a página.
— Continua aqui.
Daniel mudou o ângulo.
O QUE FOR ENCERRADO DEVERÁ SER CONSERVADO NA ÂNCORA.
Uma raiz tocou a mala e desenhou no couro o contorno da cozinha antiga. Depois vieram uma casa desconhecida, uma bicicleta no corredor e um curativo torto no queixo de uma criança.
Lívia deu um passo. Parou antes de chegar.
— Não.
Daniel leu a frase outra vez. Passou o polegar pela coroa do relógio.
— Ele esqueceu para continuar procurando.
Ninguém respondeu. O nome do antigo Condutor não existia para ser dito.
— Eu não esqueço — Daniel continuou.
A página escureceu nas bordas. Uma terceira linha apareceu no vidro, fina demais para sustentar o peso de um trem.
— Você não pode esquecer — Helena corrigiu.
Daniel ergueu os olhos.
Ela apontou para o círculo sem encostar.
— Não é proteção. É função. Se as lembranças se perderem, a linha perde a referência.
Lívia arrancou o manual de cima da mala e o fechou.
A linha sumiu. Ao mesmo tempo, o joelho direito dela dobrou para dentro com um estalo abafado. Helena alcançou sua cintura antes que caísse, mas a menina se livrou do apoio com uma cotovelada fraca.
— Então acabou. A gente não faz.
— Lívia — Daniel disse.
— Não fala meu nome desse jeito.
— Que jeito?
— Como se já estivesse guardando.
A porta da cabine surgiu atrás dela e abriu para um quarto de adolescente. Havia fotografias presas por pregadores acima de uma escrivaninha, quase todas viradas contra a parede. Uma voz de mulher chamou de algum cômodo:
— Lívia, a comida vai esfriar.
A menina se virou tão rápido que o joelho ferido quase cedeu outra vez.
A porta fechou.
Restou o cheiro breve de arroz queimado e creme de cabelo.
Ela pressionou os dentes no interior da bochecha. Daniel viu a pele afundar.
— Ela não vai saber quem eu sou — disse Lívia. — Minha mãe.
O manual abriu uma fresta sob seus braços. Dentro dela, uma linha de texto apareceu e se apagou antes que Daniel alcançasse:
SEM ORIGEM. SEM REGISTRO. SEM RECONHECIMENTO.
Helena leu também. Seu apoio na mala mudou; em vez da palma ferida, usou o punho fechado contra o couro.
— Você chega com o que atravessar — disse ela. — Não com o que ficou.
— Eu sei ler.
— Então pare de esconder a página.
Lívia riu, mas o som saiu curto e rachado.
— Claro. Você quer que ele sente ali e pronto.
Helena demorou. Uma placa do teto desceu alguns centímetros sem cair. Por trás dela havia céu noturno; na versão seguinte, tijolos; depois nada.
— Não — disse Helena. — Eu fico.
Daniel virou-se.
Ela já examinava os encaixes. Mediu com os olhos a distância entre as marcas dos pés, a altura dos filamentos destinados ao braço, a abertura deixada nas costas do assento inexistente.
— O vínculo começou com você — Daniel disse.
— A função pode aceitar compatibilidade, não parentesco. Eu transferi ferimentos entre possibilidades. Consigo manter contato com duas linhas. Meu bilhete ainda responde, e o prontuário…
— Não.
— Não terminei.
Helena retirou o casaco amarrado à cintura, revelando o bilhete dobrado até as palavras quase sumirem.
— Se a conexão exigir um corpo estável, seu ombro já está comprometido. Eu sei onde as raízes podem passar sem atingir…
Lívia empurrou o manual contra o peito dela.
— Para.
Helena recebeu o golpe sobre a clavícula ferida. O ar lhe faltou; mesmo assim, segurou o caderno.
— Você quer escolher de novo — disse Lívia.
A médica não respondeu.
— Só que agora escolhe você e acha que isso conserta.
— Eu sou a opção com maior…
— Você nem olhou o prontuário.
O couro da mala estava aberto um dedo. Lá dentro, a pasta de Marina Lopes permanecia coberta por uma película branca de frio. Helena fixou os olhos na etiqueta. O joelho que ia avançar para os encaixes ficou parado.
Daniel puxou a mala para perto dela. O movimento fez os objetos sobre o couro deslizarem. A lanterna bateu na chave de fenda. O relógio de Gabriel quase caiu; Lívia o aparou contra o quadril, por instinto, e o deixou imediatamente sobre a tampa.
— Se você ficar — Daniel disse —, quem leva isso?
Helena abriu a mala. O prontuário esfriou a fuligem em volta. Uma gota de condensação desceu pela pasta e atravessou a marca seca de sangue de César na costura.
— Pode atravessar com ela.
— Não é dela.
— Com você, então.
Daniel esperou.
Helena retirou o prontuário. A queimadura da palma fumegou contra a capa gelada.
— Você volta — Daniel disse. — Com isso.
— Não decide por mim.
— Não. Você decide quando chegar.
Ela sustentou o olhar dele por dois ciclos incompletos da caldeira.
Daniel tocou a etiqueta de Marina com a ponta da chave de fenda.
— Aqui você não precisa contar para ninguém. Lá, precisa.
Helena baixou o prontuário. O bilhete dobrado junto à cintura abriu uma das dobras sozinho. Uma palavra reapareceu, pálida demais para ser lida.
— E você? — perguntou ela.
— Eu conto para o trem.
— Não foi o que perguntei.
Daniel recolocou o relógio no pulso. Apertou a fivela um furo além do habitual porque a correia havia afrouxado.
— Eu fico acordado.
— A realidade de onde ela veio acaba. Gabriel vive. A mãe dela não a reconhece. Você não atravessa. Não há retorno depois da conexão. E, se sua memória falhar…
Lívia virou-se para a janela.
— Ela some — Daniel completou.
— Você conserva tudo. Não apenas Gabriel.
— Tudo.
— A casa. A mãe dela. O que você não viveu e mesmo assim pertence à linha. Cada pessoa que deixa de…
Helena interrompeu a frase para inspirar. O som nas costelas pareceu papel sendo amassado.
Daniel não a ajudou a terminar.
— Tudo — repetiu.
A médica fechou a mala, mantendo o prontuário do lado de fora.
Não disse que concordava.
Colocou-se ao lado do lugar vazio e afastou com o pé um cabo solto que poderia prender o tornozelo de Daniel. Depois verificou a distância entre a marca clara e a alavanca que aparecia apenas em ciclos alternados.
Lívia ficou diante dele.
— Sai.
Daniel não avançou.
— Você ainda está escolhendo ele.
— Estou.
A resposta a fez piscar como se tivesse recebido uma bofetada.
— Então pronto.
— E estou escolhendo você.
— Não dá para escolher os dois.
— Dá para pagar pelos dois.
— Isso é a mesma coisa que ele fez.
Daniel olhou para a fechadura. A chave quebrada permanecia inclinada no metal, gasta por décadas de uma mão que já não existia.
— Ele entregou o que veio depois para continuar procurando o que perdeu.
Lívia tentou interromper, mas a cabine mostrou outra vez a parede amarela. Desta vez havia uma fotografia sobre um móvel: uma mulher, um homem e uma criança pequena entre os dois. O rosto da menina era o de Lívia antes da cicatriz no queixo. A mulher tinha a boca dela. O homem, uma mão pousada sem jeito sobre o ombro da filha.
Daniel não conhecia nenhum dos adultos.
— Você veio depois — disse ele.
— Eu não quero que você suma por minha causa.
— Eu não vou sumir.
— Vai ficar aqui. É pior.
Ele aceitou o golpe sem responder depressa. Uma raiz percorreu o chão entre os sapatos dos dois e parou, aguardando.
— Vai ser ruim — disse Daniel. — Para você também.
Lívia puxou o nariz. A voz de sua mãe chamou outra vez atrás da parede que não existia. Dessa vez, disse apenas filha.
— Eu posso ficar — ela falou. — Deixa essa realidade fechar comigo. Gabriel vive. Você vai com ele. Ninguém precisa…
— Não transforma você em tarifa.
— O trem já fez isso.
— Eu não.
Ela bateu com o manual no peito dele. Uma vez. Na segunda, o braço perdeu força e o caderno escorregou. Daniel o segurou antes de atingir a chapa.
Lívia não se afastou. Encostou a testa no ombro ferido dele, exatamente onde doía. Talvez não soubesse. Talvez soubesse.
— Eu nem lembro do abraço — murmurou.
Daniel manteve os braços ao lado do corpo.
— Eu lembro.
O relógio da cabine passou para 5h42.
O manual abriu entre eles. Duas cavidades surgiram desenhadas na folha, pequenas como janelas de bilheteria. Acima da primeira, uma palavra: SOBREVIVENTE. Acima da segunda: RETORNO.
Ao redor da primeira cavidade, a fotografia da família de Lívia se formou em papel verdadeiro, com bordas brancas e um vinco atravessando o joelho do homem.
Lívia a recolheu. O polegar cobriu o rosto da mãe.
Na segunda cavidade, um círculo de luz mostrou a lanterna de Gabriel, uma telha da casa antiga, o relógio de Vera e a tigela que Daniel impedira o irmão de derrubar.
Daniel olhou para o relógio de Gabriel.
O ponteiro diante do cinco não se moveu.
Ele abriu a mala e tirou o prontuário de Marina das mãos de Helena. O frio mordeu seus dedos. A pasta resistiu no ar, puxada para a realidade em que havia sido escrita.
Daniel colocou-a sobre a segunda cavidade.
— Não — Helena disse. — Escolha alguma coisa sua.
— Eu fico com tudo.
— Memória não é prova.
— Por isso você leva.
A pasta afundou na página sem desaparecer. O manual moldou-se às bordas e deixou na capa o símbolo de duas linhas.
Helena segurou a pasta quando Daniel a ofereceu. Não agradeceu. Conferiu se as folhas ainda estavam dentro, se o nome de Marina permanecia legível, se as datas não haviam mudado.
— Isso não sustenta a rota — disse.
— Eu sei.
— Não substitui você.
— Eu sei.
— Quando começar, não tire os pés das marcas. A primeira ligação deve procurar o braço ferido porque há menos resistência. Se atingir as costas antes de o encaixe estabilizar, você pode perder o controle da alavanca.
Daniel assentiu.
Helena fechou a pasta contra o peito. A oferta dela terminara ali, não numa autorização, mas numa lista de coisas que podiam dar errado.
Lívia guardou a fotografia no bolso interno do casaco. O tecido ao redor se firmou; por alguns segundos, deixou de carregar costuras de outras versões.
— E se eu chegar e eles me mandarem embora? — perguntou, sem olhar para nenhum dos dois.
Daniel examinou a marca dos pés.
— Você procura Helena.
A médica moveu o prontuário alguns centímetros, como se testasse o peso futuro da promessa.
— E se ela não lembrar?
— Ela leva uma coisa que lembra por ela.
— E você?
Daniel colocou o pé direito na primeira marca.
A chapa afundou até ajustar o contorno da sola. Os filamentos próximos despertaram e se organizaram em torno do tornozelo sem tocá-lo.
— Eu continuo sabendo quem você é.
— Não promete isso.
— Não prometi.
Ele colocou o outro pé.
A cabine escolheu uma única posição ao redor dele. O painel voltou à parede. A caldeira retomou um ciclo incompleto. A alavanca principal surgiu à sua frente, negra de óleo, e a chave quebrada girou um milímetro na fechadura.
Daniel segurou a chave.
Metal frio de um lado. Calor da máquina do outro.
O relógio de Gabriel respondeu com cinco batidas rápidas contra o pulso. A cada uma, uma janela se abriu.
Lívia recém-nascida, enrolada numa manta verde, fechando a mão em torno de um dedo que não aparecia.
A menina aos seis anos sentada sob uma mesa, enquanto os pais discutiam na cozinha sobre uma conta vencida.
Uma fotografia de aniversário com um pedaço de bolo faltando antes dos parabéns.
A mãe penteando os cabelos dela depressa demais, pedindo desculpa depois.
Daniel mais velho numa porta de escola, segurando uma lancheira cor-de-rosa e fingindo não ter corrido para chegar a tempo.
Ele não se lembrava dessas cenas. Ainda assim, quando a menina da última janela entregou a lancheira, seu braço soube o peso.
— Essa é a linha que fecha — Lívia disse.
A voz vinha de perto, mas Daniel a ouviu dentro de cada janela.
— Eu sei.
— Você não viveu isso.
— Vou lembrar.
Helena posicionou-se atrás dele. Não tocou nos filamentos; afastou a camisa rasgada do ombro para que a primeira conexão encontrasse pele sem tecido no caminho.
— Diga a rota — orientou.
Daniel olhou para a outra janela.
Gabriel atravessava a plataforma numa manhã clara, mais velho, vivo. O cabelo grisalho nas têmporas. A mão esquerda fechada em torno de alguma peça pequena, o mesmo gesto de quando escondia parafusos na infância. Ao lado dele havia um espaço que não pertencia a ninguém daquela realidade.
Daniel encaixou a chave quebrada com os dedos e forçou-a para a direita.
— Gabriel vive.
A realidade de origem de Lívia abriu-se em todas as janelas: uma casa de corredor estreito, sapatos junto à porta, a marca de altura na parede amarela, a mãe rindo durante o jantar, o pai dormindo diante da televisão, uma discussão abafada pela torneira, um pedido de desculpas num guardanapo, a cicatriz no queixo ganhando três pontos. Algumas cenas ainda não tinham acontecido; outras se lembravam de Daniel dentro delas. Todas vacilavam nas bordas, como fotografias submersas.
Lívia deu um som baixo.
Daniel quase se virou. Helena apoiou dois dedos na lateral de sua cintura, longe dos encaixes.
— Pés.
Ele olhou para baixo. O calcanhar esquerdo havia saído metade da marca.
Reposicionou-o.
— E a sobrevivente? — Helena perguntou.
A palavra não saiu de imediato. A raiz mais próxima do braço ferido ergueu-se até a altura do cotovelo. Esperou.
Lívia apertava o bolso onde guardara a fotografia. Uma queimadura apareceu sobre sua sobrancelha e se apagou, deixando no lugar gotas de chuva. Por trás dela, a voz da mãe chamou mais uma vez. Lívia não se voltou.
Daniel abriu a mão sobre a alavanca.
— Lívia atravessa.
A terceira linha surgiu além da janela.
Não era trilho. Era a distância mínima entre duas coisas que não podiam coexistir, um risco branco sustentado no vazio por uma única raiz de cobre que partia do lugar do assento e desaparecia para fora da locomotiva. Sobre ele não havia estação, céu ou destino. Apenas continuidade.
O círculo no manual escureceu.
Os filamentos envolveram o tornozelo direito de Daniel, ajustando-se à pele por cima da meia. Não apertaram. Reconheceram.
Outro subiu pelo lado ferido do braço. A ponta encontrou o corte no ombro e entrou como uma agulha grossa, sem rasgar além do necessário. Daniel mordeu o interior da língua. O gosto de sangue chegou antes da dor.
A chave girou mais um milímetro.
Na pele de seu antebraço, uma linha de cobre apareceu sob as veias e seguiu até a base da palma. Placas finas, escuras como metal resfriado, começaram a se desenhar junto às têmporas. Ainda não eram máscara. Eram a medida dela.
Helena conferiu o encaixe do tornozelo, depois a direção da raiz no braço.
— Não puxe. Se ela avançar, deixe o ombro baixo. A alavanca ainda não…
O piso mudou de inclinação. Ela bateu o quadril na mala, mas protegeu o prontuário entre o próprio corpo e o couro.
Lívia avançou até Daniel. Tentou separar o filamento de seu tornozelo com a ponta do tênis.
— Para com isso.
A raiz não se moveu. Daniel também não.
— Ainda não terminou — ela disse. — Você pode soltar.
— Posso.
— Então solta.
Ele fechou a mão sobre a alavanca.
O metal acomodou seus dedos, imprimindo sulcos onde não havia nenhum.
O relógio da cabine marcou 5h44.
Do lado de fora, a linha branca ganhou largura suficiente para uma única pessoa. As janelas se encheram da casa de Lívia: a mãe colocando três pratos na mesa, o pai procurando chaves que estavam no próprio bolso, uma menina entrando pela cozinha com os cabelos molhados e reclamando da chuva.
No instante seguinte, a mulher ergueu a cabeça.
Olhou para o lugar da filha.
Ainda a viu.
Mas demorou um segundo a mais.
Lívia retirou a fotografia do bolso e a segurou com as duas mãos. Helena manteve o prontuário junto às costelas. Daniel, ligado pelo tornozelo e pelo braço àquilo que restava da locomotiva, viu a raiz da terceira rota pulsar no mesmo ritmo do relógio de Gabriel.
O painel acendeu uma única palavra:
CONFIRMAR.
Daniel não soltou a alavanca.
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