CAPÍTULO 26 — OS NOMES PERDIDOS
por Sonhado acordadoA linha tocou a máscara.
Não houve clarão.
O som veio primeiro: uma pancada funda sob o piso. A cabine desceu meio palmo e tornou a subir. Daniel perdeu a trava da alavanca; fechou as duas mãos sobre a haste e apoiou o ombro nela.
Nas mangueiras presas à nuca do Condutor, o líquido escuro parou.
Depois voltou.
Subiu contra o próprio fluxo em golfadas grossas, empurrando bolhas negras até os reservatórios do teto. Os tubos incharam. Um deles se soltou do encaixe com um estalo molhado e chicoteou o ar, espalhando gotas que fumegaram nas chapas. Helena curvou o corpo sobre Lívia antes que o jato as alcançasse. O prontuário gelado, apertado contra seu peito dentro da mala aberta, recebeu três respingos; cada um endureceu sobre a capa como piche.
O fole torácico do Condutor continuava vazio.
Quatro segundos não vieram.
Nem três.
Nem quatro.
Os pistões golpearam todos ao mesmo tempo.
A vibração atravessou os dentes de Daniel. A alavanca recuou, entortando a junta de bronze, enquanto rodas dentadas giravam para lados opostos. Vinte e um dentes na maior. Nove na menor. O cálculo se desmontou quando as raízes sob o assento arrancaram parafusos do chão.
— Lívia!
Ela ainda segurava o manual.
As páginas queimavam sem chama, consumidas por uma cor branca que não produzia cinza. A linha de luz entrara pela fenda esquerda da máscara e pulsava sob o ferro até a mandíbula.
Lívia ergueu os olhos.
— Entrou.
O Condutor arqueou-se no assento.
Os cabos de cobre presos às costas puxaram na direção contrária, abrindo o casaco em quatro lugares. Sob o tecido havia pele. Não toda. Faixas estreitas, pálidas, comprimidas entre placas e encaixes; cicatrizes circulares ao redor das conexões; um ombro humano que tentou avançar enquanto a máquina o recolhia.
Helena empurrou Lívia para trás da coluna de válvulas. As unhas da menina tinham escurecido nas pontas. Uma gota de sangue caiu sobre a quinta figura da fotografia e permaneceu redonda, pulsando no ritmo da luz sob a máscara.
— Daniel, mantenha a haste onde está. Deixe ceder devagar.
Helena passou a alça da mala pelo cotovelo, envolveu a cintura de Lívia com o braço e firmou um pé na coluna.
O Condutor abriu as mãos.
Durante toda a viagem, Daniel só as vira cumprir funções. Agora os dedos procuraram o rosto, parando como se não reconhecessem a distância. Uma unha raspou o latão.
A primeira fissura apareceu junto à boca da máscara.
Fina. Escura.
Avançou até o queixo com um ruído agudo, metal sendo rasgado muito lentamente. O Condutor tentou inspirar. Em vez de ar, o fole recebeu um refluxo negro pela mangueira central. O peito de ferro estufou de uma vez, e o líquido escapou pelas junções em fios espessos.
Lívia fechou o manual com a fotografia dentro.
A cabine se inclinou.
Daniel viu a alavanca sair da vertical e entendeu tarde demais que não era ela que se movia. Era o piso. Prendeu o antebraço entre a haste e o painel para não ser arremessado. Helena bateu as costas na coluna; uma válvula queimou o tecido de seu casaco, deixando uma marca redonda. Lívia soltou um grito curto. O caderno quase lhe escapou, sustentado apenas pelo indicador preso entre as páginas.
— Não fecha! — ela disse.
— Está queimando você.
— Não fecha.
Helena enfiou a própria mão sob o couro quente. A pele chiou contra a capa, mas ela manteve o manual aberto pelo centro, libertando o dedo de Lívia.
A fotografia tornou a aparecer. A mulher agora tinha o rosto virado para a cabine; uma das crianças segurava algo junto ao peito. A quinta figura continuava indistinta, mas a mancha em torno dela diminuíra.
O Condutor emitiu um ruído.
Não saiu dos foles.
Veio de trás da máscara, baixo e áspero, uma tentativa sem palavra que terminou numa tosse. O corpo inteiro reagiu. As raízes presas às pernas afrouxaram um elo, depois outro. Uma correia soltou-se de sua costela e caiu no piso, ainda se contorcendo como um nervo arrancado.
Daniel deixou a alavanca avançar um centímetro.
A pressão no manômetro caiu de cento e oitenta para cento e quarenta. O ponteiro não desceu: quebrou e ficou pendurado dentro do vidro.
— Mais — Lívia pediu.
— Isso alimenta a caldeira.
— Alimentava ele.
— Você não sabe o que acontece se eu abrir.
Ela virou o rosto para Daniel. Havia fuligem presa à lágrima que não chegara a cair.
— Eu sei o que acontece se você não abrir.
A frase não recebeu resposta. Daniel olhou para os dedos dela, para a pele vermelha em torno das unhas, depois para o relógio de Gabriel preso ao próprio punho. Os ponteiros continuavam em 3h41. A rachadura junto ao cinco capturou a luz branca e a devolveu sobre a alavanca.
Ele afrouxou o braço.
A haste andou mais dois centímetros.
O fole no peito do Condutor colapsou para dentro com um gemido de couro velho. As mangueiras sugaram o líquido de volta, não para o corpo, mas para as paredes. O escuro percorreu os tubos transparentes em direção à caldeira, deixando atrás de si uma película avermelhada.
As raízes metálicas se abriram.
Não se desprenderam. Apenas perderam a tensão, tombando ao redor do assento em curvas pesadas. Pela primeira vez, o Condutor não pareceu sustentar a locomotiva. Pareceu sustentado por ela.
A máscara rachou sobre o nariz.
Um fragmento triangular de latão saltou, bateu no painel e caiu mostrando uma camada interna escura, marcada como por impressões digitais.
Por baixo havia pele.
Uma faixa estreita da bochecha esquerda, cinzenta de fuligem e clara demais onde o metal a cobrira. A borda da máscara entrara na carne anos antes — ou décadas — e a pele crescera em torno dela, formando um relevo irregular. Um olho apareceu pela metade. A pálpebra estava fechada.
Helena encontrou gaze no bolso da mala, rasgou o pacote com os dentes e envolveu a mão de Lívia sem afastá-la do caderno. A fotografia tremia entre as páginas.
O olho do Condutor se abriu.
Não havia luz dentro dele. Era castanho, opaco, atravessado por vasos rompidos. Moveu-se sem foco pelo teto, pelas válvulas, pela janela, e parou na fotografia.
O som que saiu de sua garganta desta vez quase foi uma palavra.
— A…
A máquina respondeu com uma descarga de vapor. A voz foi engolida.
Ele tentou outra vez. A mandíbula moveu a parte inferior da máscara, e a fissura junto à boca se alargou. Um dos fechos laterais se rompeu. O metal soltou-se da pele com um ruído úmido.
O Condutor gritou.
Faltava ar. Foi um som cru, estreito, que fez Lívia fechar os olhos. Daniel apertou os dentes contra o gosto de óleo.
O grito terminou em respiração.
Humana.
Curta, irregular, arranhando a garganta antes de chegar ao peito. O fole permaneceu imóvel. Ainda assim, o homem sob a máscara inspirou de novo, usando alguma parte do corpo que a locomotiva não utilizava havia muito tempo.
— Não… — disse ele.
A palavra não tinha o peso metálico das instruções. Quase não atravessou a cabine.
Lívia inclinou o manual na direção do assento.
— Olha.
O olho visível desceu até a fotografia.
— Não.
Mais nítido agora. Rouco. A voz de um homem que acordara com ferrugem dentro da boca.
Ele ergueu a mão e tentou cobrir o olho, mas um cabo ainda preso ao antebraço conteve o gesto. Os dedos ficaram abertos diante do rosto.
— Tire isso — disse Daniel.
— Não sabemos o que mantém perfusão aí — Helena respondeu, sem afastar os olhos das conexões.
O Condutor puxou o braço outra vez. O cabo de cobre penetrou mais fundo; sangue apareceu no encaixe e correu em torno da pulseira de metal. Helena avançou meio passo, mas Lívia se moveu primeiro.
— Não arranca — disse a menina. — Ela já está soltando.
Ele olhou para ela.
Uma sombra de reconhecimento passou pelo olho. A mão parou de lutar contra o cabo.
— Você… estava…
Lívia esperou.
Um pistão isolado bateu na nave. O manual perdeu mais uma faixa da margem.
— Na cabine — completou o homem.
Lívia olhou a quinta figura indistinta.
— Eu não estava.
— Pequena.
— Não era eu.
Ele tentou aproximar o rosto da imagem. A máscara rangeu contra o assento. Uma mangueira se dobrou sob sua nuca, devolvendo outro pulso de líquido ao reservatório.
— Pequena — repetiu, e a palavra se desfez numa tosse seca. — Casaco… botão faltando.
Lívia encostou a ponta enfaixada do dedo junto ao peito da criança mais baixa.
— Aqui?
O Condutor fechou o olho.
Sua boca se moveu por trás do metal. Nenhum som saiu nas duas primeiras tentativas. Na terceira, houve apenas o início de uma sílaba.
— M…
Ele abriu o olho de repente e puxou ar demais. O peito humano tentou expandir sob o fole afundado. As placas rangiam sobre as costelas.
— Eu sabia.
Daniel olhou para Helena. Ela tinha um pedaço de gaze preso entre os dedos e não o usava.
— Sabia o quê? — Lívia perguntou.
O homem fitou a fotografia.
— O nome.
Uma válvula explodiu acima deles. Daniel baixou o corpo sobre a alavanca enquanto Helena protegia o manual com a mala aberta.
Quando o vapor se desfez, outra fissura atravessava a máscara de cima a baixo.
O ferro separou-se do latão.
A metade direita permaneceu presa por uma correia junto à têmpora. A esquerda escorregou devagar, arrancando pequenos pontos de pele aderida, e parou pendurada no queixo. O peso torceu o pescoço do homem. Helena largou a gaze e segurou a peça antes que ela puxasse mais.
O metal queimou sua palma. Ela não soltou.
— Daniel, a presilha. Atrás da orelha.
— Se eu largar…
— Trave com o relógio.
Daniel olhou para o pulso.
— Não.
— Relógio… não — disse o Condutor.
Lívia pegou o fragmento de latão caído no chão e o enfiou entre a haste e a ranhura do painel. A peça entrou torta, mas suportou o primeiro puxão.
— Agora.
Daniel testou a pressão e atravessou os dois passos até o assento. Atrás da orelha exposta, encontrou couro endurecido, uma fivela e fios de cabelo presos ao metal.
— Vai puxar.
O olho castanho não deixou a fotografia.
— Já… puxou.
Daniel abriu a fivela.
A metade da máscara caiu nas mãos de Helena.
O rosto apareceu.
Era mais velho do que qualquer idade que Daniel soubesse atribuir. Uma parte da pele estava ressecada, amarelada pela fornalha; outra conservava marcas rosadas onde o metal a comprimira. A barba branca surgia em tufos interrompidos por cicatrizes. A boca tinha os lábios partidos.
O outro olho permanecia escondido sob a metade direita da máscara.
O homem tocou a própria bochecha.
Recuou ao sentir pele.
Os dedos voltaram, mais devagar. Percorreram a cicatriz junto à boca, o osso do maxilar, os pelos da barba. Quando chegaram ao lábio inferior, ele abriu a boca como se só então descobrisse que podia fazê-lo.
— Tinha… — começou.
Parou.
A garganta trabalhou em seco.
— Tinha duas.
Lívia saiu de trás de Helena.
— Duas o quê?
O homem olhou para ela, depois para a menina da fotografia e para a figura um pouco mais alta ao lado.
— Crianças.
A palavra fez alguma coisa nas raízes. Pequenos elos se abriram perto de seus tornozelos, não o bastante para libertá-lo. A cabine perdeu mais cinco graus de pressão. O teto gemeu, mas o ciclo dos pistões não recomeçou.
Daniel voltou para a alavanca. Retirou o fragmento de latão antes que se partisse e retomou o peso sobre a haste.
— Eram seus filhos?
O homem demorou.
Sua mão pousou no vazio sobre a criança mais alta, sem tocar o papel.
— Meu… — A voz falhou. — Meu menino fazia assim.
Ele dobrou o polegar para dentro da palma e fechou os quatro dedos por cima. Abriu. Repetiu. Um gesto simples, talvez uma brincadeira, talvez a maneira de esconder uma moeda.
— Fazia o quê? — Daniel perguntou.
— Sumia com…
O homem procurou algo entre os dedos vazios. A mão começou a tremer.
— Com o parafuso. Eu dizia que não. Pequeno demais. Ele punha aqui.
Apontou para trás da própria orelha. A boca quase encontrou outra forma, antiga, que não chegou a ser sorriso.
— E o nome dele?
O efeito foi imediato.
O homem recolheu a mão. As mangueiras da nuca se encheram de negro outra vez, como se a máquina tivesse escutado a pergunta. Lívia apertou o manual contra o peito; a fotografia tentou escorregar.
— Daniel — Helena disse, baixa.
Ele já havia percebido. Não repetiu.
O Condutor, porém, moveu os lábios.
Uma sílaba sem voz. Depois outra, diferente. Tentou juntá-las, mas a língua tocou os dentes no lugar errado. O olho castanho se desviou de todos e se prendeu num parafuso solto junto ao painel.
— Eu dei.
Ninguém perguntou o quê.
— Quando a máquina pediu… primeiro foi o dia. O dia em que ele nasceu. Depois… o peso. Como cabia no braço. Dei a febre. Dei o joelho aberto. Dei o parafuso.
As frases vinham com espaços longos. Em cada pausa, sua boca continuava tentando formar alguma coisa.
— Dei a voz dele.
Uma tira de cobre desprendeu-se de sua coluna e tombou no chão.
— E depois o nome.
Lívia abaixou o manual. A gaze em seus dedos estava manchada de vermelho e branco, sangue misturado à luz das páginas.
O homem voltou-se para a criança menor.
— Ela tinha um botão… — Tocou o próprio peito, procurando a posição. — Eu prometi pôr outro. Estava no bolso. O botão estava no bolso quando…
A cabine permaneceu suspensa na ausência da palavra.
Ele olhou para o casaco que ainda vestia. Os dedos entraram num bolso costurado à lateral, entre duas placas. Retiraram apenas pó preto e um pequeno disco de madrepérola, queimado numa borda.
O botão caiu na palma.
O homem deixou de respirar outra vez. Agora não foi a máquina.
Virou o disco sob a luz. Uma vez. Duas.
— Eu carreguei.
Helena baixou a metade quebrada da máscara até o piso. A mão que segurara o metal estava vermelha, com uma bolha se formando no centro da palma. Ela a fechou antes que Lívia visse.
— O que aconteceu com eles? — perguntou.
A pergunta saiu sem a firmeza das instruções anteriores.
O homem não respondeu a ela. Fitava o botão.
— Chovia.
O olho visível percorreu a cabine que já não era a mesma da fotografia e, por um instante, pareceu procurar janelas onde só havia tubulações.
— Ela batia no vidro. Queria ver. Eu disse para sentar. Minha mulher… estava com a mão no banco. Aqui.
Ele pousou a mão ao lado da coxa, sobre o couro rachado do assento.
— Não era este banco.
O Condutor inclinou o rosto livre na direção do manual.
— Eu fiz alguma coisa.
Daniel sentiu a alavanca vibrar sob as mãos.
— Você tentou voltar.
O homem ergueu os olhos.
Daniel não acrescentou nada. O relógio de Gabriel encostava na haste, o metal do irmão contra o metal da máquina.
— Voltar — repetiu o homem.
A palavra pareceu feri-lo mais que a máscara.
Ele olhou as raízes abertas ao redor do assento, as mangueiras esvaziando, o fole morto sobre o próprio peito. Tocou uma conexão sob a costela e puxou a mão quando reconheceu que entrava em seu corpo.
— Eu pedi…
Sua voz sumiu.
— O quê? — Lívia se aproximou.
— Tudo.
— Você ofereceu tudo.
O homem balançou a cabeça, como se a frase fosse grande demais para caber inteira.
— Não de uma vez. Eu dizia: mais uma. Só mais uma e eu encontro. Mais uma e a linha… — Ele apertou os olhos. A mão livre tateou o ar atrás de uma alavanca que não estava ali. — Depois não sabia o que procurava. Então dei outra para lembrar por que precisava seguir.
Helena encostou dois dedos no pescoço dele. O homem se retraiu, tossiu e deixou uma linha de líquido negro escapar da boca. Ela limpou seu queixo sem tocar as conexões.
— Eu não lembro você — ele disse.
— Não precisa.
Lívia ajoelhou-se diante do manual. A quinta figura já era um homem de costas, inclinado sobre os controles. Ainda não se via seu rosto.
O Condutor viu.
Levou os dedos à cabeça. Encontrou a metade restante da máscara e tentou arrancá-la. Helena conteve seu braço antes que os tubos na têmpora se movessem.
— Esta parte ainda está presa.
— Tire.
— Tem dois cabos entrando sob o osso.
— Tire.
A voz quebrou na segunda palavra. Não voltou a soar como ordem.
Lívia fechou a mão sobre o botão de madrepérola, ainda na palma dele, impedindo que caísse.
— Não agora.
O homem olhou os dedos dela sobre os seus.
— Você não é ela.
— Não — Lívia afastou a mão depressa demais e tornou a ocupar-se do manual.
— Eu tinha os nomes.
Lívia parou.
— Eu sei.
— Não. Eu tinha. Aqui.
Ele tocou a língua, depois a testa.
— Eu chamava e eles vinham. Os dois. Às vezes ela se escondia atrás da mãe e eu fingia… fingia não ver os sapatos.
Os dedos dele fecharam-se em torno do botão.
— Eu entreguei isso também.
Daniel perdeu por um instante o ritmo da alavanca. A haste avançou, e a caldeira respondeu com um baque. Ele corrigiu antes que Helena precisasse falar.
— Para salvar os dois — disse.
O homem virou o rosto para ele.
— Para não aceitar.
Não havia jargão na resposta. Nenhum trilho, nenhuma tarifa, nenhuma escala para protegê-la.
Daniel baixou os olhos para o relógio.
O ponteiro dos segundos avançou uma marca.
Parou.
— Você conseguiu vê-los de novo? — perguntou.
O Condutor olhou a fotografia.
— Não sei.
— Antes de esquecer.
— Não sei.
— Mas lembra de começar.
— Lembro do botão.
A voz dele encolheu.
— Lembro de mandar que sentassem. Lembro que meu menino estava zangado porque eu não deixei mexer na válvula. Lembro… a trança dela molhada no casaco. Lembro que minha mulher disse meu nome.
Ele esperou, como se o som fosse retornar.
— Qual era? — Lívia perguntou.
O homem abriu a boca.
Nada.
O olho castanho se arregalou. A mão subiu até a garganta e ficou ali, pressionando a pele como se o próprio nome tivesse se alojado por dentro.
— Eu não…
Tentou de novo.
— Ela disse.
O manual estalou. Uma nova linha branca percorreu a fotografia, desta vez não em direção à máscara, mas entre os quatro rostos. Onde passava, pequenas coisas surgiam: o botão faltando, uma moeda escondida na mão do menino, os dedos da mulher apoiados no banco, uma aliança no homem de costas.
O Condutor curvou-se.
As raízes frouxas não o acompanharam. Pela primeira vez, seu corpo saiu alguns centímetros do encosto. Helena colocou a mão boa contra o ombro dele para impedir que caísse sobre as conexões abertas.
Ele segurou a fotografia com dois dedos.
O papel chiou contra sua pele, mas não queimou.
— Eram meus.
Ninguém respondeu.
— Eu sabia quando tinham fome. Sabia qual acordava primeiro. Ele dormia com a boca aberta. Ela chutava a parede. Minha mulher reclamava e depois puxava os dois para nossa cama.
A voz falhou. Voltou mais baixa.
— Eu sabia os nomes.
Lívia sentou-se no piso. O manual repousou sobre seus joelhos, aberto sob a fotografia, e a luz branca diminuiu até caber apenas nas bordas das pessoas.
— Talvez ainda estejam aí — disse.
Ela não sustentou a certeza.
— Alguma parte.
O Condutor olhou outra vez para o menino. Moveu os lábios. Uma primeira sílaba surgiu, quase reconhecível, e morreu antes do som. Tentou com a menina. Outro começo. Não eram nomes; eram os lugares vazios deixados por eles.
Ele levou a fotografia ao peito.
O papel encostou no fole colapsado.
Sob o metal, alguma coisa bateu uma vez.
Não foi um pistão.
Helena retirou lentamente a mão do ombro dele. Daniel permaneceu sobre a alavanca, embora a haste já não tentasse avançar. Lívia manteve o manual aberto, as pontas dos dedos tremendo dentro da gaze.
O homem olhou para os cabos que entravam em seu corpo. Depois para o botão fechado na palma. Depois para os quatro rostos devolvidos pela fotografia.
— Eu esqueci deles para voltar até eles.
A frase saiu pequena.
Ele repetiu apenas o final, sem voz.
Até eles.
O olho visível encheu-se, mas não houve lágrima. A umidade desapareceu no calor antes de vencer a pálpebra. Sua boca tornou a buscar os nomes, um de cada vez, tropeçando nas primeiras letras, corrigindo sons que ninguém conhecia.
Não encontrou nenhum.
A locomotiva ficou imóvel ao redor dele.
E o homem, ainda preso ao assento, continuou tentando.
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