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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2515 MIN

O relógio permaneceu fechado na mão de Daniel.

O metal de Gabriel pressionava a palma, cada aresta conhecida ocupando um lugar que ele poderia medir. A coroa sob o indicador. A pulseira dobrada entre dois dedos. O vidro morno apesar dos ponteiros imóveis em 3h41.

Quinze anos de atraso.

A cabine respirou.

Quatro segundos entre o primeiro e o segundo golpe dos pistões. Três até o terceiro. Quatro outra vez. No quinto ciclo, os cabos de cobre presos ao Condutor se esticaram sob o casaco, e uma das mangueiras na nuca recebeu um pulso de líquido escuro.

Daniel contou de novo.

— Você estava lá.

A máscara de ferro e latão continuou inclinada para o relógio.

— Composição em espera não abandona passageiro registrado.

— Na estação?

O Condutor moveu dois dedos sobre a alavanca. Uma roda de controle girou no teto, devagar, sem que ninguém a tocasse.

— Plataforma fora de escala. Embarque não concluído.

Daniel abriu a mão.

O relógio parecia menor sob a luz vermelha. Um risco atravessava o vidro perto do número cinco. Ele não se lembrava de quando surgira. Talvez estivesse ali desde a queda de Gabriel. Talvez fosse novo.

— Eu não vi o trem naquela noite.

— Passageiro não olhou para a linha.

— Eu estava olhando para meu irmão.

A última palavra alterou o intervalo dos pistões. O terceiro golpe veio cedo demais, sacudindo o assento do Condutor. Cabos penetrados sob as mangas tensionaram a pele em torno dos encaixes.

Helena apoiou uma mão na mala para impedir que deslizasse. O prontuário de Marina, preso dentro do manual, manteve uma mancha fria sob o couro. Condensação escorreu pelo fecho e pingou na chapa quente, evaporando antes de tocar o piso.

Lívia não olhava para Daniel.

Fitava as janelas diante do Condutor. As linhas brancas no vazio dividiam-se em pares, desapareciam e voltavam a entrar umas nas outras. Uma delas atravessou o reflexo da menina e retirou por um instante a camisa de Daniel de seus ombros. Quando passou, o tecido estava ali outra vez.

— O que aconteceu em 2011? — Helena perguntou.

O Condutor virou a máscara para ela. As fendas sem olhos não refletiram seu rosto; refletiram as páginas frias dentro da mala.

— Tarifa lançada. Cobrança suspensa por ausência de embarque.

Daniel guardou o relógio junto ao peito.

— Eu não pedi nada.

— Pedido registrado às vinte e três horas, cinquenta e oito minutos.

— Eu pedi para ele parar.

— Cinco segundos autorizados.

O ar saiu curto pelo nariz de Daniel. Ele olhou para as engrenagens junto ao piso, para o terceiro dente gasto na alavanca, para qualquer coisa que tivesse tamanho e posição.

— Eu não parei o tempo naquela noite.

— Não houve composição para suportar o desvio.

— Então não aconteceu.

O fole no peito do Condutor encheu até a costura metálica estalar.

— Tarifa não depende de viagem concluída.

Daniel deu um passo. Helena disse seu nome, mas o ruído da caldeira atravessou a advertência.

— O que foi cobrado?

A mão enluvada do Condutor fechou-se na alavanca. Sob o couro aberto, as unhas humanas perderam cor.

— Quinze anos de permanência em pátio. Um destino mantido fora da linha. Um passageiro orbitando a estação de origem.

— Fala direito.

A frase saiu alta demais.

Válvulas abriram nas paredes e descarregaram vapor. Lívia se abaixou; Helena a puxou para trás da mala. Daniel permaneceu diante do assento, os olhos estreitos contra o ar escaldante.

O Condutor não elevou a voz.

— Passageiro Daniel Montenegro iniciou a cobrança em dezessete de agosto de dois mil e onze. A composição aguardou quinze anos pela apresentação do bilhete.

O relógio escapou da mão de Daniel.

A pulseira o reteve no punho. O mostrador bateu contra o osso e ficou pendurado.

Ele ajustou o fecho. Uma vez. Errou o encaixe. Tentou de novo.

— O trem ficou esperando por mim.

— Atraso incorporado à escala.

— E tudo depois daquela noite?

O Condutor voltou-se para a janela central.

— Ramal construído ao redor de uma dívida não quitada.

Daniel procurou resposta na frase e encontrou apenas a cozinha vazia, o relógio interrompido depois de cinco segundos, os horários conferidos duas vezes, cinco minutos errados no trabalho. Detalhes que sempre parecera escolher porque eram detalhes.

O terceiro pistão bateu cedo.

Ele o contou.

— Quatro. Três. Quatro.

— Daniel — Helena chamou.

— No quinto ciclo ele compensa. Um segundo.

— Eu vi.

— Quinze anos dá…

Parou antes de calcular.

A mão dele ainda tentava acertar o fecho do relógio. Lívia saiu de trás da mala e se aproximou. Daniel esperou que ela o ajudasse, mas a menina não tocou nele. Indicou apenas o pino fora da abertura.

— Está um furo para a esquerda.

Daniel corrigiu. O fecho entrou.

— Obrigado.

Lívia assentiu, formal demais. O abraço perdido continuava entre os dois como um objeto retirado de uma mesa: não visível, mas denunciado pelo espaço limpo.

Helena abriu a mala.

O manual recebeu o calor da cabine com um movimento brusco. As páginas se arquearam, revelando símbolos que pareciam trilhos vistos de cima. O prontuário de Marina não se moveu. Frio, pesado, preso entre a capa e a primeira folha.

— Se a dívida era dele — Helena disse —, por que nós recebemos bilhetes?

O Condutor girou uma chave. O sino distante tocou duas vezes.

— Composição não parte com lugares vazios na tarifa final.

— César retornou.

— Lugar devolvido à origem.

— E nós três?

— Destinos incompatíveis. Bitola insuficiente.

Lívia virou uma página sem encostar. O papel acompanhou o movimento de seu dedo a dois centímetros de distância.

— Ele não está falando de lugares — disse.

Daniel olhou para ela.

— Eu sei.

— Não, não sabe.

A irritação surgiu rápida, jovem. Lívia soprou o cabelo do rosto e apontou para as janelas.

— A linha da esquerda chega antes de sair daqui. A da direita sai e não chega. Ele chama as duas de destino porque não lembra o que tem no fim.

O fole do Condutor perdeu ar por meio segundo.

Helena percebeu. Afastou o prontuário do manual e o colocou dentro da mala, sob a camisa de graxa.

— Repita — pediu a Lívia.

— Não foi para você.

— Eu sei. Repita olhando para ele.

Lívia apertou os dedos na borda da mesa de controle. A chapa estava quente; as pontas ficaram vermelhas, mas ela não soltou.

— Você não sabe para onde está levando a gente.

A máscara não se moveu.

— Escala registrada no manual de circulação.

— Você não consegue ler.

Uma corrente no teto deu um puxão. O assento recuou alguns milímetros, levando com ele tubos, cabos e as raízes metálicas presas às pernas.

— Leitura não integra função de condução.

— Consegue, sim. Só esqueceu.

Daniel viu o líquido nas mangueiras parar junto à nuca do Condutor. Uma bolha escura permaneceu suspensa no tubo, tremendo.

Helena deslocou-se para o lado de Lívia.

— Sua mão.

— Depois.

— Agora.

Lívia soltou a mesa. Pequenas áreas claras marcavam as pontas dos dedos. Helena as examinou sem segurar, aproximando a própria mão para comparar temperatura.

— Não encoste de novo.

— Preciso virar as páginas.

— Use o tecido.

Helena retirou a camisa de graxa da mala. O prontuário veio grudado por frio à manga e quase caiu. Ela o separou devagar, verificou a assinatura na primeira página e o guardou de novo. Ao erguer a camisa, algo deslizou de dentro da dobra.

A fotografia de 1947 caiu sobre o manual.

Não a versão encontrada no Vagão 1, com sorrisos. A segunda.

Quatro pessoas diante da locomotiva original, rígidas sob a luz cinzenta. A quinta figura permanecia indistinta na cabine, onde a claridade se recusava a fixar. No verso, as palavras a lápis ainda estavam legíveis:

ANTES DA PRIMEIRA VIAGEM.

Lívia inclinou-se.

As linhas brancas além das janelas mudaram de posição.

Por um instante, todas passaram pela fotografia.

As quatro pessoas diante da locomotiva ganharam sombras compridas. A quinta figura, dentro da cabine, perdeu a sua. O latão da máscara do Condutor refletiu o clarão, e a mancha no retrato ocupou a mesma posição de sua cabeça.

Daniel percebeu a semelhança.

Não disse.

Lívia virou a fotografia de lado. Os símbolos do manual reorganizaram-se sob ela. Rabiscos tornaram-se trilhos; trilhos se juntaram numa roda; a roda abriu cinco ramais finos, um para cada pessoa da foto.

Quatro terminavam em pequenos retângulos.

O quinto entrava na locomotiva e não saía.

— A frase está errada — Lívia disse.

Helena manteve a camisa dobrada entre as mãos.

— Qual?

— “Antes da primeira viagem.” Não é quando tiraram a foto.

— Está escrito no verso.

— Eu sei ler.

O corte da resposta fez Helena recuar meio passo. Lívia virou o retrato mais alguns graus.

— É o que ele ainda tinha antes da primeira viagem.

Daniel observou os quatro ramais terminando fora da máquina.

— Pessoas.

— Não. — A garota aproximou o rosto da página. — Lugares onde elas existiam para ele.

A cabine tremeu.

O Condutor puxou a alavanca principal. O movimento fechou uma placa de metal sobre metade do painel e quase prendeu a fotografia.

Daniel segurou a placa antes do impacto. A borda queimou sua palma.

— Tarifa de bagagem não autorizada — disse o Condutor.

— É sua? — Daniel perguntou.

— Propriedade sem registro.

— Você reconheceu.

— Reconhecimento não altera titularidade.

Lívia puxou a fotografia para fora da placa. Uma ponta rasgou junto à margem branca.

— Ele não pode dizer — falou.

— Não quer — Daniel corrigiu.

— Não pode. Olha os tubos.

A bolha escura na mangueira da nuca havia avançado até uma bifurcação. Sempre que o Condutor orientava a máscara para a fotografia, o líquido seguia na direção da cabeça. Quando desviava, retornava à caldeira.

Lívia moveu o retrato para a esquerda.

A bolha acompanhou.

Para a direita.

Acompanhou outra vez.

O Condutor acionou uma segunda chave. O painel diante deles ergueu uma grade de proteção.

— Afaste-se da cabine de comando. Passageira sem origem não possui autorização de manobra.

Lívia não recuou.

— Ele esqueceu as pessoas. Mas a máquina não.

Daniel soltou a placa e limpou a palma queimada na calça.

— Como sabe?

— Porque ela guarda o caminho até a cabeça dele.

— Isso pode ser uma proteção.

— É uma entrega.

— Ou uma armadilha.

Lívia bateu a fotografia contra o manual.

— Tudo aqui é uma armadilha para alguém.

A frase saiu mais alta do que pretendia. Sua voz rachou na última palavra. Ela baixou os olhos para os quatro rostos e passou a unha sobre um deles sem tocar a tinta.

— Ele começou com isso. Depois pagou até esquecer por quê.

O Condutor apertou a alavanca.

— Tarifa quitada não admite estorno.

Lívia ergueu a fotografia.

— Então por que está tentando impedir?

Silêncio.

Os pistões completaram um ciclo. Quatro. Três. Quatro.

No quinto, a compensação falhou.

A locomotiva avançou sem o segundo perdido e atingiu alguma coisa que não existia diante das janelas. O choque jogou Daniel contra a mesa. Helena segurou a mala com o joelho e alcançou Lívia pela cintura antes que ela caísse sobre as raízes metálicas do assento.

A fotografia escapou.

Flutuou entre o manual e o Condutor.

A mão enluvada ergueu-se por reflexo.

Parou a centímetros do papel.

O polegar tremia.

Não como parte da máquina. Num ritmo próprio.

Helena puxou Lívia para trás.

— Trinta segundos — disse. — Depois você sai desse calor.

— Não dá para marcar.

— Eu marco.

— Seu relógio não funciona.

Helena encostou dois dedos no próprio pescoço.

— Não preciso dele.

Daniel recuperou a fotografia antes que a mão do Condutor a alcançasse. O papel estava mais quente de um lado. Na imagem, uma das quatro pessoas tinha o rosto borrado pela pressão do polegar de Lívia.

— O que você quer fazer? — perguntou.

Lívia abriu o manual numa página coberta pelo símbolo das duas linhas. Virou a fotografia sobre ela, figura contra papel, e alinhou a locomotiva impressa com o desenho dos trilhos.

— Colocar de volta.

— Uma lembrança?

— O caminho para ela.

— Isso é diferente?

— Para ele, é.

Daniel olhou para o Condutor. A máscara permanecia imóvel, mas a mão suspensa ainda não retornara à alavanca.

— E o preço?

Lívia apertou os lábios.

— Não sei.

— Então espera.

— Foi o que você fez quinze anos.

A frase acertou antes que ela pudesse contê-la. Lívia piscou depressa, pronta para recuar. Daniel não respondeu. Abriu a mala, retirou a camisa de graxa e a enrolou em torno da mão queimada.

— Me diz onde segurar.

Ela levou um segundo para entender.

Apontou para a margem inferior do manual.

— Aqui. Sem cobrir os trilhos.

Helena soltou a cintura da garota e se posicionou atrás dela.

— Se os joelhos dobrarem, eu puxo você. Não discuta.

— E se for você que cair?

— Daniel segura o manual. Eu seguro você.

— Não foi o que perguntei.

Helena conferiu o próprio pulso com dois dedos.

— Vinte e quatro segundos.

Lívia entendeu que não receberia outra resposta.

Daniel apoiou o manual sobre a mesa de controle. A capa tentou fechar-se. Ele pressionou a margem com a mão protegida, e o calor atravessou o tecido de qualquer forma.

A fotografia estava de cabeça para baixo sobre os símbolos.

Lívia moveu-a milímetro por milímetro. Cada ajuste fazia uma parte diferente da cabine responder. Um manômetro girava ao alinhar a roda da locomotiva. As mangueiras da nuca pulsavam quando o rosto indistinto da quinta figura cruzava o centro da página. As raízes metálicas sob os pés do Condutor recolhiam-se quando um dos quatro familiares se aproximava da margem.

— Mais para a esquerda — disse.

Daniel moveu o caderno.

— Não o manual. A foto.

— Quanto?

— Ainda não aconteceu.

— Lívia.

— Dois dedos. Não, espera.

Ela fechou um olho. No outro, duas pupilas ocuparam posições ligeiramente diferentes.

— Agora um.

Daniel deslocou a fotografia.

Os trilhos desenhados saíram da página.

Não ganharam volume. Tornaram-se cortes luminosos sobre a mesa, finos, curvando-se em direção ao assento. Passaram por baixo das alavancas e desapareceram entre as raízes de metal.

O Condutor baixou a mão.

— Manobra não autorizada. Desvio sem bitola. Interrompam.

Helena contou outra pulsação.

— Dezessete segundos.

— Eu preciso chegar mais perto — Lívia disse.

— Não.

— A linha para na mesa.

— Então paramos aqui.

— Helena…

— Sua pele está duplicando no pescoço.

Daniel olhou.

Sob a mandíbula de Lívia havia duas linhas de contorno. Uma acompanhava a cabeça; a outra permanecia voltada para o manual, mesmo quando ela se moveu.

— Eu consigo — a garota disse.

Helena segurou o tecido da camisa sobre seus ombros, não a pele.

— Isso não responde.

O Condutor empurrou a alavanca principal.

Daniel travou-a com o antebraço. A força transmitida pelo mecanismo fez seu ombro estalar.

— Tarifa em curso — disse o Condutor. — Passageiro não interfere na condução.

— Você está interferindo.

— Condutor mantém a escala.

— Sem lembrar o destino.

A máscara virou para Daniel.

O movimento liberou Lívia por um segundo. Ela passou sob o braço dele, levando manual e fotografia. Helena tentou acompanhá-la, mas uma raiz metálica ergueu-se do piso e separou as duas.

— Lívia!

A menina alcançou o primeiro círculo de cabos ao redor do assento.

O calor a atingiu de frente. A camisa sobre seus ombros escureceu nas bordas. O contorno duplicado desceu pelo pescoço até a clavícula.

Ela ajoelhou para passar o manual por baixo de um tubo.

— Doze segundos — Helena disse, já procurando espaço entre as raízes. — Onze.

— Para de contar.

— Dez.

Daniel soltou a alavanca e puxou o cabo que bloqueava Helena. O revestimento de tecido abriu sob sua mão e revelou cobre vivo. Um choque subiu pelo braço, prendendo seus dentes.

O cabo cedeu alguns centímetros.

Helena atravessou.

O Condutor não tentou segurá-las. A máquina tentou.

Tubos contraíram-se ao redor do assento. Uma válvula abriu junto à perna de Lívia. Vapor branco atingiu o piso, queimando a sola de seu tênis. Ela retirou o pé e quase caiu sobre o manual.

Helena a sustentou pelas costelas.

— Seis.

— Chega.

— Cinco.

Lívia colocou a fotografia sobre a página outra vez. Tão perto do Condutor, a quinta mancha da imagem não permanecia fixa. Ela saía da cabine impressa e subia pelo papel, procurando a máscara real.

— Ele está do lado errado — a menina murmurou.

— Quem? — Daniel perguntou.

— O homem da foto. Está atrás da família e dentro da máquina ao mesmo tempo.

— Três — Helena disse.

— Segura.

Lívia entregou a margem do caderno a Daniel. Ele se agachou entre dois tubos, o ombro latejando, e segurou.

— Dois.

A menina encaixou a fotografia na página.

Não colou. Afundou.

As fibras do retrato penetraram o papel do manual como raízes brancas. As quatro figuras ficaram presas aos quatro ramais. A quinta deslizou pelo trilho central em direção à borda superior.

O manual aqueceu de uma vez.

Daniel sentiu através da camisa. A tinta começou a borbulhar. Letras subiram das páginas, negras e pequenas, e colaram em seus dedos.

Helena puxou Lívia.

— Agora.

— Falta chegar nele.

— Agora.

A garota segurou a fotografia com as duas mãos. A pele duplicada em seu pescoço separou-se mais um centímetro; por baixo, não havia carne, mas uma faixa de luz branca correndo em duas direções.

Daniel fechou a mão sobre a margem do manual.

— Quanto falta?

Lívia olhou para a distância entre a página e a máscara.

— Milímetros.

Era mais de um metro.

Para ela, não.

O Condutor puxou ar pelo fole. Os cabos na nuca se esticaram até o limite. A bolha escura avançou pela mangueira, atingiu a base da máscara e parou.

— Interrompam o desvio — ordenou.

A voz ainda era ferroviária. Lenta. Impessoal.

O manual começou a queimar.

Não nas bordas. O fogo nasceu sob a fotografia, sem chama visível, deixando cada rosto iluminado por dentro. A família de 1947 ergueu os olhos na mesma direção. A mancha da quinta figura alcançou o alto da página e estendeu uma linha fina para a máscara de latão.

Um milímetro de vazio permaneceu entre as duas.

O Condutor parou de respirar.

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