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O Último Trem da Meia-NoiteCAP. 2216 MIN

A porta de ferro continuou fechada.

O bilhete de César permanecia na mão de Daniel, inteiro, com RECUSADO ainda úmido no verso. A tinta não escorria. Afundava no papel aos poucos, atravessando as fibras até a palavra aparecer invertida do outro lado.

César não o pegou.

Sentado no piso, com as costas contra a mesa, observava as próprias mãos como se esperasse encontrar nelas o rasgo que o vagão desfizera. O sangue no curativo tinha alcançado a barra da camisa. A etiqueta com seu nome, presa ao punho, batia de leve no ferro cada vez que o trem mudava de inclinação — embora nenhum deles sentisse curva alguma.

NÃO O CORPO já desaparecera do manual.

Helena mantinha o caderno aberto na página vazia. Passou o dedo sobre o lugar onde as palavras haviam surgido. A superfície ainda estava morna.

— O corpo foi recusado — disse Daniel.

César ergueu os olhos.

— Obrigado pela tradução.

O humor saiu rápido, quase eficiente. A sala não o aceitou.

Um dos relógios sem ponteiros estalou na parede. Uma rachadura fina apareceu no vidro, exatamente no centro, e avançou até a borda. O som não ecoou. Ficou preso dentro do mostrador.

César olhou para ele.

— Está criticando minhas piadas agora?

Outra rachadura começou e parou antes de completar um centímetro.

Lívia estava junto ao compartimento que devolvera o bilhete. A tampa de latão continuava aberta, revelando um interior revestido de feltro preto. Ela aproximou a mão, mas não tocou. A fibra cinza guardada no bolso de seu casaco escapava pela abertura como uma linha solta.

Daniel viu o fio. Depois olhou para a distância entre os dois.

— Não o corpo — Lívia repetiu. — Então o quê?

Ninguém respondeu.

Helena inclinou o manual. Símbolos apareceram por um instante: uma figura diante de duas linhas, uma seguindo em frente, outra retornando ao ponto de origem. Quando ela mudou o ângulo, a figura perdeu a cabeça. Mais um movimento, e perdeu os pés. O que restou parecia uma mancha presa entre caminhos.

— Rasgar o bilhete não retirou você da viagem — disse.

César apoiou a nuca na madeira da mesa.

— Essa parte ficou demonstrada.

— Porque o bilhete voltou.

— Também ficou demonstrada.

Helena fechou o caderno.

O impacto fez todos os compartimentos de latão vibrarem uma vez. Nenhum abriu.

— Você ofereceu uma coisa que não lhe foi pedida.

— Minha vida? Desculpa se pareceu pouco.

— Pareceu fácil.

César soltou uma risada curta. O ferimento a interrompeu. Ele pressionou a lateral do corpo, respirou pela boca e esperou a contração passar.

— Fácil.

Helena não retirou a palavra.

— Você decidiu morrer antes de dizer por que entrou neste trem.

O rosto dele se aquietou.

Daniel virou o bilhete para cima. O nome CÉSAR MORAES estava legível. Abaixo, as outras linhas pareciam cobertas por uma película escura que se movia quando ele tentava fixá-las.

— Ele disse por quê — Lívia falou. — No primeiro vagão.

César olhou para ela depressa demais.

— Exato.

— Disse que queria impedir um assalto.

— Está vendo? A menina presta atenção.

Lívia levou a mão ao bolso, encontrou a fibra cinza e a empurrou de volta. Seu rosto não mudou.

— Você também disse que não sabia como os bilhetes apareciam.

O sorriso de César não chegou a se formar.

Um segundo relógio estalou.

Não rachou. No mostrador vazio surgiu uma marca curta onde estaria o número doze. Apenas uma. Escura, precisa.

Daniel aproximou-se da parede.

— Ele reagiu.

— A quê? — César perguntou. — À acusação de uma adolescente?

A marca começou a clarear.

Lívia observou até ela quase desaparecer.

— Ao que era verdade.

César apoiou a mão na mesa e se levantou. A primeira tentativa não bastou; os dedos escorregaram na madeira. Na segunda, ele usou o joelho e ficou de pé, torto, sem aceitar ajuda.

— Então vamos brincar de interrogatório com relógios mágicos. Parece uma evolução natural da noite.

Helena colocou o manual dentro da mala, mas não fechou os fechos.

— Não é um interrogatório.

— Claro. Num interrogatório, alguém teria a delicadeza de me oferecer uma cadeira.

— Você estava sentado.

— No chão.

— Por escolha.

Ele abriu os braços, um gesto rápido que puxou o ferimento e terminou antes da metade.

— Tudo por escolha. Esse é o tema agora?

Helena o encarou.

A autoridade dela não veio da postura nem da voz. Veio da mão esquerda, aberta ao lado do corpo, com a cicatriz no polegar e vestígios do sangue dele presos sob duas unhas. A mesma mão cuja memória ele invadira no hospital.

— Você encostou em mim — disse.

César parou de procurar resposta nas paredes.

— Eu lembro do que aconteceu antes. Marina. O ferimento passando. Você se oferecendo. Depois existe um espaço. Não escuro. Não confuso. Limpo demais. E, quando volto, aceito uma cama como causa para isto.

Ela apontou para a lateral dele.

O primeiro relógio rachado ganhou uma marca no alto do mostrador.

Helena continuou:

— Você não apagou minha memória porque queria me poupar.

— Nunca disse que queria.

— Apagou para testar se conseguia.

César olhou para Daniel.

— Isso eu já admiti.

— Admitiu que queria testar em alguém vivo — Daniel disse. — “Não morto há quinze anos.”

A frase retornou ao vagão com a voz de César, reproduzida por algum lugar atrás dos relógios. Não era uma gravação perfeita. Faltavam respirações; sobrava um ruído de papel amassado.

NÃO MORTO HÁ QUINZE ANOS.

Três mostradores receberam a marca doze ao mesmo tempo.

César acompanhou o aparecimento. Seu maxilar se moveu sem palavra.

— Você precisava saber se funcionava antes de chegar ao seu momento — Daniel disse.

— Todo mundo aqui testou o que podia fazer.

— Em si mesmo — Helena respondeu.

Ele virou para ela.

— Daniel entrou numa cozinha que podia fechar sobre todos nós. A garota escondeu um futuro em que você morria. Você passou um ferimento para mim sem saber se eu ia sobreviver.

— Você se ofereceu.

— E depois resolveu que isso me torna material de laboratório para sempre?

As palavras vieram mais altas. Os relógios reagiram de maneira diferente: as marcas recém-formadas tremeram, mas não sumiram. Uma tampa de latão abriu no corredor e fechou no mesmo instante, como uma boca desistindo de falar.

Helena esperou que o ar saísse dos pulmões dele.

— Não — disse. — Impede apenas que você use o que fizemos para evitar responder.

César passou a mão pelos cabelos. Os dedos ficaram presos num ponto e puxaram com força demais. Alguns fios se soltaram, retidos entre as articulações. Ele os viu, amassou-os na palma e guardou a mão no bolso.

— Responder o quê, exatamente?

Daniel ergueu o bilhete.

— Quem você queria apagar.

O vagão ficou imóvel.

Não silencioso. Imóvel.

A vibração sob o piso cessou. A etiqueta no punho de César parou no ar antes de completar o balanço. A ponta da camisa de Lívia, movida por uma corrente que ninguém sentia, caiu reta. Até a fumaça antiga pareceu perder o cheiro por alguns segundos.

César fitou Daniel.

— Você está supondo.

— Estou.

— Então suponha melhor.

— Você não queria impedir o assalto.

— Eu estava lá.

— Isso não responde.

— Meu irmão morreu naquela noite.

A última frase fez surgir uma segunda marca em dois relógios, no lugar correspondente ao número um. Em outro mostrador, nada apareceu.

Daniel percebeu a diferença.

— Seu irmão morreu — disse. — Mas não era por ele que você veio.

César avançou.

A distância entre os dois desapareceu em três passos irregulares. Ele parou perto demais, o hálito curto, uma das mãos ainda escondida no bolso.

— Não fala dele.

Daniel não recuou.

— Então fale você.

— Não tem nada para contar.

A marca doze apagou-se de cinco relógios.

Lívia ergueu a cabeça.

— Tem.

César voltou-se para ela. A agressividade encontrou o rosto de quatorze anos e perdeu parte da força antes de chegar.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Eu sei quando uma imagem fica faltando.

Ela tirou do bolso a fibra cinza. Segurou-a entre as pontas dos dedos, observando um vestígio de uma lembrança que conhecia apenas pelo que Daniel contara.

— A gente percebe pelo espaço em volta.

César olhou para o fio. Depois para Daniel. A proximidade entre os dois homens tornou-se constrangedora, e foi César quem se afastou primeiro.

Um dos retângulos de ferro no piso afundou sozinho.

Não aquele em que César estivera. Outro, diante da porta.

Sobre ele, o pó se moveu e desenhou duas pegadas menores que as de César. Sapatos femininos, sola estreita, o calcanhar direito gasto para fora.

Todos olharam.

César perdeu cor.

As pegadas avançaram um passo. O ferro rangia sob um peso que não estava ali.

— Quem é ela? — Helena perguntou.

— Não é ninguém.

As marcas doze desapareceram dos relógios restantes.

As pegadas continuaram até a porta e pararam diante da ranhura.

Helena não desviou os olhos delas.

— Você calculou a distância até as testemunhas quando apagou minha memória.

César puxou a mão do bolso. Os fios de cabelo amassados caíram entre seus pés.

— O quê?

— No hospital. Antes de tocar minha testa. Você olhou para Daniel, para mim, para a garota. Mediu quem podia ver.

— Eu estava sangrando.

— E calculou mesmo assim.

Um relógio no fim da fileira recebeu uma marca no alto.

Helena indicou as pegadas.

— Não foi a primeira vez.

César esfregou a etiqueta com o próprio nome entre o polegar e o indicador. O sangue seco tornou o tecido rígido. A borda abriu um pequeno corte, mas ele continuou.

— Vocês querem uma vilã com sapato gasto. O trem desenhou e pronto. Agora ela existe.

— Você reconheceu o passo — Lívia disse.

— Não reconheci nada.

As pegadas se apagaram da frente para trás. Quando a última sumiu, um compartimento de latão abriu-se no corredor.

Dentro havia um par de óculos de armação fina.

Uma haste estava torta.

César parou de esfregar a etiqueta.

Daniel foi em direção ao compartimento. César atravessou o caminho e fechou a tampa com a palma.

O som atingiu o vagão inteiro.

Todos os relógios ganharam uma marca no alto.

Uma só.

O doze.

— Você conhece esses óculos — Daniel disse.

César manteve a mão sobre o latão.

— Já vi muita gente de óculos.

Uma segunda marca tentou aparecer nos mostradores. Falhou.

Helena se aproximou pelo corredor, devagar, deixando espaço suficiente para que ele não pudesse chamar aquilo de ameaça.

— Eu não preciso do nome dela.

— Ótimo.

— Preciso que pare de colocar seu irmão entre você e a resposta.

César virou o rosto.

— Você não sabe o que aconteceu.

— Sei o que fez comigo.

Ele retirou a mão da tampa. A impressão de sua palma permaneceu no metal, escura, e começou a encolher.

— Helena…

— Você tirou de mim uma escolha porque precisava saber se podia tirar de outra pessoa.

— Não foi assim.

— Então diga como foi.

O nome dela na boca dele não produzira marca alguma. A frase de Helena fez aparecer o número um em metade dos relógios.

César encostou o ombro na parede. O ferimento pressionado contra a madeira fez suas narinas se abrirem num reflexo de dor. Não mudou de posição.

— Eu não planejei o assalto.

Uma marca surgiu.

— Não perguntei isso.

— Fui porque ele pediu.

Outra.

— Seu irmão.

— Ele tinha uma dívida.

O número dois apareceu num relógio. Em seguida em outro. As marcas não eram ponteiros; formavam o início de uma escala, um mostrador sendo obrigado a aceitar medida.

César viu.

— Está contente? O circo aprova.

As marcas do número dois começaram a empalidecer.

Ele bateu a nuca uma vez contra a madeira.

— Merda.

Helena parou a um braço de distância.

— Continue.

— Você gosta disso.

— Não.

— Gosta de me ver dizer.

— Eu preferia nunca ter precisado lembrar que você consegue entrar na cabeça de alguém.

A mão de César foi até o próprio rosto. O polegar encostou no meio da testa, no mesmo ponto em que tocara Helena. Ele percebeu o gesto e o interrompeu. Escondeu a mão sob o braço ferido.

— A dívida não era pequena — disse. — Se ele não pagasse, iam atrás da nossa mãe.

Os relógios receberam o número três.

Lívia se moveu junto à mesa. Não se aproximou, apenas mudou de lado para vê-lo sem a mala entre eles.

— E vocês foram roubar o quê?

César olhou para ela.

— Não importa.

O três permaneceu, mas nenhum quatro surgiu.

— Importa para alguém — Lívia disse.

— Dinheiro. Um lugar que fechava tarde. Era para estar vazio.

O quatro apareceu.

A sala devolveu um ruído distante: a campainha de uma porta comercial. Depois o arranhar de uma chave numa fechadura e uma voz feminina dizendo alguma coisa que o espaço não deixou compreender.

César fechou os olhos.

Helena olhou para a tampa com os óculos.

— Não estava vazio.

Ele abriu os olhos, mas não para ela.

— Não.

O cinco surgiu em todos os relógios.

Pela primeira vez, os mostradores formavam uma sequência. Doze, um, dois, três, quatro, cinco. Metade de um círculo. A outra metade continuava sem marcas.

A porta de ferro não se moveu.

Daniel segurava o bilhete recusado entre os dedos. Sob a película escura, uma linha se tornou legível por um instante — não a data, apenas duas palavras: DESEJO ALTERADO. Sumiram antes que ele apontasse.

— Ela viu vocês — disse.

César empurrou a língua contra o interior da bochecha. A pele formou uma saliência junto à boca.

— Viu uma coisa acontecer.

— Viu seu rosto?

— Estava escuro.

Nenhuma marca nova.

— César.

— Eu usava capuz.

O cinco nos relógios rachou ao meio.

Helena não elevou a voz.

— Você testou seu poder em mim para saber se conseguiria apagar uma testemunha viva. Isso é o espaço que falta.

César afastou-se da parede. O movimento foi brusco, e o corpo cobrou: o joelho cedeu, a mão encontrou a tampa do compartimento, os óculos sacudiram lá dentro.

— Você não sabe o que eu ia fazer.

— Então negue.

— Estou negando.

— Não. Está dizendo que eu não sei.

O relógio rachado soltou um fragmento de vidro. Ele caiu no piso sem quebrar, já com a forma de uma pequena seta apontando para César.

Daniel se abaixou e pegou o fragmento.

Na superfície refletida, César não aparecia. Havia apenas uma mulher caída atrás de um balcão, os óculos tortos, uma mão levantada diante do rosto. A imagem durou até Daniel mudar o ângulo.

Ele mostrou o vidro.

César não olhou.

— Ela sobreviveu — Daniel disse.

A sexta marca surgiu.

Não em todos os relógios. Apenas num, diretamente acima de César.

O mostrador daquele relógio agora tinha metade dos números. O ponteiro não apareceu.

— Seu irmão morreu. Ela saiu viva.

— Não fala assim.

— Foi isso que aconteceu?

César segurou a borda do compartimento até os nós dos dedos perderem cor.

— Ele caiu antes de a gente chegar à porta.

O seis apareceu em mais dois relógios.

— Quem atirou?

— Não interessa.

— Para você interessa — Helena disse. — É por isso que trouxe seu irmão até aqui sempre que alguém perguntou pelo resto.

César finalmente olhou para ela.

— Eu o deixei no chão.

A frase não veio alta. Quase se perdeu sob o primeiro tique-taque que o vagão produziu.

Um relógio marcou um segundo.

Parou.

César pareceu não ter ouvido. Continuou:

— A porta dos fundos estava a quatro metros. Eu podia ficar e… não havia o que fazer. Ou podia correr.

O seis completou-se em todos os mostradores.

— Você correu — Lívia disse.

Ele passou a mão pelo maxilar. A unha encontrou uma falha na barba e insistiu nela até a pele avermelhar.

— Eu saí.

— E ela também — Daniel falou.

César olhou para o bilhete recusado.

— Depois.

— Ela depôs?

O humor tentou voltar. Surgiu num sopro pelo nariz, sem sorriso.

— Vocês realmente querem o relatório completo.

Nenhuma marca desapareceu. Nenhuma nova se formou.

Helena abriu a tampa do compartimento.

César não a impediu.

Ela retirou os óculos. A haste torta deixou uma linha de pó no feltro. Helena os segurou pelas laterais, sem tentar endireitar.

— Você se lembra do rosto dela?

A pergunta fez César recuar mais que qualquer acusação.

Seu calcanhar encontrou o retângulo de ferro em que tentara se sacrificar. A placa afundou, mas desta vez não prendeu seus pés. Um relógio ganhou um ponteiro e o recolheu imediatamente.

— Lembro.

— Queria salvá-la do assalto?

Ele ficou quieto.

— Queria impedir que ela estivesse lá?

O silêncio continuou.

Helena ofereceu os óculos. César não os pegou.

— Queria impedir a morte do seu irmão?

— Sim.

Os números seis vacilaram.

Não sumiram. Perderam profundidade, como marcas desenhadas sobre vidro em vez de gravadas nele.

Helena baixou os óculos.

— Isso não é tudo.

César fechou a mão vazia. Abriu. Fechou de novo.

— Ele não devia ter morrido.

— Não.

— Eu podia ter puxado ele.

— Talvez.

— Podia ter ficado.

— Podia.

Cada concordância de Helena retirava uma desculpa que ele parecia ter preparado para combater.

César respirou fundo. O curativo aderiu ao corpo e puxou o tecido da camisa para dentro do ferimento. Ele não o ajustou.

— A polícia encontrou meu sangue — disse. — Tinha câmera na rua. Ruim, mas tinha. E ela…

Parou.

Uma marca apareceu no lugar do sete.

Somente uma.

Lívia fixou os olhos nela. Daniel também.

Helena manteve os óculos entre as mãos.

— Ela o quê?

César olhou para a porta de ferro. Depois para a inscrição. Um passageiro deverá retornar.

O sete escureceu.

— Ela me viu sair.

O tique-taque voltou.

Um relógio. Depois dois. Depois a fileira inteira, dezenas de mecanismos ainda sem ponteiros produzindo segundos que não podiam mostrar.

César cobriu o rosto com as duas mãos. O gesto pressionou a etiqueta de seu nome contra a testa. Quando as retirou, havia uma faixa de sangue seco acima da sobrancelha.

— Viu meu rosto — completou.

O número sete surgiu em todos os mostradores.

A porta não abriu.

Helena aproximou os óculos dele uma última vez.

César os recebeu.

Segurou a armação torta como quem segura algo que ainda pertence a outra pessoa. Não limpou as lentes. Não tentou consertar a haste.

— Qual era o seu verdadeiro destino? — Helena perguntou.

Ele olhou através de uma das lentes. A sala se deformou: Daniel ficou mais estreito, Lívia mais distante, a porta de ferro curvou-se para dentro. No reflexo, atrás deles, uma mulher sem nome aguardava diante de um balcão.

César abriu a boca.

O humor não veio.

A irritação também não.

Restou apenas a frase, presa onde ele ainda conseguia escolher não dizê-la.

— Eu não vim impedir o assalto — falou.

Os relógios marcaram oito.

Ele apertou os óculos até a haste torta entrar na palma.

— Eu vim por quem saiu viva.

A sala inteira produziu um único tique.

Depois esperou.

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