CAPÍTULO 22 — A PESSOA QUE SAIU VIVA
por Sonhado acordadoA porta de ferro continuou fechada.
O bilhete de César permanecia na mão de Daniel, inteiro, com RECUSADO ainda úmido no verso. A tinta não escorria. Afundava no papel aos poucos, atravessando as fibras até a palavra aparecer invertida do outro lado.
César não o pegou.
Sentado no piso, com as costas contra a mesa, observava as próprias mãos como se esperasse encontrar nelas o rasgo que o vagão desfizera. O sangue no curativo tinha alcançado a barra da camisa. A etiqueta com seu nome, presa ao punho, batia de leve no ferro cada vez que o trem mudava de inclinação — embora nenhum deles sentisse curva alguma.
NÃO O CORPO já desaparecera do manual.
Helena mantinha o caderno aberto na página vazia. Passou o dedo sobre o lugar onde as palavras haviam surgido. A superfície ainda estava morna.
— O corpo foi recusado — disse Daniel.
César ergueu os olhos.
— Obrigado pela tradução.
O humor saiu rápido, quase eficiente. A sala não o aceitou.
Um dos relógios sem ponteiros estalou na parede. Uma rachadura fina apareceu no vidro, exatamente no centro, e avançou até a borda. O som não ecoou. Ficou preso dentro do mostrador.
César olhou para ele.
— Está criticando minhas piadas agora?
Outra rachadura começou e parou antes de completar um centímetro.
Lívia estava junto ao compartimento que devolvera o bilhete. A tampa de latão continuava aberta, revelando um interior revestido de feltro preto. Ela aproximou a mão, mas não tocou. A fibra cinza guardada no bolso de seu casaco escapava pela abertura como uma linha solta.
Daniel viu o fio. Depois olhou para a distância entre os dois.
— Não o corpo — Lívia repetiu. — Então o quê?
Ninguém respondeu.
Helena inclinou o manual. Símbolos apareceram por um instante: uma figura diante de duas linhas, uma seguindo em frente, outra retornando ao ponto de origem. Quando ela mudou o ângulo, a figura perdeu a cabeça. Mais um movimento, e perdeu os pés. O que restou parecia uma mancha presa entre caminhos.
— Rasgar o bilhete não retirou você da viagem — disse.
César apoiou a nuca na madeira da mesa.
— Essa parte ficou demonstrada.
— Porque o bilhete voltou.
— Também ficou demonstrada.
Helena fechou o caderno.
O impacto fez todos os compartimentos de latão vibrarem uma vez. Nenhum abriu.
— Você ofereceu uma coisa que não lhe foi pedida.
— Minha vida? Desculpa se pareceu pouco.
— Pareceu fácil.
César soltou uma risada curta. O ferimento a interrompeu. Ele pressionou a lateral do corpo, respirou pela boca e esperou a contração passar.
— Fácil.
Helena não retirou a palavra.
— Você decidiu morrer antes de dizer por que entrou neste trem.
O rosto dele se aquietou.
Daniel virou o bilhete para cima. O nome CÉSAR MORAES estava legível. Abaixo, as outras linhas pareciam cobertas por uma película escura que se movia quando ele tentava fixá-las.
— Ele disse por quê — Lívia falou. — No primeiro vagão.
César olhou para ela depressa demais.
— Exato.
— Disse que queria impedir um assalto.
— Está vendo? A menina presta atenção.
Lívia levou a mão ao bolso, encontrou a fibra cinza e a empurrou de volta. Seu rosto não mudou.
— Você também disse que não sabia como os bilhetes apareciam.
O sorriso de César não chegou a se formar.
Um segundo relógio estalou.
Não rachou. No mostrador vazio surgiu uma marca curta onde estaria o número doze. Apenas uma. Escura, precisa.
Daniel aproximou-se da parede.
— Ele reagiu.
— A quê? — César perguntou. — À acusação de uma adolescente?
A marca começou a clarear.
Lívia observou até ela quase desaparecer.
— Ao que era verdade.
César apoiou a mão na mesa e se levantou. A primeira tentativa não bastou; os dedos escorregaram na madeira. Na segunda, ele usou o joelho e ficou de pé, torto, sem aceitar ajuda.
— Então vamos brincar de interrogatório com relógios mágicos. Parece uma evolução natural da noite.
Helena colocou o manual dentro da mala, mas não fechou os fechos.
— Não é um interrogatório.
— Claro. Num interrogatório, alguém teria a delicadeza de me oferecer uma cadeira.
— Você estava sentado.
— No chão.
— Por escolha.
Ele abriu os braços, um gesto rápido que puxou o ferimento e terminou antes da metade.
— Tudo por escolha. Esse é o tema agora?
Helena o encarou.
A autoridade dela não veio da postura nem da voz. Veio da mão esquerda, aberta ao lado do corpo, com a cicatriz no polegar e vestígios do sangue dele presos sob duas unhas. A mesma mão cuja memória ele invadira no hospital.
— Você encostou em mim — disse.
César parou de procurar resposta nas paredes.
— Eu lembro do que aconteceu antes. Marina. O ferimento passando. Você se oferecendo. Depois existe um espaço. Não escuro. Não confuso. Limpo demais. E, quando volto, aceito uma cama como causa para isto.
Ela apontou para a lateral dele.
O primeiro relógio rachado ganhou uma marca no alto do mostrador.
Helena continuou:
— Você não apagou minha memória porque queria me poupar.
— Nunca disse que queria.
— Apagou para testar se conseguia.
César olhou para Daniel.
— Isso eu já admiti.
— Admitiu que queria testar em alguém vivo — Daniel disse. — “Não morto há quinze anos.”
A frase retornou ao vagão com a voz de César, reproduzida por algum lugar atrás dos relógios. Não era uma gravação perfeita. Faltavam respirações; sobrava um ruído de papel amassado.
NÃO MORTO HÁ QUINZE ANOS.
Três mostradores receberam a marca doze ao mesmo tempo.
César acompanhou o aparecimento. Seu maxilar se moveu sem palavra.
— Você precisava saber se funcionava antes de chegar ao seu momento — Daniel disse.
— Todo mundo aqui testou o que podia fazer.
— Em si mesmo — Helena respondeu.
Ele virou para ela.
— Daniel entrou numa cozinha que podia fechar sobre todos nós. A garota escondeu um futuro em que você morria. Você passou um ferimento para mim sem saber se eu ia sobreviver.
— Você se ofereceu.
— E depois resolveu que isso me torna material de laboratório para sempre?
As palavras vieram mais altas. Os relógios reagiram de maneira diferente: as marcas recém-formadas tremeram, mas não sumiram. Uma tampa de latão abriu no corredor e fechou no mesmo instante, como uma boca desistindo de falar.
Helena esperou que o ar saísse dos pulmões dele.
— Não — disse. — Impede apenas que você use o que fizemos para evitar responder.
César passou a mão pelos cabelos. Os dedos ficaram presos num ponto e puxaram com força demais. Alguns fios se soltaram, retidos entre as articulações. Ele os viu, amassou-os na palma e guardou a mão no bolso.
— Responder o quê, exatamente?
Daniel ergueu o bilhete.
— Quem você queria apagar.
O vagão ficou imóvel.
Não silencioso. Imóvel.
A vibração sob o piso cessou. A etiqueta no punho de César parou no ar antes de completar o balanço. A ponta da camisa de Lívia, movida por uma corrente que ninguém sentia, caiu reta. Até a fumaça antiga pareceu perder o cheiro por alguns segundos.
César fitou Daniel.
— Você está supondo.
— Estou.
— Então suponha melhor.
— Você não queria impedir o assalto.
— Eu estava lá.
— Isso não responde.
— Meu irmão morreu naquela noite.
A última frase fez surgir uma segunda marca em dois relógios, no lugar correspondente ao número um. Em outro mostrador, nada apareceu.
Daniel percebeu a diferença.
— Seu irmão morreu — disse. — Mas não era por ele que você veio.
César avançou.
A distância entre os dois desapareceu em três passos irregulares. Ele parou perto demais, o hálito curto, uma das mãos ainda escondida no bolso.
— Não fala dele.
Daniel não recuou.
— Então fale você.
— Não tem nada para contar.
A marca doze apagou-se de cinco relógios.
Lívia ergueu a cabeça.
— Tem.
César voltou-se para ela. A agressividade encontrou o rosto de quatorze anos e perdeu parte da força antes de chegar.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Eu sei quando uma imagem fica faltando.
Ela tirou do bolso a fibra cinza. Segurou-a entre as pontas dos dedos, observando um vestígio de uma lembrança que conhecia apenas pelo que Daniel contara.
— A gente percebe pelo espaço em volta.
César olhou para o fio. Depois para Daniel. A proximidade entre os dois homens tornou-se constrangedora, e foi César quem se afastou primeiro.
Um dos retângulos de ferro no piso afundou sozinho.
Não aquele em que César estivera. Outro, diante da porta.
Sobre ele, o pó se moveu e desenhou duas pegadas menores que as de César. Sapatos femininos, sola estreita, o calcanhar direito gasto para fora.
Todos olharam.
César perdeu cor.
As pegadas avançaram um passo. O ferro rangia sob um peso que não estava ali.
— Quem é ela? — Helena perguntou.
— Não é ninguém.
As marcas doze desapareceram dos relógios restantes.
As pegadas continuaram até a porta e pararam diante da ranhura.
Helena não desviou os olhos delas.
— Você calculou a distância até as testemunhas quando apagou minha memória.
César puxou a mão do bolso. Os fios de cabelo amassados caíram entre seus pés.
— O quê?
— No hospital. Antes de tocar minha testa. Você olhou para Daniel, para mim, para a garota. Mediu quem podia ver.
— Eu estava sangrando.
— E calculou mesmo assim.
Um relógio no fim da fileira recebeu uma marca no alto.
Helena indicou as pegadas.
— Não foi a primeira vez.
César esfregou a etiqueta com o próprio nome entre o polegar e o indicador. O sangue seco tornou o tecido rígido. A borda abriu um pequeno corte, mas ele continuou.
— Vocês querem uma vilã com sapato gasto. O trem desenhou e pronto. Agora ela existe.
— Você reconheceu o passo — Lívia disse.
— Não reconheci nada.
As pegadas se apagaram da frente para trás. Quando a última sumiu, um compartimento de latão abriu-se no corredor.
Dentro havia um par de óculos de armação fina.
Uma haste estava torta.
César parou de esfregar a etiqueta.
Daniel foi em direção ao compartimento. César atravessou o caminho e fechou a tampa com a palma.
O som atingiu o vagão inteiro.
Todos os relógios ganharam uma marca no alto.
Uma só.
O doze.
— Você conhece esses óculos — Daniel disse.
César manteve a mão sobre o latão.
— Já vi muita gente de óculos.
Uma segunda marca tentou aparecer nos mostradores. Falhou.
Helena se aproximou pelo corredor, devagar, deixando espaço suficiente para que ele não pudesse chamar aquilo de ameaça.
— Eu não preciso do nome dela.
— Ótimo.
— Preciso que pare de colocar seu irmão entre você e a resposta.
César virou o rosto.
— Você não sabe o que aconteceu.
— Sei o que fez comigo.
Ele retirou a mão da tampa. A impressão de sua palma permaneceu no metal, escura, e começou a encolher.
— Helena…
— Você tirou de mim uma escolha porque precisava saber se podia tirar de outra pessoa.
— Não foi assim.
— Então diga como foi.
O nome dela na boca dele não produzira marca alguma. A frase de Helena fez aparecer o número um em metade dos relógios.
César encostou o ombro na parede. O ferimento pressionado contra a madeira fez suas narinas se abrirem num reflexo de dor. Não mudou de posição.
— Eu não planejei o assalto.
Uma marca surgiu.
— Não perguntei isso.
— Fui porque ele pediu.
Outra.
— Seu irmão.
— Ele tinha uma dívida.
O número dois apareceu num relógio. Em seguida em outro. As marcas não eram ponteiros; formavam o início de uma escala, um mostrador sendo obrigado a aceitar medida.
César viu.
— Está contente? O circo aprova.
As marcas do número dois começaram a empalidecer.
Ele bateu a nuca uma vez contra a madeira.
— Merda.
Helena parou a um braço de distância.
— Continue.
— Você gosta disso.
— Não.
— Gosta de me ver dizer.
— Eu preferia nunca ter precisado lembrar que você consegue entrar na cabeça de alguém.
A mão de César foi até o próprio rosto. O polegar encostou no meio da testa, no mesmo ponto em que tocara Helena. Ele percebeu o gesto e o interrompeu. Escondeu a mão sob o braço ferido.
— A dívida não era pequena — disse. — Se ele não pagasse, iam atrás da nossa mãe.
Os relógios receberam o número três.
Lívia se moveu junto à mesa. Não se aproximou, apenas mudou de lado para vê-lo sem a mala entre eles.
— E vocês foram roubar o quê?
César olhou para ela.
— Não importa.
O três permaneceu, mas nenhum quatro surgiu.
— Importa para alguém — Lívia disse.
— Dinheiro. Um lugar que fechava tarde. Era para estar vazio.
O quatro apareceu.
A sala devolveu um ruído distante: a campainha de uma porta comercial. Depois o arranhar de uma chave numa fechadura e uma voz feminina dizendo alguma coisa que o espaço não deixou compreender.
César fechou os olhos.
Helena olhou para a tampa com os óculos.
— Não estava vazio.
Ele abriu os olhos, mas não para ela.
— Não.
O cinco surgiu em todos os relógios.
Pela primeira vez, os mostradores formavam uma sequência. Doze, um, dois, três, quatro, cinco. Metade de um círculo. A outra metade continuava sem marcas.
A porta de ferro não se moveu.
Daniel segurava o bilhete recusado entre os dedos. Sob a película escura, uma linha se tornou legível por um instante — não a data, apenas duas palavras: DESEJO ALTERADO. Sumiram antes que ele apontasse.
— Ela viu vocês — disse.
César empurrou a língua contra o interior da bochecha. A pele formou uma saliência junto à boca.
— Viu uma coisa acontecer.
— Viu seu rosto?
— Estava escuro.
Nenhuma marca nova.
— César.
— Eu usava capuz.
O cinco nos relógios rachou ao meio.
Helena não elevou a voz.
— Você testou seu poder em mim para saber se conseguiria apagar uma testemunha viva. Isso é o espaço que falta.
César afastou-se da parede. O movimento foi brusco, e o corpo cobrou: o joelho cedeu, a mão encontrou a tampa do compartimento, os óculos sacudiram lá dentro.
— Você não sabe o que eu ia fazer.
— Então negue.
— Estou negando.
— Não. Está dizendo que eu não sei.
O relógio rachado soltou um fragmento de vidro. Ele caiu no piso sem quebrar, já com a forma de uma pequena seta apontando para César.
Daniel se abaixou e pegou o fragmento.
Na superfície refletida, César não aparecia. Havia apenas uma mulher caída atrás de um balcão, os óculos tortos, uma mão levantada diante do rosto. A imagem durou até Daniel mudar o ângulo.
Ele mostrou o vidro.
César não olhou.
— Ela sobreviveu — Daniel disse.
A sexta marca surgiu.
Não em todos os relógios. Apenas num, diretamente acima de César.
O mostrador daquele relógio agora tinha metade dos números. O ponteiro não apareceu.
— Seu irmão morreu. Ela saiu viva.
— Não fala assim.
— Foi isso que aconteceu?
César segurou a borda do compartimento até os nós dos dedos perderem cor.
— Ele caiu antes de a gente chegar à porta.
O seis apareceu em mais dois relógios.
— Quem atirou?
— Não interessa.
— Para você interessa — Helena disse. — É por isso que trouxe seu irmão até aqui sempre que alguém perguntou pelo resto.
César finalmente olhou para ela.
— Eu o deixei no chão.
A frase não veio alta. Quase se perdeu sob o primeiro tique-taque que o vagão produziu.
Um relógio marcou um segundo.
Parou.
César pareceu não ter ouvido. Continuou:
— A porta dos fundos estava a quatro metros. Eu podia ficar e… não havia o que fazer. Ou podia correr.
O seis completou-se em todos os mostradores.
— Você correu — Lívia disse.
Ele passou a mão pelo maxilar. A unha encontrou uma falha na barba e insistiu nela até a pele avermelhar.
— Eu saí.
— E ela também — Daniel falou.
César olhou para o bilhete recusado.
— Depois.
— Ela depôs?
O humor tentou voltar. Surgiu num sopro pelo nariz, sem sorriso.
— Vocês realmente querem o relatório completo.
Nenhuma marca desapareceu. Nenhuma nova se formou.
Helena abriu a tampa do compartimento.
César não a impediu.
Ela retirou os óculos. A haste torta deixou uma linha de pó no feltro. Helena os segurou pelas laterais, sem tentar endireitar.
— Você se lembra do rosto dela?
A pergunta fez César recuar mais que qualquer acusação.
Seu calcanhar encontrou o retângulo de ferro em que tentara se sacrificar. A placa afundou, mas desta vez não prendeu seus pés. Um relógio ganhou um ponteiro e o recolheu imediatamente.
— Lembro.
— Queria salvá-la do assalto?
Ele ficou quieto.
— Queria impedir que ela estivesse lá?
O silêncio continuou.
Helena ofereceu os óculos. César não os pegou.
— Queria impedir a morte do seu irmão?
— Sim.
Os números seis vacilaram.
Não sumiram. Perderam profundidade, como marcas desenhadas sobre vidro em vez de gravadas nele.
Helena baixou os óculos.
— Isso não é tudo.
César fechou a mão vazia. Abriu. Fechou de novo.
— Ele não devia ter morrido.
— Não.
— Eu podia ter puxado ele.
— Talvez.
— Podia ter ficado.
— Podia.
Cada concordância de Helena retirava uma desculpa que ele parecia ter preparado para combater.
César respirou fundo. O curativo aderiu ao corpo e puxou o tecido da camisa para dentro do ferimento. Ele não o ajustou.
— A polícia encontrou meu sangue — disse. — Tinha câmera na rua. Ruim, mas tinha. E ela…
Parou.
Uma marca apareceu no lugar do sete.
Somente uma.
Lívia fixou os olhos nela. Daniel também.
Helena manteve os óculos entre as mãos.
— Ela o quê?
César olhou para a porta de ferro. Depois para a inscrição. Um passageiro deverá retornar.
O sete escureceu.
— Ela me viu sair.
O tique-taque voltou.
Um relógio. Depois dois. Depois a fileira inteira, dezenas de mecanismos ainda sem ponteiros produzindo segundos que não podiam mostrar.
César cobriu o rosto com as duas mãos. O gesto pressionou a etiqueta de seu nome contra a testa. Quando as retirou, havia uma faixa de sangue seco acima da sobrancelha.
— Viu meu rosto — completou.
O número sete surgiu em todos os mostradores.
A porta não abriu.
Helena aproximou os óculos dele uma última vez.
César os recebeu.
Segurou a armação torta como quem segura algo que ainda pertence a outra pessoa. Não limpou as lentes. Não tentou consertar a haste.
— Qual era o seu verdadeiro destino? — Helena perguntou.
Ele olhou através de uma das lentes. A sala se deformou: Daniel ficou mais estreito, Lívia mais distante, a porta de ferro curvou-se para dentro. No reflexo, atrás deles, uma mulher sem nome aguardava diante de um balcão.
César abriu a boca.
O humor não veio.
A irritação também não.
Restou apenas a frase, presa onde ele ainda conseguia escolher não dizê-la.
— Eu não vim impedir o assalto — falou.
Os relógios marcaram oito.
Ele apertou os óculos até a haste torta entrar na palma.
— Eu vim por quem saiu viva.
A sala inteira produziu um único tique.
Depois esperou.
O que você achou deste capítulo?
para reagir.


— Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
— Evite spoilers do capítulo ou da história.
— Comentários ofensivos serão removidos.
Use os comentários para conversar sobre a leitura sem estragar a experiência de quem ainda está acompanhando.